Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Capitulo XV
A chuva passou logo e puderam continuar viagem. Depois de alguns minutos, estavam tomando uma balsa para atravessar o mar não levaram mais que cinco minutos para avistarem a ilha que Garrath chamava de "ILha da Cerração".
Skye fazia jus a esse nome romântico. Uma cortina branca de névoa cobria a ilha, tornando seus contornos indefinidos. a balsa parou na doca de Kyle Akin e os carros seguiram por ruas estreitas.
Por algum tempo, Garrath e Barbara tiveram a companhia de outros carros da balsa até tomarem um acesso de uma só pista que parecia levar para o topo de um pico íngreme.
Garrath dirigia com todo o cuidado pela estrada sinuosa e seu corpo estava ligeiramente inclinado para frente. parecia mais atento do que nunca, provavelmente para avistar algum carro que viesse do outro lado.Mas Barbara logo descobriu que o verdadeiro problema não era o tráfego, e sim as ovelhas.
Esses animais felpudos estavam deitados sobre o asfalto com a maior tranquilidade. Quando o carro se aproximou, elas levantaram e abriram caminho com muita relutância.
- Essas ovelhas parecem saber que são valiosas demais para serem atropeladas - Garrath comentou rindo.
O sol estava se pondo no horizonte e era encoberto por nuvens ocasionais. Passaram por outra fazenda antes de entrarem numa estrada mais estreita ainda,montanha acima.
Barbara desviou a atençaõ do cenário para as mãos de Garrath firmes no volante.Pareciam ficar mais tensas a cada curva, assim como os traços de seu rosto. Dava a impressão de estar preocupado com sua chegada em Glenclair, mais isso não fazia sentido. Por que estaria tão apreensivo?
Durante a viagem,ela havia tentado imaginar como seria a casa de Garrath. Um castelo? Uma masão imponente? Sabendo da forturna dos St. Clair, não ficaria surpresa em se deparar com um palacio.Mas agora que estavam em Skye, um lugar árido e pouco habitado, nenhuma de suas fantasias parecia provável.
Quando saíram da estrada sinuosa por entre as colinas e entraram num vale estreito, descobriu que sua ultima impressão estava correta.
na cabeceira de um córrego, tendo como pano de fundo uma cadeia interminável de montanhas, estava uma casa. Glenclair.
Foi amor à primeira vista.
Barbara não era o tipo de pessoa que se apegava a lugares.Talvez porque durante sua infância, sua familia vivesse mudando de casa conforme as exigências do trabalho de seu pai.Por isso, preferia se apegar a objetos que pudesse carregar consigo.
Quando sua mãe resolveu desistir daquela vida de nômade e se estabelecer numa casa, mesmo com o inconveniente de ficar algum tempo longe do marido, Barbara já estava marcada por aquele destino.
Mas uma olhada para Glenclair bastou para mudar tudo. Queria pertencer àquele lugar e ter direito de morar ali para sempre. Seria um lar perfeito.
Não chegava a ser uma mansão e muito menos um castelo. Glenclair era uma casa grande, mas despretensiosa. As paredes eram de pedra marrom e não tinham uma estrutura simètrica.Parecia ter sido construída de acordo com as necessidades, um compartimento a mais embaixo, outro no andar de cima e assim por diante.
Barbara adorou aquele lugar com um entusiasmo que nunca sentira por nada na vida. Um entusiasmo que chegou a encher seus olhos de lágrimas.
Garrath parou o carro e olhou para ela como se estivesse esperando qualquer comentário sobre a casa.
- É o lugar mais lindo que já vi em toda minha vida - A voz revelava toda emoção que sentia.
- Que bom que gostou, Barbara.
Encarou Garrath, entendendo subitamente o motivo de sua apreensão na estrada. Ele estava preocupado com a opinião dela sobre a casa. Mas por quê? Que diferença faria isso? O que importava se ela gostasse ou não de Glenclair?
A entrada para carros era toda coberta de cascalhos e o ruído provocado pelas rodas atraiu a atenção de alguem na casa. A porta de carvalho se abriu e Janet correu para fora.
- Garrath! - Janet se atirou nos braços do irmão, como se não o visse há anos.
Barbara observou os dois e sentiu inveja outra vez. O amor que sentiam um pelo outro era tão espontâneo? Mas sua melancolia não durou muito. Janet deu um abraço caloroso na amiga.
- Olá, Barbara. Não sabe como estpu feliz em rever você!
- Ainda bem que meu irmão não a deixou escapar.
Mesmo levando em consideração que Janet era exagerada e brincalhona, achou aquela frase muito estranha. Felizmente,não teve que responder nada porque já estava sendo puxada para dentro de casa.Garrath seguiu atrás com as malas.
Quando chegaram na varanda, encontraram uma mulher parada na porta.Tinha cabelos grisalhos, nariz curvado,lábios finos e olhos encovados que se estreitaram pra observar Barbara.
- Sra.MacGuigan, quero que conheça Barbara Christensen. Está trabalhando para Garrath, embora eu ache que existe mais do que isso.
- Janet! - Barbara ficou atônita e olhou para trás para ver se Garrath tinha ouvido aquela barbaridade. Felizmente,parecia que não - O que você está dizendo?É rid...
- Barbara, esta é a sra.MacGuigan. A nossa governanta.
Não podia ignorar a apresentação e estendeu a mão.
- Muito prazer.
- Seja bem-vinda a Glenclair - O tom da sra. MacGuigan era formal, mas seu olhar continuava severo.
Barbara não teve tempo de pensar na atitude daquela mulher porque já estava sendo puxada por Janet outra vez.
Ficou tão apaixonada pelo interior da casa quanto pelo exterior. Tudo desde o hall de entrada até os corredores, era muito espaçoso e luxuoso.Um cenário perfeito para homens como Garrath St. Clair. O ambiente era acolhedor, combinando o antigo e o moderno como no escritório de Edimburgo.
A sala de estar tinha o piso e o teto de madeira.As paredes eram brancas e uma delas estava praticamente toda ocupada por uma lareira.poltronas estavam espalhadas ao redor do fogo e foi para lá que Janet levou Barbara.
Quando Garrath chegou,depois de carregar as malas pra dentro.Janet serviu uma bebida cor de âmbar,Barbara pegou o copo e o cheiro que emanava do liquido parecia com aquele que sentiu no antigo predio da destilaria.
- É uísque/ - Não estava acostumada a bebidas alcoólicas,a não ser um pouco de vinho, de vez em quando.
- Só uma dose - Janet retrucou
- Uisge beatha, a água da vida - Garrath comentou e ergueu o copo para fazer seu brinde.
- Slàinte!
- Sláinte! - Janet repetiu
Os dois ficaram olhando para Barbara.Nervosa por não conhecer aquele ritual, repetiu o brinde estranho e tomou um gole.Era como se um ácido estivesse queimando desde seus lábios até o estomago.
Sentiu lágrimas nos olhos. Estava sufocada e sabia que logo começaria a tossir como uma criança engasgada. Quis morrer de vergonha, mas por mais incrivel que parecesse não sentiu nada no outro minuto.
Depois daquele breve momento de pânico.Barbara sorriu:
- É ...delicioso
- Tem certeza de que não tem nada de escocês em seu sangue? - Garrath sorria, provocando mais calor em Barbara do que o uísque.
- Agora tenho! - retrucou, e os três riram.
Talvez fosse por causa das duas doses de uísque escocês,mas a verdade é que Barbara passou horas muito agradavéis, Seus anfitriões a deixaram a vontade, como se fosse uma habitual frequentadora da casa. Quando falaram sobre os negocios da St. Clair Corporation. ficou surpresa em ver quanta influência janet tinha.
Quando Janet foi mostrar seu quarto para se trocarem antes do jantar, Barbara comentou o fato.
- Há quanto tempo trabalha na companhia?
- Garrath me colocou nos negócios logo depois que assumiu.Meu irmão herdou o controle da companhia, mas as finanças tem que ser igualmente dividas. E desde o começo, Garrath, disse que,como se trara do meu futuro também eu devia participar do trabalho e das decisões.Achei a ideia otima.

- Mas se Garrath está disposto a deixar que você participe e tenha influência nos negócios, por que é tão...tão antiquado no que se refere à sua vida particular?


- O lado profissional de Garrath não se importa com o meu amadurecimento, o que já não acontece em nosso relacionamento afetivo. Sabe como é, ele é meu irmão há mais tempo do que dirige a companhia.
Barbara não fez mais nenhum comentário. Janet parecia disposta a perdoar o irmão por aquela atitude arbitrária, embora não fosse justo.
Chegaram ao quarto reservado para Barbara. Ficava no fim do corredor e tinha uma lareira. A cama era uma peça antiga com quatro colunas esculpidas e coberta por cortinas de veludo,combinando com as da janela.Uma tapeçaria de frente para a cama chamou-lhe a atenção.
- Isso não é Glen Coe? - Ela se aproximou da tela. Não era possivel, mas o cenário parecia aquele que tinha visto durante o piquenique com Garrath naquele vale.
Janet confirmou a impressão.
- Foi encomendado por meu pai como presente de casamento para minha mãe. Ele fez a proposta em Glen Coe e essa era a vista que tinham quando esse momento romântico aconteceu - Janet parou e olhou para Barbara com uma expressão desconfiada. - É uma vista pouco conhecida, que não se vê em cartões postais ou mesmo da estrada.Estou surpresa de você ter reconhecido.
- oh...bem...
- A menos, é claro, que tenha estado lá algum dia.Talvez hoje com Garrath.
Barbara ficou vermelha.
- Bem, na verdade, paramos em Glen Coe para fazer um piquenique.Acho que foi perto desse lugar.
- Eu sabia!
-Sabia o quê?
- Oh,nada especial.O banheiro é na segunda porta, descendo o corredor.O jantar será servido quando quisermos e não há pressa - Janet saiu do quarto com o sorriso de quem acaba de descobrir um segredo.
Talvez Garrath estivesse certo quanto à maturidade da irmã,barbara pensou irritada.O fato de ter almoçado com Garrath naquele lugar tão especial para a familia não significava nada.Provavelmente era o lugar que Garrath mais conhecia e o mais conveniente.
Na certa tinha seguido apenas um impulso natural de rever o lugar.
Por outro lado,uma vozinha a lembrava do lanche que Garrath havia preparado e isso não indicava conveniência ou inspiração do momento. Aquela parada tinha sido planejada.Mas isso certamente não significava...
Seus pensamentos ainda giravam em torno disso quando reparou num pacote sobre a mala.Eram três caixas amarradas com uma fita azul.Suas mãos tremiam quando pegou o bilhete afixado na tampa da caixa de cima:
"Para substituir aquele que estraguei.Garrath.
PS.Valeu a pena "
Abrindo as caixas, encontrou uma blusa rendada, uma saia longa de lã e um suéter com gola de pele.Barbara não podia acreditar no que via.Era o mesmo conjunto que tinha visto numa vitrine em Edimburgo.
Mas como Garrath pocia ter advinhado que gostaria daquele conjunto?Mal tinham parado na vitrine.De qualquer maneira, devia ter notado seu olhar cobiçoso.Quando teria comprado aquilo e por quê? Um vestido manchado não era motivo para aquele presente.
Releu o bilhete, prestando atenção no "Valeu a pena".Era bem típico de Garrath! Podia até imaginar seu sorriso malicioso enquanto escrevia aquilo,sabendo que aquele comentário a faria lembrar das mãos sujas de óleo passeando por seu corpo.Seria esse o motivo do presente?
Começou a guardar as roupas.Não podia aceitar um presente tão caro.
Estava pensando nisso quando outra idéia passou por sua cabeça.Se não aceitasse, garrath poderia pensar que não tivera coragem de enfrentar aquelas lembranças e isso certamente reforçaria a opinião de que era uma covarde, que temia os proprios sentimentos.
Meia hora depois, Barbara estava saindo do quarto .Não se preocupava mais por ter afinal decidido vestir a saia e a blusa, só estava feliz pela decisão.Parou diante do espelho no fim do corredor e gostou da imagem que viu refletida.
Valeu a pena levar quinze minutos se contorcendo para abotoar os botões em forma de pérola nas costas da blusa.A seda branca acariciava a pele e a saia estreita de lã cinza lhe acentuava a cintura fina, amoldando os quadris.Os cabelos estavam trançados de lado e presos por uma fita de veludo preto.O ar romântico de sua aparência combinava com a atmosfera de Glenclair.
Estava ajeitando um fio solto de cabelo quando outra imagem apareceu no espelho.Era um rosto moreno com olhos estreitados num ar de severidade.
- Oh, sra.MacGuigan! Não ouvi seus passos.Que susto!
-Desculpe,senhorita.Ia apemas levar essa toalhas para o seu quarto.
-Obrigada.Pode deixar...eu mesma levo.
-Está bem,se naõ se importa - A senhora entregou as toalhas e desceu.
Barbara voltou para o quarto para guardar as toalhas e desceu.Desta vez,não parou para se olhar no espelho, ainda assustada com o aparecimento súbito daquela governanta sombria.Não conseguia imaginar o motivo da antipatia da sra.MacGuigan, mas era o que sentia toda vez que era observada pelo olhar penetrante da mulher.
Garrath saiu de uma sala no instante em que Barbara descia o último degrau.Mesmo à meia luz,foi possivel ver a súbita tensão de seu corpo e o brilho naqueles olhos castanhos tão expressivos.Barbara ficou imóvel, esperando sua aproximação.
- Não pensei que usaria e me sinto honrado por isso.Você está linda.
Depois desse elogio, sentiu como se estivesse suspensa no ar durante todo o jantar.Janet explicou que a sra.MacGuigan geralmente ia para os seus aposentos com o marido depois de preparar a comida deixando que se servissem sozinhos e tirassem a mesa depois.
O jantar de carne assada, batatas coradas e legumes cozidos foi regado com muito vinho.barbara comeu com muito apetite e, qando terminaram,ajudou a tirar a mesa.
O ambiente da cozinha era muito rústico, com panelas penduradas na parede e um enorme fogão muito antigo.
-A sra.MacGuigan abomina qualquer espécie de aparelhagem moderna e este fogão é a sua paixão -Garrath explicou - Veio para Glenclair no começo do século XVIII e qualquer um pensaria que ela estava aqui na época, de tanto que estima essa relíquia.
Barbara ficou surpresa quando viu Garrath arregaçar as mangas e começar a lavar os pratos.
Garrath St.Clair lavando pratos! Não sabia o que pensar. Depois que a cozinha estava limpa,Janet comentou:
-Não ousaríamos deixar esta cozinha suja! Fazemos tudo para não provocar a fúria da sra.MacGuigan.
Foram para a sala iluminada apenas pelo fogo da lareira. Barbara afundou no sofá, sentindo os efeitos do vinho que tomara no jantar.Tirou os sapatos e ergueu as pernas no sofá, observando Garrath colocar mais lenha na lareira.Então, Janet anunciou que ia para o quarto.
-Tenho aqueles papeis da Janclair para examinar.Vejo vocês amanhã.
barbara tinha a nítida impressão de que Janet estava inventando uma desculpa para deixá-la sozinha com Garrath e sua primeira reação foi sair correndo.Mas estava muito confortável naquele ambiente,sentindo que fazia parte daquele mundo.
- Você parece uma gatinha satisfeita - Garrath sentou no sofá, bem perto dela.
- É assim mesmo que me sinto.Foi um dia maravilhoso, Garrath.Estou contente por ter...me convencido a vir para cá.
- Também estou contente - Garrath se inclinou para lhe dar um beijo leve e hesitante.
Todas as reações lógicas para dizer não passaram-lhe pela cabeça,mas não conseguiram afetar seus sentimentos.Mesmo sabendo o perigo que corria naquele momento, seus labíos estavam dizendo sim numa linguagem mais expressiva do que meras palavras.
No encontro de lábios ávidos, o mundo deixou de existir.A única coisa que importava para Barbara era o refúgio seguro dos braços de Garrath e as sensações que aquele contato despertava em seu corpo.
Suas bocas se moviam numa dança passional e as mãos de garrath acariciavam o pescoço...os ombros...e as costas de Barbara. Seus corpos estavam colados e uma chama intensa ameaçava consumir os dois.
Garrath não teve dificuldade em desabotoar os botões que ela custara tanto para abotoar.Suas mãos se infiltraram sob a seda para acariciar aquelas costas macias e a blusa foi para o chão, sendo seguida pelo suéter de Garrath.Um múrmurio de prazer escapou dos lábios dela quando sentiu o calor de outro corpo em contato com seus seios nus.
Garrath a fez deitar sobre o braço do sofá e inclinou a cabeça.Sua boca se apoderou de um seio e depois do outro, fazendo Barbara sentir um prazer selvagem.
Os dedos de Barbara se enroscaram nos cabelos dele. Aquilo era uma loucura que desejava evitar e, ao mesmo tempo, gostaria de prolongar para sempre.Acariciou aquelas costas musculosas, sentindo um tremor que não sabia identificar de que corpo vinha.
Logo sentiu uma mão em seu tornozelo, erguendo lentamente a saia e subindo provocativamente para a barriga da perna e a parte sensível atrás do joelho. E subia cada vez mais,passando pelas coxas e pelos quadris antes de começar o caminho de volta.
Garrath levantou e trouxe o corpo dela para bem junto do seu outra vez. Selou os lábios com um beijo, enquanto as mãos continuavam a exploração nas costas e na cintura, descendo para a curva dos quadris.De repente,a barreira do tecido era indesejada.
os dedos de Garrath estavam no ziper da saia quando uma voz invadiu o silêncio da sala:
- Garrath? A srta.mills está no telefone e disse que é urgente. - Assim, a sra.MacGuigan quebrava o encanto do momento.
Capitulo XVI
Garrath apertou Barbara contra o peito.
- Já vou atender,sra.MacGuigan - Seu tom de voz era natural, como se nada tivesse acontecido e não estivessem seminus diante da governanta - E depois, poderia por favor providenciar alguma coisa quente para bebermos?
- É claro que sim.
Assim que a governanta saiu, Barbara se soltou do abraço e vestiu a blusa.Garrath vestiu o suéter.
- Precisa de ajuda? - Ele ofereceu,vendo Barbara com dificuldades para abotoar todos aqueles botões.
- Não!...obrigada.
-Está bem, vou atender o telefone e volto logo.Espere aqi, está bem?
Concordou com a cabeça,mas assim que ele desapareceu no corredor, saiu correndo e foi para o quarto.Trocou a saia e a blusa pelo robe e foi para a cama, com vontade de ficar ali para sempre.
Mas depois de apenas alguns minutos, ouviu a porta abrir e alguém entrar.Tirou a cabeça debaixo das cobertas e enxugou as lágrimas para ver Garrath entrando com duas xicaras na mão.
- Achei que estaria aqui morrendo de vergonha e resolvi trazer um pouco de chocolate quente para levantar seu ânimo.
- Chocolate quente não vai ajudar em nada.Prefiro ficar sozinha.
- Ei, não acha que está exagerando?
- Exagerando? Quando neste instante a sra.MacGuigan deve estar usando palavras como imoral e sem vergonha para me descrever para o seu marido? Ela não simpatizou comigo desde o começo e agora deve estar satisfeita por sua intuiçao estar certa.
- Não simpatizou com você? Por que acha isso?
- Por causa do jeito como me olha o tempo todo.Nunca ninguém me fez sentir tão ...tão pequena.
-Ora Barbara! Isso não é verdade.
- É claro que é verdade - Não conseguiu mais segurar as lágrimas.
Garrath deixou as xicaras na mesinha de cabeceira e sentou a seu lado com um sorriso complacente.
- Não é verdade.E também não existe nenhuma razão para ficar tão transtornada com essa...situação.
- Como...
-Espere, - Garrath colocou o dedo sobre os lábios dela para que se calasse - Já explico. Mas antes quero que saiba que não vejo nada de imoral no que estava acontecendo entre nós lá na sala. Fomos imprudentes na escolha do local e acho que podemos atribuir isso a...a uma atração incontrolável.Mas não imoral.E como não vejo nada de errado em nosso comportamento, não me importo com o que pensam as pessoas, incluindo a sra.MacGuigan.Se estivesse escandalizada e quisesse me condenar, seria problema dela e não meu.
- Mas tenho certeza de que não seria você o condenado. É sempre a mulher que fica em maus lençois.
- Talvez. Mas não para a sra.MacGuigan.
- Como pode ter tanta certeza disso? Vi como estava olhando para mim e ...
- E tirou conclusões precipitadas.
- O que você quer dizer com isso?
- Conheço a sra.MacGuigan. É ríspida, está sempre reclamando e ri pouco, mas durante todo o tempo que a conheço, nunca a vi fazer um julgamento injusto ou indelicado sobre alguem.É uma mulher vivida,que conhece a natureza humana. Se tivesse nos visto teria provavelmente nos censurado por não termos colocado mais lenha na fogueira para que não apanhássemos um resfriado.Mas jamais nos condenaria.
- Se tivesse visto! O que você quer dizer com isso, Garrath? É claro que ela nos viu!
Garrath a segurou pelo queixo, balançando a cabeça.
- Quando muito, a sra.MacGuigan viu que estávamos muito perto um do outro.Não estava usando óculos e não enxerga nada sem eles.
- Não enxerga?Mas não a vi usando óculos nem uma vez desde que cheguei e andava pela casa sem nenhuma hesitação.Além disso o jeito como olhava para mim...
- Ela nunca usa óculos quando tem alguem por perto e nega com veêmencia que precisa usá-los.Por isso, desenvolveu alguns truques para lidar com os trabalhos diários.Enxota qualquer um da cozinha se precisa ler alguma receita e fica encarando um estranho para saber como é.
- Isso é inacreditável!
- Essa é a sra.Macguigan.Agora,pode parar de se preocupar e da próxima vez escolheremos lugar e hora mais adequados.Na verdade, se não tivesse que dar alguns telefonemas com urgência... - Garrath acariciou o rosto de Barbara e seus olhos transbordavam desejo.
- Não haverá próxima vez! - Tirou a mão dele com um tapa - Aquilo só aconteceu por causa da mistura de uísque e vinho.Não acontecerá outra vez.
- Tem certeza? Suas palavras dizem uma coisa e seu corpo diz outra bem diferente.Por que está tentando resistir?
- Não estou tentando.Estou resistindo.Não quero que interfira na minha vida e nas minhas emoções segundo as suas conveniências, como faz com Janet.Agora,por favor, me deixe sozinha.
Com um olhar severo e frio, garrath saiu.
Barbara acordou cedo no dia seguinte.A manhã era fria e uma névoa densa cobria o lago.Os primeiros raios de sol apareciam por trás das montanhas de Glenclair, iluminando o céu.
Foi para a cozinha, querendo uma xicara de café. A idéia de enfrentar Garrath e a sra.MacGuigan mais cedo ou mais tarde não era nada animadora e queria adiar esse momento o mais que pudesse. Se corresse,teria uma grande chance de não encontrar ninguem acordado ainda,e poderia tomar um pouco de café quente enquanto reunia coragem.
Mas será que encontraria café num lar tipicamente escocês ? E pior ainda, o que a sra.MacGuigan pensaria sobre uma invasão em sua cozinha? De qualquer forma, desceu as escadas na ponta dos pés.
Quando chegou perto da cozinha, sentiu o aroma inconfundível de café e teve uma surpresa ao abrir a porta e encontrar o sr.MacGuigan.Era o oposto da esposa,pelo menos na aparência.Era forte,com o rosto redondo e as bochechas coradas.Seu sorriso era franco.
- Bom dia.Deve ser o sr.MacGuigan...
-Charlie. E você deve ser a moça de quem Mary me falou ontem a noite
- A sra.MacGuigan esteve...falando...de mim?
-Sim.Não parou de elogiar sua delicadeza na maneira de falar e na voz de sereia.A visão de Mary pode não estar muito boa,mas seus ouvidos estão sempre alertas.E, como sempre,não erraram no julgamento.
Agradeceu o elogio e seu sorriso revelava um alívio imenso.Aceitou uma xicara de café,quente e revigorante como queria.
- Pensei que não se encontrasse café na região montanhosa da Escócia.
- Bem, normalmente não encontraria.Minha Mary acha que meu gosto por café é um dos meus maiores defeitos,uma espécie de blasfêmia.É por isso que eu mesmo preparo e evito ouvir reclamações.
Nesse instante as sra.MacGuigan entrou na cozinha.Cumprimentou os dois e foi direto para o fogão, cheirando o ar e obviamente desaprovando o aroma que sentia.
Agora prestava mais atenção na sra.MacGuigan,descobriu que Garrath tinha dito a verdade.Seus movimentos eram seguros mais muito cuidadosos.Apalpava cada objeto mais que o necessário.
Ficou com remorso de ter julgado mal a atitude daquela senhora.
Hesitou um pouco, mas tomou coragem e ofereceu ajuda.Para sua surpresa,a senhora aceitou.
- Embora duvide que saiba fazer um mingau de aveia decente.Terei que ensinar cada passo e isso levará mais tempo do que se fizesse tudo sozinha.
Charlie sorria,mostrando que estava acostumado com a lingua afiada da esposa.Barbara sorriu também,entendendo que a sra.MacGuigan não fazia por mal.Aquele era o seu jeito.
Na verdade, não sabia fazer aquele mingau.Pelo menos não do modo como a governanta queria, nem ousou sugerir a mistura instantânea.Deu algum trabalho para preparar, mas o resultado foi um mingau grosso, com um gosto delicioso de nozes.
Levaram o carrinho com uma refeição matinal completa para uma sala nos fundos da casa, que ficou sendo a preferida de Barbara,A sra.MacGuigan a chamava de solário.Era um ambiente com teto e paredes de vidro,projetado por Garrath.
Um tapete em tons de verde cobria o chão enquanto samambaias e outras plantas completavam a decoração.Uma mesa com tampo de vidro e cadeiras de junco ocupavam o centro.
Mas o que tornava o ambiente especial era a vista.O tapete parecia uma extensão das colinas verdejantes ao longe. O sol já despontava por trás das montanhas,aquecendo o cantinho de cristal com seus raios.
Enquanto a governanta ia buscar a chaleira com água quente,Janet apareceu.Estava mais radiante que nunca,com um brilho maroto no olhar.

- Você e Garrath tiveram uma noite agradável?


-Foi boa.
- Barbara Christensen,isso não é resposta.Vamos, como foi?
-Como foi o quê? Ficamos apenas...conversando e fomos dormir. - Parecia sentir o nariz crescer como o de Pinóquio.
- Dormir? Que emocionante! Pelo jeito, as coisas estão caminhando mais rápido...
- Janet! Quis dizer que cada um foi dormir na sua cama.Acho que está deixando a imaginação ir longe demais.Primeiro,foi aquele comentário quando me apresentou para a sra.Macguigan e agora isto! Não sei por que pensa que existe alguma coisa entre Garrath e eu.
- Pensa que não reparei no modo como meu irmão olha para você? E você olha para ele do mesmo jeito,mesmo que não queira admitir.Percebi tudo no dia em que cheguei em Sithein e só tive receio que não tivesse tempo para deixar as coisas progredirem.Mas parece que tiveram tempo suficiente. O fato de Garrath ter trazido você para cá é uma prova do que estou dizendo.Ele nunca trouxe uma mulher para Glenclair.Nem uma vez.
- Vim para cá fazer um serviço. É só isso.
Janet não parecia convencida.
- Talvez, mas isso não explica o resto. Tenho certeza do que estou dizendo e nada seria mais conveniente para mim.Quando Garrath se apaixonar,entenderá o que sinto por Andy.Meu irmão sempre foi um solteirão convicto e nunca pensou num compromisso sério com ninguém.Ele precisa de alguém como você para se assentar.
- Homens obcecados pelo petróleo nunca se assentam.Meu pai foi um exemplo disso, sempre colocando o trabalho em primeiro lugar.E meu irmão teria seguido o mesmo caminho se...Bem, seja como for, sou sensata o suficiente para saber que devo manter distância de homens que têm o petróleo como primeiro amor.
- Mas Garrath não seria assim se estivesse apaixonado.Tudo que precisa é casar com a mulher certa.Meu irmão precisa...
- De quê, minha querida irmãzinha? - Uma voz irônica interrompeu Janet.
Barbara teve um sobresalto.Quanto daquela conversa Garrath tinha ouvido? Talvez o suficiente para saber que estavam falando sobre sua vida amorosa...e sobre casamento. Pelo menos,era o que seu sorriso sarcástico indicava.
Janet não vacilou em responder:
- Você precisa dedicar mais tempo para se divertir. Tem trabalhado demais ultimamente e ficará velho antes da hora.
- Obrigado por esse conselho sábio.Pensarei no assunto...quando tiver uma folga, é claro.
Janet não se alterou com aquele sarcasmo.
- Pois trate de arrumar uma folga para a festa que Eilsen está organizando para esta noite. Você também foi convidado.
- Que festa?
- É uma homenagem a um casal que acaba de ficar noivo.Uma espécie de baile do amor, sabe como é.
- Em outras palavras - Garrath acrescentou num tom irônico. - é uma opotunidade para comentarem se a moça agarrou um bom partido ou não.
- Ora, pare com isso, Garrath St. Clair. Sei que você gosta dessas festas tanto quanto eu.E esta é especial. A moça que ficou noiva é minha amiga e serei madrinha do casamento.
- Sei... - Garrath olhou para Barbara, como se desconfiasse que aquele assunto tivesse sido trazido a tona de proposito.
- E isso me faz lembrar de uma coisa - Janet acrescentou depressa com ar inocente - Será que você podia ir até Armadale apanhar um aparelho de chá que chegará pela balsa? Estava marcado para chegar na semana passada, mas sabe como é.Eu prometi ajudar Eilsen com os preparativos da festa hoje.
- Isto está me cheirando a uma trama para me afastar á força do trabalho.
- É claro que não, maninho! Esse aparelho de chá é o meu presente de casamento para essa minha amiga.Mas se não pode ir buscar, Eilsen entenderá...
- Está bem,Janet. - Garrath acabou concordando e recebeu um beijo entusiasmado da irmã.
- Obrigada,meu querido! Por que não aproveita e leva Barbara junto? Seria um passeio adorável e uma chance de lhe mostrar um pouco mais a ilha.
O comentário de Janet não poderia ser mais inoportuno. Agora,Garrath teria certeza que as duas tinham combinado aquele passeio conveniente.Barbara temia que Garrath entendesse sua recusa da noite passada como apenas uma tática para se fazer de dificil.
- Não,Janet...Preciso começar a trabalhar esta manhã.Logo depois do café.
- É claro - Garrath comentou num tom de zombaria - Infelizmente,o equipamento necessário para a instalação ainda não chegou, mas poderá começar os trabalhos preliminares.
- Vocês não vão comer antes que esfrie? - A sra. MacGuigan interrompeu a conversa.
Os três obedeceram prontamente,servindo-se dos ovos e dos pãezinhos caseiros que derretiam na boca.Quase não falaram enquanto comiam,ocupados demais com as guloseimas.
- Não precisarei comer o resto do dia - Barbara comentou quando terminou.
- Você não viu nada ainda.Espere só pelo almoço - Janet avisou, sorrindo.
- Está pronta, então? - Garrath interveio e levantou,saindo da sala, sem esperar pela resposta.
- Acho que ele acordou do lado errado da cama errada. - Janet balançava a cabeça lentamente e deu uma piscada.
barbara fez uma careta e correu atrás de Garrath.O escritório mais parecia uma biblioteca com as paredes cobertas do chão até o teto de livros. A mesa era enorme e existia um espaço vazio ao seu lado, provavelmente reservado para o computador.
- Esse espaço será suficiente? - Garrath quis saber.
- Acho que sim.
- Otimo.Agora, deixarei que faça seja lá o que for.
Para perturbá-la mais ainda,Garrath não saiu do escritório.Ficou sentado na mesa,examinando alguns papéis e dando telefonemas com uma concentração aparentemente total.
Agia como se não existisse mais ninguém na sala.
Barbara por sua vez,verificava a disponibilidade de fios e espaço para acondicionar o computador da maneira mais prática possivel para o uso. Mas não esquecia nem por um minuto de que não estava sozinha e sentia a tensão irradiando do corpo de Garrath.Embora não entendesse por quê.
O pior era que sua atenção era constantemente desviada para Garrath.E toda vez que olhava,lembrava daquele rosto atraente se aproximando para um beijo e o toque daquelas mãos em seu corpo.Assim não tinha condições de trabalhar.
Na verdade, a maior parte dos detalhes preliminares já tinham sido arranjados por Garrath.E restava muito pouco para fazer.Espichou o trabalho o mais que pôde, esperando que ele terminasse o que estava fazendo e levasse o mau humor para outro lugar.Mas finalmente ficou sem nada com que se ocupar.
De algum modo,Garrath percebeu isso e naquele momento largou a caneta.
- terminou? Vamos embora, então.
- Para onde?
- Para Armadale, apanhar o tal aparelho de chá para Janet.Sei que você preferia ficar trabalhando no computador, mas já que isso não é possivel, talvez alivie sua consciência encarar este passeio como uma espécie de trabalho. Preciso de alguém para segurar o pacote para não correr o risco de quebrar no caminho. E você serve.
Aquele convite era tão inesperado quanto rude.Por que Garrath queria sua companhia? Mais uma olhada para aquela fisionomia sombria foi o suficiente para saber que aquilo era uma ordem.
Barbara travou uma pequena batalha consigo mesma.Eram seus principios contra a atração irresistivel do desafio.Decidiu guardar as armas para outra ocasião.
- Vou pegar meu casaco.
Cerca de meia hora depois,estavam indo para o sul da ilha onde ficava a península de Sleat.E desta vez não foram as ovelhas que atrapalharam seu percurso.Foi o gado,conduzido por um homem carregando uma bengala enorme.
Sleat era um conjunto de baías pitorescas,onde ilhotas pontilhavam o mar azul.O aparelho de chá já tinha chegado e estava guardado numa cabana perto do cais.
Barbara esperou no carro, enquanto Garrath foi apanhar o pacote,mas viu o entusiasmo com que foi recebido por uma ruiva.A moça não o deixou ir enquanto não lhe prometesse uma dança na festa daquela noite.Garrath concordou e recebeu um beijo ardente na boca.
Cerrou os punhos de raiva e virou o rosto para a baía.Garrath voltou para o carro com uma caixa grande e partiram.Barbara fez o possivel para não olhar para a porta da cabana, onde certamente encontraria a moça sorrindo e acenando.
Era para isso que Garrath a tinha trazido.Queria mostrar que não estava seriamente interessado nela e que sua rejeição não o afetava porque existiam outras mulheres dispostas a satisfazer seus desejos.
Bem isso,Barbara já imaginava.
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