As diferentes ideias sobre a divindade de Cristo conduziriam a conflitos



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As diferentes ideias sobre a divindade de Cristo conduziriam a conflitos

Este foi o cenário em que a doutrina da trindade surgiu. Nessas primeiras décadas após o ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e incluindo os primeiros séculos que se seguiram, várias ideias surgiram quanto à Sua exata natureza. Foi Jesus Cristo um homem? Era Deus? Era Deus em figura de um homem? Foi uma ilusão? Foi um simples homem que se tornou Deus? Foi criado por Deus Pai ou existia eternamente com o Pai?

Todas essas ideias tiveram seus proponentes. A uniformidade de crença da Igreja original foi perdida com as novas crenças que muitos tomavam emprestado ou adaptavam de religiões pagãs, substituindo os ensinamentos de Jesus e dos apóstolos.

Sejamos claros que, quando se trata de debates intelectuais e teológicos nos séculos que levaram à formulação da trindade, a verdadeira Igreja estava em grande parte ausente da cena, tendo sido empurrada para a clandestinidade. (Consulte o capítulo “O Surgimento de um Falso Cristianismo” em nosso livro gratuito A Igreja que Jesus Edificou para uma visão geral desse período crítico. Você pode baixar ou solicitar o seu exemplar gratuito em www.revistaboanova.org/literatura).

Por esta razão, nesse período tempestuoso vemos frequentemente debates que não são entre a verdade e o erro, mas entre um erro e outro erro diferente―uma verdade raramente reconhecida por muitos estudiosos modernos, porém é crucial para nossa compreensão.

Um exemplo clássico disso foi a disputa sobre a natureza de Cristo que levou o imperador romano Constantino, o Grande, a convocar o Concílio de Nicéia (na atualidade localizado a oeste da Turquia), em 325 d.C.

Constantino, apesar de ser defendido por muitos como o primeiro imperador romano “cristão”, era na verdade um venerador do sol até ser batizado em seu leito de morte. Durante seu reinado, ele teve seu filho mais velho e sua esposa assassinados. Ele também era veementemente anti-semita, referindo-se em um de seus decretos “a multidão detestável de judeus” e aos “costumes desses homens perversos”―costumes estes que, na verdade, tinham suas raízes na Bíblia e praticados por Jesus e os apóstolos.

Como imperador, em um período de grande tumulto dentro do Império Romano, Constantino encontrou desafios para manter o império unificado. Ele reconheceu o valor da religião para unir seu império. Este foi, de fato, uma de suas principais motivações para aceitar e sancionar a religião “cristã” (que, nessa altura, tinham se afastado muito dos ensinamentos de Jesus Cristo e dos apóstolos, e que era ‘cristã’ apenas no nome).

Mas agora Constantino enfrentava um novo desafio. A pesquisadora de religião Karen Armstrong explica em A História de Deus que “um dos primeiros problemas que teve de ser resolvido foi a doutrina sobre Deus . . . um novo perigo interno surgiu o qual dividia amargamente os cristãos em campos opostos” (A History of God, 1993, pág. 106).

O debate sobre a natureza de Deus no Concílio de Nicéia

Constantino convocou o Concílio de Nicéia no ano 325 d.C., tanto por razões políticas―para a união imperial―como religiosas. A principal questão nessa ocasião veio a ser conhecida como a controvérsia ariana.

“Na esperança de garantir o seu trono ao apoiar o corpo crescente de cristãos, ele demonstrou-lhes um considerável favor e era de seu interesse ter a igreja robusta e unida. A controvérsia ariana estava pondo em risco sua unidade e ameaçando sua força. Ele, portanto, se comprometeu a pôr fim ao problema. A ele foi sugerido, talvez pelo bispo espanhol Hosius, que era de grande influência, que se um sínodo se reunisse representando todas as igrejas, ambas de leste e de oeste, talvez haveria possibilidade de restaurar a harmonia”.

“O próprio Constantino, é claro, não entendia e nem se importava com o assunto em disputa, mas estava ansioso para acabar com a controvérsia, e o conselho de Hosius pareceu-lhe ser ideal para chegarem a uma resolução” (Arthur Cushman McGiffert, A História do Pensamento Cristão [A History of Christian Thought], 1954, vol. 1, pág. 258).

Ário, um padre de Alexandria, no Egito, argumentou que Cristo, sendo Filho de Deus, deveria ter tido um começo e, portanto, era uma criação especial de Deus. Além disso, se Jesus era o Filho, o Pai necessariamente deveria ser mais velho.

Opondo-se aos ensinamentos de Ário, estava Atanásio, um diácono também de Alexandria. Sua visão era sobre uma forma primitiva de trinitarianismo onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram um, mas ao mesmo tempo, distintos entre si.

A decisão sobre qual ponto de vista o conselho da igreja aceitaria foi em grande medida arbitrária. Karen Armstrong explica em A História de Deus: “Quando os bispos se reuniram em Nicéia em 20 de maio de 325 d.C. para resolver a crise, muitos poucos demonstraram apoio ao ponto de vista de Atanásio sobre Cristo. A maioria se deteve no meio do caminho entre a posição de Atanásio e a de Ário” (A History of God, pág. 110).

Como imperador, Constantino estava numa posição fora do normal, para decidir a doutrina da igreja, embora ele não fosse realmente um cristão. (No ano seguinte foi quando ele ordenou o assassinato da sua esposa e filho, como mencionado anteriormente).

Historiador Henry Chadwick atesta, “Constantino, tal como seu pai, adorava o deus Sol Invicto” (A Igreja Primitiva [The Early Church], 1993, pág. 122). Quanto ao imperador abraçar o Cristianismo, admite Chadwick, “sua conversão não deve ser interpretada como uma experiência interna de graça . . . Era uma questão militar. O seu nível de compreensão da doutrina cristã nunca foi muito bem entendido” (pág. 125).

Chadwick diz que o batismo de Constantino, em seu leito de morte, por si só, “não deixa nenhuma dúvida sobre sua crença cristã”, sendo comum aos governantes adiar o batismo, para evitar a responsabilidade por coisas como a tortura e execução de criminosos (pág. 127). Mas esta justificativa realmente não ajuda para ratificar a conversão do imperador como genuína.

Norbert Brox, um professor de história da igreja, confirma que Constantino nunca foi realmente um cristão convertido: “Constantino não experimentou qualquer conversão, não há sinais de uma mudança de fé nele. Ele nunca disse que se converteu a outro deus . . . No momento em que se voltou para o Cristianismo, ele adorava o Sol Invictus (o vitorioso deus Sol)” (Uma Breve História da Igreja Primitiva [A Concise History of the Early Church], 1996, pág. 48).

Acerca do Concílio de Nicéia, A Enciclopédia Britânica declara: “O próprio Constantino o presidiu, ativamente orientando as discussões, e pessoalmente propôs . . . a fórmula fundamental para expressar a relação de Cristo com Deus no credo emitido pelo conselho . . . Intimidados pelo imperador, os bispos, com duas únicas exceções, assinaram o credo, embora, muitos deles, a contragosto” (The Encyclopaedia Britannica, edição 1971, vol. 6, “Constantino”, pág. 386).

Com a aprovação do imperador, o concílio rejeitou o ponto de vista minoritário de Ário e, não tendo nada definitivo para substituí-lo, aprovou a visão de Atanásio—também opinião de uma minoria. A igreja foi deixada numa posição difícil quanto ao apoio oficial, daquele ponto em diante, em relação a decisão tomada em Nicéia para endossar a crença apoiada apenas pela minoria dos participantes.

Agora, o terreno para a aceitação oficial da trindade estava preparado—mas, como se vê, levou mais de três séculos após a morte e ressurreição de Jesus Cristo para este ensino antibíblico surgir!

A Decisão de Nicéia não pôs fim ao debate

O Concílio de Nicéia não acabou com a controvérsia. Karen Armstrong explica: “Atanásio conseguiu impor sua teologia aos bispos... com o imperador no seu encalço . . .”.

“A demonstração de concordância agradou a Constantino, que não compreendia as questões teológicas, mas na verdade não havia unanimidade em Nicéia. Depois do Concílio, os bispos continuaram a ensinar como antes e a crise ariana continuou por mais sessenta anos. Ário e seus seguidores lutaram e conseguiram recuperar o favor imperial. Atanásio foi exilado pelo menos cinco vezes. E foi muito difícil fazer valer seu credo” (págs. 110-111).

Às vezes, as divergências em curso eram violentas e sangrentas. Sobre as consequências do Concílio de Nicéia, o historiador Will Durant escreve: “Provavelmente mais cristãos foram massacrados por cristãos nestes dois anos (342-343) do que em todas as perseguições de cristãos pelos pagãos na história de Roma” (A História da Civilização [The Story of Civilization], Vol. 4: A Era da Fé, 1950, pág. 8). Com crueldade, enquanto reivindicavam serem cristãos, muitos crentes lutaram e mataram uns aos outros por causa dos seus pontos de vista diferentes sobre Deus!

A respeito das décadas seguintes, o professor Harold Brown, citado anteriormente, escreve: “Em meados das décadas desse século, 340-380, a história da doutrina parece mais com a história de tribunais, de intrigas entre igrejas e de conflitos sociais . . . As doutrinas centrais elaboradas nesse período, frequentemente parecem ter sido apresentadas através de intrigas ou pela violência popular, e não de comum acordo da cristandade guiada pelo Espírito Santo” (pág. 119).

O debate desvia seu foco para a natureza do Espírito Santo

Então, os desacordos passam a centrar-se em torno de outra questão, a natureza do Espírito Santo. A este respeito, a declaração divulgada no Concílio de Nicéia simplesmente disse: “Cremos no Espírito Santo”. Isto “parece ter sido adicionado ao credo Atanasiano em uma reflexão posterior”, escreve Karen Armstrong. “As pessoas estavam confusas sobre o Espírito Santo. Era simplesmente um sinônimo de Deus ou era algo mais?” (pág. 115).

O professor Ryrie, também citado anteriormente, escreve: “Na segunda metade do século IV, três teólogos da província da Capadócia, no leste da Ásia Menor [hoje Turquia central] deram a forma definitiva à doutrina da trindade” (pág. 65). Eles propuseram uma ideia que foi um passo além da visão de Atanásio—que Deus, o Pai, Jesus, o Filho, e o Espírito Santo eram coiguais e juntos em um único ser, mas também distintos entre si.

Estes homens—Basil, bispo de Cesaréia, seu irmão Gregório, bispo de Nissa, e Gregório de Nazianzo—eram todos “treinados na filosofia grega” (Armstrong, pág. 113), a qual sem dúvida afetaram suas perspectivas e crenças (veja “A Influência da Filosofia Grega Sobre a Doutrina da Trindade”,).

Na opinião destes homens, explica Karen Armstrong, “a trindade só faz sentido como uma experiência mística ou espiritual . . . Não como uma formulação lógica ou intelectual, mas um paradigma imaginário que confundia a razão. Gregório de Nazianzo deixou isso claro quando explicou que a contemplação de ‘três em um’ induzia a uma emoção profunda e avassaladora que confundia o pensamento e a clareza intelectual.

“Mal consigo conceber o Um quando sou iluminado pelo esplendor dos Três; e mal chego a distinguir os Três quando sou levado de volta para o Um. Quando eu penso em qualquer um dos Três, penso dele como um todo; não consigo visualizar mais, pois a maioria do que eu estou pensando não entendo” (pág. 117). Não é de admirar que, como Armstrong conclui: “Para muitos cristãos ocidentais . . . a trindade é simplesmente incompreensível” (ibidem).

As contínuas disputas levam ao Concílio de Constantinopla

No ano 381, quarenta e quatro anos após a morte de Constantino, o imperador Teodósio, o Grande, convocou o Concílio de Constantinopla (hoje Istambul, Turquia) para resolver essas disputas. Gregório de Nazianzo, recém-nomeado arcebispo de Constantinopla, presidiu o conselho e pediu a adoção de seu ponto de vista sobre o Espírito Santo.

O historiador Charles Freeman afirma: “Praticamente nada se sabe dos debates teológicos do Concílio de 381, mas Gregório foi certamente na esperança de obter alguma aceitação de sua crença de que o Espírito era consubstancial com o Pai [significando que são pessoas do mesmo ser, visto que substância neste contexto denota qualidade individual].

“Seja pela falta de habilidade para lidar com o assunto ou se simplesmente por não terem chance de consenso, os bispos ‘macedônios’, que se recusaram a aceitar a plena divindade do Espírito Santo, deixaram o concílio . . . Portanto, Gregório repreendeu os bispos por preferirem ter uma maioria ao invés de simplesmente aceitarem a sua declaração da ‘Palavra Divina’ da Trindade” (381 D.C.: Hereges, Pagãos e o Alvorecer do Estado Monoteísta [Heretics, Pagans and the Dawn of the Monotheistic State], 2008, pág. 96).

Pouco depois Gregório ficou doente e teve que retirar-se do concílio. Agora, quem iria presidir? “Foi assim que Nectarius, um senador idoso que tinha sido um popular ex-prefeito da cidade por causa de seu patrocínio dos jogos, mas que ainda não era um cristão batizado, foi escolhido... Nectarius parecia não conhecer a teologia, e teve que ser iniciado na fé necessária antes de ser batizado e consagrado” (Freeman, págs. 97-98).

Estranhamente, um homem que até este ponto não era cristão foi nomeado para presidir um importante concílio da igreja encarregado de determinar o que seria ensinado sobre a natureza de Deus!

A trindade torna-se uma doutrina oficial

O ensinamento dos três teólogos capadócios “tornou possível que o Concílio de Constantinopla (381) afirmasse a divindade do Espírito Santo, que até aquele momento não havia sido claramente estabelecida, nem mesmo nas Escrituras” (A Enciclopédia Harper-Collins do Catolicismo [The Harper-Collins Encyclopedia of Catholicism], “Deus”, pág. 568).

O concílio aprovou uma declaração que, em parte, diz o seguinte em português: “Nós cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos . . . E acreditamos no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, que falou através dos profetas . . .”. A declaração também afirma a crença “na Igreja Una, Santa, Católica [ou seja, neste contexto, universal, total ou completa] e Apostólica . . .”.

Com esta declaração em 381 d.C., que se tornaria conhecida como o Credo Niceno-Constantinopolitano, a trindade como geralmente é entendida hoje em dia tornou-se a crença oficial e ensinamento sobre a natureza de Deus.

O professor de teologia, Richard Hanson, observa que o resultado obtido na decisão do conselho “foi reduzir as explicações do significado da palavra ‘Deus’, de uma extensa lista de alternativas, a uma só explicação”, de modo que “quando o homem ocidental de hoje diz ‘Deus’ ele está duma maneira geral a referir-se ao único e exclusivo Deus [Trinitário] e nada mais” (Estudos da Antiguidade Cristã [Studies in Christian Antiquity], 1985, págs. 243-244).

Assim, o imperador Teodósio―que tinha sido batizado apenas um ano antes da convocação do concílio—foi, como Constantino quase seis décadas antes, instrumento no estabelecimento de importante doutrina na igreja. Como o historiador Charles Freeman observa: “É importante lembrar que Teodósio não tinha qualquer formação teológica e estabeleceu como se fosse um dogma uma fórmula contendo problemas filosóficos difíceis de resolver dos quais ele não estaria ciente. Com efeito, as leis do imperador silenciaram o debate quando ainda não estava resolvido” (pág. 103).

As outras crenças sobre a natureza de Deus foram proibidas

Agora que a decisão tinha sido alcançada, Teodósio não toleraria opiniões divergentes. Ele lançou seu próprio decreto que dizia: “Agora, nós ordenamos que todas as igrejas sejam entregues aos bispos que professam Pai, Filho e Espírito Santo como uma única majestade, de mesma glória, e de esplendor único, aos [bispos] que não estabelecem nenhuma distinção por separação sacrílega, mas (que afirmem) a ordem da Trindade, reconhecendo as Pessoas e unindo a Divindade” (citado por Richard Rubenstein, Quando Jesus Se Tornou Deus [When Jesus Became God], 1999, pág. 223).

Outro edito de Teodósio foi mais longe ainda ao exigir o cumprimento da nova doutrina:

“Devemos acreditar na divindade única do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em santa Trindade. Nós autorizamos os seguidores desta lei a assumirem o título de Cristãos Católicos, mas para os outros, uma vez que, em nosso julgamento, eles são loucos insensatos, nós decretamos que sejam marcados com o nome ignominioso de hereges, e não deverão ousar dar a seus conventículos [assembleias] o nome de igrejas.

“Eles sofrerão, em primeiro lugar, o castigo da condenação divina, e em segundo, a punição que a nossa autoridade decidir aplicar, de acordo com a vontade do céu” (reproduzida em Documentos da Igreja Cristã [Documents of the Christian Church], Henry Bettenson, editor , 1967, pág. 22).

Assim, vemos que um ensinamento que era estranho para Jesus Cristo, nunca ensinado pelos apóstolos e desconhecido dos outros escritores bíblicos, foi implantado no lugar da verdadeira revelação bíblica sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Qualquer um que discordasse era estigmatizado como herege e tratado como tal, de acordo com os decretos do imperador e das autoridades da igreja.

A doutrina da trindade foi decidida por tentativa e erro

Essa cadeia incomum de eventos é a razão pela qual os professores de teologia, Anthony e Richard Hanson, em seu livro A crença razoável: Um Estudo da Fé Cristã, resumiram a história anotando que a adoção da doutrina da trindade foi o resultado de “um processo de exploração teológica que durou pelo menos trezentos anos . . . Na verdade, foi um processo de tentativa e erro (ou de muitos erros e poucos acertos), onde o erro não foi limitado ao que não era ortodoxo . . . Seria tolice representar a doutrina da Santíssima Trindade como tendo sido alcançada por qualquer outro meio” (Reasonable Belief: A Survey of the Christian Faith, 1980, pág. 172).

Eles, então, concluem: “Este foi um longo e confuso processo, em que diferentes escolas de pensamento na Igreja trabalhavam de maneira independente, e depois tentavam impor sobre as outras, a resposta deles à pergunta: ‘Quão divino é Jesus Cristo?’ . . . Se alguma vez houve uma controvérsia decidida pelo método de tentativa e erro, certamente foi esta” (pág. 175).

O clérigo anglicano e conferencista da Universidade de Oxford, K.E. Kirk escreve, de forma esclarecedora, sobre a adoção da doutrina da trindade: “A justificativa teológica e filosófica da divindade do Espírito começa no século IV; nós naturalmente nos voltamos para os escritores desse período para descobrir quais os motivos da sua crença. Para nossa surpresa, somos forçados a admitir que eles não tinham nenhum . . .

“Este fracasso da teologia cristã . . . em produzir uma justificativa lógica do ponto fundamental de sua doutrina trinitária é de máxima importância. Antes de voltar à questão da defesa da prática da doutrina, somos forçados a perguntar se a teologia ou a filosofia já forneceu alguma razão pela qual sua crença deve ser trinitária” (“A Evolução da Doutrina da Trindade” [The evolution of the Doctrine of the Trinity], publicado em Ensaios sobre a Trindade e a Encarnação [Essays on the Trinity and the Incarnation], editor A.E.J. Rawlinson, 1928, págs. 221-222).

Por que acreditar em um ensinamento que não é bíblico?

Esta é, resumidamente, a incrível história de como a doutrina da trindade veio a ser introduzida—e como aqueles que se recusaram a aceitá-la passaram a ser estigmatizados como hereges ou infiéis.

Mas será que devemos realmente basear nossa visão sobre Deus em uma doutrina que não está escrita na Bíblia, que não foi formalizada até três séculos depois da época de Jesus Cristo e dos apóstolos, que foi debatida e discutida ao longo de décadas (sem esquecer os séculos desde então), que foi imposta pelos concílios religiosos presididos por noviços ou não crentes, e que foi “decidida pelo método de tentativa e erro”?

Claro que não! Na verdade, devemos olhar para a Palavra de Deus—não para ideias de homens—para entender como nosso Criador se revela!

Segundo texto de apoio

O verdadeiro povo de Deus precisa conhecer as Escrituras Sagradas e também a história. Há atualmente uma diversidade de ensinamentos tidos como verdadeiros. De um lado temos os ensinamentos de Deus e do outro lado os ensinamentos dos homens. Os que não pesquisam ou não se aprofundam nas investigações, acabam sendo enganados por aqueles que dizem ser os portadores da verdadeira mensagem de Deus.

É lamentável que para muitos as palavras de Jesus sejam totalmente ignoradas, pois se fossem aceitas, este estudo seria desnecessário, pois todos entenderiam que há um só Deus e esse Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. As palavras de Jesus foram muito claras a esse respeito:

“E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, como único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que Tu enviaste.” João 17:3.

Certa oportunidade, um escriba perguntou a Jesus: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” O Mestre respondeu: “...Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.” Marcos 12:29.

Ao Se referir como “nosso Deus”, o Senhor Jesus está chamando a atenção à todos os que buscam a salvação, que o Seu Pai é o único Deus verdadeiro.

O apóstolo Paulo, o escolhido para pregar aos gentios, também apresentou o mesmo Deus de nosso Senhor Jesus:

“Pois, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós vivemos; e um só Senhor, jesus Cristo, pelo qual existem todas as coisas, e por Ele nós também.” I Coríntios 8:5-6.

Essa rejeição às palavras de Jesus e às palavras do apóstolo Paulo tem sua história. Por isso precisamos entendê-la.

1. Conhecendo a história

Muitas doutrinas foram introduzidas gradativamente pelo paganismo no seio do cristianismo durante os primeiros séculos da era da Igreja, sendo que a mais importante delas é a doutrina da trindade.

Na revista “Parousia”, ano 4 – No. 2, p. 5, editada especialmente para defender a doutrina da trindade, há um importante comentário:

“...os cristãos do segundo ao quarto século, ...foram forçados gradualmente na direção da formulação explícita da doutrina da trindade.” (grifo nosso).

Como os cristãos primitivos do primeiro século desconheciam a doutrina da trindade, esta tinha que ser imposta gradualmente pela Igreja Romana já a partir do segundo século.

Um destacado evangelista, em seu livro “O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse”, escreveu o seguinte a respeito daquele período, quando a apostasia começou a penetrar no cristianismo:

“Naquele período, a igreja cristã passou a ter conflitos internos por causa de doutrinas estranhas que pretendiam misturar-se às verdades bíblicas. Entre as doutrinas em conflito, podemos mencionar: o pecado original, a Trindade, a natureza de Cristo, o papel da virgem Maria, o celibato e a autoridade da Igreja. ...Nesse período da história, a Igreja não foi capaz de manter pura a adoração ao único e verdadeiro Deus, nem prestou obediência fiel à Sagrada Escritura. Contaminou-se com uma montanha de tradições humanas e costumes pagãos.” O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse, pp. 41 e 42 – 10ª. Edição (grifo nosso).

De acordo com a Revista Superinteressante, de março/2004, p. 28, “os primeiros cristãos, porém não seguiam o conceito da Trindade. Foi somente a partir do século 4 que a realidade trinitária de Deus passou a ser discutida na Igreja Católica. ...O Islamismo e o Judaísmo chegaram a acusar o Cristianismo de ter pervertido o monoteísmo por causa da trindade.” (grifo nosso).

As igrejas cristãs, em sua maioria, concordam que “foi a Igreja em tempos posteriores quem elaborou os detalhes da Trindade.” Revista “Parousia”, ano 4, No. 2, p. 10. Esta afirmação tem fundamento, pois foi através o trabalho dos apologistas que a doutrina da trindade começou a ser estudada e defendida no seio da igreja cristã. O apologista, Atenágoras, foi possivelmente o primeiro a defender “filosoficamente” a doutrina da trindade.

Uma grande equipe de pesquisadores, colaboradores e consultores trabalharam incansavelmente na elaboração de um livro editado pela Reader’s Digest: “Depois de Jesus, o Triunfo do Cristianismo”. Neste livro, os historiadores resgataram a verdadeira história do cristianismo dos primeiros séculos, confirmando o que os teólogos publicam na atualidade. Deste livro extraímos um fato histórico de grande relevância:

“Era o ano 177. Atenágoras fez notar que, se tantas doutrinas religiosas diferentes eram toleradas no seio do Império, seria justo que o cristianismo o fosse também. Servindo-se dos seus vastos conhecimentos de filosofia grega, explicou como a fé cristã num Deus único era semelhante ao conceito clássico da unidade de Deus. Foi possivelmente o primeiro a defender filosoficamente a Trindade, ao tentar demonstrar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Ser. O objetivo dos apologistas foi demonstrar que o cristianismo incorporava os ideais gregos de virtude e razão. Mas alguns cristãos discordavam: achavam que a filosofia estava demasiadamente imersa na cultura pagã e recusavam-se a ver a sua fé em Jesus, recentemente revelada, apoiada por argumentos filosóficos.” Depois de Jesus, o Triunfo de Cristianismo, p. 141. (Grifo nosso).

Do mesmo livro, na página 140, lemos o seguinte:

“O mais famoso dos primeiros apologistas foi Justino, o Mártir. ...Pagão, nascido por volta de 100 em Flávia Neápolis, aprendeu filosofia grega, especialmente a doutrina de Platão, convertendo-se ao cristianismo ainda jovem.” (Grifo nosso)

A doutrina da trindade não é uma doutrina bíblica. Esta teoria não é mencionada e nem ensinada na Bíblia. Esta teoria era desconhecida pelos israelitas do Velho Testamento e pelos cristãos primitivos do Novo Testamento. Não há autoridade bíblica para a trindade.

A verdade é que os teólogos buscam nas entrelinhas das Escrituras algum gancho para defender tal doutrina, utilizando-se inclusive de meios ardilosos, tais como a prática de torcer os textos sagrados da Bíblia.

A doutrina da trindade é de origem pagã. A trindade, assim como outras doutrinas, tais como imortalidade da alma, domingo como dia de repouso, morada nos céus e muitas outras, foram gradativamente incorporadas pelos filósofos e teólogos da Igreja durante os primeiros séculos da era do cristianismo. Eles eram pagãos não completamente convertidos e tornaram-se membros da Igreja cristã. Como esses homens assumiram lugares de liderança, como professores e teólogos, a teologia da Igreja gradualmente paganizou-se. Os ensinamentos da Bíblia foram reinterpretados e ajustados para se adaptarem aos ensinamentos da filosofia pagã.

2. Origem da palavra “trindade”

O primeiro uso da palavra “trindade” em sua forma grega ‘trinas’ foi de autoria de Teófilo, bispo de Antioquia da Síria, no oitavo ano do reinado de Marco Aurélio (168 A.D.). Ele usou a palavra no segundo dos três livros que escreveu, endereçados ao seu amigo Autólico. Ao comentar o quarto dia da criação no Gênesis, ele escreveu: “Da mesma maneira também os três dias que foram antes dos luminares, são tipos da trindade, de Deus, de Sua palavra, e Sua sabedoria.” Teófilo, “Para Autólico”, The Ante-Nicene Fathers).

Tertuliano (160-220 A.D.) foi o primeiro a usar a palavra latina “trinitas”. Educado em Roma e presbítero em Cártago, Tertuliano lançou as bases da Teologia Latina, a qual mais tarde foi apoiada por Cipriano e Agostinho. Tertuliano expressou sua teologia nos termos da filosofia de Platão. Ele estava entre os primeiros a ensinar a imortalidade da alma e a tortura eterna dos ímpios. A trindade e a imortalidade da alma foram desenvolvidas dentro de um sistema de teologia por Agostinho.

Os escritos de Agostinho tornaram-se a teologia básica da Igreja Romana. Tertuliano menciona a trindade em seu livro escrito contra Praxeas que apoiava a teoria manarquiana. Ele escreveu: O mistério da dispensação ainda está guardada, que distribui a Unidade numa trindade, colocando em sua ordem as Três Pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo.” (Tertuliano. “Contra Praxeas” – The Anti-Nicene Fathers).

Na revista “Parousia”, ano 4, No. 2, p. 34, encontramos uma declaração reveladora:

“Mas talvez alguém pergunte: por que este termo (trindade) não aparece na Bíblia? Para responder a esta questão é preciso compreender que, a partir do século segundo, o centro missiológico da Igreja transferiu-se em definitivo do ambiente judeu-palestino para o mundo greco-romano. O trabalho iniciado por Paulo entre os gentios vê-se finalmente estabilizado no ambiente gentílico e começa a gravitar em torno de questões que não haviam sido levantadas no ambiente judaico. A Igreja viu-se, então, obrigada a expressar sua fé de um modo compreensível para aqueles que não vinham de uma cultura vétero-testamentária, mas tinham seu pensamento regido pelos conceitos da filosofia grega.”

O autor deste artigo confessa publicamente que a questão da trindade não havia sido levantada no ambiente judaico. Ora, se os judeus (incluindo aí o Senhor Jesus e todos os apóstolos) não ensinaram a doutrina da trindade, concluímos que esta falsa doutrina foi idealizada fora do ambiente judaico, mais precisamente pela Igreja Romana, através seus apologistas, os quais expressaram seus conhecimentos teológicos com base na filosofia grega de Platão. A partir de então o cristianismo paganizou-se, afastando-se definitivamente das orientações de Deus.

3. Controvérsia entre Ário e Atanásio

A formulação da doutrina da trindade gerou controvérsias entre dois líderes da Igreja em Alexandria, no início do quarto século: Ário (256-336 AD) e Atanásio (293-373 AD). Ário mantinha a idéia de que Jesus, embora grande, era de alguma maneira inferior à Deus. Atanásio, pelo contrário, afirmava que Cristo era igual à Deus em todos os aspectos. Em 318 AD, a controvérsia veio à tona. Ário afirmou que se Jesus era realmente Filho de Deus, então deveria ter havido um tempo em que havia um Pai, mas nenhum Filho. O Pai, portanto, era maior do que o Filho. Num Concílio da Igreja local celebrado em 321 AD, Ário e seus colaboradores foram excomungados da Igreja por causa de sua opinião.

A falsa teoria da trindade levou algum tempo para alcançar uma posição dominante na Igreja. Nesse meio tempo, o imperador Constantino tornara-se o maior partidário do Cristianismo. O imperador considerava a Igreja como uma grande força unificadora e estava ansioso para que o Cristianismo se tornasse a religião universal do Império Romano. Ele queria evitar todas as lutas internas da Igreja, arrazoando que deveria haver uma Igreja unida e consequentemente um império unificado.

Para buscar restaurar a unidade, Constantino convocou uma assembleia de prelados da Igreja celebrada na cidade de Nicéia, em 325 AD. Bispos e o clero de todas as Igrejas foram convidados para assistirem ao Concílio com todas as despesas pagas pelo imperador. O Concílio de Nicéia, entretanto, não era verdadeiramente representativo, pois entre os 318 bispos presentes, além de oficiais eclesiásticos menores, destes nem sequer dez bispos da região oeste se fizeram presentes. Assim, o Concílio de Nicéia foi um Concílio de Igrejas maciçamente representado apenas pela região oriental do Império.

Eusébio, conhecido como o Pai da história da Igreja, no início do Concílio ofereceu um credo com uma linguagem idêntica das Escrituras Sagradas, em vez dos termos filosóficos usados por Atanásio. Os seguidores de Atanásio percebendo que ao darem um voto para Eusébio, estariam dando um voto a Ário, decidiram rejeitar o credo. O imperador Constantino, embora ignorante com relação aos fatos teológicos em discussão, mas ansioso por alcançar unidade, apoiou Atanásio. Aqueles que não assinaram, incluindo Ário, Eusébio e Teognis de Nicéia, foram banidos e seus livros queimados publicamente.

O debate sobre o tema prosseguiu, até que em 381 AD o imperador Teodósio convocou um Concílio em Constantinopla. Foi assistido por cerca de 150 bispos do oriente. Foi neste Concílio que a doutrina da trindade tornou-se oficial em todas as fronteiras do império. Todos os que discordaram foram expulsos de seus púlpitos e excomungados de suas igrejas. Era o regime totalitário dos imperadores romanos e mais tarde da Igreja Romana. Como vimos, esta doutrina espúria foi imposta pela Igreja Romana. Desde aquela época até hoje, milhares de fiéis seguidores da Palavra de Deus são perseguidos e expulsos de suas igrejas por não apoiarem esta teoria anti-bíblica. Esta doutrina, vigente até hoje, é designada por alguns historiadores como Credo Niceno-Constantinopolitano.

Hoje, esta doutrina tornou-se o elo principal de ligação das igrejas cristãs com a Igreja Romana. Na Carta Encíclica “Ut Unun Sint”, de 25 de maio de 1995, o papa João Paulo II declarou textualmente o seguinte:

“Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espírito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado de ecumenismo. Participam dele os que invocam o Deus Trino ...” (grifo nosso)

A única exigência para ingressar e iniciar o diálogo ecumênico é invocar o Deus Trino. Para a Igreja Romana, as outras doutrinas como a guarda do sábado, o batismo por imersão, a crença na mortalidade da alma, etc, não interferem no diálogo inicial para a unidade dos cristãos. Segundo esse documento, as discussões serão progressivas com a finalidade de diminuir as demais divergências.

4. Definição de Trindade

Trindade é a crença na existência de um Ser divino que subsiste em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O dicionário Webster define a palavra da seguinte maneira:

“A união de três pessoas (o Pai, o Filho, e o Espírito Santo) numa Divindade, de modo que todos os três são um Deus, com relação à substância, mas três pessoas com relação à individualidade.” Webster´s Collegiate Dictionary – 5ª. Edição.

Os trinitarianos, assim denominados os que defendem a doutrina da trindade, não creem que as três pessoas são uma pessoa ou que as três pessoas são três deuses. Eles creem em três pessoas que constituem um Deus.

Existem três propostas primárias envolvidas na doutrina da trindade:

a) A unidade composta de Deus

Os trinitarianos afirmam acreditar na unidade composta de Deus. Caso eles não acreditassem em um Deus único, sua doutrina seria interpretada como politeísta. Eles não creem na unidade de Deus como é ensinada na Bíblia. Rejeitam a verdade bíblica de que existe apenas uma Pessoa que é Deus. Os trinitarianos creem que existe uma única substância, uma inteligência e um propósito na Divindade, mas que três pessoas eternamente co-existem daquela essência única e exercitam aquela única inteligência, e único propósito.

b) A divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo

O segundo ponto que os trinitarianos buscam estabelecer é que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. Tentam mostrar que cada um é mencionado como sendo Deus e que cada um possui os atributos da Divindade como: imortalidade inerente, onipotência, onipresença e onisciência.

c) A personalidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Os trinitarianos procuram provar que o Pai é uma pessoa, que o Filho é uma pessoa e que o Espírito Santo também o é. Cada pessoa da trindade é admitida como completamente Deus, dentro de Si mesma. Juntas, as três pessoas compartilham em comum a essência única, todos os atributos, uma substância, uma inteligência e um propósito.

5. Desmontando a doutrina da Trindade

A doutrina da trindade é baseada sobre três propostas. É como uma mesa construída sobre três pernas. Caso uma das pernas seja removida, a mesa por inteiro cairá. O fracasso na prova de qualquer uma destas três propostas apresentadas anteriormente resultará no colapso desta teoria. Para anular a doutrina da trindade, é necessário comprovar apenas um dos seguinte três fatos:

a) A unidade de Deus não é composta.

b) Jesus não é Deus.



c) O Espírito Santo não é uma pessoa.


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