Do corpo-próprio à pessoa humana e do sujeito à pessoa moral, segundo a Antropologia Filosófica e a Ética de lima vaz



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Do corpo-próprio à pessoa humana e do sujeito à pessoa moral,
segundo a Antropologia Filosófica e a Ética de LIMA VAZ

Davi Mendes Caixeta1
Resumo
A categoria de pessoa é uma das principais características da filosofia de LIMA VAZ. Através do método dialético na Antropologia Filosóficaparte-se da categoria de corpo-próprio para chegar à categoria de pessoa humana. Por esse mesmo caminho na Ética começa-se pela categoria de sujeito para se finalizar com a categoria de pessoa moral. Dessa forma, os três princípios que orientam o movimento dialético resultam naconcepção das categorias de pessoa humana e de pessoa moral, como as categorias últimas do pensamento antropológico e ético de LIMA VAZ.
Palavras-chave
Lima Vaz, método dialético, pessoa.
Introdução
A filosofia de LIMA VAZ é afirmada como uma filosofia da pessoa. Isso revela a importância que o ser humano possui no pensamento filosófico vaziano. Porém, LIMA VAZ não fica restrito apenas ao âmbito da subjetividade, como ocorreu com a filosofia moderna, mas ele busca superar a imanência do ser humano afirmando sua abertura à transcendência. Por isso, ao ser considerado como autor de uma filosofia da pessoa, também é preciso demonstrar a profundidade e a riqueza de sentido que o termo pessoa revela.

Para tanto, o presente trabalho se propõe a mostrar como a categoria de pessoa, que é a última categoria que LIMA VAZ afirma na sua Antropologia Filosófica e na sua Ética, foi construída, tendo em vista o ponto de partida na subjetividade. Na Antropologia Filosófica, a primeira experiência do ser humano é se conhecer através de seu corpo-próprio e, através do movimento dialético, passar pelas demais categorias de estrutura e de relação até chegar àsduas categorias existenciais,como realização e também como pessoa humana. Na Ética filosófica, o ser humano primeiramente se conhece como sujeito ético dotado de razão e de vontade para, utilizando-se também do movimento dialético, passar pelas demais categorias de intersubjetividade e de objetividade, tanto no que diz respeito ao agir ético como também ao que se refere à vida ética, para se afirmar como pessoa moral.

Diante disso, como primeiro ponto é necessário demonstrar sinteticamente como esse processo de passagem de uma categoria à outra se dá na filosofia de LIMA VAZ. Isso significa que é preciso observar como os princípios do método dialético vaziano permitem que ocorram tanto uma determinação ou limitação como também uma abertura ou ilimitação a uma nova categoria. Em seguida, considera-se como esse movimento dialético ocorre, primeiramente, na Antropologia Filosófica e, em seguida, na Ética. Ao final deste trabalho, busca-se considerar a importância da afirmação do ser humano como pessoa, tendo em vista a riqueza de sentido que essa categoria adquire no pensamento filosófico de LIMA VAZ.
1. O método dialético e seus princípios na Antropologia Filosófica e na Ética de LIMA VAZ
O método que orienta todo o pensamento filosófico de LIMA VAZ é o método dialético. Em síntese, esse método é resultado da conjugação de duas importantes matrizes do pensamento filosófico, que foram as matrizes platônica e hegeliana. Então, LIMA VAZ buscou a inteligibilidade implícita do ser e da história. Inspirando-se na dialética de Platão, é possível observar a passagem do múltiplo para o uno,tendo em vista o movimento vertical rumo à Ideia de Bem. Inspirando-se na dialética de Hegel, há um movimento horizontal segundo uma leitura história da presença do espírito nos diversos momentos da existência do ser humano.Dessa forma, em LIMA VAZ, há a conjugação de um pensamento cosmocêntrico, aos moldes da filosofia de Platão, e um pensamento historiocêntrico, de acordo com as ideias de Hegel.

Esse método dialético, tanto na Antropologia Filosófica como na Ética, organiza o pensamento através de categorias, obedecendo-se ao princípio geral da suprassunção ou Aufhebung.Na Ética, esse método relaciona as categorias nos níveis da universalidade, da particularidade e da singularidade, assumindo na unidade do discurso a particularidade das categorias (VAZ, 2004, p. 19). Já na Antropologia Filosófica, o movimento do método dialético ocorre através das categorias de estrutura, de relação e de unidade. Considerando as categorias dos discursos antropológico e ético, esse movimento dialético é regido por três princípios: o princípio da limitação eidética, o princípio da ilimitaçãotética e o princípio da totalização.

O primeiro princípio é o da limitação eidética, que mostra o ser humano comofinito, determinado e situado em sua forma, visto que eidos significa ‘forma’ ou ‘ideia’. Nesse sentido, VAZ afirma tal princípio é exigido do caráter não-intuitivo do conhecimento intelectual, impondo ao conhecimento somente a necessidade de exprimir o objeto na forma do conceito que delimita uma região de objetividade, mas não se tratando de um conceito totalizante (VAZ, 2006, p. 152-153).

Como o ser humano ainda não tem sua totalidade determinada através do primeiro princípio, tendo em vista que há uma inadequação entre o que é afirmado em uma categoria e o que observado na realidade do ser humano, ocorre o desdobramento do movimento dialético do pensamento filosófico no segundo princípio, que é a ilimitaçãotética. Esse segundo princípiorevela o dinamismo da ilimitação ou da infinidade do ser, produzindo uma negatividade da limitação eidética, dando origem à oposição entre as categorias que leva adiante o movimento dialético (ibid., p. 153).

Diante dessa afirmação e dessa negação, como resultado do confronto entre os dois primeiros princípios, surge oterceiro princípio queé o de totalização. Por um lado, impõe-se a clausura do sistema numa categoria determinada. Por outro, há a implicação a uma abertura estrutural do sistema, uma vez que tal categoria também aponta para uma abertura à transcendência do Ser e do Bem. Assim, há a organização do discurso em um sistema de categorias que leva à totalização, buscando uma categoria última, conservando a abertura do ser humano ao horizonte último do Ser e do Bem (ibid.).

Dessa forma, os sistemas da Antropologia Filosófica e da Ética de LIMA VAZ se inserem num movimento dialético organizado em categorias. Não há um fechamento dos sistemas antropológico e ético, mas sim uma abertura de ambos ao horizonte universal do Ser e do Bem. A categoria última quepossui essas qualidades de afirmar a totalidade do sujeito é a categoria última de pessoa, visto que ela não representa um fechamento do sujeito em si mesmo, mas, como pessoa humana ou pessoa moral, o sujeitopode, simultaneamente, afirmar sua imanência e também a sua transcendência.Então, faz-se mistermostrar como o movimento dialético leva à afirmação dessa categoria de pessoa nos discursos antropológico e ético.


2. Antropologia Filosófica de LIMA VAZ:do corpo-próprio à categoria de pessoa humana
A primeira categoria da Antropologia Filosófica de LIMA VAZ é a categoria de corpo-próprio. Quando o ser humano se pergunta sobre quem ele é, a primeira resposta que surge desta indagação é o conhecimento de si mesmo a partir do corpo. Isso significa que a primeira experiência que o ser humano faz de si mesmo é através de sua corporeidade. Nesse sentido, no início do capítulo sobre essa primeira categoria da Antropologia Filosófica, LIMA VAZ afirma o seguinte:

O problema que se nos apresenta em primeiro lugar é o do homem presente ao mundo por seu corpo. Não se trata do corpo enquanto entidade físico-biológica, mas do corpo enquanto dimensão constitutiva e expressiva do ser do homem. Enquanto tal o corpo é designado na terminologia filosófica contemporânea como corpo-próprio. (ibid., p. 157)


Como a primeira forma de manifestação de uma pessoa é através de seu corpo, considera-se não somente o seu corpo biológico, mas, sobretudo, o seu corpo-próprio, tendo em vista a riqueza de sua expressividade e de sua simbologia. Através do princípio de limitação eidética, o indivíduo faz a seguinte afirmação “eu sou o meu corpo”. Contudo, o ser humano, ao continuar refletindo sobre si mesmo descobre que ele não se reduz ao próprio-corpo, mas a totalidade do sujeito ultrapassa essa categoria. Então, pelo princípio de ilimitaçãotética, esse mesmo indivíduo faz a seguinte negação: “eu não sou o meu corpo-próprio”. Considerando o princípio de totalização do movimento dialético, pondo-se diante tanto daquela afirmação e como dessa negação, o ser humano é impelido a buscar novas categorias sobre a estrutura de seu ser.O sujeito se descobre e se compreende, então, através das outras categorias de estrutura, que são o psiquismo e o espírito.

Entretanto, o movimento dialético sobre a busca do ser humano por conhecer a si mesmo não se encerra nas categorias de estrutura. O sujeito, ao se afirmar e se negar como seu corpo-próprio, como seu psiquismo e como seu espírito, ele se abre para as categorias de relação. A primeira relação se dá com o mundo, como categoria da objetividade. A segunda relação ocorre com o outro, configurando-se a categoria de intersubjetividade. E a terceira relação se dá com o Absoluto, apontando para a categoria de transcendência.

Diante dessas categorias de estrutura e de relação, chega-se à essência do ser humano. Em outras palavras, a primeira definição do sujeito decorrede sua estrutura, considerando-o como um ser-em-si. Em seguida, tendo em vista a abertura constitutiva desse mesmo sujeito para se relacionar, ele também se afirma como um ser-para. Dessa forma, LIMA VAZ aponta para as categorias de estrutura e para as categorias de relação que vêm constituira essência do ser humano, como ser-em-si e como ser-para, respectivamente.

Além disso, LIMA VAZ não encerra sua pergunta sobre o ser humano somente no âmbito da essência, mas, através do movimento dialético, ele avança para a afirmação do ser humano no âmbito de sua existência. A existência do ser humano acontece através de seus atos, que apontam para as categorias de unidade, como realização e como pessoa. O sentido da humanidade de um sujeito somente se torna completo a partir do momento em que ele realiza essa sua própria humanidade por meio de seus atos.

Sendo fiel ao movimento dialético, chega-se ao termo da Antropologia Filosófica na categoria de pessoa. Essa categoria, apesar de ser o fim, não representa um fechamento ou uma limitação do ser humano. Como pessoa, o sujeito afirma sua essência e realiza sua existência, mantendo a sua abertura ao horizonte transcendental do Ser. A categoria de pessoa é uma unidade final do ser humano, mas “no sentido de que ela traça um roteiro de unidade que recupera, ao termo do discurso, a direção primeira e a linha ordenadora da sucessão dos seus momentos” (VAZ, 1992, p. 216). Nesse mesmo sentido, OLIVEIRA afirma o seguinte:

A categoria de pessoa é a expressão categorial da experiência integradora e sintética que cada um faz de si mesmo quando se experimenta como ‘inalienável interioridade’ (o Eu sou constituindo-se e exprimindo-se para-si nas categorias de estrutura) e como imperativo de abrir-se para a exterioridade do outro (o Eu sou constituindo-se e exprimindo-se para-outro nas categorias de relação). (OLIVEIRA, 2013, p. 187-188)


Dessa forma, a Antropologia Filosófica de LIMA VAZ necessariamente aponta para a sua Ética, uma vez que a pessoa humana realiza-se somente por meio dos atos morais, que é a expressão propriamente humana da sua existência (VAZ, 2004, p. 236). Através desses atos da própria pessoa, há a expressão mais radical da singularidade do ser humano em sua vida ética.
3. Ética Filosófica de LIMA VAZ:do sujeito à categoria de pessoa moral
A Ética de LIMA VAZ, assim como sua Antropologia Filosófica, também segue o método dialético. Nesse sentido, o ponto de partida para a formulação do sistema ético é o próprio ser humano que se pergunta sobre o seu próprio agir. A resposta desse questionamento leva à sistematização da racionalidade prática, tendo em vista seus pressupostos metafísico, antropológico e epistemológico. A partir do sujeito ético, como aquele que reflete e se pergunta sobre seu próprio agir, LIMA VAZ, perfaz o caminho dialético, considerando, primeiramente, o agir ético e,em seguida, a vida ética, através dos níveis da universalidade, da particularidade e da singularidade.

A primeira categoria da Ética é a subjetividade do agir ético e também da vida ética. Isso ocorre porque o ser humano, através de sua racionalidade prática, é dotado de razão e de vontade, que o orientam na direção do Bem. Em seguida, LIMA VAZ afirma que é imprescindível que tais atos passem da abstração para a concretização, através da sua determinação numa situação tempo-espacial. Como resultado desse movimento de universalidade negada pela particularidade, há a formação da consciência moral, no nível da singularidade subjetiva, quando o sujeito faz uma reflexão e um julgamento de seu próprio agir, através de juízos que buscam conformar o ato moral com a norma objetiva do Bem.

Em seguida, considerando o movimento dialético que norteia todo o pensamento ético de LIMA VAZ, o ser humano tem a necessidade da se afirmar numa comunidade, ou seja, há a exigência do reconhecimento de diversos sujeitos éticos que fazem parte de uma comunidade.Passa-se, dessa maneira, à categoria da intersubjetividade do agir e da vida ética. Essa segunda categoria da Ética tem como resultado a formação de uma consciência moral social, uma vez que há o reconhecimento e o consenso de uma sociedade ética.

O terceiro passo dado na Ética de LIMA VAZ, mantendo fidelidade ao método dialético do pensamento sobre o agir humano, aponta para a categoria da objetividade do agir e da vida ética. De acordo com essa categoria, os diversos sujeitos chegam à compreensão da ideia de Bem que norteia suas ações e suas vidas, da cultura em que estão envolvidos e da história que foi sendo construída. Em suma, os diversos sujeitos éticos se veem inseridos num universo ético, em que a ideia do Bem se reflete no próprio ethos como uma intuição moral.

Na conclusão de sua Ética filosófica, LIMA VAZ afirma a categoria de pessoa moral, que exprime, ao mesmo tempo, a completude e a abertura do sistema ético. No entanto, conforme o próprio LIMA VAZ, a expressão “pessoa moral” é, sob certo aspecto, redundante, uma vez que toda pessoa humana é, por essência, um ser moral enquanto princípio dos atos que são propriamente atos humanos. No entanto, o uso que se faz de pessoa e de pessoa moral serve apenas para distinguir os objetos formais das duas disciplinas filosóficas a que dizem respeito. Ao se falar apenas em pessoa, refere-se à categoria final da Antropologia Filosófica. E ao se falar em pessoa moral, isso diz respeito à última categoria da Ética Filosófica (VAZ, 2004, p. 237-238).

Dessa forma, a categoria de pessoa moral revela sinteticamente o desdobramento conceptual do sujeito ético. Elaexprime a essência do ser humano como ser moral, que se manifesta em seu agir e em sua vida, ou seja, no operar de sua Razão prática cuja estrutura e movimento dialético traçaram o fio de todo o discurso ético (ibid., p. 238). Em suma, entende-se a pessoa moral como a manifestação dinâmica num processo contínuo de auto-realização, que constitui o sujeito ético em sua ipseidade e sua liberdade (ibid.).


Conclusão: atotalidade do ser humano e a categoria de pessoa
A categoria de pessoa, seja a pessoa humana da Antropologia filosófica, seja a pessoa moral da Ética, se traduz como uma determinação ou realização do ser humano, mas também como uma abertura e uma ilimitação desse mesmo sujeito. Essa categoria exprime, ao mesmo tempo, a imanência e a transcendência do ser humano. Segundo o próprio LIMA VAZ, “a pessoa é um todo. Mas justamente porque no ápice de sua constituição ontológica ela se abre, pela inteligência e pela liberdade, à universalidade do Ser e do Bem, é, paradoxalmente, um todo aberto” (VAZ, 2004, p. 237).

A categoria de pessoa, conforme exposta na Antropologia Filosófica e na Ética, tem sua origem na acepção do teatro grego do termo prósopon, passando, em seguida, pelas acepções gramatical, retórica, jurídica, sociológica e teológica. Foi na origem teológica do termo pessoa que duas características fundamentais serão herdadas: a subsistência e a manifestação. Diante da riqueza histórica desse termo, LIMA VAZ o utiliza para exprimir a totalidade do ser humano, mas apontando para sua dimensão de abertura, ilimitação e transcendência. Isso somente é possível diante de todo o processo segundo o qual a categoria de pessoa é elaborada, sempre fiel ao método dialético, segundo as matrizes platônica e hegeliana, perpassando-se pelos princípios de limitação tética, ilimitação eidética e de totalização. Como forma de elucidar esse percurso dialético através de categorias, OLIVEIRA resume-o da seguinte forma:



As categorias de estrutura e relação que definem a essência do ser humano, ao ser pensadas a partir dos princípios eidético,tético e de totalização, pretendem exprimir o ser do sujeito como algo delimitado, mas, ao mesmo tempo, como algo essencialmente dinâmico e ilimitado. O princípio de ilimitaçãotética introduz nas categorias que definem a essência do sujeito o movimento e o dinamismo. A oposição entre a determinação eidética e o dinamismo ilimitado do princípio tético conduz o discurso à suprassunção desses dois momentos na dimensão existencial. (OLIVEIRA, 2013, p. 199)
Tendo em vista a complexidade e a profundidade com que o método dialético leva à definição do ser humano como pessoa, tal categoria última exprime a totalidade do ser humano, considerando sua unidade dinâmica ou síntese dialética de essência e de existência. Contudo, a partir dessas duas noções de pessoa, humana e moral, observa-se que não pode haver nem uma Antropologia Filosófica e nem uma Ética sem a Metafísica. A relação dessas três disciplinas, permanecendo sempre fiel ao método dialético, leva ao ponto alto da filosofia de LIMA VAZ, expresso através da noção de Pessoa Absoluta.
Referências:
OLIVEIRA, Cláudia Maria Rocha de. Metafísica e ética – A filosofia da pessoa em Lima Vaz como resposta ao niilismo contemporâneo. São Paulo: Loyola, 2013.
VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia Filosófica. Vol. I. 8ª ed. São Paulo: Loyola, 2006.
______. Antropologia Filosófica. Vol. II. São Paulo: Loyola, 1992.
______. Introdução àÉtica Filosófica 2. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.

1 Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo – USP. Graduando em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Participante do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da FAJE 2013/2014. Contato: davicaixeta@gmail.com



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