Contra o dr. Brexit



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JAMES BOND

CONTRA O DR. BREXIT

Madrid » 02 » 2017

No man is an island. No country by itself. [Ninguém é uma ilha. Nenhum país por si só.] Com este lema dos defensores da permanência do Reino Unido na União Europeia, estampado numa t-shirt, Daniel Craig, o ator que neste momento desempenha o papel de 007, o agente secreto mundialmente famoso, foi fotografado para demonstrar o seu apoio ao movimento a favor da permanência, conhecido por remain.
INTRODUÇÃO
O meu nome é Bond, James Bond. Quem, tendo tido a oportunidade de ouvir e ver a sua apresentação, nas situações mais improváveis, não se terá questionado sobre a forma como o faz? James Bond, por vezes com uma frieza calculada, outras com uma dose de fina ironia, e a maior parte das vezes com um sorriso e um olhar sedutores, acompanhados de um excecional sentido de elegância ao estilo britânico, nunca deixa indiferentes os seus interlocutores. Inegavelmente, James Bond contribuiu para popularizar, a nível mundial, os serviços secretos britânicos, mais conhecidos como MI6.
Sempre disposto a assumir missões arriscadas nos quatro cantos do planeta. Sempre em forma para lutar contra as forças do mal encarnadas por vilões incríveis, sofisticados e, especialmente, sinistros. Sempre impecável, mesmo depois de lutas capazes de destroçar os mais aguerridos lutadores. Sempre meticuloso observador da complexa realidade que o rodeia e, naturalmente, de gostos requintados, entre os quais se destaca a sua condição de verdadeiro connaisseur do champanhe Dom Pérignon, dos vinhos de Bordéus Rothschild ou do caviar russo Royal Beluga.
JAMES BOND, A PAZ E A SEGURANÇA
As histórias do agente 007 têm um ponto em comum: a luta contra aqueles que, originando o caos, atentam contra a paz e a segurança – dois elementos fundamentais para os equilíbrios de que as sociedades dispõem para organizar os seus modelos de coexistência.

A magnitude dos desafios que James Bond enfrenta implica a utilização de uma metodologia consentânea com o perfil da personagem, criada por Ian Fleming, o que desde logo significa que os meios utilizados têm uma relação muito direta com o fim perseguido. Trata-se de salvar, a todo o custo, os que correm perigo caso sejam alcançados os objetivos dos que, particularmente, lhes querem causar danos, provocando inclusivamente desequilíbrios geopolíticos.

A primeira obra de Fleming em que o autor dá vida ao superespião britânico foi Casino Royale, publicada em 1953, a que se seguiriam Vive e Deixa Morrer, Aventura no Espaço, Os Diamantes são Eternos e Ordem para Matar.

Mas só em 1962 será transposto para o cinema um romance de Fleming, não o primeiro que escreveu, mas o sexto. O título do filme era Agente Secreto 007. As receitas de bilheteira ultrapassaram em muito o escasso orçamento com que o filme foi produzido e em cuja realização os estúdios Pinewood, a 48 quilómetros de Londres, tiveram um papel importante.




Foto publicada pelo galardoado artista Wolfgang Tillmans

nas redes sociais.

Com este filme – que na realidade o presidente John F. Kennedy, admirador de James Bond, projetou na Casa Branca, reconhecendo numa entrevista publicada na Life Magazine que Da Rússia com Amor era um dos seus dez livros favoritos – tinha início uma saga do famoso agente secreto, que chega até aos nossos dias com o mais recente filme, Spectre, estreado em Londres, em outubro de 2015.


“GOOD EVENING, MR.BOND”
Muita coisa mudou no mundo desde então. As mudanças também afetaram James Bond, embora se mantenha inalterado o essencial do seu perfil de agente secreto britânico ao serviço de Sua Majestade a Rainha. Talvez o melhor expoente disso sejam as imagens rodadas por ocasião da inauguração dos Jogos Olímpicos realizados em Londres em 2012, nas quais o próprio James Bond se encontra com a Rainha no Palácio de Buckingham, com uma pontualidade britânica às 20 horas e 30 minutos, recebendo da Rainha, que está a trabalhar no seu gabinete, um Good evening, Mr. Bond e a escolta num helicóptero, que sobrevoa lugares icónicos de Londres, tendo mesmo recebido a saudação da emblemática estátua de Winston Churchill, até à cerimónia de abertura dos Jogos, com uma chegada surpreendente, depois de um salto em paraquedas sobre o Estádio Olímpico de Londres.
Desde o princípio até ao fim, as sequências revelam o profundo sentido do dever, unido a essa peculiar e inconfundível forma que os britânicos têm de interpretar com humor situações com projeção internacional e que chegam mesmo a incluir os seus mais altos dignitários. Nesse momento, a Rainha torna-se indubitavelmente na personagem feminina mais relevante a contracenar com James Bond na sua reconhecida trajetória de relações.
Decorreram oito meses desde a realização, a 23 de junho de 2016, do referendo no Reino Unido sobre a continuação da pertença à União Europeia, com um resultado favorável ao abandono, embora por uma diferença mínima (833 400 votos mais a favor da saída, num total de 33 988 084 votos, e uma participação de 72,2 %). Desde então até agora muito se tem escrito e debatido sobre este salto, não de um helicóptero para a inauguração de uns Jogos Olímpicos, mas um salto para o vazio, para o desconhecido. O salto é em primeiro lugar para o próprio Reino Unido e, em segundo lugar, mas não menos importante, para o futuro da União Europeia.
O Divisional Court of the Queen’s Bench Division (tribunal superior britânico) pronunciou-se, a 3 de novembro de 2016, sobre a necessidade de consultar o Parlamento para que o governo possa acionar o processo de saída de acordo com o estabelecido no artigo 50.º do Tratado da União Europeia.

Em resposta a esta decisão, no passado dia 8 de fevereiro a Câmara dos Comuns realizou uma votação a este respeito, com 494 votos a favor do início do processo de retirada e 122 votos contra. Não se prevê que a votação na Câmara dos Lordes, a ocorrer muito em breve, vá em sentido contrário.

UMA ESPIRAL DE INCERTEZA
Durante os dias que durou o debate parlamentar foram proferidos discursos inflamados, tanto a favor quanto contra a saída da União Europeia, não isentos de turbulência nos partidos Conservador e Trabalhista, assim como situações, no mínimo, sui generis, como a que foi protagonizada pelos parlamentares do Partido Nacionalista da Escócia entoando o Hino à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven (o hino da Europa), sendo chamados à “ordem” pelo vice-presidente da Câmara com um grito de rudeza e grosseria pouco digno de um representante de tão alta responsabilidade.
A espiral expansiva de incerteza introduzida pelo resultado de um referendo despropositado, dada a importância da questão colocada (há questões que, pela sua complexidade, requerem um alto nível de conhecimento e, por conseguinte, não devem ser simplificadas para um sim ou um não numa consulta popular), tanto para o Reino Unido quanto para a União Europeia, é agravada por acontecimentos em que o mundo em que vivemos está atualmente envolvido, gerando, por vezes, sensações próximas do desconcerto perante o imprevisto.

ALGUMAS DAS CONSEQUÊNCIAS


Há ocorrências que, à luz da lógica e do senso comum, são de difícil explicação. O que não impede que aconteçam. Dois exemplos claros são a inquietante situação provocada, precisamente, pelo inesperado Brexit no seio da União Europeia e a coincidência com a eleição de alguém como Donald Trump à frente do seu maior e mais importante aliado. Alguém que precisamente não acredita na integração da Europa. Logo no dia seguinte ao referendo, em território escocês, apoiou a saída do Reino Unido com a frase Basically, they took back their country. That’s a great thing. This will not be the last. [Essencialmente, recuperaram o poder do seu país. É uma coisa extraordinária. E não será a última.] Posteriormente, dias antes da sua tomada de posse, na primeira entrevista concedida a um orgão de comunicação britânico, concretamente o The Times, reafirmou essas declarações.
Neste contexto, quem pode descartar a hipótese de a nova presidência dos Estados Unidos originar turbulências sobre a linha de água de uma debilitada União Europeia e que, ao mesmo tempo, sofre de uma crise de liderança num momento crítico da sua existência?
A certeza converteu-se em incerteza. O que pensávamos que nunca poderia acontecer é hoje uma realidade, desconcertando a maioria que pensava o contrário.
Até agora a Europa tinha vivido num processo de construção, de integração, de criação da União Europeia. Um processo indispensável para a coexistência pacífica dos seus habitantes que, ao longo da história, se tinham destruído a si mesmos em confrontos sangrentos e devastadores.
Após o referendo no Reino Unido, inicia-se um grave movimento no sentido oposto. Ou seja, a possibilidade de desconstrução da Europa. Muito diferente de A Ideia de Europa como o filósofo Steiner a expõe na sua obra, reduzida em número de páginas, mas intensa em pensamento.
COMEÇOU A RETIRADA
A União Europeia já não é irreversível. O Brexit introduziu um vírus no sistema integrador que afeta muito seriamente o objetivo de uma união cada vez mais estreita. O poder da desunião, simbolizado pelo Brexit, juntamente com elementos como o terrorismo, a cibersegurança, os grandes movimentos de migrantes, a falta de crescimento económico, o neoprotecionismo trumpiano e a instabilidade criada nas fronteiras da União Europeia pela visão da grande Rússia de Putin, colocam a Europa numa encruzilhada de difícil solução, em que um vento forte de nacionalismo pode fazer com que partidos populistas, em próximas eleições em dois grandes países fundadores da União Europeia, acabem por destruir o que tanto custou a alcançar.

«A certeza converteu-se em incerteza. O que pensávamos que nunca poderia acontecer é hoje uma realidade, desconcertando a maioria que pensava o contrário»

O processo de retirada que, em princípio, será acionado no próximo mês de março, pode conduzir a situações de grande complexidade e em que, finalmente, o imprevisível pode acontecer nos tempos tumultuosos que se avizinham, incluindo a hipótese de o Reino Unido descobrir que não existe um paraíso fora da União Europeia.
Em Spectre, o mais recente filme de James Bond, há uma cena em que a protagonista, Léa Seydoux, cercada de neve e fogo cruzado lhe diz: Afasta-te de mim. Porque deveria confiar em ti? E ele, com calculada frieza e olhar penetrante, responde: Sou o único que te pode salvar porque neste preciso momento sou a tua melhor oportunidade para continuares viva.

Aqueles que pensam como James Bond, e não são poucos, terão de empenhar-se a fundo, defendendo que No man is an island. No country by itself, para que o Reino Unido não se converta, na terminologia feliz do eurodeputado britânico Richard Corbett, em broken Britain, em vez de global Britain; para que o Parlamento continue a ser a instituição que controle a negociação do Brexit; para que a produção de cinema britânico possa continuar a contar com os apoios dos programas culturais europeus; para que a União Europeia deixe de ser encarada como a causa de todos os males e se reconstrua a confiança entre os dois lados do canal.


O isolacionismo nunca ajudará a resolver problemas comuns. A solução para o labirinto do Brexit deverá ser encontrada na defesa dos valores e princípios em que a União Europeia se funda.
José Isaías Rodríguez é conselheiro do grupo LLORENTE & CUENCA Espanha. Destacado profissional conhecedor da Europa e das relações das empresas espanholas com a administração europeia, iniciou a sua carreira na Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE) como Diretor Adjunto do Departamento de Comunidades Europeias. Durante 25 anos, foi Diretor da Delegação da CEOE em Bruxelas, cargo em que representou os interesses das empresas espanholas junto das instituições europeias e da BUSINESSEUROPE. Posteriormente, e durante dois anos, foi Vice-secretário Geral da CEOE. Durante 24 anos, foi conselheiro do Comité Económico e Social Europeu e Vice-presidente do Grupo Empleadores. É Patrono da Fundação ADECCO. Detém uma licenciatura em Ciências Económicas e Empresariais pela Universidade de Sevilha, um mestrado em Estudos Europeus pela Universidade Católica de Lovaina, e é diplomado em Estudos Europeus pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha (Escola Diplomática) e em Defesa Nacional pelo Centro Superior de Estudios de la Defensa Nacional (CESEDEN).

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