Economia do Indivíduo: o legado da Escola Austríaca Capítulo III ludwig von mises 4 liberalismo e religiãO



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Economia do Indivíduo: O Legado da Escola Austríaca

Capítulo III - LUDWIG VON MISES - 4 LIBERALISMO E RELIGIÃO

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LIBERALISMO E RELIGIÃO



 

"O resultado final da disputa entre liberalismo e totalitarismo não será decidido pelas armas, mas por ideias." - Ludwig von Mises

O liberalismo trata dos aspectos mundanos não por desprezo aos bens espirituais, mas por convicção de que as mais elevadas e profundas demandas do espírito não podem ser tratadas pela regulação de qualquer força exógena.  Elas partem de dentro de cada indivíduo.  Mesmo os que abraçam um ideal de vida ascético, fazendo até mesmo voto de pobreza e pregando o desapego material como ideal de vida, não podem rejeitar o liberalismo por objetivar o bem-estar material dos demais que não concordem com tais estilos de vida.  A busca pelo prazer material destes não atrapalha em nada a escolha pela vida humilde daqueles.


Os liberais, como explica Mises em Liberalism, estão cientes que os homens agem de forma não razoável de vez em quando.  Se os homens sempre agissem de forma razoável, seria supérfluo exortá-los a serem guiados pela razão.  O liberalismo não diz que os homens sempre agem de forma inteligente, mas sim que eles deveriam agir pela compreensão inteligente de seus próprios interesses.  A essência do liberalismo seria, segundo Mises, essa vontade de conceder à razão na esfera da política social a mesma aceitação concedida às demais esferas da ação humana.  Nosso poder de compreensão é bastante limitado, mas tudo que o homem é e o coloca acima dos se deve à sua razão.  Por que então abdicar do uso da razão justamente na esfera da política social e confiar em sentimentos ou impulsos vagos e obscuros?


O campo de preocupação do liberalismo é totalmente restrito aos aspectos da vida nesse mundo.  O reino da religião, por outro lado, não é deste mundo.  Portanto, o liberalismo e a religião podem ambos existir lado a lado sem que suas esferas se toquem.  Se chegarem ao ponto de colisão, não será por culpa do liberalismo, já que este não pretende transgredir sua própria esfera.  Ele não invade o domínio da fé religiosa ou da doutrina metafísica.  Entretanto, ele pode encontrar a Igreja como uma força política demandando o direito de regular de acordo com seu julgamento não apenas da relação do homem com o Além, mas também aspectos do mundo real.  Quando este ponto é atingido, as linhas que demarcam os territórios precisam ser traçadas.


A vitória do liberalismo, conforme Mises, foi tão avassaladora que a Igreja teve que desistir definitivamente de reclames mantidos por séculos.  Os heréticos queimados em fogueiras, as perseguições da Inquisição, as guerras religiosas, tudo passou a pertencer ao passado depois que o liberalismo deu o ar de sua graça.  Ninguém compreende, hoje, como um homem poderia ser levado diante de julgamento apenas por praticar uma devoção que considerava correta entre quatro paredes de sua própria casa.  E vários ainda foram torturados ou mortos por conta disso! Ainda assim, uma razoável magnitude de intolerância perdura.  E o liberalismo deve ser intolerante com todo tipo de intolerância.  Como dizia Sir Karl Popper, "não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância".  A cooperação pacífica e voluntária entre os homens não deve ser perturbada por fanáticos religiosos.


O liberalismo proclama a tolerância com toda fé religiosa ou crença metafísica, pela convicção de que esse é o único meio de se manter a paz.  E porque defende a tolerância com todas as opiniões de todas as igrejas e cultos, deve lembrar sempre os limites dessas crenças e evitar que avancem na esfera desse mundo com intolerância aos que não compartilham da mesma fé.  Eis um princípio básico de um estado laico que separa a religião dos assuntos do governo como apregoado pelos "pais fundadores" dos Estados Unidos.  Vale lembrar que Thomas Paine afirmou que "é um grande perigo para a sociedade uma religião tomar partido em disputas políticas", exortando seus concidadãos a "desprezar e reprovar" a mistura entre ambas. 


Mises considera difícil entender porque os princípios de tolerância do liberalismo fazem inimigos entre os adeptos de diferentes tipos de fé religiosa.  Se por um lado não se permite a conversão de crentes pela coerção, por outro lado se protege cada credo do proselitismo coercitivo de outras seitas.  O liberalismo não tira nada da fé que pertença à sua esfera adequada.  No fundo, as próprias seitas religiosas costumam pregar a tolerância, mas apenas quando são minoritárias.  Trata-se de uma estratégia de sobrevivência.  Uma vez assumida a posição majoritária na sociedade, costuma ser intolerante com as demais seitas.  Não gosta de competição.  A tolerância defendida pelo liberalismo não tem caráter oportunista.  Ela é calcada em princípios e aceita as mais absurdas crenças, por mais heterodoxas que sejam e, inclusive, todo tipo de superstição tola.  Somente a tolerância pode criar e preservar as condições da paz social sem a qual a humanidade iria retornar à barbárie e penúria de séculos atrás.


Ludwig von Mises resume o tema de forma muito objetiva.  "Contra aquilo que é estúpido, sem sentido, errôneo e mal, o liberalismo luta com suas armas da mente, e não com a força bruta e repressão." O liberalismo tolera todo tipo de religião enquanto esta ficar restrita a seu campo adequado de atuação.  Que toda religião tolere o liberalismo também!



 


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Capítulo III - LUDWIG VON MISES - 5 A MENTALIDADE ANTICAPITALISTA 

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Rodrigo Constantino é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand", "Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo - o legado da Escola Austríaca".


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