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DADOS DE COPYRIGHT

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe 



Le Livros

 e seus diversos parceiros, com o

objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como

o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso

comercial do presente conteúdo



Sobre nós:



Le Livros

 e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade

intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem

ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso

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 ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados 

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.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por



dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

 

Copyright © Stephen King, 1986

Publicado mediante acordo com o autor através de Lotts Agency

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA OBJETIVA LTDA.

Rua Cosme Velho, 103

Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22241-090

Tel.: (21) 2199-7824 – Fax: (21) 2199-7825

www.objetiva.com.br

Título original

It

Capa


Rodrigo Rodrigues sobre layout original

Imagem da capa

Glen Orbik

Revisão


Rita Godoy

Ana Kronemberger

Coordenação de e-book

Marcelo Xavier

Conversão para e-book

Abreu’s System Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

K64c

King, Stephen



It : a coisa [recurso eletrônico] / Stephen King ; tradução Regiane Winarski. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2014.

recurso digital

Tradução de: It

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-8105-152-9 (recurso eletrônico)

1. Ficção americana. 2. Livros eletrônicos. I. Winarski, Regiane. II. Título.

14-13153 CDD: 813

CDU: 821.111(73)-3



Este livro é dedicado com gratidão aos meus filhos. Minha mãe e minha esposa

me ensinaram a ser homem. Meus filhos me ensinaram a ser livre.

NAOMI RACHEL KING, 14 anos;

JOSEPH HILLSTROM KING, 12 anos;

OWEN PHILIP KING, 7 anos.

Crianças,  a  ficção  é  a  verdade  dentro  da  mentira,  e  a  verdade  desta  ficção  é

bem simples: a magia existe.

S. K.


“Esta velha cidade é meu lar desde que lembro

Esta velha cidade vai estar aqui bem depois que eu for embora.

Lado leste, lado oeste, dê uma boa olhada nela

Você anda mal, mas ainda faz parte de mim.”

— The Michael Stanley Band

“Velho amigo, o que você procura?

Depois de tantos anos fora você volta

Com as imagens que cultivou

Sob céus estrangeiros

Longe de sua própria terra.”

— George Seferis

“Do nada, para a escuridão.”

— Neil Young


SUMÁRIO

Capa


Folha de Rosto

Créditos


Dedicatória

Epígrafe


PARTE 1 – A SOMBRA ANTES

Capítulo 1 – Depois da enchente (1957)

Capítulo 2 – Depois do festival (1984)

Capítulo 3 – Seis telefonemas (1985)

DERRY: PRIMEIRO INTERLÚDIO


PARTE 2 – JUNHO DE 1958

Capítulo 4 – Ben Hanscom sofre uma queda

Capítulo 5 – Bill Denbrough vence o diabo (I)

Capítulo 6 – Um dos desaparecidos: uma história do verão de 1958

Capítulo 7 – A represa no Barrens

Capítulo 8 – O quarto de Georgie e a casa na rua Neibolt

Capítulo 9 – Arrumação

DERRY: SEGUNDO INTERLÚDIO

PARTE 3 – ADULTOS

Capítulo 10 – O reencontro

Capítulo 11 – Caminhadas

Capítulo 12 – Três convidados inesperados

DERRY: TERCEIRO INTERLÚDIO

PARTE 4 – JULHO DE 1958

Capítulo 13 – A apocalíptica guerra de pedras

Capítulo 14 – O álbum

Capítulo 15 – O buraco de fumaça

Capítulo 16 – A fratura ruim de Eddie

Capítulo 17 – Mais um desaparecido: a morte de Patrick Hockstetter

Capítulo 18 – O estilingue

DERRY: QUARTO INTERLÚDIO

PARTE 5 – O RITUAL DE CHÜD

Capítulo 19 – Nas vigílias da noite


Capítulo 20 – O círculo se fecha

Capítulo 21 – Debaixo da cidade

Capítulo 22 – O ritual de Chüd

Capítulo 23 – Para fora

DERRY: ÚLTIMO INTERLÚDIO

EPÍLOGO – BILL DENBROUGH VENCE O DIABO (II)

Aqui expresso meus agradecimentos


PARTE 1

A SOMBRA ANTES

“Eles começam!

As perfeições são acentuadas

A flor abre as pétalas coloridas

sob o sol

Mas a língua da abelha

não chega a elas

Elas afundam de volta no solo

gritando


— pode-se chamar de grito

que rasteja por elas, um tremor

enquanto elas murcham e desaparecem…”

— W


ILLIAM

 C

ARLOS


 W

ILLIAM S


,

Paterson

“Nascido na cidade de um homem morto.”

— B

RUCE


 S

PRINGSTEEN



Capítulo 1

Depois da enchente (1957)

1

O terror, que só terminaria 28 anos depois (se



terminasse), começou, até onde sei ou consigo

saber, com um barco feito de uma folha de jornal

flutuando por uma sarjeta cheia da água da chuva.

O  barco  balançou,  quase  virou,  se  endireitou,  mergulhou  corajosamente  nos  redemoinhos

traiçoeiros e continuou a seguir pela rua Witcham em direção ao sinal de trânsito que indicava

a interseção dela com a Jackson. As três lentes verticais de todos os lados do sinal estavam

escuras naquela tarde do outono de 1957, e as casas também estavam escuras. Vinha chovendo

sem parar havia uma semana, e dois dias antes os ventos também chegaram. Muitas partes de

Derry ficaram sem energia, que ainda não tinha voltado.

Um garotinho de capa de chuva amarela e galochas vermelhas corria alegremente ao lado

do  barco  de  jornal.  A  chuva  não  havia  parado,  mas  estava  diminuindo,  enfim.  Ela  caía  no

capuz  amarelo  da  capa  de  chuva  do  garoto,  soando  para  ele  como  chuva  em  um  telhado  de

galpão…  um  som  confortável,  quase  aconchegante.  O  garoto  de  capa  amarela  era  George

Denbrough. Ele tinha 6 anos. Seu irmão, William, conhecido pela maior parte das crianças da

Escola Derry (e até pelos professores, que jamais usariam o apelido na frente dele) como Bill

Gago,  estava  em  casa,  se  recuperando  de  uma  gripe  violenta.  Naquele  outono  de  1957,  oito

meses  antes  de  os  verdadeiros  horrores  começarem  e  28  anos  antes  do  confronto  final,  Bill

Gago tinha 10 anos.

Bill tinha feito o barco com que George agora brincava. Ele o fez sentado na cama, com as

costas apoiadas em vários travesseiros, enquanto a mãe tocava “Für Elise” no piano na sala

de estar e a chuva batia sem parar na janela do quarto.

Depois  de  três  quartos  do  quarteirão  no  sentido  de  quem  ia  para  o  cruzamento  e  para  o

sinal  de  trânsito  apagado,  a  rua  Witcham  estava  bloqueada  ao  trânsito  por  um  fogareiro  e


quatro cavaletes laranja. Em cada cavalete estava pintado 

DEPTO. DE OBRAS PÚBLICAS DE DERRY

. Atrás

deles, a chuva jorrava de canais entupidos com galhos, pedras e pilhas grudentas de folhas de



outono. A  água  primeiro  abriu  brechas  no  asfalto,  depois  arrancou  pedaços  inteiros,  isso  no

terceiro  dia  de  chuva.  Ao  meio-dia  do  quarto  dia,  pedaços  grandes  da  superfície  da  rua

desciam  pelo  cruzamento  da  Jackson  com  a  Witcham  como  canoas  em  miniatura.  Naquele

momento, muitas pessoas em Derry já tinham começado a fazer piadas nervosas sobre arcas.

O  Departamento  de  Obras  Públicas  tinha  conseguido  deixar  a  rua  Jackson  aberta,  mas  a

Witcham estava intransitável dos cavaletes até o centro da cidade.

Mas  todos  concordavam  que  o  pior  tinha  terminado.  O  rio  Kenduskeag  tinha  subido  até

quase a margem no Barrens e poucos centímetros abaixo das laterais de concreto do canal que

o  espremia  pelo  centro  da  cidade.  Naquele  momento,  um  grupo  de  homens  —  Zack

Denbrough,  pai  de  George  e  de  Bill,  entre  eles  —  estava  retirando  os  sacos  de  areia  que

haviam  empilhado  no  dia  anterior  com  pressa  e  pânico. A  inundação  da  véspera  e  os  danos

causados  por  ela  pareceram  quase  inevitáveis.  Deus  sabia  que  tinha  acontecido  antes:  a

inundação  de  1931  foi  um  desastre  que  custou  milhões  de  dólares  e  quase  duas  dúzias  de

vidas. Isso foi muito tempo antes, mas ainda havia pessoas vivas o suficiente para lembrarem

e assustarem os outros. Uma das vítimas da inundação foi encontrada 40 quilômetros a leste,

em Bucksport. Os peixes tinham comido os olhos desse cavalheiro infeliz, três dos dedos dele,

o pênis e a maior parte do pé esquerdo. Preso no que restava das mãos dele havia o volante de

um Ford.


Mas agora o rio estava baixando, e quando a nova represa da hidrelétrica de Bangor fosse

erguida rio acima, ele deixaria de ser uma ameaça. Ou era o que dizia Zack Denbrough, que

trabalhava  na  hidrelétrica.  Quanto  ao  resto,  bem,  as  inundações  futuras  podiam  se  cuidar

sozinhas. A questão era passar por essa, ter a energia de volta e esquecer. Em Derry, esquecer

tragédias e desastres era quase uma arte, como Bill Denbrough descobriria ao longo do tempo.

George  parou  nos  cavaletes,  na  beirada  de  uma  abertura  na  superfície  de  asfalto  da  rua

Witcham. Essa abertura fazia uma diagonal quase exata. Acabava do outro lado da rua, uns 12

metros  colina  abaixo  de  onde  ele  estava  agora,  à  direita.  Ele  riu  alto  (o  som  de  alegria

solitária e infantil pareceu iluminar aquela tarde cinzenta) quando uma onda na água levou o

barco  de  papel  pela  cachoeira  em  miniatura  formada  pelo  asfalto  quebrado.  A  água

desesperada  abriu  um  canal  que  descia  pela  diagonal,  e  assim  o  barco  viajou  de  um  lado  a

outro  da  rua  Witcham,  com  a  corrente  carregando-o  tão  rápido  que  George  teve  que  correr

para acompanhar. As galochas espalhavam água em jatos enlameados. As fivelas emitiam um

som alegre enquanto George Denbrough corria em direção à sua estranha morte. E a sensação

que tomou conta dele naquele momento foi amor claro e simples pelo irmão Bill… amor e um

toque  de  arrependimento  por  Bill  não  poder  estar  lá  para  ver  e  participar.  É  claro  que  ele

tentaria  descrever  para  Bill  quando  chegasse  em  casa,  mas  sabia  que  não  conseguiria  fazer

Bill enxergar do jeito que conseguiria fazer com que ele enxergasse se as posições estivessem

trocadas.  Bill  era  bom  em  ler  e  escrever,  mas  mesmo  na  idade dele,  George  era  esperto  o


bastante para saber que aquele não era o único motivo para Bill só ter A no boletim, e nem

para os professores gostarem tanto das redações dele. Contar era apenas parte do talento. Bill

era bom em ver.

O  barco  quase  voou  pelo  canal  em  diagonal,  só  uma  página  arrancada  da  seção  de

classificados do Derry News, mas agora George o imaginava como uma lancha torpedeira em

um filme de guerra, como os que ele via às vezes no cinema de Derry com Bill nas matinês de

sábado. Um filme de guerra com John Wayne lutando contra os japoneses. A proa do barco de

jornal jogava jatos de água para os dois lados enquanto corria, depois chegou à vala no lado

esquerdo da rua Witcham. Um novo jorro de água subia pela abertura no asfalto naquele ponto

e criava um redemoinho grande, e pareceu a ele que o barco seria inundado e viraria. Ele se

inclinou  de  maneira  alarmante,  mas  George  se  alegrou  quando  se  endireitou,  virou  e  desceu

rapidamente  para  o  cruzamento.  George  correu  para  alcançá-lo. Acima  da  cabeça  dele,  um

sopro  forte  de  vento  de  outubro  balançou  as  árvores,  agora  quase  sem  o  peso  das  folhas

coloridas por causa da tempestade, que naquele ano foi uma ceifeira das mais cruéis.

2

Sentado na cama, com as bochechas ainda



vermelhas de calor (mas com a febre baixando,

assim como o Kenduskeag), Bill terminou o barco.

Mas quando George esticou a mão para pegá-lo,

Bill o tirou do alcance dele.

— A-Agora pega a p-p-parafina.

— O que é isso? Onde fica?

—  Fica  na  pra-pra-prateleira  do  porão  quando  você  está  descendo  —  disse  Bill.  —  Em

uma caixa que diz Gu-Gu-ulf… Gulf. Traz pra mim, junto com uma faca e uma t-tigela. E uma

c-caixa de fu-fu-fósforos.

George  foi  obedientemente  buscar  os  objetos.  Ele  conseguia  ouvir  a  mãe  tocando  piano,

não “Für Elise” agora, mas uma outra música da qual ele não gostava tanto; era uma música

que parecia seca e barulhenta. Ele conseguia ouvir a chuva caindo regularmente nas janelas da

cozinha. Eram sons agradáveis, mas a ideia do porão não era nada agradável. Ele não gostava

do  porão  e  não  gostava  de  descer  a  escada  do  porão,  porque  sempre  imaginava  que  havia

alguma  coisa  lá  embaixo  no  escuro.  Era  bobagem,  é  claro,  o  pai  e  a  mãe  sempre  diziam,  e,

mais importante de tudo, Bill dizia que era bobagem, mas mesmo assim…



Ele não gostava nem de abrir a porta para acender a luz porque sempre pensava (era uma

coisa  tão  idiota  que  ele  não  ousava  contar  para  ninguém)  que,  enquanto  estivesse  tateando

atrás do interruptor, uma garra horrível pousaria de leve sobre o pulso dele… e o puxaria para

baixo, para a escuridão com cheiro de terra e umidade e legumes podres.

Idiotice! Não existiam coisas com garras, peludas e cheias de ódio assassino. De vez em

quando alguém ficava louco e matava muita gente (às vezes Chet Huntley contava sobre coisas

assim  no  noticiário  noturno),  e  é  claro  que  existiam  comunistas,  mas  não  existia  nenhum

monstro  estranho  morando  no  porão.  Mesmo  assim,  a  ideia  não  sumia.  Naqueles  momentos

intermináveis  em  que  ele  procurava  o  interruptor  com  a  mão  direita  (com  o  braço  esquerdo

segurando  a  maçaneta  com  força  total),  aquele  cheiro  do  porão  parecia  se  intensificar  até

encher  o  mundo.  Aromas  de  terra  e  umidade  de  legumes  estragados  se  misturavam  com  o

aroma inconfundível e inescapável, o cheiro do monstro, a apoteose de todos os monstros. Era

o  cheiro  de  uma  coisa  para  a  qual  ele  não  tinha  nome:  o  cheiro  da  Coisa,  agachada,

espreitando  e  pronta  para  atacar.  Uma  criatura  que  comeria  qualquer  coisa,  mas  que  estava

particularmente faminta por carne de garoto.

Ele abriu a porta naquela manhã e tateou eternamente em busca do interruptor, segurando a

maçaneta com o aperto habitual, com os olhos fechados com força, a ponta da língua saindo do

canto  da  boca  como  uma  trepadeira  em  agonia  em  busca  de  água  em  um  lugar  de  seca.

Engraçado? Claro! Pode apostar! Olha pra você, Georgie! Georgie tem medo do escuro! Que

bebezão!

O som do piano vinha do que o pai chamava de sala de estar e a mãe chamava de sala de

visitas. Parecia música do outro mundo, bem distante, como conversas e risadas em uma praia

lotada no verão devem parecer para o nadador cansado que luta contra a corrente.

Seus dedos encontraram o interruptor! Ah!

Eles o viraram…

… e nada. Nada de luz.

Ah, droga! A energia!

George  puxou  o  braço  como  se  estivesse  dentro  de  uma  cesta  cheia  de  cobras.  Deu  um

passo para longe da porta do porão, com o coração disparado no peito. Não havia energia, é

claro.  Ele  tinha  esquecido.  Que  porcaria!  E  agora?  Voltar  e  dizer  para  Bill  que  não  podia

pegar a caixa de parafina porque não havia energia e ele tinha medo de alguma coisa pegá-lo

quando ele estava na escada do porão, uma coisa que não era um comunista nem um assassino

em série, mas uma criatura muito pior do que os dois? Que a criatura deslizaria parte do corpo

podre  entre  os  degraus  da  escada  e  agarraria  seu  tornozelo?  Outros  poderiam  rir  dessa

fantasia,  mas  Bill  não  riria.  Bill  ficaria  zangado.  Bill  diria:  “Vê  se  cresce,  Georgie…  Você

quer o barco ou não?”

Como se esse pensamento fosse uma dica, Bill gritou do quarto:

— Você m-m-morreu aí, G-Georgie?

— Não, estou pegando, Bill — gritou George na mesma hora. Ele esfregou os braços para


tentar fazer os arrepios sumirem e a pele ficar lisa de novo. — Só parei pra tomar um copo de

água.


— Então a-anda logo!

Então  ele  desceu  os  quatro  degraus  até  a  prateleira  do  porão,  com  o  coração  como  um

martelo quente batendo na garganta, o cabelo da nuca em pé, os olhos ardendo, as mãos frias,

certo  de  que  a  qualquer  momento  a  porta  do  porão  se  fecharia  sozinha,  bloqueando  a  luz

branca que entrava pelas janelas da cozinha, e ele ouviria A Coisa, algo pior do que todos os

comunistas e assassinos do mundo, pior do que os japoneses, pior do que Átila, o Huno, pior

do  que  as  coisas  de  cem  filmes  de  terror. A  Coisa,  rosnando  profundamente;  ele  ouviria  o

rosnado naqueles segundos lunáticos antes de ser atacado e ter as entranhas arrancadas.

O cheiro de porão estava pior do que nunca por causa da inundação. A casa deles ficava no

alto na rua Witcham, perto do topo da colina, e eles tinham escapado do pior, mas ainda havia

água  parada  lá  embaixo  que  tinha  entrado  pela  velha  base  de  pedras.  O  cheiro  era  suave  e

desagradável, e fazia você querer respirar superficialmente.

George mexeu nas coisas na prateleira o mais rápido que conseguiu: latas velhas de graxa

de  sapatos  Kiwi  e  trapos  sujos  de  graxa,  um  lampião  de  querosene  quebrado,  dois  vidros

quase vazios de Windex, uma velha lata achatada de cera Turtle. Por algum motivo, essa lata

chamou a atenção dele, e ele passou quase trinta segundos olhando para a tartaruga na tampa

com uma espécie de assombro hipnótico. Mas então ele a jogou de volta… e ali estava enfim,

uma caixa quadrada com a palavra GULF escrita.

George a pegou e subiu correndo a escada o mais rápido que conseguiu, ciente de repente

de  que  a  parte  de  trás  da  camisa  estava  para  fora  da  calça  e  certo  de  que  isso  seria  sua

desgraça: a coisa no porão permitiria que ele chegasse quase na saída e agarraria a parte de

trás da camisa, o puxaria para trás e…

Ele chegou à cozinha e fechou a porta. Ela bateu com força. Ele se recostou nela com os

olhos  fechados,  o  suor  brotando  nos  braços  e  na  testa,  com  a  caixa  de  parafina  presa  com

força na mão.

O piano tinha parado, e a voz da mãe chegou até ele:

—  Georgie,  não  dá  pra  bater  a  porta  com  mais  força  da  próxima  vez?  Quem  sabe  você

consegue quebrar alguns dos pratos na cômoda se realmente tentar?

— Desculpa, mãe — gritou ele em resposta.

— George, seu bosta — disse Bill no quarto. O tom de voz foi baixo para a mãe deles não

ouvir.

George sufocou um risinho. O medo já tinha ido embora; fugiu dele tão facilmente quanto



um pesadelo desaparece para o homem que acorda com pele fria e ofegante; que sente o corpo

e olha para os arredores para ter certeza de que nada aconteceu, e então começa a esquecer.

Metade  já  sumiu  quando  os  pés  tocam  o  chão;  três  quartos  quando  ele  sai  do  chuveiro  e

começa a se secar; tudo quando ele termina o café da manhã. Tudo some… até a próxima vez,

quando, durante o pesadelo, todos os medos serão lembrados.


Aquela  tartaruga,  pensou  George,  indo  até  a  gaveta  da  bancada  em  que  ficavam  os

fósforos. Onde vi uma tartaruga assim antes?

Mas nenhuma resposta surgiu, e ele descartou a pergunta.

Ele  pegou  uma  caixa  de  fósforos  na  gaveta,  uma  faca  do  cepo  (segurando  a  parte  afiada

cuidadosamente longe do corpo, como o pai o ensinara) e uma pequena tigela da cômoda da

sala de jantar. Em seguida, voltou para o quarto de Bill.

— Q-Que cuzão você é, Gi-Georgie — disse Bill de maneira afável, e afastou algumas das

coisas  de  garoto  doente  na  mesa  de  cabeceira:  um  copo  vazio,  uma  jarra  de  água,  Kleenex,

livros, um vidro de Vick-VapoRub, cujo cheiro Bill associaria durante toda a vida com peitos

encatarrados  e  narizes  escorrendo.  O  velho  rádio  Philco  estava  lá  também,  tocando  não

Chopin nem Bach, mas uma música de Little Richard… Só que bem baixinho, tão baixinho que

parecia  que  tinham  roubado  todo  o  poder  primordial  de  Little  Richard.  A  mãe  deles,  que

estudara  piano  clássico  em  Juilliard,  odiava  rock-and-roll.  Ela  não  apenas  desgostava;

abominava.

—  Não  sou  cuzão  —  disse  George,  sentado  na  beirada  da  cama  de  Bill  e  colocando  as

coisas que reuniu na mesa de cabeceira.

— É, sim — disse Bill. — Não passa de um grande cuzão marrom, você.

George  tentou  imaginar  um  garoto  que  não  passasse  de  um  grande  cuzão  com  pernas  e

começou a rir.

— Seu cu é maior do que Augusta — disse Bill, também começando a rir.

— Seu cu é maior do que o estado todo — respondeu George. Isso fez os garotos rirem por

quase dois minutos.

O que seguiu foi uma conversa sussurrada do tipo que significa muito pouco para qualquer



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