As tarefas da esquerda na presente crise



Baixar 35,84 Kb.
Encontro23.08.2017
Tamanho35,84 Kb.
As tarefas da esquerda na presente crise

Como já expusemos em "A Crise Atual", a conjuntura em que vivemos se caracteriza pelos seguintes traços principais:



  1. A crise estrutural do sistema do capital como um todo não deixa saída à vista ao esgotamento nacional do processo de acumulação de capitais articulado pela entrada de dólares via exportação de produtos primários, investimentos estrangeiros e encomendas estatais;

  2. A ruptura entre o setor do capital no país mais diretamente dependente das encomendas estatais (empreiteiras, grandes eventos como Olimpíadas etc.), aliado do estamento político-burocrático -- e o restante do grande capital é um processo ainda em andamento e não parece estar à vista a possibilidade de uma reunificação das classes dominantes ao redor de um projeto entre elas hegemônico. A Lava-Jato, a crise do governo Temer e as resistências que o estamento burocrático-político ainda pode oferecer tendem a fazer desta ruptura um processo que deve se prolongar pelo ano de 2017.

  3. A ruptura do grande capital com o setor da aristocracia operária representado pelo PT e pela CUT está promovendo um rearranjo de poder no interior da burocracia sindical e partidária. Paulinho da Força Sindical parece ser o maior beneficiário deste rearranjo;

  4. A paralisia da classe operária e da classe trabalhadora em geral, em larga medida, mas não apenas, uma consequência do seu domínio político e ideológico pela burocracia sindical e partidária, não dá sinais de estar se revertendo, o que amplia em muito o campo de manobra das forças burguesas na conjuntura e, também, sem a "ameaça vermelha", torna mais problemática a superação de suas divergências internas, na medida em que diminui a mútua disposição de suas facções internas para concessões.

  5. Sejam quais forem os desdobramentos da crise no médio prazo, aumentar a exploração da força de trabalho e manter a paralisia política dos trabalhadores e proletários são, como sempre, as necessidades fundamentais do capital como um todo. Se manter a paralisia dos trabalhadores é um consenso de todas as facções burguesas, aumentar a exploração dos trabalhadores em geral traz problemas, pois precisa passar pelo Congresso, ou seja, pelo estamento burocrático-político, o que potencializa a capacidade de resistência deste último.

  6. A saída da crise por uma solução de força, por um regime ainda mais autoritário, de base militar ou não, não deve ser descartada, ainda que não haja, no momento, indicações mais fortes neste sentido, além do artigo do Almirante Mario Cesar Flores, no jornal O Estado de São Paulo de 17 de dezembro de 2016, logo depois da divulgação de que a Lava-Jato chegara à Marinha. Uma reorganização no interior da burguesia, que desmonte por completo o poder da facção do capital dominante nos anos petistas e rearrume um novo bloco hegemônico das classes proprietárias, também não deve ser descartada, ainda que esta possibilidade não esteja no horizonte presente já que, hoje, pressupõe levar à derrota do estamento burocrático-político e dos setores do capital mais diretamente dependentes das encomendas estatais.

  7. Em qualquer um dos casos, a única alteração que pode trazer uma mudança qualitativa do quadro conjuntural é uma eventual entrada dos trabalhadores e proletários na luta política, novamente algo que não se apresenta no horizonte previsível, ainda que a crise econômica e o desemprego tendam a pressionar neste sentido.

  8. A se assinalar, ainda, que é típico das classes trabalhadora e proletária uma entrada abrupta, inesperada, na luta de classes e que, nessa conjuntura em que vivemos, algo neste sentido deve estar sempre posto como uma possibilidade real, ainda que não haja indicações diretas da sua iminência.

  9. Por fim, marca a atual crise uma descrença e um descrédito generalizado pela população, independente das classes sociais, no Estado, nos políticos e, em menor medida, na democracia, o que pode contribuir para a intensificação dos movimentos de massa e, mesmo, para um renascimento do movimento operário.

Nesta conjuntura, a nossa ver, há um grande obstáculo político-ideológico e uma grande tarefa prático-teórica para a esquerda. Comecemos pelo obstáculo, terminemos pela tarefa.

O grande obstáculo

A atual geração da esquerda brasileira traz a marca jamais superada de seu nascimento: uma senhora de mais de meio século que permanece infantil, que ainda sequer alcançou a crise existencial que é a marca de toda adolescência. Ao contrário dos anos de 1920, contudo, nossa infantilidade não seria o esquerdismo, mas um reformismo tão tacanho que nos faz, na enorme maioria das vezes, meros aspirantes à ala esquerda da burguesia democrática, se é que há uma burguesia democrática em nossos dias e em nosso país.

A hipótese, absurda, de que haveria (e que seria factível) um projeto desenvolvimentista petista, que resgataria nossa soberania nacional ante o imperialismo estadunidense pelo desenvolvimento de um capitalismo autóctone, com base em uma colaboração de classes entre os trabalhadores e a burguesia nacional – não passa de flatus vocis. Nem há a possibilidade objetiva de um capitalismo nacional nos marcos do sistema atual do capital, nem há uma burguesia nacional disposta a uma aliança com os trabalhadores contra o imperialismo. A ser sensato, vale a pergunta: onde houve? Nos países asiáticos, como a China e o Vietnã! Em países como a Argentina e o Brasil, com Vargas e Perón. Conhecemos o final desta histórica. A colaboração de classes dos trabalhadores com setores da burguesia contrários à entrada das multinacionais deu apenas na restrição do poder de resistência dos trabalhadores ante o capital, nacional ou estrangeiro. Sequer no Irã uma tal burguesia anti-imperialista e com disposição para uma aliança com os trabalhadores foi capaz de se mostrar uma alternativa efetiva e Mossadegh não resistiu a um golpe da CIA. Hoje, os aiatolás, contra os trabalhadores, desenvolvem o capital da região.

Do "projeto desenvolvimentista petista", o que de fato teve efeito político prático foi a pregação da colaboração de classes. É tudo o que a burocracia sindical e partidária, oriunda da aristocracia operária, necessita do ponto de vista do discurso político: justificar a traição sob o manto da progressista colaboração com o patronato para, como "parceiros", burgueses e trabalhadores conduzirem o país ao "primeiro mundo". Deu no que deu: a desacumulação de forças dos proletários e seus aliados potenciais é de tal monta que, hoje, sequer conseguem oferecer uma resistência mais contundente às reformas trabalhista e previdenciária em curso, para não mencionar o quadro geral do país.

De resto, o "desenvolvimentismo petista" era apenas discurso! Todos os governos petistas, enquanto deram certo, foram serviçais dos imperialistas e seus sócios internos. Não vacilaram em favorecer a agricultura de exportação contra e por cima da agricultura familiar e enterraram de vez a possibilidade de uma reforma agrária patrocinada pelo Estado ao reduzirem ainda mais o campesinato, convertendo-o, em não pequena medida, em novo lumpenproletariado urbano. No macro e no micro, o caráter de classe burguês (e, ainda mais, de "burguês nacional" que desde 1500 é sócio minoritário do imperialismo na exploração de nossas riquezas e força de trabalho) se fez sempre predominante.

Verdade que as teses que dão apoio à hipótese do desenvolvimentismo petista (a possibilidade objetiva do desenvolvimento de um capitalismo nacional anti-imperialista e a existência de uma burguesia disposta a se aliar com os trabalhadores ao redor deste projeto) não foram compartilhadas por toda a esquerda. Mas o que uma grande parte da esquerda compartilhou com os defensores do desenvolvimentismo petista foi o equívoco de que as políticas públicas, acima de tudo as políticas ditas "de transferência de renda", marcariam uma nova fase do desenvolvimento capitalista nacional com traços progressistas que deveriam ser apoiados politicamente.

Robert F. Williams, comentando as ilusões de Luther King e Jesse Jackson sobre as possibilidades de democratizar a democracia estadunidense pelo apoio ao Partido Democrata, se questionava se não havia limites ao "asinismo" das ilusões políticas (New Left Review, janeiro-fevereiro, 1960). Por "asinismo" ele definia a postura do asno que persegue a cenoura presa à sua cabeça por um pedaço de pau.

Enxergar na distribuição de esmolas pelo Estado um potencial para alterar a distribuição de renda que, sabemos, é fundada pela estrutura econômica como um todo, é um "asinismo" comparável. A produção determina a distribuição. Se produzimos mais-valia, a distribuição de renda e riqueza já está determinada. E se o país produz mais-valia para o grande capital internacional e seus associados internos, está ainda mais fortemente dada a necessidade de uma brutal desigualdade social, entre outras coisas. Este fato básico da vida econômica e social é "posto de lado" pelo "asinismo" que, então, afirma ser necessário apoiar Lula ou Dilma contra a "direita"! Do PSTU ao PCB, passando por uma enormidade de pequenas agremiações à esquerda, no e fora do PSOL, foram centenas as recomendações pelo "voto útil" em Lula ou Dilma!

Este "asinismo" tem repercussões outras: por exemplo, um irracional apego às urnas. Nisso, em verdade, a esquerda não-petista não está sozinha Ela tem por companhia os petistas de todos os matizes, a totalidade da burocracia sindical e partidária, a quase totalidade da intelectualidade acadêmica e todos os grandes e pequenos órgãos da imprensa burguesa.

Há aqui duas variantes. De um lado, aqueles que realmente acreditam que, através das urnas, chegar-se-á a uma alteração profunda do fundamental econômico-material do país no sentido de algo aparentado a um Estado de Bem-estar. De outro lado, aqueles que fazem a crítica ao processo eleitoral pela esquerda, afirmando que sem uma revolução nada de fundamental será alterado, mas que, como as massas ainda votam, deve-se participar do jogo político eleitoral (voltaremos a esse argumento). Ainda que, do ponto de vista teórico, haja variações significativas (para alguns, a via eleitoral é estratégica, para outros, apenas tática) na prática isto não faz grande diferença. Pois a tática política, de lançar candidatos a cada eleição, permanecendo a mesma por décadas, difere muito pouco de uma estratégia. Pensemos, para pegar um exemplo significativo, na trajetória da Convergência Socialista, que vira PSTU e do qual saiu recentemente o Mais: participam de todas as eleições desde os anos de 1980 e denominam de "tática" esta estratégia!

De fato e na prática, tantos anos de uso do cachimbo torceram definitivamente a boca da esquerda. Tornou-se eleitoreira, pauta suas atuações pelo calendário eleitoral definido pelo Estado burguês, seleciona seus militantes para serem cabos eleitorais, legaliza-se para poder participar dos festivais de votos, quando não recebe verbas de caixas dois de empresas como a Odebrecht e assemelhadas.

Quando, em 2013, as massas nas ruas recusaram a presença destes partidos e destas forças, estavam corretas. São, de fato, extensões da política burguesa que precisamos superar. Também corresponde à essência do PSTU e do PSOL se juntarem à CUT, ao MST, ao PSB, ao PSDB, ao PCB e PCdoB etc. na frente que demandava, como "democrático", que os partidos institucionalizados fossem admitidos às manifestações. Estão ao lado dos "defensores dos valores democráticos" como o PT a CUT, o PDT, o PSDB, o PSB e assim por diante. Os eleitoreiros de um lado, a iniciativa (mesmo a mais limitada!) espontânea das massas de outro: a clivagem corresponde ao conteúdo histórico do momento, uma nação cansada "do mais do mesmo" e uma esquerda institucionalizada, inserida nos mecanismos de poder estatal como as eleições, incapaz de dar o salto de qualidade que a conjuntura requer e possibilita.

O fundamental da nossa esquerda, desenvolvimentista-petista ou "asinina", não sabe fazer outra coisa quando canta a sereia eleitoral. Imagina que faria diferença significativa "outras pessoas" no parlamento e nos altos postos de comando do Estado! Que diferença prática faz se esta atitude traz a mensagem da colaboração de classes dos trabalhadores com o patronato em prol de um "Brasil primeiro mundo", ou se traz a mensagem de que eleger parlamentares é a via de transformação revolucionária do país? Em ambos os casos, termina pautando suas estratégias pela via eleitoral, em ambos os casos, transforma-se a organização revolucionária em estruturas eleitorais e, por fim, também em ambos os casos, nada mais faz do que legitimar, como coadjuvante, o "asinismo" de que fazemos história ao depositarmos nossos votos nas urnas.

Há, contudo, nesse campo eleitoreiro, um único argumento ao qual, acima, prometemos retornar. É um argumento de corte basista que se expressa, na maior parte das vezes, com a seguinte formulação: as eleições são uma forma de dominação da burguesia sobre os trabalhadores. Contudo, para combatermos estas ilusões no seio dos trabalhadores, devemos participar das eleições para denunciar o sistema capitalista e assim elevar a consciência das massas! Quando os trabalhadores romperem com as eleições, então poderemos também romper com elas. Fazer o oposto, é fazer uma política de seita, afastada das massas.

Para esta concepção, o erro principal da esquerda é seu isolamento, sua incapacidade de abrir acesso às amplas massas! E o que está no fundo desta avaliação é uma concepção de que as ideias e propostas revolucionárias não ganham "o coração e a mente das massas" porque a esquerda não sabe como fazê-lo. Além de imaginar que se denuncia a eleição como instrumento de dominação burguesa ao dela participar, o principal equivoco desse argumento está em imaginar que uma boa atuação da esquerda, por si só, seria capaz de alterar a concepção de mundo das massas no sentido revolucionário.

Vamos e convenhamos: não há agitação e propaganda política, não há organização prático-ideológica, por melhor que sejam, que tenham a capacidade de reverter a determinação da existência sobre a consciência dos trabalhadores em geral. A existência social determina a consciência e, por isso, em situações "normais" de reprodução social, as ideias dominantes são as ideias das classes dominantes e não, ao contrário, a consciência das massas trabalhadoras é determinada pela competição entre a propaganda burguesa, muito mais poderosa, e a ação teórico-ideológica dos revolucionários, até hoje incompetentemente realizada, segundo esta tese.

O idealismo desta concepção está em partir do pressuposto de que seria possível, sem uma crise revolucionária que abale os fundamentos da sociedade capitalista, que a esquerda tivesse massas a apoiá-la. Infelizmente, as coisas não são assim. Temos que nos preparar para, em uma situação de crise, poder jogar o papel de direção revolucionária, mas é inútil tentarmos nos preparar para fazer uma política de massas na ausência de uma crise revolucionária.

O idealismo e o basismo desta concepção têm consequências práticas imediatas. Partindo de um pressuposto quase piagetiano de que a consciência das massas evolui do próximo ao distante, conclui que as lutas localizadas e economicistas (no sentido do Lenin de "O que fazer?") são a via para a elevação revolucionária da consciência dos trabalhadores. Ignora-se solenemente o fato de que, como a totalidade é mais do que a soma das partes, não há possibilidade de, pautando-se pelas lutas localizadas, economicistas, se chegar à consciência da totalidade do sistema do capital, a única consciência revolucionária possível. Por esse equívoco, quando a crise se agudiza e coloca-se a necessidade e possibilidade de se discutir a totalidade da sociedade burguesa e abordar cada embate localizado como expressão desta totalidade, a concepção basista faz justamente o oposto. Adota bandeiras localizadas que, imagina ela, levarão os trabalhadores à consciência revolucionária. Ao invés de fazerem aberta propaganda e agitação pelo socialismo, pela revolução, pela Ditadura do Proletariado etc., "avançam" suas bandeiras para questões como a "dívida pública" (Espaço Socialista), a renovação eleitoral completa (PSTU), o "golpe de Estado contra a democracia" (petistas e dilmistas em geral), a discussão da especulação imobiliária (MTST) ou da agricultura ecológica (MST) etc.

No fundo, bem pesadas as coisas, esta postura é típica da vida cotidiana burguesa e brota espontaneamente das condições de vida e trabalho sob o capital. É a antiga e surrada concepção de que de grão em grão a galinha enche o papo e que os revolucionários, de conquista em conquista na vida cotidiana, chegarão ao socialismo. Lenin, nos idos de 1903, ironizava esta postura comentando que o máximo em que resulta é ficar admirando o traseiro da classe operária. Quando a consciência das massas avançar para o patamar revolucionário, então essa esquerda passará a falar de revolução e de tomada do poder! Mas, se as massas já estão neste patamar, nada mais inútil do que tal pregação!

O desenvolvimentismo-petista, o "asinismo" e o basismo são, no fundo, o resultado histórico de uma esquerda que se desenvolveu tendo por finalidade a conquista da democracia contra a ditadura, uma esquerda que sempre foi democrática mas, raramente, foi revolucionária. A seu favor, deve-se assinalar que é uma esquerda que nunca pode contar com uma luta de classes digna do nome para ser na prática forçada a rever seus fundamentos teórico-ideológicos. Pode ser que nossos dias estejam a anunciar uma tal possibilidade e é também para esta possibilidade que devemos nos preparar. Com isto passamos ao segundo ponto, às tarefas da esquerda no momento presente.

As tarefas da esquerda na presente crise

Do ponto de vista de alguns poucos anos, a crise pode ter dois desdobramentos. As divisões internas às classes dominantes podem ser superadas, quer pelo seu esgotamento ao longo do tempo, quer pela derrota final de uma das facções em luta, e se repor, em novas bases, a normalidade do sistema do capital em nosso país. O pressuposto deste desenvolvimento é que a classe trabalhadora e o proletariado não adentrarão ao cenário político ou, se o fizerem, será sob o rígido controle da burocracia sindical e partidária originária da aristocracia operária. Neste caso, pouco ou nenhum papel poderão desempenhar as ideias revolucionárias. No máximo, poderão favorecer o fortalecimento dos agrupamentos mais à esquerda, não comprometidos nem com o desenvolvimentismo petista nem com o asinismo democrático e nem com o basismo.

Ou pode haver uma ascensão mais intensa dos trabalhadores e proletários, conferindo à crise um caráter mais agudo e profundo, abrindo possibilidades de uma luta de classes aberta entre o proletariado e a burguesia. Nesse caso, as propostas revolucionárias poderão ganhar, pela primeira vez em nossa história, amplas massas e – vitoriosa ou derrotada a ofensiva dos trabalhadores – nossa história jamais será a mesma. Apenas neste caso uma esquerda revolucionária poderá ter algum papel político relevante e é para esta possibilidade que devemos nos preparar. Não haverá maior equívoco do que não nos prepararmos para a possibilidade de uma crise profunda e para um choque de classes do proletariado com a burguesia. E não seremos capazes de enfrentar esta tarefa se não rompermos com o desenvolvimentismo petista, o asinismo e o basismo.

No presente quadro, as tarefas práticas mais decisivas são as teórico-ideológicas. As questões organizacionais estão subordinadas à essa tarefa central.

O desenvolvimentismo petista, o asinismo democrático e o basismo são, por necessidade interna insuperável, praticistas. Isto é, incapazes de converter a prática da luta política em estímulo intelectual para a compreensão cada vez mais aprofundada da realidade a ser transformada. Operam, na prática e na teoria, uma completa cisão entre o "teórico" e "prático". Estudar a história das revoluções, a essência do sistema do capital, a teoria da revolução etc. é, para tal concepção, mera perda de tempo e mero academicismo.

O resultado prático é que esta concepção entrega aos teóricos acadêmicos (essencialmente burgueses ou pequeno-burgueses, sem exceção) a elaboração teórica que orientará a "prática revolucionária", advindo daí, inevitavelmente, uma pletora de erros "práticos". Tais erros se condensam na incapacidade de acumulação de forças no longo prazo e, no imediato, na crise atual de todas as organizações da esquerda institucionalizada, que perdem militantes a cada dia que passa. Tais erros se expressam, ainda, na incapacidade de os práticos pensarem sua própria prática e, incapazes de crítica e autocrítica, ficam condenados sem remissão ao eterno "mais do mesmo".

Quando a crise se agudiza e quando não apenas os teóricos burgueses e a grande imprensa burguesa, mas também parte ponderável da consciência espontânea da população expressam a constatação de que está tudo errado, que este Estado não funciona, que esta democracia não entrega o que promete, que é preciso mudar tudo, neste momento carecemos de uma esquerda que seja capaz de oferecer aos trabalhadores em geral a verdade da situação.

E uma esquerda incapaz de dizer a verdade aos trabalhadores, deixou de ser esquerda há muito tempo!

A verdade da situação é, em um breve resumo:



  1. A incapacidade do Estado brasileiro em atender as necessidades da população em geral, a começar pelo desemprego e terminar pelos direitos dos aprisionados, tem suas raízes na crise estrutural do capital. Não há alternativa senão a superação do sistema do capital no seu todo, o que apenas pode ter início pela superação da propriedade privada.

  2. A corrupção e a bandalheira que atravessam o país, das agências bancárias aos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, do tráfico de drogas e de armas ao Presidente da República, dos presidentes das Escolas de Samba ao ex-presidente da Fiesp – e assim por diante – é o resultado mais evidente da democracia. Ao depositarmos nosso voto nas urnas, de fato e na realidade, entregamos aos políticos e burocratas o direito de fazerem a história em nosso nome. É parte essencial da verdade dos nossos dias que votar é abrir mão de fazer a história. Cabe à esquerda denunciar a democracia como o modo mais eficiente da burguesia enganar os trabalhadores, produzindo neles a ilusão de que participam da história e – ironia das ironias – a ilusão de que é dos trabalhadores a culpa da crise por não saberem em quem votar!

  3. Trazer ao debate a verdadeira solução para a crise, a única alternativa possível à situação em que nos encontramos: um governo dos trabalhadores, que se organize na forma da Comuna, isto é, pelo o controle dos produtores sobre o processo de produção da riqueza e que deixe na lata do lixo da história as mazelas da ordem democrático-burguesa.

A principal tarefa da esquerda, na presente crise, é realizar a mais ampla campanha teórico-ideológica a favor da revolução proletária, uma campanha que esclareça as massas sobre a verdade da nossa situação, que tenha a paciência história de explicar, explicar, novamente explicar e ainda, uma vez mais, explicar para os trabalhadores o porquê de não haver saída no capitalismo (se produzimos mais-valia, já está determinado como se dará a distribuição da riqueza: capital para os capitalistas, salário e desemprego para os trabalhadores etc.); explicar como a riqueza é produzida e, por isso, a necessidade de uma produção sob controle dos trabalhadores e a nova forma de organização social (a Comuna) que isto requer. Não enfrentar nenhuma questão singular da conjuntura sem demonstrar, com a melhor "didática" possível, as razões profundas da crise e a necessidade e possibilidade de uma solução revolucionária. Uma campanha que também demonstre a viabilidade histórica de uma nova forma de organização política, a Comuna, com base em ampla autodeterminação dos locais de trabalho e moradia, com representantes que não ganhem mais do que o salário do trabalhador e que possam ser removidos pelas bases a qualquer momento. E, por fim, uma ordem social na qual as milícias populares, os trabalhadores em armas, substituam o exército e a polícia. Em poucas palavras, preparar a "ofensiva socialista" (Mészáros) pela propaganda da mesma.

Do ponto de vista dos militantes, é imprescindível, ao menos, o conhecimento de textos como as Lutas de Classe em França, A Guerra Civil na França e Crítica dos Programas de Gotha e Erfurt, de Marx, além de O Estado e a Revolução, de Lenin. Tais textos deveriam se tornar a leitura de cabeceira de todo militante de esquerda. Além claro, de textos como os de Claudin, A crise do movimento comunista e de Trotsky, A história da revolução russa.

Uma campanha que coloque na ordem do dia a necessidade de superação do Estado, da propriedade privada, das classes sociais e da família monogâmica (o patriarcalismo): esta a tarefa principal da esquerda na presente crise. E, para tal, a esquerda institucionalizada é tão incapaz quanto os democratas mais radicais. Ficará para sempre presa ao asinismo, ao basismo e às teorias da moda como é, nesses dias, a tese do "desenvolvimentismo petista".

Como fazer isso, quais formas de organização, quais formas de luta político-ideológica que favorecem os revolucionários para que cumpram esta tarefa, são questões que só podem ser resolvidas a cada momento, segundo as condições de cada local e são soluções que, necessariamente, tenderão a evoluir com o avançar ou recuar da luta. Mas, definitivamente, o partido stalinista ou social-democrata está definitivamente enterrado como instrumento revolucionário. Serve, na sua máxima inflexão à esquerda, à colaboração de classes pregada pela burocracia sindical e partidária.



Que em cada local de trabalho e moradia em que haja um revolucionário, através de panfletos, jornais, brochuras, palestras, filmes etc. seja levada a verdade da nossa situação: o capitalismo precisa ser superado pelo socialismo e a Comuna é a via desta transição.

Temer a verdade, seja em nome do desenvolvimentismo petista, seja devido ao asinismo ou ao basismo, não é algo que deveria caracterizar os revolucionários!


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal