As fronteiras do bem e do mal: análise psicojurídica dos personagens da trilogia do cavaleiro das trevas



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AS FRONTEIRAS DO BEM E DO MAL: ANÁLISE PSICOJURÍDICA DOS PERSONAGENS DA TRILOGIA DO CAVALEIRO DAS TREVAS

Sofia Rocha Uchoa*

Yasmim Fernanda de Lima Holanda**

Alan Duarte Araújo***

Daniel Camurça Correia****

Resumo: Busca-se com este artigo analisar a construção do bem e do mal nos personagens da trilogia do filme do Cavaleiro das Trevas. A partir da apresentação das ações dos personagens, a direção edifica junto ao público, principalmente de jovens e adultos, imagens muito sólidas acerca da justiça, do certo e do errado. Porém, isso não quer dizer que sejam imagens condizentes com a realidade. Pelo contrário, deseja-se, neste texto, questionar a construção da ética e das leis na referida produção cinematográfica.

Palavras-chave: Justiça; ética; cinema; comportamento.

INTRODUÇÃO

O Batman teve sua primeira história publica em maio de 1939, na revista Detective Comic Magazine #27, com a história The Case of Chemical Syndicate, a arte feita por Bob Kane e o roteiro de Bill Finger. O personagem foi criado logo após do lançamento do Super Homem, com a proposta dos seus criadores de fazer um novo herói oposto a ele. Enquanto, que o Clark Kent veio de Kripton, andava sobre a luz e sem máscara, Bruce Wayne era humano, das trevas e mascarado.

A Trilogia dos filmes do Batman (Batman: Begins (2005); The Dark Knigh (2008); The Dark Knight Rises(2012)) dirigida por Christopher Nolan que também foi coautor, inspirou nos quadrinhos, uma de suas metas era também contrastar com filmes anteriores. O diretor apresentou um herói sombrio e solitário, além de focar na origem do protagonista.

Nolan sempre apresentou em seus filmes um viés psicológico da trama, como no Inception (2010), trazendo aspectos inovadores, como na Trilogia, que ele propôs a exposição da dicotomia do bem e do mal.

O objetivo do presente texto é analisar a forma como o produtor e os roteiristas abordaram a polarização do bem e do mal, supervalorizado dentro de cliques estáticos acerca da compreensão das subjetividades dos homens, o qual não condiz com a realidade.

A problemática consiste em expor como o diretor constrói a dicotomia do bem e do mal, limitando as decisões humanas a partir de conceitos abstratos e generalistas. Como as influências exteriores influem no agir ético do Batman? Questionando se os vilões são recuperáveis ou não de acordo com o que é apresentado pelo filme, sobre a ótica de Immanuel Kant e Jean Paul Sartre. Sendo assim, indaga-se sobre a influência dos traumas na formação de mundo do indivíduo.

Para responder aos problemas levantados foi elaborada uma metodologia de pesquisa que aponte como a questão do contraste do bem e do mal foi abordada pelos produtores. Por isso, a pesquisa tem caráter bibliográfico, para analisar a maneira pela qual a dicotomia pode ser apreendida dentro da direção cinematográfica de Nolan. Da mesma forma, foi realizado um arrolamento de diferentes cenas, nas quais se busca discutir as ações tomadas pelos personagens, em determinados momentos, para entender a fronteira estabelecida pelos produtores e roteiristas do bem e do mal.

No primeiro momento, foi observado o filme Batman Begins, o qual narra a história do personagem Bruce Wayne e revela quais fatores levaram-no a assumir o papel do justiceiro Batman. O enredo expõe os traumas sofridos por Bruce na infância, como a queda dele em um poço repleto de morcegos e a morte de seus pais. Relata ainda todo o processo de formação do vigilante através do treinamento físico e mental no qual Bruce se submeteu ao ser orientado pelo mentor Ra's Al Ghul e explicita também a importância do protagonista para a cidade de Gotham City, pois este, como protetor da cidade, combate os criminosos locais, através do uso eficaz do medo.



The Dark Knight, o segundo filme da trilogia cinematográfica. O herói se mostra já afamado em Gotham City, gerando medo nos criminosos locais e possuindo até mesmo apoio de uma fração da polícia local. Na trama, o protagonista terá de duelar com dois dos vilões mais perigosos da cidade, Coringa e Duas Caras, e, como consequência da disputa, muitas tragédias ocorrem, incluindo a morte da melhor amiga de Bruce Wayne e destruição da mansão Wayne. No filme, o Cavaleiro das Trevas tem seus princípios testados ao extremo durante o duelo com o Coringa, fato que, posteriormente contribui para a impopularidade do herói na cidade.

Por fim, examina-se o terceiro filme da trilogia Batman, The Dark Knight Rises. Iniciada com a exposição da vida do Bruce Wayne oito anos após ter perdido sua amada Rachel Dawes, no filme The Dark Knight, e ter renunciado sua vida como justiceiro, ou seja. No entanto, um criminoso chamado Bane, antigo membro da Liga das Sombras (da qual já participou o Bruce), acompanhado de uma série de terroristas, ameaça destruir Gotham City. Este fato leva o Bruce a novamente atuar como o Batman na intenção de proteger sua cidade.

Assim as cenas foram comparadas e analisadas sob a ótica de alguns filósofos, para observar a relação de diversão e ação proposta pelo filme, na mesma medida em que elabora um sentido de ética e justiça, dentro da polaridade estanque de bem e mal.

BATMAN EM CONFRONTO COM A REALIDADE

Em Batman Begins (2005), a trama inicia com a infância do personagem Bruce Wayne. Ele, brincando com a sua amiga Rachel, cai em um poço fundo, escuro e cheio de morcegos que voam na sua direção, gerando nele um grande trauma. Este trauma faz com que, através de um pesadelo, Bruce relembre desses fatos e acorde assustado em prisão, na qual ele se dirigiu para buscar entender as mentes criminosas, como forma de se disciplinar.

Diferente de um indivíduo qualquer, Bruce se tornaria um homem com ideais, nada conseguiria detê-lo – nem a raiva, dor e medo –; se tornaria uma lenda, devendo ser mais que um simples indivíduo na mente do inimigo. Na medida em que constrói o Batman, Bruce diz que o mesmo tem que ser um símbolo, pois assim ele não seria corruptível, levando ao questionamento então que o homem comum está suscetível à corrupção, e que ele deveria usar uma máscara para não descobrirem sua verdadeira identidade e pôr em risco quem ele ama.

Da mesma forma, o personagem é apresentado como um homem acima dos demais, o qual não pode ser visto como um humano, significando dizer que o personagem estaria acima do bem e do mal, inquestionável em suas decisões.

Então, Bruce dirige-se até o Templo da Liga, e diz que procura fazer Justiça, usando o medo contra aqueles que causam medo. O herói faz isso por meio do Batman, ele construiu um herói com a imagem parecido com o que ele tem mais medo, morcego. Assim, aprende que só poderá aterrorizar os outros, se ele conseguir controlar e liderar o próprio medo.

Ao voltar para o presente, Bruce chega ao final do seu treinamento, e se depara com um desafio, ter que executar um assassino a mando do mestre Liga das Sombras, Ra's Al Ghul, para poder fazer parte dela. Ele hesita, e o seu mestre diz que Bruce nunca se comprometerá com a Justiça, se ele tiver compaixão, e que esse é o problema da sociedade, tolerar e ser compreensivo com o crime.

Para a Liga, a justiça era eliminar a ameaça, eles acreditavam que Gotham não tinha mais salvação, e queria que Bruce fizesse parte da Liga das Sombras, para destruir Ghotan City. Bruce não aceita e, depois de um confronto mortal, volta para Gotham, iniciando sua trajetória de combate aos crimes e a corrupção.

Na sua luta diária como vigilante, ele encontra no Policial Gordon, um apoio, por ele ser um dos poucos ainda honestos. Além, do suporte de Lucius Fox que fornece ao Bruce dispositivos e o carro para o Batman. E tem como seu fiel escudeiro, o seu mordomo Alfred.

Esses são os fatos marcantes, que vão definindo e fomentando o caráter do herói. Ao analisar o filme, é perceptível nos dois personagens, Batman e Ra’s Al Ghul visões diferentes do que é ser bom e justo, bom e mal. Em uma cena na qual se passa na casa do Bruce, durante o seu aniversário, ele vê que está presente entre os convidados o Líder da liga das Sombras. Após expulsar os convidados, eles iniciam um diálogo.

Ra’s Al Ghul, avisa que nenhuma das pessoas de Gotham viverão por muito tempo. Logo, o Batman descobre que o Dr. Crane – que utiliza uma substância psicótica que, ao ser aspirada em grande concentração, gera alucinações desenfreadas, medo e um forte descontrole na mente, a não ser que a vítima tome o antídoto rapidamente – estava trabalhando para o seu antigo mestre. Este, afirma que essa substância psicótica, se tornou uma arma que vai ajudar a destruir toda a cidade pelo medo. Batman questiona sua atitude, pois destruirá milhões de vidas, entre elas inocentes, e pede mais tempo para salvar Gotham. Ao Ra’s Al Ghul recusar, Batman afirma que impedirá a destruição da cidade. (NOLAN, 2005, 1h45min02seg).

É perceptível que durante essa cena, os produtores criam um cenário que expõe de forma clara a oposição entre os dois personagens, mostrando qual o bom e o mau. Na descrição da cena feita por Matheus Felipe Barbosa e Alves:
Bruce Wayne e Ra's Al Ghul, o cenário de fundo de Bruce é ligeiramente mais claro que o setor do cenário em que Ra´s Al Ghul se encontra, uma jogada de luz e sombra, bem e mau. Os personagens mudam de lugar ao ser incendiada a casa pelos capangas do líder da Liga das Sombras e, Ra's Al Ghul, passa a ter chamas atrás de si, o que nos alude a uma visão do inferno, colocando-o em uma posição de referência ao demônio. (ALVES,2013)

O Líder da Liga das Sombras deseja utilizar essa substância para destruir Gotham City, gerando na mente da população um medo exacerbado, destruindo-os. Isso mostra o quanto o filme trabalha a mente humana e retrata também a realidade atual do aumento do número de pessoas diagnosticadas com problemas psicológicos e desequilíbrio psiquiátrico devido à fragilidade da mente que pode gerar a prática do suicídio.



O Batman se questiona o que é considerado certo e justo para o seu mestre, e não aceita as verdades dele como absolutas. Se contrapondo à sociedade atual, com autoridades públicas que criam imagens do que é certo, para justificar suas ações e fingir que está tudo bem, que a economia está crescendo, que a pobreza está diminuindo e que o crime está sendo controlado. Enganando uma sociedade que não mais critica e questiona essa verdade, apenas a aceitam e se conformam.

No seio de seu lar, passou a infância envolta em opulência e em uma cultura onde o bem material é o mais importante, onde parecer bem para os vizinhos era o essencial. A crítica que os ativistas da contracultura apresentavam para com esse modelo adotado pelos seus pais é que esses “renunciaram à sua responsabilidade de tomar decisões de valor, de gerar ideias, de controlar a autoridade pública, de salvaguardara sociedade contra os rapinantes. (NOLASCO, 2014, p.2)



No decorrer do filme, percebe-se no seu roteiro o contexto com a realidade atual, com uma população corrompida e políticos desonestos que criam sua teia de corrupção. A pobreza e a fome, o aumento da criminalidade e a insensibilidade das pessoas diante disso, que ficam escusas a essa realidade. Analisando que poucos personagens, realmente se preocupam para mudar essa situação, o Batman, a Rachel (promotora) e o policial Gordon, que tentam combater esse sistema.

Pensado para ser exibido em salas de cinema, o filme atinge um público específico em um local pré-determinado, tendo um nível de atenção por parte dos espectadores, geralmente um pouco maior do que em outras circunstâncias de exibição. (...) A ideia de ir ao cinema, indica uma pré-disposição a ter maior atenção, ainda mais no que diz respeito a um filme de ação(...). Consequentemente, se há uma maior atenção, também haverá uma maior assimilação do conteúdo ofertado. (ALVES, 2013, p.4).


Então, o filme, por passar uma imagem de mudança social, de crítica ao sistema, é direcionado aos jovens, que são o sinônimo de mudança, de combate ao modismo e conformismo. Os jovens que irão ao cinema são os interessados pelo filme, e construirão no seu íntimo uma ligação do filme com a realidade vivida, e sentirão a necessidade de provocar essas mudanças, como os personagens do filme. Servindo o Batman como um símbolo da mídia, na articulação da mudança social. (ALVES, 2013)

Pela primeira vez na história, a juventude, nas últimas décadas, transformou-se em ator social e agente de mudança. A juventude se constituiu como um grupo social independente, com algumas das oportunidades de agir decorrentes disto. Em segundo lugar, os jovens experimentam mudanças na sociedade em um grau e profundidade sem precedentes. (TUFTE, 2010, p.66 e 67).


Matheus Felipe Barbosa e Alves afirmam que o "(...) cinema sempre oscilou entre dois polos, o de fornecer um novo padrão de representação realista e (simultaneamente) o de apresentarem sentido de irrealidade, um reino de fantasmas impalpáveis” (GUNNING, 1996, p.25). A história do filme traz claramente a associação com a realidade vivida, e o sentido de irrealidade é perceptível na ideia da existência de um herói. No decorrer do filme é mostrado como é difícil ser um herói, ter que manter um disfarce (Bruce Wayne) e ter que ser um herói (Batman). Como herói, combatendo o crime adquire sequelas, sofrendo com hematomas, ossos quebrados e o surgimento de mais vilões somente pelo interesse de eliminá-lo.

Isso faz o Batman desfalecer, se aposentando no decorrer da trilogia devido as suas limitações. Esse contexto é retratado no último filme (The Dark Knight Rises, 2012), que ele questiona o fato que o herói foi criado para resolver o trauma de medo de morcego. Esse medo o fez querer sair do teatro mais cedo quando criança, acreditando que se eles não tivessem saído mais cedo, seus pais estariam vivos, se culpando por muito tempo desse fato. Ele percebe que o Batman não está mais ajudando a superar o trauma, está agora o consumindo e consumindo sua saúde, sem elas não existe nem Bruce Wayne, nem Batman. Porém, ainda sentindo esse fardo ele sente vontade e necessidade de voltar à ação.

ANÀLISE PSICOLÒGICA DA CONSTRUÇÃO DA DUALIDADE NO BATMAN
      1. Através da análise das trajetórias desenvolvidas pelos autores dos personagens da série cinematográfica Batman, de Christopher Nolan, é possível estabelecer um paralelo entre as histórias das figuras ali apresentadas, Bruce Wayne, Harvey Dent e Coringa. Foi exposto de forma nítida, no segundo filme da série, The Dark Knight, que ambos os personagens passaram experiências traumáticas, entendidas como situações experimentadas que ameaçam de alguma forma à integridade física ou psicológica destes.


Entretanto, ao passo que uma tragédia aproximou os três personagens citados, os sentimentos atribuídos pelos criadores a cada um deles, como consequência das experiências negativas nas quais eles foram impostas, contribuíram para distanciá-los. Dessa maneira, auxiliando na formação do perfil de cada um desses tipos, servindo, também, como base para preestabelecer quais deles, a partir do trauma, seguiriam como vilões ou como heróis no enredo.

Uma análise psicológica a partir das experiências negativas apresentadas se faz necessária para esclarecer o motivo de Bruce Wayne, a partir do seu trauma, ter tido o seu destino construído em torno da figura de um justiceiro e os vilões terem sidos expostos de forma negativa. Dessa forma, entende-se que para compreender o destino que os autores conferiram a cada personagem é preciso expor não somente os traumas de cada um, mas os fardos nos quais foram recebidos após tais fatos e a percepção dada de forma individual a eles.

Segundo Moacy Cirne (1997, p.86-108), os existencialistas, como Sartre, pensavam: estamos condenados a construir o nosso próprio destino, a suportarmos o fardo no qual escolhemos pra si. Dessa forma, os criadores dos personagens postos em pauta, ao atribuírem a eles destinos diferentes a partir de seus traumas, atribuíram-lhes fardos que os marcariam de maneira contundente. Tais ônus, na vida real, são associados pela psicologia, pelo viés existencialista, às emoções e aos sentimentos nos quais as pessoas carregam consigo e estes, por consequência, somente existem devido à forma distinta que cada pessoa interpreta o mundo a sua volta.

Na obra “Esboço para uma teoria das emoções”, Sartre afirma: “A emoção é uma certa maneira de apreender o mundo” (SARTRE, 2006, p. 57). Logo, todo e qualquer destino desejado por um indivíduo e, nesse caso, elaborado por um autor para um personagem, parte inicialmente da maneira que aquela pessoa interpreta o mundo ao seu redor ou da forma na qual é idealiza a interpretação do exterior daquele personagem.

Sabe-se ainda que a emoção é um advento que surge quando o individuo por algum motivo não consegue superar a barreira na qual está vivenciando, não conseguindo, portanto, compreender o que esta a sua volta, e, desta forma, se força de maneira espontânea a encarar tal fato por outro aspecto, buscando apreendê-lo de modo mais simples.

[...] Emoção é uma transformação do mundo. Quando os caminhos traçados se tornam muito difíceis ou quando não vemos caminho algum, não podemos mais permanecer num mundo tão urgente e tão difícil. Todos os caminhos estão barrados, no entanto é preciso agir. Então tentemos mudar o mundo, isto é, vivê-lo como se as relações das coisas com suas potencialidades não estivessem reguladas por processos deterministas, mas pela magia. Entendamos bem que não se trata de um jogo: estamos acuados e nos lançamos nessa nova atitude com toda a força de que dispomos. Entendamos também que essa tentativa não é consciente enquanto tal, pois então seria o objeto de uma reflexão. Ela é antes de tudo a captura de relações novas e de exigências novas. Só que, a captura de um objeto sendo impossível ou engendrando uma tensão insustentável, a consciência capta-o ou tenta captá-lo de outro modo, isto é, transforma-se precisamente para transformar o objeto. (SARTRE, 2006, p.63-64).

Portanto, se é a emoção gerada a partir de uma barreira de percepção que guia as pessoas a terem uma nova interpretação do mundo, é essa mesma emoção a origem da ânsia dos indivíduos de se determinarem, de construírem seus destinos, seus fardos.

Diante disso, ao retomarmos os traumas dos personagens da Trilogia Batman, é possível compreendermos o porquê de diferentes rumos que estes seguiram ao partimos do pressuposto que seus autores idealizavam que cada um tivesse uma interpretação particular do mundo e consequentemente emoções e futuros individualizados.

Por meio da análise do caso do promotor Harvey Dent, percebe-se que sua visão do mundo, anterior à morte da sua namorada e à deformação do seu rosto causada por um criminoso de Gotham, limitava-se a uma idealização de justiça quase inatingível, na qual ele se via e se determinava como um herói, uma figura inspiradora para os demais cidadãos da cidade. Entretanto, após o trauma exposto no segundo filme da trilogia, Dent não mais consegue ter em si o desejo de promover a justiça perante a lei, uma vez que, o mesmo sofreu com a injustiça de uma forma irreversível, afetando o seu lado emocional. Dessa forma, os autores deixaram transparecer que o promotor percebe que o fardo carregado como representante da lei e do justo lhe era pesado demais, fazendo com que, a partir do trauma, Harvey Dent, devido a sua nova interpretação de mundo, tornasse-se vilão, assumindo um novo destino.

Já Bruce Wayne, após a sequência de traumas na qual sofreu, inicialmente, a queda em um poço repleto de morcegos e, posteriormente, ter presenciado o assassinato dos pais, procurou manter a apreensão dos fatores externos que possuía previamente. Não por não ver na morte dos pais uma barreira intransponível, mas por, provavelmente, ter sido criado em um ambiente estável e com os bons exemplos dos pais, que eram um casal de milionários no qual investiam de maneira exemplar e altruística em uma cidade marcada pela violência, corrupção dos agentes públicos e outras mazelas sociais. Dessa forma, ao analisar o contexto que os criadores do personagem Bruce Wayne atribuíram a ele, pode-se afirmar que seus pais o motivaram, de certa forma, na fase adulta, a atuar como o Batman, pois o justiceiro age de maneira altruística em Gotham, tal qual o casal Wayne.

Os criadores da figura Batman, no entanto, fazem como que ele vá além do papel que os milionários Wayne exerciam, fazendo-o criar para si o seu novo destino, o seu fardo: ser o responsável por cessar com o caos de Gotham City, combatendo crimes todas as noites de maneira quase não opcional, pois sua consciência não o permite fazer de maneira diferente.

Contudo, como já foi dito, todo fardo carrega consigo a percepção do mesmo e os criadores do Batman concederam-no também esse entendimento, quando, no filme The Dark Knight, o herói afirma para a sua melhor amiga Rachel Dawes que o dia dele cessar sua carreira como justiceiro e protetor da cidade está próximo, prevendo que o promotor Harvey Dent deve o substituir como defensor. No entanto, o personagem não se desprende do seu ônus, permanecendo responsável pelo destino que escolheu. Como se ele, de certa maneira, apesar de suas obrigações, sentisse um prazer irrefreável de manter-se na posição de zelador de Gotham.



O Coringa, por sua vez, entre os personagens expostos no segundo filme da série, é o melhor exemplo que cada pessoa vive a dor de forma distinta, justamente por partir do pressuposto que cada uma interpreta o mundo de maneira individual. Entretanto, para se afirmar que um indivíduo se determina, necessitaria, na lógica existencialista, que ele primeiramente tenha emoções e, antes de tudo, que ele faça juízo de valor dos fatores externos, mas como falar de consciência para um psicótico?

No filme The Dark Knight, o Coringa se mostrou indiferente e em relação às tragédias, sejam as que ele viveu ou as que ele causou, pondo em relevo a sua provável patologia. Fornecendo margem para interpretação quando afirma: “Eu acredito que tudo que não te mata, te deixa mais estranho” (NOLAN, 2008). Logo, entende-se que independente da real história por trás das cicatrizes faciais atribuídas ao personagem é dedutível que a maneira que ele adquiriu tais marcas foi o seu trauma, experiência na qual não lhe causou a morte, mas que, provavelmente lhe gerou sequelas, lhe deixou “mais estranho”, com alguma patologia psicológica.

Assim, os autores do Coringa, ao criarem tal vilão partiram da dimensão existencialista que um psicopata não possui compreensão de mundo, logo não vê empecilhos, nem expressa emoções como todas as outras pessoas e, portanto, não sente os fardos nos quais carrega, não sente sequer as mortes que causa. No filme, aquele vilão, em um dos seus diálogos com o protagonista Batman, revela nem mesmo se importar com a própria morte, fato que faria uma pessoa sã expressar medo ou pânico, chegando a rir quando o herói poupa a sua vida e falando em tom de deboche: “Você não vai me matar por algum senso de falso moralismo inapropriado e eu, não vou matar você, por que você é divertido! Acho que nós dois estamos destinados a fazer isso pra sempre!” (NOLAN, 2008).

Portanto, a análise em conjunto das histórias traumáticas atribuídas aos três personagens, Bruce Wayne, Harvey Dent e Coringa, e das suas reações posteriores a tais experiências estão de acordo com a teoria existencialista, com a fenomenologia sartreana. Expondo-os conforme a percepção individual dos fatores externos nas quais foram idealizadas pelos seus criadores, resultando na determinação de cada uma das figuras entre ser vilão ou herói e suportando ou não as responsabilidades escolhidas pra si.



PESPECTIVA KANTIANA NA ANÁLISE DO BEM E DO MAL NOS FILMES DO BATMAN.

Os filmes do Batman pretendem mostrar, como personagem principal, um ser sobre-humano, que está acima das leis e encarna o bem absoluto, servindo de inspiração para os telespectadores. No entanto, será que a existência de tal personagem condiz com a realidade?

Para Kant, o homem possui uma disposição originária para o bem, o que a primeiro momento corroboraria com a intenção do Nolan ao criar o personagem Batman. No entanto, tal disposição não se traduz necessariamente no bem, ou seja, ela pode ser corrompida e não vir a se manifestar na realidade, ficando tão somente na natureza humana. Para que tal disposição originária se concretize, é preciso a adoção de uma lei suprema, a priori, que guiará a conduta humana.

Preocupa-se, portanto, em fundamentar a prática moral não na pura experiência, mas em uma lei aprioristicamente inerente a racionalidade universal humana; quer-se garantir absoluta igualdade aos seres racionais ante a lei moral universal, que se expressa por meio de uma máxima, o chamado imperativo categórico […]. (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p.271)

Imperativo este que trará a ideia de que se deve agir, segundo uma máxima, querendo que tal máxima seja uma lei universal, a qual encontra um fim em si mesma, não buscando nenhum outro fim. Nesse sentido, a disposição originária do homem para o bem só será efetiva no momento em que ela contemplar tal imperativo categórico. (PINHEIRO, 2011, p.54)

Como já dito, tal precedência do bem não significa que este irá se concretizar de fato, logo, o homem ainda poderá cometer ações más. Este embate criado entre o bem e o mal é realizado no campo da “intenção”.

O mais fundamental e característico do conceito de intenção é o fato dela atuar como uma máxima suprema e de ser única. […] Quer dizer, se a intenção for boa, as máximas dela derivadas serão forçosamente boas; se for má, todas as máximas serão más. E sempre a mesma intenção que esta subjacente a todas as ações referentes a moralidade (por isso, ela é uma máxima suprema). (PINHEIRO, 2011, p.55)

Dado o embate entre o bem e o mal no campo da “intenção” e a despeito da disposição do homem para o bem, Kant também pautará, por mais contraditório que possa parecer, que o homem possui uma inclinação natural para o mal, chamado mal radical, como descreve Correia (2005, p.83) “O mal radical, tal como o concebe Kant, está intimamente relacionado ao problema da liberdade, mas particularmente também ao que ele julga ser uma predisposição natural do homem a inclinar-se a ceder às suas apetições.” Tal “mal radical” irá se manifestar corrompendo a vontade livre, que é boa por seguir os princípios morais. Logo, quando o homem que se desvia do bem, não escolhe livremente, ou seja, sua vontade é vítima de suas inclinações.

Este pensamento kantiano se relaciona de maneira clara com os possíveis questionamentos feitos a partir da análise dos filmes do Batman. Nolan, o diretor, tenta criar um personagem que está acima da moral humana, sendo uma espécie de categoria absoluta do Bem. Tal tentativa se revela quando no filme Batman Begins mostra uma série de traumas que o personagem Bruce ainda garoto passou, como a morte dos pais, a queda em um poço escuro cheio de morcegos, e ainda assim, ele assume um superego, o Batman, e, demonstrando que não pode ser afetado negativamente por traumas, continua a perseguir o seu ideal de justiça e a combater o mal com os seus meios.

No entanto, percebe-se que o Batman não segue os princípios morais universais, logo sua vontade não é livre nem justa. Tal constatação é feita, pois se universalizarmos algumas de suas ações, como agredir policias, destruir patrimônio alheio e fugir da polícia, geraria um caos sem tamanho, principalmente em cidades grandes, como a idealizada Gotham. Logo, por suas ações não estarem de acordo com o imperativo categórico, sua vontade não é livre, ou seja, sua vontade não é boa. Como sua vontade é má e seu agir não é livre, é cabível a conclusão de que sua vontade inicial, pautada pela sua disposição originária para o bem, foi vítima de inclinações exteriores a ele.

No filme The Dark Knight, o Batman se vê dividido entre escolher salvar o promotor Harvey Dent e sua amada Rachel Dawes, e ele prontamente escolhe esta ao invés daquele, mostrando uma clara inclinação amorosa, revelando que a parcialidade inerente aos justiceiros (caso contrário seriam meros vingadores) só é cabível quando o assunto não lhes diz respeito, ou seja, quando não fere o âmbito pessoal deles. Ademais, no filme The Dark Knight Rises, o Alfred, mordomo de Bruce, vendo que este está na iminência de voltar a agir como Batman, afirma que tal escolha o levará à ruína, Bruce o contrapõe deixando transparecer que ele se sente culpado pela morte da Rachel, seu antigo amor. Logo, sua jornada heroica se revela uma busca por sanar a culpa que ele sente, a qual também é oriunda pela morte de seus pais. (NOLAN, 2012)

Ademais, em outra cena deste terceiro filme da Trilogia, quando o Bruce afirmará para o Alfred que a cidade precisa que ele volte a agir como Batman, o seu mordomo questionará alegando que Gotham não precisa mais da força do Cavaleiro das Trevas, mas dos recursos e da inteligência do Bruce Wayne em si e que se ainda sim ele desejar atuar como justiceiro é porque quer, e não porque precisam dele. Logo, percebe-se que a jornada do Batman também é em prol do seu próprio prazer. (NOLAN, 2012)

Nesse sentido, nota-se que o agir do Bruce não é um agir por dever, mas conforme o dever, visando uma finalidade. Por tal ação não ser boa em si, apenas como meio para algo, é que ela se revela um imperativo hipotético, como aduz Bittar e Almeida (2005, p.272) “[...] o imperativo que se refere à escolha dos meios para a própria felicidade, isto é, o preceito da sagacidade, é hipotético, a ação não é enviada em absoluto, mas sim como simples meio para outro propósito”.

Observa-se que se o homem agir por vontade livre, tendo em vista sua disposição originária para o bem, tal ação será considerada boa, logo guiada por um imperativo categórico, bom em si. Por outro lado, se o homem deixar-se guiar pelo mal radical, sendo sua vontade vítima de suas inclinações, sua ação não será nem livre nem boa, estando então de acordo com o imperativo hipotético, suas ações serão conforme o dever e, por isso mesmo, não éticas. Conclui-se que as ações do Batman, do ponto de vista kantiano, não são boas nem éticas. Constata-se claramente tal linha de raciocínio quando o Batman, no filme The Dark Knight, para conseguir uma informação de um criminoso, quebra as pernas deste, apenas para conseguir o que quer rapidamente. Desse modo, percebe-se que o suposto justiceiro usa outro homem, não como um fim em si mesmo, mas como um meio para se alcançar algo.

Ademais, durante toda a trilogia dos filmes do Batman, o diretor Nolan criará, diversas vezes, criminosos, arqui-inimigos do Cavaleiro das Trevas, como se eles fossem o Mal absoluto. Tal constatação fica evidente no filme Dark Knight Rises quando o Bane, diz para o Batman “você acha que a escuridão é sua aliada? Você só adotou as trevas. Eu nasci nelas, fui moldado por elas. Eu só vi a luz depois de adulto e só o que ela fez foi me cegar” (NOLAN, 2012). Ademais, tal construção maligna feita em volta do Bane é constatada quando tanto ele quanto o Bruce caem em uma prisão que se localiza no fundo de um poço e tal acontecido não afetará este, apenas aquele.

Nesta construção do Bane, ele é posto como um ser mal, que não possui mais capacidade de reabilitação, merecendo a “justiça” que poderá ser proporcionada pelo Batman. No entanto, para Kant, por mais que o homem se deixe guiar pela sua inclinação para o mal, há ainda possibilidade de progresso moral, de uma restauração, tal como afirma Pinheiro (2011, p.53) “progresso moral, descrito por ele [Kant] nos termos de um resgate, porque se trata tão somente de uma revitalização de um bem que já está contido no humano e não de uma apropriação de algo exterior a ele” Tal progresso moral consiste na revolução e reforma gradual, sendo esta uma transformação no agir, precedida pela revolução, como uma transformação no campo da “intenção”, da máxima suprema.

No filme Dark Knight Rises mostra uma cena na qual o Bane, antes de possuir os traços de vilão que o caracterizam (tais traços são mais uma constatação de que o diretor do filme quis realizar uma construção simbólica na imagem do próprio Bane, como se ele fosse a encarnação do Mal), quando se encontrava na prisão, localizada no fundo do poço, arrisca sua vida para salvar uma criança que ele não conhecia. Logo, ele a salva, sem motivo exterior algum, apenas pelo simples dever de salvá-la. Esta criança se revelará futuramente como a Miranda Tate, empresária que fingiu ser amiga do Bruce. Tal cena pode levantar o questionamento acerca da existência fática da dicotomia mostrada no filme acerca do bem e do mal e se o Bane realmente representa o Mal.

Portanto, por mais que o ser humano possua uma disposição originária para o bem, ele não está livre de sua inclinação natural para o mal e por mais que um indivíduo seja considerado mal, ou seja, mesmo que sua disposição originária tenha sido corrompida por suas inclinações, ele ainda contempla a possibilidade de se restaurar. Conclui-se então que categorias como Bem e Mal não são definitivas e que a virtude do homem consiste na “resistência ao mal em nome de uma conduta moralmente boa.” (PINHEIRO, 2011, p.68)



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para finalizar este texto, acredita-se que o filme apresenta efeitos verídicos. O diretor, a partir das revistas em quadrinhos, associado a uma dada compreensão do presente, constrói uma imagem muito difusa a respeito do bem e do mal. Cenas de violência e crime são constantes no meio de comunicação. Mas, isso não quer dizer que alguém, rico ou pobre, tenha a legitimidade de usar a força, como quiser, para atuar na sociedade a despeito das leis.

Na mesma medida, acusar o criminoso de louco, demente, doente, também não resolve o problema. Questões psicossociais precisam ser inseridas no debate. Os filmes dão a entender que todas as cidades precisam de um Batman. Neste artigo, acredita-se que as cidades precisam de políticas públicas.

REFERÊNCIAS

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* Estudante do 3° semestre do Curso de Direito (UNIFOR). Email: sofiarocha10@hotmail.com

** Estudante do 4° semestre do Curso de Direito (UNIFOR). Email: yasmimholanda@hotmail.com

*** Estudante do 3° semestre do Curso de Direito (UNIFOR). Email:duartealanaraujo@hotmail.com

**** Doutor em História (PUC/SP). Mestre em História (PUC/SP). Graduado em História (UFC). Professor da disciplina de Filosofia do Direito (UNIFOR). Líder do Grupo de Pesquisa em Filosofia do Direito (UNIFOR). Email: daniel.camurca@unifor.br


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