Economia ciência dos interesses passionais: Uma introdução à antropologia econômica de Gabriel Tarde



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Economia ciência dos interesses passionais:

Uma introdução à antropologia econômica de Gabriel Tarde.
Bruno Latour & Vincet Antonin Lépinay

A tendência de matematizar a ciência econômica e a tendência de psicologizá-la, longe de serem irreconciliáveis, devem antes, a nosso ver, se prestar mútuo apoio.


A doutrina do laissez-faire tem então a maior afinidade com a da sociedade-organismo, e os ataques dirigidos contra aquela atingem essa por reflexo.

Gabriel Tarde1


Suponhamos que Karl Marx tivesse publicado Das Kapital e que ninguém tivesse lhe dado atenção. Um século depois o livro seria redescoberto, e ficaríamos estupefatos diante da amplitude e audácia de uma obra isolada, incompreendida, sem impacto científico, político, social; uma obra que não teria produzido nem discípulos nem exegese; que não teria sido transformada por nenhuma tentativa, mais ou menos infeliz, de aplicação. Como a história do século XX teria sido diferente se o breviário dos homens de ação tivesse sido o livro de Tarde, Phychologie économique, publicado em 1902, no lugar da obra de Marx! Mas, talvez não seja tarde demais para reinventar, por meio de um pequeno ensaio de ficção histórica, uma teoria de economia política na qual Tarde interpretaria o papel, que no curso da história verdadeira, foi ocupado por Marx.

A primeira vista, parece difícil levar a sério as divagações de um sociólogo sem descendência, que trata das conversas entre curiosos como um verdadeiro “fator de produção”; que nega o papel central atribuído ao triste trabalho; que distingue na noção de capital, o “germe” ou “semente”2 (o softwere), do “cotilédone” (o hardwere), em benefício do primeiro; que observa com a mesma seriedade a flutuação do preço do pão e as variações no prestigio dos políticos eleitos, por meio de instrumentos que ele denomina “gloriometros”; que toma como exemplo típico de produção não, como todos os demais, uma boa fábrica de agulhas, mas sim a indústria do livro, prestando atenção não apenas na difusão dos livros em si mesmos, mas também das ideias contidas em suas páginas; que trata da questão do biopoder como se a economia e a ecologia já estivessem entrelaçadas; que passa sem dificuldade de Darwin à Marx , de Adam Smith à Antoine-Augustin Cournot, sem acreditar, por um só segundo, nas divisões tradicionais da ciência econômica; que se interessa pelo luxo, pelas modas, pelo consumo, pela qualidade, pela rotulação, pelo lazer tanto quanto pela indústria militar e pela colonização; que não cessa de tomar seus exemplos no mercado da arte, na difusão de ideias filosóficas, na moral, no direito, como se todos fossem igualmente computados na produção da riqueza; que faz da ciência, da inovação, dos inovadores, e até mesmo da própria ociosidade, fundamento da atividade econômica; que gasta um tempo considerável seguindo os trilhos de ferrovias, os fios do telégrafo, os anúncios da imprensa, o crescimento do turismo; que, sobretudo, não acredita na existência do capitalismo, não vê no século XIX a ascensão aterrorizante do cálculo frio e do reino da mercadoria, mas, ao contrário, que define a extensão dos mercados conforme a das paixões; que parabeniza os socialistas por terem inventado novas febres de associação e organização. É este velho reacionário que gostaríamos de tornar mais uma vez relevante? É essa peça de arqueologia econômica que gostaríamos fazer novamente reluzir?

Perfeitamente. Tenhamos a honestidade para reconhecer que a leitura de Das Kapital pareceria bastante turbulenta se não tivéssemos nos beneficiado de mais de um século de comentários. Tudo parecerá estranho na economia de Tarde, mas talvez apenas porque tudo seja novo, isso, pelo menos, é o que esperamos mostrar. Escrito no coração da primeira grande era da globalização, lutando com todas as inovações tecnológicas da época, capturado pelo problema moral e político da luta de classes, profundamente envolvido na bio-sociologia, fundado sobre métodos quantitativos que naquele momento poderiam apenas ser sonhados, mas que se tornaram hoje disponíveis graças à extensão das técnicas de digitalização, é porque ele parece recém-saído da impressão, que nós o apresentamos, um século depois, em meio a outra globalização, em plena crise moral, social, financeira3, política e ecológica. Nós não apresentamos este apax como simples curiosidade para os interesses dos historiadores da economia, mais como um documento essencial para recuperar de maneira diferente nosso passado e, por conseguinte, definir de maneira diferente nosso futuro.4

Nós primeiro pensamos em republicar os dois grandes volumes da Phychologie économique, mas fomos capturados pela evolução relâmpago do mercado de livros – uma evolução, em si mesma, perfeitamente tardiana. Posto que a obra original é acessível em formato de imagem no website da Gallica (http://gallica.bnf.fr/) e em formato de texto (Word ou PDF) no excelente website canadense « Les classiques des sciences sociales » (http://classiques.uqac.ca/), não faria muito sentido publicá-las em sua integridade e a um custo proibitivo5. Nós então decidimos publicar essa introdução à parte, com citações relativamente longas, para provocar nos leitores o desejo de mergulhar na versão digital do texto francês. Além disso, para poupar os leitores relutantes à leitura na tela do computador e que temem danificar sua impressora imprimindo os dois enormes volumes, nós adicionamos no website uma seleção de textos que nos parece melhor ilustrar a importância da obra6.

A questão que Tarde se coloca é muito simples: a que corresponde a surpreendente noção de economia política surgida no século XVIII e que não para de ganhar amplitude no século seguinte? Para ele as ideias conduzem o mundo e mais particularmente as ideias que os economistas assumem como matéria própria de sua disciplina... A que estranha ideia de ciência e política isso corresponde? Por isso, são as ideias, opiniões, argumentos que primeiro se invertem, para compreender a transformação que Tarde faz surgir na teoria da economia política: Sim! Para ele a superestrutura determina “em primeira e última instância” as infraestruturas, que de fato, como veremos, nem existem... Estranho revolucionário, pode se dizer, esse materialista ateu que, cem anos antes da antropologia dos mercados, detecta no materialismo ateu dos economistas de seu tempo, tanto de esquerda como de direita, uma forma particularmente perversa de Deus escondida. Tarde critica de fato todos estes para os quais somente uma providência miraculosa parece capaz de produzir automaticamente, com mão invisível ou visível7, a harmonia preestabelecida, do Mercado ou do Estado, pouco lhe importa, pois a seus olhos, os inventores da economia política estão de acordo sobre quase tudo, a começar pela existência da economia como domínio próprio. Ora, é isso justamente o que Tarde contesta.

Esse revolucionário solitário8 sem organização, sem partido, sem sucessor e quase sem predecessor, se pergunta o que aconteceria se nós fossemos verdadeiramente descrentes, agnósticos em matéria econômica. “E se de fato não houvesse nenhuma divindade regente na economia?”, se pergunta ele, no fundo. Se aceitarmos definitivamente implantar essa imanência sem transcendência nenhuma, não poderíamos de novo fazer política? Essa política que os seguidores de Mammon, deus da Providência e da Harmonia automática, e os do Estado nos proibiram a tanto tempo de praticar – sim, essa política da liberdade. Liberalismo então? Por que deveríamos ter medo de usar essa palavra, contanto que nos lembremos que seu contrário só pode ser o termo “providencialismo”. E se a escolha nunca tivesse sido entre as organizações do mercado e a do Estado, entre liberais e socialistas, mais entre aqueles que acreditam nos milagres de uma harmonização preestabelecida e aqueles que se recusam a acreditar em milagres? Não poderíamos reler, retrospectivamente, tudo isso que aconteceu nos últimos dois séculos e que nós resumimos muito rapidamente sobre o nome de “capitalismo”?


Capítulo 01:
É porque a economia é subjetiva que é quantificável
Para compreender a antropologia econômica de Tarde, é preciso aceitar primeiro uma completa inversão de nossos hábitos: nada na economia é objetivo, tudo é subjetivo ou, antes, intersubjetivo, esta é justamente a razão pela qual podemos tratar a economia como quantificável e científica... Mas, à condição de modificarmos igualmente isso que esperamos de uma ciência e o que chamamos de quantificar. Essas condições vão modificar significativamente nossos hábitos de pensar.
Retorno aos valores
De maneira bastante clássica, Tarde começa por definir o valor. Mas, rapidamente, ele nos obriga a mudar de direção. Porque o valor é uma dimensão eminentemente psicológica que depende da crença e do desejo, ele é quantificável porque possui certa intensidade:
Ele [o valor] é uma qualidade que atribuímos às coisas, como a cor, mas que, em realidade, como a cor, existe apenas em nós por meio de uma verdade completamente subjetiva. Ele consiste no acordo de julgamentos coletivos que fazemos sobre a aptidão dos objetos a serem mais ou menos, e para um maior ou menor número de pessoas, críveis, desejados ou apreciados. Essa qualidade é então da espécie singular daquelas que parecem propícias a apresentar múltiplos graus e à subir ou descer nessa escala sem mudar essencialmente de natureza, merecendo assim o nome de quantidade. (PE-1, p. 63)9.
O ponto é fundamental e Tarde o mantem desde o primeiro artigo que publicou quando ainda era juiz na pequena cidade de Sarlat no sudoeste da França, onde ele viveu a maior parte de sua vida antes de mudar para Paris10. Para fazer das ciências sociais uma verdadeira ciência, deve-se acessar o que elas tem de quantificável que, paradoxalmente é interior às subjetividades11. Mas se essa formulação pode lembrar a posição dos marginalistas, para os quais o ponto de partida se encontra solidamente ancorado nos indivíduos minimizadores12, não se deve duvidar da originalidade de Tarde. De fato ele nunca opõe os adjetivos “social” e “psicológico”. Apesar das conhecidas críticas de Durkheim contra ele, o que Tarde designa como um fenômeno psicológico não remete jamais a algo de individual13 ou de interior ao sujeito – o que ele posteriormente chamará de “intra-psicológico” e sobre o que ele frequentemente afirma que não se pode dizer nada -, mas sempre ao que é mais social em nós - e que ele chama, por essa razão, “inter-psicológico”. Nada é mais estranho a sua antropologia que a ideia de agentes econômicos descolados do mundo social e cujos cálculos possuem fronteiras bem delimitadas. As palavras intimidade e subjetividade não devem nos induzir a erro: no mais íntimo de nós mesmos, é sempre “o múltiplo” que reina. O que torna Tarde tão difícil de compreendermos, depois de mais de um século de sociologismo, é que ele nunca opõe a sociedade ao indivíduo, mas que ele considera, ao contrário, que tanto um quanto o outro são apenas agregados provisórios, estabilizações parciais, nós na rede que escapam completamente aos conceitos da sociologia usual14.

O que funda, em sua visão, a ciência social é de fato um tipo de contaminação que vai sempre, de ponto a ponto, de indivíduo a indivíduo, mas sem nunca se deter sobre eles15. A subjetividade designa sempre a natureza contagiosa dos desejos e das crenças que saltam de um indivíduo a outro sem jamais passar, e é este o ponto essencial, pelo intermédio de um contexto ou de uma estrutura social16. As palavras “social”, “psicológico”, “subjetivo” e “intersubjetivo”, são então, grosso modo, equivalentes e todas designam um modo de percurso, uma trajetória, que exige, para que possamos segui-las, jamais supor a existência prévia de uma sociedade ou de uma infraestrutura econômica, de um plano global distinto da aglutinação17 de seus membros. A grande vantagem desses modos de procedimento é que eles trazem à tona os meios pelos quais se efetua o contágio, a contaminação de um ponto a outro – isso que Tarde chama de “raios imitativos” em seu livro, Les Lois de l’imitations, que o tornou famoso18.

Essa primeira definição do “quantum” próprio aos valores vai permitir a Tarde desdobrar, no lugar da economia, um tecido de relações cruzadas no qual não se deve sobretudo se precipitar para reconhecer as que são literalmente econômicas e as que o são apenas metaforicamente. Tarde não vai parar de mostrar, ao contrário, que a economia-disciplina arrisca perder toda objetividade científica porque ela tropeça, por vezes, em seus limites – demasiadamente restritivos - e suas ambições – demasiadamente vastas.
Dois erros a evitar
Procedamos lentamente para bem apreender a originalidade da proposição de Tarde. A noção de valor se estende, a princípio, à todas as avaliações de crença e de desejo:

Essa quantidade abstrata se divide em três grandes categorias que são as noções originais e capitais da vida em comum: o valor-verdade, o valor-utilidade e o valor-beleza (PE-1, p. 63).

O caráter quantitativo de todos os termos que eu acabei de enumerar é tão real quanto pouco aparente; ele está implicado em todos os julgamentos humanos. Não há homem, não há povo que não tenha perseguido como preço de seus esforços vorazes, um certo acréscimo ou de riqueza, ou de glória, ou de verdade, ou de poder, ou de perfeição artística, e que não lute contra o perigo de uma diminuição de todos esses bens. Nós todos falamos e escrevemos como se existisse uma escala dessas diversas grandezas, sobre as quais nós colocamos, mais auto ou mais baixo, os diversos povos e os diversos indivíduos e os fazemos subir ou descer continuamente. Todo o mundo é então implicitamente e intimamente persuadido de que todas essas coisas, e não apenas a primeira, são, no fundo, as verdadeiras quantidades. Ignorar esse carácter verdadeiramente quantitativo, se não mensurável de fato e de direito, do poder, da glória, da verdade, da beleza, é então ir contra o sentimento constante do gênero humano e fixar como objetivo do esforço universal uma quimera. (PE-1, p.67).
Há então um fundo quantitativo essencial à todas as nossas avaliações, quais quer que sejam nossos objetos, e a ciência social deve considerar todas. Mas, infelizmente, Tarde rapidamente acrescenta, a economia política confundiu dois gêneros totalmente diferentes de quantificação: o que é “real e pouco aparente” e o que é “conveniente e aparente” mas, essa confusão se deve somente à extensão de um pequeno número de instrumentos de cálculo entrecruzados com as paixões.
No entanto, de todas essas quantidades, apenas uma, a riqueza, foi compreendida nitidamente como tal, e parecia digna, portanto, de ser objeto de uma ciência especial: a Economia política. Mas, embora esse objeto, de fato, por causa de seu signo monetário, se preste à especulações de precisão mais matemática, por vezes mesmo ilusória, os demais termos também merecem ser estudados cada um por uma ciência à parte (PE-1, p. 67).
Essa questão do “signo monetário” deve ser considerada com o maior cuidado. Tarde de fato evita aqui dois erros simétricos que nós temos frequentemente o hábito de cometer: tomar a economia como um tipo de redução que congelaria a subjetividade em objetividade; ou, inversamente, estender essa primeira “redução” à todas as atividades, mesmo às mais “elevadas”, acreditando fazer prova de um espírito crítico brilhante.

Ainda assim, nem uma vez nesse livro, Tarde reclama que os economistas “ignoram a riqueza da subjetividade humana”, se esforçariam para “tudo quantificar” com o risco de “amputar” assim o humano de suas “dimensões moral, afetiva, estética e social”. Sua crítica é exatamente o contrário: os economistas não quantificam suficientemente todas as apreciações de valor (valuations) as quais eles tem acesso. Ou, sobretudo, eles não vão longe o bastante, não prosseguem ao entrecruzamento das tensões e vetores de desejo e de crença que caracterizam o fundamento, se pudermos dizer, da matéria social.


Mas, o economista negligencia ver que não há riqueza, seja agrícola, industrial ou outra, que não possa ser considerada do ponto de vista dos conhecimentos que ela implica, ou dos poderes que ela concede, ou os direitos dos quais ela é fruto, ou de seu carácter mais ou menos estético ou inestético (PE-1, p.67)
Mas o erro simétrico será crer que Tarde estende as quantificações das riquezas usualmente aceitas em economia, para analisar metaforicamente as verdades, glórias, poderes, moralidades, direitos, ou as artes, à maneira de Pierre Bourdieu, multiplicando o uso dos termos capital, interesse, calculo ou lucro, acompanhados ou não do qualificativo “simbólico”19. Mais uma vês, é o contrário: a raiz quantificável que vai permitir fundar uma ciência econômica verdadeira se encontra inicialmente nos seus jogos complexos de confiança e desconfiança, somente em seguida, por comodidade e simplificação, ela será transportada para o caso relativamente simplificado da “troca de bens”. Poderíamos quase dizer que, na economia generalizada que Tarde propõe, é a economia política das riquezas que representa sua extensão metafórica, ou melhor, sua restrição metonímica, a parte sendo tomada pelo todo. Tarde propõe então, ao contrário, estender a economia a todas as apreciações de valor (valuations), mas sem se limitar a seguir o pequeno número de apreciações de valor (valuations) que apreendemos, por comodidade, a contar em dinheiro.
Não mais confundir o recto com o verso
É apenas se compreendermos em que medida Tarde evita esses dois erros (a reclamação contra a quantificação, por um lado, e a extensão metafórica dos cálculos das riquezas às outras formas de crédito20, por outro) que podemos mensurar a audácia, originalidade e fecundidade dessa declaração:
Minha intenção é mostrar, ao contrário, que, se quisermos, em economia política, chegar às leis verdadeiras e, consequentemente, verdadeiramente científicas, é preciso retornar, por assim dizer, à roupagem, sempre útil mais um pouco desgastada, das velhas escolas, virá-las ao avesso, colocar em evidência o que elas escondem e perguntar à coisa significada a explicação do signo, ao espírito humano a explicação do material social (PE-1, p. 110).

Como poderíamos explicar que os economistas se enganaram de tal modo a respeito do direito e avesso de sua ciência? A razão apresentada por Tarde reúne o que os antropólogos dos mercados já demonstram há uma década: nenhuma relação é econômica sem a extensão das técnicas de cálculo dos economistas – no sentido mais amplo do termo21. A disciplina economia, inventada no século XVIII, não descobre um continente, ela o fabrica por inteiro, ou antes, ela o organiza, o conquista, o coloniza. Para retomar a forte expressão de Michel Callon, é a disciplina econômica que executa e formata a economia como coisa22: “Without econimics, no economy23.” Contrariamente às robinsonadas do século XVIII, e como bem havia mostrado Karl Polanyi24 e posteriormente Marshal Sahlins25, o homem não nasce economista, ele vem a ser. A condição, contudo, de que ele se encontre cercado suficientemente de instrumentos, de dispositivos de cálculo para tornar visível e legível as diferenças, que do contrário seriam inacessíveis. Praticar economia não é revelar o fundamento antropológico da humanidade, é sempre organizar de uma certa maneira uma matéria que lhe escapa. Isso não é também, como veremos em breve, descobrir a verdadeira natureza humana.

Para compreender em que o trabalho dos economistas formata as relações as quais, sem eles, teriam outra forma, é preciso apreender o pequeno suplemento que trouxe a invenção do dispositivo de cálculo e, em particular, os padrões como a moeda26.
A riqueza é alguma coisa muito mais simples e muito mais facilmente mensurável; por que ela comporta graus infinitos e pouquíssimos tipos diferentes, nos quais a diferença vai se desvanecendo. De modo que a substituição gradual da nobreza pela riqueza, da aristocracia pela plutocracia, tende a tornar o status social mais sujeito ao número e à medida. (PE-1, p. 72)

Se é preciso toda sutileza de Proust para situar em uma escala de valor as diferenças de posição27 entre Swann et Madame Verdurin, essa preocupação com os detalhes não é mais necessária para classificar os bilionários do mundo – o menor jornalista de fortunas poderia fazê-lo sem dificuldade – uma vez que suas medidas se farão na forma de créditos e de capitais. Atenção, isso não significa que nós nos tornamos plutocratas, que o reino da mercadoria se expandiu, que o valor monetário em cifra invadiu a infraestrutura real e material que embasa a economia-coisa. Absolutamente não: a medida tem se tornado “mais simples”, o status social se tornou, consequentemente, mais fácil de identificar. Convém então distinguir bem dois tipos de medida, aquela que apreenderia o estado real, que poderíamos chamar a medida mensurada, para distingui-la daquela que formata o mundo social e que poderíamos chamar de medida mensurante. Essa distinção permite ver que existem de fato outros instrumentos disponíveis para tornar a economia verdadeiramente quantificável.


Agora a glória de um homem, não menor que seu crédito, não menos que sua fortuna, é suscetível a crescer ou diminuir sem mudar de natureza. Ela é então um tipo de quantidade social. (PE-1, p. 70-71).

Os padres e os religiosos estudaram os fatores de produção (leia-se reprodução) das crenças, das “verdades”, não com menos cuidado do que os economistas a reprodução da riqueza. Eles poderiam nos dar aula sobre as práticas próprias para semear a fé (retiros, meditações forçadas, pregação) e sobre as leituras, as conversas, os tipos de condutas que a enfraquecem. (PE-1, p. 74 nota).


Introduzamos a palavra valorímetro para quantificar todos os dispositivos permitindo tornar visível e legível os julgamentos de valor que formam o cerne disso que Tarde vai nomear economia. Poderíamos imaginar sem dificuldade seu interesse pela época atual que vê se multiplicar sobre as formas de audiência, enquetes, pesquisas de marketing, realities shows, competições, rankings, leilões, espionagem, clicks de mouse, etc., as novas formas de obtenção de dados muito valiosos para “tornar o status social mais sujeito ao número e à medida”. Podíamos mesmo dizer que Tarde não teve sorte em ter vivido um século antes dos tipos de dados “quali-quantitativos” que as novas técnicas de informação e de comunicação multiplicam hoje. Dizem-no “literário” e é verdade: ele gostaria que quantificássemos os desejos e as crenças, enquanto as estatísticas de sua época – que ele conhecia bem, vez que dirigia o Instituto de estatística do Ministério da Justiça – eram muito mais rudimentares para captá-los. A atual onda de digitalização deve nos deixar mais atentos ao argumento de Tarde.

1 Todas as referências para a edição de 1902 dos manuscritos da Psychologie Économique são acessíveis on-line via web site Prickly Paradigm (www.prickly-paradigm.com/catalog.html). Nessa edição a numeração das páginas é baseada na versão original da Psychologie Économique como aparece na Gallica, a Bibliotheque Nationale de France (http://gallica.bnf.fr).

2 N.T. O termo “semente” não aprece na edição Francesa; foi adicionado apenas na edição estadunidense traduzida pelos próprios autores.

3 N.T. O termo “financeira” não aprece na edição francesa; foi adicionado apenas na edição estadunidense traduzida pelos próprios autores.

4 N.T. Construção diferente na edição estadunidense.

5 Acessível em: http://classiques.uqac.ca/; e mais precisamente o texto de G. Tarde http://classiques.uqac.ca/classiques/tarde_gabriel/phycho_economique_t1/psycho_eco_t1.html .

6 Nossa seleção de textos se encontra no site: www.bruno-latour.fr

7 N.T. O termo “visível” não aprece na edição Francesa; foi adicionado apenas na edição estadunidense traduzida pelos próprios autores.

8 N.T. O termo “solitário” não aprece na edição Francesa; foi adicionado apenas na edição estadunidense traduzida pelos próprios autores.

9 Todas as citações, salvo indicação contrária, são da versão original da Psychologie économique tal qual se encontra na Gallica. Os Itálicos são sempre do autor. A edição original havia sido publicada em dois volumes, nós indicaremos PE-1 para o primeiro volume e PE-2 para o segundo, ao fim de cada citação.

10 N.T. Trecho acrescido na edição estadunidense.

11 Conforme o artigo « La croyance et le désir » na La Revue philosophique que precede em um ano sua primeira aparição na « La psychologie en économie politique » na mesma revista (tomo XII, setembro de 1881).

12 N.T. A palavra não aparece na edição estadunidense.

13 N.T. Na edição em inglês a palavra usada é “personal”.

14 O que nos autoriza a ver em Tarde, o fundador retrospectivo da teoria do ator rede, ver sobre esse ponto: LATOUR, Bruno, Changer de société, refaire de la sociologie, trad. Fr. N. Guilhot, La Découverte, Paris, 2006.

15 N.T. Construção diferente na edição estadunidense.

16 N.T. Construção diferente na edição estadunidense.

17 N.T Na edição francesa a palavra usada pelos autores foi o termo “pullulement” que carrega o sentido também de multiplicação ou proliferação. Na ausência de um termo em português que conjugue todas essas ideias optamos por um vocábulo mais próximo da edição estadunidense, a saber “the coming toguether”, que infelizmente carrega apenas um dos múltiplos sentidos da palavra francesa.

18 Nós encontramos hoje apenas a reedição de Gabriel Tarde [1890], Les Lois de l’imitation, (Préface de Jean-Philippe Antoine), Les Empêcheurs de penser en rond, Paris, 2001. A reedição de 1993 teve como vantagem a excelente introdução de Bruno Karsenti: Gabriel Tarde [1890], Les Lois de l’imitation (Introduction de Bruno Karsenti), Kimé, Paris, 1993.

19 Sobre esse ponto, ver a crítica de Olivier Favereau, “L’économie du sociologue ou penser (l’orthodoxie) à partir de Pierre Bourdieu”, in Bernard Lahire (sous la dir.), Le Travail sociologique de Pierre Bourdieu. Dettes et critiques, édition revue et augmentée, La Découverte, Paris, 2001, p. 255-314.

20 N.T. na edição estadunidense ao invés da palavra “crédito” os autores usam o termo “simbolic value”, ou valor simbólico. Isso se dá porque Tarde trata do crédito de maneira bastante peculiar. No tópico seguinte desse mesmo capítulo a concepção tardiana de crédito será abordada de modo a melhor explicar o significado dessa afirmação nesse momento.

21 Nicholas Thomas, Entangled Objects. Exchange, Material Culture, and Colonialism in the Pacific, Harvard University Press, Cambridge (Mass.), 1991; Timothy Mitchell, Rule of Experts: Egypt, Techno-Politics, Modernity, University of California Press, Berkeley, 2002; Julia Elyachar, Markets of Dispossession: NGOs, Econimic Development, and the State in Cairo, Duke University Press, Durham (NC), 2005.

22 N.T. Na edição estadunidense, ao invés da palavra “coisa” consta a palavra “entidade” (entity).

23 Michel Callon (sous la dir.), The Laws of the Markets, Blackwell, Oxford, 1998.

24 Karl Polanyi, La Grande Transformation. Aux origines politiques et économiques de notre temps, Gallimard, Paris, 1983.

25 N.T. Teórico acrescentado na edição estadunidense.

26 Sobre a noção de dispositivo de cálculo, ver Michel CALLON, Yuval MILLO, Fabian MUNIESA (sob a direção), Market Devices (Sociological Review Monographs), Wiley-Blackwell, Oxford, 2007.

27 N.T em francês a palavra usada é “rang”. O termo original guarda uma ambiguidade de sentidos, podendo significar tanto as diferentes posições sociais, quando as fileiras em uma instituição hierárquica como o exército.



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