Chopin é um frango



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Encontro18.08.2018
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Chopin é um frango
Os meus pais a quem a minha indiferença escolar preocupava (passei o liceu a fumar às escondidas e a pasmar para a mulher do farmacêutico e a universidade a jogar xadrez num cubículo sem janelas logo a seguir ao vestiário) trataram de arranjar explicadores decididos a meterem-me na cabeça, à força, o que me recusava a aprender. Entre outros carrascos contrataram, tinha eu 13 ou 14 anos e uma alergia às aulas, um homem gordo que se deveria ocupar a fazer-me entrar em êxtase com o desenho geométrico, amontoando cubos, cilindros e pirâmides, a tracejado e a cheio, em papel cavalinho. Era num segundo andar ao Jardim das Amoreiras que cheirava a entretela e a almôndegas, o carrasco, o careca, suava de desespero a rosnar

– Camelo


enquanto eu, em lugar de ouvir, escutava as lições de piano do prédio vizinho no qual uma menina (tinha a certeza que era uma menina de laço cor-de-rosa no cabelo, arame nos dentes e soquetes brancos) tocava Chopin como quem arranca penas a um frango vivo. O sofrimento do frango quase me fazia chorar de puro dó e no dia seguinte dava por mim perplexo diante da canja do almoço, à cata de semifusas entre as bolhas de azeite e a garantir à minha mãe afastando o prato com as costas da mão

– Não quero comer Chopin

com ela a olhar também a sopa, receosa de que houvesse uma Polonaise ou um Noturno a flutuar entre os miúdos. A minha repulsa por carne de galinha ia aumentando com as aulas do Jardim das Amoreiras em que me apetecia abandonar o careca para salvar o compositor moribundo dos dedos assassinos da menina de arame nos molares, levá-lo para casa debaixo do braço e deixá-lo em paz na capoeira a escrever as suas valsas repimpado no poleiro. Sempre que a canja regressava eu ia argumentando inabalável

– Não mastigo músicos

recordado do Chopin assassinado, três vezes por semana, à esquerda da projeção das esferas. Da canja passei ao vol-au-vent, às empadas, ao arroz de galinha e ao frango de churrasco, após o que principiei a recusar-me a ir à Feira Popular em cujos restaurantes giravam em espetos, com homens de avental a convidarem--me para banquetes antropófagos, dezenas de Chopins a pingarem gordura nas brasas.

Ainda hoje, passado algum tempo, me apetece processar aviários e lançar fogo a todos os Reis dos Frangos que encontro por Lisboa, cheios de gente a chupar ossinhos de colcheias e a deitar piripiri em asas de allegrettos. Tenho a certeza que a menina de laço no cabelo continua, no prédio do Jardim, de que as arcadas se dissolvem à tarde quando os bandos de pombos levantam voo da pedra, a arrancar penas e ais a um piano de agonia.

Estou certo que aos domingos todo o mundo engole Chopin com batatas fritas Pala-Pala, juntamente com as queijadas compradas no passeio de Opel a Sintra. Ninguém fala. Ninguém se preocupa. Ninguém se interessa. Ninguém protesta. O Greenpeace não faz nada. A Amnistia Internacional emudece. Os Direitos do Homem omitem. Mas posso assegurar-vos que sempre que me coloco à porta de uma cervejaria de churrascos oiço as tripas dos clientes que saem de palito na boca a maldizer o Governo (as pessoas de palito na boca maldizem o Governo e as que nem palito têm maldizem a vida)

oiço as tripas dos clientes, dizia, tocarem borborigmos de claves de sol que uma camada de bagaço amortece.


António Lobo Antunes, Algumas Crónicas, Publicações Dom Quixote


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