Cosmópolis : São Paulo, Resumo do Mundo



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Casa Guilherme de Almeida

Núcleo de Ação Educativa


Material Educativo

Exposição Temporária 


Cosmópolis: São Paulo, Resumo do Mundo” 
Realizada no período de 19/5/2012 a 15/7/2012

 



Ilustração de Antonio Gomide

 

O livro Cosmópolis (São Paulo/29) – que reúne oito reportagens de Guilherme de Almeida –, publicado em 1962 e 2004,  está sendo homenageado e festejado na cidade de São Paulo. Afinal, “Cosmópolis: São Paulo, Resumo do Mundo” foi o tema escolhido pela Secretaria do Estado da Cultura para a programação paulista especial, em 2012, da Semana Nacional  de Museus promovida pelo IBRAM. Uma justa homenagem ao poeta, tradutor e jornalista Guilherme de Almeida, em cuja obra é marcante a presença de São Paulo. Vários museus da cidade, como a Casa Guilherme de Almeida, a Casa das Rosas, o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu da Imigração (exposição virtual), o Museu da Imagem e do Som, o Museu Afro-Brasil, o Catavento (Palácio das Indústrias) e o Museu de Arte Sacra ofereceram, entre maio e julho, exposições e programações relacionadas à presença do imigrante em São Paulo e  a Cosmópolis.



“Por quê?”: assim Guilherme de Almeida abre a introdução de seu livro, uma coletânea de reportagens sobre bairros “estrangeiros” da cidade – com seus tipos e costumes – publicadas originalmente entre 10 de março e 12 de maio de 1929 no jornal O Estado de S. Paulo.

Em 1962, o porquê da edição justificava-se por serem, essas memórias, um depoimento único sobre comunidades estrangeiras em São Paulo. “Então esta cidade existiu, de fato?”, questiona-se o autor. Ainda na introdução, dois esclarecimentos: um sobre a ausência do núcleo de imigrantes italianos, por estes já estarem confundidos com os paulistanos em toda a cidade nas primeiras décadas do século XX, e outro sobre o uso do termo reportagem: “coisa objetiva”, referindo-se à classificação que então havia dado a seus escritos: “tão subjetivos!”. Ao final, conclui que “os olhos da gente também são objetivas fotográficas”. 

Para ilustrar a primeira edição de Cosmópolis (1962) foi convidado o pintor modernista Antônio Gomide, que realizou desenhos a carvão (clique aqui!).  Na segunda edição (2004), há fotografias que ilustram as oito reportagens, de autoria de Luciana Cattani.

Entre “Rapsódia Húngara”, “O Bazar das Bonecas”, “Chope Duplo”, “O Ghetto”, “A Confusão Báltica”, “Um Carvão de Goya”, “Os Simples”, e “O Oriente Mais Que Próximo”, Guilherme de Almeida se movimenta e nos guia por bairros, ruas, imagens, citações, cheiros e sons, num ritmo tão próprio que chega a pintar a prosaica São Paulo como pura poesia (ou a “filmá-la”....).




Por que ler Cosmópolis hoje? 

Porque reúne textos que, apesar de serem classificados, pelo autor, como reportagens, persistem por seu valor literário e poético. São, na verdade, um exemplo modelar de jornalismo literário, que fazem de seu autor um precursor dessa modalidade jornalística, tal como entendida hoje. Para ficarmos em um exemplo, vejamos um trecho de “A Confusão Báltica(sinfonia em U maior)”:


“Tudo confuso.

Esthonia (com “h”?)... Lettônia (com dois “tt”?)... Lithuânia (sem “h”?)... Tudo confuso. Onde? Na Europa Oriental? No Báltico? No golfo da Finlândia?... Tudo confuso.

E a confusão escura da minha geografia caminha comigo, no lusco-fusco de um crepúsculo dúbio, pelos barulhos da Rua Guaicurus, caminho de Vila Anastácio.”

Além disto, esta obra conserva-se atual por abrigar o conceito de ser, São Paulo, uma cidade de inclusão e absorção de todos os povos do mundo, um “resumo do mundo”, como já conceituava Guilherme de Almeida em 1929. Desta vez, o exemplo é de um trecho de “O Ghetto”:

“– O senhor é russo?

 – Nada. Estou no Brasil, sou brasileiro.

 – E esses doces: são polacos, alemães ou italianos?

 – Nada. Feitos no Brasil, são brasileiros.

   Inútil discutir. A pátria é isto: onde a gente está.”

 ATIVIDADES MULTIDISCIPLINARES

O Núcleo de Ação Educativa da Casa Guilherme de Almeida propõe, a seguir, algumas atividades relacionadas à exposição “Cosmópolis: São Paulo, Resumo do Mundo” que poderão ser utilizadas por professores em trabalhos que integrem diversas áreas do conhecimento, como Língua Portuguesa, História, Geografia e Artes Visuais.



Atividades

Leia a reportagem “Os Simples”, do livro Cosmópolis. Ela servirá de fonte para que os alunos estabeleçam relações não apenas entre a temática desse texto e a de algumas obras de arte do acervo da Casa Guilherme de Almeida, que selecionamos para algumas atividades, como também servirá de base para pesquisas sobre a história de São Paulo entre os anos 1920 e 1930 e, ainda, para pesquisas sobre os costumes de comunidades estrangeiras na cidade durante esse período.

 

Os Simples





Ilustração de Antonio Gomide
(carvão sobre papel)

 


  • UM RISO FINO DE GUIZOS no ar arrepiado da manhazinha.
    Na rua rica, entre palacetes de aventais brancos no portão, vai indo, com uma solenidade assustada, o rebanho das cabras. Pardas, brancas e malhadas, fincam o casco bifurcado nas pedras e nos cimentos – e vão arranhando com seu pêlo áspero de capacho e seu passo sem ritmo o arzinho macio da hora recém-acordada.
    Na calçada, bragas de burel grosso, colete chocalhante de pratas, casaco de estamenha dobrado ao ombro e chapelão preto batido na testa, o cabreiro descadeirado, de vara na mão, conduz a turma. Pára no portão de uma casa nova, onde há um doente, o nariz esverdeado contra um vidro de janela; ordenha a cabra espevitada, que cabriola no passeio; enche o copo grande de dez tostões, ou o copo pequeno de seis tostões, cata o troco difícil nas algibeiras arreganhadas do colete... Os níqueis cantam. As campainhas brincam, de novo, no pescoço das cabras, ao longo da rua rica:- e o rebanho segue, arranhando com seu pêlo áspero de capacho e seu passo sem ritmo e arzinho macio da hora recém-acordada.

  • Outros cabreiros, com outras turmas, por outras ruas. E outros ainda, e muitos outros, e outros mais... Por aí tudo...
    Onde moram, quem são eles, os bons cabreiros da manhãzinha?
    Vou, num declínio de tarde, pela Rua Correia Dias. A rua é reta, plana e bem calçada. Mas, de repente, quebra-se e descamba numa ladeira brusca e trôpega, de terra estorricada, e despenca, de buraco em buraco, até uma estrada transversal, vermelha, calma, repousante, que se chama Rua Jurubatuba.
    Rua Jurubatuba. À direita, casas novas e boas; à esquerda, um despenhadeiro íngreme sobre um vale folhudo. Ar, grande ar aberto e alto. E, no fundo daquele côncavo fresco, meus olhos nadam em felicidade seguindo os caprichos curvos de um ribeiro; o mosaico geométrico das hortas, pintando com todos os verdes; a franja branca nos varais bambos de roupas alvas desfraldadas; os casebres de lata, longos e chatos, cor de metal e ferrugem.
  • A fascinação daquele vale... Desço. Dois meninos, alouradados, em algodãozinho listrado e suspensórios, sobem. Discutem. Ouço por acaso:



  • – Olha que digo ao teu pai!

  • Aquêle “teu”, neste país do “você”, orientou-me logo.

  • Aquele “teu” e mais um escrito a óleo amarelo, que leio na caliça fresca de uma casa: “A. dos Santos – Jardineiro e Músico”.

  • Portugal!
    Desço ao vale, expremido entre o recorte alto de Vila Mariana e o apinhado baixo do Cambuci. Uma frescura serrana. O ar é todo uma transpiração fria de águas e folhas. Respiro forte: provo, o gosto deste ar, como quem prova o gosto de um primeiro beijo.
  • Vem ao meu encontro um homem pequeno, de olhos claros. Fala. Canta. Canta mesmo. Diz a vida simples dos cabreiros (moram muitos ali): – a sua antiga estrada na Saracura Grande, de onde os tocou uma ordem municipal; a partida atropelada dos rebanhos na manhãzinha, para os fregueses; a volta das turmas ao estábulo, lá pelas onze horas; o pastoreio, durante o dia, por aqueles cerros baldios; o recolher das cabras às baias, pelo cair do sol; o preço do milho e do farelo; o esterco, que vendem às chácaras de ao pé dali; a vidinha igual das famílias nos casais da Rua Jurubatuba.


  • – E de onde são vocês?



  • – Semos de Brigança...

  • Portugal!
    Um fado e uma saudade boiaram, um instante, envergonhados, nos olhos claros daquele homem pequeno.
    Bragança... O velho Trás-os-Montes... A serrania verde... As pedras de Bornes de Montezinho e as águas do Sabor, do Tua, e do Rabaçal, entre verduras...

  • Bragança... As cidades de nomes longos, fortes e pitorescos: Torre de Moncorvo, Miranda do Doiro, Macedo de Cavaleiros, Carrazeda de Anciães, Freixo de Espada à Cinta...
    Freixo de Espada à Cinta... A cidade de Guerra Junqueiro... O poeta... “Os simples”... Mas, não estavam mesmo ali tôda a poesia trasmontana, campesina d’ “Os simples”? Ali, naquele homem pequeno, de olhos claros, de pé, como uma evocação, no fundo fresco daquele vale verde exilado no Brasil?
    Aquele homem... Olhei-o um pouco: e pensei naquele pobrezinho de olhos cor de esp’rança, descendo a encosta das sementeiras, pastos, olivedos e amendoais... Olhei um pouco a velhinha que, de cima da Rua Jurubatuba, acenou para baixo com um ramo verde na mão: e pensei na moleirinha tangendo – toc, toc, toc – o seu jerico ruço, com o galho verde de uma giesta em flor... Olhei um pouco a rapariga que vinha tocando uma cabrita por um atalho vermelho, escorrido da Rua Paula Ney: e pensei na boieirinha linda, de agulhada em punho, guiando a carrada cheia entre o canto do galo e o gemido das noras... Olhei um pouco a pequena nuvem de mosquitos que cirandou, toda acesa de poente, à porta do cabril: e pensei nas ceifeiras bailando em torno das espigas, dos bois deitados no celeiro atulhado e das mós douradas nas eiras ao luar... Olhei um pouco a torre da igreja do Cambuci, espetada no céu cor de vidro: e pensei nas ermidas brancas pelas noites de invernada, quando os lobos uivam e as almas rondam em procissão... Olhei um pouco o velho que estava sentado ali perto, acertando uma vara com sua faca de algibeira: e pensei no pastor escalando as montanhas, o surrão a tiracolo e todo branqueadinho a neve e douradinho a sol... Olhei um pouco o chacareiro de calça côr de pinhão, que corria os seus canteiros azinhavrados, para além dos arames farpados desta cerca: e pensei no cavador de enxada ao ombro pelos caminhos, com o seu caldo em casa e os seis filhos que Deus lhe deu... Olhei um pouco os pequeninos, lá longe, brigando, saltando o regato: e pensei nos pobrezinhos, em alcatéias, pelas herdades, pelas aldeias, como trapos levados nas ventanias, dormindo pelos alpendres, pelos currais, e que choram cantando... Olhei um pouco, o ponteado alvo do Cemitério de Vila Mariana, como um rebanho parado numa distância esverdeada: e pensei no Campo Santo onde, ao relento, sonham cavadores, pegureiros, boieirinhas e bisavós... Olhei um pouco, no frio céu, a primeira estrelinha, como uma bolinha de gelo olhando também pra mim: e pensei... pensei em certas velhices que foram muito amigas de certas meninices..., velhas amas feitas para cantar cantigas para a gente se lembrar...
    “Os Simples”...

  • Subo, com pena, do fundo do vale e do fundo de mim mesmo para a cidade, lá em cima, e para a realidade, lá longe. Olho, ainda uma vez, a hora quieta que parou nas coisas para ver a tarde murchar...

  • Paz. Nem um estremecimento nas folhas finas dos eucaliptos. Apenas um ladrar quebrado e precipitado de cães. Alguém acende uma fogueira, lá embaixo, no mundo dos cabreiros: e um fogo alto e rápido lambe a pequena noite do vale.
    A outra, a grande noite, essa vem descendo, vem descendo da cidade sob a luz de uma luzinha triste e vagante, na ponta da lança dos acendedores de lampiões. A luzinha escorre, ladeira abaixo: e vai deixando na terra os seu rasto de pingos paralelos, pálidos, pensativos, criadores de sombra, inventores da noite...

    (5 de maio de 1929)




Língua Portuguesa e Literatura

  1. Tendo-se em conta as seguintes afirmações de Guilherme de Almeida em sua introdução a Cosmópolis – “Chamarei de ‘reportagens’ a estes meus escritos. Bem sei que não são eles (tão subjetivos!) o que hoje se diz ‘reportagem’: coisa objetiva. Isto é: fotos e legendas. Mas, mantenho a designação. Os olhos da gente também são objetivas fotográficas” –, o professor promove uma roda de leitura da reportagem “Os Simples”, seguida de discussão sobre um tipo especial de jornalismo: o “jornalismo literário”. Para tanto, propõe-se a comparação de artigos, reportagens, ensaios e crônicas de diferentes mídias, como jornais, revistas e blogs especializados em literatura, em épocas diversas. Será interessante aproveitar a oportunidade para discutir com o aluno sobre qual formação pode ou deve ter o profissional dessa área.

  2. Ainda com base na reportagem “Os Simples”texto em prosa, porém com elevado teor poético, o progessor discute com os alunos se há, e qual seria, o limite entre a prosa e a poesia. O objetivo desta atividade, assim como o da atividade sobre o jornalismo literário, é promover uma reflexão, com auxílio da leitura de textos previamente selecionados tanto pelo professor como pelos alunos, sobre a classificação de gêneros literários e tipos de discurso. Seriam esses gêneros “puros”, ou eles se misturariam em situações reais de discurso, como na reportagem em questão?

  3. Além das questões que envolvem gêneros textuais, como as acima sugeridas, o professor de Língua Portuguesa poderá, com seus alunos, investigar a intertextualidade entre a reportagem “Os Simples” (1929), de Guilherme de Almeida, e o livro Os Simples (1892), do poeta português Guerra Junqueiro, obra mencionada na reportagem em questão. Neste caso, será conveniente planejar uma aula sobre os diversos tipos de intertextualidade.

  4. Numa leitura mais aprofundada da reportagem “Os Simples”, podem-se destacar as inúmeras figuras de linguagem utilizadas pelo autor, como metáforas e metonímias, bem como investigar o vocabulário e certas expressões idiomáticas, verificando como esses termos podem suscitar, no leitor, imagens, sentimentos e sensações. Nesse sentido, será possível verificar, junto ao aluno, os vários níveis de leitura propiciados pelo texto, atentando-se para o que podem “dizer” as “entrelinhas”.

  5. Prática de escrita sugerida: num bate-papo, o professor conduzirá o levantamento da árvore genealógica dos alunos, com suas ascendências estrangeiras ou não. Em seguida, será proposta a produção de um texto (sem definição prévia de gênero) baseado em memórias (vividas ou narradas) de seus ancestrais ao chegarem a São Paulo. Esta atividade pressupõe uma etapa desenvolvida oralmente em sala de aula, seguida de produção de esboço, assim como de leitura e comentários dos colegas sobre esse esboço, para verificar se o texto está claro e coerente. Depois da troca de texto entre os colegas, e possíveis alterações realizadas pelo autor em função dos comentários, o professor comentará a forma final. Será interessante observar, em grupo, como cada aluno entendeu a proposta de produção desse texto e quais foram suas opções para o desenvolvimento de seu trabalho. Durante a prática de leitura dos textos produzidos para esta atividade, pode-se observar como cada autor reconhece semelhanças entre sua história de vida e a do colega de classe. Este reconhecimento de si, no outro, por meio da escrita, poderá favorecer o relacionamento entre os alunos.


História

  1. A partir da leitura da reportagem “Os Simples”, do livro “Cosmópolis”, o professor propõe atividades investigativas sobre a influência dos imigrantes nos diversos campos das artes, na culinária, na moda, em festividades e no falar do paulistano nos anos 1920 e 1930. O resultado dessas investigações poderá servir de base para uma exposição ou feira cultural.

  2. Sobre o período em questão, sugerimos a seguinte pesquisa relacionada ao autor de Cosmópolis: “Da Semana de Arte Moderna de 1922 à Guerra Civil de 1932: a presença de Guilherme de Almeida na história de São Paulo”. Dessa forma, pode-se contextualizar a publicação das reportagens no jornal O Estado de S. Paulo, em 1929, entre dois importantes acontecimentos na capital, que contaram com a participação ativa de Guilherme de Almeida.


Geografia 

A partir da observação das imagens de duas obras do pintor modernista Antonio Gomide, presentes no acervo do museu Casa Guilherme de Almeidao professorsugere aos alunos que tracem paralelos entre essas duas paisagens, analisando, por meio de mapas e outras fontes, o ritmo de crescimento demográfico da cidade de São Paulo, como um todo, no século passado.




Paisagem Rural
Antonio Gomide
(Óleo sobre Eucatex)
1961


Paisagem Urbana
Antonio Gomide
(Nanquim sobre papel)
Década de 30

                                                                                                                                                                   
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