Deus e maior



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"Se alguém não tiver sabedoria suficiente, peça-a a Deus, que a dá a todos de graça sem humilhar ninguém" (Carta de São Tiago, 1.5, Tradução Interconfessional dos Franciscanos Capuchinhos)

Estas perguntas, nós as recebemos para que déssemos uma resposta pastoral dentro da Palavra de Deus. Foram devidamente encaminhadas tanto ao anônimo consulente quanto ao portal evangélico que no-las enviou. Um amigo leu as respostas dadas, e sugeriu-nos dar publicidade para ajudar outros espíritos religiosos, curiosos porém confusos, assim como, nossos irmãos em Jesus Cristo. O nível é apologético.

"Meus caros irmãos das Igreja Evangélicas, eu sou da Igreja Católica e gostaria muito que vocês me respondessem a estas perguntas":

PERGUNTA # 1

"Já que a Igreja Batista, Adventista, Pentecostal, Messiânica, Presbiteriana, Quadrangular, Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, etc... não têm imagem de nenhum "demônio" como na Igreja Católica, e se vocês adoram a Jesus Cristo, por que vocês então não se unem e formam uma única Igreja de Cristo?"

NOSSA RESPOSTA:


Na realidade, caro consulente, só existe uma Igreja de Jesus Cristo. Ela é formada por todos os salvos, de todos os tempos, de todos os quadrantes da Terra, de todas as línguas, de todas as raças, de todas as condições sociais, e não é conhecida por qualquer nome de Igreja particular, Grupo ou Denominação. É um Corpo que reúne todos os que foram alcançados pela Graça(1) de Deus, unido este Corpo pela fé a Jesus Cristo, o Filho de Deus, e sem nenhuma cor sectária. A Igreja de Cristo não é qualquer organização terrena, visível seja do movimento Ortodoxo em suas diversas formas (Grego, Russo, Ucraniano, Igrejas Orientais, etc.), dos diversos agrupamentos Católico-Romanos ou de quaisquer grupos Protestantes e outros Evangélicos (2).

Outrossim, não nos parece que qualquer grupo evangélico, para-evangélico ou presumido-evangélico tenha acusado as imagens e outros ícones presentes nos templos, capelas e lares católico-romanos de "demônios". Reconhecemos, sim a absoluta falta de ensino bíblico com respeito à veneração ou culto (mesmo que o seja de dulia ou hiperdulia, visto que na teologia romana a latria só é devida ao Criador), razão porque o culto anicônico das igrejas evangélicos é realizado nos moldes do ensino neotestamentário: "em espírito e verdade" e "racional"(3).

A propósito, vamos desfazer um engano: a assim chamada Igreja Messiânica Mundial do Brasil não é uma igreja evangélica. É um movimento não-cristão de origem japonesa, que não tem a Bíblia Sagrada como seu livro de fé. Portanto, convém não mais relacioná-la com as Igrejas denominadas protestantes nem com as evangélicas.

PERGUNTA # 2


"Já que vocês dizem que as imagens que estão na Igreja Católica são demônios ou ídolos, dêem-me a prova de que elas realmente o são".

NOSSA RESPOSTA

Pena que sua afirmação está certa somente em parte. Não conhecemos qualquer afirmação entre os evangélicos de serem as imagens dos templos católicos "demônios". No entanto, quem as coloca na categoria de "ídolos" é a própria edição católico-romana da Bíblia Sagrada num livro considerado deuterocanônico (nós o chamamos "apócrifo") e que não se encontra no Cânon Original, que é o Palestino (escritos os livros em hebraico e aramaico), e conseqüentemente, também não no Cânon Protestante/Evangélico. Trata-se do livro de Sabedoria, do qual transcrevemos uma parte e indicamos outras. Foi utilizada para essa transcrição a edição da Bíblia Sagrada, traduzida pelo Pe. Matos Soares (4).

Diz o capítulo 13.11ss:


Eis que um artista hábil corta do bosque um tronco direito, e destramente lhe tira toda a casca,e, valendo-se da sua arte, faz com esmero uma peça útil para uso da vida(5), e os restos daquela obra emprega-os para cozinhar a comida(6). E, quanto ao resto de tudo isto, que para nenhum uso é útil, por ser um madeiro torto e cheio de nós, vai-o esculpindo cuidadosamente nas horas livres, e, pela perícia de sua arte dá-lhe uma figura, e configura-o à semelhança de um homem,...

Depois prepara-lhe um nicho conveniente, pondo-o numa parede, e segurando-o com algum ferro, usando com ele desta precaução, para que não caia, reconhecendo que não pode ajudar-se a si mesmo, porque é uma estátua e tem necessidade de auxílio. E, fazendo-lhe votos, consulta-o a respeito dos seus bens, e dos seus filhos, ou de um casamento.

Não se envergonha de falar com aquele madeiro, que está sem alma; e roga pela saúde a um inválido, e pede a vida a um morto, e invoca em seu socorro um inútil; e, para o bom sucesso de uma jornada, recorre àquele que não pode andar; e para as suas compras, suas empresas, e para o bom êxito de todas as suas coisas, implora a quem é incapaz de tudo.

Continue lendo o capítulo seguinte, o 14, sobretudo os versos 7 e 8. Veja também os versos 17 a 20.

O livro do profeta Isaías (46.7,8) tem igualmente uma palavra de condenação quando exclama:
Levam-no às costas, colocam-no no seu nicho, e ele fica sem se mover do seu lugar; e ainda, quando clamarem para ele, não ouvirá, nem os salvará da tribulação Lembrai-vos disto, envergonhai-vos, entrai em vós mesmos.

É ou não, a mesmíssima forma de uma prática de religiosidade encontrada sobretudo nos países latinos europeus e do Novo Mundo? Veja, ainda, Isaías 44.9-20.

A claríssima recomendação do Novo Testamento e que se encontra no último versículo da Primeira Carta de São João é: "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos".

PERGUNTA # 3


"Eu lhes pergunto quando Deus Todo Poderoso ordenou não fazer imagem, proibiu se fazer imagens dos homens santos, ou de se fazer imagens de deuses?"

NOSSA RESPOSTA


Leia o que diz a Bíblia. Vamos reproduzir as palavras da tradução do Pe. Matos Soares em Êxodo 20.4,5:
Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto.

Raciocine: há cabimento para qualquer tipo de culto, seja dulia ou hiperdulia? A proibição é TOTAL: de "homens santos" e de "deuses" também.

PERGUNTA # 4
"Para vocês existem ou não os santos Ler 2 Tessalo-nicenses 1,10; Efésios 3,8.

NOSSA RESPOSTA


Do começo ao fim, a Bíblia Sagrada ensina uma Teologia da Santidade. Os textos mencionados são dois entre centenas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

A pergunta não deve ser se "existem ou não os santos". A pergunta é "QUE SIGNIFICA SER SANTO?" Há uma teologia popular e há uma Teologia Bíblica sobre este assunto. A primeira é incentivada e alimentada por uma compreensão equivocada do termo e do conceito; a segunda tem um caudal puríssimo na Escritura Sagrada.

A idéia popular é de que "santo" é alguém que, tendo obtido um altíssimo grau de bondade, perfeição e virtude, nem precisa passar pelo Purgatório, onde supostamente se "purificaria" dos pecados veniais(7). Outrossim, esta "teologia popular" da santificação avança no imaginário do povo com o conceito de beatificação até se chegar à canonização. São mais duas idéias não encontradas no Novo Testamento.

Graças a Deus, o ensino bíblico é suficientemente iluminado para não deixar dúvidas: "Santo é o que está reservado para Deus". O conceito de santidade (em hebraico kidshut) está ligado a objetos, eventos/datas, lugares e pessoas.

A "Arca da Aliança" era chamada Aron haKodesh, ou seja, a Arca Santa, porque era um objeto reservado, exclusivo do culto a Deus;

o Templo de Jerusalém era nomeado Beith haMikdash porque era um edifício de uso exclusivo de Javé e Seu Culto;

o povo de Israel era Santo por ser uma nação separada para Deus;

o Shabath, um Dia Santo porque nele só uma realidade interessa: fazê-lo diferente de todos os outros. Recorde-se do mandamento que regula: "Lembra-te de santificar o dia de Repouso". Aproveite e leia o restante que está em Êxodo 20.7 a 11.

Assim sendo, quem são os "santos"? A resposta da Bíblia Sagrada é que são aqueles que pertencem a Jesus Cristo, aqueles que foram lavados e purificados pelo sangue de Jesus (não pelo batismo, o que não é ensino neotestamentário), aqueles que O receberam pela fé salvadora, outro nome para a fé-adesão, fé-compromisso, fé-levada-a-sério. A Bíblia chama a estes de "fiéis", "santos" e "santificados", entre outros significativos epítetos. Leia: 1Coríntios 1.1,2; 2Coríntios 1.1; Efésios 1.1; Filipenses 1.1; Colossenses 1.1,2.

PERGUNTA # 5


"Pois quando Deus disse em Levítico 19,1: ‘Dirás a toda a assembléia de Israel o seguinte: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo’, Deus estava mandando seu povo ser santo ou demônio?"

NOSSA RESPOSTA


Deus estava ordenando Seu povo, e, por extensão, aos salvos e fiéis da Igreja de Jesus Cristo a serem diferentes, que é, sem dúvida, a melhor interpretação para o conceito teológico veterotestamentário expresso pela palavra Kadosh. Ser uma reserva especial para Deus e Jesus Cristo. A Primeira Carta de São Pedro (2.5)esclarece:

Vós, também, como pedras vivas sede edificados sobre ele como casa espiritual, sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo.

PERGUNTA # 6


"Os homens que seguem a Jesus Cristo, estão ou não estão no caminho da santidade? Ler: (I Coríntios 7,32-34)"

NOSSA RESPOSTA


Os verdadeiros discípulos já encontraram esse caminho como bênção inicial de sua vida cristã. Caminhar por Ele é um ato de entrega e de adesão. Ninguém é salvo por procuração ou representado por outra pessoa como se pratica. A Bíblia registra as palavras de Jesus Cristo em João 14.6: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim" (Bíblia de Jerusalém). Os cristãos da Igreja do tempo dos apóstolos eram chamados de "os do Caminho". Quem segue a Jesus Cristo busca a vida de separação, vida de-fazer-diferença-neste-mundo, ou, para usar a palavra bíblica: de santidade.

PERGUNTA # 7


"Já que os que seguem a Jesus Cristo estão no caminho da santidade (para serem santos), será que nenhum homem chegou a alcançar essa santidade, chegou ou não chegou?"

NOSSA RESPOSTA


Santidade é separação deste mundo, já o vimos. Ao longo da História da Salvação(8), milhões têm experimentado a santidade como estilo e prática de vida. Nas ruas de qualquer cidade ou no campo, os santos estão andando e passando por nós. Eles nos encorajam a tudo suportar pelo amor de Cristo e de Seu reino.

PERGUNTA # 8


"Quantas Igrejas de Jesus Cristo existem, pois no Evangelho Jesus diz: ‘E eu te declaro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Ler: (Mateus 16,18), Jesus Cristo não disse no plural: "as minhas igrejas", Ele disse: a minha Igreja. Por que será então que existem tantas Igrejas?"

‘NOSSA RESPOSTA


A resposta da Pergunta # 1 cobre, de certo modo, o alcance desta questão. A Igreja de Jesus Cristo, repetimos, não se identifica com uma Igreja nacional, um grupo local ou organização religiosa. Não tem um nome específico (Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Reformada, Igreja Evangélica de Confissão Luterana, Igreja Presbiteriana do Brasil, Assembléia de Deus - Ministério de Belém, Igreja Batista Sião, Jovens com uma Missão, Missão Antioquia, etc, etc). A Igreja Cristo é supranacional, e atemporal; o Corpo Místico de Cristo se forma de todos os fiéis sem distinção de raça, cor, língua ou filiação cristã.

Um alerta, entanto, se faz necessário: os chamados "fiéis", "santos", "salvos" são aquelas pessoas que, conduzidas pelo Espírito Santo ao Salvador (Espírito que, como ensina a Bíblia na tradução do Pe. Matos Soares, convence o mundo "quanto ao pecado, à justiça e ao juízo"(9), pela fé receberam o perdão para os seus pecados (o Novo Testamento usa para essa gloriosa realidade o termo justificação)(10). A Igreja Cristo, Seu Corpo Místico, não é qualquer Igreja nominal (que tem origem e organização humana, inclusive a Igreja Católica Apostólica Romana, cuja origem se prende à "conversão" de Constantino, apesar de a história oficial conta-la diferentemente.

PERGUNTA # 9
"O que Jesus queria dizer quando disse a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que ligares na terra, será ligado no céu e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu" ?, e o que significa ligar e desligar?"

NOSSA RESPOSTA

O versículo mencionado se encontra no contexto de Mateus 16.13-20 que registra uma pesquisa conduzida por Jesus para saber qual a opinião popular em torno de Sua Pessoa. Os discípulos respondem que algumas pessoas entendiam que Jesus era João Batista, outros que seria Elias, o tesbita, outros, ainda, acreditavam que seria o profeta Jeremias ou talvez um outro dos inflamados pregadores da Antiga Aliança.

O mesmo versículo aparece em 18.15-22 num contexto de disciplina e perdão no âmbito da igreja.

Em João 20.23 em instruções que foram dadas aos apóstolos após a ressurreição, o mesmo ensino aparece ligeiramente modificado.

Paulo em 1Coríntios 5.4,5 expõe um comentário sobre o mesmo tema.

Ligar e desligar são termos técnicos rabínicos que significam "permitir" e "proibir" uma ação acerca da qual uma questão tenha sido levantada. Em Mateus 18.18, a ação de "ligar e desligar" tem a ver com a disciplina exercida pela igreja local, paroquial. 1Coríntios 5.4,5 reflete a excomunhão, exclusão da igreja para mortificação da natureza carnal.

PERGUNTA # 10


"Baseado nesta observação: Pedro negou Jesus por três vezes antes de Jesus morrer. Porém quando Jesus ressuscitou; Jesus confirmou Pedro como primeiro pastor das suas ovelhas, também por três vezes. Ler: (João 21,15-17), agora me responda já que Pedro iria morrer um dia, e o seu lugar ficaria vago, o substituto de Pedro teria ou não teria o mesmo poder que Jesus outorgou a Pedro? Ler para comparar Atos 1,15-26, e responda".

NOSSA RESPOSTA


Cremos que será conveniente fazer uma exegese de João 21.15ss para entender porque Jesus fez por três vezes a pergunta "Simão, filho de João, amas-me?" para não se cair no pecado de ler o que não foi dito.

O Mestre fez a indagação a Pedro utilizando um verbo e Pedro todo o tempo com outro. Jesus lhe perguntou: "Simão, filho de João, agaposme? ("Tu me amas de verdade?") Pedro responde: "Sim, Senhor, tu sabes que filote" (Tu sabes que eu tenho amizade por ti). Não é isso o que Jesus Cristo quer de Seus discípulos.

Não tendo ficado satisfeito com a resposta de Simão Pedro, Jesus repete a pergunta. A palavra final do Mestre é "Apascenta as minhas ovelhas". Não há qualquer indicação (nem por inferência) a um primado de Pedro. Há, sim, uma dupla lição para os cristãos:

É preciso que cada discípulo de Jesus Cristo tenha uma PAIXÃO pelo Senhor, pelo Seu reino, pela Sua Causa, pela Sua missão neste mundo ("agaposme?", "Amas-me verdadeiramente?");

É preciso que cada discípulo de Cristo tenha uma MISSÃO, que confiada à Igreja é repassada a cada um individualmente ("apascenta as minhas ovelhas").

Como louvamos a Deus por este e outros espíritos que, religiosos, porém confusos, são curiosos a respeito de sua fé! Como pedimos que a iluminação do Seu Santo Espírito revele a verdade eterna, salvadora, purificadora e santificadora. Que sejam como os bereanos que "de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas escrituras se estas coisas eram assim"(At 17.11).

NOTAS
(1) Graça: termo da Teologia que expressa o "o amor que não merecemos da parte de Deus ". Em Efésios 2.8, o apóstolo S. Paulo repassa o ensino vindo do Espírito Santo de que "Com efeito, é pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isto não depende de vós, é Dom de Deus. Isto não vem das obras, para que ninguém se orgulhe" (TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia, SP, Edições Loyola com Recomendação de D. Luciano Mendes de Almeida, Presidente da CNBB).
(2) Protestantes e Evangélicos são realidades distintas, como o prezado consulente deve ter conhecimento, embora a opinião popular e a mídia os confunda.
(3) Assim o descreveu Jesus em João 4.23,24, e Paulo, apóstolo, em Romanos 12.1.
(4) 45a ed. SP, Edições Paulinas, 1988.
(5) Ou seja, faz algo de utilidade como um móvel ou prateleira, etc.
(6) A lenha tem utilidade no uso doméstico
(7) Ressalte-se que nem a idéia de um "purificatório" ou "purgatório" nem a de "pecados veniais" têm substância no ensino bíblico.
(8) "História da Salvação" (Heilsgeschichte) é termo técnico para designar desde o evento cósmico e existencial chamado A Queda até o ministério salvador de Jesus Cristo e as conseqüentes implicações, até a Sua Parusia, a ressurreição final e a bem-aventurança eterna.
(9) João 16.8.
(10) Leia Romanos 5.1ss.
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O que é ser "reformado"?


A primeira questão com a qual nos defrontamos ao abordar o tema desse pequeno ensaio é a de definir exatamente sobre o que estamos falando. O nosso assunto gira em torno da compreensão reformada sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. Mas, o que queremos dizer por "reformada"?

Não existe unanimidade entre os que se consideram herdeiros da Reforma protestante quanto ao sentido do termo. Historicamente, o termo "reformados" foi usado a princípio indistintamente para todos os protestantes, calvinistas, luteranos e zwinglianos. Com as controvérsias entre eles sobre a Ceia, "reformados" passou a designar zwinglianos e calvinistas somente, em contraponto aos luteranos. E com o arrefecimento da importância de Zwinglio no cenário protestante, "reformados" passou a designar os calvinistas. Portanto, é historicamente correto afirmar que um entendimento reformado sobre o Espírito Santo tem a ver primaria e basicamente com a teologia calvinista sobre o Espírito Santo. Hoje em dia, muitas igrejas e denominações se utilizam do nome "reformada", mesmo que já tenham abandonado em grande medida partes fundamentais da teologia calvinista, inclusive a pneumatologia. O mesmo acontece com alguns pastores que consideram-se reformados apesar do fato de que não são calvinistas em sua doutrina. Assim, embora para alguns hoje ser reformado seja pertencer a uma igreja que historicamente descende da reforma protestante, ou ainda manter o espírito reformista que marcou os reformadores, é mais exato dizer que o conceito está ligado às principais convicções doutrinárias dos reformadores, particularmente às de João Calvino.

Consequentemente, uma pneumatologia reformada é necessariamente aquela adotada pelas igrejas que são herdeiras do Cristianismo bíblico. É uma pneumatologia originada nas Escrituras e defendida por Agostinho, Calvino, e os puritanos, tendo sua expressão adequada nas confissões de fé reformadas. É uma pneumatologia derivada de uma leitura das Escrituras a partir dos pressupostos principais que guiaram esses homens, a começar com o alto apreço pelas Escrituras como Palavra de Deus, inspirada e infalível, e única regra de fé e prática da Igreja. À luz desta visão podemos definir pneumatologia reformada como sendo aquela compreensão da pessoa e da obra do Espírito Santo que parte da revelação divina grafada nas Escrituras, lida e interpretada da ótica da hermenêutica reformada, tendo como alvo a glória de Deus e o avanço do seu reino neste mundo.

Se considerarmos que apenas os que se mantém leais aos principais pontos da doutrina calvinista podem ser realmente chamados de reformados, verificaremos que são poucos os verdadeiros reformados. Escreve o ex-calvinista Clark Pinnock:

Tenho a forte impressão, confirmada até mesmo pelos que discordam dela, que o pensamento de Agostinho está perdendo sua influência nos evangélicos de hoje. Não são apenas os evangelistas que estão pregando um evangelho arminiano. É difícil até mesmo achar um teólogo calvinista hoje que esteja disposto a defender a teologia reformada em seus detalhes mais peculiares, em particular as opiniões de Calvino e Lutero. Eu não estou sozinho, especialmente agora que Gordon Clark faleceu e John Gerstner aposentou-se.

Numa época em que o número de "reformados" comprometidos com a teologia calvinista é tão pequeno, não é de se estranhar que tendências teológicas, filosóficas e hermenêuticas, trazidas no bojo do pós-modernismo e do crescente movimento neopentecostal, se infiltrem nas igrejas historicamente reformadas, e descaracterizem, onde aceitas, a compreensão correta acerca do Espírito Santo. Tais ameaças já estão presentes, e que aparentemente vieram para ficar por um longo tempo. Entende-las agora é essencial para a preservação da identidade reformada quanto à obra do Espírito Santo no mundo e na Igreja. No que se segue, procuro detectar e analisar alguns destes desafios

O Desafio Teológico: Pelagianismo

O que é o Pelagianismo


O primeiro desafio vem da área teológica, representado pelo pelagianismo, heresia antiga e já condenada pela Igreja, mas jamais erradicada do seu meio. O pelagianismo sustenta basicamente que todo homem nasce moralmente neutro, e que é capaz, por si mesmo, sem qualquer influência externa, de converter-se a Deus e obedecer à sua vontade, quando assim o deseje. Uma das grandes disputas durante a Reforma protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original. Ele afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao pecado? No século V Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência.

Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão da Vontade" em resposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.

No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus).

A influência de Charles Finney


No século XIX, o evangelista americano Charles Grandison Finney reavivou o puro pelagianismo. Ele repudiou abertamente quase todas as principais doutrinas calvinistas (mesmo que tenha sido ordenado na Igreja Presbiteriana), em particular a doutrina de pecado original e da depravação total. É um grave erro histórico e teológico considerar Finney como "reformado" (alguns, exagerando, diga-se, nem desejam considerá-lo como evangélico). A metodologia evangelística de Finney teve tanto êxito, que ele se tornou um modelo para os evangelistas mais recentes. Embora o evangelicalismo americano não tivesse aceitado integralmente o pelagianismo de Finney, abraçou, entretanto, sua metodologia, uma forma de semi-pelagianismo que infectou a alma da sua teologia até o dia de hoje. Vários movimentos nasceram conscientemente da teologia de Finney, como a teoria do governo moral.

Ameaças à doutrina do Espírito Santo


O pelagianismo, em suas variadas formas contemporâneas, ameaça a doutrina reformada do Espírito Santo especialmente nas áreas da regeneração e da chamada eficaz, das seguintes maneiras:

a) Reduz a regeneração do pecador a uma decisão de sua própria vontade. Finney rejeitou a idéia de que a regeneração fosse um milagre, uma transformação sobrenatural produzida pela ação soberana do Espírito no coração dos eleitos. Para ele, regeneração era a decisão do pecador em se voltar para Deus e obedecê-lo. Não poderia haver nenhuma transformação miraculosa, pois não havia o que transformar, já que o pecador é moralmente capaz de obedecer a Deus. Após a negação de pecado original, foi somente um passo para que Finney negasse a doutrina da regeneração sobrenatural. O sermão mais popular de Finney, pregado na Igreja da Rua do Parque, em Boston, foi intitulado "Os Pecadores Devem Mudar os Próprios Corações". Para ele, não há nada na religião que ultrapasse os poderes ordinários de natureza. "Religião é obra do homem", disse ele. "Consiste tão somente no emprego apropriado dos poderes naturais. É somente isso e nada mais"

b) Reduz a chamada eficaz do Espírito Santo a uma mera persuasão moral. Para Finney, a obra do Espírito limita-se ao exercício de influências morais no pecador, mas "a conversão em si ... é ato do próprio pecador", afirma ele em sua Teologia Sistemática (p. 236). O ensino calvinista é que o Espírito de Deus, através do ministério da Palavra, chama irresistivelmente o eleito, regenerando-o e assim habilitando-o a responder positivamente em fé à oferta das boas novas do Evangelho. Essa chamada é irresistível, embora não se constitua uma violação da vontade do pecador. No conceito pelagiano (ou semi-pelagiano), o Espírito de Deus apenas se esforça para persuadir os pecadores, cabendo a estes em última análise a decisão e a capacidade de converter-se e tornar para Deus, exercendo fé em Cristo.

O desafio do pelagianismo em suas formas contemporâneas para a identidade reformada é alarmante. O pentecostalismo, em seu crescimento assombroso na América Latina e no Brasil, traz em seu bojo, além de várias outras ameaças e desafios, os principais conceitos do antigo pelagianismo, e desafia as igrejas reformadas a rever o conceito calvinista da atuação do Espírito Santo na regeneração e salvação do pecador. Os pentecostais são hoje mais de 450 milhões no mundo. Com o crescimento do pelagianismo no Brasil, a identidade reformada das igrejas que assim se consideram fica ameaçada, no que respeita à obra do Espírito Santo na conversão dos pecadores.

Mas o desafio maior vem de dentro das próprias igrejas históricas. Não são muitos os "reformados" que aderem coerentemente à doutrina calvinista da depravação total. Embora possam afirmá-la em princípio, acabam sendo incoerentes por também acreditar que o pecador tem a "capacidade moral de se voltar para Deus". Praticamente ninguém hoje declararia, "eu sou um pelagiano, ou semi-pelagiano", primeiro, por que toda a Cristandade condenou no passado essa heresia, e segundo, por que poucos que adotam esta linha têm idéia do que o pelagianismo significa. Muitos ministros de igrejas reformadas provavelmente ofereceriam as respostas corretas em um exame teológico, entretanto, operam em seus ministério como se essas convicções não tivessem absolutamente nenhuma conseqüência.

Os Desafios Filosóficos: Pluralismo e Pragmatismo

O pluralismo religioso
Um outro desafio de imensas proporções vem de duas filosofias características do período pós-moderno em que vivemos. A primeira delas é o pluralismo. Como o nome já indica, essa filosofia defende a pluralidade da verdade, ou seja, que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades diferentes para cada pessoa. Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da nossa cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias diferentes, sem que uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra. A idéia de converter alguém às suas próprias convicções é politicamente incorreto. A chave está na valorização da negociação e da cooperação em lugar de se tentar provar que se está certo ou errado.

O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da "arrogância" teológica do cristianismo, nega que exista verdade religiosa absoluta, e exalta a experiência religiosa individual como critério último para cada um. Por exemplo, o padre católico Raimundo Panikkar, descendente de hindus, escreveu um artigo onde defende que isolacionismo já não é mais possível na sociedade globalista em que vivemos. Embora afirme que aceitar o pluralismo religioso não signifique o mesmo que aceitar o relativismo, deixa claro que a experiência religiosa individual é a chave para a convivência pluralista. Diz ele, "No momento eu estou experimentando o amor de Deus por mim em Cristo Jesus, e por este motivo eu sei com perfeita clareza que ele é o caminho, a verdade e a vida".

O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se prega a necessidade de conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a cooperação entre todas as religiões, naquilo que têm em comum. O pressuposto é que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o melhor, e que Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as religiões orientais.

O pragmatismo religioso


A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano William James, afirmou que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou fossem úteis para resolver problemas. Já que o funcionamento e utilidade das idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é relativa. No dizer de Francis Schaeffer, é um sistema de pensamento que faz das conseqüências práticas de uma crença o critério supremo da sua verdade. O pragmatismo dominou rapidamente a cultura americana e estendeu-se para além das suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente preservam a paz individual e uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com princípios fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos tem pouco ou nenhum lugar no pensamento ocidental moderno.

Não devemos, portanto, pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu princípio fundamental é inerente ao coração humano. Uma das 4 premissas básicas do substrato filosófico e religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida neste parágrafo: "É direito de cada pessoa religiosa aceitar e praticar qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas circunstâncias sociais peculiares".

Desafios do Pluralismo e do Pragmatismo para a doutrina do Espírito Santo
O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de verdade absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações passam a orientar as suas decisões em termos daquilo que mais satisfaz as suas necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas filosofias aparece claramente em vários movimentos presentes nas igrejas evangélicas, e representam um novo desafio ao cristianismo em geral e aos calvinistas em particular. A pergunta que as pessoas fazem com relação ao cristianismo não é se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. Elas querem saber se vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas existências.

Ambas as filosofias trazem sérios desafios a alguns aspectos da pessoa e obra do Espírito Santo:

1) Quanto à extensão da operação ou atividade salvadora do Espírito Santo. O calvinismo ensina uma distinção nas operações do Espírito Santo, que está relacionada com os conceitos de graça comum e de graça especial. A graça comum refere-se à atuação do Espírito Santo no mundo em geral, preservando valores morais e trazendo benefícios materiais, sobre todos os homens indistintamente de suas crenças religiosas. A graça especial refere-se à operação salvadora do Espírito, restrita apenas aos eleitos, regenerando-os, iluminando-os e santificando-os pelo Evangelho de Cristo. O pluralismo religioso ameaça esse conceito, pois ensina que o Espírito de Deus age salvadoramente em todos os homens indistintamente de suas religiões, sem se restringir ao âmbito do cristianismo. Um exemplo de pluralista cristão que defende esse ponto é o ex-calvinista Clark Pinnock.

2) Quanto à relação entre a Palavra e o Espírito. O calvinismo ensina a relação indissolúvel entre a atuação do Espírito Santo e a Palavra de Deus. O Espírito atua graciosamente através da Palavra; por sua vez, a Palavra funciona como critério para reconhecermos a atividade do Espírito, em contraste com a atividade de espíritos malignos ou do espírito humano. O pluralismo e o pragmatismo ameaçam este conceito. O primeiro, porque divorcia a atuação salvadora do Espírito da verdade bíblica, como vimos no item anterior. E o segundo por enfatizar a validade de experiências religiosas à parte de seus conteúdos teológicos, ameaçando assim da mesma forma a relação entre o Espírito e a Palavra.

3) Quanto à soberania do Espírito de Deus em converter pecadores e aumentar a Igreja. Segundo o ensino calvinista, o aumento da Igreja através da conversão de pecadores é uma obra soberana do Espírito Santo, através dos meios secundários que Deus mesmo determinou. A Igreja deve evangelizar ardorosamente, dependendo porém da operação soberana do Espírito Santo quanto aos resultados. O pragmatismo representa um desafio para essa convicção calvinista, pois enfatiza o emprego de métodos, estratégias e técnicas tiradas do marketing secular e de ciências sociais como sociologia e psicologia, através das quais a igreja poderá crescer. O sucesso ou fracasso de igrejas locais no aumentar o número de seus membros é relacionado, não à soberania do Espírito de Deus, mas ao uso desses métodos. Embora calvinistas defendam o planejamento das atividades missionárias e evangelísticas da Igreja, têm entretanto sérias reservas quanto ao planejamento de resultados, uma estratégia que faz parte do pragmatismo do moderno movimento de crescimento de igrejas.

Influência generalizada do pluralismo e do pragmatismo entre os protestantes


O pluralismo e o pragmatismo têm infectado o cristianismo mundialmente. O tema da salvação em outras religiões foi discutido recentemente na Assembléia Geral do Concílio Mundial de Igrejas. O relatório apresentado trouxe debate considerável. Uma consulta teológica na suíça patrocinada pelo CMI, composta por 25 teólogos, trouxe as seguintes conclusões:

Através da história, pessoas tem encontrado a Deus no contexto de várias religiões e culturas diferentes.


Todas as tradições religiosas são ambíguas, isto é, uma combinação do que é bom e do que é ruim.
É necessário progredir além de uma teologia que confina a salvação a um compromisso pessoal explícito com Jesus Cristo.
Em algumas denominações o pluralismo tem sido proposto como filosofia oficial, como na Igreja Metodista Unida, dos Estados Unidos. Nas igrejas brasileiras que se consideram reformadas, a ameaça vem por diversas avenidas, trazendo sérios desafios à doutrina calvinista do Espírito Santo. Eis algumas dessas maneiras pelas quais o pragmatismo e o pluralismo têm invadido as igrejas históricas:

a) A adoção de uma liturgia neopentecostal, particularmente a ênfase na experiência. O culto hoje em igrejas evangélicas que adotaram esta ênfase, é geralmente uma adaptação comunitária do pragmatismo americano, onde todos fazem o que gostam, e todos gostam do que fazem.

b) O impacto do movimento de crescimento de igreja na área de missões e evangelização das denominações, missões paraeclesiásticas, e das igrejas locais. Mesmo as igrejas reformadas não tem escapado à penetração dessas influências mencionadas acima. Embora o movimento tenha levado a Igreja a repensar mais corretamente a sua metodologia missionária, por outro lado, tem provocado reações por parte de calvinistas quanto à seus pressupostos semi-pelagianos e sua metodologia claramente pragmatista.

A influência dessas filosofias pós-modernas pode ser percebida ainda de outra maneira. Uma equipe de pesquisa composta de 60 estudiosos e mais de 100 sócios completou um estudo sobre o presbiterianismo americano, no seminário presbiteriano de Louisville, nos EUA. Uma das suas conclusões é que no século XX a denominação sofreu de uma doença teológica, com muitos presbiterianos evitando posições firmes e claras na área teológica porque diferenças doutrinais tendem a produzir conflito ou divisão. Essa é a razão por que eles tentaram em anos recentes resolver problemas potencialmente divisivos em termos políticos e não teológicos.

A diversidade de perspectivas teológicas dentro das denominações presbiterianas tem origem na escolha enfrentada em 1927 pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos de América (PCUSA). A denominação teve que decidir entre subscrever a um conjunto fixo de doutrinas ou permitir uma diferença maior entre opiniões teológicas. A Igreja decidiu por não delinear as doutrinas exatas que todos os presbiterianos teriam que aceitar, uma decisão consistente com o presbiterianismo histórico daquele país. Debates doutrinários haviam sido freqüentes no passado, com divisões acontecendo sempre que as disparidades ficavam intoleráveis. A pergunta agora é se o pluralismo teológico produziu alguma teologia que tenha bastante substância. O pluralismo promete enriquecer a teologia mas na realidade tende a dilui-la em opções múltiplas que não são coerentes nem persuasivas. E a identidade reformada quanto à ação do Espírito tende a desaparecer.

O Desafio Hermenêutico: Neopentecostalismo

O que é o neopentecostalismo
Por neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do século, mesmo que abandonaram algumas de suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a realidade espiritual.

A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras e da realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em termos de sua ação extraordinária. Para o neopentecostal típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que define, mais que qualquer outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não estou dizendo que crer em milagres seja errado. O que estou dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e diários passa a ser a característica maior da igreja evangélica, algo está errado.

Desafios para a doutrina do Espírito Santo
A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um desafio para a identidade reformada pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas do calvinismo, que é a providência de Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida humana, mas simplesmente meios naturais secundários. Os calvinistas reconhecem que Deus intervém miraculosamente neste mundo, mas sempre em regime de exceção. Normalmente, ele age através dos meios naturais.

O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos cristãos foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo.

Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência de não se tomar remédios, como sendo falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmovisão neopentecostal.

Conclusão


Esses desafios à identidade reformada quanto à ação do Espírito Santo já se encontram presentes em nosso meio, e prometem persistir por ainda muito tempo. Alguns dos movimentos contemporâneos que trazem no bojo de seus pressupostos e de sua metodologia esses desafios, continuam a crescer no Brasil, e a influenciar as igreja reformadas. Esses movimentos, como o reavivalismo, crescimento de igrejas, batalha espiritual e ecumenismo forçam as igrejas reformadas a reavaliar o que crêem quanto à ação do Espírito na Igreja e no mundo. O desafio é que façamos isso procurando cada vez mais conformar essas crenças com o ensino das Escrituras Sagradas, a Palavra de Deus, e com a nossa tradição calvinista.

Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual


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