Disciplina: Literatura



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Colégio Maria Imaculada





Avaliação: bimestral

Disciplina: Literatura




Data: 1º BIMESTRE

Prof.(a) Giselle

Nota

Nome :




NO

1ª Série:

CADERNO DE QUESTÕES

ATENÇÃO : Os espaços para as respostas neste CADERNO DE QUESTÕES foram eliminados em virtude do tempo da prova. PASSE AS RESPOSTAS DIRETAMENTE NA FOLHA DE RESPOSTAS.

Somente a FOLHA DE RESPOSTAS será corrigida

Entregue, ao professor de sua sala, o CADERNO DE QUESTÕES junto com a FOLHA DE RESPOSTAS ao término da prova.


  1. Leia o texto abaixo de autoria do escritor argentino Julio Cortázar e responda às questões:



Continuidade dos parques
Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta ao procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque dos carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse, de quando em quando, o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance das mãos, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do mato. Primeiro entrava a mulher receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos, o punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha o seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.

Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que o levaria a casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.



( CORTÁZAR, Julio. Continuidade dos parques. In: Final do jogo. Trad. Remy Gorga Filho. 3.ed. Rio de Janeiro: Expressão e cultura, 1974. p.11-3)


  1. Em que pessoa encontra-se o foco narrativo?




  1. Há onisciência no foco narrativo. Se há, retire um trecho do texto que comprove sua resposta; se não há, justifique sua resposta.




  1. Qual era o objetivo do homem ao ler o romance? Esse objetivo foi alcançado? Por quê?

d. Como era a história do romance que o personagem estava lendo? ( conte resumidamente)


e. De que forma a história do romance se liga com a do personagem?
f. A que gênero literário pertence este texto?

2. Leia os textos abaixo e, em seguida, responda:


Texto 1
Descuidar do lixo é sujeira
Diariamente, duas horas antes da chegada do caminhão da prefeitura, a gerência ( de uma das filiais do McDonald’s) deposita na calçada dezenas de sacos plásticos recheados de papelão, isopor, restos de sanduíches. Isso acaba propiciando um lamentável banquete de mendigos. Dezenas deles vão ali revirar o material e acabam deixando os restos espalhados pelo calçadão ( Veja São Paulo, 23-29/12/92)

Texto 2
O bicho
Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem. ( Manuel Bandeira )

a. Os dois textos apresentam semelhança quanto ao conteúdo. Identifique-a.


b. Leia as informações abaixo, a respeito dos textos e assinale 1 se a informação se referir ao texto 1, e 2 se a informação se referir ao texto 2.


  1. Apresenta linguagem figurada, rica em significados_______

  2. Apresenta linguagem impessoal, objetiva. ______

  3. Linguagem contaminada emocionalmente pelos sentimentos de seu emissor ______

  4. Utiliza a função poética da linguagem.______

  5. Retrata um caso específico, em que predomina a denotação_____

  6. Retrata casos em geral, em que predomina a conotação._______

  7. Utiliza a função referencial da linguagem._____

  8. Texto literário.____

  9. Texto não literário._____

  10. Não se preocupa com a precisão da informação____

c. Qual é o objetivo do autor do texto 1?


d. Qual é o objetivo do autor do texto 2?

Leia com atenção:


.Ponto de vista ou foco narrativo é a perspectiva segundo a qual o narrador conta sua estória . É, portanto, uma espécie de lugar hipotético de onde ele vê as coisas de que fala. Esse lugar hipotético pode facultar ao narrador uma visão interna ou externa, total ou parcial dos incidentes e das personagens de sua estória, de onde resultam as várias classificações do narrador ficcional. A partir dessas observações, classifique corretamente os textos apresentados:

3. Texto I

Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuário de neve. Servia-me alguns pratos, muitas carícias; eu devorava as carícias. Não ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dois olhos perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava também, não tenho certeza, do outro lado, por entre as flores, o Professor Crisóstomo.

(Raul Pompéia. O Ateneu.))


a) Ponto de vista em terceira pessoa, porque a personagem, ao falar de si, concentra sua atenção nos outros.

b) Ponto de vista em primeira pessoa onisciente, porque a personagem sabe tudo sobre si e sobre a situação em que se encontra.

c) Ponto de vista em primeira pessoa, porque a personagem se inclui na narrativa, mesmo quando fala dos outros.

d) Ponto de vista limitado pela perspectiva da narrador personagem, que domina todos dos dados da situação.

e) Ponto de vista privilegiado pela perspectiva da narrador personagem, que simula desconhecer para conhecer meIhor o ambiente.

4. Texto II

Rubião fitava a enseada, - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que

ele admirava aquele pedaço de água quieta: mas, em verdade vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora! Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Tunis que Ihe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo


a) Ponto de vista em primeira pessoa, porque o narrador fala de personagem próxima a ele e sabe tudo sobre essa pessoa: interior e exterior, passado e presente.

b) Ponto de vista em terceira pessoa, porque o narrador fala de outrem, sem contudo demonstrar absoluto conhecimento da situação.

c) Ponto de vista que oscila entre primeira e terceira pessoa, porque o narrador fala de outro e de si mesmo, fundindo se com a personagem de que fala.

d) Ponto de vista em terceira pessoa onisciente, porque o narrador fala de outrem e sabe tudo sobre essa pessoa: interior e exterior, passado e presente.

e) Ponto de vista em primeira pessoa onisciente, porque a narrador-personagem fala de si como se fosse outra pessoa

5. Leia com atenção:


Texto I
Cenário ou espaço de um romance é o ambiente em que se desenlaça

a ação. Assim, pode-se dizer que o cenário das Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é o Rio de Janeiro do começo do século XIX, da mesma forma que o cenário de o Guarani é o mato virgem brasileiro nos tempos coloniais. Vê-se , portanto, que a ideia de cenário tem a ver com a noção de tempo do romance, isto é, com a época em que se desenvolve a ação.

Texto II

A mobília da sala consistia em sofá, seis cadeiras e dois consolos de jacarandá, que já não conservavam o menor vestígio de verniz. O papel da parede de branco passara a amarelo e percebia- se que em alguns pontos já havia sofrido hábeis remendos.

O gabinete oferecia a mesma aparência. O papel que fora primitivamente azul tomara a cor de folha seca. Havia no aposento uma cômoda de cedro que também servia de toucador, um armário de vinhático, uma mesa de escrever e, finalmente, a marquesa, de ferro, como o lavatório, e vestida de mosquiteiro verde.

Tudo isto, se tinha o mesmo ar de velhice dos móveis da sala, era como aqueles cuidadosamente limpos e espanejados, respirando o mais escrupuloso asseio. Não se via uma teia de aranha na parede, nem sinal de poeira nos trastes. O soalho mostrava aqui e ali fendas na madeira; mas uma nódoa sequer não manchava as tábuas areadas.

A partir das noções teóricas do texto I e de outras disponíveis no material do curso de Literatura, classifique o texto II .

a) A descrição que compõe o cenário revela, a partir do rigor nos pormenores, somente intenção ornamental.

b) Além de trazer o leitor para dentro do romance, o cenário tem função de caracterizar social e psicologicamente as personagens.

c) O cenário tem função instrumental: revela as aptidões do escritor para a descrição de caráter realista, propiciando melhor compreensão do foco narrativo.

d) O cenário, nesse caso, nada tem a ver com o tempo da narrativa, apenas ajuda a de caracterizar as personagens.

e) Embora de informações sobre o estado dos móveis, o cenário, nesse caso, não possui maior importância sobre as personagens da obra

6. Assinale a alternativa incorreta:
a) Literatura é a utilização artística da linguagem, assim como a música é a utilização artística dos sons e a pintura, das formas e cores.

b) Verso é uma unidade de texto, correspondente a uma Iinha, na qual se preenche um determinado modelo rítmico. Toda vez que o modelo rítmico é preenchido, o verso

termina, iniciando-se outro verso na linha seguinte (daí o nome verso, que significa "vertido", "voltado", "virado" para o início da linha).

c) Metro é o modelo rítmico a que os versos tradicionais correspondem. Em Português, o metro depende basicamente do número das sílabas e da distribuição dos acentos

e das pausas.

d) Na poesia moderna, quando um verso não corresponde a nenhum metro tradicional, dizemos que se' trata de verso livre.

e) Na arte, a palavra "Iiteratura" designa qualquer tipo de texto escrito, uma vez que o vocábulo vem do latim littera,que significa "Ietra" (sinal usado na escrita).

7. Leia o seguinte poema e responda :


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

E triste, e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...


E paramos de súbito na estrada

Da vida: longos anos, presa à minha

A tua mão, a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje, segues de novo... Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece.

Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.



  1. A que gênero literário pertence este texto? Justifique.




  1. Metrifique os dois primeiros versos da segunda estrofe .




  1. Quantas sílabas poéticas possuem?

  2. Quanto à forma de composição, como se chamam poemas como este?

  3. Cite duas características da função poética que podemos encontrar nesse poema.

  4. Como é o esquema rímico do poema?



TESTES

( FUVEST) Leia o seguinte poema de Manuel Bandeira e responda aos teste 1 a 4:



Satélite
Fim de tarde.

No céu plúmbeo

A Lua baça

Paira


Muito cosmograficamente

Satélite
Desmetaforizada,

Desmistificada,

Despojada do velho segredo de melancolia,

Não é agora o golfão de cismas,

O astro louco e dos enamorados.

Mas tão-somente

Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,

Demissionária de atribuições românticas,

Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,

Gosto de ti assim:

Coisa em si,

Satélite.


1. Assinale a alternativa correta de acordo com o texto. O poema:

  1. restringe-se a uma descrição rigorosa de um fim de tarde

  2. lamenta a morte das noites de sua juventude, pois já não pode contemplar a lua.

  3. reduz a lua a um “golfão de cismas”

  4. manifesta o seu afeto à lua, independentemente de significações sentimentais que outros atribuíram a ela

  5. limita-se à narração de um episódio que ocorreu num fim de tarde

2. O poeta afirma sua afeição à lua:



  1. para fazer apologia do progresso científico

  2. para advertir que não estamos mais em tempo de dar vazão aos nossos sentimentos

  3. porque ela ainda é “o astro dos loucos e dos enamorados”

  4. para criticar a ausência de sentimento no mundo

  5. apesar de despojada da metáfora e do mito

3. Indique qual dos seguintes trechos do poema contradiz a passagem “Sem show para as disponibilidades sentimentais “ e justifique sua escolha:



  1. “Gosto de ti assim”

  2. “Despojada do velho segredo de melancolia”

  3. “Não é agora o golfão de cismas”

  4. “A Lua baça / Paira”

  5. “Demissionária de atribuições românticas”

4. Assinale a alternativa em que a expressão extraída do texto pode ser substituída por “exclusivamente”, mantendo-se a máxima fidelidade ao sentido do poema:



  1. cosmograficamente

  2. agora

  3. tão-somente

  4. sem show

  5. assim

(FUVEST- adaptada)

5. Essa vida por aqui

é coisa familiar;

mas diga-me retirante,

sabe benditos rezar?

sabe cantar excelências,

defuntos encomendar?

sabe tirar ladainhas,

sabe mortos enterrar?

(João Cabral de Melo Neto, "Morte e vida severina")
O número de sílabas métricas (ou poéticas) dos versos do excerto é o mesmo do seguinte provérbio:

a) A bom entendedor / meia palavra basta.

b) Água mole em pedra dura / tanto bate até que fura.

c) Quem semeia vento / colhe tempestades.

d) Quem dorme com cães / amanhece com pulgas.

e) Cabeça de vadio / hospedaria do diabo.



Colégio Maria Imaculada






Avaliação: Bimestral

Disciplina: Literatura




Data 2º BIMESTRE

Questões:

Páginas

Nome:

Nº: Série: 1ª

Turma:

Nota/Valor

Professor(a): Giselle

1. Leia um fragmento da novela de cavalaria Amadis de Gaula e, em seguida responda às questões:



Combates de Amadis e salvação de Oriana
Quando o outro cavaleiro viu tal destruição em seus companheiros, começou de fugir quanto mais podia. Amadis que ia em pós ele, ouviu gritar a sua senhora; e, tornando prestes, viu Arcalaus, já montado, tomando Oriana pelo braço, pô-la em frente de si e fugir a todo galope. Sem detença, correu em sua perseguição, alcançou-o na larga campina e alçou a espada para o ferir. Sofreu-se, porém de lhe dar grande golpe, porque a espada era tal que, matando-o a ele, mataria sua senhora. Descarregou-lho por cima das espáduas, sem grande força; mas ainda lhe derribou um pedaço de loriga e um pouco de couro dos lombos.

Então Arcalaus, para melhor fugir, deixou cair por terra Oriana, com temor da morte. Amadis gritou-lhe:

- Arcalaus! Vem cá, e verás se estou morto como disseste!

Mas ele não quis ouvir e lançou fora o escudo . Amadis alcançou-o e deu-lhe de longe uma espadeirada na cinta, que lhe cortou a loriga e a carne e foi tocar na ilharga do cavalo. O animal amedrontado começou a correr de tal forma que em pouco tempo se alongou a perder de vista.

Amadis, ainda que muito o desamasse e desejasse matar, não foi mais adiante para não perder sua senhora, e voltou para onde ela estava. Desceu do cavalo, foi-se pôr de joelhos diante dela, beijou-lhe as mãos e disse:

- Agora faça Deus de mim o que quiser, que nunca, senhora, cuidei tornar a ver-vos!

Oriana estava tão sobressaltada que não lhe podia falar; e abraçou-se com ele, com medo que tinha dos cavaleiros mortos, que jaziam a seus pés. A donzela de Dinamarca foi tomar o cavalo de Amadis; vendo por terra a espada de Arcalaus, pegou nela e trouxe-lhe dizendo:

- Vede, senhor, que formosa espada.

Amadis atentou nela e viu que era aquela com que o tinham deitado ao mar, e que Arcalaus lhe furtara, ao encantá-lo.

Estando assim, como ouvis, sentado junto de sua senhora, que não tinha ânimo para se levantar, chegou Gandalim, que andara toda a noite, e com quem sentiram grande prazer. Também ele o sentiu, vendo o bom fim daquelas coisas.

Amadis ordenou-lhe que pusesse a donzela de Dinamarca em cima de um dos cavalos que andavam à solta. E, pondo Oriana sobre o palafrém da donzela, partiram de ali tão alegres que mais não podiam ser. Amadis levava sua senhora pela rédea. Ela ia-lhe dizendo o quanto se sentia amedrontada com todos aqueles cavaleiros mortos e que ainda estava fora de si. Ele respondeu-lhe:

- Muito mais espantosa e cruel é aquela morte em que eu por vós padeço. Senhora, doei-vos de mim e lembrai-vos do que me prometestes. Se até aqui me sustive, foi só porque creio que não estava em vossa mão o poder de dar-me mais do que me dáveis. Mas, se de aqui em diante, vendo-vos, senhora, em tanta liberdade, não acudísseis ao meu desejo, nenhuma coisa bastaria já para me fazer suportar a vida; antes seria acabada com, a mais rabiosa ânsia que jamais se viu.

- Por boa fé, amigo – disse Oriana – nunca por minha causa correreis esse perigo, pois farei o que vos está na vontade. E vós fazeis com que, embora pareça erro e pecado ao mundo, o não seja perante Deus.

Assim andaram três léguas, até que entraram num bosque muito cerrado, distante coisa de légua de uma vila. Oriana deixou-se tomar do sono, como quem nada dormia a noite passada.

- Amigo – disse – vem-me tão grande sono, que lhe não posso resistir.

- Senhora – respondeu – vamos àquele vale e ali dormireis.

E , desviando-se do caminho, guiaram para o vale, onde acharam um pequeno arroio de água e erva verde muito fresca. Ali desceu Amadis sua senhora e disse-lhe:

- Senhora, a sesta está mui calorosa. Dormireis aqui até que venha o fresco. Entretanto, enviarei Gandalim àquela vila trazer-nos mantimentos.

- Que vá – disse Oriana – mas como os pagará?

- Levará aquele cavalo e depois voltará a pé.

- Não, assim não – acudiu Oriana. Leve este anel , que nunca nos valerá certamente tanto como agora.

E tirando-o do dedo, deu-o a Gandalim , o qual, ao ir-se, disse de manso a Amadis:

- Senhor, quem tem boa ocasião e a perde, tarde vem a cobrar.

E, dizendo isto, logo se foi. Amadis entendeu bem por que o dizia.

Oriana deitou-se sobre o manto da donzela, enquanto Amadis se desarmava, que bem preciso lhe era. Como a donzela fosse dormir para debaixo de umas árvores espessa, Amadis, desarmado voltou para o pé de sua senhora. E, quando a viu assim tão formosa e em seu poder, tendo ela acedido ao seu desejo, ficou tão torvado de prazer e enleio que nem se atrevia a olhar para ela. Pode por isso dizer-se que naquela verde erva, e em cima daquele manto, mais por graça e comedimento de Oriana que por desenvoltura de Amadis, foi feita dona a mais formosa donzela do mundo. E, crendo com isso resfriar as suas ardentes chamas, ficaram ao contrário, muito mais acrescidas, fortes e incendiadas, como acontece nos sãos e verdadeiros amores.

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