"deuses" e "PÓS" análise de duas versões de poemas de augusto de campos



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“DEUSES” E “PÓS” – ANÁLISE DE DUAS VERSÕES DE POEMAS DE AUGUSTO DE CAMPOS

Lúcia Helena Bosco de MIRANDA

lucibosco@hotmail.com; UFRN

Francisco Fábio Vieira MARCOLINO

fabiovieiramarcolino@gmail.com; Poesia brasileira dos anos 2000; UFRN

Augusto de Campos costuma incorporar inovações tecnológicas a sua obra e, em Outro (2015), seu livro mais recente, o poeta disponibilizou links para as versões digitais de alguns poemas. Este trabalho tem como objetivo analisar os poemas “deuses” e “pós”, de Augusto de Campos, nas suas versões impressas e digitais, recolhidos no livro Outro (2015). Em ambos os poemas, a escolha tipográfica peculiar causa um estranhamento inicial no leitor e prolonga sua experiência perceptiva. Fusões anagramáticas e o uso do recurso da paronomásia ampliam a expressividade da linguagem. Para amparar nossa discussão nos apoiaremos nos estudos Antonio Risério (1998), Jorge Luiz Antonio (2010), Irene Machado (2002), Flaviano Maciel Vieira (2015). No tecno-poema “deuses”, recursos visuais e de áudio são acrescentados, o que permite uma associação imediata à imagem de deuses jogando dados. A experiência sensorial com o poema é, assim, ampliada quando ambientada em contexto digital. Seguindo a tendência de vários dos outros poemas de Augusto de Campos em Outro, “deuses” faz homenagem a uma figura ilustre, referindo-se a Mallarmé e seu Um lance de dados. O poema, publicado em 1897, revolucionou com seu arranjo tipográfico peculiar e por não utilizar o verso tradicional. Em “pós”, Augusto de Campos utiliza a rarefação do tipo, mantendo um estilo minimalista. O poeta presta outra homenagem, desta vez ao seu irmão Haroldo de Campos, que traduziu o Eclesiastes, livro que faz referência à insignificância das vaidades. “Pó” e “pós” relembram a insignificância da existência perante a grandiosidade do universo.

Palavras-chave: Poesia brasileira contemporânea. Augusto de Campos. Outro. Poesia em contexto digital.


  1. Introdução - a poesia digital

A incorporação de elementos da era da informática e da internet à linguagem poética deu origem à poesia digital ou tecnopoesia. A poesia teve seu potencial ampliado em possibilidades infinitas, proporcionais à quantidade de softwares disponíveis.

No Ensaio sobre o texto poético em contexto digital Antonio Risério (1998) considera que a tecnologia não é apenas um meio a ser usado na arte. Para o autor, o desenvolvimento tecnológico modificou o pensamento humano ao longo das eras e alterou nossos símbolos, o que teve reflexos profundos nas formas estéticas. Risério considera que Poetamenos (1953), obra com poemas multicoloridos e multilíngues de Augusto de Campos, foi o marco de uma nova partida lírica no Brasil. Campos, mais tarde, buscaria ativamente as novas tecnologias disponibilizadas pela computação para incluir em sua obra os movimentos, sons e texturas que caracterizam a poesia digital, o que o tornaria um criador de “Artesanato poético”.

Segundo Jorge Luiz Antonio (2010), a tecnopoesia resulta de negociações semióticas entre a poesia e a tecnologia computacional. Em uma fase inicial, o poeta precisa tomar conhecimento de conceitos tecnológicos, o que possibilita que o signo da máquina tenha significação na arte verbal. A próxima etapa é a intervenção na linguagem da máquina por meio da criatividade do artista, resultando em uma linguagem híbrida. A tecnologia torna-se instrumento para a produção da arte e para o uso da palavra em sua potencialidade máxima.

De acordo com Santaella (2003), a proliferação de mídias que caracteriza a pós-modernidade, juntamente com o surgimento de mensagens segmentadas e híbridas geraram mudanças nos receptores dessas mensagens. Enquanto a cultura de massas se caracteriza por uma atitude inerte por parte do receptor, na cultura de mídias existe uma busca individualizada da mensagem e da informação pelo usuário. A cultura de mídias trouxe consigo uma multiplicidade de mensagens e fontes, tornando necessária uma maior seletividade por parte da audiência. A cibercultura, caracterizada por relações de troca entre a cultura e as mídias digitais, trouxe consigo mudanças no trabalho artístico. Se antes os artistas trabalhavam aperfeiçoando suas técnicas, hoje essa técnica artística está mais relacionada à capacidade de manipulação da tecnologia. Isso ocasionou, segundo a autora, o surgimento de uma arte computacional.

A multiplicidade de mídias com potencial de utilização pela tecnopoesia leva à necessidade de uma categorização das leituras possíveis. Jorge Luis Antonio (1998) menciona que abordagens e soluções diferenciadas são requeridas ao se analisar formas de expressão distintas. Flaviano Maciel Vieira (2013) propõe uma classificação de leituras da poesia digital em 6 categorias, que podem estar presentes em maior ou menor grau na variedade existente de poemas digitais:

1.categoria verbo-digital, correspondente ao signo verbal e que estabelece relação dialógica com a poética tradicional;

2. categoria sonoro-relacional, possibilitada pelas mídias sonoras e cuja relação com a categoria verbal e a categoria imagética é bastante próxima;

3. categoria imagético-digital, gerada pelas imagens de natureza computacional;

4. categoria HHMI ou hipertextual, hipermidiática, multimidiática e interativa, caracterizada pelo direcionamento da leitura pelo leitor-autor de acordo com as possibilidades interativas existentes;

5. categoria tempo-poético-digital ou uma nova perspectiva quanto ao tempo de leitura de poemas;

6. categoria de tradução-intercódigos ou tradução/diálogo que se dá entre obras que apresentam suportes diferentes.

A análise de tecnopoema vai além da sua estrutura visível ou sonora, devendo incluir também as ferramentas do computador que possibilitaram a existência do produto final. A materialidade da escrita, não apenas seu conteúdo é relevante (MACHADO, 2002), ou seja, todo o processo da fabricação e transmissão da mensagem é importante.



  1. Análise de “deuses” e “pós”

Augusto de Campos produziu até o momento quatro livros de poemas. Sua produção mais recente é Outro, lançado em 2015, que abriga os poemas a serem analisados neste trabalho. Embora a obra de Campos como um todo tenha sido alvo de várias análises, seu lançamento mais recente ainda carece de estudos. Assim, considera-se que o presente artigo pode trazer contribuições para esse campo das pesquisas literárias.

Os poemas “deuses” e “pós” em sua versão impressa no livro Outro, encontram-se separados por dois outros poemas, chamados “d?vida” e “humano”. Na versão digital, Campos elimina os poemas intermediários e os coloca no mesmo link, talvez de forma intencional – ao localizá-los na mesma página, o poeta estabelece um diálogo entre ambos. Ao retirar os outros poemas, presentes na versão impressa, exclui o “humano” e a “dúvida”/”dívida”, deixando apenas o contraste entre as ideias de “deuses” e do “pó” para reflexão. Na sua versão digital “pós” tem o título modificado e torna-se apenas “pó” – de forma intencional, o poeta cria um novo poema ao renomeá-lo.



A figura abaixo mostra a versão impressa de “deuses”:

Figura 1 - "deuses”

Fonte: http://www.erratica.com.br/?id_obra=119

Nessa versão o leitor observa um fundo negro que faz contraste com tipos brancos que formam “deuses / doam / dados / doados / deuses / doem”. Decifrar a mensagem à primeira vista é uma tarefa difícil. Os pontos brancos prolongam o estranhamento que “deuses” causa. O fundo preto parece remeter a um pessimismo ou angústia humanos. Isso dá ideia de falta de esperança e horizonte, fazendo menção ao caos completo em que estamos mergulhados, que se opõe aos deuses jogando dados para decidir o destino de cada um.

Existe uma tensão semântica no último verso, composto por “doem”, que pode ser tanto terceira pessoa do plural do presente do subjuntivo do verbo “doar” (“que eles doem”) quanto presente do indicativo do verbo “doer” (“eles doem”), o que pode ser referência do poeta à existência humana, muitas vezes considerada um dom divino com percalços a enfrentar ao longo da trajetória de cada um. Ou seja, a vida -um dom- é doada, e também doída. “Doem” também é doar no imperativo (“doem a eles”) e o eu lírico incita o receptor da mensagem a doar, apesar da dor. O pequeno verso vem carregado de significados. Augusto de Campos condensa, assim, em poucas palavras, uma série de reflexões existenciais.

Em “doam/ dados/ doados” Campos também faz um jogo com “doados”- uma fusão anagramática entre “dados” e a própria palavra “doados”. A etimologia de “dado” torna o anagrama do poeta mais interessante. A palavra, originada da latina ”datu”, significava originalmente “doado pela sorte” ou “dom”, passando a nomear um instrumento para jogo de azar apenas mais tarde. Vê-se, então, que o poeta fez uma fusão de termos que, em sua essência, são próximos entre si. Encontramos no poema uma mensagem implícita de que deuses doam, além dos dados que aludem ao destino, um dom, que pode ser a própria vida.

A ausência de pontuação entre os versos de “deuses” permite que o leitor também faça seus próprios jogos de linguagem, criando diversas formas de leitura: de cima para baixo ou de baixo para cima, por exemplo. Isso dá ao poema uma grande abertura para interpretações. Campos faz, ainda, rimas internas e utiliza o recurso da paronomásia, (JAKOBSON, 2007), escolhendo palavras com sonoridade próxima, mas com grande distanciamento semântico, o que gera um aumento da expressividade na linguagem.

O tecno-poema “deuses” (v. http://www.erratica.com.br/?id_obra=119) utiliza tanto recursos visuais quanto recursos de áudio para incrementar as sensações do leitor. Enquanto o poema impresso mostra a mensagem acabada ao primeiro olhar, o link permite a visualização de uma versão mais lúdica do texto. Trata-se de um texto diferente do que está presente no livro, que desperta outras impressões, como tensão com o desenrolar da mensagem, expectativa em relação aos sons e aos movimentos da tela. Augusto de Campos destaca a intencionalidade de sua produção no prefácio de Outro: “Sinto que vários desses poemas – quadros querendo ser clips – perdem algo de sua intencionalidade na medida em que são ou formas estáticas, derivadas de animações digitais, ou projetos de clip-poemas pedindo movimento e som. Alguns podem ser vistos nos portais indicados ao final deste volume”. Chamam atenção no poema digital o som de dados sendo jogados e o aparecimento lento das letras e palavras. O modelo tipográfico escolhido também é peculiar e lembra a disposição dos pontos que formam os números em dados – a fonte iconiza os dados. O leitor faz, com ajuda dos recursos sonoros, uma associação imediata à mensagem de que deuses jogam dados, ou seja, estamos expostos à ocorrência inesperada das coisas, ao acaso.

O formato da tela escolhido pelo poeta traz uma dificuldade na leitura de “deuses”: a página não abarca o poema em sua totalidade. Isso faz com que o leitor precise repetir a animação para ter acesso ao seu conteúdo por inteiro. Esse resultado pode ser decorrente do manejo dos recursos tecnológicos pelo poeta ou até da intenção de Campos em nos lembrar da imprevisibilidade das coisas do mundo. O leitor perde o controle do que vê e precisa utilizar a barra de rolagem da página até que a animação termine e o poema inteiro seja exibido. As categorias HHMI e tempo-poético-digital só aparecem no poema no suporte computador.

Seguindo a tendência de vários dos outros poemas de Augusto de Campos em Outro, “deuses” faz homenagem a uma figura ilustre, poeta traduzido por Augusto e seu irmão Haroldo de Campos. Trata-se de Um lance de dados, cujo verso principal é “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Mallarmé. O poema, publicado em 1897, revolucionou com seu arranjo tipográfico peculiar, a valorização do espaço em branco e com a possibilidade de leituras diversas ao recusar o uso do verso tradicional. Inovou também ao jogar com as formas, dando às palavras o formato de ondas turbulentas.

O poema “pós” também apresenta questões existenciais como tema:



Figura 2 -"Pós", 1ª página

Fonte: http://www.erratica.com.br/?id_obra=119

Ao contrário de “deuses”, a versão digital de “pós” não utiliza recursos sonoros, mas apenas os recursos visuais que formam os versos “ÉS/ PÓ/ SÓ/ PÓ/ SE/ ÉS/ PÓ/ SÊ/ ES/ SE/ PÓ/ PO/ ES/ IA”. Nesse poema os recursos tipográficos também foram escolhidos intencionalmente: cada letra é um conjunto de vários pequenos pontos, o que remete ao pó de que somos feitos. A fonte, portanto, também atua como ícone do pó que é nossa essência e é lentamente derramado de cima para baixo, constituindo cada sílaba do poema. O leitor se depara com uma escolha de tipo que carrega informação que vai além da fonológica e também é imagética. Outra imagem visível, a da areia em queda, permite uma imediata associação à figura da ampulheta, símbolo da passagem do tempo e da finitude das coisas. Somos, assim, lembrados não apenas de nosso tamanho pequeno, como também do fato de não sermos eternos.

A fonte pontilhada é utilizada em dois outros poemas de Outro: “d?vida” e “tântaro”. A rarefação do tipo e apagamento da letra torna as palavras semelhantes entre si e mantém um estilo minimalista. Esse recurso, aliado ao lento aparecimento dos pedaços do poema na tela, dificulta a primeira leitura e possibilita que ocorra um estranhamento inicial pelo leitor. Essa é uma das possíveis intenções do poeta – fazer com que o receptor da mensagem, ao enfrentar a dificuldade de leitura, pare para refletir. Mais uma vez Augusto de Campos usa o recurso da proximidade sonora e distanciamento semântico entre as palavras. “Se”, por exemplo, torna-se “sê” e assim o poeta solicita que a dúvida seja posta de lado, substituída pela postura de assumir a própria essência. “Es”, parte de “esse”, palavra com pouca indefinição, vira “és”, verbo que elimina as dúvidas e afirma uma condição.

O final do poema tem apenas um ponto negro no rodapé da página em branco. Esse elemento, junto com o amplo espaço em branco da página, reforça a mensagem sobre a insignificância da vida e o fato de que, inevitavelmente, tudo retornará ao pó. A pequenez humana frente à enormidade do universo tem, assim, destaque no poema. Não há, porém, intenção de ser pessimista. Campos chama o leitor para assumir a sua própria parte de pó, lembrando que essa insignificância também é poesia. A existência individual, irrelevante no universo, pode ser bela e poética. A palavra “poesia” tem origem no termo grego “poiesis”, que significa a “ação de fazer alguma coisa”. O pó, então, embora pareça uma unidade ínfima em importância, serve na verdade como matéria prima para a própria “POesia” – ou seja, é uma matéria essencial para que a “ação de fazer algo” seja possível. Trata-se de um elemento que faz parte de uma essência universal. A mensagem fica mais clara quando destacamos as aliterações em uma leitura contínua: “és PÓ, só PÓ, se és PÓ, sê esse PÓ, POesia”.

Em “pós” e “pó”, como em “deuses”, Augusto de Campos faz um jogo com palavras e tempos verbais. O verbo “ser” aparece no presente do indicativo – “és” - e no imperativo afirmativo, “sê” intercalados pela partícula “se”: “ÉS/ PÓ/ SÓ/ PÓ/ SE/ ÉS/ PÓ/ / ES/ SE/ PÓ/ PO/ ES/ IA”. O poeta utiliza nesse jogo uma estratégia para reafirmar a condição humana de pó, mas clama, usando o imperativo, para que de fato tal condição seja aceita. A escolha desse modo verbal parece vir atrelada a uma necessidade de convencimento do outro e, dessa maneira, Campos nos relembra da dificuldade humana em assumir o seu lado poesia, ou seja, de vulnerabilidade, finitude e consciência sobre a morte. Dessa consciência de nossa finitude, porém, pode surgir o potencial para construir, o “fazer algo” que está por trás do significado da palavra “poesia”. Com pequenas movimentações sonoras, portanto, o poeta gera uma grande mudança semântica.


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