Caros Colegas



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Editorial
Caros Colegas,

Nesta edição passamos às suas mãos todo o conteúdo das palestras matinais do congresso de julho 2005, proferidas pelo Dr. Heinz Zimmermann. As palestras (com exceção da primeira, que se baseou em anotações resumidas) haviam sido gravadas, portanto estamos lidando com uma nova experiência: a de transcrever textos gravados, o que exigiu mais tempo por causa de nossa inexperiência.

Este trabalho só pôde ser realizado graças à valiosa ajuda de colegas de diferentes escolas.

Cordialmente,

A Coordenação do Periódico

Nota da Redação

O texto da primeira palestra do Dr. Heinz Zimmerman foi redigido a partir de uma compilação das anotações cedidas pelos colaboradores Suely N. de Resende Lima, da Escola Waldorf Rudolf Steiner, e de Vander Vicentin, da Escola Waldorf Viver, de Bauru.

As palestras que se seguem à primeira, da segunda à quinta, foram redigidas baseadas na transcrição de gravações cedidas por Paulo Roberto de Souza Netto, também da Escola Waldorf Viver, de Bauru.

Foram necessárias a adequação das anotações à linguagem fluente e a normalização do texto integral. O trabalho foi extenso, e também por isso o atraso desta edição foi maior.

Agradeço a compreensão de todos, e espero que apreciem a leitura desta edição especial.

Paula Cristina Dassie




Primeira Palestra

Caros colegas! É interessante falar de congresso neste ambiente. A tenda é uma boa imagem para a flexibilidade do movimento...

Toda aula é uma aula de língua, pois usamos nelas os órgãos fonadores. O ponto de partida é o próprio professor. Podemos perceber que os alunos adoecem quando o professor fala entrecortadamente, por exemplo. Há uma conseqüência real que acontece no social, num âmbito inconsciente. Quando falamos, a laringe se movimenta com o som da fala e conseqüentemente há uma imitação da fala.

A introdução da criança à língua em geral é um segundo passo de desenvolvimento individual dentro da própria língua materna, o que ocorre por volta dos três anos de idade. Já o ensino da gramática compreende:


1- a recitação: o que as crianças falam (teatro);

2- aquilo que o professor conta no decorrer dos anos (e como ele conta);

3- a parte curricular (base antropológica do conteúdo).
Há um poema de Rudolf Steiner sobre o mistério da língua:
Ouvir sem entender,

apenas ouvir...

no amor à palavra.
A linguagem possui três âmbitos. O primeiro é a compreensão. Nós, adultos, conseguimos perceber o que ia ser dito sem que seja preciso concluí-lo. A compreensão é a parte da linguagem ligada ao pensar, à cabeça. O segundo âmbito, intermediário, é o ato de ouvir, sem necessariamente entender. Não está condensado no âmbito da cabeça. É possível dizer uma frase que seja rapidamente compreendida [N.T.: como na Suíça há diversos dialetos, ele deu três exemplos, com nuances diferentes (três seres diferentes na fala), da frase: “Ah!, mas isso era muito bom!”]. Até mesmo as rugas são diferentes; a forma de caminhar também é diferente, bem como os gestos. Quando falamos em um dialeto (de modo curto, ligeiro), os gestos são ligeiros e curtos... Isto acontece porque entre o pensamento e o movimento se encontra o âmbito da linguagem. E é importante considerarmos a esfera intermediária: a audição. Quando ouvimos somos atingidos, mesmo que semiconscientemente, por algo que toma conta do nosso sentir. As três maneiras de falar demonstradas atuam de modos diferentes no sentir.

Existe uma polaridade da linguagem, e devemos tentar perceber os sentimentos envolvidos

[N.T.: o Dr. Zimmermann recitou um verso mágico que, no século IX, era usado para curar a perna quebrada de um cavalo. Nele pudemos perceber o poder mágico de transformação, uma vez que houve a repetição dos mesmos sons três vezes, sempre acompanhados de um gesto].

De um lado, a língua tem o poder mágico da transformação – o que pode ser percebido, em três etapas, dentro da propaganda, ou seja, para que seu poder seja utilizado repete-se três vezes o som com intensificação. Existe um poder na intensificação. Do outro lado há o pólo do pensamento: a informação propriamente dita, que podemos ver nos sinais e ler nos avisos. Nestes não há necessidade de ouvir; a língua emudece, basta compreender. Como exemplo, temos o de uma placa num parque: “É proibido pisar na grama (multa)”. Vejam, as palavras foram suprimidas.

Atualmente usamos o computador, em que um texto que pode ser deletado, acrescentado, e cujas ordem das frases pode ser modificada. Neste caso ocorre a manipulação da linguagem. Por outro lado, quando as crianças começam a aprender a escrever, no primeiro ano, usam o giz de cera e as primeiras letras lhes chegam mediante vivências. Isto é o oposto de se escrever num computador. Devemos levar para a escola uma linguagem relacionada com vivências.

Para o Ensino Médio devemos levar autores que não primem pelo conteúdo, mas que explorem a sonoridade da língua. No décimo ano é possível escrever poesia utilizando apenas a sonoridade para transmitir o conteúdo, tal como na poesia dadaísta. É preciso, no entanto, primeiro estabelecer um ambiente. Por exemplo, há ritmos na África nos quais os sons são diretos, são algo do sentir. O ambiente muda conforme os sons. Isso se relaciona com a qualidade de ouvir a linguagem. Por exemplo: piso num caranguejo, “crrr, ai!”. A compreensão aconteceu mediante o mero ato de ouvir. Ninguém dirá: “Como? Não entendi”... Na realidade a compreensão se dá no âmbito do ouvir, e essa capacidade deveria ser explorada pelos professores. Uma mesma palavra tem significados diferentes de acordo com o tom em que foi dita.

Existem, na linguagem, dois patamares: o do intelecto e o da intenção. Isto é comprovável com a anatomia e a fisiologia do cérebro. O cérebro tem dois lados: o esquerdo, relacionado com a lógica, e o direito, vinculado à musicalidade da língua. O neurologista inglês Oliver Sacks, autor do livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, descreve pessoas que sofrem de lesão no lado esquerdo do cérebro: elas ouvem sentenças, mas não compreendem seu conteúdo. Pessoas que sofrem danos no lado direito compreendem tudo, mas não distinguem as vozes femininas das masculinas. Numa de suas experiências, havia aqueles que prestavam atenção ao conteúdo e outros que apenas davam risadas, pois a partir da sonoridade percebiam que tratava-se de uma farsa.

É importante tentar ouvir, através do conteúdo, a sonoridade, e, através da sonoridade, perceber o estado emocional de quem fala. Uma boa mãe ouve e sente se a criança está bem ou não. Quando ouvimos a voz percebemos se uma pessoa está tranqüila ou se algo a incomoda. Mediante a voz de uma pessoa é possível perceber as nuanças dos sons emitidos. Os médicos podem atentar para isso e perceber se uma pessoa está bem encarnada ou se está no limiar.

A sonoridade provoca antipatia ou simpatia. Durante a retrospectiva da noite, seria bom que nos lembrássemos de como cada criança falou. Distinguiríamos, desta forma, certas tonalidades: de baixo para cima (resignação), de cima para baixo (tranqüilidade). Outras pareceriam um lamento. Devemos superar psicologicamente tais sensações, pois o conteúdo pode nos ser útil. Cada voz é única; cada ser tem a sua própria voz, e nela se revela o mais íntimo: o seu eu. Quando nos tornamos capazes de ouvir encontramos a essência do outro.

Um exemplo de conhecimento dramático: olho para o espelho e enxergo uma outra pessoa, que não eu, fazendo caretas. Tenho uma percepção imediata, mas sem representação mental – e não tenho uma conclusão. Desmaio, ou me oponho e grito. Esta é a saída do mundo espiritual para o mundo terreno.Quando percebemos algo e não entendemos do que se trata, ficamos entregues à percepção. A criança pequena do primeiro setênio se encontra nessa situação. Que tipo de percepção essa criança tem? A exclamação é uma reação contra uma percepção incompreendida. É a busca pelo novo conceito existencial, e não é uma pergunta tranqüila – “Eu tenho de saber!”. É uma procura dentro das representações da memória. Afinal, o que é aquilo no espelho? Quando descobrimos que tudo foi uma brincadeira de mau gosto, nos tranqüilizamos. Este é o caminho da percepção ao conceito.

A linguagem busca a compreensão do que toma conta de nós. Resumidamente, estas são as três formas de linguagem:

! ? .
(exclamação) (pergunta) (conceito)
As duas primeiras, exclamação e pergunta, estão ligadas ao movimento, e a última, o conceito, à idéia. Por exemplo: “Tomei banho no lago. Brrrr!”. Concluímos que a água estava fria. A linguagem está ligada à vontade, e é movimento até chegar ao conceito.

No caso do verso mágico, temos uma língua individual. A relação com a palavra é mágica, e a formulação é intelectual. Existe um caminho: reação imediata, juízo e conceito. Este é o caminho da humanidade que vai da vontade até a conceituação, da palavra mágica até o conceito.

No âmbito individual isso também ocorre. O que acontece com a percepção quando, na educação, encontramos o conceito pronto? Há uma diminuição da intensidade, um enfraquecimento da percepção. O ser humano adulto sabe de imediato o que está vendo e ouvindo. A criança deve ser conduzida da percepção ao conceito. O adulto encontra a percepção a partir do conceito.

Um outro âmbito: ouvimos uma criança falar. Como foi que ela aprendeu a língua? Percebemos então como a linguagem é adquirida e como é colocada em uso. No caso da língua estrangeira há uma etapa de tradução, que só é aprendida quando não pensamos. Em cada um vive uma língua, como uma posse. É um milagre do espírito da fala. Antes de dizermos algo não sabemos exatamente o que vamos utilizar. Se tivéssemos de pensar, não falaríamos; não saberíamos o que falar. Temos uma percepção geral do que será dito e entramos no fluxo da fala. Encontramos, assim, facilidades e dificuldades. Certa vez, a própria Magda Mayer* teve de fazer uma alocução para o dia de São Micael. Questionou a si mesma sobre o que diria e, com fúria, a professora pegou um papel com os conceitos e os converteu em um ótimo fluxo. Quando estamos agitados nos surpreendemos com o fluxo da nossa fala.

E como é que eu, professor, posso utilizar o fluxo da língua em prol das crianças? Não deve haver discrepância entre a cabeça e o coração, o fluxo do coração. Rudolf Steiner fala da possibilidade de relacionamento com o espírito da língua. Mas como entrar no fluxo do coração? Cada língua tem seu próprio espírito, a sua própria essência. Isto se expressa nas qualidades de cada língua, nas gramáticas, nos vocábulos, na sonoridade. Por exemplo: Giovanni, John, Johannes, Juan, João. Há sons, entretanto, que não conseguimos falar: eis o espírito.

Se olharmos do ponto de vista da fisiologia, veremos que ativamos 120 músculos diferentes quando falamos cada palavra. Mais de 100 músculos se movimentam por segundo. É na laringe que produzimos os movimentos mais rápidos do corpo. Não poderíamos percebê-los conscientemente. O fluxo produz os movimentos concretos. Poder-se-ia dizer que um milagre acontece quando nos entregamos a isso e saímos dos sons concretos. O espírito age até mesmo movimentos adentro.

A tarefa do ensino da língua materna é estabelecer a amizade com o espírito da própria língua. Quando não sabemos o que dizer ocorre uma intensificação dos movimentos. A partir do movimento surge a fala, e, a partir da fala, surgem os pensamentos. A representação mental se une à ação.

Movimento – linguagem – pensamento
O pensamento se desenvolve lentamente através da fala. A linguagem se situa entre o movimento e o pensamento. O educador, ao exercitar a fala, exercita também o meio do ser humano, a partir do qual a vida social se constitui.

***


Segunda palestra


Houve uma pequena introdução, em que o Dr. Zimmermann comentou a respeito do frio que fazia naquele dia: “Eu disse que iria para o Brasil, e então me aconselharam a levar, sem falta, o calção de banho... Antes que vocês vejam alguém congelando, sugiro que façamos alguns exercícios de aquecimento no meio da palestra...”.
As experiências da vida são trocas das experiências que temos. Os senhores seguramente chegaram aqui com perguntas. Façamos, de início, uma coleta de perguntas. Tentaremos fazer uma estruturação e a cada dia abordaremos um assunto.

Agradeço cordialmente a apresentação do poema das línguas clássicas feito no início.

Gostaria de trazer–lhes à lembrança os quatro níveis com os quais lida a linguagem:
1. a compreensão do sentido

2. a audição da alma

3. a vivência do espírito

4. o amor


Compreender o sentido: o pensamento.

Ouvir a alma: o sentimento.

Vivenciar o espírito: a vontade.

Amar: o ser humano completo.


É como os quatro passos em direção à comunhão, à união com a linguagem.

Temos falado sobre o seguinte:


- Língua como pensamento/compreensão do sentido: consciência diurna

- Língua como algo que se ouve (menos desperto): consciência noturna

- Língua como espírito: movimento profundamente inconsciente.
A compreensão do sentido ocorre na clara consciência. A audição, que está no âmbito da consciência onírica, é menos acordada. O que está relacionado com o espírito da língua é, em geral, profundamente inconsciente.

E o que se pensa sobre o poder da palavra escrita? Por exemplo: numa camiseta está escrito amor, e, numa outra, ódio. É possível que uma pessoa capte a energia dessas palavras transmitidas? De início, precisamos saber que a palavra escrita tem um poder muito mais atenuado do que a língua falada. Pensemos no seguinte: temos um texto de palavras mágicas escritas e as lemos diante de um cavalo. Nada acontece. As palavras passaram pela nossa cabeça, mas não a permearam de fato. A linguagem escrita é uma linguagem que passa somente pelo pensar, pela cabeça, pelo sentido. Mesmo assim, um verso escrito tem uma atuação bastante forte por não estar relacionado com a consciência diurna, desperta, mas, com uma consciência onírica, a mesma com que lemos uma propaganda: adormecida. Quando lemos uma mensagem escrita numa camiseta escrita não a seguimos, pois a lemos semiconscientemente – e é desta maneira que a mensagem adentra nosso subconsciente. Podemos dizer aproximadamente que tem o mesmo poder da propaganda dos outdoors.

Inicialmente, a escrita tinha poderes mágicos, e é por isso que antigamente apenas pessoas que haviam recebido a incumbência da escrita como sacerdócio é que podiam escrever. Quando cometia um erro de escrita no Egito antigo, o escriba era condenado à morte. Comparando-o com a escrita no computador – em que podemos errar, “deletar” e continuar a escrever –, vemos a transformação da “língua como atuação mágica” para a “língua como veículo de comunicação”. Podemos ver os dois pólos da linguagem: o pólo da transformação e o pólo da mera informação. Por exemplo: todos entendem “Au!!!”, “Brr!!!”, DVD, PC, bem como [N.T.: ele fez um gesto] – qualquer um compreende. São estas as palavras abreviadas que cada um compreende por convenção. São expressões do movimento. Podemos dizer que, por um lado, a linguagem é a expressão do movimento introjetado, e que, por outro lado, também é receptáculo da informação.

Podemos representá-lo muito bem mediante duas situações ocorridas num espaço de tempo de aproximadamente dois mil anos. Primeira: seguramente todos conhecem o início do evangelho de São João: “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e um Deus era a palavra. Esta no início estava com Deus, e tudo se fez através dela. Isso que foi feito foi feito através dela”. Isso significa: a palavra como principio de criação. Podemos perceber a força de transformação nas palavras mágicas e no xingamento, e, nas palavras de bênção (na oração), a transformação da palavra.

Segunda situação: uma citação do início do século XX. A língua é o sistema de símbolos que transmite pensamentos. Dentro desse enorme arco tudo é, na realidade, língua. É o desenvolvimento da língua e desenvolvimento da linguagem como ponto de partida da vontade, da transformação; o percurso histórico da língua desde portadora da forma mágica até a transmissão do pensamento. Neste sentido, a língua constitui o meio entre o movimento e o pensamento. Poder-se-ia dizer, ainda: entre cabeça e membros.

Hoje eu gostaria de abordar o desenvolvimento da língua, desde a criança até o adulto. Como a língua se desenvolve no ser humano? De que maneira a criança pequena aprende a língua? Já no útero materno a criança capta os sons através das vibrações. Há pesquisas com recém-nascidos que mostram suaves vibrações delicadas pelo seu corpo inteiro, que se estendem até os membros, quando sua mãe fala. É bem claro que a língua está primeiramente relacionada com a audição, e a primeira coisa que a criança faz é ouvir. A criança existencialmente precisa fazer o que nós adultos esquecemos – ou desaprendemos. Existem casos que são exceções, e eu gostaria de dar um exemplo.

No seminário de formação de professores que eu dirigia havia um aluno alpinista, que era de Berna. Ele fez uma expedição ao Himalaia com um guia xerpa, que só falava a sua própria língua e um pouco de inglês. O estudante também só sabia pouco inglês e a sua língua materna. Nos primeiros dias se comunicaram com o parco inglês. E então perceberam que quando o bernês falava o alemão bernês e o guia sua língua materna, entendiam-se bem melhor. Como compreendê-lo? Quando falo a minha própria língua, uno-me totalmente àquilo que falo – e isso passa para o outro. Quando ouço com atenção compreendo a intenção do que o outro diz, mesmo sem entender as palavras. Isto também pode ser percebido em relação à linguagem corporal, ao gesto. No gesto muito pode ser expresso sem que se compreenda a língua. Assim temos de imaginar a criança pequena, que progressivamente começa a compreender por meio da audição. A audição não é algo que ocorre no ouvido; ocorre no ser humano como um todo. Precisamos considerar que a criança passa por três grandes etapas fundamentais durante sua transformação num Homem: erguer-se, aprender a falar e aprender a pensar. São os instrumentos que posteriormente estarão à disposição do Eu: movimentar-se como ser humano, comunicar-se com o outro como ser humano e desenvolver pensamentos que se dirijam ao futuro. Podemos afirmar que nesses três primeiros anos são conquistadas as características mais importantes, mesmo antes que a criança diga eu para si própria.

Rudolf Steiner chama a nossa atenção para o seguinte: nessas três forças, o ser Cristo atua diretamente, e nos capacita a nos erguermos, a falar e a pensar. Quando observamos como a criança se esforça para se erguer, podemos invejar quão fortemente nela atuam as forças da vontade. Ela tenta cem vezes, se levanta, cai novamente, tenta de novo, cai. Eu nunca ouvi uma criança dizer: “Agora chega!”. O que acontece no ato de ficar em pé infantil? Constituem-se dois pólos: a cabeça conquista a calma, a imobilidade, e nos membros se instala o pólo do movimento. No meio se forma o um novo sistema, o sistema rítmico, em que os braços ficam livres para o movimento e para o trabalho. Ou seja, mediante o ficar ereto forma-se o Homem trimembrado: o pólo da cabeça parado (pensar), o pólo dos membros (movimento) e, no meio, o sistema rítmico (entre o em cima e o embaixo).

Observemos de perto como esse processo se desenrola até que o andar ereto seja alcançado. Por isso tenho o privilégio de me mover aqui, no palco. Quando olhamos para uma pessoa caminhando, observamos que ela, ao se movimentar, alterna ao tirar um pé da força da gravidade enquanto o outro se une mais fortemente à Terra. Eu me uno com a Terra e dela me separo numa alternância rítmica. A união com a Terra significa encarnação, e o desprendimento desencarnação. As duas coisas acontecem num equilíbrio ritmado.

Observemos na fala o mesmo que temos no movimento. Como podemos observá-lo na linguagem? Também na língua há algo de plástico que se une à Terra, que é a consoante, e algo de mais musical, que é mais leve e que se liberta: a vogal. Quando entram num ritmo, que palavra surge? ...isso é mama!

A consoante M é a mais fechada. Fechamos bastante os lábios para pronunciarmos mmm. A vogal A é a que mais abrimos a boca para pronunciar, e, ritmando as duas, temos mama. É um andar interiorizado, introjetado.

Todas as primeiras palavras da criança são ritmadas, tais como o gogo, baba, lala, mama. Não têm um significado propriamente determinado. Diz mama, papa, indiferentemente para tudo o que lhe é querido. É interessante que no início, antes de chegar a essas palavras ritmadas, ela, como que brincando com o aparelho fonador, emite sons guturais, vibrantes etc., experimentando o que é possível fazer como ruídos. Chega ao reconhecimento substancial de que é assim que ela aprende os sons da língua materna – a partir da audição –, e de que é mais difícil aprender uma outra língua. Pode-se dizer que, ao adquirir a língua materna, morre a relação com a língua universal, com o logos.

Existe uma língua bengali que tem dez sons diferentes entre o d e o t. A criança bengali os aprende brincando. Para nós isso é quase impossível. O chinês tem cinco melodias diferentes, e conforme a melodia o significado é totalmente diferente. A criança tem de conquistar tudo isso, todas essas possibilidades, antes de dominar a sua própria língua. Aprender a língua materna significa escolher uma dentre as muitas possibilidades. Para o adulto é difícil aprender uma outra língua, pois sabe que não se trata mais de sua língua materna. Ou seja, quando aprendemos, conquistamos uma língua, perdemos a capacidade de aprender uma outra.

A conquista de uma língua se processa de tal modo que inicialmente registram-se sons, sílabas, palavras, e, por último, a frase. Essa conquista se constitui de duas etapas. Primeira etapa: inicialmente, mama é apenas um jogo da fala. Segunda etapa: nesta, a palavra mama é identificada com a mãe. Não significa, no entanto, apenas mãe como um substantivo; tudo o que está relacionado com a mãe é mama. E a primeira coisa que a criança aprende são estas três expressões: exclamação, pergunta e declaração [O palestrante expressou a palavra mama das três diferentes modalidades: “Mama.”, “Mama!”, “Mama?”, “Mamama...”]. Do mesmo modo, au-au não é somente a designação para cachorro, mas para tudo o que se relaciona com ele – e talvez também para gato.

A criança, entretanto, registra uma infinidade de palavras assimiladas do seu derredor. Imaginem que a criança de 6 anos têm à disposição cinco mil palavras no ativo e 24.000 no passivo. Isso significa que uma criança aprende, em média, onze palavras novas por dia. Para o professor de línguas isso é uma miragem, uma inimaginável capacidade de assimilar a língua materna, tal como assimilar o leite materno.

Podemos ver agora de que maneira isso funciona. Há palavras que a criança ouve, mas não compreende, pois a seqüência é sempre esta: ouvir, falar e então entender e compreender. Há, por exemplo, o uso do mas. Percebe-se que é criança não sabe o significado da palavra. Ela passa a usá-la sempre, em todas as situações, às vezes corretamente e outras não. De repente, um dia percebemos que enfim ela captou o significado. Seria impossível explicar para criança o que significa a palavrinha mas.

Percebemos que a aprendizagem da língua ainda está, de certa forma, ligada à corporeidade. O próximo passo alcançado é quando percebemos que a criança aprende a pensar a partir da língua. Um bom observador o descreveu da seguinte maneira: o pai brinca de bola com uma criança, escondendo-a e mostrando-a em seguida, e pergunta: “Onde está a bola?”. Ela responde “Aí”. A criança pode falar “bola” ou,bola, aqui”. O pai escreve que chegará o dia em que a criança falará algo muito significativo, o que talvez nem seja percebido por outros. “Onde está a bola?”, perguntará o pai. “Bola aí”, dirá a criança. É um passo gigantesco porque, pela primeira vez, a criança relacionará uma coisa com a outra. Antes era “bola”, “bola, aqui”. Agora é “bola aí”. Percebemos o nascimento da frase. A frase é a polaridade entre a cabeça e os membros, por meio da qual uma afirmação é feita. Algo é afirmado sobre o sujeito: é o predicado. Esta é a base, o essencial da frase, a polaridade entre atividade e processo, de que se diz algo: “Eu tenho algo” (sujeito), e ainda há uma ação que diz algo desse sujeito: o verbo. É onde começa a gramática – está claro que não na idade da criança pequena. Mas nós precisamos da gramática porque existem frases. Esta é também a forma primordial do pensamento. Quando pensamos, sempre pensamos sobre algo e afirmamos algo sobre aquilo. Desta forma, podemos dizer o seguinte: enquanto a criança aprende a falar frases, aprende a pensar.

A partir da fala a criança aprende a pensar, e esse processo de chegar à frase termina por volta do terceiro ano de vida, quando fala eu para si própria. Considerando todo o primeiro setênio em relação à conquista da fala, podemos dizer que ela tem uma relação mágica com a língua e, ao mesmo tempo, uma relação sensorial com a língua. É possível dizer à criança: “Você é boba!” (em tom brando), ela sorrirá, ou, “Foi ótimo!” (num tom bravo). Para a criança vale o tom, e não o conteúdo. Como ela reage ao tom dos pais quando percebe, à noite, que vão sair! Assim que tentam levá-la mais cedo para cama, fazer tudo como sempre, a criança chora e grita. O que acontece? É que a criança ouve as nuances, as sutis diferenças na voz da mãe. A mãe está um pouquinho nervosa, pois ainda não sabe se conseguirá ou não. A criança percebe essa diferença sutil, apesar de a mãe fazer tudo como sempre faz. É um fenômeno semelhante ao dos animais, que têm uma percepção muito maior dos nossos gestos e dos tons de nossas vozes.

Concluindo, pode-se dizer que, no primeiro setênio, o movimento, a fala e o pensamento formam uma unidade que está totalmente ancorada no pólo do movimento. Observemos este verso infantil:

Hoppe, hoppe Reiter.

Wenn er fällt dann schreit er.

Fällt er in den Graben

Fressen ihn die Raben

Fällt er in das grüne Grass

Macht er sich die Fältchen nass.

Fällt er in den Sumpf

Da macht der Reiter Plumps
Quando dizemos esse ritmo, brincamos com a criança que está sobre os nossos joelhos, e fazemos o gesto de cavalgar. Assim que acaba, criança fala: “De novo!” [O palestrante sugeriu fazer com a platéia para que se aquecesse, e todos o fizeram].

Observem que a característica é o ritmo, e que o ritmo está sempre relacionado com os membros. O conteúdo não tem um significado determinado. Quando andamos esse ritmo e quando falamos esse verso lidamos com o ritmo. É por esta razão que a criança pequena é muito receptiva ao ritmo. A criança nunca pergunta pelo significado. Ela repete falando o que ouve e se alegra com o ritmo. Esta é, por si só, a melhor formação da linguagem. Podemos observá-lo também nos versos seguintes. Há um verso que existe em várias línguas, talvez também em português [ele o falou em suíço]:


Heile, heile Sega/

Drei Tage Regen,

Drei Tage Schnee,

Tut dem Kindlein nimmer Weh!
(Sana, sana etc.)
A mãe fala o verso e sopra como se soprasse a dor, e a criança sorri. Esta é atuação mágica da língua. Se atentarmos para o conteúdo, veremos que o verso em alemão significa: Sara, sara, bênção/ Três dias chuva/ Três dias neve [era novembro na Europa], Nada mais dói para a criança! O frio é desagradável – mas qual a relação disso com a dor? Não há lógica! A mãe não pode, porém, falar esse verso em prosa, sem ritmo [o palestrante o falou sem o ritmo].
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