Comédia em dois atos de Luis Alberto de Abreu



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O PARTURIÃO

 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



Comédia em dois atos de 

 

Luis Alberto de Abreu

 

 

Especialmente escrita para encenação de 



 

Ednaldo Freire e Companhia de Artes e Malas-artes 

Adaptação: Grupo Encena de Teatro

PRÓLOGO: 

 

PERSONAGENS DISPOSTOS EM FORMAÇÃO NO PALCO COM CORPO ENCOLHIDO 

E CABEÇA BAIXA, COMEÇAM A SE LEVANTAR DURANTE A INTRODUÇÃO DA 

MÚSICA INICIAL, E APÓS A INTRODUÇÃO CANTAM. 

 

1.  ABERTURA 

 

HOJE VAMOS LHES CONTAR 

O QUE FOI QUE SUCEDEU 

FOI HÁ MUITO TEMPO ATRÁS 

PORÉM NÓS NÃO “SE ESQUECEU” 

 

A HISTÓRIA COMEÇOU 

DISSO EU ME LEMBRO BEM 

COM DOIS VELHOS BEM DE VIDA 

QUE SE ORGULHAM DO QUE TEM 

 

MAS OS DOIS ERAM RIVAIS 

NÃO PODIAM NEM SE VER  

O ESTRANHO É QUE UM ROMANCE 

DESSA HISTÓRIA VAI NASCER 

 

2X 

ESSE CAUSO QUE NÓS VAMOS LHES CONTAR 

É UMA HISTÓRIA QUE O TEMPO NÃO DESFEZ 

ENTÃO DIGO PRA PRESTARES ATENÇÃO 

VAMOS CONTAR SÓ UMA VEZ 

 

ENTÃO DIGO PRA PRESTARES ATENÇÃO  

VAMOS CONTAR SÓ UMA VEZ 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENA 1 - O ENCONTRO DE VELHOS INIMIGOS

 

 



 

CENÁRIO: À ESQUERDA DO PALCO ESTÁ A CASA DE MANÉ 

 

MARRUÁ,  UM  COMERCIANTE  DE  SECOS  E  MOLHADOS  O

 

ARMAZÉM  A  RÉS  DO 

CHÃO. DO LADO DIREITO ESTÁ A CASA DE TABARONE, AO FUNDO E AO CENTRO 

UMA PRAÇA COM UM CARAMANCHÃO.

 

 



NO DRAMA FICAM APENAS MANÉ MARRUÁ E JOÃO TEITÉ, OS OUTROS 

AUXILIAM COM EFEITOS SONOROS E CENOGRAFIA ENQUANTO INTERAGEM 

COM A CENA

 

 



MANÉ MARRUÁ

 

Não! Eu disse, não! (ENTRA JOÃO TEITÉ.)



 

 

JOÃO TEITÉ



 

E o senhor não prometeu, uai?!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

E, agora, desprometo, pronto!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

E eu fico assim, é?

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Assim, assado e de rabo virado!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Mas eu só ganho meio salário!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Pois! Tu vales meio homem! Além do mais, comes e bebes de minha 

mesa e dormes debaixo de meu teto!

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Tão pouco como que há uma semana que não descomo, seu Marruá.



 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Não o que?

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Não descomo, não obro, não borro, não visito a casinha 

, seu Marruá! Isso não é normal!

 

 



MANÉ MARRUÁ

 

E o que você quer?



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Quero aumento de salário prá comer mais um bocadinho. O bocadinho vai 

fazer as engrenagem do “estrâmbo” funcionar, o estrâmbo manda o bocadinho que comi pros 

tubo das tripa grossa, as tripa macetam aquilo tudinho e jogam pras tripa fina. Aí, as tripa se 

enrolam e roncam de contentamento e eu falo "é hoje e é agora!" Aí, eu corro, sento e "oh!, 

felicidade!" Isso é tudo que eu quero, seu Marruá.

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Que vergonha, João Teité! O homem busca é riqueza, liberdade, mulheres.

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Eu também! Mas, depois.

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Está bem. Prá não dizeres que sou  mau  patrão vou resolver seu problema.

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Me dá um aumento?

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Dou-te um laxante!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(IRRITADO E VALENTE.) Não abusa de um  infeliz, velho muquirana!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

O que?


 

 

JOÃO TEITÉ



 

É isso! Velho semítico, mão de vaca, avarento!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

(DA UM SOPAPO EM TEITÉ

.)

 

Isso é prá aprenderes bons modos!



 

 

TABARONE



 

(ALTO, PARA MATIAS CÃO.) Aprende: Il dinheiro non fá la buonna

 

 

educazione!



 

 

MANÉ MARRUÁ



 

É comigo, ladrão?

 


 

TABARONE


 

Non sono tuo parente!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Teité! Enche de bolacha a cara desse advogadozinho ladrão que eu garan-

 

 

to!



 

 

JOÃO TEITÉ



 

(TENTANDO COLAR O NARIZ.) Primeiro vai lá e amarra o homem

 

 

de pé e mão!



 

 

MATIAS CÃO



 

No meu patrão ninguém bole!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(AINDA FANHO.) Eita, mas isso é empregado ou é candidato a marido!?

 

 

MATIAS CÃO



 

Deixa  que isso eu  resolvo! (AVANÇA  PARA  MARRUÁ  QUE  LHE

 

 

MORDE  A  ORELHA.  MATIAS  CORRE  GEMENDO.  MANÉ MARRUA E TABARONE 



COMEÇAM A BRIGAR, MATIAS CAO E JOAO TEITE SE OBSERVAM E SE 

RECONHECEM)

 

 



 

JOÃO TEITÉ

 

Matias Cão!



 

 

MATIAS CÃO



 

João Teité!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Resto de coisa ruim!

 

 

MATIAS CÃO



 

Pedaço de animal! (ABRAÇAM-SE.)

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Quitempo!

 

 

MATIAS CÃO



 

Homem, eu não te vejo desde que tu fez mal à cabra de seu Severiano, lá

 

 

em Viçosa!



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Não lembra, homem, que meu coração se aperta de saudade! Mas espia,

 

 

que coisa feia! Dois velhos brigando no meio da rua!



 

 

MATIAS CÃO



 

Vamos apartar?

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Deixa! Enquanto pau quebra no lombo deles, o nosso descansa.

 

 

 



 

CENA 2 - O AMOR QUE NASCE DA INIMIZADE

 

 



 

TABARONE


 

Quest'uomo é um desclassificato!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

E você é um rábula.

 

 

TABARONE



 

Rábula, non! Seu morruga!

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Não me chama de morruga, milho da fruta!

 

 

TABARONE



 

Chè?


 

 

MANÉ MARRUÁ



 

(ESCANDINDO AS SÍLABAS.) Mi-lho da fru-ta!

 

 

TABARONE



 

(TRANSTORNADO, DEPOIS DE UM SEGUNDO DE PERPLEXI-

 

 

DADE.) Será chè io entendi o que tu non disse, ma pensou e quis me fazer 



entender?!

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Entendeu! Ele quis dizer que a sua "mão" não era séria!



 

 

 



 

 

 



TABARONE  Cretino

 

 



MANÉ MARRUÁ

 

Você ainda me paga, ladrão!



 

 

TABARONE



 

Questo vediamo!  

 

(COM MÚSICA E NARRATIVA, OS PATRÓES SE TRANSFORMAM NOS FILHOS



ROSAURA BEIJA FABRICIO

 

 



E AGORA TUDO VAI SE TRANSFORMAR 

VAMOS LHES CONTAR O QUE ACONTECEU 

UM AMOR TÃO PROIBIDO 

QUANTO O DE JULIETA E ROMEU 

 

ESSA CENA É TÃO DIFÍCIL IMAGINAR 



DA BRIGA DOS PAIS NASCER UMA PAIXÃO 

MAS NÃO TEVE JEITO NO PRIMEIRO OLHAR 

FALOU MAIS FORTE O CORAÇÃO 

 

 



 

FABRÍCIO


 

(ENVERGONHADO.) Que é isso, Rosaura?!

 

 

ROSAURA



 

É amor!


 

 

FABRÍCIO



 

Mas mal nos conhecemos.

 

 

ROSAURA



 

A paixão está além das convenções sociais, da moral burguesa...

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Da vergonha na cara...(MATIAS DÁ-LHE UM CASCUDO.)

 

 

FABRÍCIO



 

Nossos pais são inimigos.

 

 

ROSAURA



 

E que culpa temos nós?

 

 

FABRÍCIO



 

Se ao menos a gente soubesse porque eles não se dão.

 

 

ROSAURA



 

Meu pai diz que o seu é um salafrário.

 

 

FABRÍCIO



 

E o meu diz que o seu é um ladrão.

 

 

ROSAURA



 

Não fala assim do meu pai!

 

 

FABRÍCIO



 

Então não fale do meu!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Gente, não vamos começar a brigar só por isso. É só mudar a ordem. Sa-

 

 

lafrário é um e ladrão é o outro! (LEVA CASCUDO DE FABRÍCIO E



 

 

ROSAURA.) Só queria ajudar! (MATIAS CÃO O TIRA DE PERTO.)

 

 

FABRÍCIO



 

Onde esse tempo todo passeava a beleza de seus olhos?

 

 

ROSAURA



 

E onde se escondia a beleza do seu sorriso?

 

 

FABRÍCIO



 

Prá onde voavam os meus sonhos antes de te conhecer?

 

 

ROSAURA



 

Dê-me um beijo.

 

 

FABRÍCIO



 

Não sei se devo.

 

 

ROSAURA



 

Não me ama?

 

 

FABRÍCIO



 

Ardo de paixão.

 

 

ROSAURA



 

Então?


 

 

FABRÍCIO


 

Não quero precipitar nada.

 

 

 



JOÃO TEITÉ

 

(EXCITADO, AGARRA MATIAS.) Precipita, homem! Cai de cabeça!



 

 

(AGARRANDO MAIS A MATIAS.) Beija essa boquinha!



 

 

MATIAS CÃO



 

(EMPURRANDO TEITÉ) Sai prá lá!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Me entusiasmei!

 

 

MATIAS CÃO



 

 Se a dona não pegar o rapaz à unha, não rende nada hoje.

 

 

JOÃO TEITÉ



 

É, isso aí não abre o apetite nem mata a fome!

 

 

 



 

CENA 7 - SAFADEZA POUCA É BOBAGEM

 

 



 

 

 



(MARRUÁ SILENCIOSAMENTE ABRE A JANELA ACIMA DOS NAMORADOS. À 

PARTE.)

 

 



MANÉ MARRUÁ           Mas que raios está a haver debaixo de minha janela? Parecem  

suspiros de amor. Mas de quem serão? De Fabrício?  Não! Dizem por aí  que ele não é muito 

chegado ao doce. E  isso é coisa que me preocupa. (GRITA.) Mas que diabos de gemedeira 

indecente é essa sob minha janela? Não respondem? Pois, eu desço e acabo essa semvergonhice 

no braço! 

 

ROSAURA          Matias, se apresente! (MATIAS SE MOSTRA.) 



 

MANÉ MARRUÁ       Então és tu, condenado? Por que não vais gemer debaixo da janela de seu

 

patrão?! E com quem estás aí embaixo, desgraçado? Com Mateusa? 



 

FABRÍCIO             Se apresente, Teité! 

  

JOÃO TEITÉ         Eu? E o que o seu Marruá vai pensar de mim? 



 

FABRÍCIO             Vamos! 

 

JOÃO TEITÉ         Nem mordendo! 



 

ROSAURA            É por uma boa causa. 

 

JOÃO TEITÉ         E desde quando passar por chibungo é causa boa? Vai o senhor, seu Fa-



 

brício! 


 

FABRÍCIO             Eu sou seu patrão! 

 

JOÃO TEITÉ          E não pode passar por fresco? E empregado pode, é? 



 

MANÉ MARRUÁ  Quem mais está aí? (FABRÍCIO EMPURRA TEITÉ. ESTE FICA À

 

VISTA E TENTA SE ESCONDER NOVAMENTE.) Teité? Já te vi, sem

 

13



 

vergonha! Mas que raio que agora viraste paneleiro?! (TEITÉ PÕE-SE

 

 



NOVAMENTE À VISTA, VEXADO.)

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Não é o que o senhor está pensando!



 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Não! É o que eu estava escutando e agora estou vendo!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Quer saber a verdade?

 

 

FABRÍCIO



 

Eu te mato!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(ACOVARDANDO-SE ANTE A AMEAÇA DE FABRÍCIO.  PARA

 

 

MARRUÁ.) Que é que tem? Que é que tem? Hoje isso é normal! Bati o olho e gostei, pronto! 



Não vou me recalcar, me reprimir porque meu  analista falou que não é bom!

 

 



MATIAS CÃO

 

Cala a boca, idiota!



 

 

JOÃO TEITÉ



 

(PARA MATIAS.) Ah, bem, não fala assim! Quando você veio jogando

 

 

charme prá cima de mim você não falou dessa maneira!



 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Minha Nossa Senhora de Fátima!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Deixa de ser atrasado, Marruá! São novas experiências, estou me  abrindo

 

 

para o mundo! E depois, o Matias é bom, carinhoso e trabalhador. Já até  me comprou o anel de 



noivado!

 

 



MANÉ MARRUÁ

 

Estou a sonhar! E há quanto tempo acontece essa senvergonhice?



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Calma, que foi só hoje que ele veio me pedir em namoro.

 

 

MANÉ MARRUÁ



 

Eu não acredito! O mundo está perdido!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Mas fica tranquilo, seu Marruá, que eu não vou desonrar a sua casa. 

Comigo, só casando!

 

 



MANÉ MARRUÁ

 

(DEFINITIVO.) É um sonho! Eu estou sonhando! (FECHA A JANELA



 

 

E SE RECOLHE.)

 

 

 



 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENA 8 -TEITÉ JURA VINGANÇA

 

 



 

 

(MATIAS CÃO INVESTE SOBRE TEITÉ DANDO-LHE CASCU-

 

 

DOS.)



 

 

MATIAS CÃO



 

Toma, desgraçado! Toma!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Isso! Bate em quem te ama! Magoa quem te quer!

 

 

MATIAS CÃO



 

Se você não calar a boca...

 

 

ROSAURA



 

Deixe, Matias! (BEIJA TEITÉ.) Obrigado, Teité.

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Eita! Me dê outro beijo desse e eu viro travesti, se a senhora quiser.

 

 

FABRÍCIO



 

Não fica muito confiado, não, Teité!

 

 

MATIAS CÃO



 

(A TEITÉ) Essa eu desconto! Você não perde por esperar!

 

 

ROSAURA



 

(A FABRÍCIO) Adeus, Amor.

 

 

FABRÍCIO



 

Sonha comigo. (SAEM MATIAS E ROSAURA. PARA TEITÉ) Você

 

 

esteve ótimo!



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Eu até que merecia uma recompensazinha, não merecia?

 

 

FABRÍCIO



 

Você merecia muito mais. Você merecia o mundo. (ENTRA.)

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Rico só promete o que não é dele. Mas eu me vingo da vergonha que você

 

 

me fez passar! Vocês não conhecem João Teité! (RI E SAI.)



 

 

 



MATIAS CÃO VENITE QUI 

UM LAVORO VOI TE ARRUMAR 

IO QUERO QUE TU ENTREGUE ESTE BLIGLIETITO 

A BORACEIA MOGLIE DO MARRUÁ 

 

TABARONE        O que vou te dizer é segredo,eh? A moglie dele, a Boracéia, ante de casar, teve 



comigo, como io direi...  

MATIAS CÃO      Uns rala-rala?  

TABARONE         O que?  

MATIAS CÃO      Driblou na área mas não chegou na rede? 

TABARONE         Mas que cáspita está falando?  

MATIAS CÃO      Arranhou as bordas sem chegar ao fundo?  

TABARONE        Ecco! Ma ou meno. Acontece que io era um pobre imigrante italiano e o 

desgraçado do português me roubou a ragazza e io quero pregar um par de chifre na testa de 

quello disgraciato, hai capito?  

MATIAS CÃO       O senhor quer que eu dê em cima da mulher dele?  

TABARONE          Nó, cretino! Questo faço io. Io quero que tu me marque um encontro esta 

noite num lugar sossegado, entende? 



 

HOJE É SEU DIA DE SORTE POIS EU QUERO ME VINGAR 

POR QUE AQUELE LAZARENTO VERGONHA ME FEZ PASSAR 

ME CHAMOU DE PANELEIRO, EU NÃO POSSO ACEITAR 

VAMOS BOTAR PRA GEMER COM O MARRUA  

 

(Entra Rosaura) 



 

 JOÃO TEITÉ ME FAÇA UM FAVOR 

MARQUE UM ENCONTRO COM MEU GRANDE AMOR 

 

O QUE É QUE EU GANHO 



EU TE DOU UM BEIJO 

ISSO NÃO MATA FOME 

E MAIS UM PÃO DE QUEIJO 

 

O QUE É QUE EU DIGO PARA O MEU PATRÃO  



QUE ME ENCONTRE A NOITE NO CARAMANCHÃO 

 

CHEGOU O DIA DE FAZER O AMOR REINAR 



UNIR NOSSAS FAMILIAS OU FUGIR DESSE LUGAR 

AH FABRICIO TE ENTREGAREI MEU CORAÇÃO 

O DESTINO, ESTÁ EM NOSSAS MÃOS 

 

JOÃO TEITÉ         Eita, mulherão fornido, siô! Pena que não é pro meu bico. É pro bico do 



Fabrício, um homem tão frouxo que nem ciscar não cisca. Amor é cego e burro! Essa daí vai é 

passar vontade. Ah! se fosse com eu! Ah! se essa noite fosse prá mim! Antes da arrelia, da 

"senvergonheira", do "vem cá, neguinha", a gente ia fazer o maior banquete! Mandava servir 

três leitão assado, uma dúzia de galinha ensopada, um boi na brasa, cinco travessa de arroz, 

molhos, bebidas e tortas e tudo. E a dona Rosaura abrindo aquela boquinha linda dela e 

deglutindo, deglutindo. Eita que eu me distraio e não entrego o tal do bilhete Mas, por que? 

Por que eu tenho de ir feito doido atrás dele? Teité faz isso, Teité faz aquilo, não é, seu 

Fabrício? Mas um dia a onça vai beber água e é aí é que leva chumbo! Chegou seu dia, 

Fabrício! É hoje que me vingo! É hoje que eu te engano, engano a Rosaura que deve de ser 

mais gostosa que farofa de miúdos com arroz de carreteiro! Você não vai saber desse 

encontro, não, Fabrício, porque nesse encontro, vou eu!  

 

 



 

 


 

 

 



 

CENA 14 - O DESENCONTRO

 

 



 

 

(ANOITECE.  SORRATEIRAMENTE,  JOÃO  TEITÉ,  VESTIDO COM ROUPAS DE 



FABRÍCIO, SAI DA CASA DE MARRUÁ. OLHA-SE FELIZ.)

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Tirando a minha macheza estou o Fabrício escrito. Até melhor em razão



 

 

do meu charme natural. Teité, Teité, hoje você se dá bem. (SAI POR UM



 

 

LADO. O OUTRO LADO ENTRA MATIAS. PARA EM FRENTE A

 

 

CASA DE TEITÉ E CHAMA BAIXO POR FABRÍCIO.)



 

 

 



 

(TEITÉ CHEGA AO CARAMANCHÃO. LÁ EXISTEM DOIS BANCOS,  UM  DE  COSTAS  

PARA  O  OUTRO.  TEITÉ  SENTA-SE  AGUARDANDO.

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Dois passarinhos com uma estilingada! É só eu falar o menos possível que,



 

 

neste escuro, Rosaura nem vai perceber. Ô-le-rê! Teité você vai se dar



 

 

bem!  (ENTRA  TABARONE  E  DÁ  UM  LEVE  ASSOBIO.  TEITÉ



 

 

RESPONDE COM OUTRO ASSOBIO.)

 

 

TABARONE 



É ela! 

 

JOÃO TEITÉ 



É ela! (TROCANDO ASSOBIOS TABARONE SE APROXIMA E 

 

SENTA-SE NO BANCO CONTRÁRIO.) 

 

JOÃO TEITÉ



 

(À PARTE.) Porque ela não fala nada? (ASSOBIA. TABARONE RES-

 

 

PONDE.) Está se fazendo de tímida!



 

 

TABARONE



 

(À PARTE.) Benne, se ela non parla niente io vou tomar la iniciativa.

 

 

(PASSA O BRAÇO EM VOLTA DO PESCOÇO DE TEITÉ. ESTE



 

 

SUSPIRA EXCITADO.)

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Eu vou cair de sola. Vou desprezar a teoria e vou na prática da coisa!

 

 

(SEGURA  A  MÃO  DE  TABARONE  E  COM  ELA  ACARICIA  O



 

 

PRÓPRIO ROSTO.) Ah, que mãos finas, delicadas! (BEIJA-A.) Até os

 

 

pelos são tão macios! (APREENSIVO) Pelos?! Mas, que...? Rosaura! É



 

 

você, querida? 



 

TABARONE


 

Parla  più  alto,  amore  mio.  Non  escuto  benne,  Boracéia.  (ENTRAM

 

 

MARRUÁ, BORACÉIA E FABRÍCIO)



 

 

JOÃO TEITÉ



 

(ASSUSTADO, TENTANDO SE LEVANTAR.) Boracéia?  

 

MATIAS CÃO        Boracéia, quanto tempo que eu não vejo a senhora, está mudada, Seu 



marruá está investindo pesado nessa égua. Arrumou os dente, lustrou os casco, cortou as crina, 

O potranca, deixa eu engatar a minha carroça ai pra depois ocê galopar no meu pasto.  

 

BORACEIA              Vem feito besta que ocê leva é coice. 



 

MATIAS CÃO          Isso, pesoteia na ferradura do meu coração 

 

BORACEIA              Se é coice que ocê quer, é coice que ocê vai levar 



 

(Entra Rosaura) 

 

ROSAURA                 O que essa lazarenta está fazendo aqui?  



 

BORACEIA                O que você disse?  

 

MATIAS CAO           Lazarenta! 



 

BORACEIA               Se eu te pego eu te destripo 

 

(Garotas brigam)  



 

MATIAS CÃO          Ei, vamos parar gente, vamos nos amar nós três que é mais gostoso, 

vamos fazer igual o casalzinho que está ali no banco.. 

 

BORACEIA e ROSAURA: No banco?  



 

ROSAURA               Aquele banco tinha hora marcada 

 

BORACEIA             É eu tinha combinado com o seu... Olha lá, quem será que é?



 

 

TABARONE



 

Não vá, amore mio!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(COM VOZ EM FALSETE) Preciso ir, paixão!

 

 

TABARONE



 

Nunca! Só depois de io baciare questa tua boquinha!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(FAZ CARA DE NOJO E FINGE CUSPIR.) Onde foi que você se me-

 

 

teu, Teité? Que enrascada, meu Deus! (ENTRAM MATIAS E ROSAU-



 

 

RA E PÕEM-SE À ESPREITA.)

 

 

TABARONE



 

Ricorda do que tu mais gostava?

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(APREENSIVO) Eh, diacho! (TABARONE BELISCA-O. TEITÉ GE-

 

 

ME.)



 

 

TABARONE



 

Ricorda! Tu gostava, tu gemia.

 

 

JOÃO TEITÉ



 

(DESESPERADO) Ai, Jesus! (EM FALSETE) Isso dói, bem! Ai! Para,

 

 

pô! (DÁ UM TABEFE EM TABARONE E TENTA SOLTAR-SE. ES-



 

 

TE O AGARRA MAIS.)

 

 

TABARONE



 

É questo! Me bate, me arranha, me ama que sonno apassionato!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Alguém me acuda!

 

 

ROSAURA



 

Meu pai!


 

 

TABARONE



 

Que cosa é questa?

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Eu é que pergunto!

 

 

TODOS



 

Nós é que perguntamos!

 

 


JOÃO TEITÉ

 

Tudo na vida tem um sentido, uma razão, uma boa explicação. Fala, seu



 

 

Tabarone!



 

 

TABARONE



 

Questo foi armaçon! (A MATIAS) Tu armou questa confuzione  

prá me desmoralizar!

 

 



MATIAS CÃO

 

Eu? Na vida amorosa do meu patrão eu não me meto! Só quero saber de 



suas intenções? Vai casar ou só quer se aproveitar da ingenuidade

 

 



do rapaz?! (RI)

 

 



TABARONE

 

Io  te  mato!  (AVANÇA  SOBRE  MARRUÁ.  FORMA-SE  UMA



 

 

GRANDE CONFUSÃO DA QUAL FICA FORA TEITÉ QUE TUDO

 

 

ASSISTE DIVERTINDO-SE.)



 

 

 



 

 

 



CENA 18 - TEITÉ, TEITÉ

 

 



 

ROSAURA             Chega! Papai, o senhor me deve uma explicação. 

 

TABARONE


 

Io mandei o Matias marcar un encontro...

 

 

BORACÉIA



 

(CORTANDO, DESESPERADA) Encontro? Mas que encontro? Por que

 

 

encontro? Eu já estou cheia dessa conversa de encontro! E já não encontro



 

 

razão para ficar mais aqui! 



 

ROSAURA                Eu tembém já estou indo, tenho um encontro com a louça suja!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Por xibungo eu não passo de novo, ninguém sai daqui até a gente 

resolver essa questão. E

stá com medo de que, Boracéia?

 

 

BORACÉIA



 

Eu? De nada!

 

 

MATIAS CÃO



 

Então diz que encontro era esse, tabarone?

 

 

BORACÉIA



 

Não diz coisa nenhuma ou eu te enfio a mão!

 

 

MATIAAS CÃO



 

Mas o que está a esconder, Cadela?

 

 

BORACÉIA



 

Você vai ver quem é...

 

 

ROSAURA



 

Está bem, eu confesso! Não é preciso esconder mais, papai!

 

 

BORACÉIA



 

Eu não confesso nada!

 

 

ROSAURA



 

Eu e Fabricio marcamos o encontro. Nós nos amamos!

 

 

BORACÉIA



 

Ah, é? É claro, é isso! E eu apoio e defendo! (SUSPIRA ALIVIADA.)

 

 

TABARONE



 

Ma como? Com o higlo desse  perobo? No permito.

 

À casa, Rosaura!



 

 

 



ROSAURA

 

Papai com certeza descobriu e veio tirar satisfação com Fabrício.



 

 

TABARONE



 

É! É questo. Me fiz passar por Rosaura!

 

 

JOÃO TEITÉ



 

E estava muito convincente! Treinou muito tempo?

 


 

TABARONE


 

Io te acerto!

 

 

BORACÉIA



 

(AFLITA) Já está tudo explicado! Vamos embora.

 

 

TABARONE              Tem uma coisa que não ficou explicado. Por que o Teité veio ao encontro 



no lugar no Fabrício? (SOTAQUE ITALIANO)

 

 



MATIAS CÃO         Por que? 

 

ROSAURA



 

É. E por que ele estava vestindo a roupa do fabricio? 

 

MATIAS CÃO           Por que?



 

 

MATIAS CÃO



 

Mas será que o desgraçado está apaixonado pelo Tabarone?

 

 

JOÃO TEITÉ



 

Por que não cala a boca, Matias?

 

 

ROSAURA



 

Ele queria se passar pelo Fabrício para...Ah, safado! (TEITÉ QUE OU-

 

 

VIA  APREENSIVO  O  DESENROLAR  DOS  ACONTECIMENTOS TENTA, PÉ ANTE 



PÉ, SAIR À FRANCESA. É SEGURO POR ROSAURA)

 

 



ROSAURA

 

Onde pensa vai?



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Rezar pro santo das causas desesperadas!

 

 

MATIAS CÃO



 

Acho que não vai dar tempo! (TODOS VÃO PRÁ CIMA DE TEITÉ

 

 

AOS GRITOS DE "SAFADO", "SEM-VERGONHA", "CHEGA O COURO NELE!", ETC. 



DÃO-LHE UM CORRETIVO. SAEM DEIXANDO TEITÉ QUE GEME COMICAMENTE.)

 

 



JOÃO TEITÉ

 

Ai! Ai! Quantos ossos a gente tem no corpo, Matias? Eu tenho o dobro.



 

 

Ai, que sova!



 

 

MATIAS CÃO



 

E sabe o que é pior? O Tabarone saiu daqui dizendo que está tudo acaba-

 

 

do entre vocês!



 

 

JOÃO TEITÉ



 

Ri, condenado! Pode rir! Eu me 

vingo! Eu vou ferrar um por um! 

(MATIAS SAI RINDO) Isso não fica assim ou eu não me chamo João Teité! Hoje eu perdi, 

mas amanhã... E senão for amanhã vai ser depois! Mas um dia o meu dia chega!

 

 



 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

FIM DO PRIMEIRO ATO

 

 



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