Carnívoro não sei falar de espírito espíritos não têm cheiro não têm densidade não têm cor calor não sei falar de coisas eternas só sei falar de carne carne



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Encontro19.07.2017
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carnívoro
não sei falar de espírito

espíritos não têm cheiro

não têm densidade

não têm cor calor

não sei falar de coisas eternas
só sei falar de carne

carne humana

carne que lacera

carne que saliva

e seca

carne que transpira



sangra

carne que estremece

e desespera

carne que padece

e que quando já não pode ser carne

apodrece


Versos suburbanos

ao da lama

 

marambaia, tuas ruas de um pobre asfalto em erosão



e as frentes das casas tristes em erosão

não protegem do calor do meio dia

 

tuas meninas não são diferentes das meninas de são paulo



teus rapazes não têm nada que não tenham outros rapazes

não tens paisagens que fascinem nem fantasmas

 

tuas pessoas com oito horas de trabalho nas costas



e um fim de semana no pensamento

teus velhos sentados junto às portas

teus marginais andando no lado escuro da rua

teus ouvintes sintonizados no mesmo dial

teus telespectadores assistindo às mesmas novelas

tuas brigas de rua

tuas feiras

tuas esquinas

não são diferentes das coisas de outras marambaias
teu céu não tem mais estrelas

não tens bosques nem mais vida

nem a vida que tu tens tem mais amores

ó marambaia

são teus poetas que te salvam.

 

protesto


este é um poema de protesto

como o beijo é um protesto

contra a solidão

como o afago é um protesto

contra a agressão

como a andorinha é um protesto

contra a prisão

como a rede às três da tarde

é um protesto contra a exploração
ainda que não grite

ou assine manifestos

todo poema é um poema

de protesto.



poema para os voltam à noite para a periferia

para reinado guaxe
não morreremos no calor de palavras de ordem

não morreremos empunhando pedras e bandeiras

não morreremos entrincheirados na guerra contra o tirano

não morreremos guerrilheiros

gritando hasta la vitoria siempre

sequer morreremos junto à pessoa amada


morreremos nas periferias

em uma rua escura

por causa de quatro reais e vinte três centavos

e nessa hora o sapato valerá mais que nós

e será o cano da pistola em nossa boca sem palavras

em nossa cabeça sem pensamentos

em nosso peito feito de carne e osso e medo
morreremos

e isso


os direitos humanos não mudarão

e isso


os sociólogos

os poetas

não mudarão
morreremos

e todas as janelas

e todas as portas

e todos os olhos

e todos os corações

estarão fechados e gradeados


nessa hora nem mesmo os cães da rua vão latir

e da nossa morte não nascerá nenhuma flor vermelha

nenhuma canção

e nenhuma criança ganhará o nosso nome


e se não morrermos na hora

seremos levados

a um hospital público

e haverá uma inscrição na porta de entrada:

“ao entrares aqui abandona toda a esperança”

e morreremos em uma maca suja em um corredor sujo

e virão no máximo um fotógrafo e um repórter policial

para perfurar os nossos olhos e revirar mais nossas chagas


mas o fato é que morreremos

morreremos

e não nos restará nem mesmo a última pergunta:

por quê?
e se não morrermos de mala sorte

morreremos de medo da morte
e se não morrermos

mataremos

desesperadamente

mataremos

e o sangue já terá coagulado em nossa veias
como eu disse

mataremos

e nessa hora já terão matado em nós

algo que um dia fôramos

e deus não virá para nos condenar

nem às nossas gerações

[não haverá gerações]

nem o diabo virá para se rir

e nos levar

[pois será o gatilho que estará puxando o nosso dedo]


estaremos sós

absolutamente sós


irrevogavelmente

sós


numa rua escura

poética
tomemos uma atitude política:

que toda atitude seja antes de tudo

poética


quixotesco
os loucos sabem:

moinhos de vento

não movem

o Mundo


gravidade clandestina

 

eu não tenho casa



só tenho esta asa

esquerda

que

brada


e essa cara

de besta


mas isso

me basta


para minha

q

u



e

d

a



poema
a palavra

na página

espreita

o olho livre

da frase feita
poesia:

a palavra no olho se crava

o olho na palavra se grita


guerra santa
para que explodir bombas?

dividir línguas?

antes a vida ávida

as línguas unidas

(saliva com saliva)

antes a ogiva do peito

explodindo

sob a blusa


antes o sangue que ferve ao que coagula

antes o espasmo do gozo

e o olho que rutila

ao olho que se fecha

e ao espasmo do corpo

quando a bomba o mutila


antes a luta da carne na carne

que funde

membro e vagina
antes a guerra outra

de outra arte

onde precisar de armas

é ser covarde


nessa guerra

(ó guerra santa)

há outra regra:

no tatame-cama

ganha mais

quem mais se entrega



o gado

 

o gado dolente



silente mastiga o pasto

o gado silente

dolente rumina o mato

o gado dolente espira e espera

(como esperam e expiram algumas gentes)

não sabe ele da matadoura morte

não sabe ele

que essa dor... lenta...mente

 

Sob o fluxo do so(u)l do equador
sob o meio-dia do sol do equador

a pele da cidade respira

ferro fogo & asfalto
umas ruas tortas

outras sem saída

pavimentadas com lama e pedra

ANTI-VIAS
amontoados de casas mal nascidas

mais necessidade que engenharia


e a pele da cidade consome a sola dos sapatos

consome os pés dentro dos sapatos

consome os passos dos pés dentro dos sapatos

consome os caminhos dos pés dentro dos sapatos

a pele da cidade consome os pneus dos carros

consome o aço dos carros

consome o que há de homem nos homens dentro dos carros

Carpe diem


 

Grito ao que me quer morto

Soco ao que me quer oco

Gozo ao que me quer puro

Torto ao que me quer santo

Fogo ao que me quer vácuo

Barco ao que me quer porto

Preto ao que me quer branco

Pedra ao que me quer brando

Louco ao que me quer sano

Tudo ao que me quer pouco

 

guerra democrática


outrora fora a flor atômica

a bomba cínica

agora

na democracia



é a guerra clínica

 

outrora na boca não havia palavra



ao que o olho em volta via

mas agora é uma nova guerra

e uma nova língua

e o que outrora se soubera cova

em linguagem nova

é guerra preventiva

é agora colateral o efeito

do outrora feito morticinal

 

agora


depois de tudo refeito

ao inimigo o fogo fátuo

ao aliado o fogo amigo

 

outrora se soubera:



guerra é guerra

morte é morte

ferida é ferida

mas são estes outros tempos

e agora tudo é uma questão

de ponto de vista

pois pela democracia

pode-se até apoiar um tirano

e em nome da democracia

depois destituí-lo

e ao povo massacrá-lo

pela segurança persegui-lo

pela liberdade vigiá-lo

 

outrora fora a carnificina



mas agora

como num filme

pelo filtro da tela fria

o rosto já não fica atônito

o morto já não fica pútrido

e o sangue já não é trágico

 

agora


em plena democracia

só o poema grita

mas ele não aparece na imprensa

não dá entrevista

não é palavra de especialista

não influencia na bolsa

nem muda pesquisa

ele é só poema

e só o poema

outrora como agora

é fratura exposta

na palavra em carne viva


o espelho
ela ante o espelho

olha-o olho no olho

reflete o seu conselho

o evangelho é o novo


o tempo para o espelho

é um tosco espantalho

ou um corvo curvo e velho

com olhos de escárnio


jogo de versa e vice

o ser assim invertido

a essência na superfície

por dentro apenas vidro


mas um dia afinal

uma dúvida angustiante

foi crescendo em sua mente:

se um era quente

o outro era frio

se um era gente

o outro era só vidro
então naquele instante

sentiu-se ela perdida

qual era o real?

qual só refletia?


teve ela um repente

como quando a gente sente

que se está bem diante

daquele que nos mente

foi um soco e um estrondo

e sete anos de azar

mas o espelho se quebrando

pode ainda se vingar

eram cacos e um vermelho

confundidos no espaço

não suportou ela ao vê-lo

também ver-se em estilhaços



era dos cyborgs
--máquinas não choram nem se chocam!

--que queres dizer, poeta?

--preste atenção:

a cada minuto morre uma criança no brasil!

mulheres, homens e crianças foram mortos

a mando do estado e do latifúndio!

uma família almoçou um seio cancerígeno!

--e daí?... que queres dizer com isso?

--repito...máquinas não choram nem se chocam!

quase poema
quase primaveramos as pragas

quase incendiamos paris

quase celestiamos as praças

quase mudamos o país

quase vietnamos yakees

quase derrubamos o muro

quase paramos os tanques

quase inventamos o futuro

 

e nós que já fomos kamikases



hoje só queremos cama e casa

e nós que já fomos quase tudo

hoje somos quase nada.


para zé claudio e maria do espírito santo
uma árvore tombada

vive ainda

mesmo que ao avesso

como a poesia ainda não escrita

vive dentro do silêncio
a outrora sombra úmida

líquida


é agora luz árida

meio dia
o outrora fêmeo sumo da fruta

é agora a fome que se nutre da falta
quando uma árvore tomba

não tomba só sua matéria


com seus galhos

com sua madeira

tombam também gargalhos

gritos de meninos

tombam também com suas folhas

sonos sem hora

cantos de pássaros

aromas de aurora

tudo o que já fora

e o que já não agora


também o homem

quando tomba

não morre só

nem só em sua matéria


o não escutar suas ideias

sua voz agora não ouvida

sua casa agora vazia

a ausência de seus hábitos

a ausência de seus gestos

causam nos vivos

um estado de óbito
e mais se adensa

a morte ainda

se os mortos quando vivos

defendiam a vida


e mais se adensa

esta morte ainda

quando não vem

a que na vida

chega na idade

de todo homem

de todo fruto

de toda árvore

como o fim da tarde
e mais se adensa

esta morte ainda

quando ela vem outra

numa versão covarde

a que durante o pleno vôo

abate a ave


esta morte sem nome

nos vivos não passa

nos vivos não morre

nos vivos não some



a guerra

I

guerra é guerra



desde o princípio dos dias

guerra é guerra

seja no centro ou na periferia

guerra é guerra

em qualquer língua
genin

auschwitz

curva do “S”

canudos


candelária
é sempre a mesma morte

mesmo que mudem as justificativas


fosse a guerra uma hollywoodiana tela fria

todo mulçumano seria terrorista

todo cubano seria castrista

todo russo suspeito

e maus todos os vietnamitas
o homem morto não teria família

e no final da cena com certeza

o figurante se levantaria

e no fim do filme

juntos

herói e heroína



mas guerra é guerra

é outra maquinaria

e onde guerra é guerra

a vida não tem mais valia

vida é outra coisa

quando muito um empecilho

para o avanço da economia
nesta estranha matemática

de estatística fria

quanto mais a vida é subtraída

mais a soma se amplia


guerra é uma para quem morre

uma para quem mata

e outra para quem fica
II
e há guerras em que morrer é de repente

e outras em que morrer leva uma vida


há guerras declaradas

e outras não tão explícitas

feitas de estados de terror

e de estados terroristas


há também guerras de guerrilhas

e outras

como esta brasileira

onde mais vidas que balas são perdidas

e que acontece (quase) às escondidas.

e onde há dois pesos e duas medidas

nela assassinar-se um pobre é normal

é notícia que no máximo morre

na página policial

mas assassinar-se um rico

é o sinal dos tempos

é coisa que escandaliza


nesta guerra brasileira

há muitos culpados

e muito mais vítimas
uns são vítimas do medo

do que se pode encontrar na próxima esquina

mas esses se silenciam são culpados

como pilatos que ante o crime

lava suas mãos na pia
mas outros são só culpados

serpentes da mentira

que se movimentam na surdina

dos bastidores da política


se alimentam de votos e de vidas

seus coletes são seus cargos

suas armas são sutis

mas fazem um grande estrago

na gente da periferia
são silenciosos genocidas

pois também se mata

pelo que não se faz ou se desvia

assim matam com seus hospitais

de morimbundas filas

com suas escolas fa-lidas

com suas infâncias perdidas

e suas ruas mal paridas


assim alimentam a fome que cria

o traficante o pistoleiro

o seqüestrador e o homicida

e tanta coisa

tanta que aqui não caberia

até mesmo um estado paralelo

que o terror do estado mais amplia

mas naquele há também vítimas


como é quem não tem outra saída

como é quem só conhece o estado

no passado

através do capitão do mato

e no presente por

batidas e procedimentos de revistas


nesta guerra brasileira

a pobreza

seja preta seja índia

desde o princípio

se trata com o braço da polícia
nesta guerra difícil é mirar o inimigo

(que esse não mostra a imprensa

nem o julga a justiça)

e fácil é entrar na mira das estatísticas


e em meio a essa guerra

seja o poema -bala invertida-

para matar em nós

a morte que nos paralisa.


balada líquida para joão

para joão cabral de melo neto


era um dia seco

no ar seco de brasília

na capital onde se semeia

a morte e a vida severina

um rio humana marcha

contra o que corta

o curso da vida
e nele eu prosseguia

pela consciência de que

de fato

é difícil defender



só com palavras a vida
e lá íamos todos severinos

iguais em tudo na vida

na mesma cabeça grande

mas agora de cabeça erguida


pela parte da tarde

o sol já se pondo ia

e os severinos de toda parte

mostravam que a arte

da palavra não é só a poesia
o discurso que cada um fazia

era como um canto de galo

e cada canto fazia um halo

e halo com halo

tecíamos um novo dia
eram todos engenheiros

engendrando o seu futuro

tendo ainda na memória

uma morte ainda viva

assinada pelo covarde

e executada pelo genocida


e foi nesse morrer do dia

que a morte me veio avisar

da vida que se ia
foi uma voz no alto-falante:

“neste instante

acaba de falecer

joão cabral de melo neto,

autor de morte e vida severina
aquela morte foi chegando

com seus dois olhos de rapina

e na tarde seca,

nasceu uma dor estranhamente líquida

pelo poeta de sólida escrita
ao redor toda a gente

e até gente no verso esclarecida

me perguntava:

por que choras irmão das almas?


dali saí com aquela mortalha fria

e comigo veio um companheiro

por ter entendido o que eu sentia

por perceber o quanto é solitário



o solidário ofício da poesia.


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