Aprendizagem, arte e intervenção



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Encontro26.08.2018
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Resenha sobre o livro “Aprendizagem, arte e intervenção”.

O texto de Virgínia Kastrup refere-se à aprendizagem, referenciando Gilles Deleuze e Félix Guattari. Parte-se do ponto básico: o hábito, a forma clássica de aprendizagem que é a imitação e as habilidades que se desenvolvem a partir disso. Seu objetivo trata-se da aprendizagem inventiva mesclado com a arte; se olha para o cotidiano que é a habilidade de aprender imitando, o meio onde vive o indivíduo junto de seus hábitos procurando repensar isso para uma produção subjetiva. Verifica-se no texto a importância da capacidade de invenção e se problematiza o ambiente.

“O objetivo é, em primeiro lugar, apresentar certa maneira de colocar o problema na aprendizagem. A aprendizagem foi frequentemente tratada ao longo da história da Psicologia, e em sua investigação tem predominado o modelo da ciência moderna. [...] o problema da aprendizagem inventiva tem sido sistematicamente excluído da história da Psicologia. Neste campo a aprendizagem encontra-se dissociada da invenção”. (p.18)

É agindo que formamos nossos hábitos. Para a psicologia o hábito é um fenômeno observável logo imitável. Fazer refeições, escovar os dentes, tomar banho, se comunicar, pegar ônibus: somatórios de reflexos adquiridos durante o amadurecimento do ser humano seja cognitivo, social, espacial entre outros. É no “cabresto” disso, ou seja, a aprendizagem veio se fundamentando extremamente dessa forma fazendo com que a independência, subjetividade e qualidade do subjetivo venham sendo pouco trabalhados. O sucessivo ou generalizado pode, sim, se fundir com a independência para criar uma nova qualidade de hábitos.

“O hábito na medida em que introduz a diferença na repetição, é a condição da experiência e da subjetividade”. (p.18)

Segundo a autora os hábitos definem nossa relação com o tempo, um bom exemplo disso são nossas refeições, (grande maioria) não tomamos leite ou qualquer que seja alimento significativo do café da manhã em outras refeições. A autora cita Deleuz quando diz da mudança inevitável que os hábitos fazem na vida do ser humano: “Deleuze afirma que o “paradoxo da repetição” é não se pode falar em repetição senão pela mudança que ela introduz no sujeito que a contempla”. Faz-nos criar disposições, limites, ritmos, intervalos tempos. O hábito é produto da experiência, mas esse produto é ele mesmo, alcança-se em uma condição de processo e condicionada. Existe uma circularidade entre condição e condicionado, entre processo e produto problema e solução, que revela a chave do aprender a aprender.


Deleuz, autor referenciado no texto desenvolve em seu trabalho “Proust e os signos” o problema da aprendizagem. Levanta-se uma questão: o que a aprendizagem da literatura e da arte tem a ensinar acerca da aprendizagem? A invenção não é vista como algo raro e deslumbrante, o interessante é pensar a invenção que perpassada no nosso cotidiano permeado ao funcionamento cognitivo de todos nós.
Aprendizagem começa com a invenção de problemas, a arte se coloca nesse campo, mas um atrativo caótico, um ponto que é tendencial, sem ser fixo e sem possibilitar falar em regimes estáveis ou em resultados previsíveis, como uma exposição do problema de aprender que não se reduz a solução de problemas como o campo da psicologia.

Deleuze afirma: “a arte é o destino inconsciente do aprendiz” (ibidem, p.50). Este destino, este ponto de vista, não se considera como uma meta consciente ou como uma regulação da vontade. Também não se trata de ter na arte, ou numa certa obra de arte, um alvo, um ponto fixo a ser atingido, e que orientaria o processo de aprender. (p. 19)

Deleuz desenvolve em seu material a importância dos signos na formulação de problemas. O objeto da aprendizagem é o signo e suas interpretações. Esse significativo se encontra em diversos sistemas incluindo a linguagem, ele afirma que aprender é decifrar os signos e significados que tal matéria ou questão emite.

Aprender marcenaria é ser sensível aos signos da madeira; aprender medicina é ser sensível aos signos da doença; aprender a cozinhar é ser sensível aos odores, às cores, às texturas dos ingredientes da comida; aprender a jogar futebol é ser sensível aos signos da bola, do campo, da torcida, dos jogadores. Poderíamos multiplicar os exemplos, mas no momento basta sublinhar que tudo que nos ensina alguma coisa emite signos, e não se aprende senão por decifração e interpretação. (p. 20)


A arte surge como um ponto de vista quanto à irredutibilidade dos signos sendo seu sentido objetivo ou subjetivo. Os signos da arte são de maior potência, segundo o autor, aos demais signos, pois a arte surge como perspectiva retroativa. O amarelo de Van Gogh não é recognitivo, mas problemático. Mas, uma vez experimentado, faz-nos ver o nosso mundo diferentemente. “Da mesma maneira, as mulheres extremamente gordas, grotescas, acolhedoras e generosas dos filmes de Felline, após produzirem estranhamento no espectador, são em seguida percebidas nas ruas, nos arredores da nossa casa, como personagens de uma percepção artística. Esses exemplos ressaltam o efeito de retroação da arte sobre a vida, fruto de uma aprendizagem inventiva, que acaba por fazer da arte um ponto de vista.” (p.21) Deixa de ser o ponto de vista de um artista pra ser uma visão de criação. Deleuz faz essa conotação para problematizar a aprendizagem realizando a critica ao subjetivo. Cria-se, por tanto, vias diferentes a perspectivas de aprendizagens seja ela subjetiva ou como diz o autor: “processo de assujeitamento a um suposto mundo dado”.


A dicotomia da inteligência inventiva aborda o tempo e a lapidação do erro, envolve repetição, disciplina, uma série de experiências, de exercícios e práticas que resultam na formação de hábitos e competências específicas. O desenvolvimento das habilidades e competências se faz quando o comportamento se torna um pensamento corporificado. Cria-se uma naturalidade em agir.

“Esta naturalidade é produzida, mas em sua aparente suavidade esconde o imenso e complexo trabalho de construção da simplicidade. A habilidade ou a competência refere-se a um plano técnico da conduta, que poderia levar apensar que sua sintonia com um certo território, o agenciamento direto que ela acessa, redundaria numa adaptação especialmente fina ao meio ambiente. Mas a aprendizagem inventiva não tem a adaptação como seu ponto de vista, e sim a arte.” (p. 22)


O texto traz como exemplo a arte de cozinhar: “Cozinhar como artista é inventar novos pratos e novos sabores, lidando com fluxos, cores, odores, texturas, consistências, nuances.” A ação perceptiva da cozinha, relaciona-se todo seu conhecimento sensório-motor com familiaridade e sistema de signos.
A perspectiva da arte vai além da aprendizagem que visa a solução de problemas e faz da performance significante. Conclui-se que ponto de vista da arte revela-se como uma forma superior de problematização, ou, significa colocar-se frente ao processo de aprender do ponto de vista da problematização, que define, então, uma forma de relação com o todo, seja: o externo, interno, objetos. Quais são os signos que na sua subjetividade são mais decifráveis que outros como, por exemplo, existem pessoas que aprendem muito mais ouvindo o que lhes interessa ou então lendo, ou assistindo, etc. Trata-se de aprender a aprender.


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