Cad. Pesqui vol. 39 no. 136 São Paulo jan./abr. 2009 Vigotski e Leontiev: ressonâncias de um passado



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Cad. Pesqui. vol.39 no.136 São Paulo jan./abr. 2009

Vigotski e Leontiev: ressonâncias de um passado

Para saber como um pensador criou e inovou em seu campo de atuação é importante conhecer a época em que viveu, o contexto social e histórico do mundo e de seu país, seus círculos de amizade e de colaboradores, enfim, sua trajetória de vida. A ciência é uma atividade estritamente humana. Suas criações refletem a busca por respostas às indagações de um determinado período. Existe uma relação íntima entre o contexto histórico e a elaboração de teorias. Seria impossível avaliar a evolução de um pensamento fora do tempo, fora dos fatos, sem levar em conta o zeitgheist.

Essa tarefa, todavia, quase sempre está longe de ser fácil, simples e isenta de riscos. Isso vale, especialmente, para aqueles que viveram e criaram em épocas de fortes turbulências históricas e sociais. Esse é o caso de Lev Semionovitch Vigotski (1896-1934). Sua vida e carreira apresentam-nos, segundo as palavras de Kozulin (1990, p.13), "uma notável e sugestiva qualidade literária, que amiúde lembra a vida dos heróis da literatura de Thomas Mann, Hermann Hesse ou Boris Pasternack", numa espécie de síntese dos temas fundamentais da vida intelectual do século XX.

Os primórdios de sua vida intelectual coincidem com a Revolução Socialista Russa e parte do período de sua produção acontece com o país imerso em uma terrível guerra civil. Ainda muito jovem, é acometido de tuberculose, doença de que vem a falecer em 11 de junho de 1934, portanto, com 38 anos incompletos. Em seu curto período de vida trabalhou intensamente, deixando bastante desenvolvidas as bases de uma nova vertente teórica para o estudo psicológico do homem, denominada, no início, psicologia instrumental e, posteriormente e até os dias de hoje, psicologia histórico-cultural.

Apesar de ser considerado, hoje, um pensador que revolucionou a psicologia, antecipando em muitos anos questões fundamentais que são examinadas na atualidade e de ser, efetivamente, quem estabeleceu as bases de uma psicologia genuinamente soviética, foi um estrangeiro de sua época. Estrangeiro em dois sentidos. Conforme aponta Kozulin (1990, p.14), "os textos de Vigotski têm muito pouco a oferecer em matéria de respostas definitivas a enigmas científicos. Sua habilidade mais característica era a de transformar o que pareciam respostas a esses enigmas em questões novas e mais profundas". Todavia, essas questões somente foram reconhecidas por seus contemporâneos, décadas depois de formuladas. Esse é um primeiro sentido dado à palavra estrangeiro. O segundo, diz respeito à difusão de seu trabalho em seu próprio país. Sua obra foi censurada e proibida na União Soviética entre meados dos anos trinta a meados da década de cinquenta do século passado, "o que significou que toda uma geração de psicólogos soviéticos cresceu com um conhecimento muito limitado de suas ideias" (Kozulin, 1990, p.16).

Não foi sem percalços que suas obras chegaram até os dias de hoje. Alvos de críticas contundentes, muitos trabalhos seus tiveram destinos dramáticos. A autonomia de sua produção científica em relação aos preceitos ditados pelo governo instituído em seu país refletiu-se na integridade de suas obras.

Em 1996, foi publicada na Rússia a biografia de Vigotski escrita por sua filha, Guita Lvovna Vigodskaia e por Tatiana Mikhailovna Lifanova. O livro traz muitos detalhes desconhecidos, até então, sobre a sua trajetória. Guita relata que, ao elaborar a bibliografia dos trabalhos de seu pai, no início dos anos 70, encontrou diversos números de revistas que publicaram artigos dele sem indicar as páginas correspondentes. Em seu lugar, havia um carimbo com os dizeres: "Retiradas de acordo com o Decreto sobre as deturpações pedológicas no sistema, do Comissariado do Povo para a Instrução".

Em 1955, Luria e Leontiev empreendem esforços para a publicação dos trabalhos de Vigotski. Mas a pedologia ainda pertencia ao vocabulário proibido. Então, Luria teve a ideia de substituir "pedologia" por "psicologia infantil". Assim foi feito e os textos começaram a ser editados e publicados.

Subsistindo, assim, na clandestinidade, não é de se estranhar que seus textos tenham sido violentados, tanto em seu país quanto fora dele. Muito do que chegou até nós brasileiros entre, aproximadamente, 1960 e o final do século passado, proveniente principalmente dos Estados Unidos, foram textos resumidos, reformados, adaptados, adulterados, o que, é claro, acarreta distorções e até mesmo deturpações das ideias do autor. Além do mais, isso torna penoso e difícil o trabalho de organização e publicação da obra completa de Vigotski, dada a necessidade de se realizar pesquisas minuciosas para que se possa fazer a destilação, separando o original do corrompido.

A biografia de Vigotski (Vigodskaia, Lifanova, 1996) é um registro importante para quem se dedica aos estudos sobre a teoria histórico-cultural. Os detalhes da trajetória do cientista estão descritos e fundamentados com documentos históricos, periódicos da época, cartas, bilhetes, relatos, entre outros. Por ter sido escrito pela filha de um pensador do porte de Vigotski, o livro não escapa do viés emotivo-afetivo, o que enriquece as páginas de uma vida breve, mas intensa. Além disso, ela traz, pela primeira vez, uma completa relação bibliográfica de todas as obras de Vigotski.

Do mesmo modo, obra, vida e carreira desse pensador são também cercadas de enigmas e informações desencontradas. Se até em relação a um dado simples como a cidade em que nasceu, há discrepâncias – diz-se que nasceu em Gomel (Kozulin, 1990, p.24), mas se diz também que nasceu em Orsha, cidade próxima a Minsk, capital da Bielo-Rússia (Luria, 1979; Luria, 1984; Levitin, 1980) –, é de se esperar que elas existam em aspectos mais fundamentais para a compreensão de suas ideias. Costuma-se afirmar que a carreira científica de Vigotski inicia-se em 1924, após a apresentação de um trabalho científico no Congresso Russo de Pedologia, Pedagogia Experimental e Psiconeurologia (2º Congresso Russo de Psiconeurologia), realizado em Petrogrado, de 3 a 10 de janeiro. Todavia, há autores que discordam dessa afirmação (Blanck, 2003, Iarochevski, 2007). A filha Guita transcreve trecho de um certificado, expedido pelo Departamento da União dos Trabalhadores para a Instrução da cidade de Gomel, apresentado por Vigotski para fins de sua contratação pelo Instituto de Psicologia de Moscou, no qual se lê:

Ao longo de 5 anos, L .S. Vigotski lecionou nas escolas de 1º e 2º graus, em escolas técnicas, em escolas profissionalizantes de gráficos e metalúrgicos, nas escolas noturnas de Instrução Política para adultos, nos cursos de Educação Socialista de preparação de trabalhadores para a educação pré-escolar, nos cursos de verão de qualificação dos trabalhadores das escolas, na Faculdade para Operários, de Gomel, e em escolas... (Vigodskaia, Lifanova, 1996, p.68, tradução nossa)

Iarochevski, por sua vez, apresenta uma declaração escrita do próprio punho de Vigotski, que contém as seguintes informações:

Sobre as atividades científicas e de pesquisa: iniciei meu trabalho científico em 1917, após a conclusão do curso universitário. Organizei um gabinete de psicologia na Escola Técnica de Pedagogia onde realizei atividades de pesquisa. (Iarochevski, 2007, p.47)

No livro de Vigodskaia e Lifanova, no terceiro capítulo, denominado "Com os olhos da filha", é relatado um fato, pouco esclarecido, que diz respeito ao "rompimento" entre Vigotski e Aleksei Nikolaievitch Leontiev. Aí se publicam, pela primeira vez, trechos de uma carta de Vigotski dirigida a Leontiev. Guita reproduzindo relatos de sua mãe, Rosa Smekhova, conta que Vigotski respondia a uma carta de Leontiev, que este redigira, "parece que de Kharkov" (p.316), endereçada a Luria. Conforme consta no livro, o teor da carta de Leontiev "parece" que continha algo do tipo: "Vigotski é uma etapa vencida, o ontem da psicologia", propondo a Luria trabalhar sem Vigotski. Inicialmente, Luria teria concordado, mas depois arrependeu-se e mostrou a carta a Vigotski, que vivenciou tudo com muito sofrimento, sentindo-se traído1.

Quando escrevia a biografia do pai, Guita Lvovna teve acesso aos arquivos da família de Leontiev onde estão guardadas cartas de Vigotski para Leontiev. Ela transcreve trechos de duas cartas, uma datada de 11 de julho de 1929 e outra de 2 de agosto de 19332. São dois documentos raros e importantes para os interessados em conhecer a vida de Vigotski. A carta de 1933 traz informações a respeito de seu suposto "rompimento" com Leontiev. Porém, a carta deste último, que teria desencadeado a resposta de Vigotski, era dada como desaparecida até a data da publicação do livro de Guita.

Tradicionalmente, no dia 5 de fevereiro, comemora-se o aniversário de Leontiev. Nessa ocasião, seus amigos se reunem para homenageá-lo. Em 2002, a filha adotiva de Luria, Elena, compareceu a uma dessas comemorações, levando um documento precioso que havia encontrado nos arquivos do pai: a carta de Leontiev a Vigotski que era dada como desaparecida. Essa carta foi entregue ao filho e ao neto de Leontiev, e datava de 5 de fevereiro de 1932. Estaria aí a chave para desvendar o "rompimento", cercado de mistérios, a que Guita se refere?

Aleksei Alekseevitch e Dmitri Alekseevitch, respectivamente, filho e neto de Aleksei Nikolaievitch Leontiev, publicaram um artigo em que transcrevem e comentam as cartas de Vigotski e Leontiev. Além disso, descrevem o contexto histórico, as circunstâncias e alguns fatos em torno da relação entre Leontiev e Vigotski. Apesar de elucidar alguns acontecimentos envolvendo os dois estudiosos, muitos fatos ainda desafiam a nossa imaginação. E mais importante do que isso, as cartas transcritas no artigo revelam a profundidade do diálogo entre os dois pensadores, um verdadeiro debate de ideias. Vale também ressaltar que não há ainda uma apreciação da carta encontrada, de Leontiev a Vigotski, por parte de Guita Vigodskaia. O artigo dos Leontiev foi publicado, parcialmente, no livro de Leontiev, Leontiev e Sokolova (2005, p.48-54).

É esse importante documento, cuja tradução e publicação foram autorizadas pelo professor Dmitri Alekseevitch Leontiev, que apresentamos a seguir para todos os que se interessam pela história da psicologia soviética.

Além disso, transcrevemos trechos da entrevista que realizamos com o professor Dmitri, no Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou. Os trechos selecionados dizem respeito ao episódio central tratado neste texto.

1. O mesmo episódio é relatado por Guillermo Blanck em prefácio à edição brasileira de Psicologia pedagógica (Vigotski, 2003).
2. O texto da carta aqui referida, de 2 de agosto de 1933, é o mesmo que os Leontiev transcrevem em seu artigo e indicam ser datado de 7 de agosto de 1933. Para comparar, consultar Vigodskaia e Lifanova (1996, p.317) e o documento traduzido adiante.

ARTIGO DOCUMENTAL

O mito do rompimento: A. N. Leontiev e L. S. Vigotski, em 1932



A.A.Leontiev1*; D.A.Leontiev2*

Um dos pontos mais discutidos e dolorosos da história da psicologia russa é a separação que ocorreu entre L. S. Vigotski e A. N. Leontiev e que refletiu na partida deste para Kharkov, onde ficou por muitos anos. Em Kharkov, A. N. Leontiev liderou concomitantemente vários subgrupos científicos e iniciou, junto com um grupo de jovens psicólogos que, posteriormente, recebeu o nome de Escola ou Grupo de Kharkov, pesquisas que levaram à formação das bases teóricas e experimentais da teoria psicológica geral da atividade, relacionada primeiramente ao nome de A. N. Leontiev.

A partida em si é um fato que apresenta pelo menos duas questões que são ativamente debatidas na literatura histórico-científica e memorialística.

A primeira questão é histórica; diz respeito aos motivos e às raízes dessa separação e indaga se ela foi um rompimento ou apenas um conflito. Os testemunhos são contraditórios e mitológicos. O próprio A. N. Leontiev, homem reservado, nunca mencionou qualquer divergência. A. R. Luria, em suas memórias, também nada menciona, assim como sua filha, Elena. O livro de Elena1a, por força das circunstâncias históricas, é muito mais detalhado do que a autobiografia semioficial do próprio Aleksandr Romanovitch2a. O mito mais amplamente difundido diz que os kharkovtchane3* recusaram determinantemente a herança teórica de Vigotski e se posicionaram contra a teoria "histórico-cultural". Segundo o mito, no início da década de 1930, surgiu uma oposição científica e pessoal entre Vigotski e o Grupo de Kharkov, liderado por Leontiev. Sob a luz desse mito, a partida de A. N. Leontiev é tratada emotivamente como traição. Falamos de mito porque não existem quaisquer provas, claras ou veladas, de que houve inimizade ou competição entre Vigotski e Leontiev.

Particularmente, nesse espírito mitológico, a história do relacionamento entre Lev Semionovitch e Aleksei Nikolaievitch está descrita no livro sobre Vigotski, de G. L. Vigodskaia e T. M. Lifanova. Guita Lvovna conta que, segundo a mulher de Vigotski, provavelmente, no final de 1933 ou bem no início de 1934, Aleksei Nikolaievitch escreveu de Kharkov uma carta a Luria, que

...dizia algo do tipo que Vigotski é uma etapa ultrapassada, é o ontem da psicologia e propunha a Aleksandr Romanovitch trabalhar sem Vigotski. Aleksandr Romanovitch de início concordou, mas depois, pelo visto, pensou melhor, foi até meu pai (que nessa época não estava muito bem de saúde) e mostrou-lhe a carta. Vigotski sofreu muito com o ocorrido, tomando a atitude de Leontiev não só como uma traição pessoal, mas como uma traição em relação ao trabalho em comum e lhe escreveu uma carta agressiva... Penso que o sofrimento foi ainda maior quando Vigotski sentiu que tudo estava sendo feito não às claras, mas pelas costas... Não sei se meu pai e A. N. Leontiev encontraram-se após esse episódio, mas sei que a relação nunca foi restabelecida...3a

Esse relato é incrível por vários motivos. Primeiramente, o caráter das relações de Vigotski com seus alunos é muito claro, pelo menos quanto ao que se vê em sua correspondência com Leontiev, o que tornaria impossível esse tipo de atitude atribuída a Leontiev. A ênfase da carta está exatamente no desejo, repetido várias vezes, de conversar sobre tudo, colocar as cartas na mesa, por mais doloroso que fosse. Prosseguindo, é improvável que o convite de Leontiev para trabalhar sem Vigotski tivesse sido endereçado exatamente a Luria: na carta citada, Aleksei Nikolaievitch critica severamente Aleksandr Romanovitch, principalmente no âmbito da relação deste último com a "psicologia cultural" (como se percebe pela carta de Vigotski, ele também compartilhava dessa avaliação). Finalmente, essa versão não se comprova não apenas pelas cartas transcritas mais adiante, incluindo as de Vigotski, como pelo desenrolar dos acontecimentos de que participaram Vigotski, Leontiev e Luria.

A segunda questão é puramente teórica: ainda hoje não há uma opinião única sobre até que ponto há continuidade entre as teorias de Vigotski e Leontiev. As bases teóricas da teoria da atividade, ou do enfoque da atividade, de A. N. Leontiev, inauguradas com os trabalhos realizados em Kharkov, foram formuladas, em primeira versão, no fim da década de 1930, quando Vigotski já havia falecido. Por isso, é impossível saber a opinião dele. As opiniões de Leontiev e de Luria eram idênticas: o enfoque da atividade não é uma teoria nova, mas um desenvolvimento natural das ideias de Vigotski; os dois, até o final de suas vidas, consideravam Vigotski o fundador e líder daquela corrente científica a que também se afiliavam. No entanto, o ímpeto de "subtrair" da teoria histórico-cultural o enfoque da atividade, obtendo-se como resultado "residual" o "verdadeiro" Vigotski, ainda é regularmente encontrado nas publicações contemporâneas.

A questão esbarra nos critérios segundo os quais julgamos se há ou não continuidade entre as duas espirais do pensamento teórico. Na história da ciência não são raros os casos em que pontos de vista teóricos, desenvolvidos até mesmo por um único cientista em períodos diferentes da vida, são tão diversos que, sem saber que eles pertencem à mesma pessoa, pode-se notar entre eles total incompatibilidade. Ou, ao contrário: numa análise detalhada, pode-se encontrar algo em comum em dois autores de campos ideológicos e conceituais opostos. Em todo caso, nunca foi objeto de discussão o seguinte: ao introduzir muitas ideias novas, princípios e conceitos teóricos ao longo do processo de desenvolvimento de seus pontos de vista, ao alterar muitos pontos fortes, A. N. Leontiev não repeliu e nem contestou nada nos pontos de vista de seu mestre. As ideias de Vigotski poderiam ter sido desenvolvidas em outras direções, diferentes da teoria da atividade, porém ninguém conseguiu fazer isso em uma escala que pudesse, pelo menos, ser comparada com o enfoque da atividade. Por isso, questionar se foi de maneira "correta" que Leontiev assimilou e desenvolveu as ideias de Vigotski não faz sentido.

Todos os pingos nos "is" podem, portanto, agora, ser colocados graças à carta de Leontiev a Vigotski, encontrada nos arquivos de A. R. Luria, aqui transcrita na íntegra. A carta foi escrita antes da partida definitiva de Leontiev para Kharkov; sabia-se da sua existência, mas ela era considerada desaparecida. Por isso, é difícil expressar nossa gratidão à E. G. Radkovskaia4a, herdeira e guardiã dos arquivos de A. R. Luria, que a entregou aos autores deste texto (a preparação dos originais para publicação foi realizada por A. A. Leontiev e D. A. Leontiev). Isso aconteceu 70 anos após a carta ter sido escrita, exatamente, em 5 de fevereiro de 2002, no dia do 29º aniversário de Aleksei Nikolaievitch Leontiev.



Eis o pano de fundo histórico-científico da época. O final dos anos 20 e o início dos anos 30 foram marcados por uma guinada negativa na ciência, na cultura e na educação em geral. Os parafusos ideológicos começavam a ser "apertados". Nas ciências humanas isso se refletiu, particularmente, no surgimento de cientistas e de correntes científicas declarados como os unicamente marxistas (Marr, na linguística; Pokrovski, na história; Fritche, na crítica literária; Matsa, na crítica de arte). Os outros (incluindo os grandes linguistas Cherb e Polivanov, os excelentes críticos literários Eikhenbaum, Jirmunski e Chklovski e muitos outros) foram submetidos à crítica aniquiladora e, de tempos em tempos, a repressões. Na educação, teve fim a "escola única do trabalho", criada com os esforços de Krupskaia e Lunatcharski sob uma base conceitual elaborada por Blonski e Vigotski. Surgiu uma série de decretos do Comitê Central do Partido Comunista da Rússia (dos bolcheviques4*) – CC PCR(b) –, que retrocediam a escola soviética ao "ideal" do ginásio pré-revolucionário. Na psicologia ocorreu a discussão sobre a "teoria da reactologia", que resultou na destituição de K. N. Kornilov do cargo de diretor, em 1931. Foram veementemente destroçadas, do ponto de vista ideológico, a reflexologia e a psicotécnica de Bekhterev (todos os seus líderes em seguida sofreram repressão), o "behaviorismo" de Borovski e, finalmente, a escola histórico-cultural de Vigotski. Porém, a guinada principal foi feita na filosofia. Até 1930, a luta contra o materialismo vulgar era vencida pelo materialismo dialético, representado pelo chamado Grupo de Deborin, na direção dos estudos filosóficos na URSS (A. M. Deborin era diretor do Instituto de Filosofia). Mas, em dezembro de 1930, I. V. Stalin, em pessoa, discursou no núcleo partidário do Instituto do Professorado Vermelho e carimbou o Grupo de Deborin com a famosa etiqueta de "idealistas dos mencheviques". Um mês depois, foi publicado o decreto devastador do CC "Sobre a revista Sob a Bandeira do Marxismo". Chegaram ao poder os filosoficamente incompetentes e vulgarizadores diretos (que não tinham vergonha de tomar os argumentos dos materialistas mecânicos por eles mesmos severamente criticados), liderados pelos futuros catedráticos M. B. Mitin e P. F. Iudin. O Grupo de Deborin foi aniquilado, uma parte fisicamente (B. N. Guessen, Ia. E. Sten), outra parte moralmente (o próprio A. M. Deborin). Vigotski era próximo do Grupo de Deborin por sua visão filosófica e, com frequência, referia-se a ele em suas publicações. E mais, no final dos anos 20 e início dos 30, começaram a ser fechadas instituições científicas e de formação, às vezes, com escândalos políticos, onde trabalhavam tanto Vigotski quanto Leontiev. Por exemplo, concomitantemente, surgiu uma nota de "porão", em dois principais jornais, sobre o Instituto Russo Estatal de Cinema, com o título ameaçador "O ninho dos idealistas e trotskistas". O esteio do grupo de Vigotski, a Academia de Educação Comunista, em 1930, caiu também em desgraça, e, em 1931, foi "deportada" para Leningrado e passou a ser denominada "Instituto". Ao mesmo tempo, Leontiev foi demitido da Academia em 1º de setembro de 1931. Não havia condições nem de pensar em trabalhar no Instituto de Psicologia, apesar de as ideias de Vigotski e sua escola terem sido utilizadas nos programas do Instituto com a saída de Kornilov (esse assunto, particularmente, é abordado na carta de A. N. Leontiev). Ao livro de Leontiev Desenvolvimento da memória, publicado um ano antes, teve de ser anexada uma autocrítica ideológica em tom de retratação.

Vigotski, Luria e Leontiev, começaram a procurar local de trabalho onde pudessem dar continuidade ao ciclo de pesquisas iniciado. Tiveram sorte: os três receberam convite de Kharkov, naquela época, a ex-capital da República Socialista Soviética da Ucrânia, remetido pelo Comissariado de Proteção da Saúde (Narcomzdrav), S. I. Kantorovitch. O Narcomzdrav da Ucrânia resolveu criar, no Instituto de Psiconeurologia da Ucrânia (que mais tarde, em 1932, passou a ser a Academia Ucraniana de Psiconeurologia), o setor de psicologia ("setor psiconeurológico"). O cargo de diretor do instituto foi oferecido a Luria, o de diretor do Departamento de Psicologia Experimental (que mais tarde passou a se chamar Departamento de Psicologia Geral e Genética) foi oferecido a Leontiev. Oficialmente, Aleksei Nikolaievitch foi admitido no cargo, em 15 de outubro de 1931. Em novembro de 1931, para o cargo de diretor da Cátedra de Psicologia Genética do Instituto Estatal de Formação de Quadros para o Narcomzdrav da Ucrânia foi admitido Vigotski5a, porém, diferentemente de Luria e Leontiev, ele não se mudou para Kharkov, apesar de aparecer lá com frequência, fazendo palestras, dando aulas, fazendo provas como estudante do Instituto de Medicina (no qual ingressou no mesmo ano de 1931). Aliás, a mudança para Kharkov foi discutida várias vezes em sua família; falou-se até sobre a troca do apartamento em Moscou por um em Kharkov6a. Porque a mudança não se realizou permaneceu um fato desconhecido. Segundo Luria, o problema foi que Vigotski (e Luria) não conseguiram estabelecer boas relações com a direção da Academia de Psiconeurologia7a. A. N. Leontiev relatou, no entanto, que a Vigotski foram oferecidas condições magníficas para a mudança e os motivos da recusa de Vigotski permaneceram incompreendidos.

Seja como for, em fevereiro de 1932, de uma forma ou de outra, os três ligaram as suas atividades a Kharkov e ficaram na estrada entre as duas cidades. No entanto, somente Leontiev resolveu mudar-se para Kharkov, transferindo para lá o centro de suas pesquisas. Provavelmente, tudo relacionava-se às diferentes situações de vida dos três. Vigotski estava com 35 anos, suas ideias já recebiam reconhecimento profissional. Vários livros de sua autoria foram publicados: Psicologia pedagógica, Pedologia do adolescente, Estudos sobre a história do comportamento (em coautoria com A. R. Luria). Vigotski sofria com a tuberculose e estava prevendo que lhe restava pouco tempo; então, além de todas as outras responsabilidades, trabalhou intensamente no livro Pensamento e linguagem. Leontiev, no dia em que escreveu a carta, tinha completado 29 anos. Os dois ou três últimos anos, passara mergulhado na teoria históricocultural de Vigotski. Seu livro Desenvolvimento da memória havia sido publicado recentemente. Nele, Leontiev apresentou o conhecido "paralelograma do desenvolvimento" – a lei de substituição da mediação externa das funções psíquicas pelo seu processo interno de desenvolvimento – o que representou a confirmação mais séria, por meio experimental, da teoria histórico-cultural. O ciclo de pesquisas estava terminado, o livro fora publicado; era preciso decidir o que fazer dali para frente.

Sobre o que aconteceu posteriormente, a carta, escrita antes da partida para Kharkov, fala por si.

Ela representa não só um documento histórico ímpar, mas também existencial. Até mesmo o leitor distante da psicologia, que nada conhece dos percalços de sua história em nosso país e que queira pular as partes incompreensíveis, ficaria impressionado com o relato de um homem forte e singular que, num momento difícil de escolha, tomou decisões a respeito não só de sua vida pessoal, mas de todo o trabalho que era o sentido de sua vida. A escolha foi feita conscientemente e com total responsabilidade, levando em consideração condições completamente imprevisíveis. A sorte estava lançada; o Rubicão, vencido – esse é o sentido da carta. Pelos menos três níveis podem ser nela destacados: o nível da personalidade, no momento de uma escolha existencial, o das relações interpessoais e o nível do desenvolvimento das ideias. E é assim que a carta deve ser lida.

Leontiev começa a carta, dizendo que a escolha fora feita: a passagem estava comprada e o telegrama enviado. No dia seguinte, ele estaria cortando o nó que teimava em não se desfazer. A carta foi escrita com uma letra firme e com abundantes destaques, o que era característico de Leontiev. Ele não apenas sublinhava as palavras que considerava importantes, mas as destacava, passando várias vezes a caneta por cima delas (assim como nas publicações são destacadas as palavras em negrito). Percebe-se que a carta não foi redigida de forma impulsiva, foi bem pensada e sofrida. Leontiev constata: nosso trabalho comum está em crise. Vigotski, como evidencia a carta, não queria travar a conversa. Leontiev não se apressa em reprová-lo: no final da carta, admite a possibilidade de que Vigotski estivesse certo, antecipando com isso um determinado desfecho da situação. Aceita isso como um fato que deve levar em conta ao tomar sua decisão. Uma das características peculiares desse documento é a nítida diferenciação que Leontiev faz entre o que pode fazer sozinho e o que não depende dele, o desejado e o real. Ele entende a implacável lógica da vida e, ao entrar na luta por seus valores e seu trabalho, prepara-se para o pior. Leontiev fala da possibilidade de ter que deixar a psicologia, evidentemente sem desejar isso, assim como sobre o inevitável, mas não desejado rompimento com A. R. Luria (constata-se pela carta, a dor que lhe provoca esse assunto), a quem reprova por uma série de erros, embora o tom seja de amizade. Sabemos que, felizmente, nada disso aconteceu: Leontiev não teve que deixar a psicologia e sua relação de profunda amizade com Aleksandr Romanovitch Luria passou pelo teste de resistência.

Leontiev toma a si a responsabilidade por tudo e o texto da carta deixa transparecer o peso em suas costas. A preocupação era que, à medida que as ideias da psicologia cultural ou instrumental (como ela se chamava antes) de Vigotski eram divulgadas, essa psicologia era corroída. O próprio Vigotski não se opunha a isso e Luria, que gostava e tinha inclinações para coisas ecléticas, até colaborava. Leontiev não se contrapunha a Vigotski e não há na carta uma palavra sequer que indique que tivesse qualquer outra alternativa; ao contrário, ele se refere a cartas que Vigotski lhe escrevera, três anos antes, reprovando-se pelo distanciamento dos próprios princípios. Leontiev com Vigotski de 1929; Leontiev contra Vigotski de 1932. Leontiev revela-se na carta um grande partidário de Vigotski, enquanto o próprio Vigotski, plus royale que le roi8a, acusa a si mesmo de incoerência. Ao contrário, Leontiev desconfia que Vigotski havia amadurecido a decisão de se separar. O "nós" soa na carta, desde as primeiras linhas até o final, unindo, além de Vigotski, Leontiev e Luria, também o núcleo do futuro Grupo de Kharkov; são lembrados A. V. Zaporojets, L. I. Bojovitch e N. G. Morozova. Leontiev refere-se a todos com carinho ("um grupo maravilhoso, fiel e que resistiu à prova de precisão e firmeza"), porém com um sentimento de responsabilidade madura ("Eles nos incumbem. É impossível que não passem na prova!"). Ele chama Vigotski, sublinha várias vezes que não apresenta nenhuma reclamação, diz que não sabe como trabalhar sozinho, sem Vigotski, mas sente que está tomando a decisão certa do ponto de vista estritamente pessoal, ou seja, dos sentidos e dos valores que unem os três. As relações pessoais, continua Leontiev, referindo-se novamente à carta de Vigotski de três anos antes, são secundárias, elas seriam resolvidas com a resolução do problema principal, o problema das ideias.

As reflexões teóricas e metodológicas de Leontiev sobre a psicologia cultural formam um bloco separado e interessante na carta. Boa parte delas se ocupam das bases da teoria filosófico-metodológica que eram características de Leontiev. Dos inúmeros problemas concretos, antes de mais nada, aparece o problema do psíquico e do psicológico, que alguns anos mais tarde se transformaria no objeto de sua tese de doutorado. O problema dos sistemas funcionais e das ligações interfuncionais tornou-se central para toda a escola entre os anos 40 e 60. Assim como o papel-chave do sinal. E, finalmente, o problema da vontade e da intenção e, no contexto do problema do desenvolvimento, o da personalidade como de seu sujeito, ou seja, "o problema do desenvolvimento psicológico ativo, o problema da cultura psicológica da personalidade (liberdade!) e, a partir disso, os problemas éticos mais imediatos". Essa apresentação da questão soa nova ainda hoje. Mas esses problemas logo entraram no país para a "lista negra" e é somente em cadernetas de anotação e em frases separadas, que irromperam nas publicações dos seus últimos anos de vida, que encontramos o problema que preocupava Leontiev: a personalidade não como objeto das influências formativas, mas como um sujeito ativo e responsável pelo próprio desenvolvimento, a personalidade com a qual ele mesmo se revela nessa carta.

A carta termina no nível existencial. O medo diante do futuro, a sentnça, a condenação à solidão, o sentimento de uma nova prova pela qual deveria passar em Kharkov. E o sentimento de alívio nas últimas linhas; apesar do peso, estava feliz por tê-la escrito e livre porque fez o que deveria ter sido feito. Isso porque o destino da psicologia cultural estava acima de tudo.

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