Ator-rede e sociologias do sul: possíveis convergências para uma sociologia não exemplar



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Ator-rede e sociologias do sul: possíveis convergências para uma sociologia não exemplar
Marcelo C. Rosa

Universidade de Brasília


Na última década movimentos teóricos alternativos conhecidos como subalternos, pós-coloniais e de-coloniais passaram a ser identificados também com o rótulo de “teorias do sul” (R. Connel, J. & J. Comaroff, B. S, Santos). Variando bastante em termos do sentido atribuído ao termo teoria, essas sociologias parecem ter como marca central a rejeição dos parâmetros que permitem às ciências sociais classificar e hierarquizar seus objetos. Em certo sentido, há em comum nestes novos movimentos a constatação de que as teorias sociológicas predominantes assumem noções de tempo e de espaço que são essenciais para a ancoragem, hierarquização e diferenciação de objetos como modernidade, reflexividade, agência, entre outros. O resultado fundamental desse forma mainstrean são ordenamentos em fases, níveis, sujeitos e objetos mormente pensados por meio de derivações e exemplaridades de um processo ideal típico purificado. São os usos, no mais das vezes depreciativos, desses ordenamentos que dão sentido político e epistemológico ao rótulo “do sul” e às suas reações críticas.

Neste texto defendo a posição de que essas novas teorias, ganhariam mais rendimento sociológico (e não apenas crítico) se estivessem associadas ao movimento da teoria do ator-rede – ANT. Em minha leitura, a ANT propõe, especialmente em seus textos mais recentes (Law, 2004 e Latour, 2005 e 2012), uma transformação no objeto e no método da sociologia que permitiriam a inclusão menos hierárquica e estruturada de novos actantes e coletivos cuja existência é obliterada nas narrativas canônicas. Valendo-me da linguagem desses autores, me parece que esse encontro permitiria um contraste profícuo entre as concepções estabilizadas de ciências sociais (que estão tanto no norte quanto no sul) e uma nova perspectiva que tem por dever metodológico o trabalho contínuo de construção de novos coletivos ou sociedades.

Se a “sociologia do sul” reclama dos limites da forma e do conteúdo da sociologia tradicional, a teoria do ator-rede fornece alternativas teórico metodológicas para expandi-los permitindo que novos actantes e coletivos ganhem existência digna.

A esta conexão entre a crítica da forma estabilizada da sociologia com objetos emergentes e não hierarquizados que dão margem a novos métodos descritivos chamo de sociologia não-exemplar.



Introdução
A primeira coisa que gostaria de dizer neste texto é que os recentes trabalhos que utilizam no âmbito das ciências sociais o termo “teorias do sul” me parecem instigantes na tentativa de renovar o pensamento sociológico. Porém, isso não significa que ao longo das páginas eu pretenda defender o “sul” geográfico como uma postura epistemológica, ou ainda que considere necessariamente as sociologias do sul como uma alternativa capaz de alterar as estruturas de nossa disciplina. A proposta que pretendo seguir é de um exercício que aceite, ao menos hipoteticamente, a viabilidade dessas contribuições procurando oferecer-lhes alternativas de legitimação teórico-metodológicas em um contexto de disputa e cooperação com outros modelos.
As “teorias dos sul”, de meu ponto de vista, são sobretudo uma operação política da teoria sociológica que visa criticar o modo colonial por meio do qual a disciplina se estabeleceu mundo afora e, principalmente sobre suas consequências quando adaptadas para fora da euro-américa1. Por isso, creio ser possível incluir neste grupo também as chamadas teorias pós-coloniais ou decoloniais. E é nestes termos – operação política - que pretendo realizar o diálogo entre elas e as chamadas teorias do ator-rede (ant). Em minha leitura e na opinião de alguns de seu autores-chave (a saber: John Law, Ana Marie Mol, Bruno Latour, Hellen Verran) esse movimento teórico nascido nos estudos sociais da ciência é uma resposta política ao mesmo modo estabelecido de se fazer sociologia criticado pelas teorias do sul no qual imperam as narrativas da modernidade/moderno. Nesse sentido, norte e sul são aqui rótulos que nos ajudam a compreender formas (pre)dominantes e (pre)dominadas de se pensar as ciências sociais em todas as partes do mundo e que podem, mesmo que em um contraste rápido, contribuir para mudanças interessantes no modo de pensar a teoria sociológica em uma escala global.
O diálogo entre estas duas correntes não é algo completamente inédito. Yenia (2007), levantou algumas similaridades entre a teoria decolonial e as teorias do ator-rede, principalmente em relação às suas crítica à modernidade. Para a autora uma aproximação entre os dois grupos seria fundamental para uma reconstrução dos objetos das ciências sociais. Go (2013), por sua vez, também aproxima essas teorias por elas oferecerem uma alternativa às análises da modernidade. Mais especificamente, para Go ambas as teorias partem de enfoques relacionais que permitem uma reconstrução mais simétrica e menos difusionista do colonialismo epistemológico na disciplina. Contribuições dos próprios autores ligados à teoria do ator rede também apontam para similaridades sociológicas e políticas entre sua proposta e a da literatura “do sul”, sendo a principal delas o volume extremamente limitado das experiência sociais por elas cobertas (Verran, 2002; Law, 2011; Latour, 2012 e 2001).
Neste texto, pretendo trabalhar uma hipótese específica sobre a possível relação entre esses dois movimentos: considero que há nas teorias do sul uma espécie de déficit sociológico no sentido de que estes textos apresentam críticas e evidências substantivas da dimensão colonial da modernidade (nas suas dimensão institucionais e subjetivas), mas não oferecem aos seu leitores sociólogos um caminho muito claro para se tratar de objetos que não sejam mero resultado do conjunto capitalismo/modernidade/ciência/colonialidade. Ou seja, de gostaria de discutir o fato de que tais teorias sempre apontam para a existência de um Outro (que está fora das narrativas da ciência social euro-americana), porém só conseguem justificar a existência desse Outro como um produto do processo ao qual criticam e não por
Como fazer pesquisa sociológica levando a sério linguagens e formas de narrar que estão fora dos modelos acadêmicos canônicos como no caso de alguns autores do sul ou dos aborígenes australianos apresentados por R. Connell (2005)? Como incluir em nossas análises outras formas epistemológicas não científicas e não modernas como sugerido por Boaventura Santos (2009)? Como lidar de forma justa com sociedades onde imperam a desordem e o caos tal como Comaroff and Comaroff (2011) apresentam a África contemporânea?2
A alternativa provisória que pretendo apresentar a seguir caminha no sentido de que respostas mais convincentes aos questionamentos acima dependem da incorporação de duas premissas centrais da teoria do ator rede: a) de que seria necessário reconstruir o social em cada pesquisa (ou seja de que o social não é uma força definida ou estabilizada) (Latour, 2005); b) de que é necessário incluir no escopo sociológico uma nova “politica das ontologias” (Mol, 1999 e Law and Benshop, 1997). O ponto central é considerar, como sugere Law (2004), que a construção de um “social” renovado e ampliado depende do desenvolvimento de métodos adequados que façam com que certas características que estejam ao sul da teoria ganhem legitimidade. Sendo assim, não seriam os métodos uma ferramenta para ver o que já existe, para se aplicar uma dada teoria, mas uma maneira de construir o que ainda não tem forma, agência, ontologia e etc no âmbito de nossa disciplina.

Teorias do Sul – teorias ainda sem método



AQUI FALAR DOS AUTORES CITADOS PELA CONNEL: DEPENDENCIA, IRAN, INDIA, SUBALTERN
Nesta seção gostaria de apresentar de forma breve os argumentos dos autores que no debate erguem a bandeira das sociologias, teorias ou epistemologias “do sul” como uma alternativa aos modelos sociológicos estabilizados. De forma geral estarei atento aos textos que buscam usar o termo “sul” de forma específica, mas em certos momentos lançarei também mão de algumas contribuições dos chamados autores pós e decoloniais que não usam diretamente o termo, pois me parece que todos tendem a apontar para a necessidade democratização e ampliação de nossos modelos teóricos.
O argumento central do influente livro de R. Connell (2005) se assenta sobre os limites da generalização da produção teórica (sociológica) de certas partes do Estados Unidos e da Europa para todo o mundo. Essa generalização caminharia pari-passu com a expansão da própria vida social destas regiões para as demais partes do mundo. De forma direta, a autora associa a produção da teoria sociológica como uma versão acadêmica de imperialismo político e científico.
Se as práticas politicas imperialistas tenderam a dominar as sociedades do sul pelo seu rebaixamento moral, civilizacional e tecnológico ou simplesmente ignorando a existência de vida social qualificada nas colônias, a sociologia produzida na Europa e nos Estados Unidos (em geral) parece ter se valido das mesmas ferramentas. O conteúdo civilizador-imperialista da sociologia se revelaria de duas formas básicas: a) pela transformação dos modos de vida euro-americanos em padrões e medidas teóricas da boa vida social em todo mundo (negligenciando os efeitos do colonialismo e da escravidão para a construção dessa boa vida); b) pela completa e deliberada falta de diálogo das teorias sociológicas euro-americanas com a produção do sul, seja na forma de sociologia ou de pensamento social mais amplo. Nas palavras de Arjomand (2013:34) “o apagamento da experiência histórica de uma grande parte da humanidade dos fundamentos da teoria social”.
No livro de Connell a deliberada ignorância das teorias em relação aos processos sociais do sul é exemplificada por meio de uma severa crítica aos trabalhos de Bourdieu sobre a Argélia (que não incorpora qualquer debate com autores locais), de Giddens e seus exemplos imaginados nos quais a Europa sempre apresenta uma precedência temporal em relação ao resto do mundo, e o de Ulrich Beck sobre o risco. Do trabalho de Beck, a autora extrai o uso do termo “The Brazilianization of Europe”, expressão que serve para evocar um futuro de fragmentação social horrenda, de violência e de egoísmo que deve ser evitada pela avançada Europa (Connell, 2007:65).
O incomodo de Connell parece estar radicado como uma desconsideração por parte dos autores acima (mas também dos clássicos das ciências sociais) da capacidade de agência tanto dos agentes ordinários, quanto dos especialistas ou peritos [cientistas sociais] (para usar o termo de Giddens) radicados fora da euro-américa.
O resultado desses processos descritos por Connell, de meu ponto de vista, se revela na extrema dificuldade das análises sociológicas clássicas e contemporâneas de incorporar agentes, sujeitos e processos que não encontrem equivalente nas narrativas sociológicas sobre a vida social euro-americana.
Essa dificuldade classificatória aparece com força também no trabalho recente dos antropólogos sul-africanos Jean e John Comaroff que começam seu ensaio (parte de uma coletânea de artigo próprios intitulados “Theories from the South”) abraçando a tese de que, por décadas, as sociedades do sul foram tratadas como apenas exóticas, paroquiais e palco de tradições antiquadas (2011:1). Para os autores, que definem o atual momento histórico do norte como de crise, processos que antes grassavam apenas pela África e pela América Latina atingem neste momento o centro da vida social na Europa.
Como afirma Jean Comaroff em uma recente entrevista sobre o livro para uma revista brasileira:
“E, dado o estado das cidades por toda parte, essas comunidades (e percebo que não são todas iguais; que variam em condições de vida e possibilidade) repentinamente parecem muito avant garde. Elas, assim como a corrupção, não podem mais ser vistas meramente como desvios de um plano mais racional, como aberrações temporárias ou escândalos do terceiro mundo” (Comaroff, 2011b).
De forma completamente diferente do que R. Connell (2005), os Comaroffs se voltam para o sul não porque haja nestes locais do mundo pensamento social, métodos e teorias que possam ser equivalentes àquelas feitas nos países centrais. Sua questão principal é que, pelos efeitos do colonialismo e do neoliberalismo, lugares como a África do Sul ou o Brasil desde muito cedo lidaram com processos de degradação das relações sociais. Em seu livro se encontram passagens afirmando que os governos da África estão baseados em uma “patronagem cleptocrática e que a falta de estados liberais democráticos não tem sido capazes de controlar aqui as forças de mercado” (Comaroff e Comaroff, 2011:16). Ou, ainda, de que se tratam de ambientes nos quais a “força da lei, dos contratos de trabalho e da ética da sociedade civil, são, no melhor dos casos, desiguais” (Comaroff e Comaroff, 2011:19).
A brasilianização da europa tão temida por U. Beck, aparece aos olhos dos Comaroffs (2011) como uma situação inevitável. Assim, seria preciso aprender com a prática desses países as melhores formas de lidar com um futuro valorativamente nefasto. A aposta dos autores é subverter o que chamam de estruturas epistemológicas desta hierarquia (norte e sul), partindo da hipótese de que neste momento histórico, o sul global é quem deve fornecer os insights para se compreender o resto do mundo.
Tais insights aparecem em termos como invenções, acomodações e híbridos usados em profusão no texto (Comaroff e Comaroff, 2011:6). No sul, sob diferentes contextos coloniais, têm sido criadas formas de vida doméstica e urbana, de “proletarização camponesa”, de “cosmopolitismos deslocados forjados em espaços que estão entre o prometido e a privação, entre a exclusão e a obliteração” e que serviriam para estabelecer suas próprias contemporaneidades e modernidades (Comaroff e Comaroff, 2011:7).
Apesar da insistência em descrever os processos sociais do sul pela sua criatividade em lidar, em situações de escassez, os autores declaram que não desejam apenas reverter o processo, que ao cabo manteria a mesma topografia das análises críticas tradicionais. Para eles, no atual contexto, emergem novas geografias de centro e periferia e formas alternativas de produção e criação de valor. Para os autores, a modernidade do sul não é apenas uma derivação ou uma cópia falsificada, eu adicionaria incompleta, daquela vivida na Europa. Ela precisa ser entendida pelo seu relacionamento com o norte, mas também com o sul, com suas próprias experiências e dilemas. Dilemas e suas soluções que hoje trariam vantagens competitivas ao sul, em um quadro de crise na euro-américa.
O quadro descrito pelos Comaroff se remete então a uma relação onde são possíveis tanto (i) modernidades múltiplas com temporalidades paralelas (do norte e do sul), como (ii) uma modernidade sui generis que envolve o sul e o norte: a modernidade neoliberal.
A coexistências discursiva dessas modernidades se torna possível pelo uso do termo “coevalness” cunhado por Johannes Fabian (1983) para falar dos dilemas coloniais da antropologia. Por meio deste termo que poderia ser traduzido ao português como coetaneidade, se garantiria a existência tanto da modernidade na sua forma clássica (secularização, racionalização, individualização), como de outros modos de vida que não encontram paralelos na euro-américa.
Esse é o mesmo termo e a mesma conclusão a qual chegam Boaventura Santos e Maria P. Meneses em seu “Epistemologias do Sul”, livro que além da contribuição dos organizadores conta om capítulos de autores radicados na Ásia, África, América-Latina e em Portugal.
Apesar de reunir diversas contribuições, apenas o texto de B. Santos utiliza o termo sul metaforicamente para se referir a “um campo de desafios epistemológicos que tenta reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo” (Santos e Meneses, 2009:12) (grifos meus). E “as epistemologias do Sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão < dos saberes dos povos e nações colonizadas >, valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos” (Santos e Meneses, 2009:13).
as sociedades do sul, que também não correspondem a uma orientação cartográfica seriam: “sociedades periféricas do sistema mundial moderno, onde a crença na ciência moderna é mais tênue, onde é mais visível a vinculação da ciência moderna aos desígnios da dominação colonial e imperial, e onde outros conhecimentos não científicos e não-ocidentais prevalecem nas práticas cotidianas da populações (Santos, 2009:47)
Para B. Santos, portanto, o sul se refere a formas de saberes (modos existência) que foram ignoradas e subalternizadas pela prevalência da linguagem científica da modernização. Fora da euro-américa tais formas teriam uma existência mais provável do que nas nações colonizadoras, pois, por razões não muita claras, ainda existiriam em certos rincões da vida social formas legítimas de conhecimento que não seriam tributárias do modelo esterilizador dominante que vislumbra como impossível a existência de modos coetâneos de conhecimento e vê a modernidade e o pensamento científico como um única forma de existência.
Assim como para os Comaroffs, na impossibilidade de simplesmente excluir a colonização e as consequências da modernidade de suas vidas cotidianas, para os autores, os povos do sul teriam se adaptado e criado modernidades alternativas. Outra das saídas peculiares aos povos do Sul, apontadas pelos autores, seria a instituição de um “cosmopolitismo subalterno”, “significando tolerância, patriotismo, cidadania global, comunidade global de seres humanos, culturas globais etc.” (Santos, 2009:41)3. A base deste cosmopolitismo seriam as diferentes temporalidades na quais “as experiências subalternas do sul global têm sido forçadas a responder tanto à curta duração das necessidades imediatas de sobrevivência como à longa duração do capitalismo e do colonialismo” (Santos:2009:50).
Para os fins desta artigo é importante notar que sua proposta reside no que chama de “ecologia dos saber”, ou seja, na criação de uma condição analítica na qual conhecimentos modernos e tradicionais possam conviver de forma democrática.
É sobre a incorporação de formas de existência que caminharam em paralelo com a modernidade nos países colonizados que Walter Mignolo assenta sua proposta de compreensão dos processos sociais do sul. Para o autor, uma dos efeitos mais importantes do colonialismo foi a simplificação das relações entre tempo e espaço e a imposição de um modo objetivo (a história) como centro unificador de ambos. Esse modelo tem vários reflexos sobre as formas de conhecimento que desenvolvemos nas ciências sociais, principalmente, em relação aos conteúdos disciplinares da sociologia que se contentou em olhar sempre a partir de dentro da modernidade.
Longe de buscar tipos puros da modernidade, Mignolo (2000) prefere sujeitos cujas vidas estejam na fronteira (border) entre as tradições da modernidade e outras tradições, especialmente as indígenas de cada continente. Para este autor, e para os demais componentes do grupo modernidade/decolonialidade a própria modernidade precisaria ser vista não apenas pelos olhos dos conquistadores, mas também dos conquistados. Este seria o caso, por exemplo, da inovações democráticas do zapatismo no México que tomam a ideia moderna de democracia em uma mistura singular com elementos da vida coletiva Maia para organizar sua noção de território.
O argumento de Mignolo, brevemente esboçado, serve como uma espécie de resumo dos dilemas que são posto pelo que chamo de sociologias do sul. Praticamente todos os autores aqui trabalhados clamam por uma ampliação dos horizontes das ciências sociais que incorpore coisas, processos e pessoas e pontos de vista que não cabem na atual escala de valores que utilizamos. Na versão do próprio Mignolo e na de Boaventura Santos esse movimento de expansão não cabem em nossas fronteiras disciplinares e tem a função própria de rompê-las4.
Mas como dizer isso a uma estudante que faz sua pós-graduação em uma disciplina específica (sociologia, por exemplo) e que se envolve com a retórica desses autores. Não parece que seja necessário e nem prudente fazê-la desistir do mestrado ou do doutorado em nome uma política intelectual mais ampla – quando os próprios defensores da causa não o fizeram.
Do mesmo modo, é preciso notar que em todos os autores citados aqui as experiências do “sul” (sejam elas no âmbito das ciências sociais ou da vida ordinária) são, no mais das vezes, caricaturas não investigadas profundamente de modo a dar conta de suas especificidades e adquirindo assim certo grau perigoso de generalidade. No fundo, mesmo aqueles que reconhecem que há no mundo coisas, causas e efeitos que não tem lugar na limitada narrativa da sociologia, têm muita dificuldade de trazê-los para o centro do debate disciplinar.
É claro que a retórica tem um papel fundamental nas teorias da ciências sociais e em suas formas de conhecimento. No entanto, especialmente para temas emergentes, considero que seja preciso mais do que simplesmente afirmar sua pertinência. Precisamos buscar condições metodológicas claras para demonstrar que essas outras formas existem e que produzem efeitos no mundo contemporâneo. Usando os termos de Connell e dos Comaroffs, é preciso criar condições para uma teoria que esteja “grounded” não apenas na Europa, como também no sul.

ANT e a sociologia do sul


John Law um dos precursores da ANT em artigo conjunto com Wen-yuan Lin (2011), assume o desafio de relacionar as ciências sociais “dominantes e subordinadas” desde um ponto de vista pós-colonial. Também em Law (2004), toda a proposta metodológica se apresenta contra certos pressupostos “euro-americanos”. Nesses trabalhos, há a constatação de que a relação hegemônica das tradições ocidentais de conhecimento se mantém por meio de uma metafísica (que distingue o mundo, do conhecimento deste próprio mundo), de instituições (formas de circulação do conhecimento como o sistema acadêmico) e subjetividades (que reproduzem e incorporam a metafisica representacional e a as estruturas institucionais). Essas três dimensões seriam os sustentáculos de outra característica formal da modernidade ocidental: sua obsessão por um modo singular de organizar o mundo (Law, 1994). Tal modo de organização teria como base um método de ordenamento que busca pela homogeneidade, e que ao se deparar com a heterogeneidade tende a escondê-la ou desqualifica-la como distração, falha técnica ou desvio (Law, 1994:7). Os achados de Law são muito similares aqueles de Latour (1993) sobre as contradições das ciências sociais da modernidade ao lidarem com seres híbridos (nesse caso especificamente para falar da distinção natureza e cultura). Especificamente para Law (2004: 63), não seria desejável também apenas admitir a posição relativista que trataria da relação entre diferentes realidades (in-hereness e out-thereness): “the essential irreducibility of worlds, of knowledges, of ethical sensibilities, or of political preferences, to one another”.
Para Law, essa é uma questão ética e política mas também sociológica, pois como todos os modos de conhecimento consolidados na modernidade nós (sociólogos) também teríamos nossos sonhos de pureza ou de relativismo. Já que a sociologia é um desses modos de ordenamento e tende a construir seus próprios monoteísmos hegemônicos, a saída proposta por ele é denominada de modéstia sociológica. A lição básica desta atitude modesta seria não fingir que nossos ordenamentos são completos, nem esconder o trabalho, a dor e cegueira contidas nele (Law: 1994:9). O fundamental seria manter sempre a ideia de há conexões parciais, mas de que não há uma “definitividade” nelas.
Essa crítica sobre a imposição sociológica de um modo de ordenamento que parece não ter limites (mas cujo limite são as poucas categorias reconhecidas como modernas) também aparece em Latour (2001 e 2012), que associa diretamente sua crítica à modernidade a experiência de pesquisa na África:
In the Abidjan of 1973-75, I discovered all at once the most predatory forms of capitalism, the “methods of ethnography, and the puzzles of anthropology. And one puzzling question in particular that has never left me: why do we use the ideas of modernity, the modernizing frontier, the contrast between modern and premodern, before we even apply to those who call themselves civilizers the same methods of investigation that we apply to the “others” – those whom we claim, if not to civilize entirely, then at least to modernize a little? (…)

I saw clearly that these adjectives of combat and conquest did not result from any independent description; they were slogans, battle cries. If people hastened to invoke cultural dimensions, cognitive limits, “black souls,” and “African mentalities,” it was because their definitions for the work of thought were not sufficiently material and concrete. There was a flagrant asymmetry here: the Whites anthropologized the Blacks, yes, quite well, but they avoided anthropologizing themselves. Or else they did so in a falsely distant, “exotic” fashion, by focusing on the most archaic aspects of their own society – communal festivals, belief in astrology, first communion meals – and not on what I was seeing with my own eyes (eyes educated, it is true, by a collective reading of L’Anti-Oedipe6): industrial technologies, economization, “development,” scientific reasoning, and so on: in other words, everything that makes up the structural heart of the expanding empires.(Latour, 2013: 3-4)



A passagem de Latour torna, como havia me referido no começo deste ensaio, clara a noção de que a ANT é também uma resposta política ao modelo colonizador dominante sobre o qual se assentou a ciência social euro-americana (expressão usada 111 vezes em Law, 2005) quando em contato com seus Outros.
As respostas propostas tanto por Latour, quanto por Law e Lin caminham em um mesmo sentido: a única forma de contestar os efeitos da forma tradicional da teoria social seria por meio da criação de um novo método que, paradoxalmente, dará vida a um nova forma de lidar com o social não estabilizado.
If this is difficult then this is because it questions the self-evidence of Euro-American metaphysics; because it undermines the necessity of the methods that we happen to have available to us; because it presents us with possibilities (a reality enacted?) that are dangerous and potentially destabilising at least in principle not only to the metaphysics in which our methods are embedded, but also to the particular realities which they produce” (Law, 2004: 38).
Como vimos, há na obras de Connell, Comaroffs e de B. Santos (e em parte significativas dos autores pós e decolonais) um clamor pela inclusão na agenda da sociologia de formas, processos e relações (seres) para os quais não há um olhar interessado. No entanto, é preciso ter cuidado para não simplesmente se pensar que é possível incluir tais seres no mesmo modo de organização da modernidade. Se apenas encaixarmos a vida social fora da euro-américa (ou mesmo sua periferia) no escaninho dos “modos de vida não modernos” teremos ido a lugar nenhum, pois manteríamos o cômodo dualismo que preserva intacta a narrativa sociológica que produzida no norte.
Meu argumento sobre a proximidade entre os dois movimentos teóricos reside no fato de que alguns desafios sociológicos levantados por esses autores da teoria do ator-rede, como a heterogeneidade de actantes (humanos, não humanos), a desordem e formas narrativas que não distinguem ficção e realidade5, são exatamente os mesmos citados pelas sociologias do sul para caracterizar processos e formas de pensamento social fora da euro-américa (Law, 2004 e Mol, 1999)6. Nesse sentido, como afirmei acima, seria necessário trabalhar métodos que façam com que essas características apareçam em nossos textos não como defeitos, mas como parte de uma narrativa na qual seus efeitos fiquem claros. Como veremos a seguir, fazer existir dignamente certos aspectos centrais da vida do sul exige repensar tanto a noção de social como a de agência.

Redefinindo o social e suas ontologias
Buscando explicitar os marcos do projeto intelectual congregado em torno da noção de “Teoria do Ator-Rede”, Bruno Latour (2005) propôs uma síntese metodológica de seus principais pressupostos. O livro, de certa forma, tenta responder a uma parcela significativa dos cientistas sociais que criticaram as noções de simetria e de agência (de não humanos) presentes nos trabalhos do grupo ao longo das décadas de 80 e 90 como Vanderberge (2001), XXXXX.
Para contestar a seus críticos, Latour (2005:1) aponta como desafio central do projeto ANT a busca por uma redefinição das noções de “social” e de “sociedade”. Em suas palavras “é possível permanecer fiel às intuições originais das ciências sociais redefinindo sociologia não como “a ciência social” mas como um traçar de associações” (2005:5). Nesse sentido o social deixa de ser uma substância homogênea – ao estilo de Durkheim, por exemplo – ou algo que paira sobre nossas cabeças, e passa a ser considerado um movimento constante de associação entre elementos heterogêneos (humanos e não humanos). Ele já não pode ser um porto seguro, um ente conhecido e domesticado que serve para explicar certos fenômenos, o social deve ser reconstruído em cada uma de nossas pesquisas teóricas e empíricas. Nesse sentido o social é resultado da pesquisa e não sua fonte ou sua explicação.
A opção desta redefinição aponta claramente para um problema que é central na crítica que se identifica como “do sul”: a imposição por parte da teoria sociológica do norte (mesmo quando praticada no sul) de uma noção estabilizada de social que sirva para toda e qualquer parte do globo. Essa definição de social já conteria em sua bula quais os serem ou entes que, por exemplo, teriam agência e também quais agências seriam mais importantes de um ponto de vista sociológico. Jogando com o título proposto para este encontro, o limite da teoria social seria também o limite do que ela considera ou não como digno de ser investigado.
Esse limite poderia ser superado, para Latour (2005:165) ao se “manter o social plano” durante nossas descrições, dados o mesmo espaço e coerência para todos os objetos que produzem efeitos tangíveis por nossos método. Obviamente para o autor, o mundo social concreto não é plano, ele é permeado de hierarquias e relações de poder, de seres grandes e pequenos como diria Boltanski (1991) que devem aparecer como resultado das pesquisas e não como seu pressuposto. O problema da sociologia reside, entretanto, no fato de que temos aceitado quase sem questionamento iniciar nosso trabalho baseados em uma base topográfica e cartográfica dada e estabilizada. Quando fazemos isso, transferimos para nossos objetos – por uma espécie de contrabando intelectual – toda a centralidade de certos elementos elaborados na teorias dominantes sem nos questionarmos se eles são ou não pertinente ao contexto descrito.
A proposta de Latour caminha no sentido também de redefinir a noção de agência, e consequentemente como veremos adiante de ontologia. Na teoria do ator-rede a capacidade de agência é sempre um dado a posteriori, nenhum actante7 deve ser privilegiado em detrimento de outros sem que se conheça e se possa traçar seus efeitos sobre outros actantes. Em relação ao sentido mais clássico do termo, a capacidade de agência não seria dada pela definição conceitual da sociologia, mas pelo efeito concreto no mundo (grounded effect). Nesse sentido poderíamos aproximar também a noção de Latour às reivindicações de Connell e dos Comaroffs sobre a necessidade de um grounded theory. No esquema do autor francês, é preciso ter em consideração que se no começo das pesquisas/descrições todos os objetos poderiam ter agência, ao final teríamos a obrigação de distinguir entre aqueles que são mediadores (aqueles que “transformam, traduzem, distorcem e modificam os sentidos dos elementos que eles supostamente carregam”, Latour, 2005:39) dos que são intermediários (“que apenas transportam sentidos ou força sem transformação”, Latour, 2005:39). Deste ponto de vista nem tudo que é mediador na teoria clássica teria de fato efeito em certas situações e lugares.
Mas como falar desses efeitos de modo que eles possam assegurar em nossas descrições uma legítima capacidade de agência? Essa é a preocupação do livro de Latour (2005), mas principalmente de Law (2004). Para Law, o método “não é um conjunto mais ou menos feliz de procedimentos para apresentar uma realidade dada. Ao contrário, ele é performativo. Ela ajuda a produzir realidade (...) Método, inevitavelmente produz não somente verdade e não verdade, realidades e não realidades, presença e ausências, mas também arranjos com implicações políticas (Law, 2004: 143).
Notemos que Law não estuda grupos indígenas, conhecimentos não científicos ou modernidades alternativas (objetos que aparecem nas bulas sobre a sociologia do sul) e que sua única incursão a objetos fora do norte é o artigo recente publicado com Lin sobre um encontro em Taiwan. No entanto, ele está preocupado com o modo pela qual as narrativas mestras Euro-Americanas não apenas excluíram “entes” do sul, mas uma série de outros que também povoam vida do norte produzindo efeitos e mudando o sentido de narrativas estabilizadas8.
A principal crítica desenvolvida por Law e seu grupo de colaboradores se direciona para o dilema das narrativas sociológicas em lidar com um mundo social heterogêneo e permeado de híbridos sem um lugar muito claro no panteão de nossos objetos prediletos (Latour, 1993). Considerando a definição de método como enactment ou seja como uma forma de fazer os entes agirem, nas ciências sociais (e qualquer outra ciência) deveríamos criar um método que mapeando os efeitos não catalogados dê existência de objetos que ainda não tem forma9. Ao invés de uma sociologia como inventário do legado das narrativas consagradas (a busca da modernidade e suas alternativas em todos os lugares, por exemplo), Law propões uma ideia de sociologia como produtora/criadora de novos actantes para povoar esse mundo que pode ser moderno, mas não é apenas moderno (como ressaltam Connell, Comaroff and Comaroff e B. Santos).
É por meio desse dilema que se expressa a proposta feita tanto por Law (2004) como por Mol (1999) de “politica ontológica” (ontological politics) no seio das ciências sociais. Segundo a autora: “ontological politics is a composite term. It talks of ontology – which in standard philosofical parlance defines what belongs to the real, the conditions of possibility we live with. If the term ontology is combined with that of politics then this suggests that the conditions of possibility are not given. That reality does not precede de mundane practicies. So the term politics works to undeline the active mode, this process of shaping, and the fact that its caracter is both open and contested (Mol, 1999: 75).
Ao propor a união entre ontologia e política, Mol (1999) sublinha o fato que a produção dos novos seres/actantes proposta por Law não pode estar limitada pelos atuais termos nos quais debatemos. Se há ontologias que conhecemos, elas não podem e não devem ser vistas como as únicas possíveis e nem serem tratadas de forma incontestável. Ser um ente, não significa ser mediador em todas as situações. Com essa definição retornamos ao ponto sugerido por Latour (acima) de que o trabalho sociológico deve ser um longo e constante processo de produção do social (de agregação de coisas heterogêneas). Nessa chave, a tarefa sociológica é produzir em nossos textos os efeitos que estes entes não catalogados deixam no mundo que estudamos.
“In an ontological politics we might hope, instead, to interfere, to make some realities realer, others less so. The good of making a difference will live alongside – and sometimes displace – that of enacting truth”. (Law, 2004: 67).

Conclusão


Ao longo do texto procurei unir duas tradições sociológicas que se aproximam tanto pela crítica ao que denominam de modo euro-americano de se fazer sociologia, como pela valorização de certo tipo de narrativa ancorada nas noções de heterogeneidade e simetria. Em ambas há uma pretensão de interferir na agenda política da disciplina.
O “sul”, como vimos, na atual definição de social apresentada pelas grandes narrativas teóricas, tende a aparecer como uma forma exótica, excêntrica ou ainda pior defeituosa (TAvolaro, XXXX). Seguindo o breve argumento que apresentei nas páginas acima, os autores que clamam por “um sul” (epistemológico, sociológico ou teórico), visam sobretudo ampliar os limites da atual teoria social, alargando e democratizando seu escopo de agentes qualificados. Essas reivindicações sempre aparecem acompanhadas de exemplos de formas de existência, ação e reflexão que estão fora da euro-américa, por duas razões básicas: não são coerentes/singulares ou se configuram apenas como um Outro que não nos diz respeito (relativismo). Se é bastante evidente que indígenas, aborígenes e pensadores sociais que não utilizam formas canônicas (exemplos usados pelo autores) não são tratados de forma democrática, os próprio autores em questão também não parecem ter encontrado uma forma para conseguir incluí-los, sem também exotizá-los mantendo-os ainda como Outros das nossas próprias narrativas. Como tratar de heterogeneidade sem dualidade?
A proposta brevemente esboçada neste texto é que levemos a sério as críticas desses autores, adicionando a elas a definição de social e de agência oferecida pela teoria do ator-rede. Se é verdade que esses autores têm vindo a público para defender uma noção de agência que não está relacionada aos “humanos” e tampouco a “razão”, parece evidente que na própria teoria sociológica criticada pelas teorias do sul existem sujeitos humanos sem agência. Esse dilema não pode ser resolvido simplesmente universalizando a condição de agência em seus modelos atuais (racionais, modernos e ocidentais) ao modo das modernidades alternativas, pois estaria mantida a posição hegemônica do centro (norte).
Ao tomarmos a sério a proposta pragmática de que um actante somente é reconhecido após agir no mundo (de forma material, simbólica, objetiva ou subjetiva) e de que sua ação é o efeito (e não o sentido atribuído pelo sujeito) estaríamos nos desobrigando da escolha antecipada e limitada (pelo modelo teórico colonizador) de certos objetos. Mais do que simplesmente nomear outras formas de existência, seria preciso descrever seus efeitos concretos no mundo com acuidade.
Esse modo de proceder abriria a possibilidade de “reagregar o social” e reconhecer seu limites e precariedade, e principalmente de reconhecer que este social, do qual tanto falamos e abusamos, é intrinsecamente dependente de nossos próprias opções teórico-metodológicas. Essa postura contribuiria para uma “politica das ontologias” na qual a condição de ingresso é a própria produção por parte do cientistas sociais de entes legítimos de existir em nossos cenários teóricos na qual o critério é o convencimento por meio boa descrição.
Agregando os dilemas “do sul” com a propostas metodológicas da ANT e os tomando como políticas de conhecimento em nossa área, abrimos um plataforma para uma redefinição teórica do fazer sociológico que se distancia das narrativas derivadas de formas exemplares.

Referências Bilbiográfica:


Comaroff J e Comaroff J (2011), Theory from the South. Or how Euro-America is evolving toward Africa. London, Paradigm Publishers.
Comaroff J (2011a) The End of Neoliberalism? What Is Left of the Left. The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science. 637 (1):141-147.
COMAROFF, Jean. 2011. Teorias do sul. Mana [online]. 2011, vol.17, n.2, pp. 467-480. 
Connel, R. 2007. Southern Theory: the global dynamics of knowledge in social sciences. Cambridge, Polity.
Fabian, Johannes. Time and the other: how anthropology makes its objects. New Yourk, Columbia Univerity Press.

Go, Julian. 2013.


Latour, Bruno. 2013. Biography of an Investigation: On a Book about Modes of Existence Social Studies of Science April 2013 vol. 43 no. 2 287-301
Latour, Bruno. 2005. Reassemblig the social: an introduction to actor-network theory. Oxford, Oxford University Press.
Law, John and Lin, Wen-yuan. 2010. Cultivating disconcertment. The Sociological Review, 58, pp. 135 - 153.

Law, John. 2004. After method: mess in social Science research. New York, Routledge.


Law, John. 1994. Organizing Modernity. Oxford, Blackwell.
Mignolo W (2011), The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options (Latin America Otherwise). Duke University Press Books.
Mignolo W (2009) Epistemic Disobedience, Independent Thought and Decolonial Freedom. Theory, Culture & Society, 26 (7-8): 159-181.
Mignolo W (2000) Local Histories/Global DesignsColonialitySubaltern Knowledges, and Border Thinking. Princeton: Princeton University Press.
Mol, Annemarie. 1999. Ontological politics: a word and some questions. In Law, J. And Hassard, J.. 1999. Actor network theory and after. Oxford, Blackwell.
Fabian, Johannes. Time and the other: how anthropology makes its objects. New Yourk, Columbia Univerity Press.
Santos B and Meneses MP (2009) Epistemologias do Sul. Coimbra, Almedina/CES.
Yenia, .2007.

As teorias do sul apresentam, de meu ponto de vista, uma crítica consistente à exclusão tanto de certos processos sociais, quanto das reflexões acadêmicas produzidas sobre eles fora da euro-américa do corpo exemplar da teoria social hegemônica.


As teorias do ator-rede apresentam a mesma crítica, mas sua pesquisa está ancorada na própria europ

Elas procuram enfatizar que as formas narrativas adotadas nas teorias clássicas e contemporâneas, atribuem ao norte a origem e também o destino


As teorias do sul denunciam primordialmente a exclusão da vida no sul do centro da teoria sociológica contemporânea


Entre essas tradições também ha em comum o uso de
Enquanto as teorias do sul se caracterizam por uma denúncia das formas

As teorias do sul, tratadas aqui como um conjunto díspar de iniciativas que visam trazer para o centro do debate sociológico processos sociais que são constituintes da periferia nos oferecem uma lista




tes e também de
Reforçando a noção de que não há teoria social sem um método
“Eu tenho argumentado que a montagem de método pode ser entendida como ressonância. Isso porque ele trabalha detectando e criando periodicidades no mundo. A imagem da realidade que reside nisso, nos afasta da versão mais como da metafísica Euro-Americana – a noção de que o real é relativamente estável, determinado e, por conseguinte, conhecível e previsível” (Law, 2004: 144)

Considerando que a agência é um efeito


Na mesma linha de Latour, John Law (XXXX) e Ane Marie Mol defendem a necessidade de uma nova ”política das ontologias” na qual, nova forma de existência significante sejam permitidas. Em minha leitura é justamente isso que, por caminhos diferentes busca as sociologias do sul. Elas buscam promover politicamente seres que não se enquadram nas narrativas da modernidade que temos até o momento,


Como demonstrarei a seguir, para os autores da ANT

A proposta é de uma simetria entre diferentes modos de ordenamento
Simetria por baixo – todos os modos de ordenamento são falhos e bagunçados.

Para os autores uma alternativa

chegam a uma conclusão muito parecida com
“This led us to a methodological sugestion. We’ve noted that while western knowledge traditions may be insecure, they aalso hegemonic. We have added the further post-colonial commonplace that though subaltern knowledge traditions vary (Ghana is not like Colomabia and neither resemble Taiwan), they have in common that they are in part conditioned by the ordering propensities of wester hegemony

Outra questão apontada


Redefinir o sentido do que é social, implica obviamente um redefinição da própria noção de sociologia
De forma direta, em Reassembling The Social, Latour procura explicitar o fato de que a ANT busca primordialmente redefinir a noção de social (2005:1).
Mignolo 2000: 723
Rogério.
Mignolo tempo e espaço.
A primeira constatação é de que as inciativas de Connell (XXXX), Santos (XXXX) e de Comaroff and Comaroff não apresentam um corpus comum sobre afinal de contas o que seria o sul. Como apontei em outro momento, o sul é para esses autores um recurso de crítica às narrativas mestras da sociologia que teria seu escopo limitado por uma concepção difusionista da modernidade.

Apesar de retoricamente convincentes, minha impressão como professor de sociologia, é que muitos dos textos pós/de/coloniais têm sido apropriados pela sociologia de muito mais como um discurso, do que como uma prática de pesquisa.


em relação à sua crítica o conhecimento sociológico de forma mais específica.
Nesse sentido, o texto buscará focalizar

A questão aqui não será defender a utilidade dessas teorias. Pois para alguns o jargão, não existe teoria do norte ou do sul, existe boa teoria (como se julga a boa?) é inabalável. O ponto será demonstrar que elas são complementares e que se aproximadas ganham substância para o debate sobre o lugar das teorias do sul.

Para aqueles um pouco mais acostumados a falar em público sobre seu interesse nos escritos da ant, não é incomum que a primeira objeções sempre venha acompanhadas da acusao de que a esta teoria falta política (nos termos tradicionais da sociologia como poder e dominação).
Quando me refiro ao termo operação política o uso consciente do fato de que a teoria do ator-rede tem sido sistematicamente atacada por não utilizar em seu vocabulário termos como poder e dominçao

Essas advertências iniciais são importantes porque não buscarei, e não me parece necessário, fazer um defesa desses dois conjuntos de teorias que já foram bem colocadas

Como fazer ecologia dos sberes? Há que reconstruir o cientifico.

Breve excurso sobre teorias da modernidade


Um método – Mutiplas ontologias e mess. A saída seria reconstruir constantemente os social.
Como mais entes
Metodos como enactment.
Law (2004), chama atenção para um fato comum, mas pouco levado em consideração no âmbito da teoria sociológica. Para existir, os seres da modernidade precisam de um método (de pesquisa) que permita enxergá-los nas suas diferenças e multiplicidades em todas as partes do globo. Mas em ambos os casos são sempre diferenças em relação a um certo conjunto de seres e seus estados. Toda teoria, seja modernidade ou não, sempre vem acompanhada de um método. E para Law (2004) os método tem o poder de enact.

Uma das questões levantas no trabalho de Connel, é a função da sociologia como produtora da diferença colonial. As ciências sociais humanistas ou a grande tradição dos estudos sobre a modernidade se expandiu no mundo a partir da produção de uma única ontologia.


Há aqui uma contradição entre a expansão da sociologia para fora da europa e dos dos Estados Unidos (tidos aqui como produtos reificados e não nas suas complexidades) que passou a encontrar novos seres (vivos e mortos), e o fato da disciplina não atribuir a eles um status ontológico. Somente tem potência de ação capaz de ser analisada – para os fins do conhecimento sociológico – um pequeno grupo de seres10 que
Estética e imaginário.
“In an ontological politics we might hope, instead, to interfere, to make some realities realer, others less so. The good of making a difference will live alongside – and sometimes displace – that of enacting truth, 76).
Ontological politics: if realities are enacted, then reality is not in principle fixed or singular, and truth is no longer the only ground for accepting or rejecting a representation. The implication is that there are various possible reasons, including the political, for enacting one kind of reality rather than another, and that these grounds can in some measure be debated. This is ontological politics. 171.
Latour MAUSS

Je découvre au même moment le colonialisme, l’impérialisme, le racisme sans phrase des petits-blancs ainsi que les méthodes de terrain qualitatives et les données quantitatives des sciences sociales qui m’enthousiasment après six années de commentaire des grandes œuvres philosophiques. 138


Centre et périphérie, tel est le couple qui résume le mieux les obsessions de cette période. Or je découvre aussitôt un problème dans les sciences sociales que j’apprends avec avidité sur le tas – et que je dois bientôt enseigner à mes élèves de la faculté de droit : elles manquent terriblement de symétrie. Mes amis anthropologues prétendent avec raison, je le crois du moins à l’époque, rendre compte du cœur moral, religieux, pratique, économique, rituel des nombreuses sociétés de Côte-d’Ivoire qu’ils étudient. 138.
Contrairement à ce que suggère FV, je ne me suis pas lancé dans cette affaire de symétrie par « ivresse » [p. 119] ou provocation ou désœu- vrement, ou quelque autre désir d’épater le bourgeois, mais pour une raison que Mauss aurait, je crois, trouvée respectable : existe-t-il une alternative au modernisme ? Si oui, comment la trouver ? En 1973, à Abidjan, ce n’était pas une question oiseuse. En 2001, à Paris, ça ne l’est toujours pas. 138
Que faisaient donc les anthropologues sur la périphérie si leurs outils devenaient si délétères lorsqu’on les applique au centre? N’auraient-ils pas, par hasard, affaibli la périphérie avec ces notions de culture, de rituel, de symbole, de structure? Et si l’anthropologie s’était trompée? Ce sont ces problèmes, vingt-cinq ans plus tard, qui sont toujours au cœur de l’incompréhension quasi terminale suscitée par mes livres. En particulier parce que mes enquêtes obligent à comprendre tout autrement le statut des objets. 140.
Le problème, près de trente ans plus tard, reste toujours le même : qui est prêt à assumer les risques d’une anthropologie symétrique, dont la première victime sera probablement la trop confortable notion de symbo- lique, la deuxième celle de culture, la troisième celle de nature, la quatrième celle de mythe, la cinquième celle de rite, et ainsi de suite?146.

TINKUY n°12 Section d’études hispaniques


Mayo 2010 Université de Montréal
181
Producción de saberes hegemónicos y periféricos: hacia una
apertura del horizonte epistemológico
Christian Pageau
Université de Montréal

1 No entanto, me parece que ao tocar nesse ponto algumas dessas teorias do sul colocam em questão fundamentos teóricos e metodológicos de toda a disciplinas.


2 É importante notar que, pessoalmente, não tenho muita simpatia pelas formas escolhidas por Boaventura Santos e por Comaroff e Comaroff para qualificar e descrever o “sul”. No entanto, penso ser necessário que tomem seus argumentos a sério em um primeiro momento.

3 Para debates recentes entre autores do norte e do sul sociológico sobre a noção de cosmopolitismo e seus dilemas consultar as últimas edições da Newsletter da International Sociologial Association (ISA) “Global Dialogue”, http://www.isa-sociology.org/global-dialogue/

4 Mignolo ao comentar uma pergunta que lhe foi feita em um colóquio na Espanha afirma que pare seu interlocutor “o pensamento descolonial não pode ser levado a sério; que os argumentos descoloniais não eram argumentos baseados nas ciências sociais (e não estou fazendo graça aqui). Um outro sociólogo da platéia perguntou, com a certeza que ser um sociólogo lhe dava, “Você podia definir pensamento descolonial? Você nos deu uma história, usou-o metaforicamente, mas você nunca nos deu uma definição”. Eles estavam pedindo obediência epistêmica. Não lhes ofereci, claro, uma definição porque isso teria significado jogar de acordo com as regras que ele estava me pedindo para jogar que era “identidade disciplinar” (Mignolo, 2008: 300)

Em outras palavras, eu estava oferecendo aos marxistas e sociólogos interlocutores a possibilidade de considerar a opção descolonial; e eles recusaram, é claro, me convidando para jogar de acordo com as normas disciplinares das ciências sociais e as convicções marxistas. (Mignolo, 2008:301).





5 Exemplo extraordinário sobre as dificuldades acadêmidas e políticas de se lidar com narrativas que não separam ficção e realidade pode ser vista no livro de There Was this Goat de Antjie Krog, Nosisi Mpolweni and Kopano Ratele sobre um depoimento à comissão da verdade e reconciliação na África do Sul. Scottsville: University of KwaZulu-Natal Press, 2009.



6 “However to propose a blanket prohibition of imaginaries in the method assemblages of truth-making (for instance by exiling such imaginaries to the peripheral realm of aesthetics) is not a good. It is a politics of Othering which presupposes and enforces the dictum that singularity is destiny, that disenchantment is in the nature of things, and that multiplicity is a mistake” Law, 2004: 149)


7 Definir actante.

8 Esse é o mesmo argumento desenvolvmento por Connell (2005), Bhambra (2007) e Mignolo (2011), sobre os intrínseca relação entre a emergencia da modernidade e a violência colonial.

9 Nesse novo sentido de sociologia devemos evitar a todo custo o modelo de narrativas exemplares (modernização, colonização, secularização, por exemplo), pois elas tendem a tratar todos e qualquer “ente” desconhecido a partir de sua relação com elas. Ou seja, nelas os “entes” das pesquisa são usados para reforçar a narrativa mestra ou quando muito para adaptá-la.

10 Definição de seres.


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