Conflitos territoriais e a saúde ambiental no perímetro irrigado várzeas de sousa (pivas) disputas territoriales y salud ambiental el riego perimetral vázeas de sousa (pivas) Raisa Maria de Sousa Regala



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CONFLITOS TERRITORIAIS E A SAÚDE AMBIENTAL NO PERÍMETRO IRRIGADO VÁRZEAS DE SOUSA (PIVAS)
DISPUTAS TERRITORIALES Y SALUD AMBIENTAL EL RIEGO PERIMETRAL VÁZEAS DE SOUSA (PIVAS)
Raisa Maria de Sousa Regala

raisa.mar@hotmail.com

Universidade Federal da Paraíba – UFPB

Diego dos Santos Dantas

dantasdsd@gmail.com

Universidade Federal da Paraíba – UFPB
RESUMO

Durante a ditadura militar observa-se uma promoção desenvolvimentista no país, com políticas de incentivo ao uso de agrotóxico, esses sendo geradores de conflitos territoriais no espaço agrário brasileiro, como o de produção e em paralelo o de saúde do ambiente e da população.Sendo o presente trabalho fruto de uma pesquisa realizada no GETEC1, em que foca os conflitos territoriais instalados em um perímetro irrigado, onde uma empresa, pertencente a Empresa Santana, vem sendo acusada do uso indiscriminado de agrotóxico sobre a sua plantação e vem prejudicando a saúde ambiental de um assentamento localizado vizinho a supracitada empresa. Esses tipos de conflitos encontrados perpassam desde a luta de ocupação até as novas formas de conflitos que podem ser observadas com a luta por água e por produção.



Palavra-chave: Agrotóxico, saúde ambiental, assentamento, perímetro irrigado.

RESUMEN

Durante la dictadura militar observar una promoción del desarrollo en el país, con políticas para fomentar el uso de pesticidas , estos siendo generadores de conflictos territoriales en el espacio agraria brasileña, tales como la producción y la salud del medio ambiente y la población, em paralelo. Como este trabajo fruto de una encuesta realizada en GETEC,se centra en los conflictos territoriales instalados en un perímetro de riego, donde una empresa que pertenece a la GrupoSantana , ha sido acusado de uso indiscriminado de pesticidas en sus cultivos y está obstaculizando la salud medio ambiente de un asentamiento ubicado en las inmediaciones de la empresa anteriormente citado. Este tipo de conflictos que se encuentran impregnan desde la ocupación de lucha para las nuevas formas de conflictos que se pueden observar con la lucha por el agua y para la producción.



Palabras clave: Pesticidas, salud ambiental, asentamiento, perímetro de Riego.
INTRODUÇÃO

Neste trabalho foca-se em um conflito territorial instaladoem um perímetro irrigado. Trata-se do Perímetro Irrigado Várzeas de Sousa (PIVAS), no município que dá nome ao mesmo, como também no município de Aparecida, ele localiza-se no semi-árido e a 434 km de distância de João Pessoa. Criado no âmbito do “Programa de Desenvolvimento de Recursos Hídricos para o Semi-árido” do Ministério do Meio Ambiente, que na Paraíba recebeu o nome de Plano das Águas, Inicia-se com as interligações das águas na PB entre 1997-2002 é responsável por projetos hidro agrícolas, no Estado, dentre os quais se destaca o projeto mencionado.

O PIVAS é iniciado com a construção do Canal da Redenção que transfere água dos reservatórios Coremas-Mãe d’Água, no município de Coremas, que fica a aproximadamente 71 km de distancia, para atender a demanda da agricultura irrigada do projeto das Várzeas de Sousa (PARAÍBA, 2002).

Dos 6.335 ha doperímetro, no projeto inicial,3343 correspondem a lotes empresariais, 178 lotes numa área de 993 ha distribuídos com pequenos produtores, 3 lotes destinados à pesquisa/experimentação com um total de 55 hectares, 1474 ha de reserva legal e área de preservação ambiental e 471 ha de infraestrutura (áreas do centro gerencial, áreas de reservatórios de compensação e distribuição, de bombeamento e a área de infraestrutura de irrigação de uso comum com o canal adutor totalizando o Projeto). Após uma intensa luta por terra, uma área de 1007,3 hectares, dos lotes empresariais foi destinada à instalação de um projeto de assentamento onde vivem 141 famílias. No total o Projeto conta com 341 lotes, com 4.391 ha de áreas. A configuração em que se encontra atualmente o PIVAS foi modificada ao longo dos anos, o espaço vive em constante conflito de luta pela terra, com o assentamento Emiliano Zapata que esta ocupando as terras que seriam lotes empresariais que não haviam sido ocupados, e que mais recentemente, 09 de maio de 2016, foram concedidas para fim de reforma agrária 837 ha dos lotes empresariais, indexada na lei 10.676/2016 e autorizada na PLO 782/2016.

Pode-se observar que a forma como se configura o perímetro pode ser observada como uma reprodução da estrutura fundiária, que é caracterizada por uma histórica concentração de terras, sendo nesse caso, mais uma vez, o Estado fortalecendo essa estrutura. É a partir dessa configuração, da luta camponesa contra o monopólio, que eclodem os conflitos de terras no PIVAS.

Os problemas que são colocados no artigo é que uma empresa, pertencente ao Grupo Santana do Rio Grande do Norte, através de uma parceria com a Bayer, empresa alemã, vem sendo acusada utilizar agrotóxicos de forma indiscriminada sobre suas plantações prejudicando a saúde ambiental, com a contaminação da água, do solo, da vegetação e da população, do PA instalado vizinho ao lote empresarial.

Nesse mesmo problema, empresa versus assentamento, há à negação dos direitos do assentamento em relação à empresa, quando o Estado que deveria fiscalizar apenas oprime de forma desleal os assentados, com força bruta (polícia) e da lei com a criminalização do movimento e da judicialização. Em resposta aos problemas citados as mulheres do assentamento tomam a frente da luta, com denuncias a empresa e ao Estado e ocupações dos lotes empresariais e fechamento da Br.

Tendo objetivo apreender os conflitos territoriais existentes no assentamento Nova Vida I, para tanto faz-se necessário entender como se deu o “desenvolvimento” rural no Brasil, compreender as lutas travadas pelos assentados em relação ao Estado e a imposição de um modelo produtivo e o posicionamento do Estado diante dos conflitos.

A metodologia adotada para esse processo de investigação compreendeu a pesquisa bibliográfica de suporte teórico-metodológico e documental para compreender os conceitos que servem de base, o levantamento de noticias de jornal,a pesquisa de campo, onde esta compreende realização de entrevistas, a aplicação de questionários, no PA e na empresa e conversas informais os irrigantes do PIVAS.
RESULTADOS PRELIMINARES

Industrialização da Agricultura

A industrialização da agricultura brasileira inicia-se em 1964, implantada pelo regime militar, essa pautava-se na modernização da agricultura. É nesse momento que passa da agricultura tradicional para uma modernizada e mecanizada. Para muitos autores esse momento há uma mudança nas técnicas de agricultura, mas Silva (1982), “o termo se expande para todas as mudanças no processo produtivo e nas relações de trabalho”.

Como se sabe esse processo se deu de forma desigual e excludente, onde uma minoria tem acesso às novas tecnologias e uma parcela bem maior vai sendo deixada para trás. O que pôde-se ser observado no período inicial da modernização é que houve um investimento maciço nas propriedades com empréstimos em bancos para compra de maquinários, insumos, animais, etc., com isso houve uma necessidade de expansão das áreas de monocultura e/ou pastagem, com isso a expulsão dos meeiros, posseiros e arrendatários. Com o aumento das áreas há também um crescimento na produção e uma necessidade de diminuição no tempo de produção e da mão de obra. O capital na agricultura movimenta não só a área rural, como também a indústria, e ver como falar que a inserção do capital na agricultura se da igual ao na indústria, como se sabe, de forma desigual e excludente, como afirma Calisto Teixeira tende a beneficiar determinados produtos e produtores.

Com isso há uma mudança na forma de relações de trabalho, onde antes era através da troca de produtos (trabalhador x fazendeiro), hoje vê-se o trabalho assalariado, os trabalhadores tinham sua terra para plantar e viver, são expulsos para dar espaço a monoculturas e ao pastos e passam a ser contratados apenas por períodos, com isso tem-se um aumento do êxodo rural, e um inchaço nas cidades.

Outro resultado desta modernização agrícola é o avanço do agronegócio, onde ela não só concentra a terra, mas também requer um aumento na quantidade de produtos químicos para garantir a produção em escala industrial, isso pode ser observado na Santana, que aumenta à quantidade de insumos agrícolas na produção pra que esta atenda ao mercado.
AGROTÓXICO

Como consequência do processo de modernização tem-se que enquanto em âmbito mundial o mercado de agrotóxicos cresceu 93%, no Brasil ele chegou a 190% (CARNEIRO, 2012), sendo definido agrotóxico, segundo Lei Federal nº 7.802/1989:

a) os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos; b) substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento;

Agrotóxicos também são conhecidos como defensivos agrícolas ou agroquímicos, esses são considerados produtos químicos que são responsáveis pelo combate (entende-se morte de alguns) de insetos, pragas, ervas daninhas, doenças. Compreendendo assim que à nocividade do agrotóxico também para os seres humanos, já que nos incluímos como seres vivos.

Pensando que no grau de toxicidade do agrotóxico e o quanto ele pode ser nocivo para o ser humano, podemos observar o quadro 1 com o grau de toxicidade dessa substância, eles podem ser pouco tóxico, medianamente tóxico, altamente tóxico, extremamente tóxico. Essa classificação dos agrotóxicos para o ser humano é fundamental, pois fornece a toxicidade desses produtos relacionados com a Dose Letal 50 (DL50). A Lei nº 7802, de 11 de julho de 1989, regulamentada pelo Decreto nº 4074, de 04 de janeiro de 2002, publicado no DOU de 08 de janeiro de 2002, dispõe que os rótulos deverão conter uma faixa colorida indicativa de sua classificação toxicológica. Essa varia de vermelho a verde onde: Vermelho é extremamente tóxico; amarelo representa altamente tóxico; azul sendo medianamente tóxico; e por fim verde representando pouco tóxico.

Classes

Grupos

DL50 (mg/kg)

Doses capazes de matar uma pessoa adulta

Cor da faixa

I

Extremamente tóxicos

≤5

1 pitada–algumas gotas




II

Altamente tóxicos

5 – 50

1 colher de chá – algumas gotas




III

Medianamente tóxico

50 – 500

1 colher de chá – 2 colheres de sopa




IV

Pouco tóxico

500 - 5000

2 colheres de sopa – 1 copo




Fonte: adaptado; Brasil (2005, 1998), Macêdo (2002) e Peres; Moreira (2003).

São vários os tipos de agrotóxicos comercializados que são classificados como a) inseticidas; b) fungicidas; c) herbicidas; d) acaricidas e e) rodenticidas. Cada tipo é composto por uma variedade de produtos químicos danosos à saúde. Alguns inclusive já foram banidos em várias partes do mundo mais ainda continuam sendo comercializados no Brasil.

A nomenclatura defensivo agrícola é utilizadas pelas empresas para diminuir os impactos que o nome agrotóxico ou que o nome que deveria ser usado, pode causar, veneno. Então são a mesma coisa, venenos que podem prejudicar a saúde ambiental, homem e meio ambiente. Eles são tidos como importante para o desenvolvimento da agricultura, pois é tido como uma solução para o combate de pragas e ervas daninhas. Mas olhando por outro viés, estes são vilões, sendo um problema grave para a saúde ambiental, já que se ela é uma substância para eliminar seres biológicos, insetos e pragas, o que diferencia dos seres humanos? Será que estas substancias não são altamente nocivas para os homens também, já que sua absorção se dá por várias partes do corpo, em especial pela pele?
OS CONFLITOS TERRITORIAIS

Nas sociedades pautadas no modo capitalista de produção, o espaço é construído dominantemente para atender as necessidades do mercado. Para tanto muitas áreas denominadas por Mário Lacerda de Melo (1980) como “áreas de exceção” no espaço semiárido nordestino, a exemplo dos perímetros irrigados, tem se voltado praticamente para atender as exigências do mercado, muitas vezes do mercado externo, utilizando técnicas capazes de aumentar a produtividade e a lucratividade em detrimento da saúde ambiental e da saúde da população. Desse modo eles são geradores de conflitos os mais diversos. O conflito é aqui entendido, segundo a CPT, como:

ações de resistência e enfrentamento que acontecem em diferentes contextos sociais no âmbito rural, envolvendo a luta pela terra, água, direitos e pelos meios de trabalho ou produção. Estes conflitos acontecem entre classes sociais, entre os trabalhadores ou por causa da ausência ou má gestão de políticas públicas (CPT, 2010, p.10).

O território é apreendido como uma porção do espaço que é determinado e delimitado por e a partir de relações de poder, que define, assim, um limite (alteridade) e que opera sobre um substrato referencial, em suma, o território é definido por relações sociais (SOUZA, 1995). Visto por este prisma entendemos que os perímetros irrigados são territórios construídos pelo Estado no espaço semiárido.

No caso do conflito territorial ele é aqui entendido diferentemente da visão mais geral adotada que traduz os conflitos por territórios entre Estados-nações, como sendo aquele conflito que envolve disputas entre interesses divergentes no âmbito de um determinado território e que podem envolver, no caso do campo, tanto camponeses e o agronegócio como também representação diferente do próprio agronegócio em torno de questões como água, terra e sistemas produtivos. Via de regra tais conflitos reproduzem o conflito de classes presente no modo de produção capitalista dominante e as disputas por território.
ESTADO X MOVIMENTO SOCIAL: CONFLITOS TERRITORIAIS E SAÚDE AMBIENTAL

A organização dos movimentos sociais pleiteia a ação da justiça de forma que o território de vida, também conhecido como território de esperança (MOREIRA, 2006), não se transforme em território de morte e desesperança. Dentro do perímetro o MST tem tido ações combativas ao capital, ai representado pela Santana Sementes, quanto a forma como se da a produção, com utilização maciça de agrotóxico. Isso vem acontecendo desde o momento em que eles eram acampados.

Sabe-se que o uso de agrotóxicos tem consequências graves para a saúde ambiental. Segundo Carneiro et al (2012)- Dossiê da ABRASCO, “para os seres humanos são inúmeros os problemas causados pelo uso de agrotóxicos. Eles variam da intoxicação aguda, aberrações cromossômicas, alteração na produção de hormônios, diminuição na produção de anticorpos tumorais, mortes neonatais e malformações congênitas, câncer etc. Todos esses possíveis problemas de saúde são confirmado por médicos, como Odent (2013), que em seu estudo aponta uma mudança no aparelho reprodutor masculino, pois são encontrados altos níveis de hormônios femininos nos venenos que são jogados na lavoura:

Recentemente os cientistas compreenderam que muitos produtos químicos fabricados, especialmente aqueles transmitidos via inseticidas, pesticidas, herbicidas, fungicidas e fertilizantes, potencializam-se entre sim e imitam hormônios. (ODENT, 2013, p. 32)

Sabendo que o uso de agrotóxico está diretamente ligado com as sementes transgênicas, e que essas estão sendo utilizadas no PIVAS, como afirmado pelo administrador em entrevista, “A semente do algodão plantada é geneticamente modificada pela multinacional Bayer [...] ainda possui capacidade de resistência às pragas, além de um curto ciclo de vida de até 120 dias.”2, e essa tem estudos comprovando, também, a sua nocividade ao ser humano, o Estado sendo conivente com o capital no sentido que não oferece a promoção ou a prevenção à saúde, já que essa é tida, segundo a OMS (1946 apud GUIMARÃES, 2014) como um bem estar físico, mental e social, e não somente a ausência de enfermidade. E que a saúde esta ligada a duas concepções, a médica e a social.

Entendendo que o uso indiscriminado de agrotóxico pela Santana Sementes pode ser prejudicial à saúde, não só dos assentados, mas de um todo, o MST vem através de ações combativas, no perímetro, como ocupações e manifestações, tentando denunciar o acontecido. Mas eles são hostilizados e o movimento sofre judicialização. Como aconteceu no ano de 2013, uma das lideranças do MST foi acusada de quatro crimes.

Um dos projetos da Via Campesina3 é no dia 8 de março fazer não só a luta do dia das mulheres, mas também fazer a luta contra o agronegócio, os agrotóxicos, em defesa da Soberania Alimentar4, essa campanha foi aderida pelas mulheres do PA Nova Vida I, pelo fato de:

No dia 8 de março, é puxado o dia internacional da mulher, ai nós mulheres é quem puxamos essas ações, aqui na Paraíba. O 8 de março não é o dia internacional da mulher é o dia internacional de luta pela soberania alimentar. A gente mulher é quem se preocupa por alimentação de casa, dos filhos, da família. (Conversa com Cicinha, Assentamento Vida Nova I, 06/07/2013, grifo nosso).

No dia citado ocuparam as terras pertencentes à Empresa Santana, não só para denunciar o uso abusivo de agrotóxico, mas também para mostrar a sociedade civil o uso de agrotóxico e quais os problemas que eles podem causar. Com isso também denunciar o papel de Estado diante da empresa e os financiamentos fornecidos por ele e a falta de fiscalização, quando ele compactua com um ato criminoso, onde há uma pulverização de agrotóxico e essa contamina a saúde ambiental do lugar.

A Sem Terra Cícera Soares Timóteo foi presa e acusada de roubo, dano do patrimônio privado e incêndio. “O Grupo Santana, principal privilegiado pelas políticas públicas de distribuição de água, se coloca como vítima e acusa injustamente a Companheira Cícera por meio do Ministério Público Estadual, que entrou com o mandado de prisão”. Os Sem Terra exigem a imediata libertação de Cícera Soares e a retirada do mandado de prisão. Prometem seguir com as denúncias, resistindo contra a privatização das águas e da terra, e lutando pela mudança do modelo de produção no semiárido com o objetivo de trazer o desenvolvimento humano para a população da Paraíba. “Não aceitamos mais a indústria da seca e esse modelo de produção que desumaniza, alertando que as mulheres e crianças são os que mais sofrem com o desvio de recursos públicos, que deveriam ser utilizados para a convivência com o semiárido e que são historicamente empregados em benefício das oligarquias e atualmente também por empresas do agronegócio”

Nesse ato o Estado afirma de que lado esta com a criminalização do judiciário5. Mas ele não só compactua nesse momento, isso acontece também, na forma de policia, quando eles fazem rondas no momento da pulverização da Empresa Santana, para que não haja o fechamento da BR-230 pelo MST. Mas rondas vão além de simples passagem, uma das assentadas afirma que eles também fazem abordagem as pessoas se tiverem sentadas na frente do PA Nova Vida I.

Quando eles tão pruverizandoai, fica tanto o carro que tem o nome da empresa como o da polícia, vindo e descendo, o dia e a noite. Enquanto eles tiverem pruverizando, eles tão subindo e descendo. Dando apoio a ele. Se eles vê a gente debaixo daquele pé de algarobaalí, conversando, eles pára. Já chegou a parar a polícia... Parou, desceu e perguntou: vocês tão fazendo o que ai? Ai a gente disse, é proibido a gente tá debaixo da árvore. [...] a gente tava conversando com raiva da catinga do veneno.” (Assentamento Vida Nova I, 19/05/2014).

Durante uma visita de campo, no ano de 2014, à empresa, foi observado que essa proteção da polícia para com a empresa não se da nos momentos da ronda. Além do porteiro e de um segurança da empresa, houve uma recepção por um policial fardado. A partir disso podemos ver a ação do Estado não é pontual.

O Estado sempre negando o lado mais prejudicado, nesse momento nos hospitais, os assentados sentem sintomas de intoxicações, vão ao médico e o mesmo passam apenas soro como medicação e indicam a ingestão de bastante água, mas não passam nenhum tipo de exame para constatar que os mesmos poderiam estar intoxicados, já que são casos frequentes e esses acontecem no mesmo período de pulverização da empresa Santana Sementes.

A Empresa Santana, vem fazendo uso abusivo de agrotóxico, e esse agrotóxico vem prejudicando as famílias daqui não só daqui, mas também a do outro assentamento (referente ao outro lado do assentamento). Em 2011, antes da gente receber o titulo da terra, a gente teve aqui 17 famílias [...] que foram intoxicadas por conta da aplicação de veneno [...] algumas conseguiram laudos médicos, fizemos luta e juntamos as coisas e levamos para o ministério público, em relação a esse prejuízo, não só da lavoura. Choveu bastante esse ano e a água que veio pra cá foi com veneno. Então a gente não conseguiu produzir direito e o prejuízo maior foi com a saúde, sendo esse um prejuízo que não tem reparo. Em vista disso a gente teve que se organizar mais, mobilizar mais, pedimos ajuda do ministério público, fechamos a Br-230, foi pedido para que fosse feita a análise do solo, da água, tanto da Santana como daqui. As coisas ficaram acordadas com o ministério público, mas nada aconteceo (Conversa com Cicinha assentada do Assentamento Vida Nova I, em 06/07/2013).

Segundo os assentados, só após eles, junto com o MST, entrarem com um processo6 junto ao Ministério Público é que a empresa mudou o tipo de agrotóxico eles utilizavam na lavoura. Segundo os mesmos falam que esse é um pouco mais leve aoanterior.

A partir de todo o exposto, nesse tópico, vê-se que os assentados tem grande problemas relacionados à saúde, entendendo aquela concepção de saúde já citada, com as suas concepções médicas e sociais, essas sendosubdivididas, respectivamente, em: a) somático fisiológica, essa relacionada ao equilíbrio físico no organismo; b) psico física, que tem relação entre o corpo e psique dos indivíduos; c) sanitarista, têm-se as condições coletivas que relacionam o ambiente com que o ocupa; d) político legal; sendo o interesse comum baseado no direito à integridade; e) econômica, como um bem escasso relacionado com a produtividade que exige inversão; f) sócio cultural, com uma atitude para o bom desempenho dos papeis sociais. Assim observando que tudo citadosão relacionados aos problemas que eles tem dentro do assentado, como a relação da pulverização, a criminalização tanto do movimento quanto do judiciário, as lutas pela terra e para permanência na mesma, todas age diretamente nessas subdivisões supracitadas, tanto social como médica, essa influenciando na saúde e assim na saúde ambiental.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a grande propriedade, quando trabalha no molde da industrialização, é altamente danosa e prejudica a saúde ambiental, sem preocupação alguma com as consequências, já que essa tem como objetivo de produzir de forma a extrai o máximo de lucro possível. Ela também tem grande influencia sobre a balança comercial brasileira, por esse motivo o Estado investe nesse tipo de produção, fecha os olhos e serve como um repressor (polícia), onde deveria ser protetor da população. Com isso entende-se que uma forma de denunciar e lutar contra esses acontecimentos os trabalhadores se unem, e são apoiados pelos movimentos sociais reivindicam para que o território não se torne hostil à vida.



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ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Dossiê ABRASCO – Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Parte 2 - Agrotóxicos, Saúde, Ambiente e Sustentabilidade. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2012b.

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1 Grupo de Estudo Trabalho Espaço e Campesinato, coordenado pela professora doutora Emilia de Rodat Fernandes Moreira.

2http://gruposantanarn.com.br/paraiba-retoma-cultura-algodoeira/

3É um movimento internacional que reúne milhões de camponeses, pessoas sem terra, povos indígenas, migrantes e trabalhadores agrícolas em todo o mundo . Defende a agricultura sustentável em pequena escala, como forma de promover a justiça social e dignidade. Ele se opõe fortemente ao agronegócio e das multinacionais que estão destruindo as pessoas e a natureza.(www.viacampesina.org/)

4Produção e comercialização de comida, vinculada à cultura e ao modo de vida do povo. Tem-se uma diversificação. Cultura e hábitos alimentares saudáveis e respeito ao meio ambiente. (http://www.mpabrasil.org.br/soberania)

5Antes disso, creio na possibilidade de forjar um outroconceito, complementar aos dois anteriores, o de criminalização do judiciário. Ou seja, o Poder Judiciário atua, tendenciosamente e de forma arquitetada, à revelia das leis, para prover os interesses dos fazendeiros e inocentá‐los de uma série de acusações, inclusive de assassinatos.

6 Não foi possível ver o processo, pois no momento da visita de campo a pessoa com quem estava o processo não estava no assentamento, mas todos os assentados entrevistados falaram sobre o processo e a mudança de agrotóxico.


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