As aventuras de esqui e tutuga em: “o roubo do L. E. S. M. A.”



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AS AVENTURAS DE ESQUI E TUTUGA EM:

O ROUBO DO L.E.S.M.A.”



(O Livro Encantado Sagrado Mágico e Antigo)

Por Evandro SRocha

(Rio de Janeiro, RJ)

(2015)


PERSONAGENS

ESQUI - (ESQUILA)

TUTUGA - (TARTARUGUINHA)

SRº CORU - (O MESTRE DE TODOS - CORUJA)

SRº PREGUI - (BICHO PREGUIÇA)

SRº LATO - (MESTRE DAS COMUNICAÇÕES – LAGARTO)

SRº RAPO - (MESTRE DOS INJUSTIÇADOS – RAPOSA)

SRº MACO - (MESTRE DOS BANQUETES - MACACO)

SRº ESQUI - (PAI DE ESQUI - ESQUILO)

Sr.ª RAPO - (MÃE DE RAPINHA E ESPOSA DO SRº RAPO)

Sr.ª LEA - (MESTRE DAS MÃES – LEOA)

ÉPOCA: QUALQUER; LUGAR: UMA ALDEIA.

Ao abrir a cortina, uma montanha de folhas secas cobre um objeto. Duas criaturinhas muito lindas brincam alegremente entre as folhas. Quando uma delas empurra a outra e cai sobre o objeto. Quando tiram as folhas descobrem um enorme baú muito colorido.

ESQUI – olha amiga. Um baú.

TUTUGA – Nossa! O que será que tem aí dentro?

ESQUI – Será um tesouro?

TUTUGA – Ih, amiga. Melhor não mexer. Pode ser alguma coisa ruim.

ESQUI – O que? Então a gente acha um baú lidíssimo, que deve ter um tesouro dentro e você “acha melhor não mexer”. Tá louca é Tutuga?

TUTUGA – Louca é você que quer mexer em tudo que vê.

ESQUI – Louca não, curiosa.

TUTUGA – E se esse baú for aquele que o vovô diz em suas histórias que, se alguém um dia encontrar por aí, não é para abrir.

ESQUI – Ah, como você é boba mesmo. Acredita nessas historinhas pra criança?

TUTUGA – Mas somos crianças.

ESQUI – Somos não. Pera lá! Você é criança!

TUTUGA – Ah, tá. Falou a adulta.

ESQUI – Adulta não. Quem disse adulta aqui? Eu sou muito adolescente. Pensando bem, sou quase adulta mesmo tá.

TUTUGA – Há, há. Adulta. Deixa de ser boba Esqui. Você ainda faz xixi na cama.

ESQUI – Quem disse isso. Não faço nada.

TUTUGA – Faz sim, sua mentirosa.

ESQUI – Faço mais não. E não sou mentirosa. Pergunta a minha mãe.

TUTUGA – Mas eu ouvi sua mãe contando pra minha.

ESQUI – Você não ouviu nada. E se repetir isso de novo fico de mal com você.

TUTUGA – Tá bom. Mas não precisa ficar brava comigo não ora.

ESQUI – Ah, vamos mudar de assunto e vamos abrir logo esse baú.

TUTUGA – Mijona. (baixinho, quase resmungando).

ESQUI – O que você falou aí Esqui?

TUTUGA – Falei nada. Mijona (imitando espirro)

ESQUI – Ora sua boboca, agora eu ouvi. Eu não sou mijona. E não falo mais com você.

TUTUGA – Ah, para de ser boba tá. Eu não falei nada. Você é minha irmãzinha. (Tenta abraçar Esqui, que se esquiva).

ESQUI – Me abraça não sua falsa. Vamos abrir logo esse baú.

TUTUGA – Ainda acho que não devíamos mexer aí.

ESQUI – Ah, tá bom sua medrosa. Eu abro sozinha. Mas se tiver um tesouro não divido com você.

TUTUGA – Se tiver um tesouro eu quero sim.

ESQUI – Nada disso. Os tesouros são de quem abre o baú e os encontra.

TUTUGA – Ih, eu quero também. Vamos abrir juntas. Tá bom?

Neste momento as duas põem as mãos sobre a tampa do baú e vagarosamente vão abrindo e aproximando o rosto cada vez mais da abertura. De súbito, a tampa se abre totalmente e uma luz muito bela e colorida sai de dentro do baú. Um livro começa a aparecer, muito dourado e iluminado. Fica suspenso no ar. As duas ficam imóveis olhando o livro.

ESSA FLORESTA É UMA BELEZA - MÚSICA PARA ESQUI E TUTUGA

Que beleza essa floresta

Nossa casa nosso lar

Ela é linda de dia

E a noite e de arrasar

Tem os lindos vagalumes

Que acendem suas luzes

Para o céu iluminar

E os pássaros coloridos

Nas árvores a cantar

Agora para melhorar

Tem também tesouros

Tem o livro mais lindo

Todo brilhante de ouro

Assim fica mais legal

Deixar de ser um animal

Falar e entender e tal

Sendo alguém especial

ESQUI – Nossa! Amiga, que lindo!

TUTUGA – Muito, muito, muito, muito, muito...

ESQUI – Ih, enguiçou de novo é? (dando um tapinha nas costas de Tutuga)

TUTUGA – Obrigada amiga! É muito lindo!

Enquanto as duas ficam hipnotizadas pelo livro, uma criatura sai da escuridão, vestindo uma túnica negra e pega o livro que ainda estava das mãos delas.

CRIATURA – (Rindo macabro) – Eu consegui! Há quanto tempo esperei por esse momento. Sabia que um dia alguém iria encontra e abrir esse baú. Agora é todo meu. Minha vingança vai ser completa.

A criatura sai correndo com o livro nas mãos da mesma forma que entrou. Tutuga e Esqui saem do transe e ficam sem entender. Olham dentro do baú e não veem mais nada. Olham-se e saem correndo para a aldeia. Chegando, encontram seu Pregui pendurado em uma árvore, tirando sua soneca costumeira.

ESQUI E TARTHUGA – (esbaforidas falando muito rápido e embolado) – Seu Pregui, seu Pregui. Ajuda a gente seu Pregui. É que a gente “tava” na floresta e achamos um baú.

PREGUI – (Com sua preguiça de sempre) - Meninas, meninas. Falem devagar. Não estou entendendo nada.

ESQUI E TUTUGA – (ainda muito esbaforidas e emboladas) – Nos achamos um baú na floresta.

PREGUI – Ei, ei. Falem devagar e uma de cada vez.

ESQUI – Conta você Tutuga.

TUTUGA – Conta você. Eu não.

PREGUI – (bocejando e fechando os olhos) - Ou você se decidem, ou me deixam tirar minha sonequinha.

ESQUI – Tá bom, eu conto.

PREGUI – Humhum!

ESQUI – Acorda seu Pregui.

PREGUI – Fala menina.

ESQUI – Então. Estávamos eu e Tutuga na floresta brincando nas folhagens.

PREGUI – Aonde?

ESQUI – Nas folhagens. Lá perto da toca do seu Speed.

PREGUI – Quem?

ESQUI – Seu Speed. O coelho.

PREGUI – Ah, tá.

ESQUI – Daí, sem querer, eu empurrei a Tutuga nas folhagens e ela achou um baú.

PREGUI – Achou o que?

ESQUI – Um baú muito lindo. E a Tutuga deu a ideia de abrirmos o baú.

TUTUGA – Eu, não. A ideia foi sua.

ESQUI – Que amiga hein. Quer tirar o corpo fora.

TUTUGA – Eu é que digo. Que amiga hein. Querendo jogar a culpa em mim apenas.

PREGUI – (dando um ronco)

ESQUI – Acorda seu Pregui.

PREGUI – Pararam de brigar.

ESQUI – Paramos.

PREGUI – (bocejando ainda mais) Então, continua. Que essa história tá me dando um sono danado. Mas sobre o que mesmo vocês estavam falando.

JUNTAS – Sobre o baú seu Pregui.

PREGUI – Isso mesmo. Sobre o baú. Continua.

ESQUI – Daí, quando abrimos o baú. Saiu de lá um lindo livro. Muito dourado e com uma luz colorida.

Quando ouve sobre o livro dourado e iluminado, seu Pregui cai com os olhos muito abertos. Abertos como nunca na sua vida. Começa a gaguejar e tremer feito vara verde.

PREGUI – Um livro?

JUNTAS – isso.

PREGUI – dourado?

JUNTAS – isso.

PREGUI – iluminado?

JUNTAS – (impacientes) – Isso seu Pregui. Um livro Dourado e Iluminado.

PREGUI – (catastrófico) – Pelas preguiças da terra. Vocês encontraram o Livro Encantado Sagrado Mágico Antigo. Ah, e Sagrado. Já falei sagrado né?

JUNTAS – Já!

PREGUI – Vocês encontraram o “LESMA”.

JUNTAS – Que Lesma? Não achamos o Srº Lesma. Achamos um Baú com um livro dentro.

PREGUI – O “LESMA”. Suas tontas. Acabei de dizer. O Livro Mágico Sagrado Encantado Misterioso e Antigo.

TUTUGA – Mas não era o Livro Encantado Sagrado Mágico Antigo

SRº PREGUI – Mas foi isso que eu falei menina.

TUTUGA – Não, o Srº falou que era o Livro...

ESQUI – Tá Tutuga, já entendemos. Agora deixa o Srº Pregui falar.

JUNTAS – Mas que livro é esse, seu Pregui.

PREGUI – O Livro do Mestre ESOPO. O Livro que faz com que a gente, nós, não sejamos apenas simples animais. O livro que dá uma existência melhor e mais digna a todos nós. O Livro que nos faz falar e nos entendermos. Vocês acharam o Livro. E onde está? Vocês não tiraram do baú não, né?

ESQUI – É. Bem. Assim...

TUTUGA – Nós não tiramos não. Mas ele saiu sozinho.

PREGUI – E vocês o puseram dentro e fecharam o baú e esconderam o baú e ninguém mais viu e ninguém viu mesmo.

JUNTOS – É...

PREGUI – É o que, meninas?

ESQUI – É que no momento que a gente ia guardar ele uma criatura enorme, com asas enormes, dentes enormes, orelhas enormes, pés enormes... Né Tutuga?

TUTUGA – É?

ESQUI – É não é Tutuga, sua tonta!

TUTUGA – Ah, é! É isso mesmo.

ESQUI – Então, a criatura horrenda pegou o livro e saiu voando pelas árvores.

PREGUI – Oh! Pelos feixes de Esopo! (Dando uma corridinha, percebe que correu e volta a ir lentamente) Preciso avisar ao ancião. O Mestre Coru não vai gostar nada disso. Isso é um desastre...

ESQUI – Mas espera aí seu Pregui... Eu hein, isso tudo só por causa de um livro lindo e brilhante, dourado e voador que ficava dentro de um baú lindo. Mas. Com todas essas qualidades deve ser importante mesmo né? (vira-se para Tutuga) Tutuga, que história é mesmo que você disso que seu avô contava?

Neste momento o senhor Pregui sai de cena e vai avisar aos anciãos da floresta sobre o ocorrido.

TUTUGA – Ele dizia que na floresta um lindo baú ficava escondido com o livro sagrado do Mestre Esopo. Que por causa desse livro que nós deixamos de ser simples animais e passamos a existir de maneira diferente para o mundo. Por isso que a gente anda como gente, come como gente, mora como gente, dorme como gente, fala como gente...

ESQUI – Tá, tá, tá, já entendi o “como gente”. Mas e daí?

TUTUGA – Se você não me interromper de novo eu vou lembrar-me de tudo.

ESQUI – Tá bom sua chata.

TUTUGA – Hein?

ESQUI - Quer dizer. (debochando) Tá bom minha linda, maravilhosa, carinhosa, fofinha, legal pra caramba pra chuchu à beça. Continua, vai!

TUTUGA – Também não conto mais. Você tá debochando de mim.

ESQUI – Ah, para vai. “Tava” brincando.

TUTUGA – Tá bom. Ele falou que o livro tinha que ficar guardado dentro do baú e não podia ser aberto. E que se caísse em mãos erradas, seria uma tragédia para a aldeia. O livro é encantado e em cada página tem uma foto de todos nós. De tempos em tempos, o Mestre Esopo volta em espírito e reforça o encanto. Só assim, nós que nascemos depois, também somos agraciados pela mágica.

ESQUI – Ah, é essa a história? Meu avô e meu pai também contavam isso. Mas eu não vou acreditar nessas histórias de velho. É sempre o mesmo blá, blá, blá... Era uma vez... Antigamente... Você tem que obedecer... Não pode mexer no que não é seu... Não pode mentir... Por isso que eu digo que você é muito bobinha. Acredita em tudo. Não vê que isso tudo é conversa pra amedrontar a gente e fazer com que nós obedeçamos.

TUTUGA – Esqui, você é uma chata mesmo. Tão inteligente e tão ignorante. Acho melhor a gente ir pra casa e avisar a todos.

ESQUI – Eu não vou a lugar nenhum. Vou ficar por aqui mesmo.

Uma risada sinistra soa de dentro das coxias assustando as meninas que saem correndo. As luzes se apagam e é montado o cenário donde, em totens, os anciãos: Srº Coru – o Mestre de todos; Srº Lato – Mestre de Comunicação; Srº Maco – Mestre de Banquetes; a Sr.ª Lea – Mestre das mães e o Srº Rapo – Mestre dos injustiçados estão postados. O Srº Pregui, então, é recebido para a conferência. Ao mesmo tempo chegam Esqui e Tutuga esbaforidas.

SRº CORU – Está aberta a sessão. Senhores Mestres, o Srº Pregui nos traz uma notícia deveras intrigante e perigosa para todos nós. O L.E.S.M.A. foi roubado.

Um burburinho toma conta da conferencia. Todos falam ao mesmo tempo em uma louca sinfonia em que ninguém entende o que se fala.

SRº CORU – batendo com seu cetro no chão – Silêncio todos! Assim ninguém entende o que o Srº Pregui tem a dizer. Srº, Pregui a palavra é sua.

SRº Pregui (dormindo, nem escuta o que o Sr Coru diz).

SRº CORU – (batendo o cajado no chão) Srº Pregui, acorde pelo amor da floresta homem, quer dizer, preguiça.

SRº PREGUI – (acorda assustado) – Já vou, já vou.

SRº CORU – Vai pra onde Srº Pregui? Não é para ir a lugar nenhum. É para contar como isso tudo foi acontecer.

SRº PREGUI – ah, é mesmo. Bom, foi assim. Quer dizer. Eu não sei como aconteceu. Quem sabe são as pestinhas ali. Quero dizer. Os anjinhos que estão ali sentados. Só sei o que elas me contaram.

SRº CORU – Então, senhoritas Tutuga e Esqui. O que vocês têm a dizer?

ESQUI – Eu tenho nada a dizer não. Acho melhor perguntar a Tutuga mesmo. Ela tem a memória melhor que a minha. E foi ela que me chamou para ir brincar na floresta.

TUTUGA – Ei. Você não muda mesmo né Esqui? Sempre jogando tudo nas minhas costas.

ESQUI – Mas é você que sempre cria as confusões. Você é uma tonta Tutuga.

TUTUGA – Ei. Achei ofensivo. Sua... Sua... Ah, deixa pra lá. Eu conto vai. Sempre sou eu mesmo. É sempre assim. Sempre Tutuga que fala. Tutuga que fez. Tutuga isso. Tutuga aquilo. Tutuga... Tutuga... Tutuga...

SRº CORU – Tá bom menina. Todo mundo já ouviu suas lamentações. Agora, conta pro tio o que houve.

TUTUGA – Bem. Foi assim. Eu e a Esqui – que me chamou pra brincar na floresta – porque foi ela que me chamou tá. Hum! A gente tava brincando lá pras bandas da floresta sagrada.

SRº CORU – (com voz chateada) brincando na floresta sagrada? Mas vocês esqueceram o que todos os pais contam para vocês? Que não devem ir para a floresta sagrada!

TUTUGA – (se dirige a Esqui, que faz cara de deboche) Viu sua louca.

SRº CORU – Continua menina.

TUTUGA – Então. A gente tava na floresta sagrada brincando, quando a Esqui me empurrou e eu cai em cima de um baú lindo. Aí ela (apontando acusadora para Esqui) me fez abrir o baú junto dizendo que tinha um tesouro.

SRº CORU – E vocês abriram?

ESQUI – (Tentando mais uma vez tirar o corpo fora) Vocês uma vírgula. Foi ela que abriu sozinha.

TUTUGA – Esqui! Para de tentar se safar. Isso não cola mais. Todo mundo sabe que você sempre faz isso. Ninguém acredita mais em você. Quer saber mais. Você é uma amiga da onça mesmo viu. (Se dirigindo ao Srº CORU) Onde foi que eu parei mesmo?

SRº CORU – Abrindo o baú. (olhando para Esqui) Com a ajuda da sua amiga. Né “dona” Esqui?

ESQUI – (tenta fala e é interrompida)

TUTUGA – Isso. Daí, quando abrimos o baú. Um livro muito lindo...

TODOS JUNTOS – O L.E.S.M.A.!

TUTUGA (Da um pulo assustada) – Esse aí mesmo. Não tinham um nome pior para um livro? Bom, segundo o seu Pregui, é esse aí mesmo.

Nesse momento a reunião é tomada por um imenso burburinho que aos poucos foi se transformando em uma sinfonia louca de vocês, lamentos, gritos e choros.

SRº CORU – (O único a ficar em silêncio, batendo com seu cajado) Silêncio! Silêncio! Silêncio! (Todos se calam e olham para o SRº Coru como que petrificados) Precisamos ter calma nesse momento. Vamos continuar a ouvir o que as meninas.

TUTUGA – Aí um livro...

SRº CORU – Espera um momento minha filha. Agora eu quero ouvir a Esqui. Sua vez.

ESQUI – Eu. Não obrigado. Pode deixar a Tutuga falar tudo. Ela gosta desse negócio de se apresentar em pú...

SRº CORU – (cortando a voz de Esqui com uma bronca) Silêncio menina! Isso aqui não é brincadeira. Todos nós vamos sofrer consequências irreversíveis dependendo com o que aconteceu com o L.E.S.M.A. (Esqui faz cara de vômito). Então, deixe de brincadeiras e conte logo o que aconteceu.

ESQUI – (Desafiadora) Eu não. Quero falar nada não.

SRº CORU – O que? Mas você vai falar sim.

ESQUI – (Teimosa) – Não vou. Não vou. Não vou. E pronto.

SRº CORU – Então. Devido à gravidade da situação e a maneira mal educada e arrogante ao qual você se dirige aos anciões, protetores e mantenedores desta família que somos nós, eu vou lhe dar um castigo a altura da sua malcriação.

Nesse momento o SRº Coru levanta de seu totem, vai até Esqui e levantando o cajado profere um mantra bem baixinho. Depois, apontando o cajado para Esqui, profere: Oh, mestre. Pelos poderes conferidos a mim como o mais alto grau deste governo, peço que atenda a meu pedido e retire temporariamente de Esqui o benefício da fala. Para que assim, em silêncio, ela possa refletir e aprender a respeitar os mais velhos. Que assim seja!

Depois de tudo isso, Esqui dá uma risada fina e estranha. Tenta proferir palavras e não sai nada além de grunhidos de esquilos. Ela entra em desespero e começa a chorar. O Srº Coru vai andando até o seu totem e esqui ajoelha a sua frente. Chorando aponta para a boca como que pedindo para falar, mas não toca o coração do ancião que a deixa no chão em prantos. Sem conseguir o perdão, corre para a floresta desesperada. Tutuga pensa em correr atrás da amiga, mas o ancião a proibi e pede que ela continue a história.

TUTUGA – Faz isso com a Esqui não. Ela não faz por mau. Ela é assim chata e tonta, mas é uma boa menina.

SRº Coru – O efeito é temporário. Vai passar logo. É só um susto. Agora, você vai nos contar ou quer passar por esse susto também, senhorita Tutuga?

TUTUGA – Eu. Prefiro continuar falando.

SRº CORU – Então desembucha logo, vai.

TUTUGA - Daí o livro saiu do baú e ficou suspenso no ar. Brilhando e girando. Lindo demais. Nós íamos pegar para ver o que tinha dentro, mas de repente, saiu do mato um monstro enorme. Ele tinha duas orelhas do tamanho do seu Rino, tinha dentes enormes e asas enormes. Ele pegou o livro e saiu voando.

SRº CORU – Nós sabemos que esse bicho não existe na floresta. Então, que tal contar como era realmente a criatura “que pegou o livro e saiu voando”.

TUTUGA – Mas eu tô falando a verdade.

SRº CORU – (pegando o cajado e simulando o mesmo jeito que fez para castigar Esqui) Mesmo?

TUTUGA – (sem jeito) Ah, tá bom! Eu só aumentei um pouquinho... (Srº Coru se levanta do totem) Ok, aumentei muito tá. Na verdade, era um sujeito de mais ou menos do tamanho do senhor pregui. Ela estava usando uma túnica preta, com capuz na cabeça e tinha uma risada que dava medo.

SRº CORU – O Banido!

Todos os anciões repetem junto “O Banido” de forma angustiante e repetitiva.

TUTUGA – Quem?

SRº CORU – O Banido!

TUTUGA – Isso eu já ouvi, mas quem é esse tal de “O Banido”. (Imita Esqui com ar

debochado).

Nesse momento Esqui volta da floresta.

ESQUI – Ei, quer parar de me remendar sua nerd!

TUTUGA – Ei amiga mudinha, você voltou!

ESQUI – Não, voltei não. Sou um clone. Mudinha é?

TUTUGA – Fui mal.

ESQUI – Foi mal, foi mal...

TUTUGA – Então Srº Coru, conta logo vai.

SRº CORU – É uma história muito antiga e muito triste.

SRª LEA – Muito mais triste porque no fim de tudo uma linda criança pagou pelo erro de um adulto.

SRº LATO – Com seu microfone e voz de locutor – naquele dia perdemos uma criança, um grande homem e quase perdemos o nosso sábio Srº Rapo.

SRº MACO – Sempre comendo alguma coisa – Nós procuramos muito e não encontramos o pobre Rapinha. Filho do nosso sábio Srº Rapo.

SRº RAPO – com a voz trêmula e os olhos marejados – Aquele maldito quase me matou e sumiu com meu filhinho. Minha amada não aguentou e foi embora também. Fiquei sozinho.

SRº LEA – O “banido” roubou o L.E.S.M.A. e tramava tornar todos nós em simples animais novamente. Queria comandar a aldeia, sozinho. Dentro da floresta, o corajoso SRº RAPO, combateu o “banido” e recuperou o livro, entregando ao nosso Grande Ancião para que retornasse a floresta sagrada e fosse novamente escondido. E pela sua coragem, o Srº Rapo ficou responsável por guardar e proteger o L.E.S.M.A. Mas agora...

SRº CORU – Mas Srº Rapo, como isso foi acontecer. O Senhor não estava responsável pelo Livro?

SRº RAPO – Sim, meu Mestre. Mas foram essas crianças enxeridas que removeram o Livro Sagrado de seu esconderijo. E eu não tenho como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Nesse momento eu estava à procura da minha família.

ESQUI – Enxerida nada tá seu, seu...

Srº CORU – Esqui se comporte e respeite o Srº Rapo.

ESQUI – Mas ele que me chamou de enxerida. Eu e a Tutuga. Reage Tutuga.

TARTHUGA – Ih, não me mete nisso não.

ESQUI – Medrosa! Tá bom seu Olhão.

SRº CORU – O que?

ESQUI – Desculpas. Srº Coru.

SRº CORU – Menina, menina.

TUTUGA – Mas Srº Coru, quem é esse tal de banido?

ESQUI – É. E porque essa mania de chamar de “banido”? Porque não falam o nome dele.

SRº MACO – Para preservar você minha menina.

SRº LEA – Srº Maco!

ESQUI – Me preservar? Por quê?

SRº MACO – Bem, você já está bem grandinha e hora de saber a verdade. O “banido”...

SRª LEA – Srº Maco, acho que ainda não é a hora.

SRº MACO – Mas o Livro foi recuperado pelo malfeitor. Uma hora ou outra ela vai descobrir. (Dirigindo-se a Esqui) O “banido” é o...

SRº PREGUI – (Chorando, corre para abraçar Esqui, reduz a velocidade e vai em câmera lenta) Lamento minha menina...

ESQUI – Lamenta o que. E me larga. Afinal quem é o “banido”? Fala logo!

SRº MACO – É...

TARTHUGA – É, fala logo seu...

ESQUI – Ah, cala essa boca! (Tampando a boca de Tutuga) E conta logo isso Srº Maco. Já estou ficando louca.

SRº MACO – (Antes de falar, aguarda um pouco, e pergunta) Mais alguém vai atrapalhar?

ESQUI – (Entediada senta ao chão) Desisto!

SRº MACO – É o seu pai.

ESQUI – Tá bom. Quando decidir falar eu vou ouvir.

SRº MACO – (Repetindo) É o seu pai, menina Esqui.

Esqui fica paralisada por um instante. Olha todos ao redor. Solta um grito estranho e desmaia. Todos correm para socorrê-la.

TUTUGA - Esqui acorda. Acorda amiga.

ESQUI – Oi. Onde eu estou? Tutuga? Eu tive um sonho muito estranho.

TUTUGA – É mesmo amiga? Que sonho?

ESQUI – Um sonho nada. Foi um pesadelo.

TUTUGA – É...

ESQUI – Vai me deixar contar ou não?

TARTHUGA – Tá bom pode contar.

ESQUI – Eu sonhei que estávamos todo mundo em reunião, contando que gente tinha achado um livro sagrado. Um bicho roubou o livro e corremos pra aldeia. Contamos tudo e depois apareceu o SRº RAPO e aí disseram que tinha o tal do “banido”. E pior, que o tal do banido era o meu pai.

TARTHUGA – É... Amiga...

ESQUI – Ainda não acabei...

TUTUGA – É que não era sonho...

ESQUI – Como não era sonho?

TUTUGA – Foi tudo verdade e o “banido” é o seu pai.

ESQUI – Não repete isso se quer continuar sendo minha amiga.

TUTUGA – Mas é verdade amiga. O SRº Maco disse que...

Esqui sai correndo em direção ao conselho que ainda estava reunido.

ESQUI – Escuta aqui seu velhos.

TODOS – Olha o respeito menina.

ESQUI – Respeito? Respeito nada. Vocês ficam dizendo aí que meu pai foi um homem ruim. Meu pai não era ruim. Meu pai era bom. Eu lembro muito bem dele me tratando com muito carinho.

SRº RAPO – Se acalme menina...

ESQUI – E o senhor não manda em mim. Aliás, o senhor era um homem mal. Era não, é. Ficava batendo no nosso amiguinho só porque ele ficava brincando com a gente.

SRº RAPO – Cale a boca menina. Você não sabe o que está dizendo.

ESQUI – Não sei não. Sei sim tá. Eu via. E vocês são todos uns velhos malvados. Querem que eu pense que meu pai era ruim porque hein? Por quê? Velhos! Velhos! Velhos!

O Senhor Rapo levanta a mão para Esqui, quando o Senhor Maco intervém.

SRº MACO - O que é isso Sr Rapo?

SRº RAPO – Vou dar uma lição nesta menina moleca.

SRº LATO – Não faça isso. O seu problema com o pai dela não tem nada a ver com ela. Ela ainda é uma menina e não tem culpa das maldades do pai.

O Senhor Rapo se aproxima mais de Esqui e levanta novamente a mão. Esqui se abaixa e o Sr Maco bate na mão do Sr Rapo com seu cajado.

SR CORU – Sr Rapo. Isso não é atitude de um Conselheiro. O Senhor deve proteger nossas crianças e não agredi-las.

SR RAPO – Ah, quer dizer que somente o senhor pode castigar nossas crianças. Quem o senhor pensa que é para me impedir de punir uma insolente?

SRº CORU – Eu. Eu sou o Ancião. O todo de todos. E o senhor deve nos respeitar. Não estou reconhecendo o senhor, Senhor Rapo.

SR RAPO – Pois fique sabendo que o senhor está muito velho para esse lugar. Acho que já está na hora de colocarmos uma pessoa mais jovem para comandar essa aldeia.

SRº MACO – O que você está dizendo? Está ficando louco?

SRº RAPO – Louco? Não! O senhor é que está ficando louco. Acredito que todos aqui concordam comigo. Então irmãos conselheiros. Vamos banir essa Coruja e convocar novas eleições! Quem está comigo?

Todos ficam calados e o senhor Rapo percebe que se excedeu. Finge arrependimento e pede desculpas. Mas o Srº Coru junto aos outros conselheiros, tira dele a capa de conselheiro e o bane para a floresta. Ele sai com muita raiva, gritando alto que iam se arrepender. O Senhor Maco se aproxima de Esqui. Assustada, achando que ia ser castigada novamente, começa a gritar.

ESQUI – Tá vendo. Vocês são malvados. Já vão me castigar do nov... (A voz de Esqui começa a falhar) Velhos! Ve... (A voz dela cessa). Ela entra em desespero e corre para a floresta em planto.

SRº CORU – Pobre menina. Mas ela precisava saber.

SRª LEA – Mas eu disse que era muito cedo para ela saber disso. O senhor precisava castigar ela novamente?

SRº CORU – O que está feito, está feito. Mas eu não a castiguei. Não proferi nenhum mantra. Não sei o que houve. Apesar de ela estar nos ofendendo, eu não ia castiga-la. Depois procuramos a menina. Agora, vamos continuar a reunião para nos prepararmos para o pior.

Ato III


Em uma gruta escondida entre densas árvores, floresta adentro, uma família ceia a mesa. Quebrando o silêncio do casal que não se olham, um pequeno lança uma pergunta desconcertante para o pai.

RAPINHA – Papai, eu tenho saudades dos meus amiguinhos. Principalmente da Tutuga e da Esqui.

SRº RAPO – Esse assunto de novo Rapinha. Já conversamos sobre isso.

RAPINHA – Mas papai, o Srº disse que logo eu ia poder vê-los.

SRº RAPO – Mas falta muito pouco agora meu filho. Muito pouco. (olhando para a Srº Rapo) Nós vamos voltar e seremos muito bem recebidos pela aldeia.

SRª RAPO – levantando a cabeça – O que você quer dizer com isso?

SRº RAPO – Agora resolveu olhar para mim, minha senhora?

SRª RAPO – Rapinha. Vá para seu quarto. Preciso conversar com seu pai.

RAPINHA – Mas mamãe, eu ainda não terminei de comer.

SRª RAPO – Pode terminar no seu quarto hoje.

RAPINHA – Mas mamãe, a senhora não deixa que eu coma no quarto.

SRª RAPO – Hoje eu deixo. Vá meu anjo. Depois escove os dentes e vá dormir. (beija o filho, que retribui).

RAPINHA – Boa noite mamãe!

SRª RAPO – Boa noite meu lindo!

RAPINHA – Boa noite papai!

SRº RAPO – beijando o filho na testa – Boa noite meu filho!

Rapinha sai, deixando seus pais sentados na sala. O silêncio toma conta do lugar por alguns minutos, até que a Srª Rapo resolve iniciar a discussão.

SRª RAPO – O que você quis dizer com “falta pouco, muito pouco” e que vamos ser muito bem recebidos pela aldeia?

SRº RAPO – Porque esse interesse repentino, Dona rapo?

SRª RAPO - Porque eu também morro de saudades da aldeia. Estamos vivendo como animais aqui escondidos por longo tempo. Eu já não aguento mais isso. Porque você nos trouxe pra cá?

SRº RAPO – Eu já disse várias vezes. Para proteger vocês.

SRª RAPO – Mas proteger de que? De quem?

SRº RAPO – Logo vocês vão entender. Agora chega desse assunto e me deixe comer em paz mulher.

Após a janta o SRº RAPO sai às escondidas e vai para a floresta. Por um buraco na gruta, usado como janela, o pequeno Rapinha vê seu pai passar apressado com uma bolsa nas costas. Curioso, ele resolve seguir seu pai para saber aonde ele vai toda noite ao mesmo horário. Chegando a um lugar sombrio, ele fica atrás de um arbusto escondido, enquanto o pai tira um monte de folhagens e aparece uma grande jaula. E lá dentro, um Esquilo.

SRº RAPO – Então meu velho amigo. Aqui está seu jantar. (joga umas frutas dentro da jaula). Vamos, coma. Para depois, se chegar o dia em que você volte a falar, o que eu acho muito difícil, não venha dizer que eu maltratava você e deixava passar fome.

O Esquilo hesita a princípio, mas pela fome que sentia devorou logo as frutas. Após comer, fazia gestos de desespero como se quisesse falar, com uma fisionomia tristonha. O SRº RAPO então retira um livro de dentro da bolsa e dirigindo a palavra ao Esquilo...

SRº RAPO – Aqui está! É meu outra vez. O L.E.S.M.A. O Livro Sagrado do Mestre Esopo. Em nossa batalha, quando você foi transformado em Esquilo outra vez e banido para floresta, eu acertei-o com um dardo tranquilizante, dei uma de bom moço e entreguei o livro falso ao ancião da aldeia. Isso mesmo, um livro falso. Uma replica idêntica ao nosso Livro Sagrado. Assim, fui alçado ao Conselho e guardião do livro. Enquanto todos pensavam que o Livro verdadeiro estava a salvo comigo, eu continuei a procurar o verdadeiro. E na aldeia, você foi sendo esquecido. Quando era lembrado por acidente, era como o ladrão do L.E.S.M.A.

O Esquilo furioso tentava fugir da jaula, mas em vão. De repente, ao lado do SRº RAPO, passa correndo uma pequena esquila. Rapinha reconhece à amiga e sai da moita em que estava escondido. SRº RAPO captura a esquila e vendo seu filho fica furioso de estar sendo bisbilhotado.

SRº RAPO – Meu filho, que decepção! E você, sua esquilazinha chatinha. Vai fazer companhia pro SRº Esquilo, seu papai. (Joga a esquila na jaula). E você Rapinha, vai ficar de castigo.

RAPINHA – Mas eu já estou de castigo há muito tempo papai. Então foi por isso que você nos escondeu nesta floresta, nos mantendo prisioneiros? Foi para virar Conselheiro?

SRº RAPO – Não é bem assim meu filho, eu...

Rapinha, muito triste, sai correndo para dentro da floresta e some na escuridão. SRº Rapo esconde novamente a jaula com os esquilos presos e vai atrás de Rapinha. Ele encontra Rapinha chorando agachado em uma árvore. Ele pega o filho e juntos vão para casa.

SRª RAPO – Rapinha, onde você estava? Procurei você por toda parte.

RAPINHA – EU...

SRº RAPO – Eu o levei para passear um pouco na floresta.

SRª RAPO – Passear na floresta? Há essa hora?

SRº RAPO – É que nosso filho já está crescido e tenho que mostrar a ele os perigos da floresta à noite para o caso de ele se perder. Não é Rafinha?

RAPINHA –Mas, papai...

SRº RAPO – Ora, vá para cama logo menino. Amanhã eu saio bem cedo e preciso descansar.

SRª RAPO – O que está acontecendo?

SRº RAPO – Nada.

SRª RAPO – E o que é isso na sua bolsa? Olha, você está cheio de folhas secas...

SRº RAPO – Depois você vai saber. E chega desse assunto.

Na manhã seguinte o Srº RAPO sai de casa a caminho da aldeia. Leva a bolsa pesado por causa do livro.



A “VINGANÇA” DA RAPOSA – CANÇÃO DO SRº RAPO

E agora se preparem

Para ver o meu triunfo

Depois de tanto tempo

Agora eu tenho um trunfo

Aguardem só um momento

Que eu já lhes conto tudo

Ah, eu era muito jovem.

Mas já tinha minha família

Quando as estrelas se movem

Muda toda a cartilha

Meu filho não era aceito

Por puro preconceito

Eu o via sempre triste

Uma dó de apertar

O meu peito não resiste

Precisava então mudar

Esse tratamento horrível

Um dia tinha que acabar

Então tomei minha decisão

E bolei todo meu plano

Com uma dor no coração

Peguei quem era mais humano

Ele entrou pelo cano

E voltou a ser bichano

Mas agora estou está aqui

O mais belo exemplar

Primordial para mim

Para a vitória alcançar

Eu posso até chorar, mas...

Minha família tem que sorrir

E assim se deu o destino

Que foi selado em maestria

Eu vinguei o meu menino

Ah, agora sou todo alegria

ATO III

Na aldeia, o Conselho se reuniu para decidir a situação do Srº Rapo, quando de súbito ele adentra.

Srº RAPO – Todos reunidos. Acredito que o assunto principal seja eu.

TODOS – Srº Rapo!

SRº MACO – O Srº não foi liberado para voltar a esta aldeia. Estamos reunidos para decidir sobre sua situação. Sai Srº Rapo, para que possamos deliberar.

SRº RAPO – (risos) Vocês, sempre com essa mania de julgar o futuro dos outros. “Temos que deliberar”. Não vou sair. Nem agora nem nunca. Vocês por duas vezes me expulsaram desta aldeia. Mas isso não vai mais acontecer. (Pega o livro dentro da bolsa). Agora eu não quero ser apenas Conselheiro, eu quero ser o Mestre.

Todos se assustam ao ver o livro em suas mãos. O Srº Pregui corre apara fugir e volta a sua velocidade. Mas quando abre o livro, o Srº Rapo tem uma surpresa.

SRº RAPO – O que? Não pode ser. O livro... O livro... Quem roubou o L.E.S.M.A. de mim? Maldito seja!

Uma luz forte. Um homem de túnica e barba branca e longa entra com o L.E.S.M.A. nas mãos.

SRº MACO – Oh, é nosso grande mestre Esopo. Reverenciem, vamos.

ESOPO – De pé todos. Não quero reverências. Estou arrependido de ter dado a esta aldeia o benefício do racional. Vocês me decepcionaram Srº Maco.

SRº RAPO – O L.E.S.M.A., mas como? Quem lhe entregou o livro. Não consigo entender.

Entra Rapinha, acompanhado da mãe, de Esqui do Srº Esqui.

RAPINHA – Fui eu papai.

SRº RAPO – Você! Não pode ser. Fui traído pelo meu próprio filho. E tudo o que fiz foi por você.

RAPINHA – Tudo o que papai? Isolar-me na floresta junto como a mamãe? Afastar-me dos meus amigos? Fazer mal e aprisionar pessoas boas como o SRº Esqui e minha amiga? Não papai. Eu sei que o senhor não é um homem ruim, mas não podia deixar seguir em frente com esta loucura.

SRº RAPO – Pensa que eu gostava de ver você brincando com seus amiguinhos melhores que você? Eles tinham tudo. Os pais eram conselheiros. E você era apenas o filho do Agente de Correspondências. Eu precisava ser um pai melhor para que você fosse igual a eles. Por isso inventei que o Srº Esqui havia tramado pegar o L.E.S.M.A. para tomar a aldeia para si. Coloquei o livro falso em sua bolsa e o entreguei ao Conselho. Mas tudo que fiz foi por minha família.

SRº ESQUI – Pela sua família? E você pensou na minha família? O que é que eu fiz para você tramar tudo isso contra mim?

SRº RAPO – O que você fez? Eu deveria ser o escolhido para o conselho. Mas você tomou meu lugar.

SRº ESQUI – Eu não tomei seu lugar. Até porque o lugar não era seu. Eu fui escolhido pelo Conselho.

ESOPO – Srº Esqui. Deixe. Não gaste suas energias. Eu resolverei tudo.

SRº ESQUI – Sim Mestre Esopo.

ESOPO – Não Srº Rapo. O senhor não fez por sua família. O que o moveu foi sua ganância pelo poder. Fui à vaidade. O mal que atinge os homens os leva a serem esses seres destrutíveis. A matar por matar. Quando dei a vocês o benefício humano achei que viveriam em paz. Em harmonia. Sem os podres da humanidade. Mas vejo que me enganei. Com isso, vou retirar o benefício desta aldeia e vocês voltarão a ser meros animais. Começarei pela sua família. Um pedido deles, pois avaliaram que não queria ser racionais se fosse para serem assim.

Quando Esopo abre o livro para realizar os encantos, o Srº Rapo dá um salto e pega o livro das mãos do Mestre.

SRº RAPO – Sim. Eu errei. Confesso que fui ganancioso e me arrependo. Não faça isso com eles. Eles não tem culpa de minha vaidade. Poupe minha família. Ou melhor, poupe toda a aldeia. Abrindo o livro ele rasga uma página. Todos se assustam, esperando quem seria transformado novamente em simples animal irracional. Quando o próprio Sr º Rapo cai de quatro patas e corre para dentro da floresta. Mas antes, deixando o livro novamente nas mãos do Mestre Esopo.

RAPINHA – Papai!

ESOPO – Calma meu pequeno. Venha até aqui.

RAPINHA – O senhor vai nos castigar agora?

ESOPO – Não vou castigar vocês. Com a atitude de seu pai, pensei melhor e resolvi voltar à trás. Seu pai foi um beneficiado muito malvado e suas atitudes mancharam a todos nesta aldeia. O homem hoje se destrói sem nenhum escrúpulo. Só pensam em poder e dinheiro. Esqueceram o amor e a família. Na busca de algo passageiro. Pois o tempo seva tudo que é material e tudo que é insígnia, divisa, cargo ou patente. O ser humano é destrutível. Não é eterno. Mas não são todos. Ainda há pessoas boas em quem podemos confiar um futuro melhor. E também existem aqueles que erram, reconhecem seus erros e se arrependem. E seu pai foi um desses.

RAPINHA – É mesmo. Sabe Mestre, eu amo meu pai. Mas eu precisava fazer o que fiz para libertar ele desses sentimentos vis.

ESOPO – Isso mesmo Rapinha. Continue amando- o. E não se preocupe. Eu encontrarei seu pai e cuidarei para que quando ele estiver completamente liberto de todos os erros humanos, eu mesmo o trarei de volta. O L.E.S.M.A. daqui pra frente volta para minhas mãos. Assim, não despertará mais a ganância de outros beneficiados. Cuide de sua mãe e comporte-se.

SRº MACO – Em homenagem ao Rapinha, recebemos de braços abertos ele e sua mãe. Assim como O Srº Esqui e sua filha com muita festa e alegria.

Mestre Esopo sai na luz e todos correm para abraçar Rapinha. Do outro lado, Esqui, pulando, fica fazendo sinais e chamando a atenção de todos.

TARTHUGA – Ih, gente a Esqui ficou louca. Parece pipoca pulando sem parar.

Esqui aponta para a luz e mostra a boca. Grunhindo.

TUTUGA – Fala Esqui. Para de palhaçada. Sempre querendo chamar mais atenção do que todo mundo.

RAPINHA – Ih, gente. Acho que ela não tá falando mesmo não.

Todos correm para a luz gritando pelo Mestre Esopo, que sai da luz às gargalhadas.

ESOSPO – Acho que me esqueci de alguém né.

Esqui de cara de poucos amigos, cruza os braços e virar para o outro lado.

ESOPO – Ah, ela continua malcriada. Eu a deixei assim de propósito para ela não falar demais e arrumar mais confusão. Mas acho melhor deixar ela assim mesmo.

Esqui vira para Esopo, de joelhos e mãos unidas pede como os olhos marejados que sua voz seja devolvida.

TUTUGA E RAPINHA – Ah, mestre devolve a voz dela vai. Ela é nossa amiga. Ela é faladeira e chata, mas a gente a ama assim mesmo.

ESOPO – Tá bom, mas só se ela se comportar.

Esqui balança a cabeça positivamente.

ESOPO – Tá bom. Que assim seja!

A voz de Esqui volta e ela dana a falar sem parar. Todos caem na gargalhada e abraçam Esqui.

- FIM -




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