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CARLOS VERDETE

HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA

Volume I

Das origens até ao Cisma do Oriente (1054)

Apontamentos

para a formação básica de cristãos leigos

Direcção de colecção e apresentação

Padre Senra Coelho

Imagem da capa:

Bom Pastor, mausoléu de Galla Placidia, Ravena, Itália, século v

Pré-impressão e capa:

PAULUS Editora

Impressão e acabamento:Manuel Peres, Júnior & Filhos, S.A.

Depósito legal n.º

ISBN: 978-972-30-1410-5

© PAULUS Editora,

2009Rua Dom Pedro de Cristo,

101749-092 LISBOA

Tel. 218 437 620 - Fax 218 437 629

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www.paulus.pt

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Apresentação da colecção

Uma exposição resumida da História da Igreja deve procurar uma certa homogeneidade nos critérios utilizados para a apresentação dos acontecimentos. Quando nos referimos à apresentação sucinta da História da Igreja, pensando especialmente na formação de adultos, temos de distinguir criteriosamente os acontecimentos mais importantes dos menos importantes, acentuando alguns aspectos dos factos históricos e apontando apenas outros. Impõe-se-nos a arte de seleccionar com acerto e censo histórico, fazendo com critério a selecção das matérias mais importantes para a formação de um leigo adulto.

A obra que coordenamos e agora apresentamos está dividida em três volumes: o primeiro volume refere-se ao primeiro milénio cristão, das origens do Cristianismo até ao Cisma do Oriente em 1054; o segundo volume refere-se ao segundo milénio da História Cristã, até final do Pontificado de Leão XIII (1903). Reservamos o terceiro volume para a História recente, ou seja, o sé-culo xx e o início do século xxi. Pareceu-nos bem incluir no terceiro volume um conjunto de “temas úteis” como os Papas da Igreja Católica, uma lista dos Papas, o Estado Pontifício, o Colégio Cardinalício, o Primado Romano, a doutrina dos dois poderes e a síntese histórica de cada um dos concílios ecuménicos.

É evidente que a selecção que fizemos sobre as matérias parte de juízos subjectivos de acordo com a nossa compreensão da História e da Igreja. Podemos estar certos de que a falta de homogeneidade é não só inevitável, como por vezes necessária, pois a história é o passado que chega vivo ao presente, pelo historiador que lhe dá vida, segundo o olhar do seu juízo. Para algo ser histórico não depende apenas da sua existência histórica, mas também das suas repercussões históricas. Expor em síntese dois mil anos de História da Igreja é um projecto sedutor. Porém, a necessidade de seleccionar os acontecimentos face aos objectivos da obra coloca muitas vezes o autor em angústia e dúvida. A enorme quantidade de factos e a vasta riqueza das fontes bibliográficas exige grande ponderação e “humildade científica”. O autor desta útil publicação, Carlos Verdete, soube-o fazer sempre com a colaboração do coordenador desta colecção.

O futuro do Cristianismo parece-nos depender mais do que nunca da sua unidade, da capacidade de superarmos os problemas intelectuais e espirituais que a pluralidade das nossas experiências de adultos cristãos colocam. A História da Igreja deixa-nos a certeza de que ao longo de vinte séculos esta instituição, apesar de demonstrar grandes progressos e enormes debilidades, permanece fiel à sua essência e infalível ao núcleo da Fé, resistindo às “ditaduras dos diferentes relativismos”. É com a luz da Fé que captamos a finura dos sinais de Deus na História da sua Igreja, onde fala através do sentido das coisas e dos acontecimentos. A Fé com que lemos a História da Igreja não surge separada da crítica histórica. É nesta convergência de olhares e saberes que a História da Igreja se converte também em Teologia.

A História da Igreja ajuda os cristãos a formarem um conceito justo da Igreja, impedindo um falso espiritualismo ou volatização da Igreja real. A História mostra que a Igreja tem um corpo que é visível e que a partir da sua experiência vivida ao longo dos séculos, deve ser superada a falsa distinção entre Igre-ja “ideal” e Igreja “real” e aprofundado o entendimento da única Igreja - Igreja Una - que é ao mesmo tempo instituição divina e humana (fruto do crescimento histórico) e invisível, que só se pode captar pela Fé, e visível, que se pode comprovar pela História.

O conhecimento da História da Igreja dá-nos ainda a sabedoria da verdadeira santidade da Igreja, evitando falsos entendimentos dessa santidade. A Santidade da Igreja aparece objectiva e não exclui a pecaminosidade dos seus membros, incluindo dos seus pastores. De facto, a Santidade da Igreja vem-lhes da divindade do seu fundador e esta não diminui pelos pecados dos seus membros.

A História da Igreja é um dos melhores instrumentos para nos fazer com-preender a verdadeira dimensão da Fé Católica: a sua riqueza e a sua verdade. Fé que respondeu às exigências mais profundas e sérias de tantas personalidades espalhadas por todas as épocas e lugares e que impulsionou insuperáveis realizações aos mais elevados níveis do ser humano.

A cultura do actual Ocidente continua a apresentar-se com muita frequência hostil e estranha à Igreja. Porém, em grande parte esta cultura baseia-se nos valores cristãos e foi criada pela Igreja. Não é sério e honesto ignorar historicamente as raízes cristãs da Europa ou pretender compô-las a qualquer uma das outras presenças espirituais e religiosas de passagem pelo Ocidente. Como membros da Igreja, os leigos católicos sentem a necessidade natural, e até o dever, de conhecerem a História da Igreja a que pertencem, como família sobrenatural.

O estudo da História da Igreja rege-se pelos mesmos critérios da crítica histórica que rege toda a ciência histórica autêntica. Assim, a História da Igreja não pode ser deduzida dos ideais, nem sequer da revelação, mas deve ser descoberta com fidelidade nos acontecimentos que decorreram sem a intervenção do historiador, procurando lê-los com objectividade e racionalidade, diferenciando-se da ciência puramente natural, pelo facto de a História da Igreja permanecer aberta à possibilidade da intervenção de Deus na História, verificando que muitas vezes “Deus escreve direito por linhas tortas”. De facto, pretender eliminar da História da Igreja as suas diversas debilidades, deficiências e tensões seria equivalente a dispensar a misericórdia de Deus sobre ela, prescindindo da sua obra de salvação. O Cristianismo reduzir-se-ia a um humanismo apenas e a salvação operada por Nosso Senhor Jesus Cristo seria dispensável.

Apresentação do volume I

No volume i apresentamos a História da Igreja vivida no primeiro milénio cristão. A primeira parte do volume diz mormente respeito à Antiguidade Cristã vivida no contexto do Império Romano. Esta época caracteriza-se sobretudo pelo facto de o Cristianismo se ter encontrado perante uma civilização amadurecida, evoluída e consolidada; uma civilização que tinha crescido sem o Cristianismo e antes dele. No seu conjunto, o paganismo do Império Romano era estranho ao Cristianismo e permaneceu sempre estranho e até antagónico, sem possibilidades de qualquer integração.

Uma das consequências imediatas e mais importantes desta constatação foi que na sua Antiguidade o Cristianismo viveu para dentro de si mesmo; na primeira metade deste período, sobretudo até à paz de Constantino (311-313) o Cristianismo apresentava uma riquíssima “vida interna”, com predomínio quase exclusivo das actividades religiosas. Nesta primeira parte da sua Antiguidade, a Igreja cria as formas fundamentais da sua vida interna: piedade, liturgia e dogmática, seguindo sempre com grande fidelidade as bases que Jesus Cristo e os seus Apóstolos lhes indicaram, sobretudo nos livros canónicos chamados Novo Testamento. Nesta época, a Igreja enfrentou ainda várias lutas teológicas: contra os exageros do Cristianismo judaico, contra infiltrações gnósticas no Cristianismo, contra a literatura anticristã, contra as heresias trinitárias e cristológicas. Desta necessidade de aparição e definição da Fé surgiram grandes contributos em que se haveriam de alicerçar os vários saberes teológicos: recompilação dos escritos do Novo Testamento, fixação do símbolo da Fé, aprofundamento da revelação cristã, com a pregação, os testemunhos de vida e a definição dos dogmas.

Até 313, os cristãos eram uma minoria sociológica, que defendia o seu direito de existência através de uma posição predominantemente defensiva face às perseguições sangrentas, que tinham de ser sustidas através do supremo testemunho dos mártires. Neste período, a Igreja apresenta os seus primeiros ensaios de diálogo com a cultura helénica já assimilada pelo Império.

A partir de 313 é garantida a liberdade ao Cristianismo, que paulatinamente se foi transformando em religião do Estado. A vida da Igreja vira-se mais para fora de si, tornando-se mais activa ao assumir maiores iniciativas já com dimensões sociais. A Igreja começa a estreitar laços com o Estado e com a cultura, tornando-se fonte importante do Império. É neste contexto que as “massas” populacionais começam a aderir à Igreja.

Dentro da Igreja continua a sentir-se a necessidade da clarificação doutrinária, sobretudo nas questões trinitárias e cristológicas. Esta é a época dos grandes concílios que vão definindo e aprofundando as grandes questões da Fé: sintetizamos com J. Lortz:

A antiguidade cristã é a época do nascimento da Igreja, da sua primeira actividade missionária e da consolidação da sua existência frente ao Estado e à heresia, assim como da fixação da sua auto-interpretação dogmática básica.1

A segunda parte deste volume assume a época histórica denominada por Alta Idade Média, até ao Cisma do Oriente em 1054. Nesta época, a Igreja passa a estar numa situação predominante face à cultura superior. É a própria Igreja que cria uma nova cultura eclesiástico-cristã e que a eleva à plena autonomia. O Ocidente cristão medieval vai crescendo e solidificando-se através da fusão de três componentes culturais: o direito romano, a vitalidade germânica e a ética cristã. O Estado de direito que a romanidade nos deixou serviu de base à estruturação social que a germanidade fecundou com a sua concepção de propriedade privada e de consanguinidade e que o Cristianismo espiritualizou através da sua ética eminentemente humanista. Podemos concluir que a Europa é, na sua génese, árvores com três raízes, sendo uma delas, desde o primeiro momento, a raiz cristã, a par da romanidade e do contributo germânico.

Nesta época a vida interna da Igreja tornou-se muito florescente na liturgia, na arte, na teologia, no direito e na religiosidade popular. É também nesta época que passam para primeiro plano os problemas de política eclesiástica, sobretudo as dificuldades surgidas à volta do próprio ordenamento canónico da Igreja e das suas relações com o Estado.

O Cristianismo desenvolveu sempre, e como referência, a figura do herói cristão, apresentado pela sua santidade como modelo de vida. Até 313, o “he-rói cristão” é, sem dúvida, o Mártir, que Santo Inácio de Antioquia tão bem interpreta, sobretudo na sua carta aos cristãos de Roma. Depois da “Paz de Constantino” é sobretudo o monge a figura heróica do Cristianismo tardo-antigo.A Alta Idade Média começa a sentir a necessidade de aliar aos monges a defesa da cristandade que aos bárbaros e ao Islão, nascendo a figura heróica do monge-cavaleiro que acompanhará toda a Idade Média através das célebres ordens militares.

Recordo aos leitores que Carlos Verdete fará no volume iii a síntese histórica dos concílios ecuménicos, mesmo dos referentes ao primeiro milénio, e por essa razão os grandes concílios da Antiguidade cristã não serão apresentados neste volume.

Padre Senra Coelho

1 Lortz, 1982: 36.

Prólogo

Na sequência de obras anteriores - Doutrina Social da Igreja e Mestre, onde moras? - pareceu-nos que num programa de “formação cristã de base de adultos” era necessário um estudo da História da Igreja Católica.



Na consolidação da identidade cristã, tão questionada actualmente nas suas vertentes eclesial, moral e cultural, é importante a formação cristã dos adultos, pondo um cuidado especial no alicerce da vida cristã, requerendo-se uma «iniciação cristã integral aberta a todas as componentes da vida cristã», requisito indispensável para se atingir a maturidade cristã dirigida a uma participação activa na vida e missão da Igreja.

A História de vinte séculos de vida da Igreja coloca-nos algumas questões, fruto das diferentes épocas por que a Igreja passou. Uma História da Igreja, desde o seu nascimento até aos dias de hoje, reflecte os contributos sucessivos das várias épocas até se ter chegado à nossa existência cristã actual.

A transmissão da missão evangélica pelas gerações que se sucederam em dois milénios fez-se através de acontecimentos e de pessoas, acontecimentos políticos, sociais, económicos, pessoas de várias raças e dispersas geograficamente pelo mundo inteiro. A transmissão da mensagem evangélica fez-se no quadro da História geral da humanidade, pelo que a História da Igreja não se pode separar dessa História geral. A História da Igreja desenrola-se numa geografia que baliza as várias etapas da expansão cristã. Desde a mais remota província do Império Romano - a Palestina - essa expansão fez-se pelos países do Mediterrâneo e, daí, para todo o mundo.

Assim, a mensagem de Jesus ouviu-se, ao longo da expansão cristã, nas mais variadas línguas, exprimiu-se dentro das culturas em que penetrou, sofrendo necessariamente influência das mesmas, sem deixar, no entanto, de se manter fiel à sua pureza inicial.

A expansão cristã adaptou-se, nos primeiros tempos, às estruturas e modos de vida próprios da sociedade em que se deu: o Império Romano, com a sua vida urbana, municípios e colónias. Neste contexto histórico nasceu o Cristianismo, sendo, deste modo, as cidades a sede das primeiras comunidades cristãs, vivendo num ambiente pagão hostil que serviu para favorecer a coesão e a solidariedade interna destas Igrejas locais, que comunicavam entre si e se sentiam integradas numa mesma Igreja Universal, a única Igreja fundada por Cristo.

As comunidades cristãs organizavam-se em instituições de acolhimento e de celebração do culto, de modo que, naturalmente, se sentiam, por vezes, tentadas a organizar-se tomando como modelo as sociedades envolventes, como instituições político-sociais, com a sua hierarquia de poderes e, com o tempo, perturbações na linha doutrinal, o que determinou que se fizesse uma formulação serena, impossível nos tempos conturbados em que a Igreja vivia nos primeiros séculos da sua existência. A formulação dogmática da fé cristã, que constitui um capítulo fundamental de qualquer História da Igreja, fez-se lentamente.

Quando crucificaram Jesus, os soldados repartiram as suas vestes em quatro partes, uma parte para cada soldado. Deixaram de lado a túnica. Era uma túnica sem costura, feita de uma peça única, de alto a baixo. Então eles combinaram: «Não vamos repartir a túnica. Vamos deitar sortes, para ver com quem fica.» Isto era para se cumprir a Escritura que diz: «Repartiram as minhas vestes e sortearam a minha túnica.» E foi assim que os soldados fizeram. ( Jo 19,23-24)

A divisão da roupa dos condenados pelos executores da sentença de morte - aqui, os soldados romanos - era um direito reconhecido aos carrascos.Na execução de Cristo o facto é referido como um cumprimento das Escrituras (Sl 22,9) e é citado explicitamente apenas por São João. Haverá aqui, também, uma possível alusão ao sacerdócio de Cristo na cruz: é que a túnica do sumo-sacerdote, na Liturgia hebraica, devia ser sem costura.

A preocupação que tiveram os soldados romanos em não rasgar a túnica que recobria Jesus não a tiveram, mais tarde, muitos cristãos, que não hesitaram em rasgá-la em múltiplas heresias, apostasias e cismas.

A cada passo, na História da Igreja, deparamos com heresias e apostasias, levando, muitas vezes, a cismas. O seu conhecimento é muito importante na compreensão de como a mensagem de Jesus pôde ser tantas vezes distorcida, ou mesmo repudiada, conduzindo frequentemente a cismas, numa recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos.1

Fundamental numa História da Igreja será um capítulo que se debruce sobre os primeiros escritos cristãos - os livros inspirados que contêm a Revelação divina, compreendendo, na tradicional classificação das Escrituras Sagradas, livros históricos (os quatro evangelhos e os Actos dos Apóstolos), os livros didácticos (as catorze cartas de São Paulo e as sete epístolas católicas de São Pedro, São João, São Tiago e São Judas) e um livro profético - o Apocalipse de São João.

A esses escritos inspirados acrescenta-se a literatura cristã dos séculos i e ii, de escritores de língua grega - os chamados Padres Apostólicos - escritos de índole pastoral que têm como destinatários os fiéis cristãos dos primeiros tempos.

A época das perseguições deu origem a uma literatura martirológica, constituída pelas actas dos interrogatórios a que eram submetidos os mártires.

Ainda dentro da primitiva literatura cristã podemos contar com os escritos anti-heréticos, bem como com uma literatura apologética em defesa da verdade cristã e tendo como destinatários os pagãos hostis ao Cristianismo.

Por último, citemos os escritos destinados à catequese dos novos conversos, consistindo numa exposição do conjunto da doutrina da fé, ponto de partida de uma nova ciência teológica.

Compreende-se, assim, ser indispensável a inclusão de um capítulo sobre a primeira literatura cristã numa História da Igreja.

A História da Igreja Católica é feita de luzes e sombras, sucedendo-se e alternando-se, ou existindo simultaneamente. Assim, ao lado dos Padres da Igreja e dos começos da vida monástica, de uma vida consagrada com a sua espiritualidade própria de abandono de tudo pelo Reino, assiste-se a inúmeras disputas na lenta formulação do credo católico. Heresias, cismas, as lutas e choques entre a hierarquia católica e o poder temporal são outras tantas sombras que não conseguem esconder as crises por que ia passando a Igreja.

Ser cristão hoje - hic et nunc (isto é, aqui e agora) -, depois das vicissitudes por que passou a Igreja ao longo da sua História, constitui o fruto do ser-se cristão nos primeiros séculos, na Idade Média, no século xix e nos anos mais próximos de nós. Daí a importância que representa na bagagem do leigo cristão o conhecimento da herança do passado.

Na relação dos fastos (e dos nefastos) da História da Igreja adoptámos uma sistematização com uma única finalidade: a de arrumar os acontecimentos numa sucessão temporal, compreendendo vários capítulos, uns propriamente históricos, outros didácticos, consequência dos primeiros e ajudando à sua melhor compreensão.

No plano geral da obra dividimo-la em quatro partes.

Na primeira parte, que designamos como Pré-História da Igreja, percorremos a História desde Abraão até ao Messias esperado.

Na segunda parte, que designamos de Proto-História da Igreja, vamos desde o nascimento de Jesus Cristo até à sua Ascensão.

Na terceira parte registamos a História do primeiro milénio, desde o Pentecostes até à primeira cisão séria da Igreja: o Cisma do Oriente.

A quarta parte regista a História da Igreja Católica no segundo milénio da sua existência, desde o Cisma do Oriente até aos nossos dias, com Bento XVI.

Num programa de formação cristã de adultos leigos torna-se indispensável um estudo do passado da Igreja, de modo a poder compreender melhor o tempo presente: só assim se poderá entender como e porquê a Igreja se tornou aquilo que é actualmente: una, santa, católica e apostólica. Para essa compreensão contribui, dentro da cronologia dos acontecimentos, o conhecimento da imbricação das épocas sucessivas, bem como dos problemas que se foram pondo aos protagonistas das mudanças que se iam fazendo em torno de um eixo essencial cristão, consistindo no acolhimento da Boa Nova proclamada por Jesus Cristo e deixando-se transformar por ela.

I Parte


PRÉ-HISTÓRIA DA IGREJA

O Pai - Eleição

Pré-História da Igreja

Após a transgressão do primeiro casal humano - Adão e Eva -, apesar de “desapontado”, Deus não os amaldiçoa (como fez com a serpente tentadora), mas não deixou de os punir pela sua desobediência: à mulher com os sofrimentos da gravidez e as dores do parto e ao homem com a obrigação de sustentar a família com o suor do seu rosto, arrancando o alimento da terra à custa de penoso trabalho todos os dias da sua vida.

E a História do homem prosseguiu fora do jardim do Éden, trazendo sucessivos desapontamentos a Deus - Caim, a corrupção geral da Humanidade estendida a toda a Terra - a ponto de Se arrepender amargamente de ter criado o homem (Gn 6,6-7), tomando a resolução de eliminar completamente a humanidade com um dilúvio.

No entanto, havia ainda um homem justo e perfeito entre os outros homens e que andava sempre com Deus - Noé - e com ele resolveu o Senhor refazer o Seu plano criador, começando uma nova Humanidade. E do dilúvio são excluídos Noé e os seus três filhos Sem, Cam e Jafé, as suas três noras e a sua mulher.

Após a multiplicação da nova Humanidade noética que havia substituído a adâmica, todos os povos que se espalharam sobre a Terra depois do dilúvio descendiam dos três filhos de Noé.

A Humanidade noética caminhou para o Ocidente, acabando por encontrar uma planície (terra de Sinear) onde se fixou, começando a organizar uma civilização urbana, com a sua divisão do trabalho - operários de olaria e forjadores de metais, os mercadores e os serviços especializados (escrivãos para o registo dos negócios, dos censos, das leis, etc.), a necessidade de um governo, de uma administração. E, assim, na Mesopotâmia, ou seja, nas terras férteis entre os rios Tigre e Eufrates (território do moderno Iraque), terra sem pedras mas argilosa, facilitando o fabrico dos tijolos para as construções, nasciam as primeiras cidades-estado há cerca de cinco mil anos, constituindo a mais antiga cultura conhecida: a cultura suméria.

Ao lado do desenvolvimento material, o homem sempre manifestou uma religiosidade, expressão de uma busca de Deus, sentimento inscrito no seu coração, criado como tinha sido à imagem de Deus, sentindo-se chamado a conhecê-l’O e a amá-l’O. E essa religiosidade foi-se traduzindo em magníficos templos (zigurates ou pirâmides em degraus, que abundavam na Mesopotâmia), ritos, imagens e cânticos, com uma característica que, certamente, desagradava muitíssimo ao Senhor: o politeísmo, ou seja, a admissão de um panteão de deuses, mais ou menos numeroso.

Numa dessas cidades-estado, protótipo de todas as outras, o orgulho dos homens pretendeu desafiar os céus, levando-os a construírem uma torre para se tornarem famosos, - um zigurate... Conta-nos a Sagrada Escritura:

Disseram uns aos outros: «Vamos fazer tijolos e cozê-los no fogo!» Utilizaram tijolos em vez de pedras, e betume em vez de argamassa. Disseram: «Vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até ao céu, para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela superfície da Terra.» (Gn 11,3-4)

Profundamente desagradado e amargamente desapontado, mais uma vez, o Senhor resolveu dispersá-los por toda a superfície da Terra, para o que Se serviu de um artifício muito simples: a confusão da linguagem de todos os habitantes da Terra, que, ao não conseguirem comunicar entre si, se dispersaram, ficando por acabar a construção da cidade com a sua altiva torre. Essa cidade era Babel.

E uma Humanidade babélica veio substituir a anterior, em que todos os homens tinham apenas uma língua e empregavam as mesmas palavras.

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