Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Encontro28.10.2017
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Capitulo VII

Bárbara arregalou os olhos verdes. Era a primeira vez que ouvia Garrath falar com um sotaque escocês tão forte, marcado pela cadência musical e pelas vogais longas. Era um modo de falar cheio de emoção.


- Ora essa, isso é jeito de receber uma irmã que está morrendo de saudades e enfrentou o mar tempestuoso só para visitar você? É claro que estou vendo que não precisava de minha companhia. Já tem uma hóspede. - Janet olhava pra Bárbara - Mas como é que eu ia adivinhar?
- Não tente me enrolar, Janet. Está é Bárbara Christensen, uma técnica da computec que veio consertar uma falha no computador. Como vê ela tem um motivo para estar aqui. E você? O que veio fazer aqui em um braço de provisões e com um tempo desses? Espero que tenha uma desculpa melhor do que essa de estar com saudades de mim. - o olhar fulminante de Garrath passou da irmã para Andy.

Janet sorria com meiguice, como uma gata tentando cativar uma pantera feroz com seu charme. Alias, era muito parecida com o irmão. Tinha cabelos pretos encaracolados, olhos castanhos e os mesmos labios carnudos e sensuais.


-Bem, tive que trazer alguns papeis para você assinar.
Não precisava ter trazido pessoalmente. Se era tão urgente, o capitão do barco poderia ter trazido.
-Sim, mas você sempre diz que se queremos que alguma coisa sem bem feita, não se deve mandar ninguem fazer o trabalho por nós.Segui o seu conselho.
-Seria a primeira vez na história, Janet St. Clair ! - Garrath sabia que não tinha nenhuma chance e acabou rindo.
Janet correu para os braços do irmão e Barbara sentiu uma pontada inseperada no coração. Com certeza,a falta que sentia de Len a levaria a sentir inveja de Janet, envolvida nos braços do irmão. O que mais poderia ser?
Depois do abraço, Garrath encarou Janet e a repreendeu:
-Não faça isso, nunca mais. Poderia ter morrido , sabia?
-Não, como Andy por perto.
-Sim, Andy... - Garrath olhou para o rapaz, reassumindo um ar sério - Mas insensata que a atitude de Janet foi a sua proeza hollywoodiana. Você podia ter se matado com essa imprudência. E esse não é seu turno, é? Então, o que estava fazendo na plataforma?
-Estava apenas checando algumas coisas.E quanto ao que chama de "proeza hollywoodiana", sabia do risco que estava correndo. Mas, de onde estava, vi que Janet não aguentaria ficar naquela posição até chegar na plataforma. Achei que eu seria sua unica chance.
- Na minha opinião, você infringiu nossas normas. Sabe o que penso sobre isso.
- Sim, eu sei.
Barbara lembrou do que Andy tinha dito sobre a preocupação de Garrath pela segurança de seus empregados.O primeiro que infringisse as normas perderia o emprego. E certamente o fato de ter resgatado a irmã do chefe impediria Andy de ser despedido.
Foi Janet quem salvou a situação.
- Sei que é dificil para você agradecer como se deve, Garrath. Mas tenho certeza de que Andy não se importará em receber os meus agradecimentos..

Mais tarde. Agora preciso de um descanso par me recuperar do choque.


-E os papeis urgentes que trouxe para mim? - Garrath lembrou.
- Oh, acho que estarei recuperada lá pelas ...sete. Está bem, assim maninho?
Janet nem esperou a resposta, e saiu de braço dado com Andy.Barbara não conseguiu reprimir o riso. Sete horas!. Era quando se fazia a mudança de turno e Andy estava em serviço.
-Não vejo onde está a graça - Garrath observou - Minha irmã é uma criança caprichosa e vai acabar...
- Não acho que Janet seja uma criança...
- Com dezenove anos, não se pode dizer que seja uma mulher madura. Pode até ser minha a culpa. Não tenho tempo suficiente para ficar de olho nela.
-Como um carcereiro?
-Não banque a esperta em assuntos que não conhece, srta. Christensen.
-O que sei é que você não aprova o relacionamento entre Andy e Janet. Só não consigo entender por quê.

-Você está enganada. Não existe nenhum relacionamento entre minha irmã e esse rapaz.


-Só um cego não veria isso. Com ou sem a sua aprovação, esses dois estão apaixonados.
-Ora, veja só! Quer dizer que também é perita no amor?
-Não, eu...Isto é...- Ficou embaraçada, mas era exatamente o que ele queria, e não o deixaria vencer essa discussão - Não é preciso ser um perito para saber quando duas pessoas estão apaixonadas. Certamente , você já deve ter sentido esse tipo de atração, tão forte que escapa ao controle...
Não terminou a frase, surpresa com as proprias palavras. Ao mesmo tempo, notou que a plataforma, fervilhando de atividade há alguns minutos, estava vazia agora. E Garrath se aproximava.
-Está falando de uma paixão incontrolável?- Seus olhos faiscavam, mas não de raiva. - Uma atração que não tem lógica? Talvez já tenha sentido isso. E você, Barbara? Já sentiu isso?
-Não, eu... Bem, não exatamente.Mas sei que Janet e Andy...
-São crianças. Só um homem e uma mulher podem sentir a profundidade da emoçao de que estamos falando, da atração que faz a pulsação acelerar tanto que pode ser sentida...aqui - Garrath colocou a mão no pescoço dela.
-Não! - Barbara recuou e viu o sorriso malicioso de Garrath - Sua mão está fria.
-Sei...
O que ele sabia? Só sabia usar aquelas insinuações para embaraça-la. Barbara sentia a pulsação acelerar, mas era só por causa da raiva que sentia pela ousadia de Garrath,tentava se convencer.
-Você está enganado - foi tudo que disse antes de virar as costas e ir para a unidade da computec.

Só quando voltou para a sala de computação é que uma pergunta começou a martelar em sua cabeça. Sobre o que Garrath estava enganado afinal?


Trabalhou a tarde toda e só faltava um teste para completar a serie. Este último levaria de vinte e quatro a quarenta e oito horas para mostrar se a falha tinha sido corrigida. Walter podia aguardar o resultado sozinho, mas Barbara preferiu ficar.
Aproveitou para checar o resto do equipamento, estudando as informações que chegavam. Na verdade, estava só esperando um chance de poder falar com Walter. A possibilidade de sabotagem ainda a incomodava.
Sabia que Garrath tomaria as precauções necessárias para garantir a segurança e não poderia pedir mais nada pela falta de provas. Mas Walter era seu amigo, alem de funcionário da computec, e devia saber o que estava acontecendo.
Ela não falou de suas suspeitas, nem foi preciso. Simplesmente deu a Walter uma explicação básica da causa do defeito e esperou que tirasse as proprias conclusões. Quando viu pela fisionomia que os pensamentos dele estavam tomando o mesmo rumo inquietante que os seus, fez algumas perguntas sobre quem tinham passando mais tempo naquela sala - com o sem a presença de Walter.

As respostas não foram muito uteis. Andy, Miles e Garrath entraram e saíram com frequencia como era de se esperar. E naturalmente, quase todos os empregados da plataforma tinham assistido a demonstração geral, feita sempre que um sistema era instalado pela primeira vez, para que conhecessem seu funcionamento.


Só três pessoas tinham a chave, além de Walter: Andy, Miles e Garrath. O que tornava a teoria de Barbara infundada. Se aqueles eram os quatro maiores suspeitos, podia esquecer a única evidência que tinha: o circuito danificado.
Decidiu fazer isso.As precauções seriam tomadas e Walter estava prevenido. Tudo que lhe restava fazer agora era esquecer aquele misterio e continuar seu trabalho.
Quando já não aguentava mais de fome, foi para o alojamento. Graças ao capacete e ao macacão passou despercebida pelos homens trabalhando na plataforma. Ninguem parou para lançar olhares ou sorrisos maliciosos como tinha acontecido em sua chegada catastrófica.
Com a proximidade da noite, a furia do vento aumentou. Embora a plataforma estivesse bem iluminada, as luzes do holofote eram desagradaveis e o cenário desolador. Mas não podia ser diferente. O que poderia querer naquela ilha de aço montada em alto-mar.

Havia esperado de propósito passar a hora da mudança de turno para sair da sala de computação. Chegando ao quarto, tomou um banho e vestiu a roupa mais confortável que havia trazido. Calça marron de flanela e uma suéter de cashmere verde.


Soltou o cabelo e escovou vigorosamente, acentuando o brilho dos fios dourados e compridos. Então, prendeu-o com um rabo de cavalo, colocando uma fita da cor de seus olhos.
Foi para o refeitório na esperança de não encontrar mais ninguém àquela hora, mas seu desejo de ficar sozinha foi por água abaixo. Janet St. Clair estava sentada numa mesa, com uma xicara de café.
Apesar das circunstâncias em que tinham sido apresentadas, Barbara simpatizou com aquela moça espirituosa. Além do mais, tinham um ponto em comum. Garrath não queria ver nenhuma das duas na plataforma.
-Você se importa de ter companhia? - Barbara se aproximou da mesa e foi recebida com um sorriso franco.
-Me importar? Venderia a minha alma para ouvir uma palavra amiga depois das censuras que tive que suportar dos dois homens da minha vida.
-Dois homens?
Sim, Andy e Garrath. Ficaram me repreendendo só porque minha chegada foi um tanto inesperada.
-Nem tanto, não é? - Barbara tinha um palpite que foi logo confirmado.

- Bem...na verdade, mandei um aviso para Andy. É por isso que estava me esperando na plataforma. Mas saiu tudo bem, não é? Não sei por que aqueles dois tinham que insistir em me censurar por não ter avisado Garrath que pretendia vir. Não quis enganar meu irmão, mas ás vezes é bom não lhe contar os planos antes de realizá-los...Senão, a gente pode levar um não como resposta. Garrath leva o papel de irmão mais velho a sério demais.


Para Barbara, esse não era o único papel que Garrath levava a sério. O outro era o de senhor da plataforma. Mas preferiu guardar essa impressão consigo, deizando Janet continuar o desabafo:
- E depois não cansaram de repetir como fui idiota em ficar acenando da rede. Como se eu não tivesse percebido isso na hora em que meus pés escorregaram! Qualquer um acharia que esses dois se dão muito bem já que consordaram tanto em me tratar como uma criança.
- Eles não se dão bem? Então como Andy conseguiu ser promovido a chefe de obras?
- Oh, Garrath reconhece a competência de Andy no trabalho.E também gosta dele, por mais incrivel que possa parecer. Ficaram muito amigos desde o primeiro instante em que se conheceram. Garrath estava muito entusiasmado com "Tex" e não cansava de falar de sua capacidade, inteligência e principalmente de seu senso de humor. Tex trabalhava tão bem que Garrath teve que lhe dar responsabilidades cada vez maiores. Passavam todo o tempo livre juntos, e um dia, Garrath trouxe Andy para casa.
- E foi amor à primeira vista?
Janet concordou com a cabeça e o brilho nos olhos castanhos confirmava a verdade das palavras.
- Foi isso mesmo. Mas quando Andy e eu saímos pela primeira vez, Garrath agiu como se eu tivesse saído com " Jack , o estripador". Ficou furioso.
- Mas por quê? - Gostava muito de Andy e não imaginava o que Garrath poderia ter contra aquele relacionamento.
- Não tenho certeza, mas acho que tem alguma coisa a ver com os programas que costumavam fazer juntos na cidade. Garrath sempre saiu com muitas mulheres

mas nunca quis assumir um compromisso mais sério. Acho que Andy também era assim e Garrath não via mal nenhum até a irmã dele entrar na parada. E simplesmente se recusa a acreditar que Andy pode estar sendo sincero comigo. Mas - um sorriso maroto curvou seus lábios - vencerei meu irmão pelo cansaço, não se preocupe.


Barbara riu, satisfeita em saber que existia pelo menos uma pessoa no mundo que Garrath St. Clair não conseguia dominar. Era uma pena não poder usar a tática de Janet.
Continuaram conversando e Barbara foi gostando cada vez mais da companhia da moça. Por isso, não hesitou em responder quando Janet perguntou se poderia dividir o quarto.
- Seria ótimo, Janet. Ainda não me acostumei com a solidão nesta plataforma.
- Mas se você trabalha para a Computec, não está sempre em contato com plataformas como esta?
Poderia ter dito simplesmente que trabalhava mais na área de projetos, mas quando percebeu já estava contando a história de Len, de seu pai e dos pesadelos que perseguiam. E o mais espantoso foi a naturalidade com que falou. Não foi tão doloroso quanto das outras vezes.

-Bem não precisa mais se preocupar - Janet tentou animá-la - Pesadelos não tem vez nos quartos onde durmo. Minha babá fez um feitiço para mim quando eu era criança e nunca mais tive sonhos ruins.


Barbara acreditou. Nenhum pesadelo se areveria a entrar no quarto da radiante e determinada Janet St. Clair. Estava sorrindo quando um bocejo escapou.
- Como sei que não é a minha companhia que está aborrecendo você - Janet brincou -, só posso concluir que meu irmão está fazendo você trabalhar como uma escrava. É tipico dele. Só porque é fascinado pelo trabalho, acha que todos devem ser tão dedicados quanto ele.
- É mesmo? Isto é, Garrath é mesmo fascinado pelo petroleo? - Nem sabia porque estava perguntando, se já sabia a resposta.
- É sim. Quem vê o empenho do meu irmão acha que St. Clair Corporation só está no ramo de exploração de petroleo. Os donos de grandes companhias internacionais certamente não passam a maior parte do tempo trabalhando numa plataforma.Mas Garrath não consegue ficar longe daqui. Em todos os outros setores, divide a autoridade. Com o petroleo, está assumindo cada vez mais controle. Está viciado e espero que não acabe com Miles Ramsey.
- Como Miles? Como assim?
- Bem, ele é um bom sujeito. Mas por mais que lute contra o tempo, com seu cabelo tingido, as sessões diarias de bronzeamento artificial e os gestos ensaiados, a velhice esta chegando e a vida dele se resume a esta plataforma.Não tem familia, nenhum amigo, a não ser Garrath, nem uma mulher. Nada além de seu trabalho aqui. Este é o seu mundo. Quando está de folga, geralmente vai pra nossa casa em Genclair, mas fica o tempo todo falando de petroleo, petroleo. Está dficando cada vez mais fanático e não quero que isso aconteça com Garrath.

Janet fez uma pausa antes de acrescentar:


- Talvez eu esteja com ciúme por Garrath ter encontrado outra coisa com que se preocupar além da irmã.
Barbara compreendia o receio de Janet, talvez até melhor do que a propria Janet. Aquele negocio era realmente envolvente, e pelo visto, Garrath estava fisgado. Sabia por experiência propria que nem Janet nem ninguem poderia fazer nada para desencantar Garrath.
Era um encanto eterno. E a única maneira de escapar de um mundo encantado como Sithein Um era aquele que seu pai e seu irmão tinham seguido.
Não, homens do petroleo nunca mudavam. Barbara sentiu um nó na garganta. Era muito injusto...para Janet, é claro. Só para Janet.
Capitulo VIII

Barbara não teve pesadelos naquela noite, mas não por causa da simpatia da babá de Janet. Foi simplesmente, porque não conseguiu dormir. Ficou várias horas de olhos abertos, imovel na cama para não perturbar Janet.


Esperava cair no sono logo. As duas tinham conversado até tarde e, por coincidência, Andy apareceu para tomar um café. Talvez o problema tivesse começado aí. Embora Andy e Janet não a excluíssem da conversa, tinha se sentido deslocada.
Andy não passou os braços pelos ombros de Janet nem lhe segurou a mão, mas qualquer um perceberia que estavam apaixonados.
O que tinha dito para Garrath era verdade. Fosse conversando, rindo ou apenas num silencio camarada, era possivel sentir a força que os atraía. Nada impediria sua união, por mais que Garrath tentasse.
Sentiu inveja da força de seus sentimentos, mas não sabia por quê. Certamente sentia a mesma coisa por Richard. Será que quando eram vistos juntos transmitiam a mesma sensação de pertencerem um ao outro?
Tentou se imaginar com Richard: no trabalho, discutindo negocios durante o jantar, falando dos problemas da companhia...Mas essas cenas eram de dois colegas de trabalho e não de um homem e uma mulher apaixonados. Não conseguia lembrar das vezes em que tinha sido abraçada, acariciada e beijada por Richard.
Forçou a mente e se viu envolvida num abraço forte. Mas tratava-se de outra cena. Aqueles braços eram mais fortes que os de Richard e o peito mais largo. Os olhos não eram da cor de mel, mas castanhos-escuros. E o cabelo deveria ser fino e claro; não grosso e preto. A boca também não era de Richard, era de um principe.
Tratou de tirar aquela imagem perturbadora da cabeça e também não quis pensar no significado daquela visão. Logo depois, deixou Andy e Janet a sós e foi para o quarto, na esperança de dormir.

Embora a imagem tivesse desaparecido, as perguntas ficaram. Rolou na cama até Janet chegar e depois ficou quieta no escuro enquanto as horas de arrastavam. Tentava não pensar,mas era dificil quando sua unica distração era o som da plataforma em plena atividade.


Como Barbara a plataforma não estava dormindo. Nunca dormia. Dia e noite, os trabalhadores se revezavam em turnos de doze horas para manter a perfuração em funcionamento vinte e quatro horas. As paredes do quarto isolavam o ruídoms murmurios distantes chegavam aos seus ouvidos, acompanhados de tremores quase imperceptiveis.
Mesmo sutis, esses ruídos a incomodavam. Tudo que queria era se distanciar de tudo aquilo. Mas não conseguia.
Finalmente, desistiu. Tomando cuidado para não acordar a companheira de quarto, vestiu, no escuro, a primeira roupa que encontrou. Pegou um casaco e saiu do quarto.
Pensou nas várias salas de entretenimento existentes naquela plataforma: a biblioteca, o circuito fechado de cinema e os jogos. Mas era pouco provavel que pudesse ficar sozinha em algum desses lugares. Teria que conversar com as pessoas e podia até encontrar...alguém. Um pouco de ar fresco e solidão ajudariam a clarear suas idéias.

Só não sabia o quanto o ar estaria fresco e foi surpreendida por uma rajada de vento quando abriu a porta. Mas nem pensou em voltar para dentro. Dois dias atrás , estava aterrorizada com a idéia de estar numa plataforma. E agora já conseguia caminhar por lá sob o mau tempo, como se estivesse em casa.


Enquanto andava pelo estranho territorio de aço, pensou no lar que parecia tão distante quanto a Lua. Lembrou da vista panorâmica da baía de São Francisco, que tinha da janela de seu apartamento, e da companhia serena de Richard. Aquele era seu lar, doce e tranquilo. Mas não sentia saudades e não entendia por quê.
Atravessou o convés principal e foi até um posto de observação.Apesar de não ser totalmente coberto, como a cabine, servia perfeitamente de abrigo contra o vento.
Tinha esquecido o capacete e sentiu remorso por estar violando as normas de segurança, mas não pretendia demorar. Respirou fundo e ficou recostada na grade, observando a noite.
Aquele era um mundo de contrastes, onde se alternavam a beleza da natureza com a insensibilidade das maquinas. Por isso mesmo, servia de cenário perfeito para Garrath St.Clair. Os traços contrastantes de sua personalidade eram seu fascinio.
Deu um suspiro. Garrath tinha invadido seus pensamentos outra vez.Mas era inevitável pensar naquele homem quando tudo á sua volta era o reflexo de suas ambições. Como podia deixar de pensar nele? Impossivel!
Não ficou surpresa em ver Garrath parado ao seu lado. Estava encostado na parede olhando para ela e não para o mar. Barbara desviou o olhar.
- Ainda vigiando a irmãzinha? - Seu tom era mais brincalhão do que irônico.
- Não estou apenas fazendo uma ronda. Fico agitado quando há uma tempestade se aproximando. E você? Teve outro pesadelo?
- Não, estou só...um pouco agitada também.
Nuvens cinzentas cobriam a Lua e tudo escureceu, mas Barbara não precisava de luz. Sentiu a mão de Garrath afastando seus cabelos para acariciar seu pescoço.

A pulsação acelerou àquele toque, traindo as emoções que a proximidade daquele homem provocava. Desta vez, não teve tempo de recuar. Os lábios de Garrath seguiram a trilha deixada pela mão.


- Com a luz da Lua refletindo em seus cabelos, você parecia uma princesa de conto de fadas. Linda demais para ser real...
Barbara sorriu. Tinha comparado Garrath a um principe e agora estava sendo chamada de princesa. Mas se ele pensava que ela era um ser celestial sem sentimentos , estava enganado.As emoções que a invadiam eram de uma mulher muito real e humana.
A mão de Garrath estava agora em sua nuca, acariciando com um pressão cada vez maior até Barbara não resistir mais e desviar os olhos do mar para ver aqueles labios sensuais, que tanto a impressionavam, vindo ao encontro dos seus.

O beijo começou com muita ternura, mas passou a ser mais possessivo, tirando-lhe as forças. Suas pernas estavam trêmulas, mas não havia perigo em cair porque estava segura pelos braços de Garrath e apoiada naquele corpo firme.


Não era mais possivel dizer onde terminava a respiração de um e começava a do outro. Seus corações batiam no mesmo compasso e as mãos de Garrath se infiltraram sob o casaco, acasriciando-lhe as costas, a curva da cintura e a região sensivel do estômago.

- Barbara...Barbara - sussurou, fazendo a mão parar bem abaixo dos seios.


Barbara sentiu uma emoção diferente de todas que conhecia. Passou os braços pelo pescoço de Garrath, enroscando os dedos nos cabelos pretos. E se entregou a um beijo insaciável.
As mãos de Garrath viajaram pelo corpo dela, transmitindo o calor do desejo. Os dois corpos estavam colados, unidos por uma chama ardente, que tendia a crescer cada vez mais.
Subitamente, um relâmpago cortou o céu escuro e foi seguido por uma trovoada. Os dois se separaram, mas continuaram imoveis, como se uma corrente elétrica mantivesse seus corpos no lugar.
Ela estava ofegante, os olhos brilhando depois daquele contato ardente. E Garrath ficou um bom tempo com as mãos estendidas, como se tentasse segurar alguma coisa que tinha desaparecido no ar.
- Espere... - começou a dizer, mas foi interrompido por outro relampago. A chuva veio em seguida.
O vendaval piorou, carregando a chuva para todos os lados e turvando a visão. Os dois ficaram encharcados em segundos.
Garrath puxou Barbara pela mão e voltaram para o prédio dos alojamentos. Ele a fez entrar e ficou do lado de fora, de modo que uma verdadeira cortina de agua os separava.
- Vou verificar se tudo está seguro - Colocou o capacete, enquanto falava: - É melhor você se secar e ir para a cama. Não se preocupe. Esta plataforma foi planejada para suportar uma tempestade pior que esta.
- Esta bem - seu tom não escondia o desapontamento.
Para Garrath, o trabalho vinha em primeiro lugar. E a plataforma exigia sua atenção agora. O nome era muito apropriado. Sithein, a moradia das fadas, onde os homens eram enfeitiçados para sempre. Como seu pai. E Len.
E como Garrath St. Clair.
Um fato que quase esqueceu, envolvida pelo prazer físico que ultrapassava os limites da razão. A vida tinha lhe ensinado que gostar de homens contaminados pela febre de petroleo significava infelicidade. Essa lição tinha sido enfatizada pelas mortes de seu pai e de seu irmão.

E tendo aprendido a lição de forma dolorosa, estava confiante de não cair nas garras cruéis daquela armadilha.Até aquela noite.


- Boa noite - Barbara se despediu e deu as costas, mas o chamado de Garrath a fez parar.
- Barbara?
Garrath a estava chamando de volta para os seus braços! o que devia fazer? Ser sensata ou mandar a razã o para o inferno? Olhou para trás ansiosa.
- Não saia mais sem capacete.É muito perigoso.
Garrath acenou com a cabeça e foi embora.Atender as exigências de seu verdadeiro amor, ela pensou. Mas isso não importava. Mesmo que ele a tivesse chamado de volta, não teria ido. Era esperta e suficiente para não cair duas vezes na mesma armadilha.. Não teria sido...
Foi para o quarto, tirou as roupas ensopadas e caiu na cama. Seus cabelos estavam molhando o travesseiro,mas não ligou. O travesseiro ficaria molhado de qualquer jeito com suas lágrimas.

Ainda estava dormindo quando ouviu seu nome pelo sistema de som.


- Barbara Christensen, favor comparecer à sala da computec imediatamente. Barbara Chsirtensen...
Aquela forma brusca de acordar deixou seus nervos á flor da pele e o coração disparando dentro do peito. Mas não hesitou. Logo imaginou o que tinha acontecido. Com certeza, o sistema de monitoria tinha paralisado os trabalhos outra vez.
Vestiu as pressas o macacão e um casaco. Prendeu o cabelo apenas com o capacete, antes de sair correndo. Encontrou Andy esperando no fim do corredor e confirmou sua suspeita:
- Seu computador diz que estamos perdendo pressão na linha três e a bomba já foi paralisada. Mas Miles diz que não tem nada errado. Seus cálculos não acusam nenhum problema.
A questão era simples. Será que o sistema continuava com defeito? Andy estava segurando uma capa de chuva amarela.
- Parece que já virou um hábito eu lhe dizer o que usar e peço desculpas, mas a tempestade ainda está muito forte e é melhor vestir isso.

Sorriu e vestiu a capa. Estava um pouco grande e ficou abaixo dos joelhos; as mangas cobriam suas mãos, mesmo depois de dobrá-las duas vezes. Devia estar muito engraçada, mas estava pronta.


Andy abriu a porta para um mundo cinzento, castigado por uma chuva torrencial. Quando saíram, Barbara teve que agarrar com força, primeiro no corrimão da escada e depois no braço de Andy, por causa do vendaval.
Andy fazia o que podia para protegê-la, mas a tempestade era muito forte e logo a única preocupação de Barbara era se manter em pé. Embora soubesse que o convés era todo cercado por grades para evitar que objetos escorregassem para fora, não era dificil se imaginar sendo arrastada pelas águas.
A porta da sala de computação estava aberta, indicando o quanto estavam ansiosos por sua presença.
- Qual é o problema? - Entrou, perguntando.
Não importava que Andy tivesse contado. Precisava de uma defesa contra os tremores que abalaram seu corpo só de olhar para Garrath. Procurou esconder toda e qualquer emoção,enquanto Garrath explicava a situação.
- Entendo...- Não conseguiu pensar em mais nada para dizer e começou a tirar a capa. Garrath ajudou e, antes que ela pudesse evitar, tirou-lhe o capacete - Não!

Era tarde demais e seus cabelos cairam sobre os ombros.Estavam bem próximos e ela pôde sentir a tensão no corpo de Garrath, que estendeu o braço pra tirar o cabelo de seu rosto.


- Barbara...- Essa palavra não foi mais que um sussuro, um eco das emoções que tinham dividido apenas algumas horas atrás.
Mas Barbara não queria reviver aquelas emoções e se afastou. Miles a cumprimentou:
- que bom que está aqui minha querida. Por favor, explique ao nosso chefe que esta é apenas uma falha do computador para que possamos voltar ao trabalho. está bem?
Miles estava recostado numa mesa, com os braços cruzados e algumas folhas de papel numa das mãos. Apesar da hora e do mau tempo,cada fio de cabelo estava no lugar e o sorriso felino também. Esse cuidado excessivo com a aparência e o toque de malícia no olhar eram insuportáveis.
- Por que você acha que é uma falha do computador? - ela retrucou rezando para que não fosse isso.
- Mas Barbara...Eu... - Miles hesitou, mas logo recuperou a confiança - Acho que isso é óbvio. Isto já aconteceu e você me disse esta manhã que ainda não tinha terminado os reparos. Na verdade, fiquei surpreso em ver o sistema operando outra vez.
- Eu também - Garrath comentou - Não sabia que os trabalhos de reparos estavam tão adiantados.
Agora não tinha como se defender.Para ter certeza absoluta de que tinha cumprido a missão, ainda faltava o resultado de um teste.E o pior de tudo era o fato de ter esquecido de informar que o computador havia reiniciado as operações. Pelo que conhecia de Garrath St. Clair, sabia como seria censurada por esse deslize.
Mas aquele comentário tinha soado mais como uma provocação do que uma censura, e a expressão em seu olhar era de divertimento. Barbara estava confusa. Não sabia o que dizer. A verdade é que tinha estado tão preocupada em não encontrar com Garrath que simplesmente esqueceu de avisá-lo.
Antes que pudesse inventar uma desculpa, Miles comentou:
- Seja como for, parece que os reparos não foram bem-sucedidos.

Já fiz todos os testes e nada indica vazamentos. Não devemos perder tempo com essa bobagem.


O tom sarcástico daquele comentário a deixou furiosa. Então, falou sem pensar:
- Você está errado, Miles.
O sorriso dele morreu nos lábios e ela arrependeu-se na hora, lembrando da importância que Miles dava ao seu trabalho. Não devia ter desafiado sua autoridade tão diretamente e pensou rápido numa maneira de remediar a situação:
- Talvez você não tenha visto esta queda brusca de pressão e do fluxo de óleo pela tubulação - disse, apontando para a tela do computador. - Isso não indica um problema?
- É claro que não! Não significa nada. A pressão voltou ao normal quase imediatamente depois. Uma ligeira oscilação na pressão é de se esperar. Qualquer um que já trabalhou neste ramo pode confirmar isto.
- Posso não ter trabalhado numa plataforma, mas entendo de computador. Estudamos dados fornecidos por um grande número de plataformas por um longo tempo antes de projetar este sistema e as situações que provocariam paralisação automática dos trabalhos. Se o computador diz que a paralisação é necessária, é porque existe uma boa razão para isso. Acho que devemos esperar até que o oleoduto seja inspecionado antes de ser reativado.
- Estou dizendo que não existe nenhum vazamento. Seu precioso computador está com algum defeito com das outras vezes. Não descobrimos nenhuma irregularidade antes e não existe nada agora também.

- Das outras vezes, a paralisação foi na perfuração e não no oleoduto.Aqueles alarmes falsos foram causados por um circuito defeituoso, que já foi consertado. Esta é uma situação totalmente diferente e precisa ser checada.


- Isso leva tempo, Barbara. Talvez não saiba quanto custa uma paralisação dessas numa plataforma de petróleo.
- Sei muito bem o quanto custa. Mas sei também que as consequências serão mais drásticas se continuarmos a operar com algum problema. E se o computador não estiver errado, Miles? Já pensou o que poderia acontecer mesmo com um pequeno vazamento nesta tempestade?
- Estou dizendo que não existe nenhum vazamento! - Miles estava irredutível e virou-se para Garrath - Temos que reativar aquele oleoduto já.
Garrath olhava para o chão e quando ergueu a cabeça encarou Barbara e não Miles.
- Você tem certeza? Certeza absoluta?
Ela não conseguiu responder na hora. Não porque não soubesse o que responder; sua opinião já estava formada. O problema era que não conseguia articular as palavras com os olhos de Garrath cravados nela, brilhando como nunca. Era como estar sendo tocada outra vez por suas mãos,sua boca e seu corpo.
Sabia que os outros estavam olhando,na expectativa. Sua voz era firme quando deu a resposta:
- Sim, Garrath. Tenho certeza de que não é mais uma falha do computador. Deve haver uma boa razão para a paralisação.
- Walter? Andy? Algum comentário? - Os dois concordaram com ela e garrath ficou pensativo antes de olhar para Miles: - Sinto muito, Miles. Mas sou obrigado a concordar com a maioria e garantir a segurança. Levarei Barbara no mini-submarino e checarei pessoalmente esse oleoduto assim que o tempo melhorar. Até lá, acho que devemos esperar.
Barbara quase bateu palmas de tanta alegria. Garrath concordava com ela! Estava aceitando sua avaliação da situação, mesmo contrariando seu supervisor geral.
Mas foi só olhar para Miles para a alegria desaparecer. O gsot da vitória era muito amargo desta vez, vendo a mágoa de Miles.

A humilhação e o ressentimento estavam estampados na fisionomia do homem.


- Você e Barbara vão descer para fazer a inspeção?
- Sim, acho que ela gostará de ver...- Garrath foi interrompido por Miles que atirou as folhas contendo seus cálculos ente a mesa.
- Entendo...
- Miles, acho que você não entendeu.
O supervisor já estava na porta, pegando a capa e o capacete.
- Estou entendendo muito bem. A plataforma é sua e pode tomar o partido de quem quiser!
Miles não deu chance para Garrath responder e saiu na chuva.
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