Dercilio junior verly lopes ewerthon mattos paterlini



Baixar 0,58 Mb.
Página3/8
Encontro03.07.2017
Tamanho0,58 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8


3.3. IMPARCIALIDADES NA DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O significado de imparcialidade é: o caráter, qualidade daquele ou daquilo que é imparcial. O termo imparcial é algo que não sacrifica à justiça ou a verdade a consideração particulares, que não tem partido a favor ou contra, ou seja, um juiz imparcial, justo, reto e equitativo (DICIONÁRIO DO AURÉLIO, 2013).

Já a impessoalidade tem grande contribuição para o objetivo dos trabalhos científicos. Devem ser evitadas expressões como “o meu trabalho”, “eu penso”, “na minha opinião”, pois referem-se a um sentido de subjetividade da linguagem em primeira pessoa. Busca-se então usar, de preferência, “no presente trabalho” ou “neste trabalho”. Usam-se verbos nas formas impessoais: “foi avaliado”, “assim, conduziu-se este trabalho”. Com isso é criado certo distanciamento do autor, fato que favorece a objetividade (ANDRADE, 2010).

A imparcialidade da ciência é fundamentada na compreensão de que a ciência é um conhecimento objetivo, uma prática de como a natureza realmente é, sendo independente dos valores morais ou sociais do cientista, da sua classe social, do país e do momento histórico em que se pratica esta ciência. A imparcialidade tem como objetivo fundamental a busca pela verdade e assim, a ciência é considerada uma atividade neutra (SANTOS, 2004).

Segundo Cupani (2006), as discussões relativas com a imparcialidade ou ausência desta na ciência são claramente frequentes no meio acadêmico. No julgamento do tipo de conhecimento mais confiável em nossa sociedade, isso não é surpresa, se considerado que está em jogo à responsabilidade dos profissionais. Sobre neutralidade da ciência, ou imparcialidade da ciência, Cupani (2006, p. 2) fez as seguintes afirmações:


  • O conhecimento científico não possui qualquer valor. Uma teoria por si só não é boa ou má, justa ou injusta, assim como não é bela ou feia, barata ou cara;

  • A ciência não consiste em julgar a realidade, mas sim em descrevê-la e explicá-la;

  • Do conhecimento objetivo, não é possível transferir do âmbito do que realmente é para o âmbito do que deve ser como uma consequência lógica. Não se pode deduzir da crença em que tais ou quais coisas devem acontecer que estas ocorrem de fato;

  • A ciência é igual em qualquer contexto social, pois discutem operações matemáticas, as leis da física ou química ou de biologia, tudo isso funciona igualitariamente em qualquer sociedade, independente da cultura, sendo a ciência um instrumento. Por isso o propósito de quem a utiliza é maior que o valor de sua aplicação;

  • A interpretação da neutralidade significa que a ciência transmite apenas informações e cabe ao indivíduo saber o que fazer, pois a ciência apenas mostra como agir;

  • A ciência é independente, no sentido da instituição, ou seja, suas práticas e a validade dos seus resultados subjetivos obedecem a padrões e critérios intrínsecos a ela. Assim aos se escolher se uma teoria ou explicação é aceitável, mesmo determinando a realidade do fato, não se pode recorrer a critérios extras científicos.

De acordo com o que foi aqui apresentado sobre imparcialidade, fez-se uma comparação de dois trabalhos na área de tecnologia de produtos florestais, em periódicos nacionais mostrando a imparcialidade dos resultados obtidos. Para efeito de entendimento foi adotado a metodologia de chamada dos autores de “A”, “B”, “C” e “D”, a fim de preservar os seus respectivos nomes.

O autor “A” avaliou a biodeterioração de produtos à base da madeira de cedro australiano (Toona ciliata), utilizando fungo de podridão parda (Gloeophyllum trabeum). Neste trabalho o referido autor, faz referência ao trabalho do autor “B”, a fim de fortalecer a sua ideia a respeito da biodeterioração da madeira estudada. No trabalho do autor “B” estudou a influência dos extrativos na resistência ao apodrecimento de seis espécies de madeira, dentre elas o cedro (Cedrela fissilis), também utilizando o fungo de podridão parda (Gloeophyllum trabeum).

O autor “A” comparou seus resultados obtidos de cedro australiano, com os resultados encontrados pelo autor “B” que trabalhou com cedro. Estes autores concluíram que o cedro é naturalmente resistente ao fungo de podridão parda assim como o cedro australiano daqueles autores. Entretanto, esta comparação não é pertinente, pois se trata de espécies (a primeira australiana e a segunda brasileira), anatomia, constituições químicas e físicas, totalmente diferentes, influenciando na durabilidade da madeira em questão.

Os autores que trabalharam com cedro australiano não foram imparciais com o resultado, pois se fosse a comparação apenas com o fungo seria válida, mas como se trata de espécies diferentes, não se pode afirmar que as madeiras apresentaram o mesmo resultado tratando de durabilidade natural, em função dos fatos expostos acima.

O autor “C” estudou a resistência natural da madeira de cinco espécies de Eucalipto a cupins subterrâneos (Coptotermes gestroi) em testes de laboratório, e concluíram que o Eucalyptus urophylla foi a espécie que apresentou a menor resistência nas posições internas do tronco, portanto é altamente vulnerável ao ataque deste cupim. Este trabalho possui um caráter imparcial dos resultados, pois em relação a comparação, trata de espécies do mesmo gênero, o gênero Eucalyptus spp., dentro de características semelhantes, como local de plantio, solo, clima, relevo e anatomia.

Outro trabalho que merece análise é o que se avaliou a resistência natural de sete madeiras a fungos e cupins xilófagos em condições de laboratório, do autor “D”. Pegando um exemplo a madeira de teca (Tectona grandis) no ataque de cupins subterrâneos (Nasutitermes corniger), fez comparação com o resultado encontrado pelo autor “C” que trabalhou com madeira de eucaliptos e com cupim subterrâneo (Coptotermes gestroi).

O autor “D” encontrou resultados semelhantes na avaliação do desgaste da madeira de teca comparando com o autor “C” com madeiras de Eucalyptus saligna e Eucalyptus urophylla. Entretanto esta comparação não é imparcial, uma vez que se compararam madeiras diferentes.

3.4. ÉTICA NA APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Não é objetivo deste texto uma abordagem filosófica sobre a ética, pois este tema e suas diversas variações são muito bem explorados na literatura. Todavia,

Deve-se considerar a Ética como sendo um termo genérico englobando diversas reflexões sobre as relações entre os seres humanos e seu modo de ser e de pensar. Encontra-se disseminada em todas as atividades onde possa existir o confronto entre o bem e o mal, ou melhor, ações positivas ou negativas (CARVALHO, 2009, p. 164).

“A partir de valores e limites, onde devem ser respeitados os direitos, tanto do pesquisador quanto do sujeito da pesquisa, a ética na ciência cerca a sociedade nos mais variados âmbitos, influenciando-a e sofrendo influências.” (RODRIGUES; CRESPO; MIRANDA, 2006, p.36)

Desta forma, define-se a ética na pesquisa científica como um conjunto de práticas que devem ser adotadas pela comunidade científica. Santos (2011) menciona que o pesquisador deve contribuir para a construção do patrimônio coletivo que é a ciência, abstendo-se de ações intencionais ou por descuido, que venham prejudicar a apropriação coletiva de seus resultados.

Apesar da importância do assunto, percebe-se certa precariedade no número de publicações científicas sobre ética na condução de pesquisas científicas no Brasil. Isto é confirmado em parte por Wasserman (2010), que menciona:

Na maior parte dos programas de pós-graduação, os cursos de metodologia científica raramente abordam o problema e os alunos acabam obtendo seus títulos, sem ter uma ideia precisa sobre a ética na publicação de textos e acabam cometendo gafes que, inclusive podem comprometer suas carreiras (WASSERMAN, 2010, p. 466).

Para propor recomendações e diretrizes sobre Ética e Integridade na Prática Científica, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (2011), através da portaria PO-085 de 5 de maio de 2011, criou uma Comissão Especial constituída por cientistas brasileiros. Tendo em vista, que inexistem normas internas específicas e fundamentação para o tratamento adequado de ocorrências de desvios éticos e fraudes em publicações de pesquisadores apoiados pela instituição.

Dentro dos mecanismos ou modalidades que podem acarretar desvios éticos e fraudes são abordadas as seguintes definições:

a) Fabricação ou invenção, consiste na apresentação de dados ou resultados inverídicos; b) Falsificação, consiste na fraude nos resultados obtidos de forma a alterar-lhes o significado, sua interpretação ou mesmo sua confiabilidade; c) Plágio, apresentação de resultados ou conclusões anteriormente obtidos por outro autor, idéias ou dados obtidos em análises de projetos ou manuscritos não publicados aos quais teve acesso como consultor, revisor, editor, ou assemelhado, bem como de textos integrais ou de parte substancial de textos alheios sem os cuidados detalhados nas regras; d) Autoplágio, apresentação total ou parcial de textos já publicados pelo mesmo autor, sem as devidas referências aos trabalhos anteriores (CNPq, 2011).

Entre as diretrizes geradas pela portaria PO-085 (CNPq, 2011) estão: conferir crédito as fontes que fundamentam a pesquisa; apresentar de forma coesiva e não fragmentada manuscritos diversos, dos resultados de um estudo único complexo; dar crédito aos autores que inicialmente relataram a observação ou ideia que está sendo apresentada; não incluir intencionalmente referências de relevância questionável com a finalidade de manipular fatores de impacto ou aumentar a probabilidade de aceitação; descrever e justificar racionalmente e claramente alterações dos resultados iniciais obtidos, como eliminação de discrepâncias ou o uso de métodos estatísticos alternativos; e conduzir e executar os trabalho de pesquisa dentro de padrões éticos, seja com animais ou com seres humanos.

Segundo Pasqualotti (s.d) a análise e apresentação dos resultados estão relacionados a aspectos de integridade da pesquisa com a postura ética. Os problemas éticos surgem quando o pesquisador faz o mau uso de estatísticas; falsifica dados; altera os resultados; faz interpretação errônea de resultados com o objetivo de apoiar um ponto de vista próprio; insiste no uso de uma metodologia inapropriada; e enclausura certas informações.

De acordo com Kremer (1982 citado por RODRIGUES; CRESPO; MIRANDA, 2006) a ética na apresentação de resultados e em sua consequente publicação, está relacionada com a propriedade intelectual. Nesta conjuntura destaca-se a importância e a necessidade de conferir autoria a cada colaborador e respeito e reconhecimento ao trabalho de outros pesquisadores.

Tendo por base o quesito autoria, tal argumento se baseia na idéia de que todos os autores e colaborados que tiveram participação efetiva da pesquisa, recebam o reconhecimento e as “honras ao mérito” pelo trabalho realizado. Já o respeito e reconhecimento a pesquisa de outrem está na responsabilidade de citação desta fonte, evitando a categorização de plágio ou até mesmo autoplágio.

Rodrigues, Crespo e Miranda (2006) mencionaram outro problema que é a inclusão de um pesquisador de “prestígio” na autoria do trabalho, configurada pelo CNPq (2011) como autoria fantasma. Em muitos casos, o respeito à hierarquia e a “pressão” para tornar público os resultados de uma pesquisa podem estimular que os autores, acrescentem o nome de um pesquisador que tenha muitas publicações e boa reputação no meio científico. Tal intento visa aumentar a importância e o impacto do trabalho e o pensamento frívolo de que a publicação será mais rápida. Entretanto, esta atividade pode levar a desvios éticos, configurados nos casos onde o pesquisador de “prestígio” é inserido no trabalho sem o seu consentimento, quando este não teve participação na estruturação e condução da pesquisa e quando a sua autoria é creditada e aceita, em vez de um discente ou técnico de laboratório, visto que ambos entendam da complexidade do assunto abordado e conduziram e apoiaram efetivamente a pesquisa.

Diante das pressões dos agentes de fomento (por exemplo, CNPq e CAPES) o jovem pesquisador que não está bem educado e pouco seguro dos preceitos éticos, pode facilmente ser atraído pelo caminho da fácil produção (e até mesmo invenção) de dados, gerando verdades enviezadas e satisfazendo aos editores de importantes revistas, desta forma, atendendo à intensa demanda por publicações (WASSERMAN, 2010, p. 468).

Ações que eliminem a participação do orientando ou discente em publicação de resultados de uma pesquisa, onde este foi utilizado apenas como mão de obra barata, ferem o conceito de tutoria. Este conceito é baseado na premissa de que pesquisadores em formação aprendem a pesquisar cientificamente sob a orientação ou supervisão de pesquisadores já qualificados e experientes. Tal prática leva ao descontentamento, desânimo e falha na formação do discente (SANTOS, 2011).

Todos os autores devem participar na redação e editoração do manuscrito, receber cópia do mesmo e concordar em compartilhar a responsabilidade pelos resultados e igualmente fornecer esta anuência na ocasião de envio para publicação. Portanto, adicionar autores por conveniência e sem participação efetiva nas etapas do trabalho constitui infração à Ética (CARVALHO, 2009, p. 166).

De acordo com Rodrigues, Crespo e Miranda (2006), correlacionada com a incorporação do autor de “prestígio”, está a autoria honorária, denominada pelos economistas como a “síndrome do cogumelo”. Esta situação é comum em casos onde um pesquisador se incorpora em um trabalho que não teve participação efetiva, visando melhorar seus índices de publicação. Esta prática configura falha ética tanto do pesquisador sem participação efetiva, quanto dos que aceitaram este exercício, pois todos os autores são responsáveis pela idoneidade e veracidade do trabalho (CNPq, 2011).

Mediante ao conhecimento das pressões exercidas pelas Agências públicas ou privadas de financiamento de pesquisas, é importante deixar claro desde o início, a adoção do compromisso ético e o meio termo entre verdade e credibilidade e o atendimento aos objetivos propostos (WASSERMAN, 2010). Todo conceito ético é suscetível a graus diferentes de interpretação subjetiva, não governada por regras. Isto é evidenciado em situações onde por falta de normas e diretrizes são exigidas intervenções pelo bom senso, talento natural, grau intelectual e experiência (SANTOS, 2011).

Em geral, os desvios éticos na publicação dos resultados de uma pesquisa atuam consequentemente na sociedade, de forma econômica e social. A ausência da ética afeta o avanço do conhecimento e gera danos como, má aplicação dos recursos das agências de financiamento, prejuízo profissional e mérito subtraído de pesquisadores quando plagiados. A correção destes desvios éticos, seja por processo de conduta ética, prova e punição (cassação de título e prisão) não é suficiente para evitar ou reparar estes detrimentos (CNPq, 2011; RODRIGUES; CRESPO; MIRANDA, 2006). Gaiva (2009) tendo por objetivo estimular o debate das questões éticas da pesquisa envolvendo crianças, conclui que deve ser exigida cada vez mais dos pesquisadores, atitudes de responsabilidade e competência ética e moral.

Um caso famoso de falta de ética e fraude na apresentação de resultados é o de Jan Henrik Schon. Jan era um pesquisador da Bell Laboratories, de Nova Jersey, que teve entre 1998 e 2001, vários artigos sobre eletrônica avançada publicados nas revistas Science e Nature. Por publicar artigos de difícil compreensão e reprodução, ele era considerando um cientista em ascensão. Entretanto, um comitê descobriu que os seus resultados foram inventados em pelo menos 16 ocasiões, resultando em constrangimento público dos seus colegas, de sua empresa, e das equipes editoriais das revistas que aceitaram seus resultados (FRATER, 2008).



1   2   3   4   5   6   7   8


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal