Camila vieira de souza a tatuagem como meio da arte: o corpo, a marginalidade e a apropria



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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

CAMILA VIEIRA DE SOUZA


A TATUAGEM COMO MEIO DA ARTE:

O CORPO, A MARGINALIDADE E A APROPRIAÇÃO SIMBÓLICA

“É mais fácil representar as formas de um corpo do que a própria pele. Enquanto superfície, a pele parece ser um meio possível da representação sem ser por essa razão representável”. (JEUDY, 1997: 83)

RESUMO

Este trabalho discute as possibilidades de uso social que a tatuagem adquiriu ao longo da trajetória humana, contrapondo sua história à recente aplicação da técnica no campo das artes. Além da pesquisa acerca da história da tatuagem e seus usos durante a civilização, o trabalho discorre sobre o corpo como suporte e o papel do artista enquanto interlocutor das relações pós-modernas entre o sujeito e a sociedade, tema que se fez necessário em virtude do pouco material produzido pela Academia a respeito deste assunto. A tatuagem é uma das técnicas mais antigas de modificação corporal conhecida pelo Homem. Atrelada aos grupos minoritários e excluídos socialmente, a técnica foi escolhida por alguns artistas para denunciar, através do próprio corpo ou de outrem, os processos de exploração do trabalho e a massificação do corpo como mercadoria. A pesquisa foi pensada de modo a perpassar a história da tatuagem na civilização, as aplicações possíveis da técnica enquanto elemento simbólico e a apropriação deste tipo de modificação corporal como meio para o discurso da obra de arte ou performance, comprovando, por intermédio do crivo do artista, sua eficácia dialética na qualidade de instrumento e sintoma social.


Palavras-chave: Tatuagem. Corpo. História da Arte. Performance. Arte.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 Localização dos padrões no corpo mumificado 5

Figura 2 Padrão tatuado 5

Figura 3 neozelandês, com um pente no cabelo, um ornamento de pedra verde em seu ouvido , e outra de um dente de peixes em volta do pescoço , 1773, gravação de uma lavagem desenho feito por Sydney Parkinson na primeira viagem de Cook, agora no British Biblioteca 16

Figura 4 Gravura por Sydney Parkinson. Placa XVI em Sydney Parkinson jornal de uma viagem para South Seas.1773. 16

Figura 5 Guerreiro de Utagawa Kuniyoshi 19

Figura 6 Guerreiro de Utagawa Kuniyoshi 19

Figura 7 160 cm Line Tattooed on 4 People 41

Figura 8 Made For you, 2002 – Tatuagem na cabeça de um trabalhador 42

Figura 9 Porco tatuado com uma princesa Disney envolta pelo padrão das bolsas Louis Vuitton 45

Figura 10 Em As Vacas Comem Duas Vezes a Mesma Comida, ação iniciada em março de 2000, Davanzo evidencia a área tatuada do corpo 47




SUMÁRIO



1. INTRODUÇÃO 1

2. A TATUAGEM E A HISTÓRIA

2.1 Usos simbólicos 5

2.1.1 O Corpo Clássico 9

2.1.2. Artistas viajantes e o corpo tatuado 13



3. CORPO E SOCIEDADE

3.1. O corpo individualizado 19

3.1.1. Marcas corporais 22

3.1.2 O corpo estético 27

4. TATUAGEM COMO MEIO, CORPO COMO OBRA

4.1. A Arte da beleza e a Arte da repulsa 32

4.1.1. Arte repulsiva, corpo e mercado 36

5. CONCLUSÃO 48

BIBLIOGRAFIA 50

  1. INTRODUÇÃO

A tatuagem é um meio antigo de marcar o corpo, comunicando-o ao mundo através de símbolos e crenças que correspondem, num primeiro momento, a uma interpretação cosmológica do universo, de modo que os símbolos cravados na pele são de uma ordem superior ao mundo profano, como acreditavam os possíveis tatuados do período paleolítico. O tatuado mais antigo do mundo foi descoberto nos Alpes Austríacos e viveu há aproximadamente 5 mil anos atrás, ao que tudo indica, sua pele foi marcada numa espécie de ritual de cura, pois as tatuagens se localizam perto das articulações e, segundo estudos, o homem ao qual o corpo pertencia sofria com dores musculares, indicando um tipo de tratamento parecido com o que hoje chamamos de Acupuntura.

O ato de marcar o corpo com pigmentos inseridos na epiderme através de objetos pontiagudos não só simboliza a concepção artística de um corpo diferenciado, entreposto num contexto social, -tribal ou não- como denota um tipo de transgressão ao corpo natural. Cada padrão configurado numa tatuagem indica o caráter do sujeito frente ao grupo, bem como seu status social ou o corpo simbólico que o sujeito transmite ao portar determinados arquétipos sociais.

Não é errado afirmar que a difusão da tatuagem ocorreu num momento de expansão tecnológica, quando as grandes navegações possibilitaram o contato do Europeu com os povos ditos primitivos. Neste âmbito, os símbolos de cruzes, âncoras, pássaros, ou motivos tribais surgiam como um tipo de carimbo de passaporte. Na pele, o marujo carregava a trajetória de sua jornada a lugares ditos exóticos e selvagens. Porém é verdade que houveram muitos povos que simultaneamente utilizavam o ato de marcar a pele como forma simbólica e, deste modo, não se pode definir um local de nascimento para o ato da tatuagem.

Ao longo da história, a tatuagem passou por vários processos de transformação e por isso não deixou sequer um momento de existir como forma simbólica. Seja como meio de reduzir as dores do corpo, como símbolo social diante de um grupo, como forma de manifestação mística através de símbolos universais e desenhos geométricos, seja também como princípio demarcador de vigilância - no caso dos judeus e presos russos - ou pertencimento social marginalizado, como as tatuagens da Yakuza, de prostitutas, e transgressores punk, dos anos 1970.

Foram os movimentos de contracultura dos anos 1960 que garantiram à performance, assunto que trataremos à frente, assinalar liberdades que foram reprimidas durante os períodos de Guerra e recessão econômica. Quando foi possível à arte envolver outros meios que não os canônicos: pintura e escultura; mas projetar a linguagem artística às ruas, praças, movimentos sociais e ao corpo, um novo projeto artístico, dessa vez mais envolvente, nasceu como pesquisa de uma tela ampliada. Lugar no qual não interessava cumprir a forma pictórica da teoria, nem questionar a pureza dos meios, como propunha o crítico de arte americano, Clemente Greemberg, mas transformar o movimento do corpo, o conceito, os meios disponíveis e os diálogos construídos com a fotografia e vídeo-arte.

Surge, neste entremeio, uma nova onda que eleva ao corpo o poder de se transformar em suporte da arte, através de suturas, implantes, happenings, e todo o tipo de concepção que envolva o corpo no diálogo entre o artista e público. A tatuagem, a partir deste momento, ressurge num contexto diferente: o da galeria e exposições de arte. Cabe analisar que ela nunca deixou de existir nas ruas. Muito além do puro gosto, ela porta significados pessoais e sociais indissociáveis do sujeito humano, acontece que, quando este tipo de técnica é utilizada enquanto performance ou enquanto meio para se tratar de algo específico, a tatuagem sai do campo histórico e passa figurar de uma maneira diferente na sociedade, como denúncia ou poética do artista.

São raras as relações que estudiosos fazem entre a arte e a tatuagem, contudo, desde a literatura até a pintura, temos referências históricas da tatuagem apresentada como objeto de curiosidade antropológica, como fez Darwin em seus relatos, ou por uma representação pictórica do cotidiano de uma civilização colonizada, mas que, ainda assim, encontra na tradição o seu suporte de sobrevivência, como é o caso das mulheres taitianas, pintadas por Gauguin. A análise desse tema perpassará momentos históricos documentados por artistas viajantes e a presença do registro como forma de assimilação da cultura do outro através da imagem. Este debate, contudo, será mais específico a partir da real utilização da tatuagem como meio, por artistas como Santiago Sierra, Win Delvoye, Ducha e Priscilla Davanzo, que se aproveitam do caráter perene desse meio para transmitir uma mensagem à sociedade, como um alerta ao mercado ou forma de transgressão.

Não tratarei, contudo, sobre outras formas de modificação corporal, como o branding, a suspensão corporal, tongue split1, ou os meios de modificação distintos que implicaram a pesquisa de Fakir Musafar2, estudioso que alcunhou o nome de “ primitivos modernos” aos praticantes da arte de modificar o corpo, conforme preceitos desenvolvidos por tribos e sociedades ditas arcaicas. Através da análise da obra de artistas que utilizaram a tatuagem como meio para se fazer arte, além da prática comum entre os grupos de modificadores corporais, pretendo demonstrar que apesar dessa prática não ser considerada digna de uma exposição nos grandes museus, salvo raros casos, a tatuagem se mostra como arte a partir do diálogo que quase exclusivamente apenas a ela compete: a linguagem entre a pratica artística e corpo marcado permanentemente. A essência do Happening, tipo de performance que “acontece” apenas uma vez como ação provocadora, e por isso mesmo irreprodutível, não cabe ao contexto no qual as obras que os artistas escolhidos para o tema operam. A fim de entender a complexidade entre o corpo, o meio e a obra, que está permanentemente marcada, ora na pele do artista, ora na pele de outrem, é preciso rememorar a simbologia da tatuagem e sua trajetória no tempo, como um movimento de volta ao passado que faz constatar que, apesar de julgada como linguagem marginal, a tatuagem é uma linguagem que serve à Arte.


  1. A TATUAGEM E A HISTÓRIA

    1. Usos simbólicos

A tatuagem é sem dúvida um evento fascinante. Digo evento porque ela está presente como prática desde que o Homem apreendeu o mundo simbólico. Muito conhecida pela projeção social que os chamados “marginais” suscitaram, seja em grupos de mafiosos ou jovens rebeldes dos anos 1980, a prática está presente em inúmeras sociedades ao redor do globo. Atualmente é comum pessoas em papeis sociais de poder portarem pelo menos uma tatuagem, apesar de a prática ter sido, por muito tempo, majoritariamente atribuída como qualidade de marinheiros, prostitutas e desordeiros de toda a ordem. Não é do senso comum pensar a tatuagem como um processo simbólico, por vezes das castas mais elevadas, por outras, como condição documental de opressão e vigilância. Contudo, a verdade é que desde os primórdios da civilização humana o ato de marcar permanentemente o corpo revela uma conduta criativa da sociedade e do sujeito que se propõe a executá-la. Criatividade que está muito além de uma superficial atribuição de valores morais. A tatuagem é uma Arte que sobreviveu aos mais terríveis genocídios e aos mais grandiosos eventos históricos. O simbólico do tatuar-se vai além da marca pessoal e do desenho da moda. A tatuagem, sem dúvida, é um índice dos mais primevos a respeito de como o Homem se relaciona com o corpo.



De uma maneira sucinta, tatuar-se consiste em aplicar na pele pequenas perfurações, de modo que o pigmento presente no objeto perfurante preencha a cavidade epidermal. O primeiro registro da palavra em inglês tattoo se deve a um capitão do século XVIII, chamado James Cook, que em seu diário de bordo registrou o costume taitiano, aplicado, naquele contexto, a homens e mulheres que incrustavam de pigmento negro suas peles. Desta época são muitos os relatos de navegantes que hora ou outra se deparavam com a prática em diferentes lugares do mundo. As práticas e os porquês, mesmo que variantes, são indício de uma ação que muito provavelmente não tenha origem definida em um grupo apenas.  Segundo o pesquisador Toni Marques, a palavra tattoo tem origem na onomatopeia tatau, que imita foneticamente o ato de tatuar.
Os taitianos usavam uma espécie de pequeno ancinho de jardinagem, feito de cabo de madeira e um pente de osso humano que serrilhavam na borda para que ficasse dentada. Sobre o ancinho batiam com um pedaço de pau. Repetidos golpes de martelo no topo do ancinho produziam o tatau, que os nativos usavam para designar a ação. A raiz da palavra, ta, significa golpear, bater. (MARQUES, 1997)

Figura 2 Padrão tatuado


Figura 1 Localização dos padrões no corpo mumificado

As origens da tatuagem são remotas e, como dito anteriormente, múltiplas. A partir dos relatos de marinheiros e pesquisadores, a teoria de que a tatuagem não tem apenas um pai ou mãe ficou mais forte, pois ela “parece ser um dos mais plausíveis candidatos ao controvertido conceito de origem independente em várias partes do mundo” (DODD apud MARQUES, 1997, p.13). Acepcionada em rituais de iniciação, indício de pertencimento social a um determinado grupo ou emblema de importância, a inscrição de símbolos e desenhos na pele também foi empregue em rituais funerários. Ötzi, o homem de gelo, é o tatuado mais antigo que se tem notícia. O cadáver congelou nos alpes de Otztal, que faz fronteira com Áustria e Itália, e foi encontrado por dois alpinistas, em 1991. Ötzi possui várias tatuagens próximas às articulações, compostas por quatro linhas paralelas, feitas por incisões que medem de 20 a 25 milímetros.


Acredita-se que o desenho pigmentado por carvão foi feito através da fricção do material na pele. Ao que tudo indica, segundo a localização dos desenhos, o corpo de mais de 5.300 anos foi submetido a um tratamento de saúde assemelhado ao que hoje conhecemos por acupuntura. Câmara Cascudo, etnólogo brasileiro, conclui que a tatuagem, para os primitivos, assim como outras formas de modificação corporal:
(...) seriam originalmente manifestações de ritos religiosos, captação mágica pelo sacrifício cruento (dádiva de sangue), oblação dos deuses, oferenda aos mortos (aos antepassados como homenagem e aos defuntos recentes pela ambivalência do pavor e respeito), desejosa de proteção invisível e permanente; iniciação na puberdade, preparo psicológico para a guerra. (MARQUES apud CASCUDO, 1997, p. 19)
Konrad Spindler, chefe do instituto de Pré-História de Innsbruck, responsável pela investigação da múmia, concluiu que as tatuagens que o corpo de Ötzi apresenta não teriam a função de identificar o sujeito diante de uma tribo inimiga ou grupo ao qual este poderia pertencer, pois, uma vez cobertas pela roupa, muito provavelmente as linhas possuíam um caráter pessoal. Outro exemplar antigo é a múmia da princesa Amuet, que viveu em Tebas, Egito, por volta do ano 2000 a.C. “Amuet tem desenhos simples, abstratos, feitos de pontos e linhas (...) que, devido a sua localização, pode ter a ver com ritos de fertilidade”. (MARQUES, 1997, p.17). Acerca dos elementos apresentados por vias históricas, conclui-se que os motivos para a tatuagem vão além do caráter social humano. Há indícios de pirita de ferro, corantes e furadores nas cavernas pré-históricas, que, segundo Willian Caruchet, autor de Tatouages et tatoués, 1974, são elementos próprios da prática da tatuagem.

É na pré-história que o Homem começa a se aproximar do mundo simbólico e usar a simbologia como fonte de poder e de força. Não são apenas os bisões de Lauscaux que evidenciam a transição da intelectualidade do Homem e sua relação com o entorno. Todo o sistema de representação pré-histórica está configurado numa narrativa arquetípica. Quando o ser humano finalmente adquire o poder de concepção, ele pode não apenas modificar os sistemas definidos pela natureza, mas criar um sistema próprio através do olhar e da cognição, aplicando-o ao entorno, como é o caso da evolução da representação do corpo nas artes visuais.


Considerando as artes visuais como referência, (...) inicialmente a imagem do corpo nos era apresentada sob forma de desenhos, pinturas ou esculturas, (...) esses meios de representação tanto reproduziram imagens com alto grau de semelhança com a realidade, como também possibilitaram a criação de imagens que abstraíam ou deformavam, em menor ou maior grau, as formas humanas. O ato de abstrair ou alterar as próprias formas, que foi engendrado por diferentes motivos - desde suprir dificuldades técnicas existentes até ressaltar conceitos que vigoravam no contexto de sua execução -, além de permitir ao indivíduo uma visão simbólica de si e de seus semelhantes, retirou da representação do corpo o rigor do funcionamento orgânico. (FERREIRA, 2005)
O termo “Arte” deriva da palavra latina artus, que tem o sentido de algo que foi bem feito, através de uma atividade desenvolvida por uma habilidade. Atividade esta que por muito tempo foi ligada ao ofício, às artes manuais. Apenas a partir do século XIV começa-se a pensar numa diferenciação entre artistas e artesãos, diferenças que vão se acentuar a partir do século XV com a criação dos tratados de pintura e escultura, além da concepção artística realizada por meio de um projeto, que geralmente unia noções físicas, matemáticas e químicas, uma vez que era o próprio artista o responsável pela feitura de suas tintas. A Arte, por assim dizer, não indicava a natureza das coisas, mas falava à uma técnica que realizou algo no plano material. Platão, em sua célebre obra “A República”, nos direciona a pensar uma realidade imperfeita criada por meios das artes. Artistas, para ele, nada mais faziam do que criar cópias da cópia do mundo ideal, o mundo das Ideias.

É conhecida a passagem na qual o filósofo, o único que pode enxergar além, percebe que está preso numa caverna por onde entra um feixe de luz, que projeta nas paredes apenas a sombra do mundo de fora. Essa sombra condiz com o mundo dos homens, enquanto que o mundo “ de fora” é o mundo real, o mundo por inteiro, o mundo a que todos os conceitos e filosofias pertencem. Deste modo, sendo o nosso plano apenas uma mímese do mundo verdadeiro, a arte, produzida por mão humanas, seria a mímese da mímese - porque o artista só consegue projetar na tela, na música, ou na poesia aquilo que ele vê, ouve e vive no mundo mimético. Para o filósofo a arte, portanto, deveria ser banida da República, uma vez que se veste de realidade, mas corresponde a uma criação humana, corrompida pelo que o artista acha que é uma verdade.

A Arte realiza no plano material o que o artista concebeu no plano mental. Ainda que o termo “ artista”, como concebemos atualmente, tenha sido cunhado apenas no século XVIII com a teoria estética -  pois anteriormente ao Renascimento muitos escultores e pintores sequer assinavam suas obras -, a obra de arte se realiza como uma expressão, como uma experiência entre a vida do sujeito e a concepção intelectual do que ele produz no mundo. Essa produção material possui uma lógica de existir, um sentido para aquele que a concebe, portanto é um fenômeno perceptivo revelado.
O Homo aestheticus é alguém que “sente com os sentidos”, que está emaranhado nas teias do mundo a que percebe e que com ele se relaciona de múltiplas formas, marcadas pela afetividade, pela emoção, pela memória e, enfim, por todas as capacidades e dimensões que o constroem além da racionalidade. Não objetifica o mundo, mas o percebe poeticamente. E a poesia que permeia sua percepção deriva justamente de sua imersão no mundo. (MARIN: 2005, p.1).
A leitura que o Homem faz da natureza, a partir da experiência estética, decorre de seu encontro com o mundo natural e o mundo simbólico. A representação de animais e ações humanas nas cavernas denotam uma frequência de pensamento imensamente ligada a fundamentações metafísicas3 , assim como a escultura de Deuses e Homens em perfeitas dimensões. A essa percepção estética da vida se deve a leitura do mundo e dos sistemas simbólicos. É bem provável que o corpo tenha sido a primeira tela branca a que os Homens tenham recorrido para expressar a concepção estética do mundo, que está completamente atrelada à experiência. Não é difícil imaginar um caçador que porte várias cicatrizes, indício de luta, poder e vitória sobre as forças naturais.

Muito possivelmente o Homem primitivo tenha adotado marcar-se por padrões e símbolos para fazer de seu corpo um corpo pertencente ao espaço sagrado. A partir de pesquisas mais recentes, concluiu-se que a necessidade de tatuar o corpo ou marcá-lo, seja por brasa, cortes ou incisões, pode ter surgido para diferenciar um grupo de outro, ou seja, a necessidade de marcar o corpo aparece quando existe um outro, do qual é necessário se diferenciar. Como dito anteriormente, as mensagens transmitidas por inscrições e desenhos na pele também denotam uma hierarquia a qual o corpo em questão pode estar sujeito, além de registrar, como num documento carnal, sua vida, sua época e sua relação corporal com o entorno. A potência simbólica também está na incorporação destes signos, que, alinhados com a crença no desconhecido e nas forças naturais, realizam no corpo o conjunto representativo da vivência humana.



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