Dashiell hammett safra vermelha



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DASHIELL HAMMETT

SAFRA VERMELHA

Tradução de LINO VALLANDRO

Coleção BIBLIOTECA DO LEITOR MODERNO Volume 115

Titulo do original norte-americano: RED HARVEST Copyright 1927, 1928, 1929, 1930, 1931, 1934, (c) 1965 by Alfred A. Knopf, Inc.

Do Autor, publicados por esta Editora: A Ceia dos Acusados A Chave de Vidro Estranha Maldição

Diagramação: LÉA CAULLIRAUX

Direitos para a língua portuguesa, com exclusividade para o Brasil, cedidos pela editora norte-americana Alfred A. Knopf, Inc. à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A. Rua 7 de Setembro, 97 Rio DE JANEIRO, que se reserva a propriedade desta tradução.

1970

Impresso no Brasil Printed in Brazil



A

Joseph Thompson Shaw

ÍNDICE

I - A Mulher de Verde e o Homem de Cinzento 4 II - O Czar de Poisonville 11 III - Dinah Brand 18 IV - Hurricane Street 25 V - O Velho Elihu Fala Direito 32 VI - A Espelunca do Cochicho 38 VII - Foi por Isso que Eu lhe Atei as Mãos 44 VIII - Um Palpite Infalível 51 IX - A Faca Preta 55 X - Procura-se Um Crime 62 XI - A Colher de Dinah Brand 67 XII - Uma Nova Política 73 XIII - $ 200,10 - 79 XIV - Max 84 XV - A Estalagem de Cedar Hill 90 XVI - Jerry Deixa o Palco 97 XVII - Reno 102 XVIII - Painter Street 110 XIX - A Conferência da Paz 114 XX - Láudano 119 XXI - O Décimo Sétimo Homicídio 125 XXII - O Quebrador de Gelo 130 XXIII - Mr. Charles Proctor Dawn 138 XXIV - Procurado pela Polícia 144 XXV - Whiskeytown 150 XXVI - Chantagem 154 XXVII - Velhos Armazéns 160



I - A Mulher de Verde e o Homem de Cinzento

A PRIMEIRA vez que ouvi dar a Personville o nome de Poisonville (Cidade-Veneno) foi em Butte, no Big Ship, dos lábios de um malandro de cabelos vermelhos chamado Hickey Dewey. Ele também dizia shoit referindo-se à sua camisa (shirt). Não liguei importância à modificação do nome da cidade. Posteriormente, ouvi outros indivíduos mais capazes de articular os rr pronunciá-lo da mesma forma. Ainda assim, não vi no caso mais que essa espécie de humorismo sem significação, que, na gíria dos gatunos, transforma dictionary em richardsnary. Alguns anos mais tarde, fui a Personville e mudei de idéia.

Dirigindo-me a um dos telefones da estação, liguei para o Herald, chamei Donald Willsson, e disse-lhe que acabava de chegar.

- Pode ir a minha casa esta noite, às dez? - O jornalista falava com uma voz incisiva, muito agradável. - É em Mountain Boulevard, 2101. Tome um bonde da Broadway, desça em Laurel Avenue, e siga duas quadras para oeste.

Prometi ir. Depois um carro me conduziu ao Great Western Hotel. Deixei lá as minhas malas e saí para ver a cidade.

Não era bonita. A maior parte dos construtores tinham-se empenhado em edificações vistosas. Talvez o tivessem conseguido, a princípio. Depois a fumaça amarela das fundições, cujas chaminés de tijolo se erguiam altaneiras contra uma sombria montanha ao sul, havia encardido tudo. O resultado era uma feia cidade de quarenta mil habitantes, edificada numa feia depressão entre duas feias montanhas que a exploração das minas cobrira de escórias. Por cima disso tudo se desdobrava um céu fuliginoso que parecia ter saído das chaminés das fundições.

O primeiro policial que vi, estava por barbear. O segundo, faltavam-lhe dois botões no surrado uniforme. O terceiro achava-se postado no meio do principal cruzamento da cidade - entre a Broadway e a Union Street - dirigindo o tráfego com um charuto no canto da boca. Depois disso, deixei de reparar neles.

Às nove e meia tomei um bonde da linha Broadway e segui as instruções que Donald Willsson me dera. Fui ter a uma casa de esquina, construída dentro de um terreno coberto de relva e cercado de sebes.

A criada que veio abrir a porta disse-me que Mr. Willsson não estava em casa. Enquanto eu lhe explicava que tinha marcado encontro com ele, aproximou-se da porta uma loura esbelta, de pouco menos de trinta anos, vestida de crepe verde. Quando sorria, os olhos azuis não perdiam a dureza. Repeti-lhe a explicação que dera à criada.

- Meu marido não está agora. - Arrastava os rr de maneira quase imperceptível. - Mas se ele esperava o senhor, provavelmente não há de demorar.

Fez-me subir ao andar de cima, introduzindo-me numa peça situada na parte da casa que dava para a Laurel Avenue. Era uma sala vermelha e parda, com muitos livros. Sentamo-nos em cadeiras de couro, em parte voltados um para o outro, em parte voltados para uma grelha com carvões acesos, e ela tratou de descobrir o assunto que eu tinha a tratar com o marido.

- Mora em Personville? - começou.

- Não. San Francisco.

- Mas é a primeira vez que vem aqui?

- É.

- Realmente? Que acha da cidade?



- Ainda não vi o bastante para julgar. - Isso era mentira. Eu já tinha visto o suficiente. - Cheguei esta noite.

Seus olhos brilhantes cessaram de perscrutar-me enquanto ela dizia:

- Vai achar triste o lugar. - Em seguida tornou à sua inquirição: - Suponho que todas as cidades mineiras sejam assim. O senhor se ocupa de mineração?

- Atualmente não.

Olhou para o relógio que estava em cima da lareira e disse:

- É muita desconsideração de Donald fazê-lo vir aqui e deixá-lo esperar até esta hora da noite, depois de sair do trabalho.

Respondi que não fazia mal.

- Embora o senhor talvez não tenha vindo a negócios - sugeriu.

Não dei resposta.

Ela riu - uma risada de timbre um tanto áspero.

- Eu, na verdade, não costumo ser tão intrometida como decerto supõe - disse alegremente. - Mas o senhor é tão reservado que não posso deixar de me mostrar curiosa. O senhor não é contrabandista de bebidas, é? Donald muda-os freqüentemente.

Deixei-a interpretar como pudesse o meu sorriso.

No rés-do-chão soou a campainha do telefone. Mrs. Willsson estendeu para os carvões em brasa os pés calçados de chinelos verdes, fingindo não ter ouvido. Não compreendi por que razão ela julgou necessário fazê-lo.

- Parece-me que tem... - falou e deteve-se para olhar a criada que aparecera à porta.

A criada disse que chamavam Mrs. Willsson ao telefone. Ela pediu licença e saiu com a empregada. Não desceu ao andar de baixo; falou por uma extensão colocada no pavimento superior, ao alcance do meu ouvido. Escutei:

- Aqui fala Mrs. Willsson... Sim... Como?... Quem?... Não pode falar um pouco mais alto?... O quê?... Sim... Sim... Quem é que fala?... Alô! Alô!

Ouviu-se o bater repetido do gancho do telefone.

Os passos de Mrs. Willsson soaram ao longo do corredor - passos apressados.

Acendi um cigarro e fiquei a contemplá-lo até que a ouvi descer a escada. Fui então a uma janela, ergui uma ponta da cortina e olhei para a Laurel Avenue e para a garagem branca e quadrada que se via nos fundos da casa, daquele lado.

Pouco depois, uma mulher delgada, de chapéu e casaco escuros, surgiu diante dos meus olhos, caminhando rapidamente da casa à garagem. Era Mrs. Willsson. Saiu num Buick. Voltei à minha cadeira e esperei.

Passaram três quartos de hora. Às onze e cinco, ouviu-se o ranger de freios de automóvel lá fora. Passados dois minutos, Mrs. Willsson entrou na sala. Tinha tirado o chapéu e o casaco. O rosto estava branco, os olhos quase negros.

- Lamento muito - disse, movendo espasmòdicamente os lábios apertados - mas foi inútil sua espera durante todo esse tempo. Meu marido não virá para casa esta noite.

Respondi que falaria com ele de manhã no Herald.

Retirei-me perguntando a mim mesmo por que razão a ponta verde de seu chinelo esquerdo estava úmida e escura, como se estivesse manchada de sangue.

Dirigi-me à Broadway e tomei um bonde. Três quadras ao norte do meu hotel, saltei para ver que estava fazendo a multidão reunida em torno de uma entrada lateral do City Hall.

Trinta ou quarenta homens e um punhado de mulheres achavam-se na calçada olhando para uma porta com o letreiro Departamento de Polícia. Havia mineiros e fundidores, ainda com as roupas de trabalho, rapazes em trajes vistosos, vindos de salas de bilhar e salões de dança, homens untuosos, de rosto pálido e nédio, sujeitos com o ar estúpido de maridos respeitáveis, umas poucas mulheres igualmente respeitáveis e broncas, e algumas damas noturnas.

Detive-me diante dessa aglomeração, junto de um homem atarracado, de roupa cinzenta amarfanhada. Tinha a cara também cinzenta, inclusive os lábios grossos, embora não pudesse contar mais de trinta anos. O rosto era largo, de feições grosseiras e expressão inteligente. Quanto ao colorido, irrompia de uma gravata vermelha que flamejava sobre a camisa de flanela cinzenta.

- Que foi que houve? - perguntei-lhe.

Olhou-me cuidadosamente antes de responder, como se quisesse assegurar-se de que a informação ia cair em boas mãos. Seus olhos eram cinzentos como o traje, porém mais vivazes.

- Don Willsson foi sentar-se à mão direita de Deus, se Deus não se importa de ver buracos de balas.

- Quem o matou? - perguntei.

O homem cor de cinza cocou a nuca e respondeu:

- Alguém que tinha uma arma de fogo.

Eu queria informações, e não gracejos. Teria tentado a sorte com outro componente da multidão, se a gravata vermelha não me tivesse interessado.

- Sou forasteiro. Pode fazer troça. É para isso que servem os forasteiros.

- Donald Willsson, redator do Morning e Evening Heralds foi encontrado há pouco em Hurricane Street, morto a tiros por pessoas desconhecidas - recitou em rápida melopéia. - Isso acalma os seus melindres?

- Obrigado. - Toquei com um dedo numa das pontas da sua gravata. - Tem alguma significação? Ou usa só por usar?

- Sou Bill Quint.

- Veja só! - exclamei, tratando de recordar-me do nome. - Por Deus, tenho muito prazer em conhecê-lo!

Saquei da carteira e corri os olhos pela minha coleção de cartões que reunira aqui e ali, por diversos meios. Era o cartão vermelho o que eu queria. Apresentava-me como Henry F. Neill, marinheiro de primeira classe, membro proeminente da Associação Internacional de Trabalhadores na Indústria. Não havia ali uma só palavra de verdade.

Passei esse cartão a Bill Quint, que o leu atentamente, anverso e reverso, devolveu-o, e me olhou do chapéu aos sapatos, sem muita confiança.

- Ele não vai morrer outra vez - disse. - Em que direção vai você?

- Qualquer direção.

Descemos juntos a rua, dobramos uma esquina, aparentemente sem rumo determinado.

- Que é que o traz aqui, se é marinheiro? - inquiriu em tom despreocupado.

- De onde lhe veio essa idéia?

- Está no seu cartão.

- Eu tenho outro que prova que eu sou lenhador - retruquei. - Se quer que eu seja um mineiro, arranjo-lhe amanhã o cartão correspondente.

- Nada disso. Sou eu que os dirijo aqui.

- E se você recebesse um telegrama de Chi? - interroguei.

- Para o diabo com Chi! Aqui sou eu o chefe. - Sacudiu a cabeça na direção da porta de um restaurante, e perguntou: - Bebe?

- Só quando encontro o que beber.

Atravessamos o restaurante, subimos uma escada, e entramos numa sala estreita do segundo andar, com um balcão comprido e uma fileira de mesas. Bill Quint inclinou a cabeça e disse: "Olá!" a alguns dos rapazes e pequenas que se achavam ao balcão e às mesas, e conduziu-me a um dos reservados com cortinas verdes junto da parede oposta ao bar.

Passamos as duas horas seguintes bebendo uísque e conversando.

O homem de roupa cinzenta não me julgava com direito a usar o cartão que eu lhe mostrara, nem o outro a que eu me havia referido. Não acreditava que eu fosse um bom camarada. Como figura principal da I. W. W. em Personville, achou que era seu dever tomar informações sobre mim, sem, por seu lado, fazer qualquer confidencia a respeito dos assuntos radicais enquanto procedia à sondagem.

Eu não tinha objeção. Estava interessado nos assuntos de Personville. Ele não se importava de discuti-los comigo entre casuais incursões no caso dos meus cartões vermelhos.

O que logrei arrancar-lhe consistia, em suma, no seguinte:

Durante quarenta anos o velho Elihu Willsson - pai do homem assassinado essa noite - fora dono de Personville, corpo, alma, pele e tudo. Era presidente e principal acionista da Personville Mining Corporation e do First National Bank, proprietário do Morning Herald e do Evening Herald, os únicos jornais da cidade, e pelo menos co-proprietário de quase todas as outras empresas de alguma importância. Além dessas propriedades, possuía uni senador, dois representantes federais, o governador, o prefeito, e a maior parte da legislatura estadual. Elihu Willsson era Personville, e quase o Estado inteiro.

Na época da guerra, a I. W. W. - então em plena florescência no Oeste - arregimentara o pessoal da Personville Mining Corporation. O pessoal nunca fora propriamente tratado a pão-de-ló. Valeu-se da força recém-adquirida para exigir as coisas de que precisava. O velho Elihu concedeu o que tinha de conceder, e esperou a sua oportunidade.

Esta chegou em 1921. Os negócios iam mal. O velho não se importava de fechar as portas por algum tempo. Rasgou os acordos que fizera com os operários e começou a restabelecer as condições de pré-guerra.

Naturalmente o proletariado gritou por socorro. Bill Quint foi enviado pela chefia da I. W. W., em Chicago, a fim de lhes orientar a ação. O enviado pronunciou-se contra uma greve, um franco abandono do trabalho. Aconselhou que adotassem o velho sistema de sabotagem, permanecendo no trabalho e minando internamente a produção. Mas o método não era bastante enérgico para a malta de Personville. Queriam chamar a atenção do mundo, fazer história trabalhista.

Declararam-se em greve.

A greve durou oito meses. Houve morticínio de ambos os lados. O proletariado teve de realizar a sua parte da carnificina com as suas próprias mãos. O velho Elihu contratou pistoleiros, fura-greves, guardas nacionais e até corpos do exército regular. Depois que se rachara o último crânio, e se quebrara a última costela, a organização trabalhista em Personville era um foguete queimado.

Mas, disse Bill Quint, o velho Elihu não conhecia a história italiana. Venceu a greve, mas perdeu o controle da cidade e do Estado. Para derrotar os mineiros, tivera de afrouxar a rédea aos bandidos que contratara. Terminada a greve, não pôde desembaraçar-se deles. Entregara-lhes a cidade e não tinha bastante força para recuperá-la. Personville agradou-lhes, e tomaram conta do lugar. Tinham vencido a greve para o velho, e ficaram com a cidade como despojo. O velho não podia romper abertamente com os homens que estavam a par de muitas coisas comprometedoras. Ele era responsável por tudo que haviam feito durante a greve.

Chegados a este ponto, Bill Quint e eu já estávamos íntimos. Ele esvaziou novamente o copo, afastou o cabelo dos olhos, e concluiu a sua narração:

- Agora, o mais forte deles é, provavelmente, Pete, o Finlandês. Isto que nós estamos bebendo é dele. Depois há o Lew Yard. Tem uma casa de empréstimos em Parker Street, presta fianças, faz os trabalhos mais escusos, segundo me consta, e é unha e carne com o chefe de polícia, Noonan. Aquele garoto Max Thaler - o Cochicho - também conta com muitos amigos. Um sujeitinho moreno, maneiroso, com um defeito na garganta. Não pode falar. Jogador. Esses três, e mais Noonan, ajudam Elihu a dominar a cidade - ajudam até mais do que ele queria. Mas o velho vê-se obrigado a trabalhar com eles, senão...

- E o homem que foi liquidado esta noite - o filho de Elihu - em que situação se achava?

- Na situação em que o papai o colocou, e agora está onde o papai o pôs.

- Quer dizer que o velho mandou...?

- Pode ser, mas não é isso o que eu penso. O tal Don veio para cá e se encarregou de dirigir os jornais para o pai. O diabo velho, embora estivesse com um pé na cova, não tinha o hábito de deixar os outros levarem vantagem sem reagir. Mas tinha de se cuidar com essa gente. Mandou vir de Paris o filho e a nora francesa, e serviu-se dele para tirar as castanhas do fogo - um diabo dum expediente paternal. Don lança nos jornais uma campanha de reforma, para extirpar o vício e a corrupção da cidade - o que quer dizer expulsar Pete, e Lew, e o Cochicho, se a reforma for até as últimas. Entende? O velho servia-se do rapaz para afastá-los daqui. Calculo que eles se cansaram dessa amolação.

- Não me parece muito certo isso - disse eu.

- Há muita coisa que não anda certa neste lugarejo infame. Já bebeu bastante?

Respondi que sim. Descemos à rua. Bill Quint me disse que estava no Hotel dos Mineiros, em Forest Street. Em seu caminho passava pelo meu hotel, de modo que fomos juntos. Em frente do meu hotel, um sujeito gordo, com cara de polícia, em traje civil, estava parado no meio-fio, conversando com o ocupante de um carro de turismo Stutz.

- Aquele do auto é o Cochicho - disse-me Bill Quint. Olhei além do gordo e vi o perfil de Thaler. Era moço, moreno e miúdo, de belas feições, tão regulares que pareciam esculpidas.

- É simpático - observei.

- Hum-hum - concordou o homem de roupa cinzenta - a dinamite também é.

II - O Czar de Poisonville

O Morning Herald dedicava duas páginas a Donald Willsson e à sua morte. O retrato mostrava uma fisionomia agradável e inteligente, cabelos crespos, olhos e boca sorridentes, queixo fendido e gravata listrada.

A história da morte era simples. Na noite anterior, às dez e meia, Willsson recebera quatro ferimentos à bala, no estômago, no peito e nas costas, morrendo imediatamente. O atentado se dera na décima primeira quadra de Hurricane Street. Moradores dessa quadra, que olharam para fora ao ouvir os tiros, viram o cadáver caído na calçada. Inclinados sobre ele achavam-se um homem e uma mulher. A rua estava muito escura para se poder ver claramente o que quer que fosse. O homem e a mulher desapareceram antes que alguém chegasse à rua. Ninguém os sabia descrever. Ninguém os tinha visto retirarem-se.

Haviam sido disparados seis tiros, de uma pistola de calibre 32, contra Willsson. Dois erraram o alvo, indo atingir a frente de uma casa. Seguindo a trajetória desses dois projéteis, a polícia apurou que os tiros partiram de uma viela estreita, do outro lado da rua. Era só o que se sabia.

Em editorial, o Morning Herald sumariou a breve carreira do morto como reformador cívico, e expressou a crença de que ele fora assassinado por alguma das pessoas que não desejavam o saneamento de Personville. Dizia que o melhor meio de o chefe de polícia demonstrar a sua não-cumplicidade era obter prontamente a prisão e condenação do assassino ou assassinos. O editorial era rude e acrimonioso.

Terminei-o juntamente com a minha segunda xícara de café, tomei um bonde da Broadway, desci na Laurel Avenue e encaminhei-me à casa do morto.

Estava a meia quadra da residência quando algo me fez mudar de intenção e de rumo.

Um homem de pequena estatura, vestido de marrom, atravessou a rua na minha frente. Tinha um bonito perfil moreno. Era Max Thaler, por alcunha o Cochicho. Alcancei a esquina do Mountain Boulevard a tempo de vislumbrar a sua perna, coberta pela calça marrom, desaparecendo na porta de entrada da casa de Donald Willsson.

Voltei à Broadway, descobri um drug store com cabina telefônica, procurei na lista o número de Elihu Willsson, e disquei para lá. Atendeu-me alguém que se dizia secretário do velho; declarei-lhe que tinha vindo de San Francisco por ordem de Donald Willsson, que estava a par de alguns fatos relacionados com a sua morte, e que queria falar com o seu pai.

Quando consegui tornar-me bastante convincente, fui convidado a apresentar-me.

O czar de Poisonville estava meio reclinado na cama quando o secretário - um homem de quarenta anos, silencioso, esguio, de olhos penetrantes - me introduziu.

A cabeça do velho era pequena, e de forma redonda quase perfeita sob os cabelos à escovinha. Tinha as orelhas muito pequenas e muito pegadas aos lados da cabeça, para destruir a impressão de esfericidade. Também o nariz era pequeno, prolongando a curva da testa ossuda. Boca e queixo eram linhas retas que cortavam a esfera. Abaixo deles, o pescoço grosso e curto mergulhava no pijama branco, entre os ombros cheios e quadrados. Um dos braços estava em cima da coberta - um braço curto, maciço, terminado em mão rude, de dedos grossos. Os olhos eram redondos, azuis, pequenos e úmidos. Pareciam estar-se escondendo atrás da camada aquosa e das espessas sobrancelhas brancas, unicamente à espera do momento de projetar-se e capturar alguma coisa. Elihu Willsson não era da espécie de homem cuja carteira a gente tentaria furtar, a não ser que se tivesse muita confiança nos dedos.

Com uma pequena sacudidela da cabeça, mandou-me sentar numa cadeira ao pé da cama, e com outra despachou o secretário. Depois disse:

- Que história é essa a respeito de meu filho?

A voz era áspera. O peito desempenhava um papel muito mais importante do que a boca na emissão das palavras, de modo que estas não saíam muito claras.

- Sou empregado da Agência Continental de Detetives, seção de San Francisco - respondi. - Há dois dias recebemos de seu filho um cheque e uma carta, em que pedia que lhe mandassem um homem a fim de executar certo trabalho. Esse homem sou eu. Ele me disse que fosse à sua casa a noite passada. Fui, mas ele não apareceu. Quando voltei à cidade, soube que seu filho tinha sido morto.

Elihu Willsson espreitou-me com desconfiança, e perguntou:

- Bem, e daí?

- Enquanto eu esperava, sua nora recebeu um recado pelo telefone, saiu, voltou com uma mancha, que parecia de sangue, no calçado, e disse-me que o marido não ia voltar para casa. Ele foi morto às dez e quarenta. Ela saiu às dez e vinte e voltou às onze e cinco.

O velho sentou-se direito na cama e disse um mundo de coisas sobre a jovem Mrs. Willsson. Quando esgotou o repertório de impropérios, ainda lhe restava um pouco de fôlego, do qual se serviu para me berrar:

- Ela está na cadeia? Respondi que me parecia que não.

O velho não gostou da resposta. Ficou irritado. Gritou umas quantas coisas que não me agradaram, terminando por perguntar:

- Que diabo está você esperando?

Ele era muito velho e muito doente para ser esmurrado. Ri-me, e disse:

- Provas.

- Provas? Que é que lhe falta? Você disse...

- Não seja tolo - interrompi. - Por que razão ia ela matá-lo?

- Porque é uma francesa atrevida! Porque ela... A cara assustada do secretário assomou à porta.

- Saia daí! - trovejou o velho, e a cara desapareceu.

- Ciumenta? - perguntei, antes que o velho pudesse continuar com o berreiro. - Se não gritar, pode ser que eu ouça do mesmo jeito. Ando muito melhor da surdez desde que comecei a tomar fermento.

O velho fincou um punho em cima de cada uma das saliências que as suas coxas faziam nas cobertas e avançou o queixo quadrado para mim.

- Velho e doente como estou - disse, pausadamente - tenho muita vontade de me levantar e dar-lhe um pontapé no traseiro.

Repeti, sem lhe dar atenção:

- Ela era ciumenta?

- Era - volveu, já sem gritar - e autoritária, e dengosa, e desconfiada, e gananciosa, e mesquinha, e inescrupulosa, e dissimulada, e egoísta, e ruim - ruim como uma verdadeira peste!

- Havia razão para os ciúmes?

- Acho que sim - respondeu, acremente. - Eu fico possesso só de pensar que um filho meu era fiel a semelhante mulher. Mas, provavelmente, era. Ele tinha dessas.

- Mas não conhece nenhum motivo que a pudesse levar a matar o marido?

- Se não conheço nenhum motivo? - Estava gritando de novo. - Eu já não lhe disse que...

- Sim. Mas nada disso tem importância. É infantil.

O velho arremessou as cobertas e fez menção de sair da cama. Depois pensou melhor, ergueu a cara vermelha, e rugiu:

- Stanley!

Abriu-se a porta para deixar passar o secretário.

- Ponha para fora esse patife! - ordenou, brandindo o punho na minha direção.

O secretário voltou-se para mim. Abanei a cabeça e sugeri:

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