Ciência e Caridade



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Encontro22.07.2017
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Ciência e Caridade

A luz de um dia nublado entrava pela janela parcialmente obstruída pelo armário e era apenas suficiente para enxergar a expressão de sofrimento. Desde sua piora, o quarto passara por precária improvisação, tornando o cuidado em casa um pouco melhor. Sua filha, mostrando várias cartelas de comprimidos incompletas, revisava com quase automatismo como vinha medicando a mãe nos últimos dias. Mal sabia ela que o médico ali, presente de corpo e alma, pouco prestava atenção ao seu recital ansioso. Num instante poético, de poucos segundos, aquela cena o lembrou, em um vislumbre, a bem conhecida pintura de Picasso, Ciência e Caridade. Assim como na pintura, ele segurava o pulso fraco da enferma, no leito. Atenção dele, no entanto se concentrava no rosto: sofria de um terrível desconforto.

De tudo que a filha transmitia a ele, algo se sobressaiu: “Doutor, eu dei menos morfina pra ela essa semana... Bom, né? Sinal que vai melhorar logo!”. O médico sorriu com suas melhores intenções e balançou negativamente a cabeça. Para a filha aquele gesto passou despercebido e prosseguia: “Só está ruim pra comer...” e se voltando para a mãe: “Assim você não recupera, mãe” e piscando com um sorriso nervoso ao médico e à enfermeira: “Doutor, dá uma bronca nela e manda ela comer direito”.

Havia alguns meses que o médico acompanhava aquela família. As visitas se tornaram particularmente frequentes desde a última alta hospitalar que veio com uma recomendação simples: cuidados domiciliares e conforto. No entendimento da filha isso soara: cuide bem dela pra ela se recuperar e voltar pro hospital e terminar o tratamento. Esse entender não mudou apesar de inúmeras conversas sobre a situação de sua mãe.

A mãe, já idosa, acolheu o entendimento que já tinha desde bem antes. Sabia qual caminho trilharia desde a descoberta que fizera sozinha de um carocinho na mama. Não falou pra ninguém sobre aquilo até que o caroço se tornara uma imensa ferida, e a dor e a falta de ar havia se tornado insuportável, privando-a do sono por várias noites. Mais um motivo para a filha solicitar cada vez mais frequentemente as visitas do pessoal do centro de saúde: tinha que ter um ‘remedinho’ pra resolver aquela situação.

O médico se detinha examinando com cuidado a idosa acamada e a enfermeira repassava com a filha os vários cuidados necessários. Deram uma dose adequada de analgésico e pouco depois a idosa, mais confortável, fechou os olhos e cochilou. A luz brilhou um pouco mais claramente e - talvez fosse impressão - mas a enferma soltou um pouco o corpo e se deixou aquecer levemente pelo sol da tarde.

Durante as recomendações finais daquela visita, ouviu-se a voz murmurante da idosa. A enfermeira teve que chegar bem perto para entender. Depois se voltou para a filha: ‘tem algum rádio aí?`. A filha prontamente pegou o aparelho e ficaram aí uns minutos buscando a frequência. Logo a melodia de uma viola caipira se sobressaiu em meio à estática do rádio. Aumentaram o volume e o som encheu o quarto, a filha se calou um pouco e a enfermeira junto com a enferma esboçaram acompanhar com leves solfejos as cordas da viola que executava uma moda das antigas. A enfermeira segurou de leve aquela mão pálida, fria e magra, que foi aos poucos de aquecendo com aquele desejo simples concretizado.

Um estrondo na porta da frente tirou a paz momentânea da visita. Antes do final da música entrou cambaleando pela porta do quarto a neta: ‘Tão cuidando bem da vó?’, a voz era muito mais alta que o necessário. A moça vestia roupas largas e mal cuidadas, e aparentava muito mais que seus 30 anos. A filha da enferma interveio: ‘já chegou, filhinha? O doutor veio ver sua vó, mas eles já estavam indo’. A neta olhou meio desconcertada para a cena, andou desajeitada até a cama, beijou a avó na testa e depois seguiu pro rádio, esbarrando na cômoda: ‘A minha vó logo vai ficar curada, vamos animar um pouco as coisas aqui’. A moda de viola logo foi substituída pelo ritmo desconcertante de algum novo funk. A avó quase esboçou uma reação, mas se dignou a fechar novamente os olhos e suspirar. A filha tentou intervir: ‘Sua avó está cansada, precisa de um pouco de paz’. A moça saiu cambaleando no quintal para fumar, acompanhando com a voz rouca e desafinada o som do rádio que agora ocupava a casa toda.

Aquela família, de três mulheres fortes, era bem conhecida daquela equipe há anos. A paz nunca habitara ali definitivamente. Os intervalos entre as internações compulsórias da neta eram repletos de novas e amargas novidades. Lá fora, a neta repetia alto, e sua voz era ouvida pelos vizinhos: ‘A vó vai ficar boa! Não importa o que esse doutor diga!’. O médico, que já tantas vezes propusera cuidado e ajuda de tantas diferentes maneiras àquela família, somente ouvia e observava com condescendência a dinâmica familiar. Sob efeito de drogas, seus argumentos não eram sequer ouvidos.

A filha seguiu para o quintal para tentar apaziguar os ânimos da própria filha, enquanto mal dava conta dos seus próprios. O resultado seguiu o costume: a moça saiu gritando, batendo o portão, e ruminando em bom som pra si mesma que era daquele jeito por culpa da mãe. E essa, aos prantos, berrava ao portão que a filha voltasse pra comer alguma coisa, quase se esquecendo da própria mãe ao leito e da equipe de saúde que ainda se demorava na casa. Gentilmente a enfermeira buscou, em vão, restabelecer a estação de rádio anterior. Parecia ter sumido pra sempre. Com a tentativa fracassada, buscou a dona da casa, que chorava sem consolo.



O médico, que se detivera no quarto da enferma, escutou os sussurros e a fala suave da enfermeira que por fim abafaram os soluços sentidos com um abraço sincero. O próprio médico, distraído, mal notou o toque leve e frio em sua mão. A velha enferma, num esforço, segurou sua mão. Então ele sorriu e voltou a se sentar na beira da cama, segurando com firmeza aquela mão suplicante.

‘O doutor se lembra porque não quis ir atrás dessa doença, não?`. A conversa tinha sido alguns meses antes, naquela mesma casa, os dois sentados na sala. `Claro, não se preocupe.’. Naquela conversa a velha explicara como sua própria irmã sofrera com o tratamento do câncer e por fim morreu sozinha na UTI do hospital da cidade. Quando ela mesma suspeitara da sua doença decidiu que não queria para si aquele sofrimento. ‘O doutor sabe que não quero ir pro hospital...’. Um breve silêncio fez o médico esboçar uma resposta. A velha, ofegante e com algum esforço, fez prevalecer sua voz: ‘As coisas aqui são ruins, doutor, eu sei... desculpe pela minha neta, ela é boa menina, mas não aceita muita coisa... e no hospital talvez fosse mais fácil pra cuidar de mim... Mas é aqui que quero estar e se estou aqui é porque vocês cuidam e são minha família.’. E, no último olhar dirigido ao médico, fechou os olhos e só murmurou: ‘Deus abençoe sua ciência e caridade’.


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