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BENAMONTE

Teresa Salema

Benamontez v$feb tòf**

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA

Capa: estúdios P. E. A.

(c) Teresa Salema 1997

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia,

xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de pequenos textos ou passagens para apresentação ou crítica

do livro. Esta excepção não deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte

prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passívei s de procedi mento j udici ai

Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA.

Apartado 8

2726 MEM MARTINS CODEX

PORTUGAL


curopa.america@niail.tclcpac.pt

Edição n.°: 103401/6866 Outubro de 1997

Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra Mem Martins

DcpÓMlu Icgjl n l 11729/1)7

NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA

Teresa Salema nasceu em Lisboa, em 1947. Licenciada em Estudos Germanísticos, Ciências Políticas e Ciências da Comunicação, integra actualmente o corpo docente do

Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras de Lisboa.

Para além de diversos textos científicos na área da sua especialidade, publicou também quatro romances:

Entre Dois Países. Estaçõespara um Romance (1918, sob o nome de Teresa Rodrigues Cadete);

Nós, Outros (1979, em colaboração com Casimiro de Brito);

Educação e Memória de André Maria S. Tríptico;

O Lugar Ausente.

1. Não encontro palavras.

2. Mãe preta

3. "Falagui malakiá"

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NÃO ENCONTRO PALAVRAS

Não sei o que you encontrar, apenas respondo à mensagem de Leónia no gravador, Logo que possas.

Não corro, antes meço os passos como se pisasse arame no vácuo, hesito entre o dever de amigo e o desejo de chegar tarde de mais. Vejo os filmes possíveis, todos

se vão desfazendo em absurdos, é agora mais do que evidente, anseio por ver tudo consumado, pacificado de qualquer maneira, a desfazer-se por resignação, piedade,

desleixo, destruição. Já só quero à chegada cumprir um papel mínimo, como o de saudar com reserva cordial quem lá estiver, encostar-me à cena que ainda reste, ficar

no retrato com um mínimo de movimentos. Ou, então, consolar, recolher o que resta.

Quem estará lá? Leónia, sempre com pose e estatura de guardiã, talvez mais rígida do que o habitual, ou talvez descomposta pela emoção, quem mais? Salvador, magro

e esquivo, talvez Homero a acompanhá-lo, talvez Nuria, vinda de parte incerta. A inevitável Sora. Já sabemos da ausência de Frederico.

Depois de uma passagem das caras conhecidas, o filme parece parar no tempo e o cenário torna-se deserto, apenas com escuridão húmida a colar-se às paredes de hera,

cinzas ainda quentes, papéis rasgados no jardim, dejectos humanos, animais? E tudo se emaranha num amontoado orgânico, aperta-se em contracções vitais, o fechar

e abrir de uma planta, a boca de um peixe, mas nada é pesadelo, antes um recomeço de história tomando corpo entre medos avolumados e memórias à deriva.

Há quanto tempo não voltava a Benamonte?

TERESA SALEMA

Não sentia os pés, já bastante andados para cá da estação. Tudo parecia como nos tempos em que corríamos a reunir-nos em Zoon, a partir do fim da tarde os gradeamentos

ao longo do passeio, luzes presas às janelas dos prédios, o cheiro, a maçã frita de um vendedor ambulante. Os plátanos aparavam a humidade, respiravam o cheiro acastanhado

de Outono. Mais adiante, as casas acabavam e só ficava a borda do passeio para recordar a avenida construída pelo avô de Leónia.

Começavam ali os acampamentos, cogumelos, improvisados.

Alguém cantava a várias vozes. Olhei mais de perto as figuras sentadas em volta de fogos baixos, os compassos de palmas, os cães que competiam com o choro das crianças,

colónia e colmeia de construções obsessivas, materiais de tabique recolhidos em quintais desabitados.

Começou a chover de manso. O canto fez-se forte, na pronúncia seca e gutural de que eu já entendia algumas palavras. Ninguém se levantou para barrar-me o caminho,

pedir-me uma moeda ou convidar-me a sentar junto às chamas, como acontecia uma vez ou outra. Parei junto de um vendedor de fruta frita e especiarias, dominei o enjoo

do óleo a ferver só para retardar a marcha. Enquanto era servido de uma pasta branca com passas e amêndoas, pensava nas perguntas a fazer ao vendedor, sempre para

ir atrasando, a tempo de deixar que tudo acabasse sem mim para lá do portão.

O homem parecia calmo e começou por dizer, enquanto doseava a porção, que era novo no sítio, que veio para ali porque alguém lhe contou que aquelas gentes davam

bom negócio, gostavam de doces e compravam tudo o que podiam com o ordenado pago pela senhora da quinta. Fez um sinal com o queixo para algumas tendas de comércio,

fechadas a essa hora desse princípio de noite. Tudo como dantes.

Tinha de seguir os vestígios da antiga avenida, as lanças do gradeamento, cruzar carcaças de automóveis que agora eram abrigos e tinham mantas a fazer de cortinas,

passar por animais a esfregarem as patas molhadas pelas orelhas ou esgravatando à procura de cheiros conhecidos. Manter

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o passo até chegar ao muro alto, passar os batentes do portão entreabertos com uma pedra, saudar com a cabeça e um monossílabo quem estivesse sentado num banco do



jardim, chegar à porta, tocar e talvez Salvador viesse abrir, depois de erguer o pesado reposteiro.

O frio húmido embebia-se no cheiro de plátano, de roupa humana ao relento. Um sinal de guizos fez-me seguir com os olhos o rasto de uma cicatriz escura, vertical,

na pele brilhante e lisa de uma mulher, e ela cantava, sentada, mãos em cruz no novelo escuro da saia, um estilhaço a ondular da testa ao pescoço, em forma de língua

e labareda. De repente, bateu as mãos e cantou sukhavu, sochamu na sua direcção, a cicatriz parecia erguer-se da cara e derreter-se no calor da roda e do álcool,

das roupas endurecidas pela terra e palha.

Corria o risco de ali ficar, de afundar-me em conversas que embebedavam com sons enrolados e cheiros de couro e metal, de aceitar uma bebida que já não me deixasse

levantar. Alguém chamava para o pé de si e isso bastava-me para querer seguir uma voz que apelava à piedade pela cicatriz e à veneração pela cara oval, tudo numa

só mulher. Ela pareceu pressenti-lo, porque me deitou um olhar que parecia ora sofrer, ora seguir um transe indiferente às dores do momento, às necessidades de comida

e tecto.

A um determinado sinal, fez-se ouvir no escuro um ritmo de tambor enquanto três homens traziam uma panela enorme. Estava a um passo de tornar-me instrumento, de

dissolver os restos de vontade, de aproximar-me do lume, Ei, tu! exclamou a mulher numa língua que de repente se percebia e apontando na minha direcção, Come

connosco.

Como se acordasse não sei de que pesadelo, quis convencer-me de que nada disso me dizia respeito e desatei a correr, esquecendo as dores e sem reparar em que passos

podia tropeçar, entre destroços oleados, ao brilho da chuva miudinha. Sentia o ar a arder nas narinas mas continuava, seguia uma memória desconhecida, um caminho

com pedras alisadas, com luzes para guiarem até ao refúgio. Quando dei por mim, tinha passado o portão e estava

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no jardim, a poucos metros da porta fechada. Hesitava, olhava em volta, o fumo embaciava tudo, fumo de objectos queimados pelos habitantes da noite. E subia, o fumo,

por entre as ramagens de cobre. Perfurava a respiração, intrometia-se nos o*sos doridos da humidade. No pavilhão ao fundo do jardim, as janelas abertas deixavam

ouvir cantares lentos e graves naquela língua que já fizera capitular Frederico diante de toda a espécie de dicionários.

A porta da casa continuava fechada, as persianas das janelas corridas.

Do pavilhão abriu-se uma saída lateral, um homem correu a mijar ao canto do muro e continuava a fazer eco solitário às palavras musicadas lá dentro. Desatou a rir,

como se estivesse perdido de bêbedo, a fazer variações em notas goliardas, ao que do interior se fazia ouvir com solenidade e concentração; parecia jogar com o membro

na mão, arqueando o líquido na luz húmida ao ritmo do canto. Ao ver-me, riu ainda mais alto e acenou-me com a outra mão para se aproximar, e começou a apanhar galhos

secos do chão. Mas já Salvador abria do lado oposto meia porta da casa, tabaco e vozes, cadeiras arrastadas. Corri para ele e ouvi-o dizer a meia voz, Entra primeiro

para aqui. Logo nos vêm chamar para irmos ao pavilhão.

Ao ver que eu continuava indeciso junto ao espelho do patamar, murmurou Estranhas criaturas temos ali, chegadas há bocado. Amigos da Leónia.

Subi o lance de cinco degraus, entrei no salão e olhei sem disfarce, no foco do primeiro instantâneo. Cerca de sessenta anos, cento e vinte de casal. Homem de barba

branca e cachimbo, mulher de turbante claro e pérolas compridas, perfil de águia. A terceira figura era mais nova embora mais calva, trazia lentes redondas, olhos

líquidos e medidas finas nas feições. Era filho deles? Entre eles falavam uma língua que não se entendia, para fora um francês polido.

Depois de uma breve apresentação, senteime numa mesa próxima para continuar a observá-los. Era evidente que não se tratavam de refugiados mas de viajantes, que pareciam

vindos de outras épocas, desses que andavam com malas de compartimentos e não dispensavam roupa à

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medida, alfaiate e modista. Um trio, dois grisalhos espigados, um loiro que não se parecia com eles e todos pareciam saídos de uma biblioteca, ou desses salões onde

círculos privavam consigo próprios, aplicando-se no exercício de comentar os dramas universais e as chalaças quotidianas, depois de ter entregue os abrigos da rua

no vestiário. O homem mais velho rodava a mão na ponta de prata de uma bengala. A mulher, talvez antiga actriz com máscara de aproximação a juventudes agora quase

póstumas, alucinadas, embalsamava as pontas dos dedos, a nuca e a atmosfera espessa com um aroma tumular. Donde os conhecia Leónia, de que férias ou excursão ou

visita a amigos de amigos? Não pareciam cansados.

Depois de certificar-se de que eles o entendiam, Salvador contou-lhes, num inglês diluído, que os habitantes do pavilhão tinham insistido em preparar a cerimónia

e que viriam chamá-los quando terminasse a parte mais íntima, a que só podiam assistir Leónia e a família do patriarca. Ao passar por mim, segredou Domingo vamos

à caça, aos patos bravos. Depois seguimos para Vincos, festejar os oitenta anos da avó de Homero.

Voltou à tarefa de equilibrar cinzeiros, servir líquidos. Embora se soubesse que tinha começado a frequentar um curso de gravador numa cooperativa de artes e ofícios,

tornava-se difícil imaginá-lo num cenário que não fosse o que restava daquelas mesas, paredes e espelhos. Muito menos ele e Homero juncos fora, agarrando pelas asas

um pássaro ainda morno. Peregrinavam pelas madrugadas dos fins-de-semana, contrariando trânsitos para a lareira da família de Homero, que lhes cedia dois quartos,

cada um com a sua cama de ferro, arca de linhos, (Gostavam de convidar amigos e também me apanharam num fim-de-semana, em estação morta. E eu cedera, como quase

sempre, ao pensar que também Nuria ia lá estar. Acabei controlando o álcool à lareira, com peregrinação ao café da aldeia a soluçar de chuva, leitura de revistas

atrasadas.)

Salvador cantava baixinho, velejava entre mesas, talvez no gozo antecipado de brisas, madrugadas mal dormidas, pensei, mas que sabia no fundo? Só podia imaginar

um silêncio largo, breve ruído de indício de bicho, a luz do dia

TERESA SALEMA i

subindo aos poucos, o ácido do ar nas narinas, tudo guiada] pelo faro e instinto seguro do companheiro. Homero vem! cá ter? ;

Nuria também não tinha chegado de mais uma das suas| viagens. Estajnformação deixou-me ainda mais perplexo por ter sido transmitida por Sora, sentada num canto,

obstinado e indiferente à língua sibilina dos visitantes.! Faltava também Frederico, que ninguém conseguia encontrar em casa. í Bateram à porta com toque apressado.

Salvador não j estava de momento na sala e Sora saiu ao patamar para \ abrir, puxando o reposteiro de feltro pesado que separava ; o salão da entrada, para que todos

vissem quem era, num gesto de quem vivia em permanente defesa. E foi como presa cercada que Sora se arredou, desconfiada e muda, para que todos ouvissem o que dizia

o homem vestido de escuro com voz quente e um mínimo de frases aprendidas para pedir que aceitassem, enquanto esperavam, uma parte da sua comida. Trazia uma tigela

ainda quente, que entregou a Sora num pano branco bordado a vermelho, desaparecendo na noite do jardim. Ficámos todos suspensos dessa figura; Sora fez um gesto aflito

com o recipiente nas mãos, como se temesse peso ou queimadura, e Salvador surgiu no momento oportuno para lhe aparar a tigela e levá-la para a mesa dos forasteiros,

Ora aqui está uma especialidade dos nossos hóspedes, que festejam o dia do seu padroeiro.

As palavras soavam a falso, mas não podíamos fazer mais nada do que agarrar-nos a elas. Obedecemos ao sinal para nos aproximarmos e molharmos um pouco de pão no

guisado, que tinha um cheiro muito agradável a especiarias e onde boiavam carnes e legumes de cor indistinta. Enquanto Salvador trazia pratinhos e talheres para

todos, desculpando-se por haver pouco pão. experimentavam-se formas de conversa; e foi numa profusão enredada de línguas que cada um dos presentes foi acrescentando

pormenores acerca do grupo ali instalado havia meses.

A comida tinha um sabor excelente, diluía-nos, pacificava. Olhei em volta era tudo o que restava da casa

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BENAMONTE



herdada de Emílio Soledo, do piso térreo batido por conspirações e discussão, intrigas e ironias, bebidas em peso, resignações, onde nos habituáramos a comentar

o que se ia passando, quantos anos, quantas noites a desfio? Fora Frederico a dar o nome de Zoon àquele enorme salão com portas vidradas, azulejos com cenas de caça,

mesas redondas e cadeiras de palhinha, uma poltrona gorda onde geralmente se sentava ele, chegado do outro extremo da cidade na sua velha bicicleta. (Quando chovia,

trazia um capote de pescador. Resfolgava um pouco na asma, sacudia o pó e o líquido e sentava-se com aguardente vagarosa, equilibrada com água, durante um serão

inteiro.)

De repente, a dama começou a cantar, como se ignorasse o momento presente, e para espanto de todos abriu um soberbo cordão de voz soul e engrossou-o de forma controlada,

na sua calma de gola alta e pérolas cinzentas em três voltas. Não se levantou, mesmo ao notar que se ia fazendo silêncio e que Salvador apagava algumas luzes. O

rapaz loiro tremia nos dedos e gotejava nas têmporas. Últimos acordes prolongados, segurados entre os espelhos que reflectiam as costas tensas, a nuca direita da

vocalista; após um silêncio de respiração funda, as palmas libertaram-se e senti reviver um pouco da atmosfera de anos anteriores, quando os corpos chegavam ali

depois de terem atravessado os dias e atracavam nas mesas ansiando por contarse, ouvirse, olharse e fumarse.

Ninguém, excepto Frederico e Leónia, tinha estado na cidade donde vinham a senhora e os seus acompanhantes, uma terra de nome molhado e quase impronunciável; sabíamos

vagamente pormenores soltos por imagens de satélite, palácios muito restaurados, pontes velhas, cidadela, do pintor maldito dela exilado voluntariamente e muito

cotado nos últimos anos. Todos ali pareciam desarmados, como miúdos obrigados a fazer sala diante da visita daqueles seres anacrónicos. Salvador desaparecera. Da

sala ao lado vinham sons metálicos, vozes em competição entusiástica. com licença, disse Sora, levantando-se da poltrona de Frederico. Quando voltou, já tinham

reduzido a emissão a um ruído de bastidores e Sora, sem esconder o triunfo da pequena vitória junto dos adolescentes, anun-

C ONTEMPORANEA l 2

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ciou, Humberta disse agora mesmo para irmos para o pavilhão e sairmos pela cozinha.

Disse que já lá ia ter e senteime na poltrona, que outrora pertencera a Soledo. Quando Frederico estava, ninguém lha"disputava, nem mesmo Alfredo. De resto, foram

raras as vezes em que Alfredo descia ao convívio. Ou, então, vinha dar dois dedos de conversa para voltar aos seus mapas no primeiro andar. Agora estava a ser ceie-;

brado um ano depois do suicídio, a ser homenageado não se sabia como, pelos grupos que ele e Leónia tinham deixado! instalarse dentro e fora dos muros e, pelos

vistos, ] também no piso térreo da casa.

Despedimo-nos no jardim embebido em nevoeiro. A dama e o senhor entraram em casa e subiram ao andar de cima, a convite de Leónia. Vito, o mais jovem, insistira em

ficar no quarto do hotel que já tinha marcado e perguntou-nos em que direcção íamos.

Entrámos no ar da noite. Alguns nódulos húmidos, troncos de roupa escura, dormiam em volta de cinzas. Caminhávamos, arriscávamos o descampado. Vito puxou um cigarro,

ofereceu outros e apertou o cinto da gabardina. Perguntou-nos se não nos importávamos de falar em francês e anunciou que ficaria por três meses. Sora perguntou-lhe

qual o papel que desempenhava nessa equipa, encarregada de avaliar a habitabilidade, o valor patrimonial da casa e da propriedade. Olhei-a de revés, temendo que

descarregasse os seus humores sobre alguém que para mim nada mais era do que um convidado de Leónia, com corte de perfil e maneiras de novela oitocentista. Num francês

de sacadas, Sora recarregou as perguntas e lamentou que dessa equipa não fizesse parte um historiador, inadmissível, e ela com o seu curso incompleto a ter de preencher

lacunas. Vito recuava para a geologia, defendia a solidez do lugar e admirava as técnicas dos peritos, outrora contratados por Soledo, para erguer uma propriedade

daquelas em solos sob permanente ameaça de afundamento.

Calei-me, ouvindo os dois discutir numa língua que não era a deles e sobre um assunto que a nenhum competia

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decidir. As informações que eu próprio possuía eram contraditórias. Ora se dava a casa como perdida, ora se contava da existência de planos para recuperar apenas

os jardins. Enquanto prosseguiam as negociações, o instinto de Leónia levou-a a dar guarida a um grupo de refugiados, a tolerar outros nas margens, a atrair jornais

e câmaras para um património em vias de ser abandonado aos credores.

Mas ninguém podia pensar, memoriar, junto da voz ácida de Sora. Comentava os cânticos que haviam acompanhado a cerimónia, a insistência do patriarca do grupo em

que todos entoássemos um refrão que ele se empenhou a transcrever na fonética da nossa língua, oi tsvetiót kalina. Parei para olhar aquela mulher de pele inglesa

e cabelo pálido, mais o seu entusiasmo que me parecia despropositado, os olhos azuis que brilhavam enquanto as mãos longas repetiam o ritmo com palmas. Vito disse

que lamentava desiludi-la, mas que conhecia o mesmo texto e a mesma música, de uma canção popular russa. Sora emudeceu um instante para logo se insurgir que não

podia ser, nenhum deles era russo e eu lembrava as longas entrevistas com os poucos deles que sabiam alguns restos de idioma pronunciável, os grandes planos obtidos

por Nuria, a compostura com que rebatiam os boatos a seu respeito e que ocultavam o que suspeitávamos serem informações sobre uma cultura em extinção. E que sabíamos

nós sobre eles, para além do desejo confessado por quase todos eles de fugir a guerras civis, de conhecer paragens atlânticas, praias, mulheres, de ter uma oportunidade

de fazer trabalhos de restauração, para além da pronunciada vénia que encenavam diante de Leónia, de respeito e temor por Alfredo e agora de comiseração para uma

viúva que até durante a cerimónia parecia não levar muito a sério esse papel?

Certo era que a ameaça de afundamento voltara a manifestar-se com fracturas no edifício, vegetação de cheiro sulfuroso e flores inclassificáveis; em torno dessa

ameaça, superstições várias haviam desertificado a pouco e pouco lugares antes tão apetecidos por especuladores imobiliários. Dizia-se que, no seu tempo, Soledo

se rodeara de um

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grupo que o ajudara a encontrar uma fórmula, nunca] depois reconstituída, de secagem dos pântanos, construção? e conservação. Senti pena de não ser jornalista, por

não poder contar o que Vito não parecia aliás interessado em ouvir. A caminhada aquecia, abria as roupas mas não as i confidências. Sora falava de outros pormenores

da cerimónia para fazer um silêncio e dizer de repente Mereceu a | sorte que teve. ]

Sabíamos que falava de Alfredo, que nada havia a acres-; centar às alusões arrastadas, aos silêncios tristes. Vito i mostrou mesmo sinais de cansaço e desinteresse,

invulgares num homem tão educado. Passávamos numa zona de pinheiros mansos, com mesas e bancos de piquenique, agora humedecidos pelo cacimbo. Vito pediu que nos

sentássemos um pouco, ainda não se tinha recomposto da viagem, e Sora advertiu que iríamos perder o último comboio. O outro ofereceu-se para a levar de táxi e perguntou-lhe

o que queria dizer com a sorte de Alfredo. Sei que não se suicidou, como Leónia quis fazer-nos acreditar. Foi vítima da sua intransigência, do seu autoritarismo

cego.

Podia ali abrir-se uma nova história. Não era difícil imaginar Sora no papel de viúva na sombra, entre arquivos, rancores e fantasmas. Estávamos os três sentados



à mesa como em Zoon, e só faltavam bebidas para conversarmos sem limite de horas. Vito tirou do bolso uma garrafa espalmada de um álcool cor de alperce, muito forte,

advertiu ao passá-la envolta num grande lenço de linho incrivelmente limpo, com iniciais bordadas. A volta, as pessoas passavam em grupos pardos e fechados, os carros

rareavam e uma mulher alta e forte, de cabelo grisalho e curto como Sora, deixou que um cão enorme farejasse o lixo de antigos piqueniques muito perto de nós. Vito

fez uma festa ao bicho, que se sentou imóvel diante dele. Sentia-se uma vibração inquisidora que saía da órbita daquele ser, um magnetismo opaco de funcionário,

cientista, agente? A dona sorriu, disse umas palavras incompreensíveis e afastou-se à rédea curta enquanto Sora falava, falava. Via-se como ela se comprazia em deixar-se

arrebatar por Vito, compelida a responder a perguntas que ele não fazia,

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a contar episódios da sua vida pessoal que eu também não conhecia, para além de pormenores sobre Salvador, as estadas mais ou menos secretas numa propriedade do



norte (da família de Leónia) para destilar os restos de uma travessia de droga ( Notei que tinha estruturas de vício observava Vito, que as mãos lhe tremiam, mas

pareceu-me ter força de vontade para chegar aonde quisesse).

Nada se disse acerca de Frederico. Omitiu-se Nuria, por razões distintas: as duas mulheres odiavamse e qualquer referência feita por uma delas à outra, em presença

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