Caso Ludmilla: o racismo nosso de cada dia reafirmado ao vivo pela tv



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Encontro10.10.2018
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Caso Ludmilla: o racismo nosso de cada dia reafirmado ao vivo pela TV

Uma pergunta que pode ser considerada atemporal e, até mesmo, sem respostas fechadas: até quando teremos que conviver com o racismo no Brasil? Velado ou escancarado, a prática do racismo é tão normal no país, que muitas pessoas apostam e justificam que esse tipo de preconceito não existe na sociedade brasileira. Ele é tão latente que arde nos poros, queima na alma e arrasta pela vida de cerca de 53, 6 da população, número estimado pelo IBGE de negros e pardos do país. O racismo de cada dia quando estampado na TV parece ser maior do que qualquer outro tipo de racismo por conta da visibilidade que alcança, ainda mais quando o caso envolve figuras públicas como o episódio da funkeira Ludmilla.

Em pleno século XXI, a artista foi xingada de “macaca” pelo apresentador “Marcão do Povo” durante a exibição do programa Balanço Geral de Brasília no dia 9 de janeiro. O vídeo foi amplamente divulgado pelas redes sociais a partir de terça-feira, 17, quando o país se comoveu em defesa da cantora. O hasthag #ProcessaLudimila foi, durante 15 horas, o principal assunto do Twitter. Os internautas apoiaram que a cantora denunciasse o caso à polícia e repudiaram a atitude do apresentador (Veja o vídeo aqui).

O caso coloca em xeque o poder da mídia de mobilizar o cidadão comum em prol de um tema, mas também do despreparo dela de lidar com os direitos fundamentais do homem. Por outro lado, a repercussão do caso traz à tona ainda não só a violência contra a cantora em si, mas também contra a mulher e toda a população negra em geral (argumento este apontado na representação do coletivo “Intervozes” e da “Andi” que foi feita sobre o caso junto ao Ministério Público Federal – confira a representação na íntegra aqui).

Não podemos tratar o racismo que ocorreu nesta semana na TV como um caso isolado. O racismo mostrado na televisão é o racismo puro e perverso de cada dia. A falta de representação de negros e negras em diversos setores da sociedade tem contribuído para o racismo também dentro das instituições. O maior veículo de comunicação de massa do país não fica de fora.

Faltam negros/as nas escolas e no ensino superior, no mercado de trabalho – em diversos setores e também dentro das empresas de comunicação como jornalistas, produtores e âncoras, e em cargos de chefia. Faltam representantes negros dentro do Congresso Nacional. Para além da ausência nesses locais, também é importante analisar qual é o perfil dos negros e negras quando eles fazem parte das emissoras. Outra abordagem que devemos prestar atenção é como o povo negro é retratado nas telas da TV e pela mídia impressa (vale conferir os dados do livro de Joel Zito “Onde está o negro na TV Pública” e a pesquisa “Imprensa e Racismo” da Andi).

Sobre o racismo institucional, organizações que defendem os direitos de negros/as do DF e o Sindicato dos Jornalistas do DF cobraram, em nota de repúdio ao caso da cantora Ludmilla, uma postura diferente das empresas de comunicação. As entidades apontam a necessidade da implementação de “políticas de seleção e formação que levem em conta a defesa da igualdade racial e de gênero e o combate ao racismo”. Elas também alertam que essa é uma responsabilidade “coletiva e empresarial que deve estar expressa no aumento do número de profissionais negros e negras, bem como no tratamento digno às pessoas negras mencionadas nas reportagens, inclusive nos programas policiais” (veja a nota de repúdio aqui).

Não existe uma receita mágica para se frear o racismo dentro da televisão. Cabe ao poder público agir segundo a legislação e responsabilizar as emissoras quando elas violam direitos. A capacitação dos estudantes e estagiários, dos professores da área de comunicação e dos jornalistas na academia, nas redações, nas assessorias e nos Sindicatos dos Jornalistas seria mais uma um investimento a ser colocado em prática. Essas iniciativas de formação poderiam tratar de diferentes temas que tenham relação com a história da população negra, com a cultura afrodescendente e de como são as abordagens da mídia quando os negros e negros são personagens das reportagens e entrevistas, entre outros temas.

O racismo é uma violência que está impregnada na sociedade e o desafio de acabar com ele é colocado diariamente sobre nós. E a cada episódio de preconceito nos chocamos e nos insultamos. Até quando o sonho de Martin Luther King de ver seus irmãos sendo julgados pelos seus atos e não pela cor da sua pele não será alcançado? O que não podemos admitir mais em pleno século XXI é que a televisão aberta, presente na maioria das casas dos brasileiros e forma de entretenimento de uma boa parte da população, perpetue ainda mais o “racismo” nosso do dia a dia.

Gisliene Hesse é jornalista há 15 anos, antirracista, mestre em comunicação pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e assessora de comunicação do Sindicato dos Jornalistas do DF.



Nome completo: Gisliene Hesse Lima de Souza

E-mail: gyhesse@gmail.com


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