Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Encontro28.10.2017
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Capitulo IX

No dia seguinte, Barbara estava na plataforma vendo um pequeno submarino azul sendo preparado para a viagem ao fundo do mar. Uma parte da conversa do dia anterior na sala de computação voltou à sua mente:


"Levarei Barbara no mini-submarino e checarei pessoalmente...", foram as palavras de Garrath.
Na hora, estava tão preocupada com a reação de Miles que não tinha dado importância a essas palavras.MAs agora que enfrentava a realidade, sentia medo.
O mini-submarino estava sendo preparado para os tripulantes. Dois homens checavam o equipamento na cabine, enquanto outros do lado de fora faziam os preparativos para lançar o aparelho no mar.Como não podia deixar de ser, Garrath supervisionava tudo.
Ajudava a puxar uma corda e, de onde estava, Barbara podia ver os músculos salientes do braço e dos ombros.

Mas não queria reviver emoções perturbadoras e desviou o olhar para o mar, agora calmo, como se estivesse descansando da agitação provocada pela tempestade.


Depois do que havia acontecido na outra noite, antes da tempestade cair, Barbara decidiu manter distância de Garrath durante o resto de sua estada em Sithein Um. A cena constrangedora com Miles tinha reforçada sua decisão. As insinuações de Miles eram rídiculas, mas outros poderiam pensar a mesma coisa. E não deixaria isso acontecer. Nenhuma atração passageira por um homem egoísta prejudicaria sua reputação profissional ou pessoal.
Contudo, seria dificil manter distância dentro de um mini-submarino. Por isso, pensou em recuar e bem que tentou naquela manhã, quando estava tomando café com Janet e Garrath apareceu.
- Um helicoptero sai daqui a uma hora, Janet St. Clair. Como já assinei aqueles documentos tão urgentes que você fez o sacrificio de me trazer, não vejo mais necessidade para ficar aqui. Nos veremos na semana que vem...em Genclair.
- Está bem maninho - Janet concordou, com um sorriso maroto.
Satisfeito com a resposta da irmã, Garrath falou com Barbara:
- Nosso submarino estará pronto para partir por volta das dez.
Não era bem um convite, mas tentou recusar;
- Não vejo realmente necessidade de inspecionar o oleoduto. Ficarei satisfeita com as informações que puder me trazer.
Garrath ergue as sobrancelhas com ar de zombaria, mas não fez nenhum comentário. Foi Janet quem protestou;
- Oh, Barbara, não jogue fora a oportunidade de fazer esse passeio. Não é sempre que mei irmão concorda em levar passageiros no submarino. Já estive lá embaixo e foi inesquecivel. É um mundo fascinante e o submarino é muito aconchegante.
Aconchegante! Ficou pálida e depois sentiu as faces em brasa. A última coisa que queria era ficar com Garrath num submarino aconchegante.
Enquanto tomava o café, pensava em outro pretexto para não ir. E se dissesse que sofria de alguma fobia? Mas qual? Claustrofobia, hidrofobia... ou Garrathfobia?

Mas Garrath não lhe deu tempo para pensar.


- Você não está com medo de entrar num submarino , está? É totalmente seguro.
Sacudiu a cabeça. É claro que não estava preocupada com a segurança do aparelho e tinha a nítida impressão de que Garrath sabia disso.
- Então, pode ser que esteja preocupada porque ficaremos sozinhos no fundo do mar,no espaço restrito de um submarino. É isso que está incomodando você?
- É claro que não! Eu...bem, só não queria perder tempo. Só isso.
- Garanto que o tempo será muito bem aproveitado...
- Ora, Garrath! - Janet protestou - Assim, você vai deixar Barbara mais nervosa. É realmente muito divertido e você não vai ficar sozinha com meu irmão, uma situação que qualquer mulher sensata temeria. - Riu, antes de acrescentar: - A tripulação do submarino estará lá pra proteger você.
A menos que admitisse que a suposição humilhante de Garrath estava certa, a única alternativa dela era aceitar e confiar na tripulação. Quantos seriam?Um, quatro...
- Está bem. Estarei pronta às dez.
Agora, estivesse pronta ou não, era hora de partirem. As últimas checagens foram terminadas e os homens deixaram o submarino.
Aproximou-se com passos decididos. Não queria ir, ms já que não tinha nenhuma desculpa razoável para recusar, não daria nenhuma chance para Garrath especular sobre as razões de sua relutância.
- Tudo pronto? - perguntou com voz animada.
- Falta só tirar este macacão. - Garrath sorria com malicia. - Sei o que pensa sobre este meu trabalho sujo.
Ficou vermelha, lembrando de seu primeiro encontro com ele. Sua pulsação acelerou enquanto via Garrath tirar o macacão. Estava usando uma jaqueta de camurça e calça jeans.
- Vamos subir - Garrath estendeu a mão e indicou a escada.
Ajudou Barbara a subir no primeiro degrau e fou logo atrás. Quando ela se virou de lado para passar pela escotilha, seus olhares se cruzaram e Garrath estava com o sorriso de satisfação de um gato levando um ratinho para a armadilha.
Barbara deu uma olhada no interior do submarino e agradeceu a Deus

por não sofrer realmente de claustrofobia. A maior parte do espaço estava ocupada por caixas pretas e mecanismos eletrônicos. O teto era tão baixo que tinham que andar com as costas curvadas.


- O seu lugar é ali.- Garrath apontou para a cadeira. Ficarei no banco da frente, onde estão os controles.
Olhou para a cadeira. Era óbvio que Garrath devia ter entrado na frente. Agora, precisaria forçar passagem para chegar ao seu lugar. Era o tipo de situação que receava e que, sem dúvida nenhuma tinha sido planejada.
Sentou na cadeira e ficou com as pernas dobradas. Fechou os olhos e abraçou os joelhos, como fazia quando era criança e queria se esconder. Talvez se não respirasse e não olhasse, comprimindo o corpo ao máximo, nada acontecesse.
Quase deu certo. Uma das pernas de Garrath roçou na sua, mas o contato foi rápido. Não podia culpá-lo pelos arrepios que percorreram seu corpo.
Quando abriu os olhos, Garrath estava checando os controles no painel. Fechou a porta da escotilha e comunicou pelo rádio que estava pronto. O submarino começou a ser erguido da plataforma. Estavam a caminho...e sozinhos!
- Onde está a tripulação? - Mal conseguia disfarçar a apreensão.
Garrath sorriu e apontou para a parte traseira do submarino.
- Atrás daquela parede,Barbara.
Uma parede separava a cabine de controle do resto do aparelho. Calculando o tamanho do submarino, mais da metade de sua extensão ficava do outro lado.
- Mas por quê?
- Os mergulhadores estão todos lá atrás. São eles que vão fazer a checagem e algum conserto, se for necessário. Esses rapazes ficaram numa câmara especial de alta pressão para se prepararem para esta missão.A mesma pressão é mantida nesse compartimento traseiro do submarino, para que possam ser transportados da câmara na plataforma para o submarino, depois mergulhar e voltar à tona sem problemas de descompressão. Sem esse sistema, esta viagem não seria possivel.
- Entendo...
- E quanto ao resto da tripulação, quase sempre há mais homens nesta cabine para operar o equipamento especial,

mas um homem pode cuidar dos controles perfeitamente bem, sozinho.


E pensar que Janet tinha falado em uma tripulação para protegê-la! Tinha sido enganada, mas isso não importava mais. Se Garrath pensava que aquele cenário exótico e íntimo ia fazer com que caísse em seus braços outra vez, estava muito enganado. Por enquanto, não tinha mais nada a fazer a não ser apreciar o passeio.
O submarino sacudiu um pouco quando foi colocado na água. Depois de uma rápida comunicação através do rádio, Garrath apertou alguns botões e começaram a descer.
Barbara não queria olhar para Garrath, mas ele estava bem na direção da única janela. O submarino estava equipado com uma unidade de vídeo-teipe que fornecia uma visão geral da área bem à frente do aparelho, mas a imagem aparecia em preto e branco.
Por isso, preferiu olhar pelo vidro, fazendo o possivel para tirar Garrath de seu foco de visão. O caminho era bem visível com as luzes dos fárois de quartzo da nave.
O submarino deslizava pela água, quase sem provocar oscilações. E o único ruído era o zunido dos motores. A descida foi rápida e calma. Logo, puderam ver o fundo arenoso do mar do Norte.
- Estamos equipados com radares eletrônicos para localizar os oleodutos. Já estamos sobre a linha três. Agora, é achar o vazamento.
Essas palavras deixaram Barbara mais apreensiva. E se Miles estivesse certo e não achassem nada de errado com o oleoduto? Mas essas dúvidas não duraram muito. Confiava no sistema da computec e em sua própria análise dos dados. Para que ficar inventando problemas?
A busca foi rápida.

- Achamos! - Garrath exclamou, fazendo o submarino parar.- Seu computador estava certo, Barbara. Não é um vazamento muito grande, mas existe.


Sentia um alívio imenso. Sabia que estava certa, mas as dúvidas eram inevitáveis.
Alguns ninutos depois, os mergulhadores saíram da câmara especial e foram até o oleoduto. carregavam ferramentas no cinto e comunicaram pelo rádio a avaliação do problema.
- Muito bem. Não parece muito sério. Mantenham contato. - Garrath colocou o microfone no gancho e olhou para ela - Agora é só esperar.
O coração de Barbara batia como uma borboleta presa numa armadilha. a razão dizia que não devia mais pensar naquele homem. Garrath era irritante, egoísta e obcecado por seu único amor: o petróleo.
Mas no espaço restrito daquele submarino, era dificil não pensar em Garrath. Sua figura imponente parecia um imã, como a luz que atrai mariposas. Não queria olhar para ele por causa dos tremores que percorriam seu corpo,mas não conseguia evitar.
Estavam sozinhos e ainda por cima num lugar sem saída. Não importava o que Garrath dissesse ou fizesse, não poderia fugir. teria que enfrentar a situação e suas proprias reações. E era isso que mais temia.
- Quanto tempo vai levar? - conseguiu finalmente perguntar.
- Mais ou menos meia hora. Por isso, trate de ficar à vontade. Por que não vem para a frente? A vista é bem melhor daqui.
Parecia uma boa idéia. Pelo menos, teria o fundo do mar com que se distrair e garrath ficaria fora de sua visão. Passou para frente e ficou agachada diante da cadeira de Garrath.
Ficou imóvel, numa posição desconfortável, mas Garrath não fez nenhum esforço para lhe dar passagem. Certamente não esperava que ficasse comprimida contra seu corpo!
- Acho que não tem lugar para dois - comentou, arrependida por ter aceito a sugestão e querendo voltar para o seu lugar.
- Tem razão - Garrath concordou e não hesitou em puxá-la para o seu colo.
Antes que pudesse protestar, Garrath girou a cadeira, tirando qualquer chance de fuga.

Barbara ficou presa entre a janela e aquele corpo inflexível.


Não queria lutar, pois era isso mesmo que Garrath queria. Não lhe daria a satisfação. Além disso, sabia que a situação só ia piorar se tentasse resistir. O melhor a fazer era ficar quieta e ignorar as sensações que o contato entre os dois corpos provocava.
Garrath também ficou quieto, e aos poucos, ela relaxou o suficiente para admirar a paisagem. Não tinha muito para ver.Os mergulhadores pareciam sombras nebulosas à luz dos fárois. O fundo do mar era arenoso e praticamente desprovido de vegetação. Um ou outro peixe que passava eram os únicos sinais de vida naquele meio.
Mas dentro do submarino as vibrações de vida eram tão intensas que chegavam a incomodar. Barbara sentia as emoções em ponto de curto-circuito e os nervos estavam tensos de expectativa.
Garrath mudou de posição, dando-lhe um susto.
- Não precisa entrar em pânico, gatinha. Só estava tentando deixar você mais confortável. - Esticou o braço e apagou a luz da cabine.
- Não! Garrath, acenda as luzes, já!
- Por quê? Com as luzes apagadas, você poderá ver muito melhor a paisagem. Você não está com medo...de nada, está?
O coração dela palpitava, mas não de medo. O problema era que a escuridão fazia o espaço parecer menor ainda e mais isolado, criando uma atmosfera íntima. O clima era o mesmo da noite no posto de observação e Barbara não queria reviver aquelas emoções. De jeito nenhum.
- Não, não estou com medo. Mas...não é perigoso?
- Só existe um perigo e não tem muito a ver com o submarino.
- Não entendo o que você quer dizer.
- Acho que entende sim. E acho que é por essa razão que tem me evitado desde a noite da tempestade. - Garrath a segurou pelos ombros para ficarem frente a frente. - Está estampado nesses olhos verdes. Em sua boca convidativa...- Seu olhar seguia as palavras e os lábios de Barbara pareceram pegar fogo.
- Não! - sussurou quando viu aquela boca sensual se aproximando.
Mas não teve forças para resistir.

Desde o primeiro instante, perdeu-se no redemoinho de sensações causado por aquela boca gentil e ao mesmo tempo possessiva, exigindo uma resposta e conseguindo o que queria.


Garrath guiava o corpo de Barbara e a envolveu em seus braços. Suas mãos começaram a se movimentar, deixando uma trilha de fogo ao longo da espinha até chegar na nuca. Soltou os cabelos presos para que seus dedos pudessem passar livremente pelos fios.
- Mesmo sem a luz da Lua, você é encantadora. Você é tudo...
Ela passou os braços ao redor do pescoço de Garrath e se beijaram outra vez.
Então, as mãos de Garrath acariciaram seu pescoço e muito lentamente se infiltraram pela blusa. Barbara sentiu os seios ficarem rígidos e todo seu corpo tremia, pedindo mais caricias.
um botão e depois outro foram desabotoados. A mão continuava a acariciar, provocando novas sensações. Ela amoldou o corpo ao de Garrath, querendo que cada parte dela tocasse nele.
Garrath a apertou mais nos braços, como se quisesse fundir os dois corpos. O beijo era cada vez mais passional e Barbara estava disposta a corresponder ao que Garrath quisesse.
- Sr. St. Clair - a voz de um dos mergulhadores chegou pelo rádio - os reparos estão terminados. Estamos prontos para voltar.
Sentiam-se arrancados de um sonho. Os dois se separaram ainda tontos e seus olhares se cruzaram com avidez, revelando toda a frustração de não poderem saciar seus desejos.
- Barbara, eu... - Garrath começou a dizer, mas ela se afastou, sacudindo a cabeça e abotoando a blusa.
A luz foi acesa.
Capitulo X

Bárbara sempre foi muito organizada para fazer malas, dobrando cada peça com cuidado e aproveitando cada espaço. Richard tinha até comentado que pareciam organizadas por um computador.


Não acharia mais isso se a visse fazendo a mala agora. Simplesmente jogava as roupas e os objetos de uso pessoal de qualquer jeito,a ponto de o zíper não querer fechar.
- Ora, vamos - suplicou, empurrando a tampa - A mala veio fechada e é assim que vai voltar.
Ficou impaciente e um puxão mais forte no zíper resolveu o problema. A mala ficou estufada, mas pelo menos estava fechada. Era um passo a mais a caminho de casa.
Tinha decidido ir embora imediatamente de Sithein Um no submarino, depois da interrupção inoportuna, ou talvez oportuna demais, dos mergulhadores.Agora que o sistema da computec estava consertado, sua missão estava cumprida.
Tinha provado a todos que podia fazer o trabalho, superando seus temores e o preconceito de Garrath. A possibilidade do defeito no computador ter sido provocado por uma sabotagem ainda a incomodava, mas as precauções estavam tomadas. Era tudo que podia fazer. Não tinha mais nenhuma razão para ficar e todos os motivos para ir embora.
Por isso, arrumou sua bagagem o mais rápido possivel. Mas alguns minutos e estaria pronta para partir e o quarto voltaria ao seu legítimo dono. Tinha deixado o mais dificil para o fim: comunicar sua decisão a Garrath.

Não era por estar com medo. afinal, Garrath mostrara desde o começo que estava ansioso para se livar dela.Com certeza, ficaria muito satisfeito com sua decisão. Só não tinha contado antes porque esperava a hora certa.


Não podia, por exemplo, ter contado no submarino. Garrath estava muito ocupado em trazer os mergulhadores a bordo e dirigir o submarino para a superficie. Quando desembarcaram, o convés estava cheio de pessoas que tinham ajudado a trazer o aparelho para a plataforma. Também não podia esperar Garrath fazer os últimos arranjos e então resolveu ir para o quarto.
Sua atitude parecia muito lógica, mas sabia que Garrath não pensaria assim. Ficaria irritado por não ter sido comunicado antes, e era essa a causa da relutância. Queria evitar outra cena desagradável. Seria mais fácil quando estivesse pronta para ir embora. Fez uma inspeção para ver se não tinha esquecido nada e achou o vestido turquesa amassado no fundo de uma gaveta.
Era a roupa que tinha usado no primeiro dia . Sabia que nunca mais o usaria de novo, nem que as manchas de óleo saíssem. Para ela, as marcas estariam sempre presentes.
Ainda segurava o vestido quando a porta se abriu e Garrath entrou como um furacão.
- Por que fugiu de mim, Barbara?
A aceleração súbita de sua pulsação era mais um aviso de que devia ir embora o mais depressa possivel.
- Não fugi. Você estava ocupado e não quis...
- Tem razão.Estava ocupado guardando o submarino e explicando a Miles o que encontramos.
Miles! Estava tão concentrada em suas proprias preocupações que tinha até esquecido de Miles. Agora sentia remorsos.
- Como ele reagiu? Digo, ao fato do computador estar correto.
- Muito bem. Expliquei sobre o vazamento e ele disse que teria descoberto mais cedo ou mais tarde, antes que o problema ficasse sério. E provavelmente está certo. Ele acha que o sistema é redundante quando funciona e um estorvo quando falha.
- E o que você acha?
- Acho que salvará vidas algum dia. Talvez não nesta plataforma, mas em algum lugar.É é isso que importa.

Quer goste ou não, Miles terá que aprender a conviver com os computadores.


Barbara sentia pena de Miles, imaginando como seu orgulho estaria ferido, mas sorriu.As palavras de Garrath refletiam seu proprio pensamento. O importante era salvar vidas.
Garrath porém não estava sorrindo. Olhava para a mala sobre a cama e o vestido na mão de Barbara.
- Chega de falar sobre Miles. Gostaria de saber o que você está fazendo.
- Estou fazendo as malas para partir.
- Partir? De que você está falando?
- Meu trabalho aqui terminou e o tempo está bom.Não vejo motivos para ficar.
Abriu o zíper da mala o suficiente para enfiar o vestido num canto. Estava tensa, esperando que Garrath dissesse alguma coisa ou reagisse de alguma forma. Mas o silêncio foi longo até ele dizer:
- É por causa dos pesadelos?
Barbara levou um momento para descobrir do que Garrath estava falando e ficou surpresa consigo mesma. Não tivera mais nenhum pesadelo depois daquela primeira noite e as fantasias do passado não a atormentavam mais. Contudo não teve tempo de pensar sobre isso. Garrath estava esperando uma explicação.
- Não, não é por causa dos pesadelos. Já disse que não tenho mais o que fazer aqui. E depois do que Miles insinuou...
- Não leve Miles a sério! - Garrath a segurou pelos ombros. - Não pode ser tão tola quanto ele.
- Não o estou levando a sério, mas os outros podem acreditar, principalmente se alguem nos viu...Bem, não ajudará em nada na aceitação do sistema se pensarem que ...Seja como for, sinto muito pelo que aconteceu naquela noite e no submarino.
- Você sente?
- Sim, é claro. Acho que negócios e ... e prazer não se misturam. Não é uma atitude profissional e só causa complicações.
- Fico lisonjeado em saber que encarou aquilo como prazer, mas o que você esta dizendo não faz sentido.
- Claro que faz! É só ver o exemplo de Miles. Envolvimento emocional no trabalho simplesmente não dá certo.
- E o que me diz de você e Richard?
- Eu e Richard?
- Sim. Pelo que entendi, vocês dois são...muito íntimos.

Mas ele é seu chefe. Acho que posso considerar isso um envolvimento ou não?


- É diferente. Meu relacionamento com Richard começou muito antes de trabalharmos juntos e foi crescendo com o tempo. Não gosto do que está acontecendo agora.É apenas uma...uma...
- Atração física? É esse o termo que está procurando? Uma atração tão forte que escapa ao controle?
Lembrou de ter usado aquelas palavras para descrever o sentimento intenso que unia Janet e Andy. Mas isso não poderia ser aplicado ao seu caso. Garrath sabia disso e estava distorcendo suas palavras, como sempre fazia.
Barbara afastou-se dele e daquele olhar intenso para responder:
- Sim,é exatamente isso. Uma atração física que só trará complicações. É por isso que decidi ir embora o mais rapido possivel. Meu trabalho está terminado e preciso voltar para casa.
- Para os braços de Richard?
- Isso não é de sua conta.Já tomei a decisão e gostaria que providenciasse um meio de transporte para mim.
- De que você tem medo, Barbara? - Garrath segurou a mão dela. - Se o que existe entre nós não passa de uma atração física, tudo o que você tem a fazer é me repelir. Nunca forcei nenhuma mulher a fazer o que não queria. Se eu tocar em você - começou a movimentar o polegar na palma da mão. - e você não quiser, é só dizer não.
Garrath fez uma pausa, desafiando-a a dizer aquela palavra e pedir que parasse. A palavra chegou a se formar em seus lábios, mas ela não conseguiu dizer nada.
Garrath acariciava seu braço e a puxou para mais perto. Depois, colocou a mão em sua nuca para que erguesse a cabeça e o encarasse.
- Ou, será que você sabe que não dirá não porque me quer?
Garrath estava certo. Não tinha forças para dizer não. Naquele exato instante, já estava cedendo, deixando de lado as decisões ditadas pelo bom senso. Tentou pensar em São Francisco e em Richard. Mas nunca tinha sentido tanta emoção nos braços de Richard. Todas as lembranças de casa desvaneceram.
Tudo que queria era ser abraçada por Garrath mais uma vez e sentir o gosto de sua boca.

Desejava sentir as sensações arrebatadoras que só ele conseguia despertar.


Deu um suspiro e era o sinal que Garrath estava esperando. Seus lábios se aproximaram para o beijo tão desejado e Barbara ia fechar os olhos quando a imagem do unicórnio branco sobre o fundo azul no capacete de Garrath chamou sua atenção. E as palavras no logotipo ecoaram em sua mente: Sithein Um.
Arregalou os olhos e soltou-se daquele abraço.
- Não! Não,Garrath. Quero ir embora daqui.
Recuou dois passos para ficar fora do alcance dele e ficou de costas. Uma parte traiçoeira de seu ser desejava que Garrath a tomasse de novo nos braços e calasse aquele não em seus lábios com um beijo ardente. Mas ele manteve a palavra e não tentou nenhuma reaproximação.
Quando o silêncio se tornou insuportável, respirou fundo e virou-se para encarar Garrath, pronta para enfrentar sua fúria e seu desprezo. Mas ficou surpresa em não ver nenhum desses sinais naquele rosto atraente. os lábios comprimidos com ar de determinação estavam ligeiramente curvados num sorriso e seu olhar transmitia calor.
- E então, Garrath?
- Éstá bem. Tomarei todas as providências para sua partida amanhã de manhã - Garrath sorria.
Aquele sorriso a incomodou o resto do dia. Estava gravado em sua memoria. Parecia um sorriso de satisfação, mas por quê? No fundo, preferia não descobrir a razão.

Depois que Garrath saiu, foi até a sala de computação falar com Walter e deixou instruções para que avisasse Richard se surgisse algum outro problema. Quando voltava para o quarto encontrou Andy e aproveitou para se despedir.-


- Felicidades, Andy. E espero que seja com uma certa moça que conheço.
- Não tenho dúvida disso. Sou teimoso como uma mula e não desistirei.
Barbara deu um beijo de despedida naquele rosto sardento e foi procurar Miles, esperando poder desfazer a má impressão que tinha causado nele.Mas quando o encontrou, estava conversando animadamente com Rory MacPherson e não teve coragem de enfrentar os dois de uma só vez.
Não conseguiu dormir naquela noite, ainda atormentada pelo sorriso enigmático de Garrath. Estava também dividida entre a impaciência de ir embora logo e uma tristeza insensata por estar de partida. Queria levantar da cama e caminhar pela plataforma, deixando a brisa do mar dissipar a confusão em sua mente, embora não se atrevesse a fazer isso.
Era madrugada quando conseguiu adormecer, mesmo assim, acordou cedo e estava terminando de se arrumar, quando Garrath bateu em sua porta.
- Está pronta, srta. Christensen?
Garrath usava uma calça bege de lã e uma malha marrom, da cor de seus olhos.Aquele sorriso perturbador continuava em seus lábios.
Era realmente um sorriso de satisfação e Barbara sentiu um arrepio na espinha.
Garrath fez questão de carregar a mala e indicou o caminho até o helicoptero.Provavelmente, não via a hora de livrar-se dela... E precisava demonstrar isso tão abertamente? Barbara se irritou, embora estivesse aliviada de ir embora.
O helicoptero estava esperando, pronto para decolar. Enquanto Garrath guardava a mala,Barbara deu uma última olhada para a torre. O logotipo da St. Clair Corporation reluziu ao sol.
Curvou um pouco as costas e correu para onde Garrath estava. Tinha passado a noite toda pensando no que dizer na despedida. Queria que fosse alguma coisa muito adulta e sofisticada. Mas nada lhe ocorreu.
De qualquer maneira não foi preciso porque Garrath não lhe deu chance para se despedir. Apenas a ajudou a subir no helicoptero e, para sua surpresa,, entrou atrás.
- Sente aí! Teve que gritar por causa do barulho do helicoptero, apontando para o assento ao lado do piuloto. Ajudou a colocar o cinto de segurança e saiu, fechando a porta sem dizer uma palavra.
Um grito morreu em sua garganta. Iam se separar sem se despedir. Isso não era justo. Levantou a mão para acenar pelo menos, mas Garrath não viu esse gesto.
Sua surpresa foi maior ainda quando ele entrou no helicoptero pela porta de trás. Barbara se virou no assento, ignorando o cinto que apertava seus quadris.
- O que você está fazendo? - gritou, sem se preocupar se o piloto podia ouvir através dos fones de ouvido.
- Estamos deixando a plataforma, como você queria - Garrath assumiu um ar inocente.
- O que quer dizer com estamos? Por acaso, você está planejando me escoltar até São Francisco?
- Claro que não. Não lhe disse ainda? Mas que cabeça a minha! Você não vai para São Francisco, ainda não. Falei com Richard sobre um outro trabalho que você fará para mim.
O helicoptero decolou e ela nem notou. Que estória era aquela de outro trabalho? E Richard tinha concordado. Mas é claro que tinha. Faria qualquer coisa para agradar Garrath St. Clair.
- Que trabalho?
- Nada complicado. Só quero que faça uma conexão do computador na plataforma para o meu escritorio na cidade.
- Mas isso já devia ter sido feito - Estava confusa. Era uma norma da Computec instalar uma ligação entre a plataforma e o escritorio central de qualquer companhia.
- Tem razão, isso já foi feito. Mas quero uma conexão extra no meu escritorio particular. Não é sempre que posso vir para cá e ter um terminal em meu escritorio me facillitará a vida.
- Você não precisa de mim para isso. Temos vários técnicos melhor qualificados para esse tipo de trabalho. Mandarei um o mais rápido possivel quando chegar em casa.
- Oh, desculpe. Devia ter sabido que não poderia dar conta do serviço.
- É claro que posso dar conta - Barbara percebeu o que acabava de fazer e tentou corrigir - Isto é, poderia, mas...
Era tarde demais. Garrath fechou a armadilha e sorria:
- Está tudo certo, então.
Ela suspirou. Seu temperamento explosivo a tinha colocado em apuros outra vez. Agora, teria de enfrentar as consequências disso.
- Está bem, farei o trabalho.Mas terei que voltar para a plataforma. Os computadores tem que ser programados para aceitar a nova conexão e tenho que pedir um equipamento apropriado para...
- Já está tudo arrumado. Walter cuidará do trabalho na plataforma e seu querido Richard está providenciando a entrega do equipamento necessário. Como vê,está tudo arranjado.
Barbara virou para frente e cruzou os braços, furiosa.Tudo arranjado entre Richard Perry e Garrath St. Clair. E não sabia de qual dos dois tinha mais raiva.Como podiam ter combinado o que mais lhes convinha sem ao menos consulta-la! Que ousadia!
Mas não adiantava protestar agora. Presa num helicoptero sobrevoando as águas geladas do mar do Norte era definitivamente uma posição vulnerável. Principalmente para o tipo de resposta que aquela situação merecia.
Tinha se virado tão bruscamente que estava com mal jeito no pescoço. Outro desconforto que devia a Garrath! Mas, pensando bem, a situação não era tão ruim assim. Afinal, tinha conseguido o que queria: sair de Sithein Um.
Era verdade que ainda não estava livre de Garrath. Mas mesmo que concordasse em instalar a tal conexão, não levaria muito tempo para completar o serviço. Além disso, estaria em Aberdeen e não num mundo onde Garrath tinha as chaves de todas as portas...
Não entendia qual era o jogo dele agora, em todo o caso, logo descobriria que sua parceira tinha algumas regras proprias que colocaria em pratica assim que pisassem em terra firme.
Mais aliviada com essa determinação, relaxou e se debruçou na janela para dar uma última olhada em Sithein Um. O helicoptero estava sobrevoando a plataforma em círculos, provavelmente para esse fim.
Era uma visão diferente de quando a viu pela primeira vez, encoberta pela escuridão, a não ser pela chama ardendo no topo. Agora, a luz do dia, cada detalhe era visivel e surpreendentemente familiar. Podia até associar ruídos ao que via.
Quando passaram pela cabine de observação, viram um homem parado. estgava olhando para cima, com a mão protegendo os olhos da luz ofuscante do sol.
A principio , a figura era indefinida. Talvez apenas um trabalhador em hora de folga. Mas quando Barbara levantava a mão para acenar, o helicoptero deu um mergulho de despedida no ar e foi possivel reconhecer o observador: Miles.
Abaixou a mão imediatamente e afastou-se da janela. Miles não era um observador casual.Estava ali de proposito, acompanhando a sua partida com Garrath.
E não sorria.
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