As pessoas que falam em proscrever a bomba atômica estão enganadas: o que devia ser proscrito é a guerra.”



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Encontro21.01.2018
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Tratado de desarmamento nuclear
Cesar Vanucci *
As pessoas que falam em proscrever a bomba atômica

estão enganadas: o que devia ser proscrito é a guerra.”

(Leslie Richard Groves, general americano, membro do

Projeto Mahattan”, que desenvolveu a primeira bomba atômica)


À hora em que se datilografa este texto, 42 países representados na ONU já apuseram assinaturas no “Tratado sobre a proibição de armas nucleares”. Para que possa entrar em vigor o documento carece ser referendado por, pelo menos, mais outros 8 países.
A proposta relativa à palpitante questão é de inspiração verde-amarela. Ponto para o Brasil. África do Sul, Áustria, México, Nigéria e Irlanda são os outros Estados que decidiram de pronto figurar, ao nosso lado, entre os signatários da medida. O texto final, elaborado há dois meses, proíbe os países membros da ONU desenvolverem, testar, produzir, adquirir, estocar armas nucleares, ou manter sob guarda qualquer outro dispositivo atômico com capacidade destrutiva.
Durante a 72ª Assembleia Geral da ONU, recém realizada em Nova Iorque, ocorreu ato solene, presidido pelo Secretário Geral Antônio Guterres, para coleta de assinaturas do documento. A primeira assinatura foi a do presidente Michel Temer. Nos pronunciamentos feitos na ocasião foi lembrada e condenada a existência, espalhados por todos os continentes, de aproximadamente 15 mil artefatos atômicos. Ressaltou-se que essas armas apocalípticas colocam em risco permanente a paz mundial, ameaçando a própria sobrevivência do ser humano sobre a face deste planeta.
O distinto leitor está absolutamente certo ao imaginar que a Coréia do Norte, do “supremo líder” Kim Jong-un, não quer nem ouvir falar do tratado. Não está sozinha na enfurecida discordância. São muitos os estados membros da ONU que se recusam a admitir qualquer debate em torno do desarmamento nuclear. Eles, todos eles, são detentores de arsenais em condições de arrastar o mundo para o avassalador armagedom das profecias. Os Estados Unidos já declararam não ter intenção de assinar, ratificar ou jamais se tornar parte do acordo celebrado. Declaração recebida sem nenhum espanto. O presidente Trump, personagem de gestos e linguagem destemperados, sente-se inteiramente à vontade no papel de clonar George Bush como “xerife mundial”. Indoutrodia, na tribuna da ONU, proferiu discurso considerado mundo afora de uma arrogância e agressividade incomuns. Sustentou, para estupefação geral, que os diálogos visando soluções multilaterais violam os interesses das nações.
O Reino Unido e a França, em comunicado conjunto, deixaram claro a disposição de fazer o mesmo. Da China e Rússia não se espera ajam diferentemente. E que ninguém se iluda, supondo não seja este também o posicionamento dos demais integrantes do “clube atômico”, Israel, Índia e Paquistão. A conferir, as posições da Alemanha, Canadá e do Japão, entre outros.
O Tratado alcançará, com certeza, o quórum exigido para promulgação pela ONU. Não deixa de traduzir, mesmo que apenas parcialmente, como bela e inalcançável utopia, anseio majoritário da sociedade humana. O que no sentimento mundial verdadeiramente se almeja, entretanto, é a proscrição, não apenas das armas nucleares, mas de todas as armas, de todas as guerras. As guerras, no dizer de Horácio, abominadas pelas mães.
Mas, nada de ilusões. O documento – fácil adivinhar – não passará de uma manifestação de razoável efeito moral, mas de duvidosa eficácia prática. A história acumula decisões e resoluções sem conta, no âmbito da ONU, solenemente desrespeitadas por muita gente. Os palestinos, proscritos em sua própria terra, na tormentosa expectativa, de várias décadas, da configuração definitiva de sua pátria, conhecem a fundo esse nó górdio difícil de ser desatado.
* Jornalista (cantonius1@yahoo.co.br)


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