Curso de letras leticia rachel fernandes da silva



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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

CURSO DE LETRAS

LETICIA RACHEL FERNANDES DA SILVA

RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA:

UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO PERSONAGEM

DE LIMA BARRETO

NITERÓI-RJ

2016

LETICIA RACHEL FERNANDES DA SILVA

RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA:

UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO PERSONAGEM

DE LIMA BARRETO

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a conclusão do curso de Licenciatura em Letras Português e Inglês

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Tatiana Vieira Barcelos Farias

NITERÓI-RJ

2016

LETICIA RACHEL FERNANDES DA SILVA

RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA:

UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO PERSONAGEM

DE LIMA BARRETO
Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a conclusão do curso de Licenciatura em Letras Português e Inglês

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Tatiana Vieira Barcelos Farias

Niterói,_______de____________________de 2016.

BANCA EXAMINADORA

Professora Dra. Tatiana Vieira Barcelos Farias

____________________________________

Professor Mauricio Afonso Weichert

Dedicatória

Dedico este trabalho aos meus pais, que em minha juventude me apoiaram e me deram condições de poder estudar; e hoje, aos meus dois filhos, Marcelo e Mateus, que me incentivaram e suportaram a minha ausência para que eu pudesse realizar mais um sonho.

AGRADECIMENTOS

A Deus, que em seu imenso amor por mim me concedeu o dom da vida; à Excelentíssima Senhora Presidente Dilma Vana Roussef que me proporcionou realizar este sonho através do FIES em seu governo; ao Sr. Bispo Edir Macedo e a todos os Bispos e Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus pelo incentivo, encorajamento e apoio motivacional, em especial ao Sr. Bispo Vitor Paulo, que requereu pessoalmente que todas as educadoras sociais da Escola Bíblica Infantil da IURD de São Gonçalo, viessem a cursar uma universidade. A todos os meus professores, sem os quais eu não teria razões para celebrar esta conquista, especialmente à minha orientadora Tatiana Farias. E à minha sobrinha Nathália Vince, que, no momento mais difícil do meu curso, abriu mão das suas noites de descanso para que eu pudesse continuar a estudar.

A literatura tem como suporte uma língua, um produto cultural.

A realidade imediata não se diz em plenitude.”

Domício Proença Filho

RESUMO

Este artigo visa analisar sociologicamente alguns dos argumentos que se destacam como críticas feitas por Lima Barreto ao sistema e à ideologia capitalista em seu romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Nesta tentativa de compreensão do alcance do texto literário, veículo capaz de transportar a crítica ideológica do autor de forma eficaz por meio do uso das situações descritas na trama, elegemos o método de pesquisa bibliográfico e a linha teórica de análise do discurso do Professor José Luiz Fiorin em seu livro Linguagem e Ideologia, para nortear esta análise.



Palavras Chave: Análise Sociológica, Crítica Ideológica, Título

ABSTRACT

This article aims to examine sociologically some of the arguments that stand out as criticism to the system and capitalist ideology, made by Lima Barreto in his book "Recordações do Escrivão Isaías Caminha". In this attempt to understand the scope of the literary text, a vehicle able to carry the ideological critique of the author effectively through the use of the situations described in the plot, we choose the literature search method and the theoretical line of discourse analysis of Professor José Luiz Fiorin in his book Language and Ideology, to guide this analysis.



Key words: Sociological Analysis, Ideological Criticism, Title

SUMÁRIO

1 - INTRODUÇÃO...................................................................................PÁG 10

2- A CRÍTICA IDEOLÓGICA EM ISAÍAS CAMINHA.............................PÁG 11

3 - ISAÍAS CAMINHA RUMO AO SEU DESTINO.................................PÀG 15

4 - ISAÍAS CAMINHA NO RIO DE JANEIRO........................................PÁG 18

5 - ISAÍAS CAMINHA DESCOBRINDO A IMPRENSA.........................PÁG 21

6 - ISAÍAS CAMINHA ENTRE O ACASO E A TRAGÉDIA...................PÁG 26

7- CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................PÁG 29

8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................PÁG 30

INTRODUÇÃO

O propósito de estudar e buscar compreender Lima Barreto e sua obra é desafiador; aquele que se dispõe a debruçar sobre o tema escolhido deve tomar a íntima decisão de mergulhar no texto como um detetive em busca de pistas que o levarão a elucidar vários pontos obscuros da história do nosso país e da nossa gente. É possível notar que, a cada frase, a cada parágrafo, o autor constrói sua trama deixando transparecer sua essência e sua visão particular do mundo, enquanto desenha personagens que tem a dura missão de representar, cada um à sua maneira, um pouco da realidade cotidiana do Brasil do início do século XX.

Partimos da premissa que no livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, Lima Barreto dissecou a estrutura de atuação do sistema capitalista na vida de um indivíduo e promoveu uma crítica perspicaz a toda a ideologia capitalista. Em um jogo de sedução entre as classes dominantes e as classes dominadas, o autor constrói a sua reflexão tendo como pano de fundo a sociedade carioca e a imprensa da época.

Como em uma viagem através do tempo, é possível traçar um paralelo entre nossas raízes passadas e muitos dos seus reflexos em nossos dias. É natural surpreender-se com a contemporaneidade dos assuntos tratados em seu romance, questionar-se até que ponto a ficção flerta com a realidade e promover a conexão entre os pensamentos dos personagens que Lima Barreto cria e muitos de nossos conflitos atuais.

A CRÍTICA SOCIOLÓGICA EM ISAÍAS CAMINHA

Segundo o raciocínio proposto pelo Professor José Luiz Fiorin em seu livro Linguagem e Ideologia, é inevitável a reflexão sobre quais relações a linguagem mantém com a ideologia, afinal, a linguagem é o mais poderoso instrumento do qual fazem uso os cidadãos de uma determinada sociedade.

A nossa intenção é verificar qual é o lugar das determinações ideológicas neste complexo fenômeno que é a linguagem, analisar como a linguagem veicula a ideologia, mostrar o que é ideologizado na linguagem. O trabalho é difícil.” (FIORIN,2007)

Esta reflexão nos leva a compreender que as situações descritas na trama, evocam um contexto maior, de intenções mais fortes que apenas contar a estória de vida do protagonista do romance. Estendendo o olhar às nuances de cada personagem e aos relacionamentos sociais descritos pelo autor em sua narrativa, detectamos ao longo de todo o texto o tom crítico proposital que visa desmascarar uma realidade que incomoda. O autor busca suscitar no leitor uma determinada capacidade de reação e desejo de mudança através das ideias que lhe são apresentadas.

Pareceu-me então que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, de abundância e riqueza, mas também um titulo para o superior respeito dos homens e superior consideração de toda a gente.(BARRETO,1995,pág.1)

Dentro desta compreensão, emerge o texto literário como um instrumento de poder, pois através da sua divulgação, ocorre também a propagação dos pensamentos e ideologias do autor, os quais, se aceitos e assimilados pelo leitor serão ferramenta útil aos anseios de transformação da sociedade. A capacidade do autor em posicionar seu romance neste contexto, nos permite uma análise do ponto de vista sociológico e remete ao pensamento de Karl Marx sobre a práxis que tem por intuito a transformação da realidade objetiva que é apresentada dentro da narrativa.

Ao adentrarmos o universo da infância do personagem Isaías Caminha, percebemos a intenção de Lima Barreto em promover uma séria reflexão acerca das disparidades sociais a que estava sujeito um brasileiro comum do final do século XIX e início do século XX. Já na primeira página de seu romance, o autor delimita o ponto de partida deste questionamento:

A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de inteligência (...)“O espetáculo do saber de meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento.” (BARRETO,1995,pág.1)

O primeiro signo utilizado por Lima Barreto na abertura de seu romance traz implícito tanto a característica mais forte da identidade do protagonista como o tom escolhido pelo autor, para desenvolver toda a obra. É com essa tristeza que aflora desde a infância de Isaías, que Barreto vai trabalhar ao longo de todo o livro. Essa tristeza que o leva a questionar os extremos, as desigualdades, e que o lança em uma busca calculada e consciente do seu ideal de felicidade, também o leva inevitavelmente ao deslumbramento de compreender que apenas a posse do saber poderá lhe garantir, não só “abundância e riqueza”, como também “o superior respeito dos homens”, e “a superior consideração de toda a gente...”(BARRETO,1995).

Com a escolha do nome do personagem, o autor atribui-lhe um profundo significado: Isaías, nome bíblico de um dos maiores profetas do Antigo Testamento. Um nome no mínimo apropriado, para o filho bastardo fruto do relacionamento marginal de um vigário local com uma mulher de origem humilde, negra, pobre e sem estudos. Na mera construção das origens de Isaías, várias metáforas são posicionadas por Lima Barreto. O autor promove neste nascimento, a união dos valores que são raízes de todo o preconceito cultural da sociedade da época: o sagrado e o profano; o saber e a ignorância; a riqueza e a pobreza; o homem branco e a mulher negra; o prestígio e o desprezo; a felicidade e a tristeza; a beleza e a torpeza, enfim, todos estes elementos que, por si só geram abismos de intolerância e preconceito entre os seres humanos.

Segundo a palavra de Isaías, o saber do pai fora-lhe a inspiração para os estudos, e a ignorância da mãe, e dos parentes dela, o combustível de sua tristeza. Os dois extremos, objetos da sua reflexão e compreensão. Considerando os escritos de Lima Barreto como precursores do modernismo, e a contemporaneidade dos temas abordados por ele através das memórias do escrivão, é mesmo possível reconhecer o tom profético que o autor conferiu à sua obra.

Em seu livro “Trincheiras de Sonho” a Professora Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, sugere que Lima Barreto conecta o seu personagem a uma outra figura ilustre da história do Brasil: o escrivão Pero Vaz de Caminha, buscando dar assim à fala de seu personagem um certo ar de notoriedade e legitimidade; na visão de Carmem, o nome “Caminha” também permite ser interpretado num sentido mais amplo, já que em sua sonoridade, o autor explora a ambígua ideia de mobilidade, e sugere que Isaías “caminha”, em meio às suas recordações.

Os questionamentos propostos são sutis e ao mesmo tempo contundentes; não restam dúvidas quanto à escolha do autor em posicionar-se à margem de todo o sistema literário da época, ao qual não seria possível naquele dado momento, atrelar a sua criação. O posicionamento do autor é de rebeldia, inconformismo com o sistema; revolucionário. O estilo desenvolvido pelo autor é direto, muito próximo da realidade, em linguagem quase coloquial, o que não deixa de conferir ao texto a profundidade necessária para identificar traços de genialidade que ultrapassam os limites da escrita de sua geração.

Segundo Roland Barthes, “o mundo existe, o escritor fala - isto é literatura.” E é exatamente isto que Lima Barreto busca em seu romance: retratar o mundo e a sociedade que vê à sua volta. A visão literária é entendida então como uma visão do mundo, e principalmente a compreensão deste aspecto primordial; que através do pleno domínio da técnica como um determinado autor dispõe da sua própria linguagem ao longo dos textos, assim o reconhecemos, ou, o identificamos, através dos mesmos.

Este fato é evidente em todos os textos de Lima Barreto: ele mesmo fala através dos personagens que cria. O tempo todo o autor situa seu discurso dentro da narrativa, e ao mesmo tempo em que registra situações, atitudes, reações e circunstâncias específicas, também nos permite traçar um perfil e fazer uma releitura dos padrões de comportamentos e pensamentos da sociedade brasileira, mais especificamente da sociedade carioca, do início do século XX.

Quando acabei o curso do liceu, tinha uma boa reputação de estudante, quatro aprovações plenas, uma distinção e muitas sabatinas ótimas. Demorei-me na minha cidade natal ainda dois anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas notas ótimas e pelos prognósticos da minha professora, a quem sempre visitava e ouvia. Todas as manhãs, ao acordar-me, ainda com o espírito acariciado pelos nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai, Isaías! vai!... Isto aqui não te basta... Vai para o Rio!

Então, durante horas, através das minhas ocupações quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que o Rio era uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo, onde eu não tinha conhecimentos, relações, protetores que me pudessem valer...(BARRETO,1995,pág.2).

Novamente os signos denotando as disparidades: a cidade natal, que de tão insignificante não permite sequer que seu nome venha a ser citado no texto; em contraposição ao espetacular poderio da cidade “grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo”. Lima Barreto é detalhista, os contrastes precisam ser enormes. O Rio de Janeiro é o símbolo da conquista do sonho, a utopia da garantia da felicidade, o mosaico de gigantescas oportunidades. Mas que não deixa de ser um horizonte assustador para o jovem mulato, pobre e sem um bom nome de família que o possa valer. A guerra interior é travada e vencida pela decisão de partir. Isaías então caminha em direção ao seu destino.

Nota-se que Lima Barreto faz questão de retratar aqui, a origem de grande parte, ou talvez, da maior parte da população do Rio de Janeiro. Assim como acontece com o personagem, esta é a história de milhares de brasileiros que chegam todos os dias ao Rio em busca tão somente deste sonho de riqueza, oportunidades de trabalho e esperança de realização pessoal.

ISAIAS CAMINHA RUMO AO SEU DESTINO

O texto relata sem detalhes, a morte do pai de Isaias. O rapaz cresce em meio a uma vida de privações, até que acontece uma ruptura de realidades. O jovem toma a decisão de tentar a vida no Rio de Janeiro. Seu objetivo é continuar seus estudos e conquistar o tão sonhado e praticamente impossível título de Doutor, que lhe poderia garantir a tão sonhada ascenção social. Isaías nesse momento recorre aos conselhos do seu tio Valentim.



(...) não me envergonhava de estimá-lo, amava-o até, sem mescla de terror, já pela decisão do seu caráter, já pelo apoio certo que nos dera, a mim e a minha mãe, quando veio a morrer meu pai, vigário da freguesia de ***. Animara a continuar os meus estudos, fizera sacrifícios para me dar vestuário e livros...” (BARRETO,1995, pág. 4).

Neste ponto, Lima Barreto visa esboçar através dos personagens, os parâmetros da linha de raciocínio que o vai guiar durante os primeiros capítulos de seu romance. Na verdade, as reflexões que ele quer suscitar são sobre preconceito, desigualdade entre as classes, falta de integridade moral da República, e sobre a fragilidade do individuo ante a sociedade que o discrimina, rotula, cerceia e por fim, o utiliza, manipulando sua vontade e seu destino. Os esforços que o autor emprega para que o leitor venha a se familiarizar e se solidarizar com o jovem Isaías tem um objetivo concreto: legitimar o discurso do personagem, fazer com que o leitor respeite suas ideias e aceite a crítica ideológica que perpassa através dos olhos, dos pensamentos e da fala do protagonista.

“- Eu queria que, Vossa Senhoria, senhor coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse o rapaz ao doutor Castro.

O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo” ( BARRETO, 1995, pág. 5)

Se Isaías herda do pai, o deslumbre pelo conhecimento, a admiração pelo saber; por parte do tio Valentim, dá vazão aos seus sentimentos. E o estima; a tal ponto de reconhecer o amor incondicional que sente por ele. Descrito por Isaías como um homem “leal, valoroso, de pouca instrução, mas de coração aberto e generoso...”, a ajuda do tio é fundamental na decisão de Isaías por partir para o Rio.

Em seguida surge a informação que conecta a humilde figura ao respeitado representante do poder constituído, o coronel Belmiro: o tio de Isaías havia sido no passado, esteio do Partido Liberal, ao que sugere o texto, um tipo de cabo eleitoral do então Deputado Castro, parente do coronel. Tio Valentim é alguém capaz de cometer fraudes e crimes de amplo conhecimento de todos, tais como, utilizar-se de nomes de mortos para arregimentar votos válidos para a eleição do Deputado Castro e inclusive cometer assassinatos...talvez mesmo no objetivo de converter adversários políticos em eleitores... Apesar de ter conhecimento de tudo isto, Isaías ama o tio, pois este durante a sua infância, ajudou sua mãe no sustento da casa e custeou seus estudos na falta do pai.

O paradoxo aqui desenhado por Lima Barreto é o fato de que ele julga o tio uma boa pessoa, apesar de conhecer seu caráter e proceder questionáveis; é inclusive capaz de amá-lo. Desponta no texto a proposta de que a subserviência do tio ao coronel é devida à sua falta de instrução, à condição social de pobreza, à cor da pele, à aceitação do mecanismo torpe porém útil, da troca de favores.

A respeito do Coronel Belmiro, seu traço marcante: poucas palavras! O Coronel redige uma carta de apresentação que Isaias deve levar ao Deputado Castro no Rio de Janeiro, pedindo a este que lhe consiga um emprego... porque é pobre! Aqui, Lima Barreto despeja sua ironia contra o representante da elite social, quando diz que o coronel não demorou em escrever a carta, pois: “as suas noções gramaticais não eram suficientemente fortes para retardar a redação de uma carta...”

Mais uma vez aqui o autor questiona o paradoxo: para as classes mais pobres é imposta a condição de que adquira conhecimento e títulos pois somente uma pessoa muito preparada intelectualmente pode ascender às mais altas classes sociais. No entanto, a realidade demonstrada nesta situação é diametralmente outra. A reflexão aqui proposta é sobre o papel social dos personagens, a condição do rico e a do pobre, que conecta-se pela forma como os representantes políticos se impõem sobre as classes menos favorecidas, as massas, através da manipulação do jogo de interesses, atos fraudulentos e abuso do poder. Esta imagem mostra que Isaías, mesmo sendo detentor de conhecimentos em muito superiores aos do Tio Valentim e aos do Coronel Belmiro, ainda assim dependia de ambos em virtude de sua influência social; e dependia desta carta de apresentação, que, embora de redação simples, representaria o seu passaporte de entrada em um mundo sobrenatural de honrarias, regalias e considerações inimagináveis até então para o jovem mulato da cidadezinha do interior.

Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu cérebro." ( BARRETO, 1995, pág.6).

Neste ponto Lima Barreto esbanja sua crítica através do discurso do personagem. Isaías Caminha sonha com a futura condição adquirida e conquistada através do seu título de Doutor. A descrição tão detalhada do sonho dá ao leitor uma noção do que significava possuir um título de curso superior no Brasil do início do século passado. Uma ideia de status tão deificada na sociedade da época, que o autor chega a ironizar dizendo que com um titulo de Doutor, nem sequer as gotas da chuva ousariam tocar seu corpo ou seus sapatos! Que os melhores raios do sol seriam escolhidos para quem era Doutor, e o restante para os que não eram. Mas estes traços de ironia trazem nas entrelinhas a argumentação da ideia de que, os homens pobres, negros e de condição humilde, só poderiam ter seus pensamentos e ideologias ouvidos, caso conseguissem conquistar com seus próprios esforços, o título tão sonhado e venerado pela alta cúpula da sociedade brasileira da época.

ISAÍAS CAMINHA NO RIO DE JANEIRO

Ao chegar ao Rio de Janeiro, Isaías só tem um objetivo em mente: seu encontro com o Deputado Castro e o sonho de que este lhe consiga um emprego. Sua situação o assusta pois o dinheiro que o jovem possui, é apenas suficiente para o seu sustento por uns poucos dias em um hotel modesto. O rapaz tem dificuldade em conseguir a tão sonhada entrevista com o deputado, ao qual jamais encontra, nem na Câmara e nem no Hotel aonde supostamente reside. O pavor do futuro sombrio toma conta de seus pensamentos. Isaías começa a compreender a realidade do sistema capitalista, onde o indivíduo só tem valor atribuído a si através da representação do que possui.

Parava diante de uma e de outra, fascinado por aquelas coisas frágeis e caras. As botinas, os chapéus petulantes, o linho das roupas brancas, as gravatas ligeiras, pareciam dizer-me: Veste-me, ó idiota! nós somos a civilização, a honestidade, a consideração, a beleza e o saber. Sem nós não há nada disso; nós somos, além de tudo, a majestade e o domínio!” (BARRETO,1995.pág 20).

Isaías adquire o hábito de perambular pela cidade, e como bom observador, enquanto sobe e desce de um bonde a outro, vagueia entre os pensamentos que organiza interiormente na tentativa de compreender a própria miséria. O encontro com o deputado Castro só se faz possível quando Isaías o descobre na casa de uma amante. O deputado lhe promete ajuda, porém no trajeto de volta ao seu hotel, Isaías lê em uma notícia de jornal que o deputado está de viagem marcada para São Paulo, e, “demorar-se-á...” Com pouco dinheiro, o rapaz aceita um almoço oferecido por um amigo, ainda que isso lhe pareça contrário aos seus princípios. Chegando ao hotel, o jovem descobre que está intimado a depor na delegacia, por ser o principal suspeito de um roubo acontecido. Acaba preso por desacato à autoridade, mesmo que paradoxalmente esta mesma autoridade o tenha desacatado primeiro, ao referir-se ao jovem estudante pejorativamente chamando-o de “mulatinho”.

Com tal sequencia de acontecimentos adversos na vida do personagem, o autor descreve algumas desordens evidentes no sistema de classes. O suposto representante do povo no governo tem uma conduta amoral e antiética, e é totalmente indiferente à urgente necessidade do jovem em conseguir um trabalho que lhe garanta a subsistência. O fato de Isaías tomar conhecimento da ida do deputado Castro a São Paulo através de uma notícia de jornal também não é ao acaso; o autor quer demonstrar a ligação existente entre a imprensa e a informação precisa dos fatos relacionados à vida dos políticos. No incidente do almoço, o jovem sem recursos financeiros e sem perspectiva de renda abre mão de seus princípios elementares de pudor e aceita assistência até mesmo de um estranho. No episódio do roubo, o preconceito racial vigente faz com que o dono do hotel suspeite de Isaías pelo simples fato de ele ser jovem, pobre e negro.

O romance social de Lima Barreto tem muito em comum com a crônica, segundo Alfredo Bosi. Sua forma de criar situações, ambientes, cenas quotidianas, personagens que representam esta realidade classista que urge por ser repensada, definem claramente seu estilo realista em fase de pré-modernismo.



Vinham-me então os terrores sombrios da falta de dinheiro(...) Os meus únicos amigos eram aquelas notas sujas encardidas; eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem amada... (Cap. 3, Pag 21).

Em seu livro “Estudos de Teoria e História Literária” Antonio Candido afirma que “nada mais importante para chamar a atenção para uma verdade do que exagerá-la...(...), afirma também que “não há porém, nada mais perigoso.” Nota-se contudo, que Lima Barreto não tem medo de construir seus personagens de tal forma que caminhem neste limiar, entre o exagero e o perigo. E é assim que aprofunda cada vez mais as desventuras do jovem, e Isaías caminha...

Através do infortúnio de Isaías, o autor escarnece e ironiza a função social do dinheiro, evocando a dura realidade que a vida reserva àqueles que não o possuem: a humilhação, o sofrimento, o desprezo, os insultos e privações de toda a sorte. O protagonista é, de parágrafo em parágrafo, levado ao ápice do desespero: é despejado de hotel em hotel, passa fome, sobrevive da caridade alheia, de alguém que lhe pague um café, um lanche, ou uma refeição. Procura avidamente por subempregos muito aquém da sua capacidade intelectual, mas mesmo estes lhe são negados em virtude de sua cor, e de sua aparência humilde, por sua falta de representatividade social. Por fim, este pobre exemplar das classes dominadas já está tão moralmente abatido, que em nada se parece com o jovem que saiu de sua cidade natal cheio de sonhos; o estudante brilhante cujos traços de genialidade um dia encantaram sua professora do curso primário. Isaías, humilhado, chama ao dinheiro seu amigo, e sofre, amiúde, com sua ausência.


ISAÍAS CAMINHA DESCOBRINDO A IMPRENSA

Em vários momentos desde o inicio do romance, o autor usa de situações nas quais o jovem Isaías trava conhecimentos com outros personagens que sutilmente emitem considerações sobre os jornais e os jornalistas da época. Isaías descobre pouco a pouco, a importância dos jornais no dia a dia da cidade e também o quanto a figura do jornalista é ao mesmo tempo temida e respeitada. Compreende que aqueles reles mortais, os jornalistas, são imbuídos de mais responsabilidade do que apenas contar uma notícia ou dar uma informação, e sim, são detentores de poderes muito além do conhecimento do público em geral. O jovem percebe que os jornalistas fazem parte de um intrincado sistema de jogo de interesses e são capazes de manipular a opinião pública, os políticos, o próprio governo e suas decisões em geral, utilizando-se apenas do poder da palavra.

Segundo Maria Aparecida Baccega (2007), a linguagem verbal se destaca pois, além de viabilizar a comunicação, compreende-se que toda a dinâmica da sociedade está impregnada pela palavra; sendo assim, a linguagem é um centro irradiador que inter-relaciona vários aspectos semiológicos. A palavra é o veículo que possibilita as mudanças sociais, a elaboração e a construção do futuro, a transmissão de idéias, técnicas e artes, a interpretação e a comunicação a solidificação da prática social de um grupo e a continuidade do processo histórico.

“Embora seja resultado da práxis de toda a sociedade, de todas as classes sociais, uma das classes, a que tem maior interesse em manter o sistema de valores, porque este a beneficia - a classe dominante -, procura se apropriar da língua, tornando-a como que “propriedade” sua”. (BACCEGA, pág. 44)

Dada a percepção da crucial importância da palavra como elemento de fundamentação social, nota-se a razão pela qual a imprensa de uma forma geral detém este poder de influenciar e até mesmo manipular as massas de forma tão eficaz.

Em várias passagens do romance, Isaías é muitas vezes deslocado ao mero papel de ouvinte das opiniões que o autor desfila através das falas de seus personagens, como neste diálogo entre o poeta revolucionário socialista Aberlardo Leiva e seu amigo Plínio de Andrade.

- Você exagera, objetou Leiva. O jornal já prestou serviços... - Decerto... não nego... mas quando era manifestação individual, quando não era coisa que desse lucro; hoje, é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também...(...)São grandes empresas, propriedade de venturosos donos, destinadas a lhes dar o domínio sobre as massas,(...)conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores, para os seus atrozes lucros burgueses...não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um que os combata...Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal...” (BARRETO,1995, pág 51)

Nesta passagem, Lima Barreto expressa abertamente a conexão que existe, em sua interpretação, entre a imprensa, os jornais, e o sistema capitalista. Explica detalhadamente, por exemplo, que todos os jornais da cidade, por serem pequenos, eram por este motivo, facilmente manipulados financeiramente pelo governo, que comprava as noticias e as reportagens direcionando-as somente a seu favor. Em casos de escândalos, era vendido o silêncio dos jornalistas sobre o assunto; artigos contendo elogios aos políticos e órgãos do governo, eram muitas vezes escritos pelos próprios interessados nesta divulgação.

Calúnias e difamações também tinham seu preço estipulado, e não era incomum que um jornal falasse mal de um político no inicio da semana e exaltasse as suas virtudes dias depois. Como em um jogo de xadrez, notícias de jornais poderiam indicar, destituir e substituir pessoas em cargos públicos, até mesmo em altos escalões. Daí advinha o respeito e o temor à figura do jornalista. Dentre todos os jornais, destacava-se “O Globo”, como o único aparentemente autônomo e imune a toda esta submissão ao governo e seus integrantes. Porém, este era o pior de todos os que circulavam na época, pois em sua suposta independência utilizava de suas manchetes para intimidação, gerando um ambiente propício à chantagens e artifícios financeiros muito maiores; e pior, manipulando assim a opinião pública sem levantar suspeitas.

O protagonista chega ao auge da desilusão de todos os seus sonhos quando, após inúmeras tentativas de conseguir um emprego que lhe garantisse uma vida digna e a continuidade dos estudos, chega ao ponto de precisar vender seus livros para pagar a estadia de uma pensão. Nestas terríveis circunstâncias, o rapaz conhece um jornalista russo, Gregoróvitch Rostóloff, que o apresenta na redação do jornal “O Globo”, onde consegue uma colocação como contínuo, cargo que aceita resignado em virtude de sua mais absoluta necessidade.

Com um salário de 100 mil réis mensais mais as gorjetas, o jovem ganha apenas o suficiente para pagar por um quarto e duas refeições por dia. As roupas, aceita-as usadas, doadas por outros empregados do jornal. Com o tempo, Isaías conforma-se com a própria situação, a tal ponto de confessar que não mais abriria um livro para ler; sua única leitura passaria a ser as edições do afamado periódico de cuja equipe agora fazia parte.

É interessante notar que ao mesmo tempo em que cria uma trajetória ficcional para o seu personagem, Lima Barreto retrata a realidade social. Segundo o Professor Domício Proença Filho, este é um dos atributos da literatura.

“A Literatura tem como suporte uma língua, um produto cultural. (...) Obviamente, como fato cultural que é, a literatura acompanha o desenvolvimento da cultura de que é parte integrante. (...) A literatura se vale da língua e revela dimensões culturais. Cultura, língua e literatura estão, portanto, estreitamente vinculadas.”(PROENÇA FILHO, 2002, pág 30,38)

Neste ponto Lima Barreto exemplifica na narrativa de Isaías Caminha, como a classe dominante, ou seja, a burguesia capitalista, apodera-se da força de trabalho dos indivíduos e consequentemente, dos sonhos, ideais e pensamentos de toda a classe dominada. Não tendo onde morar, o que comer e nem sequer alguém que o possa ajudar nesta cidade grande, o jovem que veio do interior cheio de sonhos, atraído pela expectativa de poder estudar, conquistar um título de Doutor, um diploma universitário, enfim, o rapaz que sonhava em se destacar na sociedade, acaba por acovardar-se diante da ideologia reinante, e curvar-se ante o seu fascínio.

Isaías nota que, com o passar do tempo, o sentimento de inferioridade que a principio o dominava por ter aceitado um trabalho tão aquém de suas capacidades intelectuais, fora gradativamente substituído pelo falso orgulho de poder fazer parte de algo grande, importante, como parecia ser para todos a redação do jornal. A consciência íntima que tinha de si mesmo, como alguém destinado a obter destaque na sociedade - um jovem inteligente, um gênio talvez - foi pouco a pouco absorvida por uma mentalidade alienada e impotente diante da realidade imposta pelos percalços da vida. De tal modo acomodou-se o personagem, que chegou ao ponto de sentir-se importante pelo simples fato de ser a pessoa responsável por levar tinta ao tinteiro dos jornalistas e repórteres do conceituado jornal O Globo.

Segundo Carmem de Negreiros(1998), “a consciência do fracasso pelo esvaziamento de suas crenças, acentua a exclusão de Isaías da coletividade”.

O outrora aspirante ao título de Doutor, aceita residir resignadamente num quarto em uma casa de cômodos na altura do Rio Comprido. “- Era longe, mas era barato o aluguel...” e assim Isaías passa a dividir a sua miséria com outras dezenas de famílias; umas tantas cinquenta pessoas e um amontoado de crianças de todas as raças e cores, igualados apenas pela miséria em que vivem. Sente-se digno por poder manter-se no cortiço improvisado em um antigo palacete, que dos tempos de nobreza apenas conservava um jardim amarelecido e um salão principal com grandes pinturas no teto.

Observando as pessoas que ali convivem sem distinção de origem, credo ou classe social, Isaías reflete sobre as agruras da vida; medita naquele estado geral de pobreza, mas parece não perceber que também faz parte daquele contexto social.

“Num cômodo (em alguns) moravam às vezes famílias inteiras e eu tive ali ocasião de observar de que maneira forte a miséria prende solidamente os homens.”

“De longe, parece que toda essa gente pobre, que vemos por aí, vive separada, afastada pelas nacionalidades ou pela cor; no palacete, todos se misturavam e se confundiam.” (BARRETO,1995,pág 88)

Enquanto admira-se de não entender como aquela gente consegue tirar forças para sobreviver em meio à tanta fome, doenças, privações, exclusão e abandono; enquanto chega à conclusão de que quanto mais pobres, mais tenazes se fazem aqueles seus vizinhos na luta pelo direito à vida; o jovem em sua abstração sonha com tempos passados, onde talvez aquele palacete houvesse sido habitado por uma única família rica que ali houvesse celebrado seus banquetes e festas...

Neste ponto da narrativa, o autor discursa sobre o subproduto do capitalismo e da ideologia burguesa: a massa e seus inúmeros rostos sem identidade; a exploração da força de trabalho de uma multidão de miseráveis que proporciona o fausto e o luxo de uma pequena parcela da sociedade. Enquanto no jornal Isaías presencia o dia a dia de grandes negociatas financeiras, envolvendo o diretor do jornal e os grandes nomes da política, ao voltar para o cortiço imundo aonde reside em companhia de outras dezenas de estranhos em situação igual ou pior que a sua, ainda assim, recusa-se a aceitar que faça parte desta realidade execrável.

A ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade. Não é um conjunto de idéias que surge do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. Por isso, diz-se que ela é determinada, em última instância, pelo nível econômico.” (FIORIN, 2007, pág. 30).

O quadro reproduzido por Lima Barreto aqui é do conceito de alienação, proposto por Marx, exemplificado na prática. Isaías, posto à margem da sociedade, não se sente parte de nada, de nenhum contexto maior. Não é parte do produto final de seu trabalho, pois como contínuo da redação do jornal, em nada pode interferir ou influenciar naquilo que pelo jornal é produzido, ou seja, a notícia. Como cidadão não é detentor do direito de intervir ou modificar o sistema que o aprisiona. Tampouco aceita a realidade de sua humilhante condição de contínuo de um jornal e morador de um cortiço. Fala dos outros moradores como se ele mesmo não fizesse parte de tudo aquilo. Sente-se excluído, impotente, já não tem mais sonhos que o possam salvar, e como sempre, caminha em meio à sua tristeza.



ISAÍAS CAMINHA ENTRE O ACASO E A TRAGÉDIA

Como observador atento da realidade, Lima Barreto arremata a sua trama com os dois únicos ingredientes que, a seu ver, poderiam mudar o destino deste personagem já desiludido e aparentemente fadado ao anonimato de seus sonhos e convicções perdidas. Já que fora impossível conceder ao jovem estudante de boa reputação, detentor de “quatro aprovações plenas, uma distinção e muitas sabatinas ótimas”, uma boa colocação em seu ambiente de trabalho devido a seus méritos pessoais, o autor promove esta epifania em seu romance, através do acaso e da tragédia.

Esperava-se o doutor Loberant, mas entrou o fino, o elegante, o diplomático, o macio Frederico Lourenço do Couto, com a sua linda barba perfumada e o seu grande queixo erguido e atirado para adiante como um aríete de couraçado. (...) hoje, ao recordar-me com que sombria energia ele pôs fim ao seu desespero, ao ver diante de meus olhos a imagem do seu cadáver com aquela fraca cabecinha estourada por uma bala, tenho uma grande e imensa pena e lastimo.(...) Era o Floc, pseudônimo com que assinava os seus artigos...“ (BARRETO,1995,pág 58)

O texto mais uma vez transporta o leitor de um extremo a outro, dentro da narrativa de dois momentos antagônicos: o contraste entre a descrição da cena da entrada do jornalista Floc na redação de ¨“O Globo”, e o choque de imaginar aquela figura tão bela, elegante e perfumada caída ao chão em uma poça de sangue.

Por muito tempo o rapaz estivera trabalhando no jornal sem ser notado. Tudo muda quando o diretor de “O Globo”, precisa estar presente na redação do jornal, para tomar providências quanto à morte de Floc, e a única pessoa disponível para chamá-lo, é o jovem contínuo. O Dr. Ricardo Loberant sente-se constrangido quando Isaías Caminha aparece no prostíbulo em que está, e o encontra em meio a uma orgia, com outros jornalistas da redação. A situação é tão constrangedora que, dali em diante, o diretor muda totalmente o seu comportamento em relação a ele.

Em menos de dois meses o rapaz é promovido de contínuo a jornalista redator da seção “Marinha e Alfândega”. Cercado por ministros e capitães-de-mar-e- guerra, adulado por almirantes e outras autoridades do governo, Isaías finalmente conquista o emprego dos seus sonhos. Protegido pelo temido diretor, o rapaz passa a frequentar festas e noitadas em sua companhia. A ascenção profissional de Isaías vem acompanhada do prestígio da amizade pessoal do Dr. Loberant, que não lhe poupa elogios, nem mede esforços para agradá-lo, inclusive com altas somas em dinheiro. Graças ao suicídio de Floc, a vida do rapaz se transforma da noite para o dia, e isso desperta a inveja e a inimizade de todos dentro da redação do jornal.

Isaías muda também de comportamento e atitudes. O rapaz tímido descobre que para ser respeitado precisa impor-se, defender seu lugar na sociedade mesmo que às custas da força bruta. Troca socos com um repórter que o desafia na redação, e novamente vai parar na delegacia, só que desta vez, orgulhoso de si mesmo. Aprende a agir dissimuladamente como todos os outros repórteres da redação do jornal que, no passado, tanto criticara. Aprende o jogo da submissão ao diretor do jornal, e aos interesses do governo e dos políticos. Aprende a ser um homem do mundo, passa a frequentar teatros, aprende a beber, a jogar e a sair com muitas mulheres. Rende-se ao fascínio do dinheiro fácil proporcionado pelo desempenho de seu papel de protegido do Dr. Ricardo Loberant.

Apesar porém, de seu aparente sucesso perante a sociedade, interiormente, Isaías Caminha sente-se vazio, insatisfeito e triste. A tragédia de Floc por um acaso torna-se também a tragédia da vida de Isaías, pois este continua não se sentindo parte daquele contexto de permissividade, protecionismo e influências pessoais. Sente-se diminuído, abatido, deslocado, de certa forma ressentido e insatisfeito consigo mesmo. No fundo, o jovem compreende que não valeu a pena trocar seus valores morais por valores financeiros.

“Não sei o que sentia de ignóbil em mim mesmo e naquilo tudo, que no fim estava sombrio, calado e cheio de remorsos. Desesperava-me o mau emprego dos meus dias, a minha passividade, o abandono dos grandes ideais que alimentara. Não; eu não tinha sabido arrancar da minha natureza o grande homem que desejara ser; abatera-me diante da sociedade; não soubera revelar-me com força, com vontade e grandeza... Sentia bem a desproporção entre o meu destino e os meus primeiros desejos... “ ( BARRETO,1995,pág. 118,119)

Em parte, Lima Barreto deixa transparecer neste ponto da vida de seu personagem, um pouco da influência da ideia de que o homem é produto do meio, teoria aceita em meados do século XIX. Durante três anos Isaías permite-se desfrutar das regalias, aceita subornos e corrompe-se ante os privilégios recebidos simplesmente por ser repórter de “O Globo”.

Entretanto, não é este o objetivo do autor, e sim, refutar o sistema que levaria o belo e elegante jornalista Floc a suicidar-se com um tiro na cabeça; o Doutor Lobo, especialista em gramática a ser internado em um manicômio; o jornalista russo Gregoróvitch a evadir-se para a Argentina; a maioria dos repórteres de “O Globo” a retirarem-se da redação do jornal para disputarem entre si altos cargos públicos e o Dr. Ricardo Loberant a disfarçar seu espírito fraco e promíscuo por detrás de uma fachada de austeridade e tirania.

O romance tem um desfecho inusitado. Apesar de finalmente ter tantas comodidades à sua disposição, Isaías Caminha decide abrir mão de tudo e voltar para o interior. Deixar para trás a cidade grande que o atraiu, seduziu e quase o destruiu como pessoa. A tristeza que sentia na infância, e que o acompanharia em toda a sua caminhada, o faz desejar ser um homem melhor. Enfim, a virtude prevalece sobre o capital.

Questionado pelo diretor do jornal sobre o por quê da sua decisão, Isaías diz que quer apenas ter uma vida sossegada, casar e criar filhos.

Loberant o acha um tolo.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

O romance de Lima Barreto apresenta uma crítica à ideologia capitalista como modus vivendi da sociedade brasileira do início do século XX e exemplifica suas contradições em todas as camadas da sociedade; desde o governo e seus representantes, as forças armadas, a imprensa, o povo até chegar ao nível do indivíduo.

No relato ficcional da trajetória de vida de um cidadão brasileiro, demonstrou como é possível que este sistema venha a influenciar de forma particularmente negativa as suas escolhas, mas ressalta que a consciência individual é soberana.

“Lembrava-me... Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho com a força de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro.” (BARRETO, 1995,pág 121)


Na decisão do personagem em renunciar a todo este sistema de valores invertidos que lhe é imposto, e de valorizar a sua índole original na tentativa de refazer a sua vida, Lima Barreto sinaliza que esta pode ser a escolha de cada um. O autor sugere que é possível enfrentar a ordem social vigente e fazer valer o seu direito de ser comprometido apenas consigo mesmo e com seus ideais.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACCEGA, Maria Aparecida, Palavra e Discurso, 2ª.ed. São Paulo,Ática, 2007

BARRETO, Lima, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, São Paulo, Ática, 1995

BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira, 43ed, São Paulo, Cultrix, 2006

CHAUI, Marilena, Convite à filosofia.13ª. Ed. São Paulo, Ática, 2003

FIGUEIREDO, Carmem Lúcia Negreiros de, Trincheiras de Sonho, Ficção e Cultura em Lima Barreto, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1998

FIORIN, José Luiz, Elementos de Análise do Discurso,14ed, São Paulo, Contexto, 2006

FIORIN, José Luiz, Linguagem e Ideologia, 8ed, São Paulo, Ática, 2007



MELO, Antônio Cândido, Literatura e Sociedade: Estudos de Teoria e História Literária, 8ed, São Paulo,TA Queiroz, 2000

PROENÇA Filho, Domício, Estilos de Época na Literatura,15ª. ed. São Paulo: Ática, 2002


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