Dos frades menores capuchinhos



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IDENTIDADE E PERTENÇA

DOS FRADES MENORES CAPUCHINHOS

Carta de fr. Mauro Jöhri, Ministro geral dos Frades Menores Capuchinhos

Prot. N.00710/14

A todos os irmãos da Ordem

Às irmãs Clarissas Capuchinhas

Caríssimos irmãos,
O Senhor vos dê a paz!


INTRODUÇÃO: “movido” por uma pergunta

Na carta programática enviada no início do sexênio 2012-2018, vos anunciava a intenção de elaborar uma “Ratio Formationis” para a nossa Ordem como está previsto em nossas Constituições, número 25,9. Confiamos esta “empresa” aos frades que compõem o Secretariado geral para a formação e logo estes irmãos colocaram mãos à obra com zelo e competência. Além disso, os frades do referido Secretariado pediram-me que propusesse um texto sobre a identidade dos Frades Menores Capuchinhos hoje. A primeira reação foi aquela de dizer a mim mesmo: “ mas a Regra e as Constituições não bastam, tudo já não está ali descrito de modo claro e exaustivo?”. Alguns dias depois, compreendia a necessidade de apresentar aos frades da nossa Ordem um texto sintético1 que descrevesse quais são os fundamentos e as pilastras que sustêm a nossa identidade e pertença. Eis-me aqui a “conversar” com cada um de vós para partilhar algumas convicções que amadureci durante os anos do meu serviço à Ordem.


Quem somos nós Frades Capuchinhos? A pergunta me leva ao que disse Papa Francisco na entrevista dada ao padre Antonio Spadaro em Civiltà Cattolica: “Não existe identidade sem pertença”2. A afirmação do Papa é a chave interpretativa para enfrentar a questão da identidade que, sobretudo nos anos do pós-Concílio Vaticano II interpelou, às vezes de modo dramático, a vida religiosa. A identidade sem a consciência de pertencer corre o risco de permanecer abstrata, assim como a pertença sem uma identidade precisa corre o risco de permanecer vazia e sem orientação. Consciente da interdependência sublinhada pelo Papa Francisco, desejo acolher a sua afirmação como linha mestra deste escrito. Apresentarei alguns aspectos que dizem respeito de modo direto à identidade para depois evidenciar algumas características próprias da pertença.


  1. A NOSSA IDENTIDADE

    1. O nosso caminho na história


Retomo a pergunta colocada acima: quem somos nós Frades Menores Capuchinhos? À simplicidade da pergunta não corresponde o imediatismo da resposta. Por quê? Uma das razões poderia ser a diferença de opiniões a cerca das nossas origens: alguns indicam São Francisco como nosso Fundador, outros, em vez, destacam os eventos de meados de 1500 como o século que viu nascer a reforma dos Capuchinhos. Considero que se deva levar em consideração ambas as posições. Pessoalmente prefiro partir da situação histórico-eclesial do Século XVI, para depois remontar ao evento carismático de Francisco de Assis. Creio, de fato, que a nossa chave hermenêutica para interpretar São Francisco e a sua herança esteja profundamente assinalada por aquela tradição particular surgida em 1500.
A história da Família Franciscana conheceu muitas reformas e divisões. Nós Capuchinhos atravessamos cinco séculos de história sem ser incorporados noutras agregações. Se com um punhado de “santo orgulho” podemos afirmar que temos um DNA bastante forte, por outro lado é também verdade que nos anos imediatamente seguintes ao Concílio Vaticano II até hoje assistimos a numerosas e rápidas mudanças na nossa Ordem e alguns dos aspectos que caracterizavam a sua unicidade estão profundamente mudados, outros até mesmo desapareceram. Um dos sinais desta evolução foi a revisão frequente das nossas Constituições, feita precisamente em 1968, 1982 e no último Capítulo Geral celebrado em 2012.


    1. Prioridade da vida fraterna


A mudança mais evidente, ocorrida após o Concílio, é a passagem de uma conotação fortemente penitencial da nossa forma de vida àquela onde emerge a prioridade da vida fraterna. O valor da vida fraterna é um dado já adquirido e a formação que os frades de toda a Ordem receberam sobre este aspecto do nosso carisma, foi, e continua a ser significativa e substanciosa. Ao mesmo tempo, somos conscientes de que a tentação e a fuga para o individualismo difundem-se de modo preocupante. Se há algum tempo éramos menos envolvidos do quanto ocorria fora do convento, hoje os novos meios de comunicação nos propõem de maneira insistente, convincente e refinada uma série de mensagens e estilos de vida que favorecem uma mentalidade preponderantemente individualista, na qual torna-se difícil orientar-se e discernir.

Diante desta situação, temos na fraternidade um ponto válido de referência: tal ponto surge da renovação das nossas Constituições iniciadas no ano de 1968, onde a força e a beleza da vida fraterna são evidenciadas como elementos prioritários. A individualidade de cada irmão é um dom precioso a ser respeitado e apoiado, mas o “eu” de cada um de “nós” torna-se ainda mais precioso e fecundo se relaciona-se com o “nós” da vida fraterna.


Lá onde a vida fraterna é vivida e cultivada com cura, criam-se as condições para que cada frade possa enfrentar com serenidade as situações provocantes e difíceis do nosso tempo. Aquela de 1968 representa uma virada providencial, agora se trata de permanecermos fiéis e procurar atualizar-nos em meio às rápidas mudanças que envolvem o mundo inteiro. Cada irmão tem o direito de gozar do dom da fraternidade e de perceber-se, por sua vez, chamado a doar a própria energia para que este dom possa desenvolver toda a sua propulsora vitalidade.
A virada à qual me refiro acima tem suas fontes numa releitura das Fontes Franciscanas, onde emerge de modo muito significativo como Francisco de Assis tenha valorizado o dom de cada irmão em particular, escolhendo deliberadamente descrever o movimento por ele iniciado como uma “fraternitas”3. Em nome desta originalidade de Francisco podemos afirmar com convicção que a vida fraterna vivida com intensidade e fidelidade é mais exigente do que a própria escolha da pobreza. Explico-me: se a pobreza consiste principalmente em subtrair o máximo possível de coisas à vida e reduzir as minhas e as nossas exigências ao essencial, o viver fraterno exige uma contínua dinâmica de doação, que nos empenha a tornar mais autêntica a qualidade das relações que acompanham a nossa quotidianidade. Às vezes trata-se de saber perdoar e saber fazê-lo sempre de novo, outras vezes ocorre dar um passo pra trás para dar espaço ao outro para que os seus dons possam florir e dar fruto. A vida fraterna, originada do Espírito Santo, cresce se a qualidade das nossas relações tem o sabor da acolhida, do perdão, da misericórdia e da caridade que o Senhor Jesus nos apresentou como Bem-Aventuranças para a nossa existência. A pobreza, que tantos frades nossos viveram e vivem com alegria não é relegada a um segundo plano, mas à luz daquelas renovações que tornam sempre jovens os carismas, assume as características de solidariedade, de condivisão dos bens com os últimos da terra, da responsabilidade em relação à salvaguarda da Criação. Fraternidade significa ainda disponibilidade para superar os confins da fraternidade local, da Província ou Custódia na qual vivemos, para apoiar Circunscrições em dificuldades ou também ser agregados a fraternidades interculturais onde a necessidade de pessoal é mais urgente. Com o Conselho geral estamos verificando a possibilidade de constituir fraternidades interculturais em lugares onde a secularização está apagando progressivamente todos os sinais e as obras geradas pela fé cristã.


    1. Experiência e sinais: os traços da nossa identidade

      1. Os lugares


Os Frades Menores Capuchinhos surgiram por vontade de um grupo de Frades Menores Observantes que desejavam levar uma vida mais austera e mais retirada. Os primeiros Capuchinhos escolheram lugares particularmente isolados e esta conotação original caracterizou pelos séculos seguintes a localização dos nossos conventos, que surgiam a uma certa distância dos aglomerados urbanos. A escolha do lugar continha uma mensagem precisa que, devidamente atualizada, transmite um valor profundo: os frades queriam viver retirados para afirmar a prioridade da relação com Deus pela oração e contemplação, mas ao mesmo tempo não queriam estar assim tão distantes ao ponto de não ouvir a voz e o grito de quem tinha necessidade da nossa presença, de quem desejava ouvir a Palavra do Evangelho ou daqueles que, por causa de sua condição, deviam beneficiar-se das obras de misericórdia corporais e espirituais. Pensemos aos nossos frades que deram a vida para socorrer e consolar os empestados e que ainda hoje em tantos países estão próximos aos últimos da terra.

      1. O essencial


Outro elemento significativo e ao qual vinha dada particular atenção era a dimensão das nossas casas. Os espaços comunitários, aqueles destinados a cada frade, os objetos à disposição das fraternidades haviam a característica da essencialidade e da sobriedade. Tudo seguia uma pedagogia precisa: a essencialidade, a austeridade e a sobriedade eram a memória quotidiana com a qual o frade deveria considerar-se “peregrino e forasteiro”4. Também as reservas de alimentos deveriam ser suficientes para poucos dias a significar que a confiança na Providência não poderia ser reduzida a edificantes discursos ou belas palavras. Nas nossas igrejas não se deveria usar mármores e douramentos, mas unicamente madeira e terracota. O estrito necessário, nada mais! Era esta a imagem verdadeira e real que os Frades Capuchinhos deram por séculos e temos mais de um testemunho de que tudo era vivido com franciscana alegria. Por quê? Qual era a motivação de tudo isso? Os frades, através da pobreza, auteridade e da confiança na Providência desejavam anunciar e testemunhar o Primado de Deus como o bem e a riqueza maior da própria existência. O testemunho era eminentemente escatológico, a vida e o agir dos frades falava de uma pátria e de uma plenitude que estão além da vida, na plena comunhão com Deus. A vida, as coisas, os bens, os lugares pertencem a uma passagem, uma peregrinação que terá um fim5.

      1. A pobreza rigorosa


Fico sempre impressionado quando vou a San Giovanni Rotondo e, no refeitório antigo do convento onde viveu São Pio de Pietrelcina leio a escrita: “Si non est satis, memento paupertatis” (Se não é suficiente, recorda-te da pobreza!). Em nossas fraternidades poderia acontecer (e acontecia!) que a comida não fosse abundante ou variada, a escrita recordava que não era lícito lamentar-se porque a mesa sóbria e essencial estava em perfeita consonância com o conselho evangélico da pobreza e permitia também partilhar da situação de quem pobre o é de verdade e não sabe como nutrir o próprio estômago. Diante da pobreza crescente que afeta sempre mais pessoas e do fluxo migratório de tantos homens e mulheres que buscam uma existência mais digna, somos chamados a tornar mais simples o nosso estilo de vida e encontrar formas de condivisão de espaços e casas que não usamos.6

Também a modalidade da oração era reduzida ao essencial. O Ofício Divino era celebrado com simplicidade e raramente cantado para que cada frade pudesse dedicar mais tempo à oração mental, àquele silencioso estar com o Senhor, n’algum ângulo escuro da igreja ou do convento. A renovação litúrgica operada nos anos seguintes ao Concílio vaticano II, levou a novas e significativas formas celebrativas, mas ao mesmo tempo constato com amargura que muitos frades abandonaram a prática da oração mental.




      1. Lá onde ninguém quer ir


O testemunho de uma vida austera e pobre suscitou admiração e edificação. Os Frades Capuchinhos eram procurados pelos bispos e pelo povo de todas as classes e logo mereceram o título de “frades do povo”. Também o Concílio de Trento, que se celebrou no mesmo século do nosso nascimento deu-se conta da eficácia das nossas presenças. Os organismos hierárquicos da Igreja, cardeais, bispos nos confiaram o ministério da pregação para difundir o espírito e a renovação do Concílio Tridentino a todos os batizados e para refutar as insídias da reforma protestante. Pra poder pregar era necessário preparar-se e para isso era preciso ter acesso a uma série de manuais que ilustravam as modalidades do anúncio do Evangelho, propondo exemplos fulgurantes que bebiam da sólida teologia dos padres da Igreja. Este foi o motivo que permitiu introduzir nas Constituições a permissão de encontrar nos nossos conventos um local onde fossem conservados os livros necessários para o serviço da pregação. Disto podemos deduzir como estávamos longe de ser condenados ao imobilismo!
Ainda mais significativo era o nosso ser “peregrinos e forasteiros” que nos habilitava a viver a itinerância. As mudanças de lugar ou do serviço ao qual se era chamado a cumprir que derivam da obediência eram uma realidade “normal”. Sustentados por esta consciência os nossos irmãos deram vida a páginas maravilhosas de evangelização, cheias de heroísmo e de santidade. Os nossos frades partiam com outras Ordens, fomos os membros vivos que deram vida a Popaganda Fide. São José de Leonessa partiu para a Turquia, São Fidélis de Sigmaringa pregou na Rezia. Quantos irmãos no século XVII partiram para o Congo, Angola ou direcionaram os próprios passos rumo à Geórgia! No século sucessivo chegamos aos montes do Tibet. Andava-se sustentados pelo zelo de quem se sente chamado a uma missão. Partia-se e muitos morriam ao longo do caminho por causa de doenças, assaltos de bandidos, perseguições. Partia-se para ir onde ninguém queria ir! Eu rezo ao Senhor que este desejo pleno de zelo não se acabe nunca na nossa Ordem7.

      1. Uma legião de santos


Muitos frades provenientes da Observância seguiram a reforma dos Capuchinhos e a estes se uniram pessoas de todos os níveis e classe social: do humilde frade Félix de Cantalício ao nobre Ange de Joyeuse8, que comandava as armadas do reino da França. Nos séculos passados encontramos os Capuchinhos em meio ao povo pobre e nos palácios imperiais. Os nossos confrades assumiram encargos diplomáticos (Lourenço de Bríndisi) ou então estavam com os soldados no front de batalhas decisivas como aquela de Lepanto e de Viena (Marco d’Aviano). Pergunto-me: por que nossos frades eram envolvidos nas situações mais disparates, seja do pondo de vista social, político e religioso? Vem-me esta resposta: confiavam em nós porque não perseguíamos segundas intenções. Penso em nossos irmãos pregadores que educavam e formavam o povo de Deus. Gosto de recordar a formação à piedade eucarística, sustentada pela publicação de manuais e livros de oração. Intensa foi sempre a nossa animação espiritual e diversas foram as publicações que divulgavam e incentivavam a prática da meditação e da oração mental.9

Graças a Deus esta atenção renovou-se repetidamente no seio da nossa Ordem. Limito-me a recordar aqui Frei Ignacio Larrañaga, fundador das “Oficinas de Oração e Vida”, recentemente falecido.10

Quantos gestos de caridade, de amor, benevolência semearam nossos esmoleiros que, além de prover o necessário para os frades e para os pobres, exerciam com a simplicidade e com a força de atração uma intensa “animação vocacional”. Quantas vidas foram doadas para confortar os empestados, consolar doentes em hospitais, assistir aos jovens militares nos vários conflitos! Quantas horas transcorridas a administrar o sacramento da reconciliação, atividade que nos mereceu a fama de “frades bons e misericordiosos!” Realmente o Espírito do Senhor acompanha a nossa história suscitando confrades nos quais apareceu uma luminosa santidade; aquele que veneramos publicamente, mas estou certo de que temos uma numerosa legião de confrades que doaram a vida pelo Senhor e pelos irmãos, cuja recordação é menos notada, mas tudo o que eles viveram está escrito no Livro da Vida e constitui-se uma preciosa exemplaridade para todos nós.

Além destes sinais de santidade, o frade capuchinho era reconhecido por uma série de sinais exteriores: usava uma túnica confeccionada por um tecido rude à qual era pregado o capuz, nos pés trazia sandálias e normalmente a barba era descuidada. Recordei acima a escolha dos lugares, a decoração simples das igrejas, o nosso modo de viver. Eram sinais que comunicavam uma história, uma experiência e narravam o desejo de seguir o Senhor Jesus acompanhados e sustentados pela beleza do carisma de Francisco de Assis. Quem somos hoje? A partir de que coisas nos reconhecem?



    1. Na origem de tudo

      1. Interessados em conhecer a própria história


A esta altura algum irmão dirá: “O nosso Ministro geral é um pouco saudosista!” Dou-vos o direito de pensar assim, mas, consintam-me justificar o que eu escrevi. A nossa identidade formou-se no tempo, os séculos da nossa história foram habitados por homens que através de suas vidas e dedicação a Cristo e à Igreja deram um rosto à nossa Ordem. A nossa identidade podemos encontrá-la descrita nos documentos e nos textos de todo tipo produzidos dentro da Ordem, mas esta aparece de modo decididamente mais evidente na experiência humana e espiritual vivida pelos nossos confrades que nos precederam. Acenei para alguns particulares exteriores, porque revelam um modo de ser, de conceber a vida e isto é significativo para dar um rosto à nossa identidade. Temos uma herança espiritual forte e preciosa que nos foi dada e que espera ser atualizada e vivida também por nós. Por isso é fundamental conhecer a nossa história: quem somos, de onde viemos. Voltam à minha mente algumas dinâmicas familiares: os netos querem saber quem eram os bisavós, ou desejam aprofundar a história que havia provocado o encontro entre avô e avó. Nasce o desejo de reconstruir a árvore genealógica, de visitar os lugares onde viveram os nossos antepassados. É para mim motivo de preocupação quando encontro frades jovens aproximando-se à profissão perpétua que têm um conhecimento muito superficial da nossa história ou da Circunscrição à qual pertencem e ainda pior quando se afirma que estas coisas não são importantes! Considero que a nossa história e a nossa tradição devem ser fonte de inspiração para as escolhas e as orientações futuras.


      1. São Francisco de Assis


A nossa reforma teve como referência original São Francisco e foi justamente a sua experiência e seu Carisma que inspiraram as primeiras Constituições da Ordem. Estas foram escritas em pouco tempo porque os frades tinham bem claro o que desejavam viver e naquelas poucas páginas se evidenciava a vontade de observar mais “espiritualmente” a Regra e o Testamento de São Francisco e o termo “espiritualmente” pode ser muito bem substituído por integralmente. Hoje para nós, resulta mais imediato e fácil fazer tudo remontar a São Francisco e esquecermos da nossa história e dos eventos que geraram uma tradição nossa. Seria um grave erro histórico terminar num igualitarismo onde tudo se torna semelhante, em nome do que, não se compreende. Cada carisma torna-se riqueza se compreendido, vivido e testemunhado; isso é verdade também na grande família franciscana onde a nascente é única, mas os riachos desta nascente formaram rios e torrentes diversas. Os Capuchinhos compreenderam originariamente que Francisco havia empreendido uma vida austera com muitas privações e quiseram imitá-lo. Viram nele o Santo que alternava ao anúncio do Evangelho a longos períodos nos quais permanecia só em oração, em locais solitários e também nisso quiseram imitá-lo. Reconheceram nele um homem rico de grande liberdade interior, capaz de estar com todos, entrando na soleira da casa dos ricos, dos poderosos e compartilhando em todos os aspectos o drama dos leprosos; ficaram fascinados pelo Poverello que foi até os infiéis e quiseram fazer a mesma coisa.

Irmãos caríssimos, os valores que constituem a nossa identidade como nos interpelam hoje? O que queremos fazer diante das fortes propostas próprias da nossa identidade?





  • Conduzir uma vida simples que se limita ao mínimo necessário e não ao máximo permitido.

  • Viver uma oração prolongada que se alterna com as várias formas de serviço a nós confiadas.




  • Conservar um coração aberto a todo homem sem distinção de classe, raça, nacionalidade.

  • Doar a disponibilidade para ir onde ninguém quer ir.

Tudo isso vivido em comunhão fraterna que é o “sabor” que confere valor e beleza ao nosso viver e operar.

Somos chamados a viver a nossa situação social e eclesial, usando de tudo o que a inteligência humana produziu e produzirá, mas devemos também custodiar e viver a concretude quotidiana com o espírito que moveu nossos pais. A nossa ordem surgiu no coração da Itália e teve por diversos séculos a sua difusão, sobretudo na Europa. No “velho continente” assistimos a um forte decréscimo vocacional, enquanto constatamos um confortante crescimento da nossa Ordem na Ásia, África e América Latina. O nosso carisma e a nossa identidade entram em diálogo com culturas e sociedades diversas: a bela e santa empresa é aquela de favorecer para que os frades destas jovens circunscrições possam acessar e conhecer os conteúdos e valores que inspiraram a nossa vida e geraram a nossa identidade partindo do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e do seu servo Francisco. Esta transmissão dos valores próprios da nossa vida às novas gerações, mas também a todos nós, deve percorrer um longo caminho.A fim de que o Evangelho e o carisma alcancem e penetrem na concretude da vida e de uma cultura, é preciso diálogo contínuo unido ao exemplo feliz e alegre dos frades que mostrem às novas gerações que se pode viver o que se escuta e se estuda.


      1. À descoberta do rosto de Cristo


Nós Capuchinhos, através da nossa reforma desenvolvemos um modo particular para ir a Francisco; ao mesmo tempo devemos ser conscientes que são passados quase 500 anos de quando fr. Matteo de Bascio e companheiros iniciaram a história da qual todos nós fazemos parte. Nestes séculos, o conhecimento de São Francisco, o seu carisma e sua mensagem, que continua a provocar e fascinar, foram objetos de benéfico aprofundamento e nós gozamos de um patrimônio verdadeiramente excelente. A constituição deste precioso tesouro foi obra de numerosos estudiosos que, graças ao seu trabalho, nos permitem ter uma visão muito mais acurada, seja do Seráfico Pai que do seu tempo. Além do conhecimento histórico das fontes é essencial que cada frade tenha uma relação existencial com a figura de São Francisco e isto nos leva indubitavelmente a ir além. Onde? Este além tem um rosto e um nome: o Senhor nosso Jesus Cristo11. Do berço à cruz, do nascimento à morte, Francisco percorreu todos os mistérios da vida humana de Jesus.

O Capuchinho vê Francisco em toda a sua originalidade e beleza, mas Francisco nos conduz ao encontro de Jesus de Nazaré. A sequela de Cristo não ocorre de modo abstrato, mas desejando viver como Cristo com todo o nosso ser. O desejo mais autêntico, que somos chamados a manter jovem e vigoroso, permanece aquele de “viver segundo a forma do santo Evangelho” acolhendo o convite de deixar todas as coisas, renunciando a nós mesmos, aceitando purificar nossos afetos, para que Ele possa ser o primeiro. E quando Ele torna-se o primeiro, tudo se torna mais autêntico e mais verdadeiro, também a nossa capacidade de amar e de estar com as pessoas. Em Jesus de Nazaré, o Filho da Virgem Maria, o Pai nos revelou o seu grande amor, fez descer sobre nós a sua misericórdia, revelou-nos a sua vontade de doar tudo a todos (carta ao Capítulo geral e a todos os frades). Francisco contemplava estas coisas e nele nascia uma comovente e admirável devoção ao mistério da Encarnação e da Eucaristia.




  1. A PERTENÇA

    1. Com Jesus Cristo, na Igreja


Papa Francisco reiterou que a categoria existencial da fraternidade remonta imediatamente àquela da pertença. Antes de continuar minha reflexão sobre os sinais que assinalam a pertença de cada frade à Ordem, desejo relembrar a “mãe” de toda pertença: pertencemos a Cristo e à sua Igreja. A graça do nosso batismo nos faz o dom de pertencer ao povo de Deus e com este partilhamos a alegria e a gratidão pela salvação que o amor fiel de Deus nos ofereceu através do Senhor Jesus. A nossa vida, o decorrer dos nossos acontecimentos pessoais e comunitários acontecem na Igreja. Seja São Francisco que os primeiros Capuchinhos quiseram submeter o carisma e a consequente forma de vida à autoridade da Igreja. O VII CPO sintetiza de maneira eficaz a qualidade da nossa pertença à Igreja e nos solicita a : “mantermo-nos sinceramente disponíveis a servir a Igreja local e universal, agindo em concórdia com os pastores. Privilegiemos aqueles serviços que são mais conformes à nossa vocação de menores e assumamos os encargos pastorais de fronteira, os ministérios menos procurados na Igreja e nas periferias, ou seja, lá onde podemos melhor manifestar a compaixão e a proximidade: sejam estes paróquias de periferia, capelanias em hospitais, assistência aos doentes e ao mundo dos marginalizados entre as velhas e novas pobrezas."12. O pontificado do Papa Francisco, a sua insistência sobre o anúncio de salvação nas periferias do mundo nos confirma e nos oferece uma ocasião de conversão a respeito do nosso ministério na Igreja.

    1. Uma forte vida interior


A nossa pertença precisa ser vivida na concretude quotidiana o então corre o risco de ser algo de ideológico e formal. O frade capuchinho que pertence a uma fraternidade e portanto à Ordem, reza, come, trabalha, partilha o próprio viver com os confrades; com estes vive momentos de felicidade, alegria e aceita os momentos de cansaço e de conflito que inevitavelmente vêm nos visitar. Como uma criança nos primeiros anos da sua vida aprende uma série de normas de comportamento do pai e da mãe, as interioriza e as faz próprias, assim quem é acolhido em nossa vida deveria ser iniciado a amar e valorizar os valores essenciais do nosso carisma. Desejo a este ponto recordar um traço da espiritualidade beneditina onde se afirma que, se um monge encontra-se no campo, longe do mosteiro e ouve o sino que chama à oração comum à qual ele não pode participar por causa da distância, aquele monge suspenderá o seu trabalho e se unirá espiritualmente à oração da sua comunidade. O sentimento de pertença revela-se, sobretudo, quando não sou visto por ninguém e sou chamado a fazer escolhas coerentes com aquilo que publicamente professei com os conselhos evangélicos. Santifico o meu dia com a oração ou me “autossuspendo” porque por razões várias não estou com os confrades? Ou ainda pior, teorizo que a oração é um assunto pessoal do qual não devo prestar contas a ninguém? Este tipo de comportamento, se não é corrigido fraternalmente, ao longo do tempo gera uma mentalidade individualista e oportunista. O sentido de pertença cultivado e alimentado pela relação com Deus e com os irmãos, nos ajuda a viver a beleza de uma existência doada a Deus e à humanidade e nos sustém nos momentos de provação.


    1. Sinais de pertença


Existem alguns sinais que podem indicar-nos se o sentido de pertença radicou-se na nossa existência, elenco-os a seguir, evidenciando os “inimigos’ deste processo de enraizamento. Ninguém se sinta julgado, antes, se fosse necessário, com honestidade e verdade, se faça objeto de revisão para iniciar o rumo de uma salutar conversão.

      1. A relação com o dinheiro


Além da participação nos atos comuns, um sinal da nossa pertença é dado pela relação com o dinheiro. Recordo o que está escrito nas nossas Constituições: “ Por causa da nossa profissão religiosa somos chamados a entregar à fraternidade todos os bens, inclusive estipêndios, pensões, subvenções, assegurações que de qualquer modo recebemos”.13 Dirijo-me agora ao irmão que possui contas bancárias ou movimenta dinheiro às escondidas do próprio Ministro e guardião, àquele que não entrega à fraternidade as ofertas ou recompensas derivadas do ministério ou do trabalho, porque aflige-se com a preocupação de “como será o amanhã”, quando serei velho, doente, etc. Aqui também escrevo ao frade que decide usar o dinheiro pra aumentar o próprio padrão de vida, para conceder-se privilégios que não têm nada a ver com a minoridade-pobreza. A estes irmãos digo: convertam-se e retomem a confiança na Providência, vivam o que escolheram e professaram livremente; confiem na vossa fraternidade! Vos ofereço as palavras que Papa Francisco dirigiu aos religiosos dia 16 de agosto de 2014 durante a sua viagem apostólica à Coréia do Sul: “A hipocrisia daqueles homens e mulheres consagrados que professam o voto de pobreza e todavia vivem como ricos, fere a alma dos féis e danificam a Igreja. Pensem também no quanto é perigosa a tentação de adotar uma mentalidade puramente funcional e mundana que induz a colocar nossas esperanças unicamente nos meios humanos e destrói o testemunho da pobreza que Nosso Senhor Jesus Cristo viveu e ensinou”. A serena relação responsável com o dinheiro se manifesta também na participação atenta e construtiva nos capítulos locais onde se elabora um orçamento anual ou então se conhece o balanço total14.

      1. “Eu estou bem aqui, por que deverei transferir-me?”


Outro apelo dirijo ao irmão que se recusa obstinadamente a todo tipo de transferência: este comportamento não é somente uma falta contra a obediência, mas denuncia a ausência de colaboração e de disponibilidade em relação aos programas e objetivos que a fraternidade quer alcançar. A título de exemplo; suponhamos que um Capítulo provincial decidiu constituir uma nova fraternidade ou atividade, porque corresponde mais aos valores do nosso carisma e às exigências da Igreja local e um frade que é considerado qualificado e idôneo para esta nova presença recusa-se a ir porque considera-se indispensável e insubstituível ou porque afirma: “estou bem onde estou agora”. A conclusão deixo a vocês. Eu pergunto a mim e a vocês: “ o que significa para nós estar bem?”

      1. Caminhos paralelos e dupla pertença


Assunto delicado e controverso, mas falemos sem exasperar os tons como geralmente acontece. Tomo da minha experiência: voltam à minha mente situações, relatos, partilhas recolhidas durante oito anos de serviço à Ordem como Ministro geral. Encontrei irmãos que, pelo ministério ou propostas recebidas entraram em contato com a espiritualidade e experiência de outras realidades eclesiais, refiro-me particularmente às Associações e Movimentos, Grupos de Oração. Em alguns deles realizou-se aquela benéfica dinâmica conhecida como “diálogo entre carismas” que gera riqueza e apoio recíproco às respectivas vocações. Estes irmãos vivem a sua presença com liberdade, testemunhando o nosso carisma. Noutros surgiu uma dinâmica de identificação com a realidade com a qual entrou em contato a tal ponto de surgir a pretensão de que a fraternidade deva acolher tudo o que provém do movimento ou do grupo encontrado. Psicologicamente e emotivamente estes irmãos vivem destacados das dinâmicas da fraternidade local e provincial; tudo é absorvido da realidade eclesial que dizem “seguir” e dentro da qual desenvolveram um forte sentido de pertença. O diálogo entre os carismas gera riqueza, acolhida e não é raro ver como esta sinergia gerou caminhos de fé, obras caritativas e de promoção humana. A dúplice pertença gera conflitualidade, tensão e faz perder de vista a originalidade da própria vocação. A quem pede para ser Capuchinho e provém de um movimento, não imponho renegar seu passado ( como posso pedir alguém que renegue a realidade que lhe permitiu encontrar o Senhor?), peço, em vez de identificar-se com a proposta bela e santa gerada pelo carisma de Francisco de Assis e pela tradição da nossa Ordem, acolhendo todas a s modalidades e as dinâmicas que permitam uma concreta e real pertença à fraternidade. Em todas as várias questões que giram em torno da dúplice pertença, não escondo que, às vezes me faço uma pergunta que partilho convosco: “por quê nossos frades vão procurar noutros lugares algo que lhes ajude a dar sentido à própria vida?”

Existem depois, situações que criam cisão e divisão na própria pessoa e nas relações com os irmãos; refiro-me às relações afetivas vividas às escondidas, para as quais não se quer pedir nenhuma ajuda e levam, inevitavelmente, mente e coração para fora da fraternidade. Pode ainda acontecer que um frade se identifique com seu ministério ou encargo reduzindo ao mínimo a sua presença e seu empenho na fraternidade. Nestes casos, a humilde procura de uma ajuda que nos suporte num benéfico caminho de avaliação da nossa pertença, pode tornar-se a ocasião para uma renovação interior que permitirá viver a própria vocação com renovada consciência. Irmaõs, quando a “crise” vem visitar a nossa vida, não hesitemos nunca em pedir ajuda!




    1. Celebrar


Precisamos fazer memória da vocação à vida fraterna que distingue a nossa vida. Isto nos ajuda a reforçar o nosso sentido de pertença. Os Ministros provinciais, Custódios e guardiães têm a tarefa de informar e partilhar as orientações e as propostas que nascem da Ordem, as escolhas feitas pelo Capítulo provincial e como chegou-se a formulá-las. O sentido de pertença é cultivado pelos momentos de festa nos aniversários importantes na vida da comunidade e de cada um. Normalmente, nas províncias e fraternidades, faz-se muita crítica, um pouco de benéfica autocrítica, demasiadas recriminações e lamentos. Experimentemos bendizer ao Senhor, pelo que de bom e bonito o irmão realizou em nós e entre nós; seria realmente triste e preocupante se não víssemos mais isso! Não esperemos que alguém morra para relatar o bem que fez, mas agradeçamos ao Senhor porque aquele “santo homem” pertence à minha mesma Ordem: é um de nós!

      1. Iniciar à nossa vida


A iniciação à nossa vida comporta uma série de etapas que devem ser vividas gradualmente e os formadores com a fraternidade são chamados a discernir e verificar a idoneidade do candidato. Introduzir os jovens em formação à nossa vida comporta também a formação àquela dimensão profunda e escondida que chamamos interioridade à qual já acenei no parágrafo 2.2 desta secção. Os jovens e adultos que pensam em abraçar a vida religiosa na nossa forma de vida devem experimentar a dinâmica pascal de morte e ressurreição, conformando-se ao caminho do Senhor Jesus e percebendo toda a beleza de uma existência doada por amor. Mediante a conformação a Jesus Cristo, meditando a sua vida, morte e ressurreição somos progressivamente introduzidos no mistério da salvação. Caros irmãos, este caminho não é reservado somente aos jovens da formação inicial, mas representa o modelo existencial ao qual devemos continuamente inspirar-nos. Contemplar o Mistério pascal que vem habitar a nossa existência, mantém o coração jovem e desejoso do bem, nos torna capazes de ousar, nos faz audazes e nos impede de cair na lógica do comprometimento, da compensação e do desencorajamento. É necessário que amemos e defendamos uma vida sacramental intensa, onde Eucaristia e Reconciliação encontrem um lugar de honra no programa de vida do indivíduo e da fraternidade. Leiamos ainda o que Papa Francisco disse aos religiosos coreanos: “Somente se o nosso testemunho for alegre poderemos atrair homens e mulheres a Cristo; e tal alegria é um dom que se nutre de uma vida de oração, de meditação da Palavra de Deus, da celebração dos sacramentos e da vida comunitária. Quando estes faltam, emergem as fraquezas e as dificuldades que obscurecem a alegria conhecida assim intimamente ao início do nosso caminho.”
É necessário que os nossos formandos sejam encorajados a deixar o homem velho com todos os seus hábitos e a viver a nova pertença a Cristo que se realiza na vida consagrada. O afastamento da própria família, dos hábitos e dos lugares de onde viemos querem ser o sinal desta nova pertença. Os tempos prolongados de oração e silêncio, contatos externos limitados ao estrito necessário, são os elementos que ajudarão aqueles que abraçaram a nossa vida a radicar-se na amizade com o Senhor que doa o cêntuplo àqueles que o amam como o Primeiro de tudo. Nesta obra formativa o exemplo dos formadores e da fraternidade são indispensáveis.

    1. À espera da sua vinda


A nossa pertença a Cristo, à Igreja e à Ordem nos lembra a dimensão escatológica da vida religiosa. A vida sóbria, essencial e alegremente simples , nos coloca na condição de esperar confiantes e alegres a plenitude que não pertence a este mundo mas àquela promessa que Deus preparou para seus filhos quando gozaremos da plena comunhão com Ele. Como é verdadeira e profunda a dimensão de espera que torna mais verdadeiros e essenciais os nossos dias! Alimentemos o desejo de ver o rosto do Senhor com tempos prolongados de vigília e de oração. A vida fraterna, mesmo com todas as suas fadigas e lentidões é verdadeiro testemunho da comunhão sem fim do mundo que virá.


  1. Conclusão


Caros irmãos, obrigado por lerem este meu texto! No início da carta usei a palavra “conversar” e agora que cheguei ao fim, percebo que não fui nem exaustivo nem sistemático. Quis comunicar-vos o que considero essencial sobre a nossa identidade-pertença. Neste essencial espero que cada um possa encontrar um espaço no qual entrar para confrontar a própria vida com a beleza, totalidade e vitalidade do nosso carisma. Penso nas mesmas dinâmicas que regem o encontro com o Evangelho: não é necessário conhecê-lo todo imediatamente, o leitor permanece tocado por um trecho, e quer começar a aprofundar e viver a Palavra e é partindo deste início que em seguida poderá aceder à totalidade e à completude da Boa Notícia. Por isso ouso insistir sobre a vida fraterna: sou consciente de que mais cedo ou mais tarde, ajudados pela Graça de Deus, a fraternidade poderá ser o sinal de relações humanas mais autênticas e que respiram ar puro e vivificante do Evangelho. O frade que vive sua pertença à Ordem com alegria e reconhece na vida fraterna a sua identidade, torna-se fascinante e capaz de uma grande fecundidade espiritual.

    1. Confronto e diálogo


Peço que os frades “trabalhem” sobre esta carta e confio aos presidentes das Conferências, aos Ministros provinciais, Custódios e guardiães a responsabilidade de difundi-la. Irmãos, encontrai-vos para juntos falar, dialogar, discutir sobre os pontos que vos ofereci nesta carta. Acolherei com prazer a carta ou mensagem eletrônica do irmão que desejar comunicar-me as suas próprias reflexões, observações e críticas. O confronto e o diálogo sobre a nossa identidade e pertença poderão ser um válido tema para a formação permanente e por isso vos proponho algumas perguntas que poderão guiar vossos encontros:



  1. Quais são os elementos constitutivos da nossa identidade franciscano-capuchinha que consideras prioritários na atual situação da nossa Ordem e no teu contexto socio-cultural? O que te leva a dizer isso?

  2. A cerca do sentido de pertença, quais são as dificuldades que mais percebes presentes na realidade em que vives: o apego à família de origem? O ativismo no ministério? Falta de transparência no uso do dinheiro? Outro?

  3. Na tua fraternidade, circunscrição, conferência, quais prioridades consideras necessárias para reforçar a nossa identidade de Frades Menores Capuchinhos e o sentido de pertença à Ordem?

Como saudação final vos proponho as palavras que o Papa Francisco dirigiu aos superiores gerais em 29 de novembro de 2013. Deixemo-nos interpelar, não temamos converter os nossos comportamentos, a nossa mentalidade, nossos afetos Àquele que fazendo-nos participantes do carisma de São Francisco preparou-nos um caminho de santidade que, se percorrido, realiza plenamente a nossa existência.

Despertai o mundo! Sejais testemunhas de um mundo diferente no fazer, agir, de viver! É possível viver diversamente neste mundo! Estamos falando de um olhar escatológico, dos valores do Reino encarnados aqui, sobre esta terra. Se trata de deixar tudo para seguir o Senhor. Devereis ser realmente testemunhas de um modo diferente de comportar-se. Mas na vida é difícil que tudo seja claro, preciso, desenhado de modo reto. A vida é complexa, feita de graça e de pecado. Todos erramos e devemos reconhecer a nossa fraqueza. Um religioso que se reconhece pecador e fraco não contradiz o testemunho que é chamado a dar, mas antes, o reforça e isto faz bem a todos. O que eu espero é, portanto, o testemunho. Desejo dos religiosos este testemunho especial.15
Com fraterno afeto no Senhor,.

Frei Mauro Jöhri

Ministro geral OFMCap.

Roma, 4 de outubro de 2014



Festa de São Francisco de Assis.

1 Fique bem claro que esta carta não pretende de algum modo substituir as Constituições renovadas durante o capítulo geral de 2012 e em seguida aprovadas pela Santa Sé, antes,quero que seja considerada como um convite para ler e estudar atentamente as mesmas.

2 La Civiltà Cattolica 2013 III 459 / 3918 (19 setembro 2013).

3 Cfr. PIETRO MARANESI, Il Sogno di Francesco. Rilettura storico-tematica della Regola dei Frati Minori alla ricerca della sua attualità, Assis 2011.

4 Regra bulada, Cap. VI.

5 Cfr. A este propósito a contribuição de GIOVANI POZZI, L’identità cappuccina e i suoi simboli. Dal Cinquecento al Settecento, in: I Cappuccini in Emilia-Romagna. Storia di una presenza, de G. POZZI (a cura), de P. PRODI (a cura), Bolonha 2002, 48 – 77.

6 Rezam a tal propósito as nossas Constituições N. 62,2: “A pobreza exige um padrão de vida sóbrio e simples. Portanto, esforcemo-nos para reduzir ao mínimo as nossas exigências materiais para viver só do necessário, repudiando decididamente toda mentalidade e prática consumista”.

7 Cfr. MAURO JÖHRI, Carta circular a todos os frades da Ordem sobre a missão: “No coração da Ordem a Missão”, Roma 2009.

8 Cfr. A rubrica “Angelus de Joyeuse” in Lexicon Capuccinum, Roma 1951, 73s.

9 Para uma breve apresentação desta dobra da nossa história, cfr. MARIANO D’ALATRI, I Cappuccini. Storia di una famiglia francescana, Roma 1994, 73 – 76.

10 Para saber mais consultar: www.tovpil.org

11 RANIERO CANTALAMESSA, “Osserviamo la Regola che abbiamo promesso” (FF Test. 127, in: Atos do Capítulo internacional das esteiras.. VIII. Centenário das origens (1209 – 2009), Roma 2009, 35 – 52.

12 N. 38.

13 N. 64, 2

14 Continua atual o que diz o VII Conselho Plenário da Ordem, Viver a pobreza em Fraternidade, n.32: “ os capítulos locais são momentos privilegiados para predispor os orçamentos da fraternidade e verificar o modo de gastar o dinheiro. Também a nossa economia, de fato, deve ser expressão de fraternidade e no capítulo local encontra o lugar próprio de confronto com outros valores, como a vida evangélica, a minoridade, etc.”.

15 ANTONIO SPADARO S.I., « Svegliate il mondo ! » Colloquio di Papa Francesco con i Superiori Generali, in: Civiltà Cattolica 2014 I 3 – 17 / 3925 (4 janeiro 2014)



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