Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Capitulo V

A declaração dramática de Rory foi abafada por um burburinho ininteligível, mas Bárbara já tinha perdido o apetite. Só queria achar um lugar para poder ficar sozinha. Virou num movimento brusco e acabou esbarrando num homem, fazendo a xícara de café da mão dele entornar.


-Oh, desculpe! Que desastrada! Eu...eu não estava prestando atenção.
-Que sorte a minha que não estava - O sotaque do homem era britânico. - Assim, não preciso arrumar um pretexto para me apresentar. Sou Miles Ramsey. E você deve ser a técnica em computação.
O sorriso do homem era exagerado e, observando melhor, Bárbara viu que tudo em Miles Ramsey soava um tanto falso. Não estava certa sobre sua idade. Devia estar perto dos cinqüenta, embora fosse obvio o esforço que fazia para parecer mais jovem. A pele era bem bronzeada, e o corpo atlético demonstrava cuidado com o físico. E o olhar, típico de admiração masculina, parecia ensaiado.
-Sim, sou Bárbara Christensen.
-Muito Prazer. Estava esperando uma chance para falar com você sobre o sistema de monitoria. Ouvi dizer que não vai ficar muito tempo aqui. Isso quer dizer que já consertou o equipamento?
-Não exatamente. Tenho uma idéia do problema,mas precisarei fazer alguns testes para ter certeza. Espero ficar até terminar o trabalho.

-Bem, isso me deixa muito feliz. E não só por querer ver o sistema consertado.


Bárbara sorriu.As palavras daquele homem eram tão planejadas quanto sua aparência. Mas naquele momento, um pouco de bajulação inofensiva e olhares de admiração não fariam mal ao seu ego.
-Eu estava indo pegar mais café para mim. - Miles segurava a xícara meio vazia depois de esbarrão - Posso lhe fazer companhia enquanto toma o seu? Sou supervisor geral da Sithein Um e por isso tenho algum interesse profissional na sua visita.
O convite foi aceito de bom grado. Afinal a atitude do supervisor geral era muito importante para o sucesso do sistema da Computec. Sendo o chefe da plataforma, subordinado apenas ao dono, sua função era extrair o petróleo com o Maximo de rapidez e eficiência.
E para isso era preciso tomar decisões de quando, onde e como perfurar, baseado no tempo disponível. E também decidir quando os trabalhos deviam ser suspensos para evitar acidentes e até mesmo uma explosão. Dessa forma,.a vida de cada pessoa naquela plataforma dependia muito das decisões do supervisor.
Era por isso que o sistema da Computec tinha sido projetado para tomar decisões automaticamente. Os computadores podiam analisar dados e detectar mudanças, até mesmo parar os trabalhos, com mais rapidez e eficiência que um homem. Isso podia facilitar os trabalhos ou criar conflitos. Tudo dependia da aceitação ou não do sistema pelo supervisor.
Por essa razão, foi uma satisfação saber que o supervisor da Sithein Um estava não só interessado nos computadores, como também não se incomodava com o fato de Bárbara ser uma mulher, ao contrário de seu patrão.

Sua satisfação acabou quando viu Miles ir justamente para o canto em que Rory estava sentado. Provavelmente, Miles não tinha ouvido aquela explosão de descontentamento porque estava pegando café. De qualquer maneira, era tarde demais para explicar o que tinha acontecido e dar meia-volta sem chamar a atenção.


Sem outra alternativa, deu um sorriso forçado e percorreu o olhar pela mesa, esperando que o tal Rory não estivesse sentado por perto. Recebeu alguns olhares curiosos, outros maliciosos e um ou outro cumprimento. Mas não viu hostilidade em nenhum daqueles rostos. Deu um suspiro de alivio e sentou.
O alivio, porém durou pouco. Estava levando a xícara à boca quando notou que estava sendo observado por um olhar hostil. Aquele só podia ser Rory. Tinha cabelos cor de bronze, orelha de abano e seus olhos pretos pareciam estar lançando uma praga para ela.
Miles apresentou os companheiros de trabalho, deixando aquele rosto contraído para o fim.
-Aquele é Rory MacPherson, o mais respeitado do grupo por estar neste ramo há...quantos anos mesmo, Rory ?
-Quase vinte e cinco. Desde os tempos em que trabalhos como estes eram feitos por homens enquanto as mulheres ficavam tomavam conta de casa.
-Felizmente, isto está mudando, não é? - Miles deu um sorriso tolerante - Prefiro mil vezes olhar para a srta. Christensen do que para a sua cara feia.
-Ora, não é só você que prefere. Se eu fosse um pouco mais jovem, não hesitaria em admirar essa beleza.Mas não no trabalho.

Houve um burburinho geral, e logo depois os homens ficaram atentos para a reação de Bárbara. Na certa, esperavam que ficasse vermelha ou saísse correndo de vergonha, mas não lhes daria esse gostinho. Sabia que uma boa dose de humor seria apropriada para ganhar a simpatia daqueles valentões.


-Sabe, sr.MacPherson - sua voa era sensual -, se o senhor fosse muito mais jovem, não me importaria de ser admirada.
A risada foi geral, e Rory ficou mais carrancudo ainda.
-No meu tempo, as mulheres sabiam qual era o seu lugar e as decisões em plataformas de petróleo eram tomadas por homens, não maquina. E definitivamente não por mulheres.
-Sim, eu sei. Mas não se preocupe. Estamos lutando muito para mudar isso.
Rory levantou bruscamente da mesa e ela o seguiu com o olhar. Era um sujeito corpulento, baixo e de pernas tortas.Sua figura engraçada, mas certamente não estava brincando quando falou sobre terem problemas na Sithein Um.
-Peço desculpas, por Rory. - Miles interrompeu-lhe os pensamentos - É preciso ter paciência com ele. Tem uma língua afiada e idéias antiquadas, mas é um dos melhores nesta plataforma. Conheço seu trabalho como ninguém.
-Entendo. Meu pai era um pouco como Rory. Talvez até um pouco mais radical, quando se tratava de mulheres. Meu pai acreditava que os homens deviam sair para trabalhar e as mulheres ficar em casa, esperando pelos maridos, mesmo que demorassem semanas para voltar.

-Então, deve saber que homens como Rory são de muita fala e pouca ação. Mas devo confessar que concordo com algumas objeções ao seu sistema. A Sithein Um foi equipada com os sistemas mais modernos, alguns automáticos e outros manuais. Temos computadores para analisar dados e fornecer projeções. Até agora nenhum deles nos deu problemas.


Miles hesitou e ficou coçando o queixo. Bárbara sabia exatamente o que viria a seguir.
-Mas seu sistema está um passo adiante, não é? Não só analisa dados... também toma decisões. E não gosto da idéia de ter uma maquina que passa por cima da minha autoridade, mesmo quando sei que estou certo. A instalação do equipamento da Computec é meu único ponto de divergência com Garrath. Enfim, ele é o chefe e tenho que acatar suas decisões, mas os resultados não têm sido muito animadores.
A reclamação de Miles não era novidade para a Computec. A maioria das pessoas em sua posição acreditava num sexto sentido para saber onde e quando perfurar. Seu prestigio estava justamente nessa capacidade de intuição e no resultado de suas decisões.
Por isso, aceitavam, sem restrições toda a sorte de equipamentos sofisticados que os ajudassem no trabalho e não se conformavam com maquinas usurpando seu poder. Nem mesmo em nome da segurança. Até agora, o sistema da Computec tinha ganhado a confiança dos clientes provando sua eficiência. Mas seu mal funcionamento na Sithein Um tinha trazido muitas dúvidas.

-Sinto muito por todos os problemas que têm acontecido, mas garanto que depois de consertado, o sistema provará sua utilidade.


-Tenho certeza que sim - disse sorrindo - Com uma vendedora tão atraente quanto você, não tenho dúvidas de que logo estarei dando vivas para esse sistema. Agora, fale um pouco desse seu novo companheiro.
Bárbara, então, começou a contar sobre o funcionamento interno do sistema, os tipos de falha que poderiam acontecer e a extensão da capacidade do computador.
-E quanto tempo acha que levará para fazer o conserto?
-Toda a vida, se não começar já.
-Bem, em nome da recuperação imediata do nosso amigo, posso acompanhar você até a sua sala? Na verdade, gostaria de conhecer melhor o circuito.
-É claro. Com a condição de que me conte mais sobre seu trabalho também. Até ontem, só conhecia plataformas como esta através de gravuras.
Pararam para pegar os capacetes e Bárbara ficou desorientada.Como acharia o seu no meio de tantos outros da mesma cor? Miles pegou o dele sem hesitar.
-Quer me dizer como conseguiu saber qual é o seu? - O pedido fez Miles rir.
-É fácil. E aposto que acho o seu num instante. - Percorreu o olhar pela fileira de capacetes e acertou na primeira tentativa. - Se reparar bem, verá que todos têm adesivos colados segundo o gosto de cada um. Além disso, é só prestar atenção em marcas familiares e o lugar onde deixou. Não é difícil. O seu, por exemplo, é novinho em folha e o único sem mais nada além do logotipo da St.Clair. - Pela primeira vez, reparou no logotipo. Era um unicórnio branco com uma medalha no pescoço, onde estava escrito: “ Sithein Um”.

-É um nome estranho para uma plataforma.


-Sithein é uma palavra mitológica que designa o lar das fadas. Diz a lenda, que o homem que entrar nesse lugar ficará aprisionada por um encanto mágico, para sempre.
-Há quanto tempo conhece Gar...O sr. St. Clair?
-Desde que herdou a St. Clair Corporation do pai.E isso faz quase quinze anos. Mas sempre trabalhei para a St. Clair. Este negócio sempre me fascinou. Estava trabalhando como ajudante numa pequena companhia independente de petróleo quando foi comprada por Stewart St. Clair. Naquele tempo, a possibilidade de existir petróleo no mar do Norte era um sonho. Trabalhei muito até conseguir a promoção para chefe de obras, mas o negocio não estava indo bem. Tudo que achamos foram pequenas reservas que não cobriam nem as despesas com a perfuração. Estávamos começando a explorar uma nova região, onde eu sabia que encontraríamos alguma coisa, quando o velho morreu. Correram rumores de que Garrath estava sendo aconselhado a vender a companhia e não investir nenhum tostão naquele fracasso.
Miles fez uma pausa e, notando a curiosidade dela, prosseguiu:
-Nunca esquecerei o dia em que forcei minha entrada no escritório de Garrath. Na época, era apenas um menino assustado tentando retomar os negócios do pai. E eu, apenas um chefe de obras, sem nenhum direito de invadir seu escritório, mas foi o que fiz.

Até então, o tom da narrativa era nostálgico, mas o orgulho de Miles foi crescendo enquanto contava o resto: -Afirmei que existia petróleo na região que estávamos começando a explorar e que provaria o que estava dizendo se ele me colocasse no comando e liberasse o dinheiro necessário. Garrath confiou em mim e aceitou os meus conselhos. Fui promovido a supervisor geral no mesmo instante e fiz o que prometi. Com a reserva que descobrimos deu para pagar o investimento original e ainda tivemos lucros. Bárbara nem ouviu direito a última parte da história de Miles. Estava ocupada imaginando o grande Garrath St. Clair como um “menino assustado” tentando seguir os passos do pai. Seus devaneios foram interrompidos por um chamado; -Miles Ramsey, compareça ao escritório. Miles Ramsey, compareça ao escritório imediatamente. - O som vinha de um alto-falante na parede. -Esse é o meio mais eficiente que já vi de encontrar alguém. E pode apostar que significa problema. - Miles apertou um botão na caixa e respondeu ao chamado - Aqui é Ramsey. Já estou indo. - Voltou a atenção para ela: - Desculpe, mas o dever me chama. Estamos indo na direção oposta e terei que retirar minha oferta. Fica para outra vez, está bem? -É claro. Miles saiu com o sorriso radiante de sempre, mas Bárbara não ficou sem sua escolta. Tinha colocado o capacete e estava pronta para sair quando ouviu uma voz familiar: -Srta. Christensen! Gostou de rever Andy, apesar de sua dolorosa semelhança com Len. Estava usando uma camisa xadrez, calça jeans e botas, o que significava que não estava em serviço. Não mostrava sinais de cansaço por ter trabalhado a noite toda e seu sorriso era contagiante.

-Bom dia, Andy!
-Bom dia. Está indo trabalhar?
-Sim, parece que nosso estimado chefe mudou de idéia.
-Acho que foi a mãe natureza que mudou.
-Mãe natureza?
-Exatamente. O tempo mudou durante a noite e está ventando muito. Os vôos de helicóptero estão suspensos a menos que haja uma emergência. Portanto, você não poderia ir embora mesmo que quisesse. E parece que está com sorte; a previsão é de que uma tempestade está a caminho.
-Uma tempestade... - Lembrou do sorriso de Garrath enquanto falava de sua conversa com Richard e da sua disposição em lhe dar uma chance. Devia ter adivinhado que Garrath St. Clair jamais mudaria de opinião, por mais que Richard exaltasse suas credenciais.
Tinha feito papel de boba outra vez, acreditando que estava recebendo um voto de confiança, quando na verdade Garrath fazia a única coisa que lhe restava diante das circunstâncias.
Garrath ia permitir que trabalhasse apenas porque não poderia se livrar dela...por enquanto. Provavelmente, estava mais certo do que nunca de que falharia, e determinado a manda-la para casa na primeira oportunidade.
-Tenho que trabalhar agora, Andy. Pode me mostrar o caminho.
-É claro. Mas bem... acho que...
-O que foi? Não precisa se preocupar com Garrath. Ele mesmo me deu permissão para trabalhar.
Andy estava visivelmente embaraçado.
-Não é isso. É que com esse temporal vindo para cá e tudo mais... Bem, acho que deveria vestir um casaco. Sabe como é, só por precaução,
Bárbara sorriu, compreendendo tudo.
- Não precisa te medo de dizer que não estou vestida adequadamente. Prometo não morder dessa vez. Acho que aprendi a lição. Alias, aprendi muitas lições e acho que chegou a hora de ensinar alguma coisa também.
Capitulo VI

Bárbara esperava que o trabalho a fizesse esquecer de Garrath e de sua falsidade, mas logo depois que Andy a deixou na unidade da computec, percebeu que daquela vez a mágica não funcionaria. Como poderia, com as rajadas de vento lembrando que Garrath só tinha permitido que ficasse por força das circunstancias e não por acreditar em sua competência profissional?

A ventania parecia mais forte a cada segundo, dando a impressão de que seriam derrubadas as paredes a qualquer instante. Tentou ignorar isso e mergulhou no trabalho, descobrindo que seu palpite da noite anterior não era resultado de uma mente cansada. Com a cabeça fria, suas suspeitas foram confirmadas.
Depois de alguns testes, ficou provado que a causa do mal funcionamento era simples, e não estava surpresa por Walter não ter descoberto nada. Estava procurando, não sem razão, no lugar errado.
O sistema estava paralisando a perfuração como se computasse uma pressão extrema e perigosa, quando esse excesso de pressão não existia realmente. O computador e o programa de monitoria não estavam com nenhum problema e a primeira conclusão plausível era de que o computador estava recebendo dados incorretos.

Levando essa hipótese em consideração, a solução mais lógica era procurar o defeito nos sensores de pressão localizados em cada broca de perfuração e nos circuitos específicos que canalizavam informação para o computador. Mas, segundo Walter, essa busca já tinha sido feita e refeita várias vezes com todo o cuidado, sem acusar nenhuma irregularidade.


Isto só deixava uma alternativa: a de que o computador tinha perdido a memória ou pelo menos parte dela. Uma hipótese muito pouco provável.
Tinha levado meses para projetar a memória do computador, isto é, o programa que determinava exatamente o que fazer, como e quando reagir. Essas instruções estavam gravadas em circuitos de memória que só podiam ser apagados através de intensos raios ultravioleta. E esse aparelho não podia existir em Sithein Um.
Antes de ser instalado, esse circuito de memória foi testado para garantir a integridade do programa. Isso tornava a possibilidade de alguma falha praticamente impossível. Praticamente.

Fez mais alguns testes e seu diagnóstico final era de que existia realmente um defeito no circuito de memória. Depois de um exame minucioso, descobriu que o problema estava no mecanismo que permitia que o computador processasse informações de dois canais ao mesmo tempo. Com a alteração, toda vez que essa situação acontecia, o computador reagia como se estivesse detectando um excesso de pressão e paralisava a perfuração, acionando medidas de segurança.


Era um problema fácil de ser corrigido. Depois de feita a correção, Bárbara começou a fazer uma série de testes para comprovar que a falha havia sido superada. Eram testes de rotina e sua preocupação maior era descobrir o que poderia ter provocado aquele defeito.
Depois de mais de duas horas, não tinha chegado a nenhuma conclusão. Só conseguia pensar em duas possibilidades: uma em que não podia acreditar e outra em que queria acreditar.
O problema poderia ter sido causado por danos naturais. Essa possibilidade não podia ser descartada quando se tratava de equipamentos eletrônicos muito sensíveis e intrincados, embora fosse altamente improvável.
Era preciso pensar em todas as hipóteses, mesmo as mais delicadas como a de que o defeito tivesse sido provocado intencionalmente. E uma palavra continuava a ecoar em sua cabeça: sabotagem.

A alteração era sutil, mas as conseqüências desastrosas. Cada paralisação tinha custado um tempo precioso. Era preciso descobrir se a paralisação era realmente necessária e desligar o acionamento automático de medidas de segurança para só depois poder recomeçar os trabalhos. Naquele negócio, o tempo valia muito dinheiro.


Por isso, embora a alteração no programa fosse mínima, tinha causado sérios problemas. E foi essa mesma sutileza que dificultou o processo de identificação da causa. No final das contas, teria sido mais fácil e menos custoso se o sistema tivesse sido totalmente destruído. Talvez o sabotador soubesse disso.
Uma coisa era certa: o único meio de fazer a alteração do programa, era através de um raio ultravioleta de muita intensidade. Estava calculando a intensidade e o tempo de exposição necessários para definir o programa quando a porta se abriu.
Não precisou nem olhar para saber que era Garrath. Com certeza tinha vindo vistoriar o trabalho, como disse que faria. Tirou o capacete e passou a mão pelos cabelos, sem tirar os olhos de Bárbara.
Foi só então que ela percebeu que havia desperdiçado tempo e energia. Naquele momento, pouco importava como a sabotagem tinha acontecido. O mais importante era decidir se devia ou não contar suas suspeitas para Garrath.
Não queria contar nada porque não tinha provas, apenas a intuição de que tinha sido sabotagem. E não era difícil imaginar o que Garrath diria sobre sua intuição feminina.
Pesando os prós e os contras, decidiu não falar nada.Pelo menos por enquanto. Um homem que não acreditava em sua capacidade profissional, certamente não levaria em consideração sua opinião infundada de que existia um sabotador na plataforma.

Garrath se aproximou e, na pressa de levantar, Bárbara, tropeçou nos pés da cadeira e teria levado um tombo humilhante se ele não a tivesse segurado. Ele não disse nada, mas o brilho em seus olhos era de divertimento. Na certa, estava tendo a confirmação de que precisava de uma babá e de que Sithein não era definitivamente o seu lugar.


Nesse instante, mudou a decisão tomada há apenas alguns minutos. Queria acabar com a satisfação daquele homem e só conhecia uma arma:
-Já descobri o problema, sr. St. Clair. E acho que deve saber a minha opinião. Depois de vários testes, cheguei a conclusão de que o defeito não foi acidental.
-O que quer dizer?
-Acho que alguém sabotou o sistema...- Dito daquela forma brusca, parecia uma idéia absurda até para seus ouvidos e não teria ficado surpresa se Garrath risse.
Mas não foi isso que aconteceu. Seu olhar se fixou nela como se quisesse descobrir a verdade no fundo daqueles olhos verdes. Bárbara lutou com toda a determinação para não desviar o olhar. Seria um sinal de fraqueza.
-Aqui não - Garrath fez sinal para que saíssem.
Ela concordou. Era natural que Garrath não quisesse testemunhas para discussão que teriam. Quando saíram, foram apanhados pela fúria da ventania, que os obrigava a estreitar os olhos e se encolher dentro do casaco. Subiram três degraus e entraram numa cabine envidraçada no canto da plataforma.

A cabine oferecia abrigo contra o vento cortante e também para o ruído ensurdecedor da maquinaria. Parecia um santuário, seguro e pacifico. Bárbara esqueceu os computadores, a sabotagem e o homem parado a seu lado, para admirar a vista panorâmica.


A força dos ventos não era sentida ali, mas podia ser observada. Nuvens cinzentas cruzavam o céu enquanto as ondas agitadas do mar se quebravam contra a armação de aço da plataforma. Ao longe um ponto escuro subia e descia ao sabor das ondas.
-Garrath, o que é aquilo?
-É o barco de provisões. - A resposta de Garrath foi curta e seca. Toda sua atenção estava voltada para ela e, de repente, a força do vendaval pareceu insignificante - Fale.
Bárbara obedeceu e a fisionomia de Garrath não se alterou enquanto dava as explicações.
-Então, você acha que o sistema foi intencionalmente alterado.
Talvez aquela fosse a última chance para voltar atrás. Pensou em reformular suas suspeitas com menos dramaticidade e certeza, mas confirmou tudo com uma resposta categórica.
-Acho.
-Mas não pode me dar nenhuma prova, nada de concreto para justificar suas suspeitas? E por que alguém faria isso? E mais importante ainda, quem faria isso?
-Por que? Não tenho certeza, mas talvez por ressentimento. Muita gente ainda pensa que os computadores tiram empregos de homens e mulheres. Além disso, o fato de nosso sistema tomar certas decisões automaticamente incomoda certas pessoas que sentem sua autoridade e status diminuídos. Já encontramos esse tipo de problema em outras plataformas, embora nunca chegasse ao ponto de sabotagem.

-E o que faz você pensar que existe tanto ressentimento aqui?


-Bem, ouvi uma conversa... - Enquanto contou sobre Rory MacPherson, ficou de costas para Garrath, olhando para o barco para não ver a fúria dele. Não era homem de aceitar ameaças de um empregado. Só esperava que sua raiva não recaísse sobre o mensageiro de má noticia. Terminou repetindo as palavras de advertência de Rory e esperou o pior.
A reação de Garrath foi um murmúrio de fúria contida. Mas dirigida a quem? Hesitou, mas não agüentou a curiosidade e olhou para trás . Não acreditou no que viu.
Os olhos de Garrath brilhavam de divertimento e era obvio o esforço que fazia para não rir. Foi a vez dela ficar furiosa. O murmúrio que pensava ser de raiva, era na verdade um riso reprimido.
-Não vejo por que está achando isso tão engraçado.
-É muito engraçado imaginar Rory no papel de vilão, empenhado na sabotagem altamente técnica e sutil que acabou de me explicar. É uma cena cômica.
Garrath estava certo. Rory MacPherson era mais do tipo que esmagaria a maquina com uma marreta em vez de adulterar os circuitos internos. Ela mesma teria chegado a essa conclusão se tivesse parado para pensar. Mas ficava totalmente desconcertada quando Garrath estava por perto.
-Mas... Rory ameaçou que teriam problemas se...
-È claro, Rory faz isso a torto e a direito. È seu jeito de ser. Se não tivesse os computadores para reclamar, arrumaria outro pretexto qualquer como a mudança no tempo ou um ajudante inexperiente. È como um cão que ladra mas não morde.
-Foi o que Miles disse.

-È um sujeito inofensivo, o melhor homem que já tive, e leal a St. Clair.E por mais ressentido que estivesse com seu computador, não saberia o que fazer com um circuito tão sofisticado.


Aceitou o julgamento de Garrath sobre Rory; não teve outra opção. Mas o fato de estar enganada sobre o executor não mudava sua opinião sobre a sabotagem.
-Se não foi Rory, pode ter sido outra pessoa. Alguém mais familiarizado com computadores. Como ...Miles.
Ficou arrependida de ter falado naquele nome. Na verdade, não sabia porque tinha pensado naquilo. Miles podia ser um pouco artificial para o seu gosto, ms seu interesse e sua vontade de conhecer o novo sistema eram sinceros. Não tinha motivos para desconfiar dele.
Mas era tarde demais para retirar o que tinha dito. E desta vez Garrath nem se deu ao trabalho de disfarçar o riso.
-É a história mais ridícula que já ouvi. Miles Ramsey dedicou a vida neste negocio. Sem ele,a St. Clair nem estaria mais no ramo de exploração de petróleo. Foi o responsável pelo descobrimento do nosso primeiro poço importante quando me aconselhavam a não investir mais nada na operação.
-Eu sei...Miles me contou isso.
-Além disso, ajudou a projetar esta plataforma, supervisionou os trabalhos pessoalmente e está tão interessado no sucesso desta companhia quanto eu, se não mais. É esse homem que está acusando de sabotar nosso sistema de segurança sem ter nenhuma prova. O que está tentando fazer, afinal? Transferir a culpa do seu precioso sistema?

Bárbara repetia para si mesma que estavam tratando de negócios e que não devia levar aquela discussão para um lado pessoal. Portanto, era insensato ficar magoada.


Mas não podia evitar.Sentiu um nó na garganta e os olhos se encheram de lágrimas. Queria enfrentar Garrath, mostrar que ele estava enganado a seu respeito. O problema é que não encontrava as palavras certas.
Ao mesmo tempo, admirava sua lealdade a Miles Ramsey. Sua indignação estava estampada nos músculos contraídos do rosto. Mais parecia um guerreiro destemido protegendo a honra de um membro de seu clã do que o presidente de uma multinacional multi-milionária.
Pensando bem, emoções fortes pareciam ser um traço marcante de sua personalidade. E no amor? Será que Garrath St. Clair se entregaria com tanta impetuosidade ao amor? Isto é seria capaz de amar alguém ou alguma coisa alem de seu negocio?
Mas estas perguntas eram inúteis. Tinha o exemplo de seu pai e de Len, capazes de renunciar a própria família pela obsessão por aquele trabalho.
Não adiantava ficar pensando naqueles assuntos do passado. Forçou a mente a se concentrar no que realmente importava:
-Não estava acusando Miles. Só citei seu nome como exemplo. Ninguém melhor do que você para julgar quem nesta plataforma seria capaz de sabotar o sistema.
-Me parece que o seu técnico, Walter, é o candidato mais provável.
-Walter trabalha para a computec há muito tempo e em várias plataformas diferentes. Sua ficha é exemplar. Os computadores são seu meio de ganhar a vida. O que ganharia destruindo a reputação do nosso sistema?

-Aparentemente, nada. Miles também não ganharia nada com essa sabotagem. Portanto a menos que me apresente evidências mais concretas que delírios juvenis, não quero mais ouvir falar nisso.


-Delírios juvenis!
-E também não quero que fale com mais ninguém sobre isso. Ninguém mais. Os rumores aqui se espalham mais depressa que fogo e não quero saber de meus homens vendo sabotadores em todo o canto..
-Mas preciso falar com Walter para que possa...
-Já disse que não quero que comente isso com ninguém, srta. Christensen. Falarei com Walter sobre algumas medidas extras de segurança, apenas por precaução. Esqueça isso e faça apenas o seu trabalho, que é consertar o sistema. Está claro?
Concordou com relutância. Não gostava nada daquelas ordens, mas tinha conseguido pelo menos fazer com que Garrath tomasse precauções.
A atenção de Garrath estava agora voltada para o mar e, seguindo o seu olhar, ela viu o barco mais perto da plataforma. Tinha quase esquecido da turbulência do tempo fora daquela cabine de observação, mas a agitação das ondas mostrava que a fúria dos ventos não tinha diminuído.
-Não sei como esse barco pode agüentar um tempo desses - comentou, achando a embarcação parecida com um brinquedo desajeitado.
-Pode não parecer daqui, mas aquele barco pesa mais de duzentas toneladas. Os barcos de provisão são construídos para suportar qualquer tempo. Uma ventania como está é apenas um ligeiro inconveniente.
-Um ligeiro inconveniente?
-Sim. Só fico preocupado quando têm que usar a cesta humana no meio de um vendaval.

-Cesta humana?


Garrath apontou para uma linha comprida presa a um guindaste na plataforma. Na ponta da linha, estava pendurada uma rede,onde dois homens estavam agarrados.
-Em dias como o de hoje, o barco não pode se arriscar a chegar muito perto da plataforma para descarregar. E essa rede é usada pra transportar pessoas e cargas do barco para plataforma ou vice-versa.
Os dois homens saltaram para o convés do barco sem nenhum problema e começaram a preparar a carga que seria transportada para a plataforma, Enquanto isso, a cesta subia de novo, levando desta vez apenas um passageiro.
De repente o guindaste parou e a tensão de Garrath dizia que alguma coisa estava errada.
Ficou colado ao vidro, com os punhos cerrados, e resmungou qualquer coisa ininteligível.
A rede não estava subindo, mas também não estava parada. Balançava de um lado para o outro com o vento e s estava mais inclinada para um lado com o peso do passageiro. O mar, mais agitado do que nunca, parecia pronto para engolir a vitima.
A pessoa na rede parecia frágil e a jaqueta salva-vidas alaranjada que usava se destacava no cenário cinzento, onde seres humanos não tinham a menor chance contra os caprichos da natureza e maquinas impassíveis. Não era a toa que seu pai e Len tinham morrido numa plataforma de petróleo. E por que estava arriscando a própria vida num lugar onde nem era desejada?

De repente, era como se os pesadelos tivessem voltado à luz do dia, trazendo a tona os velhos temores. Não podia deixar que o medo a dominasse e fez a única cousa em que conseguiu pensar.Segurou o braço de Garrath.


Garrath parecia apreensivo demais para notar seu gesto, mas Bárbara não se importou. Era suficiente sentir o calor e a força emanando daquele corpo, como tinha acontecido de noite. Não teria medo de nada enquanto estivesse ao lado dele. O único pesadelo era aquele que estavam presenciando.
Felizmente, esse também acabou.
-Está tudo bem - Garrath deu um suspiro de alivio quando viu o guindaste voltar a funcionar - Deve ter sido um nó na linha. Nada alarmante a não ser para o pobre sujeito dependurado no ar enquanto o problema era resolvido.
A pessoa ficou mais nítida conforme a rede subia e puderam ver que usava um gorro azul. Mas nem tinham resolvido um problema, outro apareceu. O passageiro soltou uma das mãos da rede para acenar para alguém que estava na plataforma.
-O que esse idiota está fazendo? - Garrath deu um murro no vidro.
A rede estava a apenas alguns metros de convés agora, embora ainda não estivesse fora do alcance das águas. O passageiro olhou para cima, provavelmente para ver quanto faltava para chegar, e acabou perdendo o gorro. Num gesto impulsivo, tentou apanha-lo, inclinando ainda mais a rede já desequilibrada.

Mas nada de sério teria acontecido se uma rajada particularmente forte de vento não atingisse a rede naquele momento. O passageiro perdeu o equilíbrio e o apoio dos pés.


Um grito ficou preso na garganta de Bárbara, que fechou os olhos para não ver o que ia acontecer. Mesmo assim, podia imaginar o corpo humano seguindo o gorro para o fundo do mar. Horrorizada, abriu os olhos.
Por um milagre, a pessoa ainda estava agarrada na rede, dependurada, segurando-se com apenas uma mão enquanto esperneava desesperadamente no ar. A outra mão se agitava, não num aceno,mas num esforço frenético para agarrara a rede.
Ficou aterrorizada, imaginando o que acontecia a alguém que caísse naquelas águas geladas. A fisionomia de Garrath continuava tensa e ele parecia prestes a sair correndo para o convés para gritar ordens e conduzir pessoalmente o resgate.
Por outro lado, também parecia ter medo de desviar o olhar nem que fosse por um segundo daquela cena, como se sua força de vontade fosse suficiente para evitar que o passageiro caísse.
- Puxe para cima - Garrath murmurava com os dentes cerrados.- Puxe, droga!
-Segure, por favor. Segure firme - Bárbara sussurrava, mas tudo indicava que a pessoa não agüentaria muito tempo, presa apenas por um braço.
Quando tudo parecia perdido, alguém apareceu na beira da plataforma e disposto a pular para a rede oscilante.Observava o seu vaivém esperando o momento certo:
- Não! - Garrath esmurrou o vidro outra vez.
- Sim! - Bárbara gritou ao mesmo tempo, cruzando os dedos.

A pessoa na plataforma pulou com os braços estendidos, ficando suspenso no ar por alguns segundos. Conseguiu alcançar a rede que balançou freneticamente e agarrou o corpo que caía, puxando-o contra o seu.


Garrath saiu da cabine e Bárbara foi atrás. Quando chegaram no convés, as duas pessoas estavam sendo resgatadas, sãs e salvas.
Bárbara ficou chocada quando reconheceu a pessoa que tinha pulado da plataforma, arriscando a própria vida para salvar outra. Era Andy Walker!
Mas não foi essa a única surpresa.A pessoa que Andy tinha salvado era uma mulher! Adivinhou quem era mesmo antes de ouvir a explosão de Garrath:
- Você ainda vai me deixar maluco, Janet St. Clair!
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