Comunitarismo



Baixar 14,02 Kb.
Encontro14.09.2017
Tamanho14,02 Kb.
COMUNITARISMO

Texto extraído do livro de M. Assunção Vilhena, Gentes da Beira-Baixa (Aspectos etnográficos do Concelho de Proença a Nova)

… Eram comunitários os fomos, as eiras, o lagar, o alambique, o pulverizador, os moinhos, o almofariz, a balança de pesar os porcos, os rebanhos, as águas das regas, o esquife e a casa onde se guardava. Os bens comunitários variam de uma povoação para outra, assim como os respectivos sistemas.


Moinho

O moinho era um bem comunitário. No Vale da Carreira sempre houve e há o moinho do povo. Em Sobral Fernando, onde houve tantos moinhos, resta um, na ribeira da Froia, que hoje também é do povo (104).

Como é uma região de muitos cursos de água, embora muitos deles de caudal temporário, os antigos moinhos de rodízio horizontal com dentes de

madeira e, mais tarde, de metal, abundavam por toda a parte (105). Muitos caíram em ruína, outros foram levados pelas cheias (106) mas ainda restam alguns; uns silenciosos, outros continuando a sua vocação: moer o milho para alimentação dos animais ou para algumas fornadas de broa para os mais saudosos...

A maioria dos moinhos, desde sempre, seguiu o sistema da propriedade por grupos (107) que, herdando-os dos antepassados, tinham o dever de contribuir para a sua conservação, servindo-se deles à vez, em geral, um dia e uma noite seguidos. Nas Corgas, aos membros do grupo chamavam cabeças (108).

Uma pessoa podia ter herdado várias cabeças, o que lhe dava direito de

moer tantas vezes quantas as cabeças de que era proprietário. Todos os do

grupo sabiam de cor o número de cabeças de cada um, por isso não havia

problemas. O moinho estava fechado à chave e a última cabeça que moía

passava a chave à cabeça seguinte. Quando havia despesas a fazer com o

moinho, eram divididas pelo número de cabeças e não de proprietários.

Quem não pertencia a nenhum grupo e não tinha moinho pedia, a quem o

tinha, autorização para lá ir moer o seu pão.

Nas povoações mais afastadas dos maiores cursos de água, quando os ribeiros secavam tinham de recorrer aos moinhos de vento, onde os havia -

Cimadas, Pedra do Altar, Atalaia e Montes da Senhora, único lugar onde encontrei um restaurado como monumento etnográfico. Os restantes desapareceram.

Antigamente, as pessoas da vila serviam-se dos moleiros profissionais que tinham os seus moinhos de água nas ribeiras, ou dos proprietários dos moinhos de vento. Também a eles recorriam os das aldeias quando os seus

não podiam moer por falta de água (109). Esses moleiros cobravam maquia que era geralmente de 1 litro por cada alqueire de pão que mandassem moer (110).

Parece que havia uma certa antipatia pelos moleiros e costumavam dizer



deles: "O corno do moleiro mete o gadanho na farinha" (111).
104 No Alvito, nos nossos dias os únicos' bens comunitários que existem são os moinhos da ribeira.

105 Nos cursos de água junto aos Cunqueiros chegou a haver 28, dos quais restam apenas 3.

No Malhadal, onde havia perto de uma dezena, não há nenhum a funcionar. Quem precisar de moer algum milho para os animais tem de ir aos Braços, ria outra margem da ribeira da Isna, onde a irmã do último moleiro lhe faz o favor de deixar servir-se do moinho.

106 No ribeiro dos Estevês havia 11 moinhos, mas as cheias do Natal de 1989 levaram 7. Dos restantes,s6 três funcionam para servir o povo. Noutras povoações, como Vale d'Urso, Esfrega, Dáspera, etc., ainda funcionam 2, 3 ou 4 moinhos mas poucas vezes porque há moinhos eléctricos.

107 No Carvalhal, cada proprietário tem o seu moinho.

108 Na Atalaia em vez de cabeças dizem quinhões.

109 Na Maljoga, quando a ribeira já não dava água para a levada do moinho, para conseguirem moer o pão, usavam o sistema de zingarrilha, que consistia num pau comprido liga doa outro curto em ângulo recto. Este metia-se no buraco da mó e uma mulher pegando na vara comprida empurrava-a imprimindo movimento às mós (como a besta na nora) enquanto outra pessoa ia deitando milho na moega.

110 Os moradores do Cabeço do Moinho mandavam moer o seu grão nos moinhos da Folga, do Belanzel ou da Aldeia Ruiva, moinhos particulares que trabalhavam à maquia. Havia muitos no concelho. Veja-se a história da Tia Moleira. O moleiro era uma figura típica, com o seu burrinho à frente, carregado de sacos, percorrendo quilómetros e quilómetros a pé.

111 O gadanho era uma espécie de concha, com que se tiravam as couves da panela; tinha o cabo perpendicular à concha. Aqui, refere-se à mão.


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal