CoraçÃo leal expecting the prince’s baby



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CORAÇÃO LEAL

EXPECTING THE PRINCE’S BABY

Rebecca Winters


RENASCER DO AMOR
Às vezes, as melhores escolhas são as mais imprevistas...
Ao aceitar ser barriga de aluguel de um casal da realeza do Mediterrâneo, Abby Loretto sabia que tomara uma decisão muito difícil. Quando uma tragédia arrebata a vida da esposa do príncipe Vincenzo logo após a inseminação, o coração dela se solidariza à dor que ele sente. Agora foco das esperanças de Vincenzo, Abby deverá usar toda a sua coragem para ignorar a atração crescente entre ambos. Afinal de contas, ela é apenas uma plebeia e ele, o príncipe regente...
Digitalização: Simone R.

Revisão: Fabíola P.

Tradução Vanessa Mathias Gandini

HARLEQUIN

2015
Querida leitora,

Quem não adora o romance do príncipe William com Kate? Desde pequena sou fascinada pela monarquia britânica. A melhor amiga da minha avó estava em Londres quando o rei George VI foi coroado. Ela trouxe de lá um enorme livro de lembrança. Nossa família chamava de “Livro de Ouro”. Eu adorava olhar as fotografias, especialmente as das princesas Margaret e Elizabeth quando jovens. Havia páginas dedicadas às joias da coroa, com o orbe e o cetro. Outras imagens mostravam a família real em trajes púrpura com arminho.

Todas essas lembranças me instigaram a escrever Coração leal. Imagine uma jovem americana que se muda para o reinado de Arancia, um país entre a França e a Itália, porque seu pai é o chefe da segurança do palácio. Lá, ela encontra um príncipe que preenche todos os requisitos do homem perfeito.

Descubra o que acontece quando o príncipe volta sua atenção para esta plebeia que faz seu coração arder de desejo.

Divirta-se!

Rebecca

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: EXPECTING THE PRINCE’S BABY

Copyright © 2014 by Rebecca Winters

Originalmente publicado em 2014 por Mills & Boon Romance
Título original: TAMING THE FRENCH TYCOON

Copyright © 2015 by Rebecca Winters

Originalmente publicado em 2015 por Mills & Boon Romance
Projeto gráfico de capa: Núcleo i designers associados

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração eletrônica: EDITORIARTE

Impressão: RR DONNELLEY

www.rrdonnelley.com.br

Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

Dinap Ltda. — Distribuidora Nacional de Publicações

Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, n° 1678

CEP 06045-390 — Osasco — SP

Editora HR Ltda.

Rua Argentina, 171,4° andar

São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380

Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br
CAPÍTULO 1

Na varanda do palácio real, Vincenzo Di Laurentis, 33 anos, príncipe da coroa do principado de Arancia, apreciava a vista para os jardins, preparados para a abertura oficial do 15° Festival de Abril de Laranja e Limão. Essa era sua primeira aparição pública desde o funeral de sua esposa, a princesa Michelina, seis semanas atrás.

Vincenzo acenou para a multidão que compareceu em massa. Seu país estava localizado entre as margens da França e da Itália, na costa do Mediterrâneo. Oitenta mil pessoas viviam na cidade. Outras 30 mil formavam a população que vivia nas cidadezinhas e vilas ao redor. Além do turismo, o país dependia das indústrias de limão e laranja havia séculos.

Pelas próximas duas semanas, o país iria celebrar a economia com bandas nas ruas e feiras de comida nos parques, decorados com limões e outras frutas cítricas.

Vincenzo acabara de voltar de uma série de visitas a três continentes, fazendo negócios para a monarquia com os outros chefes de estado. Era bom estar de novo com seu pai, o rei Guilio. Em seu retorno, deu-se conta de que havia se esquecido do quanto Arancia podia ser bela na primavera, com seus jardins repletos de flores.

Vincenzo sentia um ar de empolgação vindo das pessoas, uma vez que o inverno terminara. Quanto a si mesmo, a escuridão que o consumira pelas últimas seis semanas desde a morte de Michelina parecia estar se dissipando.

O casamento deles não se dera por uma questão de amor, embora houvessem ficado noivos com 16 anos, eles despenderam pouquíssimo tempo juntos antes do enlace, 14 anos depois. Quando Vincenzo entrou no apartamento deles mais cedo, nessa tarde, mais do que qualquer outra emoção, ele estava ciente da sensação de culpa por não ter sido capaz de amá-la da forma como Michelina o amava.

O amor romântico por Michelina nunca cresceu em seu coração; apenas respeito e admiração pela determinação dela em manter a imagem de um casamento feliz. Eles sofreram muito com três abortos espontâneos, à espera de uma criança que nunca veio.

A paixão de Vincenzo nunca foi estimulada quando eles faziam amor porque ele não era apaixonado por ela, mas fizera o seu melhor para mostrar ternura. Vincenzo conhecera a paixão com outra mulher antes de se casar com Michelina, mas tinha sido apenas uma resposta física, porque ele nunca foi capaz de entregar seu coração, porque estava noivo.

Vincenzo suspeitava que os pais de Michelina tivessem experimentado o mesmo tipo de casamento vazio. Ele sabia que seus próprios pais tinham se esforçado. Era raro um caso de um casal real que de fato alcançava a felicidade matrimonial. Michelina quis que o casamento deles fosse diferente, e Vincenzo tentara.

Mas não se pode forçar o amor.

De qualquer forma, houve algo que ele fora capaz de fazer que lhes proporcionara uma felicidade real como marido e mulher. Na verdade, era a única coisa que o fizera superar esse período de escuridão. Apenas alguns dias antes de Michelina morrer, eles descobriram que ela estava grávida novamente. E dessa vez o casal fez todo o necessário para prevenir outro aborto espontâneo.

Aliviado por sua última tarefa desse dia ter terminado, Vincenzo deixou a varanda, ansioso para visitar a mulher que se dispusera a ser a gestante substituta para eles: Abby Loretto, a jovem americana que se tornara sua amiga.

Desde os 12 anos ela vivia na área do palácio com seu pai italiano, que era o chefe da segurança. Abby apareceu em cena quando Vincenzo tinha 18 anos e estava acompanhado de seus amigos e algumas garotas da sua idade. E apesar da diferença de idade entre eles, Abby se tornara uma constante nos bastidores de sua existência, mais como uma irmã mais nova entrando e saindo de sua vida cotidiana.

De certa forma ele se sentia mais próximo a Abby do que de sua irmã, Gianna, seis anos mais velha que ele.

Abby era divertida e radiante. Vincenzo podia ser ele mesmo perto dela, deixar de lado seus cuidados e relaxar com Abby de uma maneira como não podia fazer com ninguém mais. Porque ela vivia nos jardins e conhecia os trabalhadores do palácio, já tinha o entendimento do que era ser um membro real. Eles não precisavam conversar sobre isso.

Após a morte da mãe de Vincenzo, Abby passou a acompanhá-lo em longas caminhadas, oferecendo conforto. Quando ele não queria mais ninguém por perto, a exceção era Abby. Ela também perdera a mãe e entendia o que ele estava passando. Abby não pediu nada a Vincenzo, não queria nada a não ser sua amiga e compartilhar pequenas confidências.

Uma vez que estiveram sempre na vida um do outro, Vincenzo percebeu que era inevitável que eles se unissem e desenvolvessem confiança mútua.

Havia anos ela estava tão entrelaçada no tecido da sua vida que, quando se ofereceu para ser mãe de aluguel para ele e Michelina, tudo pareceu fazer parte da mesma peça. Sua esposa gostara muito de Abby, os três compareceram juntos a consultas por diversos meses antes de o procedimento ter sido realizado. Eles trabalharam como uma equipe até a morte inesperada de Michelina.

Vincenzo se acostumara com seus encontros com o médico e o psicólogo. Durante sua ausência a negócios, ele sentiu como se tivessem passado anos, e não semanas, desde a última vez que vira ou falara com Abby. Agora que ela carregava um filho seu, tornara-se sua vida, Vincenzo precisava vê-la e estar com ela.

Tudo em que ele podia pensar era voltar para se assegurar de que Abby e a criança estavam bem, mas essa necessidade gerava uma sensação desconfortável de culpa, da qual ele não podia se livrar. Menos de dois meses atrás ele perdera a esposa. Ainda se encontrava em luto devido ao casamento que fora menos que perfeito, mas já pensava em outra mulher, que carregava o bebê que ele e Michelina tinham feito.

Era natural que se importasse com Abby, que concordara em executar esse milagre. Em pouco tempo ele iria ser pai, tudo graças a ela. Ainda assim, com a morte de Michelina, isso não parecia certo.

Mas também não parecia errado.

Durante a viagem, Vincenzo não tivera tempo para cavar mais fundo a sua alma, mas agora que estava de volta, não sabia como lidar com esse novo dilema emocional que o encarava.

Deixou a varanda envolvido nesse conflito.
Abigail Loretto, conhecida pelos amigos como Abby, sentou-se sozinha no sofá em seu apartamento no palácio, secando o cabelo com os olhos fixos na televisão. Ela assistia ao programa ao vivo do príncipe Vincenzo abrindo o festival de frutas da varanda do palácio.

Abby não sabia que ele voltara. Seu pai, Carlo Loretto, o chefe da segurança do palácio, andara tão ocupado que não tivera tempo de informá-la.

Ela conhecera Vincenzo 16 anos atrás, quando o pai se tornara o chefe da segurança do palácio. O rei trouxera Carlo, sua esposa americana e a filha da embaixada de Arancia em Washington D.C, para viver no apartamento do palácio. Na ocasião, Abby tinha 12 anos, e Vincenzo 18.

Abby passara a maior parte da adolescência estudando Vincenzo, sobretudo sua constituição física alta e musculosa. Em vez de uma estrela de filme ou um famoso cantor de rock, ela idolatrara Vincenzo. Abby até mesmo mantivera um álbum de colagem de artigos de jornais que seguiam a vida dele, mas o guardara escondido dos pais. É claro, isso foi há muitos anos atrás.

O príncipe da coroa, o homem mais impressionante que Abby conhecera na vida, tinha muitos estilos, dependendo do seu humor. Pelo que ela podia ver agora, Vincenzo parecia mais descansado desde a viagem.

Algumas vezes, quando ele estava distante, aqueles olhos castanhos e as sobrancelhas escuras que combinavam com o cabelo brilhante intimidaram-na para que não se aproximasse dele. Em outras ocasiões ele se mostrara charmoso e divertido, mesmo provocante. Ninguém era imune ao carisma masculino dele. Michelina fora a mulher mais feliz deste mundo.

O retrato de Vincenzo estava sempre estampado na capa das revistas e dos jornais da Europa. A câmera adorava o belo filho de 33 anos de Arancia, com sua pele de oliva e traços aquilinos. Perseguido pela imprensa, ele fazia as notícias noturnas na televisão em algum lugar do continente a cada dia do ano.

Saber que Vincenzo estava em casa depois de suas viagens enviou uma onda de calor através do corpo dela. Seis semanas sem vê-lo ou conversar com ele sobre o bebê pareceram uma eternidade. Abby sabia que Vincenzo iria entrar em contato com ela em algum momento. Mas após o período de ausência, ele deveria ter tanto trabalho para pôr em dia, em casa, que poderia levar mais uma semana antes que ela ouvisse sua voz ao telefone.

Na tevê, Vincenzo agora deixava a varanda e voltava para o interior do palácio, e a emissora passou a mostrar um segmento do funeral que tinha sido televisionado em cada canal por todo o reino e na Europa seis semanas antes.

Ela nunca iria se esquecer do telefonema do pai. Sua mente voltou para aquele momento.

— Tenho más notícias, filha. Antes de Vincenzo e Michelina voltarem para Arancia hoje, ela saiu para uma cavalgada matinal. Vincenzo foi com ela. Michelina galopava a frente dele quando o cavalo pisou em um buraco. Isso fez com que ela voasse para longe do animal. Ao atingir o chão, a princesa morreu com o impacto.

Abby congelou.

Michelina estava morta? Era como um déjà vu, mandando Abby de volta para aquele momento terrível, quando ouvira que sua própria mãe tinha morrido.

Pobre Vincenzo. Ele vira toda a cena... Ela não poderia suportar isso.

— Oh, papai... Vincenzo perdeu a esposa... O bebê deles nunca vai conhecer a mãe!

Antes do previsto, ela foi levada para o hospital, onde foi atendida pelo Dr. DeLuca.

— Minha querida Abby, que choque terrível deve ter sido para você. Estou feliz por seu pai tê-la trazido até aqui. Vou mantê-la internada durante a noite e possivelmente por mais tempo, para me assegurar de que você esteja bem. O príncipe já tem dores demais com que lidar. Saber que você está sendo cuidada será um grande conforto para ele. Dê-me licença enquanto eu providencio um quarto particular.

Quando ele partiu, Abby se virou para o pai.

— Vincenzo deve estar desesperado.

Carlo beijou-lhe a testa.

— Sei que sim, mas no momento é com você que estou preocupado, filha. Sua pressão sanguínea está alta. Pretendo ficar a seu lado e dizer ao signor Faustino que você contraiu uma gripe, mas que irá voltar ao trabalho em poucos dias.

— Não pode ficar comigo aqui, papai. Seu lugar é no palácio. O rei irá exigir sua presença.

— Não esta noite. Meu assistente está no comando, e Guilio vai estar no palácio por causa do filho. Minha filha precisa de mim, e eu dela, então permita que isso seja o final da discussão.

As palavras do pai foram claras. No fundo, Abby ficou contente por ele ter permanecido com ela.

Abby continuou assistindo ao funeral na tevê. Era chocante ver o quão magros e sombrios os bonitos traços de Vincenzo tinham ficado. A morte da esposa pareceu tê-lo envelhecido.

O homem mais lindo que ela já conhecera, formava naquelas imagens uma figura impressionante, e ainda assim solitária em seu traje de luto.

Mais uma vez sua alma estremeceu, ao ver a expressão dolorosa dele enquanto Vincenzo caminhava atrás do cortejo fúnebre em direção à catedral.

Ele guiou ao seu lado a montaria favorita de Michelina do estábulo do palácio. A égua castanha estava coberta com rosas cor-de-rosa, que eram as preferidas de sua esposa. A cena era de partir o coração, Abby sentiu as lágrimas arderem em seus olhos mais uma vez.

Atrás de Vincenzo seguiam o rei, em seu uniforme de estado, e sua sogra, usando um traje preto. Eles seguiam na carruagem preta e dourada, com as irmãs de ambas as famílias. Quando a câmera se moveu dentro da catedral, Abby tornou a ouvir o arcebispo lendo as sagradas escrituras. Quando terminou e os sinos da catedral soaram, ela estava mais uma vez trêmula com emoções dolorosas.

— Para aqueles que acabaram de ligar a tevê, vocês estão assistindo ao cortejo fúnebre da sua alteza real, a princesa Michelina Cavelli, esposa do príncipe da coroa Vincenzo Di Laurentis, do principado de Arancia. Mais cedo, nesta semana ela morreu em um trágico acidente, ao galopar pelos jardins do palácio real da ilha de Gemelli.

Houve uma pausa.

— Na carruagem está sua majestade, Guilio Di Laurentis, rei de Arancia, sogro da princesa. A esposa dele a rainha Annamaria faleceu há dois anos. Sentado próximo ao rei, sua filha a princesa Gianna Di Laurentis Roselli e seu marido o conde Roselli de Cinque Terres da Itália. Do lado oposto, sua majestade a rainha Bianca Cavelli, mãe da princesa Michelina. O marido o rei Gregorio Cavelli de Gemelli, faleceu recentemente. Também acomodados à carruagem real, estão sua alteza real o príncipe da coroa Valentino Cavelli de Gemelli e o príncipe Vitoli Cavelli, irmãos da princesa Michelina.

Abby enxugou os olhos úmidos.

— Nesse dia de grande tristeza para ambas as casas reais, alguém especulou sobre o futuro do principado de Arancia. O mundo esteve à espera para ouvir que sua alteza real esperava um filho depois de três abortos espontâneos, mas tragicamente o amor entre Michelina e Vincenzo terminou cedo demais. A princesa Gianna e seu marido o conde Enzio Roselli, deveriam ter uma descendência, então o filho deles seria o terceiro na linha sucessória para o...

Abby desligou a tevê com o controle remoto e ergueu-se do sofá, incapaz de assistir a mais alguma coisa. Não devia ter permitido a si mesma viver aquele funeral uma segunda vez. A viagem de Vincenzo pareceu ter-lhe feito algum bem. Era melhor deixar o passado trágico para trás e se concentrar no futuro.

Abby caminhou até o escritório para fazer algum trabalho em seu laptop. Seu jantar seria servido em breve, exceto pela refeição ocasional com sua melhor amiga Carolena, Abby normalmente comia enquanto trabalhava em um de seus resumos legais, mas estava com pouco apetite nessa noite.

Como devia ser difícil para Vincenzo voltar para o palácio sem ter a esposa para recebê-lo. A solidão deveria ser intensa, e o coração de Abby doía por ele.

Após receber uma mensagem urgente do pai, que não poderia ter vindo em um momento pior, Vincenzo encontrou mais um motivo para visitar Abby. Seguindo para a suíte dela, ele avistou Angelina, a segurança pessoal de Abby contratada para servi-la, deixando o apartamento com a travessa do jantar.

Angelina era quem supria Vincenzo com informações diárias quando ele não podia estar ali pessoalmente. O príncipe a interceptou e ergueu a tampa da travessa. Abby comera apenas uma pequena porção do jantar. Isso não era bom. Ele colocou a tampa de volta e agradeceu a ela antes de bater à porta.

— Sim Angelina?

Vincenzo entrou no aposento, e caminhou até encontrar Abby no escritório à mesa, trabalhando em seu computador, vestida com sua calça de malha e um top de algodão.

— Abby?


Ela se virou para encará-lo mostrando grande tristeza.

— Alteza... — Abby sussurrou, aturdida ao vê-lo.

Vincenzo notou os olhos azuis dela cintilarem enquanto o estudavam por um longo momento.

— É bom tornar a vê-lo.

Devido à extrema delicadeza de sua situação única, o fato de ela ter se dirigido a ele com essa formalidade o frustrou. Ainda assim, ele não podia encontrar uma falha nela.

— Chame-me de Vincenzo quando a equipe de funcionários não estiver por perto. Era dessa forma que você me chamava quando era uma adolescente e corria pelos jardins do palácio.

— Crianças são assim mesmo.

— E mães de aluguel também. Depois dessa longa viagem, não consigo expressar o quanto estive ansioso para conversar com você pessoalmente.

— Você parece estar se sentindo melhor.

Embora ele apreciasse as palavras de Abby, desejou que pudesse dizer o mesmo sobre ela.

— O que há de errado? Notei que mal tocou no jantar. Está doente?

— Não, não. De forma alguma. -Abby ergueu-se da poltrona. — Por favor, não pense que me encontrar dessa maneira tenha algo a ver com o bebê.

— Isso me alivia, mas ainda estou preocupado com você. Qualquer coisa que a incomode me aborrece também.

Ela deixou escapar um suspiro.

— Vi você na tevê há pouco, e na sequência a emissora colocou novamente o segmento do funeral. Eu não deveria ter assistido. — Ela procurou os olhos dele. — Seu sofrimento foi tão intenso naquela época... Não posso nem mesmo imaginar isso.

A mídia nunca dava uma trégua.

— Dizer que eu estava em choque não teria começado a revelar o estado da minha mente — ele confessou.

Abby abraçou-se sem querer, chamando a atenção dele para a sua cintura fina. Até agora a única prova de que ela estava grávida viera de um teste sanguíneo. Abby o estudou por um momento.

— Michelina o amava tanto... Estava disposta a fazer qualquer coisa para lhe dar um bebê. Ouso dizer que nem todo marido tem esse tipo de amor de sua mulher. É algo que você sempre poderá guardar no coração.

Se ele pudesse apenas superar sua culpa pelo estado infeliz do casamento dos dois... Sua inabilidade em retribuir a afeição de Michelina da forma que ela queria o deixava deprimido, mas ele apreciou as palavras de Abby.

Ela mal sabia o quanto estava certa. Em público, sua esposa não fizera segredo de sua afeição por ele, e Vincenzo tentou fazer o mesmo para manter o mito de um amor recíproco. Mas em particular, ele se importara com Michelina da mesma forma como se importava com uma amiga. Ela pressionara tanto no final para que tentassem uma mãe de aluguel para salvar o casamento, que Vincenzo acabou concordado em considerar isso.

Precisando mudar de assunto, ele disse:

— Por que não se senta enquanto conversamos?

— Obrigada. — Abby tornou a se acomodar.

Vincenzo ocupou outra cadeira próxima à mesa.

— Como você está realmente se sentindo?

— Ótima.

— Eu me assegurei de receber notícias diárias suas durante minha ausência.

— Isso não me surpreende. Algo me diz que você já é um pai.

— Se quer dizer que estou interessado a ponto de enlouquecê-la com perguntas, não posso dizer que não. Uma vez que nos conhecemos desde quando você tinha 12 anos, isso me ajuda, a saber, que poderei ter todo o controle da guardiã do meu bebê. O Dr. DeLuca afirmou, que sua pressão sanguínea subiu na época do funeral, mas voltou ao normal, e ele me prometeu que você estaria com uma saúde excelente.

Abby tinha um brilho provocativo nos olhos.

— Todos dizem que só o médico pode afirmar com certeza, mas nunca se esqueça de que ele é um homem, e não tem ideia do que é uma gravidez.

Uma risada escapou dos lábios de Vincenzo. Parecia tão bom rir. Ele não conseguia se lembrar da última vez em que isso acontecera.

— Vou manter isso em mente.

— Então o que a pessoa do príncipe da coroa tem a dizer sobre a expectativa de ser pai?

Ele sorriu.

— Eu estava muito saudável em meu último check-up.

— Isso é uma boa notícia para o seu bebê, que espera ter uma vida longa e rica ao lado do papai.

Era assim que Abby chamava Carlo: papai. Os dois tinham o tipo de relacionamento próximo que qualquer um iria invejar. Vincenzo pretendia ser o tipo de pai maravilhoso que o rei fora e era, para ele.

— Você está desviando o assunto, Abby. Eu lhe disse que quero a verdade sobre a sua condição — persistiu.

— A verdade? — Ela sorriu. — Bem, deixe-me ver... Estou muito dorminhoca ultimamente, me sinto inchada e fui atingida pelo mal di mare.

Essa era a expressão italiana para enjoo marítimo.

Ambos deram uma risadinha.

— O Dr. DeLuca me deu um remédio para enjoo e garantiu que isso vai passar. E que, depois no sétimo mês, ficarei cansada outra vez.

Ele achava incrível o fato de ela estar grávida de uma parte sua. A morte de Michelina mudou o mundo deles.

Vincenzo suspeitava que Abby também estivesse sofrendo, por ter de lidar com o fato de os dois serem agora forçados a passar por essa gravidez sem Michelina. Sem dúvida ela sentia alguma culpa também. Afinal, estavam pisando em um terreno estranho, embora nenhum deles pudesse ter imaginado isso quando optaram pelo procedimento.

Uma risada escapou da garganta dela.

— O bebê está no estágio de desenvolvimento. O médico me deu dois folhetos. Este aqui é para você. Anatomia 101 para pais de primeira viagem.



Abby...

Ela abriu a gaveta da mesa e, após apanhar o folheto, entregou-o a ele. O título dizia: Os dez estágios da gravidez.

Por que dez, e não nove?

— Uma mulher escreveu isso, e sabe dessas coisas.

Ele apreciou as piadas leves de Abby mais do que ela poderia imaginar. A disposição sempre alegre de Abby era um bálsamo para sua alma. Vincenzo guardou o folheto no bolso da camisa. Quando fosse para a cama essa noite, iria digerir isso.

— Obrigado. Agora me conte sobre os seus casos legais. — Um assunto seguro que o intrigava. — Qual deles a está mantendo acordada?

— O caso de Giordano. Tenho um palpite de que alguém vem tentando bloquear a iniciativa dele por motivos políticos.

— Conte-me mais.

Abby arqueou as sobrancelhas.

— Você ficaria muito entediado.

— Tente. — Nada sobre você me entedia.

Abby apanhou uma de suas pastas de sobre a escrivaninha e entregou um documento a Vincenzo, que ele leu com atenção.



Como foi declarada, uma restrição maior para importar para Arancia não é nada mais que burocracia. Certificados importantes podem levar oito meses para serem liberados, e em alguns casos isso nem mesmo acontece. De qualquer forma, se o procedimento estiver simplificado, um aumento de importações pode beneficiar particularmente.

Arancia, fornecendo produtos de alto valor.

Isso fazia ainda mais sentido para Vincenzo, uma vez que ele conversara com importantes exportadores em sua viagem.



No momento, as correntes dos hiper e supermercados não operam diretamente no mercado de importação, mas usam a principal venda por atacado de laranjas e limões como intermediária. O signor Giordano, representando os varejistas, entrou no mercado importador, dessa forma mudando algumas sociedades consagradas de importação. Ele vem seguindo uma estratégia diferente, baseada em alta competição, taxas iniciais de entrada e compras à vista, trazendo, assim, mais rendimentos para Arancia.

Vincenzo sabia instintivamente que o signor Giordano estava mesmo disposto a mudar a situação.



O signor Masala, representando os importadores, está tentando bloquear essa nova iniciativa. Ele tem favorecido os produtores de cooperativas e estabelecido contratos de médio à longo prazo, sem exigir nenhuma taxa de entrada. Os números incluem, nessa breve apresentação, uma diferença clara em rendimento, favorecendo o plano do signor Giordano.

Estou preenchendo esse resumo para a corte para demonstrar que esses produtos de alta qualidade, para aprovação de tramitação rápida, iria beneficiar a economia, mas infelizmente não está disponível no país no tempo presente.

Vincenzo entregou o documento de volta a ela. O conhecimento de Abby e a compreensão dos problemas da economia do país o impressionavam sobremaneira. Ele inclinou a cabeça para um lado.

— Giuseppe Masala tem uma multidão de fãs e é conhecido como um peso-pesado na comissão de comércio.

Abby franziu as sobrancelhas.

— Obviamente ele é da antiga escola. As ideias do signor Giordano são modernas e inovadoras. Ele trabalhou com estatísticas que mostram que Arancia deveria aumentar suas importações de combustível, motores de veículos, materiais químicos, dispositivos eletrônicos e comida para uma margem de lucro maior. Seu gráfico com dados históricos prova que a ideia dele vai funcionar.

— Gostaria de ver a ideia dele aprovada, mas o lobista que se opõe a ela é poderoso. O advogado do signor Malasa está evitando me dar uma resposta.

Aquilo o deixou fascinado.

— Então qual é a sua próxima estratégia?

Abby guardou o documento dentro da pasta.

— Vou levá-lo à corte. Mas a agenda está lotada, e isso poderia demorar.

— Quem é o juiz?

— Mascotti.

O juiz era um bom amigo do pai de Vincenzo. Com isso em mente, ele disse:

— Continue combatendo o bom combate, Abby. Tenho fé em você e sei que vai chegar aonde deseja.

— Seu otimismo significa muito para mim.

Ela era amigável, ainda assim, mantinha o relacionamento deles a uma distância profissional como sempre havia feito. Para desalento dele, Vincenzo descobriu que queria mais, em ambientes diferentes onde eles pudessem ser casuais e despendessem tempo conversando, como costumavam fazer. A suíte dela não era o lugar certo.

A segurança de Abby já sabia que ele parara para vê-la e iria saber quanto tempo Vincenzo permanecera. Ele queria confiar em Angelina, mas nunca se sabe quem são nossos inimigos. Guilio ensinara isso muito cedo a Vincenzo. Então era melhor voltar aos negócios.

— A secretária do médico me mandou um fax com a programação de suas consultas. Entendo que você deva fazer um check-up em sua oitava semana no dia 1° de maio, sexta-feira.

Ela assentiu com a cabeça.

— Pretendo ir com você à clínica, e depois iremos ao psicólogo para a nossa primeira sessão.

— Quer dizer que você terá tempo? — Abby parecia surpresa.

— Realizei muitos negócios desde que nos vimos pela última vez, e relatei isso ao rei. Segundo a orientação dele, devo tirar algum tempo de folga, e estou pronto para levar a sério os meus deveres de pai.

Uma risada escapou dos lábios dela.

— Você é muito engraçado às vezes, Vincenzo.

Ninguém jamais o acusara disso além de Abby.

Ele detestava pôr um fim na brincadeira, mas precisava discutir assuntos mais sérios com ela que não poderiam ser adiados.

— Sua menção sobre o funeral me lembra de quão misericordiosa você é, e o quanto você se importava com Michelina. Quero que saiba o motivo de termos decidido que você não deveria comparecer ao funeral.

Ela umedeceu os lábios, com nervosismo.

— Meu pai já me explicou. Lógico que nenhum de nós queria dar margem a comentários que pudessem arruinar sua vida, de qualquer maneira. Mas quero que você saiba Vincenzo, que eu gostava de Michelina e a admirava. Sinto falta de minhas conversas diárias com ela e lamentei demais sua perda.

Ele notou a sinceridade nas palavras de Abby.

— Ela também se importava com você.

— Eu... Queria ter achado uma maneira de aliviar sua dor. — A voz dela falhou. — Mas não consegui. Apenas o tempo pode curar essas feridas.

— E disso você entende bem, depois de ter perdido sua mãe.

— Devo admitir que foi uma época terrível para meu pai e para mim, mas conseguimos superar.

— Seu pai explicou por que eu não lhe telefonei durante todas essas semanas?

— Sim. Embora você e Michelina tivessem me dito que poderíamos ligar um para o outro se surgissem problemas, papai e eu conversamos sobre isso também. Decidimos que será melhor se você e eu sempre nos dirigirmos ao seu assistente pessoal, Marcello.

— Como eu costumo fazer — ele observou. — Não quero tomar todo o seu tempo, mas, antes de ir, tenho um favor a lhe pedir.

— Qualquer coisa.

— A mãe e os irmãos de Michelina virão para o festival...

O que era uma desculpa para o que a rainha realmente queria.

—... E ela pediu para se encontrar com nós dois na sala de estar às nove da manhã. Seu pai explicará isso ao seu chefe para que ele possa entender por que você irá se atrasar um pouco para o trabalho.

— Está bem.

— Então eu posso lhe dizer boa noite.

Ela assentiu com a cabeça.

— Bem-vindo ao lar, Vincenzo, e buonanotte. — Outro sorriso iluminou o bonito rosto dela.

— Bons sonhos.



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