Círculo do Medo Robyn Anzelon



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Encontro28.10.2017
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Capitulo III

Quatro horas depois, Bárbara apoiou a cabeça nos braços cruzados sobre um terminal de computador. Estava quase certa de que a causa do mal funcionamento do sistema de monitoria resultava de uma falha do circuito. Faltava apenas localizar o circuito danificado, fazer a substituição e alguns testes para ter certeza absoluta. O que mais a preocupava era achar uma explicação lógica para aquela falha ter ocorrido.


Mas não agüentava pensar em mais nada naquela noite. Ou já seria manhã? Estava totalmente desorientada com a longa viagem, a diferença no fuso horário e as horas passadas naquele lugar sem janela.
Aquela unidade da Computec era composta por um sistema completo, com vários monitores de TV enfocando pontos estratégicos da plataforma, vários computadores e um gerador de emergência para ser usado em caso de falta de energia.
Fosse noite ou dia, tinha que dormir um pouco. Não conseguia mais ordenar as idéias. Não depois de ficar quebrando a cabeça para descobrir como aquela falha tinha acontecido, chegando a uma conclusão impossível.

Pensou em falar de sua opinião com o outro técnico que estava na sala. Walter Cobb era um dos melhores funcionários da Computec, o que a deixou muito orgulhosa porque tinha ajudado em sua contratação. Richard fazia objeções à sua idade, cinqüenta e sete na época, mas Bárbara enfatizou suas excelentes credenciais e seu talento natural para aquela atividade. Sua intuição estava certa, e hoje, Walter era um trabalhador dedicado.


Pensando melhor, resolveu não falar de sua suspeita até ter certeza. Pois, se seu pressentimento estivesse correto, traria implicações desagradáveis, principalmente sobre o técnico. Walter seria o primeiro a se culpar.
Mais uma vez, teve a mostra de como aquele cliente era importante para Richard. Tinha ficado surpresa em encontrar Walter em Sithein Um. Sua perícia era reservada para supervisionar as instalações mais complexas das unidades da Computec e não para lidar com operações rotineiras. Mas, para Garrath St. Clair, Richard tinha mandado o melhor. E quando o melhor não foi suficiente, não hesitou em manda-la.
Se Richard soubesse o que estava pensando agora, provavelmente se arrependeria dessa decisão. Sua suspeita era absurda, mas só poderia saber o quanto depois de um descanso merecido. Sua cabeça pendeu para frente e, embora não tivesse numa posição confortável, foi só fechar os olhos para adormecer.
O ranger da porta, seguido de uma súbita corrente fria de ar, estragou seus planos.
-Oh, não...- exclamou, levantando a cabeça.

Garrath estava parado com as mãos na cintura, a própria imagem do chefe de tribo enfurecido com a desobediência de suas ordens. Seu olhar era fulminante e, sabendo que não teria forças para se defender desta vez, Bárbara baixou a cabeça de novo.


Garrath não disse uma palavra. Apenas se aproximou, pegou Bárbara no colo com a maior facilidade e saiu para o frio da noite.
Será que carregar mulheres no colo como algum homem das cavernas era a única maneira que ele conhecia para lidar com o sexo feminino? Mas Bárbara não sentia mais o rancor de antes por causa da arrogância de St. Clair. Estava com muito sono para protestar. Além do mais, pareceu-lhe muito mais confortável ficar naqueles braços do que na sala de computação.
Os braços musculosos e o peito largo de Garrath transmitiam calor e segurança. O ombro era um travesseiro feito sob medida para sua cabeça, enquanto era embalada pelas batidas compassadas do coração.Se ele a deixasse assim por mais alguns minutos, perdoaria tudo.
Por um instante, seu bom senso tentou oferecer resistência. Dormir nos braços daquele chauvinista? Onde estaria o seu orgulho? Mas foi vencida pelo cansaço e adormeceu.
Nem notou quando os braços fortes foram substituídos por uma cama e foi envolvida por um cobertor. Uma voz distante penetrou em sua mente:
-Sua teimosa...Nunca escuta ninguém? - A voz de Garrath não era ríspida e foi acompanhada pelo toque gentil das mãos que lhe tiraram os sapatos. Quando voltou a falar, suas palavras pareciam uma carícia: - Durma bem, princesa.

Bárbara teve a impressão de sentir uma leve pressão nos lábios como um beijo. Só que beijos de príncipes geralmente acordavam princesas adormecidas. E aquele a levava diretamente para o mundo dos sonhos...


O sonho se repetiu e, como sempre, não conseguiu acordar e fugir daquelas lembranças horríveis.
Estava numa plataforma de petróleo e tanto ao ruídos quanto a movimentação dos trabalhadores pareciam muito reais. Corria pelo convés, entrava nos alojamentos, subia e descia as escadas. E gritava o tempo todo: “ Len! Papai! Onde estão ? Len? Papai?”.
Então acontecia a explosão. Ouvia os gritos dos homens em pânico, via as chamas incandescentes fora de controle e sentia um calor insuportável. E gritava.
Também dessa vez, o grito a libertou do pesadelo, mas não dos efeitos posteriores.
Estava sentada na cama, com o rosto molhado de lágrimas e a cabeça latejando com a lembrança da dor e do desespero dos homens, de Len e de seu pai, presos no inferno de uma explosão. Logo vieram os tremores que continuariam até ficar exausta demais para sentir qualquer coisa.
Abraçou os joelhos e estava encolhida como uma criança assustada quando a porta foi escancarada. A figura que viu esboçada contra a luz do corredor era a mesma que bloqueou sua passagem no pé da escada.
Não queria ser vista naquele estado lastimável e pensou em mandar Garrath sair do quarto. Que direito ele tinha para entrar daquele jeito? Estava determinada a não demonstrar nenhuma fraqueza diante daquele homem dominador, e agora ela a flagrava totalmente descontrolada, com lágrimas escorrendo pelas faces. E não tinha forças para reagir.

-Você está bem? - Garrath continuava parado na porta, como se esperasse permissão para entrar.


Bárbara sabia que era só dizer que estava bem e que não passava de um sonho bobo para que ele a deixasse sozinha. Mas a verdade escapou antes que pudesse impedir:
-Não, eu ...
Garrath fechou a porta, e atravessou o quarto com duas passadas. Suas mãos encontraram Bárbara no escuro e, sem dizer nada, ele abraçou aquele corpo trêmulo, balançando-o para frente e para trás, como se ninasse uma criança assustada.
Bárbara afundou o rosto naquele peito largo e chorou à vontade. Os soluços sacudiam todo o seu corpo, mas não duraram muito. Depois de alguns minutos, o pesadelo tinha passado. Completamente.
Nunca o medo passou tão depressa. Era como se as mãos fortes que a abraçavam tivessem arrancado o medo de suas entranhas. Mas sabia que era um alivio temporário. Tinha vivido com aqueles pesadelos por muito tempo para acreditar que estava livre para sempre.
Embora fosse passageira, aquela sensação de liberdade era bem-vinda. Um suspiro profundo escapou de seu peito oprimido e ela tirou os braços dos joelhos , esticando as pernas.
-Você parece uma gatinha aconchegada no meu colo. - Essas palavras a fizeram reparar na posição em que estava. Tentou se afastar daqueles braços acolhedores, mas não conseguiu. - Fique quieta, gatinha. Não está bem assim? Agora, quer me contar o que aconteceu?
-Tive um pesadelo horrível...

-Ouvi seu grito e parecia assustada com alguma coisa. Gostaria de saber o que foi.


Só uma pessoa sabia de seus pesadelos: Richard. E mesmo assim só porque insistiu em saber a razão das olheiras profundas, da perda de peso e do tremor constante nas mãos. Mas com Garrath foi diferente. Não vacilou em contar a história. Afinal, era graças àquele homem que estava livre das horas de angústia que sempre se seguiam esses sonhos. Aliviada, achou que devia contar a verdade.
Quando terminou de falar, ficaram em silêncio por algum tempo. Garrath acariciava-lhe a nuca, sob os longos cabelos loiros. Esse toque provocou uma onda de calor por todo o corpo de Bárbara, que não se importaria de continuar como estava, para sempre.
-Por que, então, está trabalhando em plataforma de petróleo?
-Esse não é bem o meu trabalho. Minha função é desenhar, mas como ajudei a projetar o sistema instalado aqui, Richard achou que poderia resolve o problema mais rápido que qualquer outra pessoa.
-Por que não lhe contou sobre sua família, sobre esses pesadelos.
-Ele ...sabia.
Essas duas palavras eram muito dolorosas. É claro que Richard sabia. Sabia de tudo sobre ela. Afinal, era o ombro amigo em que se apoiava para chorar as mágoas desde que era uma adolescente.

Richard Perry fazia parte de sua vida. Tinha sido amigo íntimo de Len há muitos anos, desde a época em que os dois não gostavam nada ser seguidos por toda parte por uma garotinhas dez anos mais nova. Mas os anos passaram e quando Len foi trabalhar nos campos de petróleo com o pai, Richard passou a visitar Bárbara com freqüência. Com a falta que sentia do irmão, a garota de apenas quatorze anos se apegou ao amigo.


Foi Richard que despertou seu interesse por computadores, Mais tarde, quando optou por essa careira, só teve o apoio dele contra a zombaria de sua família por uma escolha considerada pouco feminina.
Quando terminou os estudos, não quis aceitar um emprego na firma de Richard, por lidar principalmente com a industria petroleira, Não queria ter nenhuma participação no mundo que a mantinha tanto tempo separada de seu pai e seu irmão. Começou a trabalhar numa industria de jogos eletrônicos, ouvindo os protestos de Richard que estava brincando e não trabalhando.
Foi então que uma explosão numa plataforma de exploração no golfo do México matou Len e seu pai. E de uma certa forma também sua mãe, que não resistiu ao choque e morreu três meses depois.
De repente, ficou sozinha no mundo. Não tinha tios e nenhum contato com parentes mais afastados. Não tinha ninguém a quem recorrer a não ser Richard.

E ficou totalmente dependente dele, deixando que tomasse todas as decisões enquanto tentava sobreviver ao desabamento de seu mundo...e aos pesadelos constantes. Quando superou a pior fase, aceitou os conselhos de Richard: vendeu a casa da familia para mudar para um apartamento luxuoso no mesmo prédio em que ele morava. Era Richard que cuidava de suas finanças e foi só depois de algum tempo que percebeu que o apartamento era muito mais caro do que podia pagar e que a diferença estava saindo do bolso dele.


- Quero que seja assim - Richard respondeu quando Bárbara insistiu no assunto. - Por favor, me deixe ajudar você. Só por enquanto. É o que Len faria se estivesse aqui.
Ela concordou. E Richard tambem lhe pediu que deixasse o emprego para trabalharem juntos. Pretendia abrir seu próprio negócio para desenvolver um projeto inovador, mas estava com dificuldade no desenho e precisava de ajuda.

Levaram vários meses desenhando, testando e redesenhando, até que foi possível fazer a primeira instalação. O sucesso do novo sistema foi grande e os pedidos foram aumentando. Depois de algum tempo. Mudaram para um escritório maior, compraram dois helicópteros e fundaram uma construtora. Durante todo esse tempo, a promessa foi respeitada. Richard manteve a palavra...até Garrath St. Clair aparecer no caminho.


Richard sabia de seus pesadelos e de todo o resto, mas tinha ignorado seus sentimentos para agradar um cliente. Bárbara tentava se convencer de que ele não tinha consciência do quanto aqueles sonhos eram terríveis. Mesmo assim, aquela desconsideração a magoou. E muito.
-Ele sabia e, mesmo assim, mandou você para cá. Que tipo de sujeito...
Bárbara colocou a mão nos lábios de Garrath e as palavras abafadas tocaram seus dedos com um beijo leve. Tirou a mão depressa, mas isso não impediu o tremor em seu corpo. Era uma sensação agradável e quis tocar outra vez naqueles lábios ternos... colocar os braços em volta do pescoço dele... amoldar o corpo ao dele...
Não! A voz da razão ecoou em sua mente e lutou para se livrar daquele abraço. Garrath estava distraído com seus próprios pensamentos e não a segurou.
-Bem, pelo menos não discutirá comigo sobre sua partida amanhã...ou melhor, hoje.
-O que quer dizer com isso?

-Esta tarde, quando disse que a mandaria de volta, tive a impressão de que só sairia desta plataforma carregada. E quando encontrei você na sala de computação, tive a confirmação de minhas suspeitas. Mas isto...


-Pois tirou a conclusão certa, sr. St. Clair.
-Não acha que podemos dispensar as formalidades, srta. Christensen? Depois de tudo que passamos juntos, por que não me chama de Garrath?
Bárbara corou com as lembranças trazidas por aquelas palavras insinuantes. As lembranças do calor eletrizante daquelas mãos percorrendo seu corpo, da força daquele corpo pressionando o seu e de sua reação ardente. Lembrou de tudo isso, e ficou furiosa: era evidente que ele queria embaraça-la de propósito, e assim obriga-la a fazer o que mandasse.
Mas não ia funcionar. Estava embaraçada, porém morrendo de raiva. Garrath tirava vantagem do fato de estar lidando com uma mulher e acreditava que um pouco de pressão acabaria com sua teimosia. Bem, se era isso que ele pensava, teria uma surpresa.
-Não pretendo ir embora, sr.St.Clair. Não sem antes consertar o sistema.
Garrath levantou da cama e ficou parado ao lado dela, numa postura ameaçadora.
-Você vai embora quando eu quiser.
-Segundo o contrato, a Computec é obrigada a mandar um técnico especializado quando for preciso.Mas isso não lhe dá o direito de escolher quem .
-Tenho o direito de escolher quem trabalha na minha plataforma e sou sempre obedecido. É melhor não esquecer isso.

-Já localizei parte do problema - Ela resolveu tentar outra técnica - E existe uma coisa... muito estranha, que levará algum tempo para ser investigada


-Seu substituto pode fazer isso. Quando o helicóptero chegar de manhã, você vai voltar. Por bem ou por mal, como quiser.
Garrath ia sair, mas Bárbara não recuou.
-Então terá que ser por mal ! Só conseguira me tirar daqui, antes de terminar meu trabalho, à força.
Garrath abriu a porta e a luz do corredor invadiu o quarto. Bárbara sentiu-se observada pelo mesmo olhar ousado e provocante que a tinha abalado tanto no primeiro encontro. Uma estranha mistura de calor e calafrio percorreu-lhe o corpo, tirando-lhe as forças.
-Está bem para mim - foi o que Garrath respondeu - Parece que será...divertido.
-Ora, seu...seu...cretino!
A risada estrondosa de Garrath ecoou pelo quarto.
-Ora essa, minha querida srta. Christensen! Ninguém lhe disse que moças de família não dizem essa coisas?
Num acesso de raiva, ela atirou o travesseiro, mas não conseguiu acertar o alvo. E no outro instante, o travesseiro voltou voando, acertando-a no rosto com uma precisão irritante.
-Durma um pouco, gatinha. Nos veremos de manhã. Bem cedo - Assim que fechou a porta, acrescentou do lado de fora: - Tenha bons sonhos!
Voltou a deitar, esmurrando o travesseiro. Bons sonhos, que atrevimento! Como ousava mandar que dormisse como se fosse uma criança desobediente! Bem, não pretendia dormir e muito menos partir de manhã. Pelo menos, não sem resistir.
Se Garrath St. Clair queria uma batalha, era isso que teria. Mas não a faria abandonar suas responsabilidades com ordens irracionais, baseadas no preconceito. E também não ia dormir!
Foi a última decisão que tomou antes de ser vencida pelo cansaço.
Capitulo IV

O relógio de cabeceira marcava seis e meia quando Bárbara acordou. Era cedo ainda; podia ficar um pouco mais na cama. De repente, lembrou do que Garrath havia dito antes de sair: “Nos veremos de manhã. Bem cedo”. Bem cedo!


Levantou num pulo da cama e uma dor aguda a fez lembrar do tornozelo torcido, mas não deu importância. Pelo que conhecia de Garrath “bem cedo” era realmente bem cedo, principalmente naquele caso. Se não queria ser encontrada na cama, esperando docilmente pela deportação, era melhor se mexer.
Começou a andar com cuidado. Ainda mancava, embora o machucado estivesse melhor. Mas se fosse preciso, se arrastaria pelos corredores para enfrentar Garrath. Estava determinada a trabalhar e nada a impediria, muito menos uma leve torção
Sua determinação foi um pouco abalada quando se olhou no espelho. A imagem lhe era familiar: rosto pálido, olheiras profundas, lábios sem cor e cabelos despenteados. Sempre ficava assim depois de um pesadelo.

E seu estado de espírito combinava com aquela aparência deplorável. Uma terrível sensação de solidão e autopiedade a faziam querer ficar debaixo das cobertas o dia todo.


-Desculpe desapontar você - falou com a imagem refletida no espelho - Não tenho tempo para me sentir deprimida esta manhã.
Tirou a roupa e a atadura, e prendeu os cabelos para tomar banho. Enquanto isso, imaginava a expressão de Garrath se mostrasse a ele o equipamento funcionando quando viesse expulsa-la da plataforma. Seria bem feito! Merecia uma lição por ter sido grosseiro, arrogante e desagradável desde o primeiro instante em que se conheceram.
Talvez não durante todo o tempo. Lembrou dos poucos momentos na noite anterior quando Garrath tido sido...diferente. O homem que a tinha acalmado do terror causado pelo pesadelo não lembrava em nada o ditador, acostumado a dar ordens.
Qual era o verdadeiro Garrath St. Clair? Será que o havia julgado mal, assim como ela mesma foi julgada por ele? Deu um suspiro impaciente e saiu do chuveiro.
Sua primeira impressão devia ser a correta, pensou. Estava supervalorizando a atenção casual daquele homem que provavelmente bancou a ama-seca para não perturbar o sono de seus empregados. E não podia esquecer que toda aquela gentileza acabou no momento em que foi contrariado.

Subitamente, uma lembrança passou por sua mente. Era vaga e tentou ver a cena com mais clareza. Estava dormindo quando ele entrou na sala da Computec e a carregou até o quarto. Mas e depois? Tinha realmente sido chamada de princesa e...tinha sido beijada? Ou era sua imaginação?


A toalha escorregou de suas mãos. E a imagem que o espelho refletia agora era muito diferente de alguns minutos atrás. As faces estavam coradas, os olhos mais verdes e os lábios rosados. Passou e dedo pelos lábios. Seria possível ter sido beijada por Garrath?
Que bobagem! Garrath só tinha sido gentil porque estava com segundas intenções e não porque quisesse brincar de príncipe encantado e bela adormecida. Seu único interesse era tira-la daquela plataforma com o mínimo possível de alarde. E tudo porque era uma mulher que ele julgava incapaz de fazer aquele trabalho.
Vestiu uma calça jeans e uma blusa verde de tecido aveludado. Prendeu os cabelos e cruzou os dedos, esperando assim afastar o azar de se ver diante de Garrath, pelo menos até chegar na sala de computação.
Procurava pelo casaco de lã quando bateram na porta; seu coração disparou. Cruzar os dedos não tinham ajudado afinal. Só uma pessoa bateria em sua porta com tanta agressividade. Pensou em não responder para que ele fosse embora, mas ouviu novas batidas. Tão fortes que não se surpreenderia vendo a porta cair.
A fechadura! Subitamente, lembrou de ter trancado a porta antes de dormir na noite anterior. Se era assim, como...

Abriu a porta e não hesitou em perguntar:


-Como foi que entrou no meu quarto ontem a noite?
-Isso importa? - Garrath não se alterou com aquele ataque verbal; seu olhar era de divertimento.
Foi só então que Bárbara notou um grupo de homens passando pelo corredor e imaginou a impressão que teriam caso ouvissem aquela conversa. Virou de costas e Garrath entrou, fechando a porta.
-Você gosta de fazer as outras pessoas parecerem ridículas, não é ? - Bárbara continuava de costas.
-As vezes, tratando-se de pessoas que ficam tão lindas quanto você quando estão furiosas. Mas desta vez não mereço todo o crédito. Afinal, foi você que abriu a porta com aquela pergunta insinuante.
-Oh, seu...! - Virou com a mão preparada para dar um tapa na boca, onde tinha certeza que encontraria estampado um sorriso malicioso.
Mas sua tentativa foi frustrada. Como se estivesse esperando aquela reação, Garrath segurou-lhe o braço no ar e agarrou-lhe o punho.
-Não - Essa única palavra foi dita com toda calma, embora tivesse o mesmo efeito de uma chicotada.
Bárbara ficou paralisada, olhando para os traços determinados daquele rosto, e todo desejo de luta desapareceu. Era bobagem tentar agredir fisicamente um homem como Garrath St. Clair.

Garrath soltou-lhe o braço quando viu que ela não oferecia mais nenhuma resistência.


-Respondendo à sua pergunta...tenho uma chave mestra. Portanto, se planejava fugir e se esconder em algum lugar, pode esquecer isso. Não existem portas que eu não possa abrir em Sithein Um.
-Não pretendia me esconder. Vou trabalhar - falou com determinação, esperando uma reação violenta.
-Por que será que não estou surpreso com essa decisão? Bem, não importa. Na verdade, estou tão pouco surpreso que trouxe isto. - Mostrou um macacão e um capacete amarelo - O macacão é opcional, mas recomendável para não sujar essa roupa que fica tão bem em você.
Bárbara viu o reflexo daquele elogio naqueles ousados olhos castanhos e a roupa que vestiu por ser confortável pareceu, de repente, muito justa e reveladora. Garrath desviou a atenção para o outro objeto que tinha na mão:
-O capacete não é opcional. Deverá usa-lo toda vez que sair do prédio, mesmo que seja por um minuto e por mais antiestético ou desconfortável que seja. Isso ficou claro?
-È claro que sim. Não sou mais criança.
Garrath sorriu como se duvidasse disso.Furiosa, ela colocou na cabeça o capacete que, grande demais, tampou-lhe os olhos e bateu com força em seu nariz.

Sentiu uma dor aguda e ficou imóvel, tentando segurar as lágrimas. Não daria mais razões para reforçar a idéia de Garrath de que era uma criança incompetente. Mas antes que recuperasse a compostura, ele levantou um pouco o capacete:


-Você está bem?
-Estou, só não estou com uma boa impressão do seu chapeleiro.
Garrath deu uma risada sonora e contagiante. Bárbara não conseguiu conter um sorriso e sentiu toda a raiva desaparecer.
-Minhas desculpas, madame. Esta situação desastrosa será remediada imediatamente. - Pegou o capacete e mexeu nas tiras. - Agora, vamos experimentar de novo.
-Não , eu posso...
-Fique quieta, mulher.
Ela obedeceu. Afinal, não ia ser atacada. Não tinha nenhum motivo para ficar tão perturbada com a proximidade daquele homem. Nem mesmo por ele estar levando uma eternidade para ajustar aquele maldito capacete em sua cabeça...

Finalmente, o capacete foi ajustado. Era pesado e a aba protetora cobria os olhos. Antes que pudesse agradecer e se afastar, Garrath a segurou pelo queixo.


-Assim está melhor - Os dedos passaram do queixo par o nariz de Bárbara. - Tem uma marca vermelha aqui. Está doendo?
Ela mal conseguia respirar e seu “não” saiu num sussurro. Felizmente, Garrath se afastou e quebrou aquele encanto. Mas logo conseguiu tira-la do sério outra vez.
-Acha que precisa de ajuda para colocar isto? - Falava do macacão - Calculei seu número...de memória. E teria prazer em ...
-Não! - explodiu, desconcertada. Não entendia o que estava acontecendo. Nunca tivera problemas em manter uma atitude fria quando tratava de negócios. Por que era tão difícil agora?
Garrath deixou o macacão sobre a cama, sorrindo.
-Está bem. Agora vou levar você até o refeitório para tomar seu café. Depois poderá começar a trabalhar.

-Trabalhar? - Só então, Bárbara se deu conta do significado daquele macacão e do capacete. Mesmo assim, ainda não ficou convencida - E o helicóptero? E suas ordens?


-Falei com Richard Perrry ontem a noite. Ele me explicou sua familiaridade com o sistema e sua posição na companhia. Embora duvide que a mulher bonita que se jogou nos meus braços...
-Não me joguei! Não foi isso...
-Como ia dizendo, duvido que seja uma técnica especializada em computadores...mas estou disposto a lhe dar uma chance.
-Quanta generosidade!
Apesar da ironia de suas palavras, Bárbara estava tão feliz que queria sair pulando como uma criança. Garrath tinha mudado de opinião sobre ela, embora fosse orgulhoso demais para admitir.Ia lhe dar uma chance em vez de se basear em preconceitos. Não sabia por que, mas isso importava muito.
Mas Garrath conseguiu estragar tudo com seu próximo comentário:
-Muito generoso mesmo de minha parte. È claro que ajudou muito você não parecer tão carente de uma babá esta manhã.
-Uma babá!
-Acho que uma dama de companhia seria suficiente por enquanto. Se estiver pronta, gostaria de ir andando. Tenho um encontro marcado para daqui a pouco. Deixarei você no refeitório.
-Não preciso nem de babá nem de dama de companhia, sr.St.Clair.E como tenho certeza de que não escolta nenhum de seus empregados para o café, acharei meu caminho sozinha, quando estiver pronta. Se não se importar, é claro.
Garrath ficou calado por um longo instante e sua fisionomia não era nada simpática.
-Como quiser. Irei ver seu progresso no trabalho mais tarde.

-Tinha certeza de que iria.


Em resposta, Garrath lançou-lhe um olhar faiscante antes de sair. Batendo a porta.
-Bom ...muito bom - Bárbara murmurou, embora nada estivesse bom. Mas tudo ficaria melhor quando começasse a trabalhar. Assim, vestiu o macacão e foi para o refeitório.
Estava faminta e não lembrava qual tinha sido sua última refeição. Encontrou o caminho sem problemas, apenas guiada pelo aroma apetitoso da comida. Mas hesitou na entrada do refeitório, vendo uma fileira de capacetes pendurados, indicando que o lugar estava cheio.
Sentiu um frio no estomago e se arrependeu de ter dispensado a companhia de Garrath. Agora, teria que enfrentar sozinha um salão cheio de homens, provavelmente não acostumados a ver uma mulher por ali.
A fome venceu a hesitação e pendurou o capacete ao lado dos outros. Respirou fundo e entrou com o queixo erguido. Os homens estavam enfileirados para receber sua bandeja e a comida parecia gostosa.
Sua atenção só foi desviada da comida quando chegou ao balcão do café e viu uma moça servindo:
-Puro ou com leite?
-Puro - Bárbara ficou surpresa ao descobrir que não era a única mulher ali. Tinha presumido que todos os funcionários daquela plataforma fossem homens.
Então, por que Garrath estava tão ansioso por se livrar de sua presença na Sithein Um? Será que só se incomodava com mulheres de certa posição profissional? Ou será que, por alguma razão, fazia objeção à sua pessoa?

-Você é nova aqui - A moça comentou, colocando uma xícara fumegante na bandeja de Bárbara.


-Sim, sou.
-Garanto que vai adorar trabalhar aqui. No começo a gente estranha, mas todos são muito bons. Principalmente o sr. St Clair.
Principalmente Garrath? Compreendeu tudo ao reparar nas curvas do corpo bem feito da moça, usando um uniforme branco bastante justo. Percebendo que estava segurando a fila, agradeceu e foi procurar um lugar para sentar.
Assim como o dormitório,o refeitório tinha um toque aconchegante. Era um lugar muito bem iluminado e arejado. Como Andy dissera, a St.Clair Corporation oferecia o melhor para seus empregados.
Bárbara olhou ao redor, na esperança de encontrar Andy ou o médico. Sua procura foi interrompida por uma voz grossa, vinda de um grupo sentado num canto.
-Primeiro a gente recebe belas maquinas americanas; agora uma bela mulher americana para consertar as tais maquinas. Isso não está certo.
Ela gelou. O alvo daquele comentário maldoso era obvio.
-Essas maquinas só trouxeram problemas desde o começo, parando os trabalhos de perfuração sem nenhum motivo e desperdiçando nosso tempo. E aquela mulher...viram quando chegou? Com aquela roupa indecente.

-Ora vamos, Rory. Não era seu turno quando a moça chegou. Então como é que sabe o que estava vestindo?


-A gente ouve comentários, oras!
-E vê coisas também. Até o que não existe.
A risada foi geral, mas Rory ignorou:
-Ainda digo que maquinas e mulheres americanas não tem vez numa plataforma escocesa. O petróleo escocês deve ser só da Escócia!
-Já vai começar, é ? - um dos homens reclamou, apoiado pelos outros.
Bárbara nunca se viu numa situação tão embaraçosa e queria sumir dali. Tinha medo de se mexer e chamar a atenção dos homens,mas não podia ficar parada ali para sempre.
Ia dar o primeiro passo quando o escocês descontente voltou a falar:
-Vamos ter problemas nesta plataforma. E dos grandes, se St. Clair não se livrar dessa maquinas e dessa mulher. Podem escrever o que estou dizendo, rapaz. Vamos ter problemas.
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