Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Capitulo XIII
Barbara ficou aliviada pelo motorista do táxi ser um homem falante, que parecia disposto a expressar suas idéias nacionalistas, mesmo que seus passageiros não estivessem interessados.
- Não concordam? O petroleo escocês deve ser da Escócia e não da Inglaterra. Não é mesmo?
Garrath, que ficara calado até então, não aguentou e retrucou:
- Não, não concordo. Acho que reivindicações desse tipo são irresponsáveis e impraticáveis. A Escócia deve usar seu petroleo para ajudar no desenvolvimento de suas indústrias e criar mais empregos. Empregos é o que a Escócia mais precisa, para que o nosso povo não seja obrigado a deixar o país para procurar trabalho. E o petroleo está possibilitando isso.
- Mas o senhor não acha que devemos nos preocupar em preservar nossas reservas?
- É claro que sim. Mas não ao ponto de brigar como crianças sobre o que pertence a quem, dividindo o nosso país. Acredito naquele ditado: " Divida e conquiste".
Em outras circunstãncias, Barbara teria participado da discussão e certamente tomaria o partido de Garrath. Mas sabia que se abrisse a boca agora, não seria para discutir política.
- Rose Crescent! - o motorista, um pouco mais calmo, anunciou alguns minutos depois, e Garrath indicou uma casa de dois andares que não parecia em nada com um hotel. Quando saíram do táxi, ela estava prestes a explodir.
- Onde estamos agora?
A pergunta foi tão brusca que o pegou desprevenido pela primeira vez.
- Ora...Bem, esta é a casa que mantenho na cidade. Os hotéis de Edimburgo estão sempre cheios e é dificil conseguir uma vaga de última hora. Isto é mais conveniente.
- Aposto que é!
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que posso imaginar muito bem por que essa casa é conveniente. Mas devo avisar que não quero ter nenhuma participação em sua casa ou no trabalho que me ofereceu.
- Não sei o que deu em você, Barbara. E não pretendo ficar parado na calçada discutindo. Se quer dizer alguma coisa, vamos conversar lá dentro.
Ela teve que correr para alcançar os passos apressados de Garrath.
Enquanto atravessava o jardim, pensava em como tinha sido ingênua. Uma completa idiota, aceitando as ordens de Garrath com pouco protesto e menos raciocinio ainda.
Garrath abriu a porta. Barbara foi praticamente empurrada para a sala, mas quando tentou resistir foi segura pelos ombros e obrigada a sentar numa poltrona.
- Fique aí enquanto acendo a lareira!
- Não se incomode por minha causa, Não vou ficar.
Garrath ignorou esse comentário e foi acender o fogo na lareira. Quando as chamas começaram a consumir a madeira, voltou para o lado de Barbara com o olhar faiscando mais que o fogo.
- Agora comece a explicar por que está tão nervosa.
- Estou nervosa porque acabei em Edimburgo em vez de Aberdeen. E por causa do terminal que já foi instalado em seu escritório e mais este arranjo conveniente... sem falar de sua atitude com as mulheres em geral.
- O que a minha atitude com as mulheres tem a ver com o caso?
- Tem tudo a ver! Você deixou bem claro que não acreditava na minha capacidade para consertar o computador em Sithein Um por ser uma mulher. E não teria me deixado ficar se não fosse pelo tempo. É óbvio que você pensa que mulher só serve para uma coisa e que eu estaria ansiosa para aceitar seu suposto trabalho e vir para sua cas, onde não veria a hora de ir para sua cama!
- Se eu quisesse você em minha cama, não usaria falsos pretextos, Barbara Christensen. E quanto ao resto dessa bobagem, acho melhor explicar uma coisa de cada vez - Colocou as mãos nos braços da poltrona e ficou inclinado sobre Barbara - Em primeiro lugar, minhas objeções quanto a sua presença em Sithein Um não tinham nada,ou pelo menos muito pouco, a ver com seu sexo ou a minha opinião sobre as mulheres. Era contra uma mulher em particular: você.

- Entendo...-Na verdade, não entendia e a palavra "você" ecoava em sua mente.


- Não,você não entende! Mas entenderá.
Ela se encolheu na poltrona, assustada com aquela explosão. Vendo sua reação, Garrath se afastou e enfiou as mãos nos bolsos. Quando voltou a falar, sua voz era mais baixa:
- Bárbara, quando na plataforma, não notou a presença de mulheres a bordo? Temos inclusive duas trabalhando como ajudantes em outro turno.
- Só vi uma moça servindo café. Nenhuma em cargos mais altos,de chefia.
- Isso porque ainda não existem mulheres preparadas para assumir essas posições.É um campo novo para as mulheres,e ao contrário do que você parece pensar, não existe uma multidão de mulheres querendo empregos numa plataforma de petróleo. Mas aquelas que estiverem dispostas a arregaçar as mangas e enfrentar o trabalho duro serão bem-vindas em minha companhia e serão promovidas se merecerem. É a capacidade que importa para mim e não o sexo do empregado.
- Mas você não queria me dar uma chance para provar minha capacidade.
- Achei que sua capacidade estava provada no momento em que a vi. Em nosso primeiro encontro, você não parecia muito competente. Não queria você em Sithein Um por ser uma mulher, mas porque pensei que seria um perigo para você mesma, minha plataforma e os trabalhadores. Confesso que foi um julgamento precipitado e que tive que modificar diante de outras evidências, como a conversa que tive com seu chefe e a diferença em sua aparência na manhã seguinte. Mas o importante é que mudei de opinião. Você acredita nisso?
Concordou com relutância. Lembrando de sua chegada catastrófica na plataforma, não podia culpar Garrath por um julgamento precipitado. Mas uma coisa ainda não estava explicada:
- Mas e este trabalho? Diana me disse que você já tem uma unidade da Computec em seu escritorio.
- Tenho sim,mas não era desse escritório que estava falando.Quero que faça a instalação em meu escritório particular em casa. Fizemos apenas um pequeno desvio porque tinha negócios urgentes a tratar aqui e , de qualquer maneira, o equipamento necessário levará alguns dias para chegar em Glenclair.
- Glenclair ! Concordei em fazer o serviço e não ir para...para seja lá onde Glenclair for, o que é mais um pequeno detalhe que você esqueceu de me dizer! Garrath, por que não me explicou tudo isso desde o começo?
- Você não me perguntou.
Por mais irreverente que fosse a resposta, ficou com mais raiva de si mesma do que de Garrath. Devia ter feito perguntas para não dar margem áquelas omissões. Em seu desespero de sair de Sithein, tinha aceito aquele serviço extra sem insistir em ter informações mais detalhadas. Assim,acabou concordando em trabalhar na mansão dos St. Clair sem saber!
- Não perguntei porque tirei a conclusão lógica de que você estava falando do escritório de Aberdeen...pelo menos até chegarmos em Edimburgo. E também esperava que me avisasse se estivessemos indo para algum lugar totalmente diferente.
Ficaram em silêncio por algum tempo. E foi quebrado por Garrath que puxou uma cadeira e ficou sentado de frente para Barbara.
- Admito que devia ter contado antes. Na verdade, comecei a explicar quando entramos no escritorio hoje, mas fomos interrompidos...Gostaria que me desculpasse.
- Desculpar? - Arregalou os olhos de espanto.
- Sim. Quero que me desculpe pelo...descuido.
Isso bastou para acalmá-la. Uma mecha de cabelo estava caída na testa de Garrath e teve o impulso de afastá-la. Tinha imaginado muita discussão quando confrontasse Garrath com a revelação de Diana e nunca lhe passou pela cabeça que ele pedisse desculpas.
Aquele não era o mesmo homem arrogante e irritante com quem tinha discutido várias vezes, sempre perdendo.
Garrath tinha explicado seu tratamento inicial e estava pedindo desculpas por aquela última omissão.Barbara percebeu que estava perdendo todos os motivos para não gostar dele. E isso podia ser perigoso.
- Está tudo bem. Pedirei que mandem outra pessoa para fazer a instalação em Glenclair para você o mais rápido possivel.
- Outra pessoa? Por que não você?
- Porque...porque tenho muito trabalho a fazer em São Francisco. Não posso ficar viajando por toda a Escócia. Mas um dia ou dois aqui em Edimburgo não fariam diferença, mas Glenclair...será muita perda de tempo.
- Richard disse que você podia levar o tempo que quisesse.
- pois Richard estava errado!
- Tem certeza? Será que não está inventando uma desculpa para não ter que enfrentar a verdade?
- Que...que verdade?
- Esta - Garrath se inclinou para frente e roçou os lábios dela com um beijo.
Foi um leve toque. Garrath se afastou um pouco e esperou. Barbara ficou dividida: a voz da razão ditava advertência,enquanto todo seu corpo vibrava com uma mensagem diferente. Sim, fique, ceda, arrisque!
Suas mãos levantaram por vontade própria. Mas se iam empurrar Garrath ou trazer aquele rosto para mais perto, ficou sem saber. Nesse instante o telefone tocou, quebrando o encanto.
- Droga ! - Garrath pulou da cadeira e atendeu o chamado - Sim...Sei...Está bem - Desligou e voltou para perto dela - Tenho que ir até o escritório agora. Mas não vou demorar e iremos jantar quando eu voltar. Enquanto isso, fique a vontade e escolha o quarto que quiser lá em cima, está bem?
Barbara apenas concordou com a cabeça.
Depois que Garrath saiu, aqueceu as mãos geladas no fogo. O que teria acontecido se o telefone não tivesse tocado? Teria ouvido a razão ou se entregado ao redemoinho de emoções? Qual seria a escolha certa?

- Richard? É você? - Barbara tinha resolvido ligar para São Francisco.


- Sim, menina. Como está? Algum problema?
- Não, estou bem. Só quero falar com você sobre o trabalho para...o sr. St. Clair.
- Espero que esteja tudo certo. Sabe como esse cliente é importante para nós.
- Sim, eu sei. Mas queria saber por que você quis que eu fizesse o trabalho. Qualquer técnico poderia dar conta do serviço.
- Eu sei e você também, mas parece que St. Clair quer tratamento de primeira. Ele sabe que você é uma profissional altamente qualificada e é isso que interessa. Seja como for, sei que você pode resolver o problema e tirar qualquer dúvida que o homem possa ter.
- Preferia não ficar, Richard. Ele quer a unidade instalada em sua própria casa e não quero perder mais tempo com isso. Não pode arrumar outra pessoa para...
- Outra pessoa? É claro que não. Você já está aí. Sei que não é trabalho para você, mas por favor faça isso por mim. E nada que agrade a St. Clair será perda de tempo.Pensei que isso estivesse claro.
- Mas ...não quero...Isto é, tenho que...
- Ouça, Barbara. Termine o serviço o mais rápido possivel e volte para cá . Estou precisando de você?
- Você... você precisa de mim?
- É claro. As coisas estão muito agitadas por aqui, nem vai acreditar. Uma tempestade no golfo quase destruiu uma de nossas unidades, mas o computador continuou funcionando. E acabamos de receber um pedido enorme da Shell, que quer tudo pronto para ontem, sabe como é. Além disso, o último grupo de estagiários parece que nunca viu um computador na vida.
Frustrada, não ouviu metade daquela lista de problemas da companhia. Richard não tinha dado a menor importância aos seus sentimentos, como da primeira vez, quando a mandou para a Escócia. Era a computec e não Richard que precisava dela.
- Richard...- Resolveu fazer uma última tentativa- Acho que não sou a pessoa mais indicada para fazer esse serviço. Gar...o sr.St Clair não ficou nada satisfeito em ter uma mulher em sua plataforma.
- Sim, eu sei. Ele me disse com toda franqueza.MAs agora você não está mais na plataforma.
- Mesmo assim, ele é muito autoritário e eu... eu não estou á vontade. Entende o que quero dizer?
- Puxa, Barbara, quando vai aprender a ter mais confiança em si mesma? Você se sai muito bem com os clientes, mas está sempre se escondendo com suas máquinas. Agora ouça, faça tudo que Garrath St. Clair quiser e volte para cá. Está bem?
Não conseguiu dizer nada,supresa em saber que conceito Richard tinha dela.Era assim que ele a via? Como alguém inseguro, que se refugiava atrás das máquinas? Mas não era nada disso, de jeito nenhum.A verdade era que gostava de computadores e era boa no que fazia, assim como Richard era bom em relações públicas. Não estava se escondendo!
- Você está ouvindo, Barbara? Satisfaça todos os desejos de St.Clair.
- Está bem, Richard. Já entendi. Tchau!
Depois de desligar, ficou pensando. Richard tinha usado o mesmo argumento de Garrath, embora em circunstâncias diferentes. Os dois a acusavam de estar fugindo!
É claro que não estava fugindo de nada. Era verdade que tinha usado o trabalho para bloquear o sofrimento causado pelas mortes repentinas de seus pais e de seu irmão. Mas isso era natural. Não estava se escondendo de nada agora...
Pelo visto, teria que provar para aqueles dois. E só via um meio de fazer isso. Ir para Glenclair.
Depois de tomar a decisão de ir até o fim naquele trabalho, Barbara relaxou. Seu corpo estava todo dolorido, em parte por causa da longa viagem ´para Edimburgo, mas principalmente por causa da pressão do último confronto com Garrath.
Decidiu seguir sua sugestão e ficar a vontade, começando com um banho. Havia três quartos no andar de cima. Dois era iguais, mobiliados com peças antigas e tapetes orientais. Mas o terceiro era maior, com uma cama enorme, além de uma escrivaninha com telefone,bloco de anotações e uma cadeira confortável. Não teve dúvidas de qual seria o de Garrath.
Escolheu o quarto na parte da frente da casa, com vista para o jardim e o mais distante do de Garrath. tirou o robe da mala e foi para o banheiro.
A banheira era antiga e enorme. Daria para dois...Barbara corou e tirou esse pensamento da cabeça.
A água morna acabou com o resto da tensão de seu corpo e, no final, estava até cantarolando.
Estava decidindo o que vestir para o jantar com Garrath quando o telefone tocou. Seu coração disparou e correu até o outro quarto para atender. Seu alô saiu ofegante.
- Barbara? - a voz não era a que esperava
- Sim, Diana. Garrath não está.
- Eu sei. Ele está aqui comigo e pediu para ligar e avisar que vai demorar mais algum tempo no escritório. Estamos muito...ocupados. Ele sugeriu que você tome um táxi e vá jantar no restaurante de algum hotel, ou se preferir, tem comida na dispensa, E não se se incomode em esperar por ele.
- Está bem - Nem bem tinha acabado de responder e a ligação foi cortada. Irritada, bateu o telefone com toda força.
Não acreditava na insinuação de Diana de que estava ocupada com Garrath e não por motivos de trabalho. Era natural que uma secretária ficasse até mais tarde trabalhando com o chefe.E mesmo que estivessem misturando negócios com prazer, não se importaria. Mas não acreditava nisso.
Fechou a mala, sem a menor vontade de ir jantar sozinha em algum hotel da cidade. Pretendia se arranjar com o que tivesse na despensa e não precisava se vestir para isso. O robe estava muito bom.
A despensa e a geladeira de Garrath estavam bem supridas. Preparou uma omelete com cebola e comeu com pão preto. Depois, foi para o quarto fazer uma lista do que precisaria para fazer o serviço em Glenclair.
Durante todo esse tempo, as insinuações de Diana continuavam ecoando em sua mente,embora ainda não acreditasse naquilo. Foi deitar e ficou rolando na cama até quase duas horas da madrugada.
Aquela altura, já acreditava na possibilidade de Garrath e Diana estarem juntos, mas não para trabalhar.
Acordou com o som de passos na calçada. Ficou imediatamente alerta e levantou. Estava muito frio e se enrolou num cobertor para ir até a janela.
Espiou pelas cortinas de veludo. Estava começando a amanhecer e garoava. O leiteiro estava fazendo sua ronda matinal, trocando as garrafas vazias nas portas das casas por outras cheias.
Barbara acompanhou o leiteiro desaparecer em sua carroça e ia voltar para a cama quentinha quando viu um carro esporte dobrar a esquina e entrar na garagem da casa.
Correu para a cama e olhou para o relógio. Eram quase seis horas da manhã e só agora Garrath estava chegando em casa.
Imaginou o sorriso de triunfo de Diana e se enfiou debaixo das cobertas, abraçando o travesseiro contra o peito.
Capitulo XIV
- Acorde, princesa - Uma voz sussurada acordou Barbara fazendo com que abrisse os olhos lentamente até deparar com um rosto sorridente.
- Garrath!
- Em pessoa. Estava esperando mais alguém? - Garrath lançou um olhar malicioso para o ombro nu aparecendo sob a coberta.
Ela corou e se cobriu até o pescoço.
- Nunca lhe ensinaram a bater antes de entrar?
Garrath concordou com a cabeça e ergueu três dedos.
- Você bateu...três vezes?
- Sim, três vezes. E o café está esfriando.
- Café? - Sentou na cama e viu a pequena mesa perto da janela posta para dois.
Só então percebeu que as cortinas estavam abertas, deixando o sol entrar. Em meio a xícaras e pratos de porcelana, estava um vaso de cristal com um solitário botão de rosa.
- Venha - Garrath caminhou até a mesa - Antes que esfrie e todo o meu esforço vá por água abaixo.
- Seu esforço? Quer dizer que foi você quem preparou o café?
- É claro. Homens solteiros adquirem uma série de habilidades pouco comuns, e cozinhar é o que faço melhor.
Barbara podia imaginar algumas das outras de suas habilidades de solteiro. Como passar a noite fora, por exemplo.
- Que horas são?
- Sete e pouco. Teria deixado você dormir mais um pouco, mas estou ansioso para partir.
- Partir?
- Para Glenclair - Garrath abriu uma das travessas de prata e um cheiro apetitoso de bacon se espalhou pelo ar. - Está tudo pronto e nenhum cozinheiro gosta de ver sua comida esfriar. Precisa de ajuda para sair da cama?
- Não!
- Bem, então... - Garrath ficou de costas e riu,deixando a ameaça no ar.
Barbara deu um suspiro inconformado. Pelo visto, Garrath não faria a gentileza de sair do quarto para que se vestisse. Mas o que poderia esperar de um homem que voltava para casa as seis da manhã do trabalho com a secretária, e trazia café uma hora depois no quarto de outra mulher?
Ainda coberta até o pescoço, esticou o braço para pegar o robe no pé da cama. Sempre de olho em Garrath, vestiu o robe longo e todo branco de tecido aveludado, que oferecia um conforto sensual.
Quando saiu da cama, Garrath a mediu da cabeça aos pés e ela ficou terrivelmente embaraçada pelo fato de estar nua sob o robe. O mais embaraçoso era que Garrath sabia disso.
Mas o cheiro de bacon despertou seu apetite e sentou na cadeira gentilmente puxada por Garrath. Suas faces ruborizadas traíram seu embaraço diante daquela situação.
- Esta foi a maneira que encontrei para me desculpar por não ter podido levar você para jantar ontem a noite. Sinto muito, Barbara. O problema com a nova companhia que fundamos perto de Invergarry era mais sério do que pensei, e precisava ser resolvido com urgência, Em compensação, estou livre esta manhã e podemos partir para Glenclair. Isto é, se você quiser ir.
Livre...Garrath podia estar livre, mas ela não. Richard certamente interpretaria sua recusa em ir para Glenclair como um sinal de fraqueza. Mas ficou satisfeita por Garrath perguntar se queria ir em vez de dar uma ordem. como costumava fazer.
- Eu irei. A que horas você quer sair?
- Que tal daqui a uma hora? - Depois de tudo combinado, Garrath acrescentou - Agora, coma.
Ele não precisou insistir,nem tinha exagerado seus dotes culinários. Os ovos mexidos com tomate e legumes estavam deliciosos, enquanto o bacon estava no ponto. E o suco de laranja, com uma dose de champagne, divino.
Aquela era outra faceta de Garrath que nunca tinha imaginado existir. Cada dia descobria um novo traço daquela personalidade fascinante e estava ansiosa para conhecer o que estava em seu âmago.
Outra coisa que a surpreendeu foi a aparência. Garrath não demosntrava nenhum sinal de cansaço, como era de se esperar de alguém que passou a noite em claro. Estava usando calça cinza e um suéter verde. Aqueles olhos castanhos brilhavam como nunca e o sorriso era branco. Barbara , por sua vez, estava em frangalhos. Isso não era justo.
- Você ainda não me contou onde fica Glenclair.
- Fica em Skye.
Pelo pouco que conhecia da Escócia, sabia que Skye era uma ilha . E isso era tudo.
- Janet estará lá?
- Sim. E também o sr. e a sra. MacGuigan, o casal que trabalha para a minha familia desde que me entendo por gente. Charlie faz toda série de biscates e sua esposa foi minha babá e de Janet, sendo até mãe quando foi preciso. Agora, é nossa governanta e cozinheira. Mas antes de irmos para lá,gostaria de passar pela companhia que me fez passar a noite em claro resolvendo problemas. Se não se importa, é claro.
- Não, tudo bem - respondeu distraída, pois sua mente estava ocupada com outra coisa.
Aquela era a segunda vez que Garrath comentava como tinha passado a noite. será que esteve realmente trabalhando? Não fazia a menor diferença,mas as insinuações de Diana podiam ser tão infundadas quanto imaginara no começo.
- Que tipo de companhia é essa?
- O que estamos tentando fazer é começar pequenos negócios em áreas diferentes para dar mais empregos ás pessoas, evitando que saiam de suas cidades ou mesno do país.
- É um negócio lucrativo?
- Não como nas outras áreas. Mas o suficiente. Durante anos,a Escócia não teve empregos para oferecer á população, principalmente aos jovens. Existe até um ditado popular de que o principal produto de exportação desse país é seu povo. E na minha opinião, gente é o recurso mais valioso de um país.
- E a taberna de Akx Duncan tem alguma coisa a ver com esse projeto?
- Sim. A St. Clair Corporation investiu no negócio de Alex - Garrath estava tão constrangido como quando Alex tocou no assunto no restaurante e desconversou, levantando bruscamente da cadeira - Bem, tenho algumas coisas para fazer antes de partirmos. Com licença.
Concordou com um sorriso. Era uma satisfação ver Garrath St. Clair embaraçado uma vez na vida.
Barbara estranhou o volante do lado direito e o carro no lado esquerdo da pista, ao contrário do que era na América. Além do mais,o espaço dentro do carro esporte de Garrath era restrito e tiveram que sentar bem perto um do outro.
Quando saíram do tráfego intenso do centro de Edimburgo e entraram na estrada, distraiu-se com a mudança constante de cenário e o mapa que Garrath lhe dera para se situar melhor.
Estavam seguindo para a região noroeste e a paisagem mudou de planicies verdejantes para colinas cobertas de florestas, chegando finalmente aos pântanos. E o tempo pareceu retroceder enquanto passavam por solares antigos e castelos fortificados, pontes arqueadas e restos de muralhas erguidas pelos romanos por volta de 140 a.C.
Já passava do meio-dia quando atravessaram o pântano de Rannoch e chegaram a um lugar muito bonito chamado Glen Coe. Ficava num vale,cercado de colinas cobertas por uma densa vegetação e cortadas por desfiladeiros profundos. Era uma visão arrebatadora.
Garrath parou o carro e anunciou que era hora do almoço. Barbara olhou em volta, mas não viu nenhum sinal de habitação, muito menos de algum restaurante ou taberna onde pudessem comer. Então, Garrath tirou uma mochila de lona da traseira do carro e fez sinal para que ela o seguisse.
Caminharam pela grama ainda úmida da neblina da manhã até chegarem a um córrego. Barbara olhou para trás e não viu mais o carro nem a estrada. estavam totalmente isolados.
Uma rocha enorme e achatada na margem do córrego serviu de mesa para os pãezinhos , presunto, queijo, azeitonas, picles e uma garrafa de vinho. Enquanto comiam, Barbara ouviu a história do massacre dos MacDonald pelos Campbell no século XVII.
- Não foi a primeira tentativa de exterminar os montanheses escoceses. A história da Escócia está marcada pela resistência contra a invasão e a conquista da Inglaterra. Pagamos bem caro por essa resistência, mas conseguimos sobreviver.
Garrath falava com orgulho, como se fosse o porta-voz de centenas de homens e mulheres que viveram e amaram,lutaram e morreram por aquelas terras.
- Você devia ser professor, Garrath.
- É por acaso uma maneira gentil de dizer que estou falando demais?
- Oh,não! - Deu um sorriso maroto - Só espero que o teste não seja muito dificil.
Garrath deu risada e ofereceu mais vinho. Ela recusou, tentando imaginá-lo como um professor. Certamente, suas classes estariam sempre cheias de alunas loucamente apaixonadas pelo professor atraente.
Alem disso, aquele breve discurso a fez querer realmente ter estudado mais história. Nos tempos de colégio, conseguia decorar datas, lugares e nomes sem problemas e sempre ia bem nas provas, mas seu grande interesse estava nos números e nas equações matemáticas.
Quando terminaram o almoço, Barbara começou a guardar o que tinha sobrado, mas foi interrompida por Garrath.
- Espere, precisamos fazer uma coisa - Colocou um pãozinho e a garrafa com um resto de vinho ao lado da rocha, dizendo: - Aos espíritos do vale.
Barbara,sempre tinha sido prática e racional, descrente de tudo que não pudesse ser provado com fatos concretos, ficou impressionada. Não achou aquilo impossivel e acrescentou um pedaço de queijo.Voltaram para o carro e para o presente.Algum tempo depois de saírem da beleza austera de Glen Coe, Garrath tomou uma estrada secundária
Logo avistaram um agrupamento de construções na margem de um córrego.
- Aquela é a Janclair,Inc. - Garrath explicou.
- Você escolheu esses nomes em homenagem a Janet?
Garrath riu.
- Janet escolheu o nome em sua própria homenagem. E como foi ela quem deu a idéia original e cuidou de todas as preliminares para começar o negócio, achei que tinha o direito de batizar seu bebê como quisesse.
Estava surpresa com aquela inclinação de Janet para os negócios e mais ainda com o fato de Garrath ter permitido que a irmã se encarregasse daquele empreendimento. O que não combinava com sua atitude no que se referia a Andy. Por que Garrath achava Janet capaz de tomar decisões nos negócios e não no amor?
A primeira coisa que notou quando entraram no predio foi um cheiro forte e indescritível.Era acre e embriagante. Enrugou a testa e olhou para Garrath.
- Que cheiro é esse?
- É de uísque. Estes prédios eram de uma destilaria. Existiam muitas destilarias pequenas como esta antes da I Guerra Mundial, que fecharam por falta de matéria-prima. Mas as construções ficaram e puderam ser reaproveitadas com uma reforma aqui e ali. Os empregados não se queixam do cheiro.
Barbara entendia por quê. Depois de apenas alguns segundos,não estava mais enrugando o nariz. Pelo contrário, estava respirando fundo,deliciada com aquela fragrância.
A estrutura do predio podia ser antiga, mas a maquinaria era moderna. O ambiente, bem iluminado e seguro, tinha as qualidades que Garrath parecia naõ dispensar em nenhum de seus projetos. alem de ser produtivo,como mostravam os balanços e o número de pedidos.
- Pelo visto, o bebê de Janet vai crescer muito bem- comentou depois que terminaram a visita as instalações e Garrath resolveu os problemas que exigiam sua atençao.
- E o melhor de tudo é que os trabalhadores são todos desta regiaõ e não precisarão ir para Glasgow ou para a Inglaterra, á procura de emprego. Acho que estão todos satisfeitos aqui.
Barbara concordou, Só tinha visto pessoas muito felizes e orgulhosas durante a visita.
Cumprimentavam Garrath com muito respeito e era óbvio que gostavam do trabalho e do patrão.
Quando voltaram para o carro,observou Garrath com o rabo de olho. Seu perfil era austero e as mãos seguravam o volante com firmeza. Era a imagem de um homem determinado.
Essa tinha sido a primeira idéia de Barbara sobre aquele homem, mas aos poucos foi descobrindo que não era sua única faceta. Os outros o viam de forma diferente.Andy, por exemplo, o admirava apesar de suas divergências. Janet adorava tanto o irmão que não reclamava por ser tratada como uma criança. Os funcionários da plataforma, do escritório em Edimburgom em Janclair, todos tinham demonstrado não só respeitar o patrão mas também gostar realmente dele.
E ela? O que pensava daquele homem? Sentiu um calafrio na boca do estômago quando essa pergunta lhe ocorreu. Será que estava, apesar de tudo,começando a gostar de Garrath também?
Preferiu esquecer aquela pergunta enquanto seguiam pela estrada que os levaria as ilhas. Passaram por bosques e desceram pelo desfiladeiro de Glen Shiel entre duas cadeias de montanhas totalmente desprovidas de vegetação. estavam nas sombras das colinas ondulantes quando começou a chover.
Bárbara ficou colada ao vidro, encantada. Em questão de segundos, verdadeiras cachoeiras se formaram nos sulcos deixados entre as rochas por tempestades passadas. Continuaram a viagem sob chuva por mais alguns minutos, mas os limpadores de pára-brisa não estavam dando conta do volume de água e Garrath teve que parar o carro.
- Acho que teremos que esperar passar.
- Que bom que estamos aqui dentro - Barbara tremia.
-Você está com frio? - Garrath não esperou resposta e pegou uma manta de lã de trás do banco, colocando nos ombros dela - Isso deverá ajudar a se aquecer.
O gesto provavelmente não começou com a intenção de ser uma caricia, mas no momento em que Garrath colocou a manta nos ombros de Barbara, uma corrente eletrizante passou de um corpo a outro. De repente,tudo que importava era o contato da mão de um com o ombro do outro.
Um silêncio cheio de significado encheu o carro. E o ritmo da chuva fazia aumentar a atmosfera de intimidade no interior do carro. Ela perdeu a noção de tempo e de espaço.
Garrath a segurava com firmeza pelos ombros e virou lentamente o corpo dela. Então , foi inclinando a cabeça com olhar cravado naqueles olhos verdes.
Podia ter se afastado, se quisesse. Mas aquele não era Garrath St. Clair, o senhor do petróleo. Era o Garrath que lhe trouxera café na cama naquela manhã e dividira seu vinho com os espiritos do vale.
Não quis se afastar e se aconchegou mais naquele abraço, entregando os lábios para um beijo.
Seus lábios se tocaram de leve e as mãos de Garrath seguravam o rosto dela, acariciando a pele sensivel do pescoço. Barbara suspirou e o beijo ficou subitamente possessivo. Não era mais um leve roçar, era sensual e exigia uma rendição total.
Barbara estava disposta a mergulhar por inteiro no turbilhão de emoções que invadia seus corpos, mas quando tentou chegar mais perto de Garrath sentiu a marcha do carro em suas costelas.
- Ai! - Pulou para longe dos braços dele.
- O que foi? - Viu Barbara esfregando o lado direito do corpo - Que droga! Por que não comprei um Rolls-Royce?
Ficaram se olhando por um momento. A chamada paixão ainda ardia no fundo de seus olhos e a respiração era ofegante.
- Devia pelo menos ter escolhido um carro com marcha automática! - Barbara brincou e os dois caíram na risada.
Riram com o embaraço de dois adolescentes sendo apanhados trocando carícias dentro de um carro. Mas as lembranças das sensações de alguns minutos atrás ainda estavam vivas.E não eram sensações de adolescentes.
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