Chimamanda ngozi



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CHIMAMANDA NGOZI

ADICHIE


Sejamos todos

feministas

Tradução


Christina Baum

Introdução

 

Esta  é  uma  versão  modificada  de



uma  palestra  que  dei  em  dezembro  de

2012  no 

TED

xEuston,  conferência



anual  com  foco  na  África.  Palestrantes

de diversas áreas dão palestras concisas

que  visam  desafiar  e  inspirar  africanos

e  amigos  da  África.  Eu  já  tinha

participado  de  uma  conferência 

TED


diferente  alguns  anos  antes,  com  uma

palestra  chamada  “The  danger  of  the

single story” [O perigo de uma história

só], sobre como estereótipos limitam e



formatam 

nosso 


pensamento,

especialmente  quando  se  trata  da

África.  Tenho  a  impressão  de  que  a

palavra  “feminista”,  como  a  própria

ideia  de  feminismo,  também  é

limitada por estereótipos. Quando meu

irmão Chuks e meu melhor amigo Ike,

os dois coorganizadores da conferência

TED

xEuston, 



me 

convidaram 

a

participar,  não  consegui  negar.  Decidi



falar  sobre  feminismo  porque  é  uma

questão  que  me  toca  especialmente.

Suspeitei  que  não  seria  um  assunto

muito popular, mas pensei que poderia

começar um diálogo necessário. Então,

naquela  noite  em  que  subi  no  palco,

senti  como  se  estivesse  na  presença  da


minha família — uma audiência gentil

e  atenciosa,  mas  que  poderia  ser

resistente ao assunto da minha palestra.

No  fim,  a  aclamação  da  plateia,  com

todos de pé, me deu esperanças.


 

Okoloma era um dos meus melhores

amigos  de  infância.  Morávamos  na

mesma rua e ele cuidava de mim como

um  irmão  mais  velho:  quando  eu

gostava  de  um  garoto,  pedia  a  opinião

dele.  Engraçado  e  inteligente,  usava

uma  bota  de  caubói  de  bico  pontudo.

Em  dezembro  de  2005,  ele  morreu

num acidente de avião, no sudoeste da

Nigéria.  Até  hoje  não  sei  expressar  o

que  senti.  Era  uma  pessoa  com  quem

eu  podia  discutir,  rir  e  ter  conversas

sinceras.  E  também  foi  o  primeiro  a

me chamar de feminista.

Eu  tinha  catorze  anos.  Um  dia,  na

casa 

dele, 


discutíamos 



metralhávamos 

opiniões 

imaturas

sobre  livros  que  havíamos  lido.  Não

lembro exatamente o teor da conversa.

Mas  eu  estava  no  meio  de  uma

argumentação quando Okolomo olhou

para mim e disse: “Sabe de uma coisa?

Você  é  feminista!”  Não  era  um

elogio. Percebi pelo tom da voz dele —

era  como  se  dissesse:  “Você  apoia  o

terrorismo!”.

Não  sabia  o  que  a  palavra

“feminista”  significava.  E  não  queria

que  Okoloma  soubesse  que  eu  não

sabia.  Então  disfarcei  e  continuei

argumentando.  A  primeira  coisa  que

faria ao chegar em casa seria procurar a

palavra no dicionário.


 

 

Em  2003,  escrevi  um  romance



chamado  Hibisco  roxo,  sobre  um

homem  que,  entre  outras  coisas,  batia

na mulher, e sua história não acaba lá

muito  bem.  Enquanto  eu  divulgava  o

livro  na  Nigéria,  um  jornalista,  um

homem  bem-intencionado,  veio  me

dar  um  conselho  (talvez  vocês  saibam

que  nigerianos  estão  sempre  prontos  a

dar conselhos que ninguém pediu).

Ele  comentou  que  as  pessoas

estavam  dizendo  que  meu  livro  era

feminista.  Seu  conselho  —  disse,

balançando  a  cabeça  com  um  ar

consternado  —  era  que  eu  nunca,



nunca  me  intitulasse  feminista,  já  que

as  feministas  são  mulheres  infelizes

que 

não 


conseguem 

arranjar


marido. Então decidi me definir como

“feminista feliz”.

Mais 

tarde, 


uma 

professora

universitária  nigeriana  veio  me  dizer

que  o  feminismo  não  fazia  parte  da

nossa  cultura,  que  era  antiafricano,  e

que,  se  eu  me  considerava  feminista,

era porque havia sido corrompida pelos

livros 


ocidentais 

(o 


que 

achei


engraçado,  porque  passei  boa  parte  da

juventude  devorando  romances  que

não eram nada feministas: devo ter lido

toda 


coleção 


água-com-açúcar

publicada  pela  Mils  and  Boon  antes



dos  dezesseis  anos.  E  toda  vez  que

tentava ler os tais livros clássicos sobre

feminismo,  ficava  entediada  e  mal

conseguia  terminar).  De  qualquer

forma,  já  que  o  feminismo  era

antiafricano,  resolvi  me  considerar

“feminista  feliz  e  africana”.  Depois,

uma grande amiga me disse que, se eu

era  feminista,  então  devia  odiar  os

homens.  Decidi  me  tornar  uma

“feminista  feliz  e  africana  que  não

odeia  homens,  e  que  gosta  de  usar

batom e salto alto para si mesma, e não

para os homens”. 

É  claro  que  não  estou  falando  sério,

só  queria  ilustrar  como  a  palavra

“feminista”  tem  um  peso  negativo:  a


feminista odeia os homens, odeia sutiã,

odeia  a  cultura  africana,  acha  que  as

mulheres  devem  mandar  nos  homens;

ela  não  se  pinta,  não  se  depila,  está

sempre  zangada,  não  tem  senso  de

humor, não usa desodorante.

Quando  eu  estava  no  primário,  em

Nsukka,  uma  cidade  universitária  no

sudeste  da  Nigéria,  no  começo  do  ano

letivo  a  professora  anunciou  que  iria

dar  uma  prova  e  quem  tirasse  a  nota

mais alta seria o monitor da classe. Ser

monitor  era  muito  importante.  Ele

podia anotar, diariamente, o nome dos

colegas  baderneiros,  o  que  por  si  só  já

era  ter  um  poder  enorme;  além  disso,

ele 

podia 


circular 

pela 


sala

empunhando  uma  vara,  patrulhando  a

turma  do  fundão.  É  claro  que  o

monitor não podia usar a vara. Mas era

uma  ideia  empolgante  para  uma

criança  de  nove  anos,  como  eu.  Eu

queria muito ser a monitora da minha

classe. E tirei a nota mais alta.

Mas,  para  minha  surpresa,  a

professora  disse  que  o  monitor  seria

um menino. Ela havia se esquecido de

esclarecer  esse  ponto,  achou  que  fosse

óbvio. Um garoto tirou a segunda nota

mais alta. Ele seria o monitor. O mais

interessante  é  que  o  menino  era  uma

alma  bondosa  e  doce,  que  não  tinha  o

menor interesse em vigiar a classe com

uma  vara.  Que  era  exatamente  o  que


eu almejava. Mas eu era menina e ele,

menino, e ele foi escolhido. Nunca me

esqueci desse episódio.

Se repetimos uma coisa várias vezes,

ela  se  torna  normal.  Se  vemos  uma

coisa  com  frequência,  ela  se  torna

normal.  Se  só  os  meninos  são

escolhidos  como  monitores  da  classe,

então  em  algum  momento  nós  todos

vamos 


achar, 

mesmo 


que

inconscientemente, que só um menino

pode  ser  o  monitor  da  classe.  Se  só  os

homens  ocupam  cargos  de  chefia  nas

empresas, 

começamos 

achar


“normal” que esses cargos de chefia só

sejam ocupados por homens.

Eu  tendo  a  cometer  o  erro  de  achar


que  uma  coisa  óbvia  para  mim

também é óbvia para todo mundo. Um

dia  estava  conversando  com  meu

querido  amigo  Louis,  que  é  um

homem  brilhante  e  progressista,  e  ele

me  disse:  “Não  entendo  quando  você

diz  que  as  coisas  são  diferentes  e  mais

difíceis  para  as  mulheres.  Talvez  fosse

verdade  no  passado,  mas  não  é  mais.

Hoje  as  mulheres  têm  tudo  o  que

querem.”  Oi?  Como  o  Louis  não

enxergava  o  que  para  mim  era  tão

óbvio?

Adoro  voltar  para  a  minha  casa  na



Nigéria,  e  passo  a  maior  parte  do

tempo  em  Lagos,  uma  das  maiores

cidades e o grande centro comercial do


país. Às vezes, à noite, quando não está

tão  quente  e  o  ritmo  da  cidade

desacelera,  saio  com  amigos  ou  a

família  e  vamos  a  restaurantes  e  cafés.

Numa  dessas  ocasiões,  Louis  e  eu

saímos com uns amigos.

Em Lagos, há um ritual maravilhoso:

alguns jovens costumam ficar na porta

dos  estabelecimentos  e  “ajudar”  as

pessoas  a  estacionar  o  carro.  Lagos  é

uma  metrópole  com  quase  vinte

milhões  de  habitantes,  com  mais

energia  do  que  Londres,  com  um

espírito  mais  empreendedor  do  que

Nova York, e, portanto, as pessoas estão

sempre inventando maneiras de ganhar

a  vida.  Como  na  maioria  das  grandes


cidades,  é  difícil  encontrar  uma  vaga

para  estacionar  à  noite,  então  esses

caras  se  viram  como  podem.  Mesmo

quando  não  há  nenhuma  vaga

disponível,  eles  manobram  o  carro  e,

com gestos largos e teatrais, prometem

tomar conta do veículo até você voltar.

Impressionada  com  o  empenho  do

sujeito que descolou uma vaga para nós

naquela  noite,  decidi  lhe  dar  uma

gorjeta. Abri a bolsa, peguei o dinheiro

e  lhe  dei.  E  ele,  feliz  e  grato,  pegou  o

meu dinheiro, olhou para o meu amigo

e  disse:  “Muito  obrigado,  senhor!”.

Surpreso,  Louis  me  perguntou:  “Por

que  ele  está  me  agradecendo?  Não  fui

eu  quem  deu  o  dinheiro”.  Percebi


então,  pela  expressão  de  meu  amigo,

que  a  ficha  tinha  caído.  Para  o

flanelinha,  qualquer  dinheiro  que  eu

pudesse  ter  certamente  provinha  de

Louis. Porque Louis é homem.

 

 



Homens  e  mulheres  são  diferentes.

Temos  hormônios  em  quantidades

diferentes,  órgãos  sexuais  diferentes  e

atributos  biológicos  diferentes  —  as

mulheres  podem  ter  filhos,  os  homens

não. Os homens têm mais testosterona

e  em  geral  são  fisicamente  mais  fortes

do  que  as  mulheres.  Existem  mais

mulheres do que homens no mundo —

52% da população mundial é feminina,



mas  os  cargos  de  poder  e  prestígio  são

ocupados  pelos  homens.  A  já  falecida

nigeriana Wangari Maathai, ganhadora

do  prêmio  Nobel  da  paz,  se  expressou

muito  bem  e  em  poucas  palavras,

quando disse que quanto mais perto do

topo  chegamos,  menos  mulheres

encontramos.

Na  última  eleição  dos  Estados

Unidos,  ouvimos,  com  frequência,

falar  da  lei  Lilly  Ledbetter,  que  visa  à

equiparação  salarial  das  mulheres.  Se

formos  além  do  nome  bonito  e

aliterativo,  o  significado  é  o  seguinte:

nos 

EUA


,  quando  um  homem  e  uma

mulher têm o mesmo emprego, com as

mesmas  qualificações,  se  o  homem


ganha mais é porque ele é homem.

Então,  de  uma  forma  literal,  os

homens governam o mundo. Isso fazia

sentido há mil anos. Os seres humanos

viviam num mundo onde a força física

era  o  atributo  mais  importante  para  a

sobrevivência;  quanto  mais  forte  a

pessoa,  mais  chances  ela  tinha  de

liderar. E os homens, de uma maneira

geral,  são  fisicamente  mais  fortes.

Hoje, 

vivemos 


num 

mundo


completamente  diferente.  A  pessoa

mais  qualificada  para  liderar  não  é  a

pessoa fisicamente mais forte. É a mais

inteligente,  a  mais  culta,  a  mais

criativa,  a  mais  inovadora.  E  não

existem hormônios para esses atributos.



Tanto  um  homem  como  uma  mulher

podem  ser  inteligentes,  inovadores,

criativos.  Nós  evoluímos.  Mas  nossas

ideias  de  gênero  ainda  deixam  a

desejar.

Não faz muito tempo, ao entrar num

dos  melhores  hotéis  na  Nigéria,  um

segurança  na  porta  me  parou  e  fez

umas  perguntas  irritantes:  Nome?

Número  do  quarto  da  pessoa  que  eu

visitava?  Eu  conhecia  essa  pessoa?

Poderia  provar  que  era  hóspede  do

hotel  e  mostrar  a  minha  chave?  Ele

automaticamente  supôs  que  uma

mulher  nigeriana  e  desacompanhada

só  podia  ser  prostituta.  Uma  nigeriana

desacompanhada não pode ser hóspede


e  pagar  por  seu  quarto.  Um  homem

pode  entrar  no  mesmo  hotel  sem  ser

perturbado. Parte-se da premissa de que

ele está lá por uma razão legítima —

aliás,  por  que  esses  hotéis  não  se

preocupam  mais  com  a  procura  por

prostitutas  do  que  com  a  oferta

aparente?

Em  Lagos,  não  posso  ir  sozinha  a

muitos  bares  e  casas  respeitáveis.

Mulher  desacompanhada  não  entra.  É

preciso estar com um homem. Amigos

meus,  homens,  costumam  ir  a  baladas

e acabam entrando de braço dado com

mulheres  desconhecidas  —  a  uma

mulher desacompanhada só resta pedir

“ajuda” para entrar no recinto.


Sempre que vou acompanhada a um

restaurante 

nigeriano, 

garçom



cumprimenta  o  homem  e  me  ignora.

Os  garçons  são  produto  de  uma

sociedade  onde  se  aprende  que  os

homens  são  mais  importantes  do  que

as  mulheres,  e  sei  que  eles  não  fazem

por  mal  —  mas  há  um  abismo  entre

entender  uma  coisa  racionalmente  e

entender 

mesma 


coisa

emocionalmente.  Toda  vez  que  eles

me  ignoram,  eu  me  sinto  invisível.

Fico  chateada.  Quero  dizer  a  eles  que

sou tão humana quanto um homem, e

digna  de  ser  cumprimentada.  Sei  que

são  detalhes,  mas  às  vezes  são  os

detalhes que mais incomodam.



Não  faz  muito  tempo,  escrevi  um

artigo  sobre  o  que  significa  ser  uma

jovem 

mulher 


em 

Lagos. 


Um

conhecido  disse  que  havia  muita  raiva

no  texto,  que  eu  não  deveria  ter  me

expressado  com  tanta  raiva.  Mas  eu

não  via  razão  para  me  desculpar.  É

claro  que  eu  estava  com  raiva.  A

questão 

de 


gênero, 

como 


está

estabelecida hoje em dia, é uma grande

injustiça.  Estou  com  raiva.  Devemos

ter  raiva.  Ao  longo  da  história,  muitas

mudanças positivas só aconteceram por

causa da raiva. Além da raiva, também

tenho  esperança,  porque  acredito

profundamente  na  capacidade  de  os

seres humanos evoluírem.


Percebi  cautela  no  tom  do  sujeito,  e

sabia  que  seu  comentário  sobre  a

minha  raiva  tinha  a  ver  não  só  com  o

artigo,  mas  também  com  minha

personalidade.  A  raiva,  o  tom  dele

dizia, não cai bem em mulheres. Uma

mulher  não  deve  expressar  raiva,

porque  a  raiva  ameaça.  Tenho  uma

amiga  americana  que  substituiu  um

homem  num  cargo  de  gerência.  Seu

predecessor  era  considerado  um  “cara

durão”,  que  conseguia  tudo;  era

grosseiro, agressivo e rigoroso quanto à

folha de ponto. Ela assumiu o cargo, e

se  imaginava  tão  dura  quanto  o  chefe

anterior,  mas  talvez  um  pouco  mais

generosa — ao contrário dela, ele nem


sempre  lembrava  que  as  pessoas

tinham  família.  Em  poucas  semanas

no  emprego,  ela  puniu  um  empregado

por  ter  falsificado  a  folha  de  ponto  —

exatamente como seu predecessor teria

feito.  O  empregado  reclamou  com  o

gerente  sênior,  dizendo  que  ela  era

agressiva 

difícil. 



Os 

outros


funcionários  concordaram.  Um  deles,

inclusive,  disse  que  tinha  achado  que

ela  traria  um  “toque  feminino”  ao

ambiente de trabalho, mas que isso não

acontecera.  Não  ocorreu  a  ninguém

que  ela  estava  fazendo  a  mesma  coisa

pela  qual  um  homem  teria  recebido

elogios.


Outra 

amiga 


minha, 

também


americana, trabalha com publicidade e

tem  um  belo  salário.  Só  há  duas

mulheres  em  sua  equipe:  ela  e  uma

outra.  Certa  vez,  numa  reunião,  ela

disse  que  se  sentira  menosprezada  por

sua  chefe,  que  havia  ignorado  seus

comentários e elogiara um dos homens

que  havia  emitido  uma  opinião

parecida  com  a  dela.  Ela  queria  se

posicionar  e  enfrentar  a  chefe,  mas

ficou  quieta.  Depois  da  reunião,  foi

chorar  no  banheiro  e  me  ligou  para

desabafar. Ela não disse o que pensava

para  não  parecer  agressiva.  Deixou  o

ressentimento ferver em banho-maria.

O que me impressiona — em relação

a  ela  e  a  várias  outras  amigas


americanas  —  é  o  quanto  essas

mulheres  investem  em  ser  “queridas”,

como foram criadas para acreditar que

ser  benquista  é  muito  importante.  E

isso  não  inclui  demostrar  raiva  ou  ser

agressiva, tampouco discordar.

Perdemos muito tempo ensinando as

meninas  a  se  preocupar  com  o  que  os

meninos  pensam  delas.  Mas  o  oposto

não  acontece.  Não  ensinamos  os

meninos  a  se  preocupar  em  ser

“benquistos”.  Se,  por  um  lado,

perdemos  muito  tempo  dizendo  às

meninas  que  elas  não  podem  sentir

raiva  ou  ser  agressivas  ou  duras,  por

outro,  elogiamos  ou  perdoamos  os

meninos  pelas  mesmas  razões.  Em


todos  os  lugares  do  mundo,  existem

milhares de artigos e livros ensinando o

que  as  mulheres  devem  fazer,  como

devem  ou  não  devem  ser  para  atrair  e

agradar  os  homens.  Livros  sobre  como

os homens devem agradar as mulheres

são poucos.

Dou uma oficina de escrita em Lagos

e  uma  das  jovens  que  participa  do

grupo  me  disse  que  um  amigo  lhe

havia prevenido de não prestar atenção

no  meu  “discurso  feminista”  —  sob

pena de absorver ideias que destruiriam

seu casamento. Essa é uma ameaça —

a  destruição  de  um  casamento,  a

possibilidade de acabar não se casando

—  levantada  contra  as  mulheres  na


nossa  sociedade  com  uma  frequência

muito maior do que contra os homens.

A questão de gênero é importante em

qualquer 

canto 

do 


mundo. 

É

importante  que  comecemos  a  planejar



e  sonhar  um  mundo  diferente.  Um

mundo  mais  justo.  Um  mundo  de

homens  mais  felizes  e  mulheres  mais

felizes, 

mais 

autênticos 



consigo

mesmos.  E  é  assim  que  devemos

começar: precisamos criar nossas filhas

de  uma  maneira  diferente.  Também

precisamos  criar  nossos  filhos  de  uma

maneira diferente.

 

 

O modo como criamos nossos filhos



homens  é  nocivo:  nossa  definição  de

masculinidade 

é 

muito 


estreita.

Abafamos a humanidade que existe nos

meninos, enclausurando-os numa jaula

pequena  e  resistente.  Ensinamos  que

eles  não  podem  ter  medo,  não  podem

ser  fracos  ou  se  mostrar  vulneráveis,

precisam esconder quem realmente são

—  porque  eles  têm  que  ser,  como  se

diz na Nigéria, homens duros.

No ensino médio, quando um garoto

e  uma  garota  saem  juntos,  o  único

dinheiro  de  que  dispõem  é  uma

pequena 

mesada. 


Mesmo 

assim,


espera-se  que  ele  pague  a  conta,

sempre, para provar sua masculinidade.

(E  depois  nos  perguntamos  por  que


alguns  roubam  dinheiro  dos  pais...)  E

se tanto os meninos quanto as meninas

fossem  criados  de  modo  a  não  mais

vincular  a  masculinidade  ao  dinheiro?

E  se,  em  vez  de  “o  menino  tem  que

pagar,” a postura fosse “quem tem mais

paga”?  É  claro  que,  por  uma  questão

histórica,  em  geral  é  o  homem  quem

tem  mais  dinheiro.  No  entanto,  se

começarmos  a  criar  nossos  filhos  de

outra maneira, daqui a cinquenta, cem

anos  eles  não  serão  pressionados  a

provar  sua  masculinidade  por  meio  de

bens materiais.

Mas  o  pior  é  que,  quando  os

pressionamos  a  agir  como  durões,  nós

os  deixamos  com  o  ego  muito  frágil.


Quanto  mais  duro  um  homem  acha

que deve ser, mais fraco será seu ego. E

criamos  as  meninas  de  uma  maneira

bastante 

perniciosa, 

porque 


as

ensinamos  a  cuidar  do  ego  frágil  do

sexo masculino. Ensinamos as meninas

a  se  encolher,  a  se  diminuir,  dizendo-

lhes: “Você pode ter ambição, mas não

muita.  Deve  almejar  o  sucesso,  mas

não  muito.  Senão  você  ameaça  o

homem.  Se  você  é  a  provedora  da

família, finja que não é, sobretudo em

público. 

Senão 

você 


estará

emasculando  o  homem.”  Por  que,

então,  não  questionar  essa  premissa?

Por que o sucesso da mulher ameaça o

homem?  Bastaria  descartar  a  palavra


— e não sei se existe outra palavra em

inglês  de  que  eu  desgoste  tanto  —

“emasculação”.

Uma  vez,  um  nigeriano  conhecido

meu  me  perguntou  se  não  me

incomodava  o  fato  de  os  homens  se

sentirem  intimidados  comigo.  Eu  não

me preocupo nem um pouco — nunca

havia  me  passado  pela  cabeça  que  isso

fosse  um  problema,  porque  o  homem

que  se  sente  intimidado  por  mim  é

exatamente o tipo de homem por quem

não me interesso. Mesmo assim, fiquei

surpresa.  Já  que  pertenço  ao  sexo

feminino,  espera-se  que  almeje  me

casar.  Espera-se  que  faça  minhas

escolhas  levando  em  conta  que  o


casamento  é  a  coisa  mais  importante

do mundo. O casamento pode ser bom,

uma  fonte  de  felicidade,  amor  e  apoio

mútuo.  Mas  por  que  ensinamos  as

meninas  a  aspirar  ao  casamento,  mas

não  fazemos  o  mesmo  com  os

meninos?

Uma  nigeriana  conhecida  minha

decidiu  vender  sua  casa  para  não

intimidar 

homem 


que

eventualmente  quisesse  se  casar  com

ela.  Conheço  uma  outra,  também

solteira,  que  em  congressos  usa  uma

aliança de casamento porque quer “ser

respeitada”  pelos  colegas  —  segundo

ela,  a  ausência  do  anel  a  torna

desprezível.  E  isso  num  ambiente



moderno  de  trabalho.  Há  moças  que,

de  tão  pressionadas  pela  família,  pelos

amigos,  e  até  mesmo  pelo  trabalho,

acabam fazendo péssimas escolhas. Em

nossa  sociedade,  a  mulher  de  certa

idade  que  ainda  não  se  casou  se

enxerga  como  uma  fracassada.  Já  o

homem,  se  permanece  solteiro,  é

porque  não  teve  tempo  de  fazer  sua

escolha.


Falar é fácil, eu sei, mas as mulheres

só  precisam  aprender  a  dizer 

NÃO

  a


tudo  isso.  A  realidade,  porém,  é  mais

difícil,  mais  complexa.  Somos  seres

sociais, 

afinal 


de 

contas, 


e

internalizamos  as  ideias  através  da

socialização.  Até  mesmo  a  linguagem


que  empregamos  dentro  do  casamento

é  reveladora:  frequentemente  é  uma

linguagem  de  posse,  não  de  parceria.

Pensamos  na  palavra  “respeito”  como

um  sentimento  que  a  mulher  deve  ao

homem,  mas  raramente  o  inverso.

Tanto  o  homem  quanto  a  mulher

dizem:  “Eu  fiz  isso  porque  queria  paz

no  meu  casamento”.  Mas  quando  os

homens  dizem  isso,  em  geral  se

referem  a  algo  que  eles  não  deveriam

mesmo  fazer.  É  como  eles  se

justificam para os amigos, e no fim das

contas isso serve para comprovar a sua

masculinidade  —  “Minha  mulher

disse que não posso sair todas as noites,

então  daqui  pra  frente,  pra  ter  paz  no


meu casamento, só vou sair nos fins de

semana”.  Quando  as  mulheres  dizem

que tomaram determinada atitude para

“ter  paz  no  casamento”,  é  porque  em

geral  desistiram  de  um  emprego,  de

um passo na carreira, de um sonho.

Ensinamos 

que, 


nos

relacionamentos,  é  a  mulher  quem

deve  abrir  mão  das  coisas.  Criamos

nossas  filhas  para  enxergar  as  outras

mulheres  como  rivais  —  não  em

questões  de  emprego  ou  realizações,  o

que, na minha opinião, poderia até ser

bom  —  mas  como  rivais  da  atenção

masculina. Ensinamos as meninas que

elas  não  podem  agir  como  seres

sexuais,  do  modo  como  agem  os


meninos. Se temos filhos homens, não

nos  importamos  em  saber  sobre  suas

namoradas.  Mas  e  os  namorados  das

nossas  filhas?  Deus  me  livre!  (Mas

obviamente esperamos que elas tragam

pra  casa  o  homem  perfeito  para  casar,

na  hora  certa)  Nós  policiamos  nossas

meninas. Elogiamos a virgindade delas,

mas não a dos meninos (e me pergunto

como  isso  pode  funcionar,  já  que  a

perda da virgindade é um processo que

normalmente envolve duas pessoas).

Recentemente, 

uma 


moça 

foi


estuprada por um grupo de homens, na

Nigéria, e a reação de vários jovens, de

ambos  os  sexos,  foi  algo  do  gênero:

“Sim, estuprar é errado, mas o que ela



estava  fazendo  no  quarto  com  quatro

homens?”  Bem,  se  possível,  tentemos

esquecer  a  crueldade  desse  raciocínio.

Os nigerianos foram criados para achar

que  as  mulheres  são  inerentemente

culpadas.  E  elas  cresceram  esperando

tão  pouco  dos  homens  que  a  ideia  de

vê-los  como  criaturas  selvagens,  sem

autocontrole,  é  de  certa  forma

aceitável.

Ensinamos  as  meninas  a  sentir

vergonha.  “Fecha  as  pernas,  olha  o

decote.”  Nós  as  fazemos  sentir

vergonha da condição feminina, elas já

nascem  culpadas.  Elas  crescem  e  se

transformam  em  mulheres  que  não

podem  externar  seus  desejos.  Elas  se


calam,  não  podem  dizer  o  que

realmente 

pensam, 

fazem 


do

fingimento  uma  arte.  Conheço  uma

mulher  que  odiava  tarefas  domésticas,

mas  fingia  que  não,  já  que  fora

ensinada  a  ser  “caseira”,  como  “uma

boa esposa” tem de ser. Finalmente ela

se  casou.  E  a  família  do  marido

começou  a  reclamar  quando  seu

comportamento  mudou.  Ora,  na

verdade  ela  não  mudou.  Ela  apenas  se

cansou de fingir ser o que não era.

O  problema  da  questão  de  gênero  é

que ela prescreve como devemos ser em

vez  de  reconhecer  como  somos.

Seríamos bem mais felizes, mais livres

para sermos quem realmente somos, se



não  tivéssemos  o  peso  das  expectativas

do gênero.

 

 

Meninos 



meninas 


são

inegavelmente  diferentes  em  termos

biológicos,  mas  a  socialização  exagera

essas  diferenças.  E  isso  implica  na

autorrealização  de  cada  um.  O  ato  de

cozinhar,  por  exemplo.  Ainda  hoje,  as

mulheres  tendem  a  fazer  mais  tarefas

de  casa  do  que  os  homens  —  elas

cozinham  e  limpam  a  casa.  Mas  por

que é assim? Será que elas nascem com

um  gene  a  mais  para  cozinhar  ou  será

que,  ao  longo  do  tempo,  elas  foram

condicionadas  a  entender  que  seu


papel  é  cozinhar?  Cheguei  a  pensar

que  talvez  as  mulheres  de  fato

houvessem  nascido  com  o  tal  gene,

mas aí lembrei que os cozinheiros mais

famosos  do  mundo  —  que  recebem  o

título  pomposo  de  “chef”  —  são,  em

sua maioria, homens.

Costumava observar minha avó, uma

mulher brilhante, e ficava imaginando

o que ela poderia ter sido se durante a

juventude  tivesse  tido  as  mesmas

oportunidades  que  os  homens.  Hoje,

diferente  do  que  acontecia  na  sua

época,  há  mais  oportunidades  para  as

mulheres  —  houve  mudanças  nas

políticas  e  na  lei,  que  foram  muito

importantes.


Mas o que realmente conta é a nossa

postura,  a  nossa  mentalidade.  E  se

criássemos  nossas  crianças  ressaltando

seus  talentos,  e  não  seu  gênero?  E  se

focássemos  em  seus  interesses,  sem

considerar gênero?

Conheço  uma  família  que  tem  um

filho  e  uma  filha,  com  um  ano  de

diferença,  ambos  alunos  brilhantes.

Quando  o  menino  está  com  fome,  os

pais  mandam  a  garota  preparar  um

macarrão  instantâneo  para  o  irmão.

Ela  não  gosta  de  cozinhar  macarrão

instantâneo,  mas  como  é  menina,  tem

que  obedecer.  E  se  os  pais,  desde  o

início,  tivessem  ensinado  ambos  os

filhos 



cozinhar 



macarrão

instantâneo? Aliás, aprender a cozinhar

é bom para a vida prática e útil de um

menino — nunca vi sentido em deixar

nas  mãos  de  terceiros  uma  coisa  tão

crucial como a capacidade de se nutrir.

Conheço  uma  mulher  que  tem  o

mesmo  diploma  e  o  mesmo  emprego

que o marido. Quando eles chegam em

casa  do  trabalho,  a  ela  cabe  a  maior

parte  das  tarefas  domésticas,  como

ocorre  em  muitos  casamentos.  Mas  o

que  me  surpreende  é  que  sempre  que

ele  troca  a  fralda  do  bebê  ela  fica

agradecida. Por que ela não se dá conta

de  que  é  normal  e  natural  que  ele

ajude a cuidar do filho?

Estou  tentando  desaprender  várias


lições que internalizei durante a minha

formação, mas às vezes ainda me sinto

vulnerável  quando  me  deparo  com

expectativas  de  gênero.  Na  primeira

aula de escrita para uma turma de pós-

graduação, fiquei apreensiva. Não com

o conteúdo do curso, já que estava bem

preparada  e  gosto  da  matéria.  Estava

preocupada  com  o  quê  vestir.  Eu

queria ser levada a sério. Sabia que, por

ser  mulher,  eu  automaticamente  teria

que  demonstrar  minha  capacidade.  E

estava  com  medo  de  parecer  feminina

demais, e não ser levada a sério. Queria

passar  batom  e  usar  uma  saia  bem

feminina, mas desisti da ideia. Escolhi

um terninho careta, bem masculino, e


feio.

A  verdade  é  que,  quando  se  trata  de

aparência, 

nosso 


paradigma 

é

masculino.  Muitos  acreditam  que



quanto menos feminina for a aparência

de  uma  mulher,  mais  chances  ela  terá

de ser ouvida. Quando um homem vai

a  uma  reunião  de  negócios,  não  lhe

passa pela cabeça se será levado a sério

ou não dependendo da roupa que vestir

—  mas  a  mulher  pondera.  Eu  não

queria  ter  usado  aquele  conjunto

feioso.  Se  tivesse  a  autoconfiança  que

tenho  hoje,  meus  alunos  teriam

aproveitado  ainda  mais  minhas  aulas.

Porque  eu  estaria  mais  confortável  na

minha  própria  pele  e  seria  mais


verdadeira comigo mesma.

Decidi parar de me desculpar por ser

feminina.  E  quero  ser  respeitada  por

minha 


feminilidade. 

Porque 


eu

mereço.  Gosto  de  política  e  história,  e

adoro  uma  conversa  boa,  produtiva.

Sou  feminina.  Sou  feliz  por  ser

feminina.  Gosto  de  salto  alto  e  de

variar  os  batons.  É  bom  receber

elogios,  seja  de  homens,  seja  de

mulheres  (cá  entre  nós,  prefiro  ser

elogiada  por  mulheres  elegantes).  Mas

com  frequência  uso  roupas  que  os

homens 

não 


gostam 

ou 


não

“entendem”.  Uso  essas  roupas  porque

me  sinto  bem  nelas.  O  “olhar

masculino”,  como  determinante  das



escolhas  da  minha  vida,  não  me

interessa.

 

 

Não é fácil conversar sobre a questão



de  gênero.  As  pessoas  se  sentem

desconfortáveis,  às  vezes  até  irritadas.

Tanto  os  homens  como  as  mulheres

não  gostam  de  falar  sobre  o  assunto,

contornam  rapidamente  o  problema.

Porque a ideia de mudar o status quo é

sempre penosa.

Algumas pessoas me perguntam: “Por

que usar a palavra ‘feminista’? Por que

não dizer que você acredita nos direitos

humanos,  ou  algo  parecido?”  Porque

seria  desonesto.  O  feminismo  faz,



obviamente, 

parte 


dos 

direitos


humanos  de  uma  forma  geral  —  mas

escolher  uma  expressão  vaga  como

“direitos 

humanos” 

é 

negar 


a

especificidade  e  particularidade  do

problema  de  gênero.  Seria  uma

maneira de fingir que as mulheres não

foram  excluídas  ao  longo  dos  séculos.

Seria  negar  que  a  questão  de  gênero

tem  como  alvo  as  mulheres.  Que  o

problema  não  é  ser  humano,  mas

especificamente  um  ser  humano  do

sexo  feminino.  Por  séculos,  os  seres

humanos  eram  divididos  em  dois

grupos, um dos quais excluía e oprimia

o  outro.  É  no  mínimo  justo  que  a

solução  para  esse  problema  esteja  no



reconhecimento desse fato.

Alguns homens se sentem ameaçados

pela  ideia  de  feminismo.  Acredito  que

essa 


ameaça 

tenha 


origem 

na

insegurança  que  eles  sentem.  Como



foram  criados  de  um  determinado

modo, 


quando 

não 


estiverem

“naturalmente” 

dominando, 

como


homens,  a  situação,  sentirão  a

autoestima  diminuída.  Outros  talvez

enfrentem  a  palavra  “feminismo”  da

seguinte  maneira:  “Tudo  bem,  isso  é

interessante,  mas  não  é  meu  modo  de

pensar.  Aliás,  eu  nem  sequer  penso  na

questão de gênero”.

Talvez não pensem mesmo. E isso é

parte  do  problema:  os  homens  não


pensam  na  questão  do  gênero,  nem

notam  que  ela  existe.  Muitos  homens,

como meu amigo Louis, dizem que as

coisas eram ruins no passado, mas que

agora está tudo bem. Muitos não fazem

nada para mudar a situação das coisas.

Quando  um  sujeito  entra  num

restaurante e o garçom o cumprimenta,

será  que  não  passa  pela  cabeça  dele

perguntar  por  que  o  garçom  não

cumprimentou sua acompanhante? Os

homens  precisam  se  manifestar  em

todas essas pequenas situações.

Como 


questão 


de 

gênero


incomoda, as pessoas recorrem a vários

argumentos  para  cortar  a  conversa.

Algumas  lançam  mão  da  biologia


evolutiva  dos  macacos,  lembrando

como  as  fêmeas,  por  exemplo,  se

curvam  perante  os  machos.  Mas  a

questão  é  a  seguinte:  nós  não  somos

macacos. Macacos vivem em árvores e

comem minhocas. Nós, não.

Algumas  pessoas  dirão:  “Bem,  os

homens,  coitados,  também  sofreram”.

E sofrem até hoje. Mas não é disso que

estamos  falando.  Gênero  e  classe  são

coisas  distintas.  Um  homem  pobre

ainda tem os privilégios de ser homem,

mesmo  que  não  tenha  o  privilégio  da

riqueza.  Conversando  com  homens

negros,  aprendi  muito  sobre  os  vários

sistemas de opressão e sobre como eles

podem  não  reconhecer  uns  aos  outros.


Uma  vez  eu  estava  falando  sobre  a

questão  de  gênero  e  um  homem  me

perguntou  por  que  eu  me  via  como

uma  mulher  e  não  como  um  ser

humano.  É  o  tipo  de  pergunta  que

funciona  para  silenciar  a  experiência

específica  de  uma  pessoa.  Lógico  que

sou  um  ser  humano,  mas  há  questões

particulares que acontecem comigo no

mundo  porque  sou  mulher.  Esse

mesmo  homem,  a  propósito,  com

frequência  falava  da  sua  experiência

como homem negro. (E eu deveria ter

respondido: “Por que você não fala das

suas experiências como um homem ou

um  ser  humano?  Por  que  tem  que  ser

como um homem negro?”).


Então  sinto  muito,  essa  conversa  é

sobre  gênero.  Alguns  dirão:  “Ora,  as

mulheres  é  que  têm  o  verdadeiro

poder,  o  poder  da  cintura  para  baixo”

—  na  Nigéria,  é  assim  que  nos

expressamos  para  dizer  que  a  mulher

usa a sexualidade para conseguir o que

quer  do  homem.  Mas  o  poder  da

cintura  para  baixo  não  é  poder

nenhum, porque a mulher que tem tal

poder, na verdade, não é poderosa. Ela

só  tem  uma  boa  ferramenta  para

explorar o poder de outra pessoa. Mas o

que  acontece  se  um  homem  está  mal-

humorado 

ou 


doente 

ou

temporariamente impotente?



Tem  gente  que  diz  que  a  mulher  é

subordinada ao homem porque isso faz

parte  da  nossa  cultura.  Mas  a  cultura

está  sempre  em  transformação.  Tenho

duas  sobrinhas  gêmeas  e  lindas  de

quinze  anos.  Se  tivessem  nascido  há

cem  anos,  teriam  sido  assassinadas:  há

cem anos, a cultura Igbo considerava o

nascimento  de  gêmeos  como  um  mau

presságio. 

Hoje 


essa 

prática 


é

impensável para nós.

Para  quê  serve  a  cultura?  A  cultura

funciona,  afinal  de  contas,  para

preservar  e  dar  continuidade  a  um

povo. Na minha família, eu sou a filha

que  mais  se  interessa  pela  história  de

quem  somos,  nossas  terras  ancestrais,

nossas tradições. Meus irmãos não têm


tanto interesse nisso. Mas não posso ter

voz  ativa,  porque  a  cultura  Igbo

favorece  os  homens  e  só  eles  podem

participar  das  reuniões  em  que  as

decisões  familiares  mais  importantes

são  tomadas.  Então,  apesar  de  ser  a

pessoa mais ligada a esses assuntos, não

posso  frequentar  as  reuniões.  Não

tenho  direito  a  voz.  Porque  sou

mulher.


A  cultura  não  faz  as  pessoas.  As

pessoas  fazem  a  cultura.  Se  uma

humanidade  inteira  de  mulheres  não

faz parte da nossa cultura, então temos

que mudar nossa cultura.

 

 



Penso  com  frequência  no  meu

amigo  Okoloma.  Espero  que  ele  e  os

outros  que  morreram  na  queda  do

avião  descansem  em  paz.  Ele  sempre

será  lembrado  por  aqueles  que  o

amavam.  Ele  tinha  razão,  anos  atrás,

ao  me  chamar  de  feminista.  Eu  sou

feminista. 

Naquele 

dia, 


quando

cheguei  em  casa  e  procurei  a  palavra

no dicionário, foi este o significado que

encontrei: “Feminista: uma pessoa que

acredita  na  igualdade  social,  política  e

econômica entre os sexos”.

Minha  bisavó,  pelas  histórias  que

ouvi,  era  feminista.  Ela  fugiu  da  casa

do  sujeito  com  quem  não  queria  se

casar  e  se  casou  com  o  homem  que



escolheu.  Ela  resistiu,  protestou,  falou

alto quando se viu privada de espaço e

acesso  por  ser  do  sexo  feminino.  Ela

não  conhecia  a  palavra  “feminista”.

Mas  nem  por  isso  ela  não  era  uma.

Mais  mulheres  deveriam  reivindicar

essa  palavra.  O  melhor  exemplo  de

feminista  que  conheço  é  o  meu  irmão

Kene,  que  também  é  um  jovem  legal,

bonito  e  muito  másculo.  A  meu  ver,

feminista é o homem ou a mulher que

diz:  “Sim,  existe  um  problema  de

gênero ainda hoje e temos que resolvê-

lo,  temos  que  melhorar”.  Todos  nós,

mulheres  e  homens,  temos  que

melhorar.



Sobre a autora

 

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE



 nasceu

em  Enugu,  na  Nigéria,  em  1977.  É

autora  dos  romances  Meio  sol  amarelo

(2008)  —  vencedor  do  Orange  Prize,

adaptado  ao  cinema  em  2013  —,

Hibisco  roxo  (2011)  e  Americanah

(2014),  publicados  no  Brasil  pela

Companhia  das  Letras.  Assina  ainda

uma  coleção  de  contos,  The  Thing

around Your Neck (2009). Sua obra foi

traduzida para mais de trinta línguas e

apareceu  em  inúmeros  periódicos,



como  as  revistas  New  Yorker  e  Granta.

Depois  de  ter  recebido  uma  bolsa  da

MacArthur  Foundation,  Chimamanda

vive  entre  a  Nigéria  e  os  Estados

Unidos.  Sua  célebre  conferência  no

TED


  já  teve  mais  de  1  milhão  de

visualizações.  Eleito  um  dos  dez

melhores  livros  do  ano  pela  New  York

Times  Book  Review  e  vencedor  do

National  Book  Critics  Circle  Award,

Americanah  teve  os  direitos  para

cinema 

comprados 



por 

Lupita


Nyong’o,  vencedora  do  Oscar  de

melhor  atriz  por  Doze  anos  de

escravidão.

 

www.facebook.com/chimamandaadichie



www.chimamanda.com

 

 

OBRAS DA AUTORA



PUBLICADAS PELA COMPANHIA

DAS LETRAS



Americanah

 


 

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu

e  Obinze  vivem  o  idílio  do  primeiro

amor,  a  Nigéria  enfrenta  tempos

sombrios  sob  um  regime  militar.  Em

busca  de  alternativas  às  universidades

nacionais,  paralisadas  por  sucessivas

greves,  a  jovem  Ifemelu  muda-se  para

os  Estados  Unidos.  Ao  mesmo  tempo

em que se destaca no meio acadêmico,

ela  se  depara  pela  primeira  vez  com  a

questão  racial  e  tem  de  enfrentar  as

agruras da vida de imigrante, mulher e,

sobretudo,  negra.  Se  Obinze  planeja

encontrá-la,  seus  planos  tornam-se

menos  promissores  depois  do  Onze  de

Setembro, quando as portas americanas


se fecham para os estrangeiros.

Quinze  anos  mais  tarde,  Ifemelu  é

uma  aclamada  blogueira  que  reflete

sobre  o  dia  a  dia  dos  africanos  na

América, mas o tempo e o sucesso não

atenuaram  o  apego  à  terra  natal,

tampouco  afrouxaram  a  ligação  com

Obinze.  Ao  voltar  para  a  Nigéria,  ela

terá  de  encontrar  um  lugar  na  vida  de

seu  companheiro  de  adolescência  e

num  país  muito  diferente  do  que

deixou.


Principal  autora  nigeriana  de  sua

geração  e  uma  das  mais  destacadas  da

cena 

literária 



internacional,

Chimamanda  Ngozi  Adichie  parte  de

uma história de amor arrebatadora para


debater 

questões 

prementes 

e

universais 



como 

imigração,

preconceito  racial  e  desigualdade  de

gênero. 


Bem-humorado, 

sagaz 


e

implacável,  conjugando  o  melhor  dos

grandes  romances  e  da  crítica  social,

Americanah 

é 

um 


épico 

da

contemporaneidade.



 

“Em  parte  história  de  amor,  em

parte  crítica  social,  um  dos

melhores  romances  que  você  lerá

no ano.” — Los Angeles Times

 

“Magistral…  Uma  história  de



amor  épica…”  —  O,  The  Oprah

Magazine


Hibisco roxo

 


 

Protagonista  e  narradora  de  Hibisco

roxo,  a  adolescente  Kambili  mostra

como  a  religiosidade  extremamente

“branca” e católica de seu pai, Eugene,

famoso  industrial  nigeriano,  inferniza

e  destrói  lentamente  a  vida  de  toda  a

família.  O  pavor  de  Eugene  às

tradições  primitivas  do  povo  nigeriano

é  tamanho  que  ele  chega  a  rejeitar  o

pai, contador de histórias encantador, e

irmã, 



professora 

universitária

esclarecida,  temendo  o  inferno.  Mas,

apesar  de  sua  clara  violência  e

opressão,  Eugene  é  benfeitor  dos

pobres e, estranhamente, apoia o jornal

mais progressista do país.


Durante  uma  temporada  na  casa  de

sua  tia,  Kambili  acaba  se  apaixonando

por um padre que é obrigado a deixar a

Nigéria,  por  falta  de  segurança  e  de

perspectiva  de  futuro.  Enquanto  narra

as aventuras e desventuras de Kambili e

de  sua  família,  o  romance  também

apresenta  um  retrato  contundente  e

original da Nigéria atual, mostrando os

remanescentes 

invasivos 

da

colonização  tanto  no  próprio  país,



como, certamente, também no resto do

continente.

 

“Uma  história  sensível  e  delicada



sobre  uma  jovem  exposta  à

intolerância  religiosa  e  ao  lado



obscuro  da  sociedade  nigeriana.”

— J.M. Coetzee



Meio sol amarelo

 


 

Filha  de  uma  família  rica  e

importante  da  Nigéria,  Olanna  rejeita

participar do jogo do poder que seu pai

lhe  reservara  em  Lagos.  Parte,  então,

para  Nsukka,  a  fim  de  lecionar  na

universidade  local  e  viver  perto  do

amante,  o  revolucionário  nacionalista

Odenigbo.  Sua  irmã  Kainene  de  certo

modo  encampa  seu  destino.  Com  seu

jeito  altivo  e  pragmático,  ela  circula

pela alta roda flertando com militares e

fechando 

contratos 

milionários.

Gêmeas 


não 

idênticas, 

elas

representam  os  dois  lados  de  uma



nação 

dividida, 

mas 

presa 


a

indissolúveis 

laços 

germanos 





condição  que  explode  na  sangrenta

guerra  que  se  segue  à  tentativa  de

secessão 

criação 



do 

Estado


independente de Biafra.

Contado  por  meio  de  três  pontos  de

vista — além do de Olanna, a narrativa

concentra-se 

nas 

perspectivas 



do

namorado  de  Kainene,  o  jornalista

britânico  Richard  Churchill,  e  de

Ugwu,  um  garoto  que  trabalha  como

criado  de  Odenigbo  —,  Meio  sol

amarelo  enfeixa  várias  pontas  do

conflito  que  matou  milhares  de

pessoas, em virtude da guerra, da fome

e da doença. O romance é mais do que

um relato de fatos impressionantes: é o

retrato  vivo  do  caos  vislumbrado


através do drama de pessoas forçadas a

tomar decisões definitivas sobre amor e

responsabilidade,  passado  e  presente,

nação e família, lealdade e traição.

 

“Um  marco  na  ficção,  no  qual  a



prosa 

clara 


despretensiosa

delineia 

nuances 


de 

modo


absolutamente  preciso.”  —  The

Guardian


Copyright © 2012, 2014 by Chimamanda Ngozi

Adichie


Todos os direitos reservados

 

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da



Língua Portuguesa

de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

 

TRADUÇÃO Christina Baum



 

CAPA Alceu Chiesorin Nunes

 

REVISÃO Mariana Cruz e Larissa Lino Barbosa



 

DIAGRAMAÇÃO Verba Editorial

 

PROJETO GRÁFICO Joelmir Gonçalves



 

ISBN 978-85-438-0172-8

 

 

TODOS OS DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS À



EDITORA SCHWARCZ S.A.

RUA BANDEIRA PAULISTA, 702, CJ. 32

04532-002 – SÃO PAULO – SP

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