Capítulo 4 a tripla guerra civil em espanha por que razão os trabalhadores não desencadearam uma guerra de guerrilhas?



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Capítulo 4
A TRIPLA GUERRA CIVIL EM ESPANHA


1. Por que razão os trabalhadores
não desencadearam uma guerra de guerrilhas?

Por que razão os trabalhadores, nas zonas onde foram derrotados pelos fascistas, não desencadearam uma guerra de guerrilhas ou pelo menos operações de sabotagem sistemáticas, em conjugação com as tropas republicanas? «Um dos maiores paradoxos da guerra civil», observou um autor de simpatias anarquistas, «é que o guerrilheiro, personagem tipicamente espanhol desde a época de Viriato [...] até às guerras carlistas [...], não tivesse aparecido em 1936, salvo em casos muito raros e de maneira efémera»1.

O problema relaciona-se com a transformação das milícias num exército regular e com o progressivo desarmamento dos trabalhadores na retaguarda. Malraux pretendeu que desde os primeiros dias «o gosto pelos chefes começava, como em qualquer combate que se prolonga»2, mas isto não explica nada. Sem dúvida que os voluntários eram inadequados a uma guerra de tipo clássico. Não foram só os comunistas a defender a instauração de um comando unificado e de uma disciplina hierárquica, com ordens emanando de cima para baixo, mas também os responsáveis da CNT de maior projecção aceitaram a necessidade da militarização para prosseguir aquele tipo de guerra. Apenas entre os anarco-sindicalistas da base, entre os próprios milicianos, entre muitos jovens, a nova orientação foi contestada e percebida, lucidamente, como uma grave derrota social. Porque a verdadeira questão era outra. Não importava afirmar a inadequação dos voluntários a uma guerra clássica, mas saber por que motivo a luta tivera de seguir formas clássicas que exigiam a hierarquização e uma disciplina de carácter militarista. Por que razão não se desenvolvera outro tipo de guerra, apropriado a uma revolução social?

García Oliver, nas suas Memórias, indicou a primeira parte do problema, sem levar o raciocínio até ao termo: «Foi na frente de Aragão que se consumou o fracasso da revolução social. [...] O facto de não termos triunfado desde início em Saragoça deixou-nos com um problema muito sério. [...] Faltando a disciplina militar, e sem nenhuma vontade de a ter, era lógico que se pensasse numa organização guerrilheira. E, para actuarem como guerrilheiros, deviam dividir imediatamente a coluna [comandada por Durruti e saída de Barcelona a 24 de Julho de 1936] pelo menos em dois corpos, avançando ambos, um pela direita e outro pela esquerda, para atravessar rapidamente o Ebro [...] E avançar de maneira a formar uma grande pinça, com o objectivo de conquistar Saragoça. Mas não foi o que sucedeu. Abandonados à sua própria iniciativa, os milicianos entrincheiraram-se nas povoações, nas valas ou nos outeiros, e foi aqui, muitíssimo antes de Madrid, que começou uma guerra estacionária [...] O que acabava de acontecer perante o Ebro não era tão insignificante como se poderia pensar. Não se tratava somente dos milicianos de uma coluna que, por falta de espírito combativo, se entrincheiravam em vez de prosseguir em frente para um objectivo concreto, o de tomar Saragoça. Tinha-se iniciado uma guerra de posições, com toda a série de problemas que lhe era inerente»3. Mas, por si só, uma guerra de posições não impede as guerrilhas, ainda que lhes atribua um lugar secundário, e mesmo quando não faltou aos milicianos espírito combativo, as guerrilhas depararam com a má vontade. A 5 de Agosto, também na frente de Aragão, o posto de comando do coronel Villalba, um oficial que havia aderido à república e mantinha com as forças de Durruti uma aliança não desprovida de fricções, deu ordem para que uma coluna do POUM interrompesse o avanço. Impacientes, os milicianos pretendiam organizar operações de guerrilha através das linhas fascistas, mas aquele posto de comando não os autorizou4. «Muitíssimo antes de Madrid», afirmou García Oliver, mas parece que a diferença de datas não seria tão grande. Durante a segunda semana da guerra, combatendo a poucos quilómetros da capital, Cipriano Mera, sem saber que em breve se tornaria o mais notável chefe militar anarco-sindicalista, argumentou com um tenente-coronel que escolhera o lado republicano: «O senhor não vê que se nos entretemos a fazer valas e parapeitos ainda aqui estaremos no Natal? Somos da FAI e não precisamos de parapeitos. Para nós o que importa é avançar sempre em frente». E no dia seguinte Mera insistiu «que a nossa tarefa deveria ser a guerrilha, penetrando na retaguarda inimiga. [...] o mais positivo seria a acção guerrilheira, para alcançar melhores posições e desorganizar a retaguarda do inimigo». Mas as explicações do tenente-coronel rapidamente o persuadiram das vantagens de uma guerra estacionária, destinada a defender objectivos fixos5.

Qual o motivo que levou a coluna de Durruti, formada por cinco mil anarco-sindicalistas, gente que até então se havia sempre batido contra os patrões e a polícia em formas de guerrilha urbana, a recorrer ao sistema clássico da guerra de posições quando enfrentou os generais em campo aberto? Por que motivo os milicianos do POUM cederam perante as ordens de um coronel nos primeiros dias da guerra, quando era escasso o prestígio dos oficiais de carreira? E por que razão sucedeu o mesmo a Mera e aos seus companheiros do sindicato madrileno dos operários da construção civil? A esmagadora maioria dos historiadores preocupa-se em explicar — frequentemente só em descrever — o que sucedeu. Para que a história atinja a maioridade tem de começar a explicar o que não aconteceu. «A execução é uma prova empírica suficiente da possibilidade, mas para a impossibilidade não existe prova empírica; é necessária uma demonstração», escreveu a filósofa Simone Weil, que apesar de pacifista participou brevemente ao lado dos anarquistas na guerra civil, sem usar armas. «A impossibilidade é a forma concreta da necessidade»6. Ora, o problema não se resumiu à guerra civil espanhola. Repetiram-se em 1936 as mesmas contradições que dezoito anos antes haviam travado o avanço da revolução na Rússia. Também durante as conversações de paz em Brest-Litovsk os socialistas-revolucionários de esquerda e a oposição de esquerda bolchevista, hostis à capitulação perante as Potências Centrais, não conseguiram levar avante uma guerra popular e guerrilheira. Um bloqueio dos processos revolucionários que ultrapassava tradições e circunstâncias específicas só podia dever-se às condições orgânicas da classe trabalhadora naquela fase da sua evolução. E é precisamente o carácter genérico do problema que torna difícil esclarecê-lo.

Fazendo o balanço da guerra, Munis, dirigente da minúscula facção trotskista espanhola, foi demasiado optimista ao escrever que «a CNT ou, mais exactamente, a FAI esforçou-se por conjugar com o esquema militar stalinista o emprego de grupos de guerrilha. Inclusivamente elaborou e submeteu ao governo alguns documentos, que foram publicados por D. A. de Santillán. [...] grupos de militantes anarquistas desempenharam na retaguarda fascista tarefas militares de grande utilidade e extraordinária coragem física»7. Apesar de estes projectos terem sido sistematicamente postos de lado pelo governo republicano, o representante de Trotsky recordava-se de que «nos primeiros meses da guerra, quando na nossa zona a revolução avançava ou não tinha ainda sido contida [...] os nossos agentes (não do governo da Frente Popular, mas das organizações operárias ou das unidades de milícias) penetravam permanentemente no território inimigo, onde beneficiavam da solidariedade activa da maior parte da população»8. Talvez, mas como aproveitavam este apoio? Parece que durante os primeiros meses da sublevação militar surgiram no norte do país bandos de guerrilheiros formados por trabalhadores fugidos aos generais insurrectos e as guerrilhas abundavam na Galiza e em Leão9, mas foram deixadas ao seu destino, pois não encontro nenhuma indicação de que tivessem contado para alguma coisa nos planos das forças republicanas. E o que sucedeu nos outros casos?

Quando a coluna de milicianos comandada por Durruti desistiu do seu projecto inicial e, em vez de avançar rapidamente contra Saragoça, se fixou em posições defensivas a poucos quilómetros daquela cidade, dando origem ao que viria a ser a frente de Aragão, começou a desenvolver-se uma multiplicidade de organismos militares. «Toda essa estrutura nascera espontaneamente a partir da base», narrou um biógrafo de Durruti. «Foi também da base que surgiram formações novas, denominadas grupos especiais, encarregadas de atacar a retaguarda inimiga. Seriam eles os guerrilheiros que realizaram importantes missões no território dominado pelos fascistas. Chamaram-lhes “Hijos de la Noche” e “la Banda Negra”»10. Reduzidas às devidas proporções, estas operações partiam do campo republicano sem conseguirem uma base permanente na zona nacionalista, tanto assim que em Outubro de 1936 os Hijos de la Noche efectuaram uma expedição até ao centro de Saragoça para «trazerem consigo um grupo de militantes que aí se encontrava escondido desde a tomada da cidade pelos rebeldes»11. Com esta incursão de comandos ficou inutilizado para quaisquer fins de guerrilha um núcleo anarquista que permanecera oculto no coração das forças inimigas. As Memórias de um desses Hijos de la Noche confirmam que eles se ocuparam de expedições de sabotagem e recolha de informações sem terem por objectivo a formação de corpos guerrilheiros no território fascista, e outros depoimentos reforçam esta versão12.

Encontram-se mais indícios de que eram escassos os contactos entre os combatentes da zona republicana e os antifascistas da zona nacionalista. Ainda no início da guerra, a CNT e a UGT convocaram para Valencia uma grande assembleia. «O comício realizou-se na praça de touros, repleta de espectadores», recordou García Oliver. «A finalidade do comício era fazer com que os trabalhadores da zona dominada pelos franquistas se dessem conta de que na zona republicana nós, membros da CNT e da UGT, lutávamos estreitamente unidos e lhes pedíamos que organizassem as suas forças de modo tal que a sua luta contra o franquismo fosse eficaz»13. Mas de que maneira tencionavam as direcções das duas centrais sindicais transmitir este pedido aos trabalhadores do outro lado da linha de frente? E como esperavam que eles o efectivassem? Entretanto, numa Madrid ameaçada cada vez mais de perto pelos nacionalistas, também o socialista Largo Caballero, primeiro-ministro desde o começo de Setembro, duvidava dos méritos de um exército clássico e insistia na vocação guerrilheira dos espanhóis14. Mas que fez ele, que fizeram os membros da sua facção no PSOE, para organizar guerrilhas?



Igualmente esclarecedor é o destino que teve uma sugestão de García Oliver. Nos primeiros meses de 1938, quando a CNT havia já sido afastada do governo, o antigo ministro anarquista da Justiça concebeu uma estratégia que jocosamente denominou Plano Cambórios: «Para começar, o nome homenageava um personagem rude, criado por García Lorca. Era como um pedaço do subconsciente dos andaluzes das montanhas. [...] A Serra Nevada é um ninho de águias. [...] soube que estavam lá escondidos, vivendo ao Deus dará, como feras acossadas, pernoitando em grutas, lugarejos e aldeias, mais de vinte mil pessoas, em fuga às hordas do franquismo e da Falange. Viviam de improviso, à espera de uma oportunidade. [...] por que não dar uma organização militar-guerrilheira a esses camborios? Assim nasceu o “Plano Cambórios”. [...] O objectivo do Plano Cambórios não era formar uma guerrilha montanhesa à maneira antiga. O camborio devia tornar-se, de início, o núcleo dirigente de dez, vinte ou mais guerrilheiros. Cada componente receberia uma instrução múltipla, para poder exercer o comando com eficácia». Convinha, antes de tudo, criar uma escola de preparação de quadros, que haviam de mobilizar em seguida os fugitivos da Serra Nevada. Seria necessário treinar previamente especialistas neste tipo de operações porque, argumentava García Oliver, as técnicas da guerra haviam mudado muito. «[...] os tempos eram outros, o que explicava que não tivesse aparecido nenhuma guerrilha espontânea na retaguarda inimiga. O improviso já não era suficiente para o guerrilheiro num meio geográfico tão reduzido como a Espanha, mais reduzido ainda devido à existência das duas Espanhas que se combatiam encarniçadamente num quadro de pequenas dimensões. A única guerrilha possível seria aquela que, penetrando no território inimigo por um ponto da serra de Guadix, na província de Granada, avançasse em formação paramilitar e a dada altura se dispersasse em cinco grupos, indo quatro deles em direcção oposta ao centro, onde permaneceria o núcleo central que os comandava a todos, e com o qual se manteriam em contacto permanente. Tratava-se de criar um sistema radial, sempre num movimento de expansão». García Oliver encetou diligências preparatórias do plano e quando lhe pareceu que havia reunido as condições necessárias apresentou uma versão sumária ao ministro da Defesa, Indalecio Prieto. «[...] explicava que a guerilha dos camborios não poderia surgir espontaneamente, como era demonstrado pelo facto de durante dois anos de guerra não ter aparecido nenhuma, nem no campo inimigo nem no nosso. Devido ao seu carácter eminentemente técnico, exigia uma preparação muito cuidadosa, não podendo resultar de intuições». Para iludir a espionagem inimiga, e ao mesmo tempo evitar qualquer antecipação por parte dos comunistas, o plano não mencionava os vinte mil fugitivos da Serra Nevada como base possível de recrutamento nem fazia referência ao «sistema radial». García Oliver contou que Indalecio Prieto o recebeu para comunicar que entregara cópias do plano ao chefe da missão militar francesa, que se mostrara favorável, e ao adido militar soviético, que o recusara, considerando-o inoperante. E o ministro da Defesa concluíra que, embora pessoalmente concordasse com a proposta de García Oliver, não podia opor-se à deliberação dos soviéticos. «Alguns dias depois da nossa entrevista Indalecio Prieto deixou de ser ministro da Defesa»15. Que situação espantosa! Mais de vinte mil homens e mulheres, decididamente hostis a Franco e a tudo o que ele representava, fugitivos que nada tinham a perder — e dispersavam-se, escondiam-se, sem iniciativa para iniciarem eles próprios acções de guerrilha.

O que sucedia na Serra Nevada reproduzia-se noutros lugares. Na Andaluzia e na Estremadura ocupadas pelo exército fascista a resistência dos operários e dos camponeses «manifesta-se apenas através de sabotagens nas fábricas e de guerrilhas que incomodam os nacionalistas sem, todavia, perturbarem verdadeiramente a sua segurança», reconheceram dois historiadores16. Com efeito, desde as primeiras semanas da guerra que militantes de esquerda e trabalhadores sindicalizados se haviam escondido nas serras da Estremadura em grupos dispersos, fugindo de lugar em lugar, incapazes de coordenar a sua actuação e passar à ofensiva. Foram progressivamente dizimados e os poucos sobreviventes acabaram por escapar para a zona republicana, perdendo-se o que poderia ter sido uma base guerrilheira atrás das linhas inimigas17. Esta experiência repetiu-se com os sucessivos recuos da república, que deixaram entregue ao inimigo um número crescente de trabalhadores. E embora García Oliver afirmasse que durante dois anos não surgira nenhuma guerrilha espontânea, sabemos que nas montanhas das Astúrias, depois da extinção da frente norte, assinalada pela queda de Gijón em 21 de Outubro de 1937, dezoito mil combatentes sustentaram até Março do ano seguinte uma guerrilha activa, retendo tropas fascistas e impedindo-as de reforçarem outras posições18.

Os generais sublevados deparavam com uma hostilidade generalizada e esta situação era indubitavelmente favorável a acções de resistência. «O principal ponto fraco da Espanha nacionalista», escreveu candidamente um historiador, «é que lhe faltava o apoio popular»19. Em Maio de 1938 o embaixador alemão informou os seus superiores de que não se podia depositar confiança em quarenta por cento da população da zona nacionalista20. Por isso não se consideravam seguras as tropas de recrutamento geral e, para além das milícias de carácter político — falangistas e requetés — a força propriamente militar dos nacionalistas assentara de início na Legião Estrangeira e nos mouros do Exército de África, amplamente ajudados depois pelas contribuições em armas e homens dos fascismos italiano, alemão e português. A versão oficiosa da guerra civil reconheceu francamente: «O exército de Franco era o exército africano [...] as tropas regulares indígenas e o Tercio de Voluntários, ou Legião Estrangeira»21. Quanto ao mais, escreveu um historiador, «cerca de dois terços, ou aproximadamente quarenta mil homens, do resto do exército estavam com os nacionalistas, mas os soldados eram recrutas em quem não se podia depositar confiança, usados por isso sobretudo como tropas de guarnição»22. E, referindo-se às operações militares dos nacionalistas em 1936, García Oliver comentou que «os soldados também não queriam combater com denodo. Na avançada a partir do sul, desde Sevilha e Cádis, foram utilizados como ponta-de-lança mouros, legionários, portugueses, italianos e alemães. Os soldados espanhóis da tropa regular não desejavam senão chegar às povoações e descansar [...] Sem a impaciência dos fornecedores de armas, que queriam ser pagos sem demora e em quantias avultadas, e sem o afã dos chefes, que queriam ser promovidos rapidamente, passados vinte anos ainda os milicianos e os soldados continuariam a invectivar-se de noite nas trincheiras e a disparar uns tiros durante o dia»23. Se esta análise for exacta, se as dificuldades militares de Franco e dos seus generais se tivessem devido em grande parte à surda oposição manifestada pela classe trabalhadora na zona que controlavam, como explicar que a resistência não se tivesse convertido de passiva em activa? Será que já não valia a pena, por detrás das linhas de Franco, apoiar a república?

Numa conferência realizada em Valencia após a saída da CNT do governo, e em que apresentou o balanço dos seus seis meses à frente do Ministério da Justiça, García Oliver proclamou, numa clara crítica à orientação seguida pelo governo de Negrín: «Governar sem a CNT e sem a UGT é o mesmo que governar contra estas organizações, o que corresponde a caminhar para a derrota. [...] Não só porque ao governar contra nós se destruiria o moral e a disciplina actual da retaguarda, mas porque o inimigo hoje, apesar de dominar mais de metade da superfície da península, não domina a alma nem o esforço do proletariado desse território. Não tem exército. Tem de pedi-lo emprestado ao estrangeiro. E porquê? Porque na sua zona as massas trabalhadoras da CNT e da UGT resistem, levantam dificuldades e criam com o seu moral a resistência que permite o combate ao fascismo. Se do nosso lado se governar contra a CNT e contra a UGT perder-se-á o apoio das massas populares do outro lado que, ao saberem que se governa contra nós, ficarão prostradas. E a partir desse momento a tragédia fascista não encontrará obstáculos para recrutar os mercenários que nos venham liquidar a nós»24. A previsão foi lúcida, e o orador só se esqueceu de mencionar que também ele, com a sua actuação no governo, fora um dos principais responsáveis pelo desânimo que se apoderava dos trabalhadores comuns.

Já no final de Outubro ou no começo de Novembro de 1936 um miliciano que estava de licença em Barcelona comentara que «a revolução tinha fracassado», «a revolução [estava] morta»25. Pouco depois, George Orwell, que servia também nas milícias da frente de Aragão, pôde observar durante as suas breves passagens por Barcelona como a profunda remodelação das relações sociais, que havia marcado os primeiros meses da guerra e permitido ao proletariado exigir armas ao governo, enfrentar com êxito os generais e proceder a numerosíssimas colectivizações agrícolas e ocupações de fábricas e serviços públicos, fora gradualmente perdendo o vigor perante a reconstituição das instituições capitalistas. O igualitarismo que assegurara aos trabalhadores uma considerável vitória em Julho de 1936 estava, menos de um ano depois, condenado pela restauração das hierarquias. Mostrando uma sagacidade tanto mais notável quanto a história ia ainda longe do epílogo, Orwell desvendou as raízes da questão ao escrever que «com uma política não revolucionária era difícil, ou mesmo impossível, atacar Franco por detrás. No Verão de 1937 Franco tinha sob o seu controlo uma população mais numerosa do que a controlada pelo governo — muito mais numerosa, se incluirmos as colónias — e a quantidade de tropas era mais ou menos a mesma em ambos os lados. Ninguém ignora que com uma população hostil na retaguarda é impossível manter um exército em combate sem dispor de um exército igualmente numeroso para guardar as linhas de comunicação, suprimir sabotagens, etc. Portanto, isto mostra claramente que não existia nenhum verdadeiro movimento popular na retaguarda de Franco. É inconcebível que o povo desse território, pelos menos o operariado urbano e os camponeses mais pobres, gostasse de Franco ou o quisesse, mas a superioridade do governo [republicano] ia-se tornando menos evidente cada vez que virava à direita»26. De então em diante a desmoralização dos trabalhadores só teve razões para piorar e foi certamente este um dos motivos que levou ao acentuado declínio da produção de material militar. Numa carta endereçada a Indalecio Prieto, o presidente da Catalunha, Companys, informou-o de que nas indústrias de guerra a produção não parara de baixar desde Junho de 1937 e que no final desse ano a diminuição chegava já a 35% ou 40%27. Ora, o ânimo da classe trabalhadora na zona republicana reflectia-se decerto no estado de espírito prevalecente na zona nacionalista.

A questão, todavia, é mais obscura, pois uma coisa é a guerrilha não se ter imposto no lado republicano como modalidade única de luta nem ter empolgado os trabalhadores da zona nacionalista, e outra coisa, muito diferente, é ela não ter sido usada sequer como expediente pelas autoridades militares da república. São conhecidos vários casos de guerra de posições em que exércitos enquadrados por uma disciplina tradicional fomentaram as guerrilhas enquanto forma de combate subsidiária. Ora, no campo republicano quase não houve tentativas para estimular acções de guerrilha atrás das trincheiras inimigas nem para coordenar as operações do exército regular com aquelas iniciativas guerrilheiras que, como vimos, haviam aparecido de maneira independente. «Ao todo, as guerrilhas tiveram uma importância mínima no desenrolar do conflito», escreveu um historiador28. Apesar de serem meramente defensivas, o último recurso de uma população vencida e desesperada, essas acções poderiam ter contribuído para alterar o rumo dos acontecimentos se beneficiassem de apoio exterior, mas nada contaram nos planos dos generais e políticos republicanos. Só a 8 ou 9 de Fevereiro de 1939, com toda a Catalunha ocupada pelas tropas de Franco e a menos de dois meses de tudo acabar, o anarquista Cipriano Mera, comandante do IV Corpo de Exército do Centro, propôs ao coronel Segismundo Casado, comandante do Exército do Centro, o plano de concentrar todas as reservas para tentar romper a frente em direcção à Estremadura «e ver se a população daquelas aldeias se junta às nossas tropas». Ele explicou que «no caso de esta penetração ser favorável, deveríamos começar já a preparar o rompimento de outras frentes para passar do exército organizado à criação de grandes guerrilhas»29. Mera, que depois de ter aceitado a militarização das milícias a cumprira e aplicara escrupulosamente e que desde que assumira o comando daquele Corpo de Exército, em Outubro de 1937, se conformara com a manutenção das suas tropas em completa passividade, parecia considerar como derradeiro recurso perante a iminência da derrota algo em que não cogitara enquanto a vitória fora possível. Mas também neste caso o projecto de organização de guerrilhas deparou com a indiferença das chefias militares.

E no entanto as condições não podiam ser inteiramente desfavoráveis, já que em circunstâncias muitíssimo mais difíceis, após a vitória total de Franco, as guerrilhas actuaram durante bastantes anos em vastas regiões, na Galiza, em Leão e nas Astúrias, do Tejo até ao Guadalquivir e no sudeste da Andaluzia30. Eram los huidos, os fugitivos, que procuravam escapar às vinganças da repressão. O profundo desânimo do meio em que se apoiavam, constituído por jornaleiros e camponeses paupérrimos, explica que não tivessem capacidade para se dedicar a acções ofensivas e só muito raramente coordenassem os seus movimentos31. As primeiras tentativas de organização comum parece terem ocorrido no norte da península com a criação da Federação de Guerrilhas da Galiza e de Leão na Primavera de 1942 e, no Verão do ano seguinte, do Comité de Milícias Antifascistas das Astúrias32. Mas em qualquer caso, isolados ou procurando coligar-se, o denodo com que los huidos resistiram às tropas de Franco e à Falange em condições sociais e políticas inteiramente adversas deixa supor que mais ainda o teriam feito quando a república existia e contava com esperanças de vitória. Por que razão aquela guerrilha numerosa, difundida e pertinaz, que poderia ter constituído o factor decisivo para inverter o resultado da guerra civil, surgiu depois do triunfo nacionalista?

Os paradoxos acumulam-se ao procurarmos deslindar a questão porque, em contraste com a tibieza demonstrada pelas figuras cimeiras da república, os nacionalistas conseguiram actuar de maneira organizada nos próprios centros da zona republicana. A expressão «quinta coluna», no sentido de força infiltrada no seio do inimigo, foi celebrizada em Outubro de 1936 pelo general Mola quando, para além das quatro colunas que marchavam sobre Madrid, se vangloriou da existência de uma outra no interior da cidade33. Se puder explicar a razão por que as acções de resistência dos trabalhadores na zona franquista não se ligaram aos movimentos do exército da república, e a incapacidade, ou mesmo a falta de vontade, dos dirigentes das facções republicanas para organizar acções de guerrilha por detrás das linhas inimigas, terei entendido alguma coisa na relação do fascismo com as massas populares.




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