«catequese: a alegria do encontro com jesus cristo» I. No coraçÃo da catequese a importância do encontro



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Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa

«CATEQUESE: A ALEGRIA DO ENCONTRO COM JESUS CRISTO»

I. NO CORAÇÃO DA CATEQUESE
A importância do encontro
1. “No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo”. A afirmação é do Papa Bento XVI, que lhe deu especial relevo, ao inseri-la na introdução da sua primeira encíclica, “Deus é Amor”, o documento programático do seu pontificado. Dois anos depois repetiu-a, a nós bispos portugueses, na visita ad limina apostolorum, acrescentando: “A evangelização da pessoa e das comunidades depende totalmente da existência ou não deste encontro com Jesus Cristo”1. Encontro da parte de quem é evangelizado e de quem evangeliza.

O Papa Francisco, também na introdução da Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, de caráter igualmente programático, dirige-se a evangelizadores e é ainda mais interpelativo: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar no dia a dia sem cessar”2. E retoma o tema no capítulo final, aí a propósito dos efeitos do encontro na ação evangelizadora: “Não se pode perseverar numa evangelização cheia de ardor se não se está convencido, por experiência própria, de que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não o conhecer; não é a mesma coisa poder escutá-l’O ou ignorar a sua Palavra; não é a mesma coisa poder contemplá-l’O, adorá-l’O, descansar n’Ele ou não o poder fazer. (…) O verdadeiro missionário, que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio do compromisso missionário. Se uma pessoa não O descobre presente no coração mesmo da entrega missionária, depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe força e paixão. E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, enamorada, não convence ninguém”3.


A urgência do encontro
2. Tanta insistência já é sinal de urgência – uma urgência sentida em todos os tempos, mas particularmente desde o II Concílio Ecuménico do Vaticano, passando pelos pontificados que se lhe seguiram até ao do Papa Francisco. Entre os motivos, o próprio Papa, na nossa mais recente visita ad limina,4 realçou o que mais diretamente se prende com a catequese: o “grande número de adolescentes e jovens que abandonam a prática cristã, depois do sacramento do Crisma”, isto é, “precisamente na idade em que lhe(s) é dado tomar as rédeas da vida nas suas mãos” e depois de um longo percurso de catequese. Que isto é preocupante, já há muito o sentíamos. Por isso, como nos pediu o Papa, temos de perguntar-nos: “A juventude deixa, porque assim o decide? Decide assim, porque não lhe interessa a oferta recebida? Não lhe interessa a oferta, porque não dá resposta às questões e interrogações que hoje a inquietam? Não será simplesmente porque, há muito, deixou de lhe servir o vestido da Primeira Comunhão, e mudou-o? É possível que a comunidade cristã insista em vestir-lho?”

Embora as perguntas incidam primariamente sobre a catequese da adolescência, não podemos restringi-las a ela. Em muitas comunidades o abandono começa já a seguir à Primeira Comunhão ou à Festa da Fé, isto é, dentro do percurso seguido entre nós, depois de apenas três ou seis anos de catequese. Aliás o próprio Papa, no mesmo discurso, dá-nos razão, ao apontar como causa, não os catecismos, nos quais, segundo pensa, está “bem apresentada a figura e a vida de Jesus”, mas sim a dificuldade em “encontrá-l’O no testemunho de vida do catequista e de toda a comunidade que o envia e sustenta”. E depois situa esse testemunho no único modelo de catequese realmente apto, em qualquer fase etária, para o encontro com Cristo: “Ao catequista e a toda a comunidade é pedido para passar do modelo escolar ao catecumenal: não apenas conhecimentos cerebrais, mas encontro pessoal com Jesus Cristo, vivido em dinâmica vocacional segundo a qual Deus chama e o ser humano responde”.



Apesar de todos os esforços em contrário, reconhecemos que entre nós ainda é o modelo escolar que predomina, apoiado aliás por outros fatores: a redução da catequese a um encontro semanal, por vezes em apertados horários pós-escolares e a par ou mesmo em concorrência com atividades formativas ou recreativas talvez mais aliciantes; uma calendarização idêntica à da escola, com os catequizandos ausentes das maiores celebrações, como as da Páscoa e do Natal, por se realizarem em tempo de férias; a instrumentalização das celebrações ao longo do percurso catequético, incluindo a do Crisma, para segurar os catequizandos até, uma vez crismados, deixarem a Igreja como deixam a escola; a linguagem usada, predominantemente escolar – “matrículas”, “exames” “aulas”, “alunos” e a identificação destes por anos, como na escola.
3. Mas, além do abandono ou a par dele, há mais razões para a urgente adoção do modelo de catequese catecumenal. São elas, entre outras:

  • “A rutura na transmissão geracional da fé cristã no povo católico” de que fala o Papa Francisco, acrescentando como consequências: “É inegável que muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradição católica, que cresceu o número de pais que não batizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo para outras comunidades de fé”5. Basta olhar para a maioria das crianças que entre nós iniciam a catequese, para constatarmos como o Papa tem razão.

  • O secularismo que penetra cada vez mais a consciência e vida das pessoas, levando-as a pensar e agir sem Deus. E isto até em muitos que ainda se dizem cristãos, mas que tomam decisões e adotam estilos de vida absolutamente adversos à fé. E quando Deus está ausente, também os fundamentos antropológicos se diluem, perdendo-se o sentido da transcendência e da dignidade da pessoa humana.

  • A degradação de famílias, atingidas pelo individualismo e a dependência dos meios informáticos, que impedem o encontro e o diálogo entre os seus membros; ou de famílias vítimas de desagregação e da consequente separação entre pais e entre estes e os filhos, sobretudo em casos de divórcio.

  • A globalização, a dois níveis: ao nível das redes sociais em que principalmente as gerações mais jovens são confrontadas com inúmeras informações, solicitações e propostas, entre si tão diversas e mesmo contraditórias, que só criam nas suas mentes e atitudes a confusão e o relativismo que em nada favorecem uma opção de fé em Deus esclarecida e convicta; e a nível do urbanismo, com a sua cultura propícia ao individualismo e pluralismo ético, em que cada um seleciona as ideias e os comportamentos, não segundo o critério da verdade e autenticidade, mas consoante as conveniências pessoais.


As oportunidades para o encontro
4. Estes e outros fenómenos não são, porém, apenas e em tudo negativos. São antes, como escreve o Papa Francisco, ocasiões e “motivações para um renovado impulso missionário6, a exemplo do que aconteceu com a Igreja em outras épocas da história bem mais adversas para ela e, sobretudo, com o próprio Cristo que da morte mais ignominiosa fez o auge da oferta da vida, aquele ato supremo de amor do qual nasceu e vive a Igreja.

E, de facto, das sombras referidas já começam a emergir, na sociedade e na Igreja, sinais de desejo de Deus e abertura à fé, expressões de vida nova. Eis alguns exemplos:



  • Genericamente, uma crescente procura de espiritualidade, o desejo mais intenso de liberdade interior (a liberdade especificamente cristã), uma dedicação mais longa e frequente à solidariedade, uma renovada valorização da memória e dos sinais religiosos, um maior apreço pelo património moral e artístico do cristianismo.

  • A nível familiar, encontramos cada vez mais famílias em que se preza e promove o convívio entre os seus membros; pais, avós e outros encarregados de educação que se preocupam em acompanhar os filhos num desenvolvimento integral e harmonioso, esforçando-se por participar e colaborar ativamente com outras instituições educativas, como a escola e a Igreja.

  • Num âmbito especificamente cristão, aumenta o número de adultos e jovens que (re)descobrem a fé e se empenham na missão, ou de crianças que se deixam encantar por Jesus, não por pressão externa, como seria em regime de cristandade, mas por uma convicção de fé pessoal e livre, muitas vezes testada por um meio ambiente adverso; como aumentam também as comunidades cristãs, mormente em meios urbanos, nas quais, contra o individualismo e o anonimato, se cultiva o convívio entre os seus membros, de níveis culturais e sociais diferentes, mas unidos pela mesma fé.

Tudo isto se situa, sem dúvida, nos “inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita e negativamente”, de que fala Bento XVI a propósito da desertificação espiritual que se tem apoderado da sociedade atual. É aí, continua o mesmo Papa, que “existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com as suas próprias vidas indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo viva a esperança”7 – cristãos que, nas suas vidas, transmitam Cristo a tantas pessoas que O procuram, muitas talvez sem disso terem consciência.
Sinais de uma catequese renovada
5. Que esses cristãos existem entre nós, empenhados nomeadamente na catequese, mostram-no as respostas recebidas das nossas dioceses ao documento de trabalho que lhes foi enviado para reflexão e participação sinodal na elaboração desta carta pastoral. A eles se devem muitos dos sinais de renovação referidos nessas respostas:

  • Uma compreensão mais integral da catequese que abrange, além do ensino, a dimensão celebrativa e orante e a prática do Evangelho;

  • A renovação pedagógica que ajuda a relacionar a fé e a vida e a valorizar o lugar da liturgia, com realce para a Eucaristia, na formação cristã;

  • Iniciativas diversas para, em colaboração com a catequese paroquial, envolver as famílias na formação e educação cristã dos filhos;

  • Preocupação em conjugar a catequese com a vida das comunidades cristãs, suas células e movimentos eclesiais;

  • Perfil renovado do catequista, com mais consciência da necessidade de formação permanente, tanto nos conhecimentos como na vivência da fé;

  • Participação de muitos jovens, a par de adultos, no serviço da catequese, com os correspondentes frutos no seu crescimento cristão;

  • Intensificação da dimensão missionária da catequese, no sentido de cativar ausentes, despertando nomeadamente os pais para a sua própria formação;

  • Experiências reformadoras e inovadoras na catequese dos adolescentes.

São sinais de renovação que nos enchem de alegria e esperança e pelos quais damos graças ao Senhor. A Ele os devemos, à sua presença viva e ativa naqueles que com Ele se encontram e d’Ele recebem o discernimento e o entusiasmo que os fazem suas testemunhas credíveis.

Mas, confiados no mesmo Senhor, queremos ir mais além. Na sequência de outros documentos por nós publicados – a “Carta Pastoral sobre a renovação da Igreja em Portugal na fidelidade às orientações do Concílio e às exigências do nosso tempo” (1984), as “Orientações para a catequese atual” sob o título “Para que acreditem e tenham vida” (2005) e, mais recentemente, a “Nota Pastoral: Promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal” (2013) – queremos que a renovação passe de sinais mais ou menos incipientes e isolados e seja plenamente assumida em todas as comunidades cristãs. Move-nos, como ao Apóstolo Paulo, a firme convicção de que estamos no tempo favorável, no dia da salvação (2 Cor 6, 2) – para o encontro com Jesus Cristo, imprescindível para o acolhimento e o anúncio do seu Evangelho.



II. É CRISTO QUE VEM AO NOSSO ENCONTRO
Jesus Cristo ressuscitado…
6. É como ressuscitado que Ele continua a vir ao nosso encontro, nos conquista e transforma. Como fez com as primeiras testemunhas, as oculares. Aliás, é no testemunho delas que nos fundamentamos. Por várias razões e em diversos sentidos:

Antes de mais porque são elas a prova mais convincente de que a ressurreição de Jesus – que se processou entre Ele e Deus e, portanto, fora do espaço e do tempo acessíveis aos meios humanos de investigação científica – “é um acontecimento real, com manifestações historicamente verificadas”8. Há também o sepulcro vazio. Mas “a ausência do corpo de Cristo poderia explicar-se de outro modo”9. Ao passo que naqueles a quem Ele se manifestou deixou sinais da sua ressurreição na vida nova que lhes transmitiu: da mais profunda desilusão e tristeza passaram à maior alegria e entusiasmo; de um medo paralisante, ao anúncio mais corajoso; de mortífero perseguidor, no caso de Paulo, ao mais incansável evangelizador. Tudo, diz o Apóstolo, devido ao bem supremo, que é o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor (Fil 3, 8).

E foi assim, “como testemunhas do Ressuscitado”, que eles se tornaram “as pedras do alicerce da sua Igreja10. Foi do seu testemunho que ela nasceu e vive, a começar pela primeira comunidade de Jerusalém, formada a partir da pregação de Pedro e modelo para as Igrejas de todos os tempos e lugares. Como nela, ainda hoje os cristãos são ou devem ser assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações (At 2, 42). Atividades em que o Ressuscitado vem igualmente ao nosso encontro, para d’Ele, com Ele e para Ele vivermos.

Aliás, muitas das suas aparições estão decalcadas nessas atividades. Desde logo o dia em que se deram: sobretudo o primeiro dia da semana (Mt 28, 1; Lc 24, 1; Jo 20, 1.19), que, por isso e ainda durante a formação do Novo Testamento, passou a ser chamado Dia do Senhor ou Domingo (Ap 1, 10), festejado com a celebração da Eucaristia (cf. At 20, 7) e a partilha de bens, própria da comunhão fraterna (cf. 1 Cor 16, 2). E foi em contexto eucarístico que Ele se manifestou aos discípulos junto do lago de Tiberíades (cf. Jo 21, 9-13); e de modo ainda mais evidente aos dois de Emaús que o reconheceram, ao partir do pão (Lc 24, 30.31.35); mas já antes, diziam eles, ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras (Lc 24, 32). Um esquema que perdura até hoje, na celebração da Missa, com a liturgia da palavra e a eucarística.


7. Mas o Ressuscitado que, desses e de outros modos, vem ao nosso encontro, é também o Crucificado – aquele que, na morte,

Deu a sua vida por nós (1 Jo 3, 16).

Morte e ressurreição de Jesus são duas partes do mesmo acontecimento, numa indissociável interdependência: não tanto e apenas porque a morte é condição natural para a ressurreição, mas sobretudo porque foi o modo como Jesus enfrentou a morte que levou Deus a ressuscitá-l’O. Dito por S. Paulo: Porque Ele, depois de encarnar, se humilhou ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz, por isso Deus O exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes (Fil 2, 8-9).

A exaltação (como dimensão gloriosa da ressurreição) deve-se, pois, à obediência ou entrega a Deus, àquele Deus que amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16), o Deus que nem sequer poupou o próprio Filho, mas O entregou por todos nós (Rom 8, 32). O próprio Jesus interpreta a sua morte como auge desse amor: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos (Jo 15, 13). E por isso a sua morte já é para Ele exaltação: Quando eu for elevado da terra atrairei todos a mim (Jo 12, 32; cf. 3, 14; 8, 28). A elevação de que fala é, simultaneamente, a da cruz e a da glória; e a atração universal é a de um amor extremo e irresistível. Quem se não deixa atrair por alguém que dá totalmente a vida por todos nós?!

E foi assim, como crucificado e ressuscitado, que Ele se manifestou. Aos discípulos, fechados em casa com medo dos judeus, apresentou-se no meio deles (…) e mostrou-lhes as mãos e o lado (Jo 20, 19-20; cf. Lc 24, 39): as mãos que lhe tinham cravado na cruz; e o peito que, já morto, tinha sido trespassado pela lança do soldado e do qual logo saiu sangue e água (Jo 19, 34), os últimos restos de vida. Gestos que, oito dias depois, repete diante do incrédulo Tomé e perante os quais ele se rende, com a confissão de fé: Meu Senhor e meu Deus! (Jo 20, 28).


8. Mas há outros sinais do mesmo amor do Crucificado comunicado enquanto Ressuscitado. Desde logo a iniciativa das aparições e a sua consequente gratuidade: não são os discípulos que O procuram; é Ele que vai ao seu encontro e de um modo para eles totalmente inesperado e imerecido. Assim aconteceu com os dois que, frustrados e tristes, abandonavam Jerusalém e regressavam a Emaús: foi Jesus que se aproximou deles e se pôs com eles a caminho (Lc 24, 15).

E a Pedro: foi Ele que lhe apareceu (à letra, se deu a ver, Lc 24, 34) – ao mesmo Simão Pedro que antes O tinha renegado três vezes e a quem, talvez por isso, exigiu uma tríplice declaração de amor, antes de o enviar a apascentar a sua Igreja, como mediador do amor e perdão manifestado na cruz (cf. Jo 21, 15-17; 20, 23).

O caso mais extremo é o de Paulo, que, no seu dizer, foi alcançado por Cristo Jesus (Fil 3, 12), precisamente quando, na pessoa dos seus discípulos, perseguia a Igreja de Deus. Por isso, confessa ele, não sou digno de ser chamado apóstolo. E acrescenta: Mas, pela graça de Deus, sou aquilo que sou, e a graça que Ele me deu não foi inútil. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo (1 Cor 15, 9-10). Isto é, Paulo passou a estar possuído pela mesma graça, o mesmo amor com que Cristo o converteu e desde então nele atua, como seu apóstolo.

Outro modo de o Ressuscitado exprimir esse amor é pelo nome, identificativo da pessoa. Quem ama procura tratar pelo nome a pessoa amada. Assim aconteceu com Maria Madalena em busca do corpo de Jesus e a falar com Ele, mas pensando tratar-se do jardineiro. «Maria!» – diz-lhe Ele (Jo 20, 16). Só então ela O reconhece: ao sentir-se por Ele amada, com o amor que, desde a cruz, O identifica ainda mais e que Ele atualiza para com ela, chamando-a pelo nome.

O mesmo fez com Paulo, ao interpelá-lo: Saúl, Saúl, porque me persegues? (At 9, 4; 22, 7; 26, 14). Neste caso o amor é ainda maior: é a um inimigo, como os que O tinham crucificado. Por isso o chama pelo nome hebraico e na versão hebraica que mais assim o identifica (em grego seria “Saulo”). Como o próprio escreve, ele perseguia a Cristo por ser fariseu e, como tal, extremamente zeloso das tradições dos meus pais (Fil 3, 5; Gal 1, 14).

Temos, enfim, a fração do pão no termo da caminhada do Ressuscitado com os discípulos de Emaús, quando Ele se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho (Lc 24, 30). Qualquer leitor cristão associa a estes gestos as palavras que, desde a Última Ceia até às celebrações eucarísticas atuais, os completam e lhes dão sentido: “Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós”; “Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados”. Diz o Papa Bento XVI, a propósito destas palavras de Jesus: “Ao fazer do pão o seu Corpo e do vinho o seu Sangue, Ele antecipa a morte, aceita-a no seu íntimo e transforma-a numa ação de amor. Aquilo que exteriormente é violência brutal – a crucifixão – torna-se interiormente um gesto de amor que se doa totalmente”11.

E porque os dois se viram assim por Ele amados, por isso nesse momento se lhes abriram os olhos e O reconheceram… E partiram imediatamente de regresso a Jerusalém, para levarem aos Onze e aos que estavam com eles o testemunho da experiência recebida, o feliz anúncio do Ressuscitado (Lc 24, 31.33.35).
A centralidade do querigma
9. A reação destes dois discípulos é idêntica à das restantes testemunhas. Também Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: Vi o Senhor. E eles a Tomé: Vimos o Senhor (Jo 20, 18.25). E Paulo, apenas batizado por Ananias e ainda em Damasco, começou logo a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus (At 9, 20). De resto, no final de todos os quatro Evangelhos, Jesus despede-se dos discípulos com um mandato semelhante ao de Lc 24, 46-48: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas de todas estas coisas.

A testemunha tem habitualmente um conhecimento empírico, vivenciado do que fala – um conhecimento que até pode ser determinante para o seu próprio ser e agir e nele se refletir, tratando-se sobretudo de uma experiência do sagrado, como é o encontro com Jesus Cristo Senhor. Era o caso dos Apóstolos Pedro e João, depois de curarem um paralítico, em nome de Jesus Cristo Nazareno (At 3, 6), e a concluir, perante o Sinédrio, o anúncio da morte e ressurreição de Cristo Jesus: E nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem (At 5, 32). O Espírito de que falam, fora-lhes infundido pelo Ressuscitado (cf. Jo 20, 22; At 2, 33); e este passou, desde então, a estar de tal modo presente neles, que os torna mediadores da sua salvação. São suas testemunhas pela ação e pela palavra. Quem os capacitou para a cura é o mesmo que anunciam pela palavra.

O mesmo diz e faz o Apóstolo Paulo ao apresentar-se como ministro da reconciliação, no contexto da sua conversão e vocação: O mesmo Deus, que em Cristo reconcilia o mundo consigo, também por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação, (…) confiando-nos a palavra da reconciliação – a palavra que ele transmite como embaixador de Cristo e com Deus a exortar por meio dele: Nós vos pedimos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus (2 Cor 5, 18-20). Transmite a reconciliação que Deus, em Cristo crucificado, fez com toda a humanidade e com o próprio, quando o mesmo Cristo lhe apareceu, capacitando-o desse modo, para ser mediador dessa reconciliação. Encarnou assim a mensagem que passou a anunciar; e anuncia-a, encarnada na sua própria vida, no exercício do seu ministério.
10. E a isso é que ele atribui muito do poder persuasivo, da eficácia da mensagem. Por exemplo, em Corinto, onde – como ele recorda em 1 Cor 2, 2-5 – me apresentei diante de vós, cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. Mas foi por isso que eles acreditaram: por verem, ao vivo, no estado lastimoso do Apóstolo, o Evangelho que anunciava – Jesus Cristo crucificado e, ao mesmo tempo, a poderosa manifestação do Espírito, o mesmo Espírito que levara Cristo a vencer a morte e agora leva o Apóstolo a dar-se com semelhante intensidade.

É que o amor fortalece-se, quando provado pelo sofrimento. Torna-se mais naquele amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e, por isso, não acaba nunca, escreve ele no hino à caridade da mesma carta (1 Cor 13, 7-8). E isto, a propósito da Igreja, antes apresentada como um corpo em que os membros, com diferentes funções, se completam e unem no mesmo Espírito, no mesmo Senhor (Jesus) e no mesmo Deus (1 Cor 12, 4-5). Por isso lhe chama corpo de Cristo (1 Cor 12, 27), isto é, uma comunidade em que Cristo atua e se manifesta – com o seu amor ilimitado e na comunhão eclesial que dele nasce e vive.

Que esta comunhão tinha e tem um enorme potencial evangelizador e atrativo, pode ver-se na primeira comunidade de Jerusalém: porque todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum (…), todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas (…), por isso gozavam da simpatia de todo o povo, e o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se (At 2, 44-47).
11. É neste alargado contexto querigmático que pode e deve situar-se também a catequese, na dimensão em que dela escreve o Papa Francisco:

Uma catequese querigmática12.

Trata-se do primeiro anúncio enquanto, no seu dizer, “também na catequese tem um papel fundamental”. Por isso, continua o Papa, ele se chama «primeiro»: não no sentido de que “se situa no princípio e, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam”; mas “em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que se tem de voltar a ouvir sempre de diferentes maneiras e aquele que se tem de voltar a anunciar sempre, de uma forma ou de outra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos”. Tem, nomeadamente, de voltar a ressoar sempre “na boca do catequista (…): «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar»”13.

É que, explica o Papa, “toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano”14.


12. Isto significa, antes de mais, que a catequese se não pode reduzir à transmissão de conteúdos doutrinais, como no modelo escolar. A transmissão tem de fazer-se de modo vivenciado, inserida no encontro com Jesus Cristo. De resto, todo o encontro de catequese tem de ser encontro com Ele. Porque é Ele quem, vindo ao nosso encontro, nos pode despertar para a fé, uma fé que atinja todo o nosso ser: a cabeça, o coração e as mãos, que, segundo o Papa Francisco, necessariamente se correlacionam: a cabeça para “pensar o que se sente e o que se faz”; o coração para “sentir o que se pensa e o que se faz”; e as mãos para “fazer o que se sente e se pensa”15.

III. LUGARES DO ENCONTRO
A Igreja
13. Que a Igreja, como comunidade de crentes, é o lugar por excelência para encontrar Jesus Cristo, pode ver-se já na vocação dos seus dois primeiros discípulos, descrita em Jo 1, 35-39. O impulso parte de João Batista, de quem até então eram discípulos: Vendo Jesus a passar, diz: «Eis o Cordeiro de Deus». E quando os dois já O seguem, Jesus pergunta-lhes: «Que procurais?» Resposta deles: «Rabi (…), onde moras?» Sabendo já quem Ele é, só a morada lhes interessa. E, a convite de Jesus, foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Com este pormenor: Era por volta das quatro horas da tarde. Que morada é esta? E a que se refere a hora?

A resposta chega-nos da Última Ceia, em que Jesus prepara os discípulos para o tempo posterior à sua morte, o tempo da Igreja. Contra o medo de ficarem sós, assegura-lhes que na casa de meu Pai há muitas moradas, nas quais lhes vai preparar um lugar, e promete-lhes: então virei novamente para vos levar comigo para que onde eu estou estejais vós também (Jo 14, 2.3). Que essa morada não é somente a celeste, vê-se pela repetição da promessa: Quem me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14, 23). Esta vinda dar-se-á através do Espírito Santo Paráclito (cf. Jo 14, 26), que Ele, ressuscitado, de facto lhes transmite, capacitando-os, a eles e a todos os crentes, para o amor obtido pelo perdão (cf. Jo 20, 22-23) – o amor fraterno que nos identifica como seus discípulos e nos une na sua Igreja (cf. Jo 13, 35; 17, 20-23).

Quer isto dizer que as quatro horas da tarde, em que os primeiros discípulos entraram na morada de Jesus, apontam possivelmente para a hora a seguir à da sua morte16 – a hora em que do seu peito, trespassado pela lança do soldado, saiu sangue e água (Jo 19, 34), tradicionalmente relacionados com o Batismo e a Eucaristia, de que vive a Igreja. Daí a afirmação, com base nisso, de que a Igreja começou e cresceu “pelo sangue e pela água saídos do lado aberto de Jesus crucificado”17. De facto, é nela que Jesus Cristo vem ao nosso encontro, tal como João Batista no-lo apresenta: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29) – isto na Eucaristia, memorial do amor infinito manifestado na sua morte e ressurreição.
14. Por isso, é sobretudo aí, “no santo Sacrifício da Missa” e “principalmente sob as espécies eucarísticas”, que Ele está presente18. Mas, dentro ou fora da celebração eucarística, Ele “está presente na sua Igreja de múltiplos (outros) modos: na sua Palavra, na oração da Igreja, onde dois ou três estão reunidos em meu nome (Mt 18, 20), nos pobres, nos doentes, nos prisioneiros (cf. Mt 25, 31-46), nos seus sacramentos, dos quais é o autor (…) e na pessoa do ministro”19.

Vejamos como, em alguns desses lugares, podemos encontrar-nos com Ele.


A palavra da Escritura
15. Que “todas as Escrituras (a Lei, os Profetas e os Salmos) se cumpriram em Cristo”20, de tal modo que, como diz S. Jerónimo, “desconhecer as divinas Escrituras é desconhecer Cristo”21, vê-se ainda, entre inumeráveis exemplos, na sua apresentação como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Tudo indica que se inspira no Cordeiro Pascal, do livro do Êxodo, e no Servo de Deus, do livro de Isaías: na cruz, Jesus foi realmente o Servo que suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores (…), como cordeiro levado ao matadouro (Is 53, 4.7; cf. v. 11); e foi o Cordeiro Pascal do qual se diz: nenhum osso lhe será quebrado (Ex 12, 46 citado em Jo 19, 36). E na medida em que, como nosso cordeiro pascal, foi imolado (1 Cor 5, 7), assim nos libertou da escravidão do pecado e continua a libertar, designadamente pela Sagrada Escritura que d’Ele fala e em que Ele nos fala.
16. Esta é uma das características da Bíblia que, para nós crentes, a distingue de qualquer outro livro: “As Sagradas Escrituras contêm a Palavra de Deus e, por serem inspiradas, são verdadeiramente Palavra de Deus”. Ou ainda, pela mesma razão: “Nos Livros Sagrados, o Pai que está nos Céus vem carinhosamente ao encontro dos seus filhos, para conversar com eles”22. Isto é, ao lermos ou escutarmos os textos bíblicos, nesse preciso momento está Deus a falar-nos, o mesmo Deus que inspirou os autores humanos, fazendo suas – isto é, sagradas – as obras por eles escritas, e nelas se comunica. Daí a eficácia que o texto bíblico tem – desde que lido ou escutado “segundo o Espírito que habita na Igreja”,23 o mesmo Espírito que o inspirou.

Para isso é necessário cuidar do ambiente em que é feita a leitura, sobretudo pela oração, como aliás acontece nas celebrações litúrgicas; ou nos encontros de catequese, por norma centrados num ou mais textos bíblicos; ou na lectio divina ou leitura orante, pessoal ou comunitária, especialmente propícia para “criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva”24; ou em expressões de piedade popular, como a Via-Sacra e o Rosário, em que cada estação e cada mistério são introduzidos por uma leitura bíblica.


17. Com tudo isso nos congratulamos, mas é preciso mais. Uma regular leitura da Bíblia ainda não entrou nos hábitos de muitos cristãos, mesmo daqueles que, na catequese da infância, dedicaram todo um ano a conhecê-la.

Por isso assumimos o desejo do Papa Francisco expresso no final do Ano Santo da Misericórdia: “Que cada comunidade pudesse, num domingo do Ano Litúrgico, renovar o compromisso em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura: um domingo dedicado inteiramente à Palavra de Deus, para compreender a riqueza inesgotável que provém daquele diálogo constante de Deus com o seu povo”25.

E sugerimos, como data, o domingo em que nas nossas comunidades cristãs se celebra a Festa da Palavra conclusiva do ano catequético dedicado à Sagrada Escritura (com o título: Tens Palavras de Vida Eterna, de Jo 6, 68). Para as crianças em festa será um meio de se sentirem ainda mais integradas na comunidade: na medida em que esta acolhe o seu testemunho evangelizador acerca da experiência que fizeram com a Palavra de Deus e, desse modo, as incentiva a continuarem a ler a Bíblia, dentro e fora da catequese. E isto integrado na celebração em que deve ser maior a comunhão da comunidade, porque proveniente do encontro pessoal de cada um com Jesus Cristo no sacramento em que é mais viva a sua presença.
A Eucaristia
18. Se falamos aqui apenas deste sacramento, é sobretudo por ele ser, segundo S. Tomás de Aquino, “o sacramento dos sacramentos”26. No II Concílio Ecuménico do Vaticano explicou-se porquê: por ser “fonte e cume de toda a vida cristã”27. Isto é, “todos os outros sacramentos (…), bem como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado estão unidos com a Eucaristia e a ela se ordenam”, já que “na Sagrada Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa”28.

E a melhor expressão de “Cristo, nossa Páscoa” está no modo como nos é apresentado antes de o comungarmos: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. São palavras que, como já vimos, resumem o mistério pascal de Cristo, em que Ele consumou a obra salvífica para a qual fora enviado pelo Pai (cf. Jo 19, 30). Baseando-se nas parábolas de Jesus sobre a misericórdia de Deus (Lc 15), diz o Papa Bento XVI que “na sua morte na cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si próprio, com o qual Ele se entrega para levantar o ser humano e salvá-lo – o amor na sua forma mais radical. No mistério pascal, realizou-se verdadeiramente a nossa libertação do mal e da morte”29.

Mas aquelas palavras resumem também o mistério celebrado na Eucaristia, que Jesus instituiu na festa da Páscoa judaica, centrada no Cordeiro Pascal. Sobre isso diz ainda Bento XVI: “Jesus é o verdadeiro Cordeiro Pascal, que se ofereceu espontaneamente a si mesmo em sacrifício por nós, realizando assim a nova e eterna aliança. A Eucaristia contém nela esta novidade radical, que nos é oferecida em cada celebração”30.
19. É este amor tão radical que, no seu memorial eucarístico, mais nos atrai, fascina e conquista. É então que olhamos para Aquele que trespassaram (Jo 19, 37), contemplando-O e adorando-O no amor em que todo Ele se nos dá, ao entregar o seu Corpo e derramar o seu Sangue por nós e por todos. Uma adoração silenciosa de que irrompe a exclamação de fé: “Anunciamos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Ou depois nos conduz ao “Ámen”, a expressão da fé com que, antes de O comungarmos, respondemos à apresentação do seu “Corpo” – o Corpo antes entregue por nós.

É neste sentido que deve entender-se a “

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