Ano turma n.º O grande ditador1



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Encontro27.09.2017
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LEITURA | DISCURSO POLÍTICO

Nome ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Ano …………………………… Turma …………………………………………………………………………… N.º……………………………
O GRANDE DITADOR1

Charlie Chaplin


Sinto muito, mas não pretendo ser imperador.

Não é esse o meu ofício. Não pretendo dominar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar toda a gente, se possível. Judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver pela felicidade mútua, não pela miséria dos outros. Não queremos odiar e desprezar o próximo. Neste mundo, há espaço para todos. E a Terra é rica e pode prover as necessidades de todos. O caminho da vida pode ser livre e belo, mas perdemos o rumo.

A ganância envenenou as nossas almas, barricou o mundo com o ódio, conduziu-nos à miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos a velocidade, mas isolámo-nos uns dos outros. A maquinaria, que produz abundância, deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cínicos. A nossa inteligência, duros e cruéis. Pensamos de mais e sentimos de menos. Mais do que maquinaria, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta e tudo estará perdido.

A aviação e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções apela à bondade humana – apela à fraternidade universal –, pela união de todos nós. Neste momento a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperados, vítimas de um sistema que obriga seres humanos a torturar e encarcerar inocentes.

Àqueles que me conseguem ouvir, eu digo: não desespereis. A miséria que agora se abate sobre nós não é mais do que a morte da ganância, a amargura dos homens que temem o caminho do progresso humano. O ódio dos homens desaparecerá e os ditadores morrerão. E o poder que roubaram ao povo regressará ao povo. E enquanto morrerem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados, não vos entregueis a esses brutos, homens que vos desprezam, que vos escravizam, que controlam as vossas vidas, que vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir! Homens que vos disciplinam, que vos tratam como gado e se servem de vós como carne para canhão! Não vos entregueis a esses homens perversos, homens-máquina, com mentes e corações mecânicos! Não sois máquinas! Não sois gado! Homens, é o que sois! Tendes o amor pela humanidade nos vossos corações. Vós não odiais! Só os mal-amados odeiam – os mal-amados e os desumanos.

Soldados, não luteis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No capítulo 17 de São Lucas está escrito: “O Reino de Deus está dentro de vós”. Não de um só homem ou de um grupo de homens, mas em todos os homens! Em vós! Vós, o povo, tendes o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazer desta vida uma aventura maravilhosa!

Então, em nome da democracia, usemos esse poder! Unamo-nos! Lutemos por um mundo novo, um mundo decente que dê a todos a oportunidade de trabalhar, que dê à juventude um futuro e aos idosos segurança. Foi com promessas destas que estes brutos chegaram ao poder. Mas eles mentem. Eles não vão cumprir estas promessas. Nunca irão fazê-lo.

Os ditadores libertam-se, mas escravizam o povo. Lutemos, agora, para cumprir essas promessas!

Lutemos para libertar o mundo, para acabar com as fronteiras, para pôr termo à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todas as pessoas.



Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

1. Descreve o contexto (situação política e social) em que foi proferido o discurso.
2. Com base no primeiro parágrafo, caracteriza o orador deste discurso.
3. Mostra que o orador se dirige, em simultâneo, a dois destinatários. Fundamenta a tua resposta com expressões textuais.
4. Sintetiza os apelos endereçados aos destinatários.
4.1. Transcreve o argumento de autoridade utilizado pelo orador para apoiar a ideia de que os soldados têm “o amor da humanidade” nos “seus corações”.
5. Justifica a alteração da segunda pessoa “vós” para a primeira “nós” na parte final do discurso.
6. Refere as marcas de género específicas que te permitem reconhecer este texto como sendo um discurso político.

PROPOSTAS DE SOLUÇÃO

1. Um mundo marcado pela ditadura (“os ditadores morrerão”), pela discriminação (“Judeus, gentios, negros, brancos”), pela guerra (“derramamento de sangue”), ganância, ódio e miséria, mas também um mundo tecnologicamente desenvolvido que apenas reafirma o cinismo e a crueldade da humanidade.

2. O orador não deseja ser imperador, pois não pretende “dominar ou conquistar ninguém”. Pelo contrário, é um ser que deseja ajudar todos, independentemente da raça, da cor ou da religião.

3. Os soldados são o destinatário mais direto. É reconhecível pela presença do vocativo e dos verbos no presente do modo conjuntivo e imperativo: “Soldados, não luteis pela escravidão! Lutai pela liberdade!”. No entanto, o orador refere que a sua voz “chega a milhões em todo o mundo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperados” graças à rádio (“Àqueles que me conseguem ouvir, eu digo: não desespereis”).

4. Apela “Àqueles” que não se deixem abater pelo desespero e aos soldados pede-lhes que não se deixem “escravizar” pela prepotência “desses homens perversos, homens-máquina”. Apela, ainda, à sua humanidade, reforçando-a (“homens, é o que sois!”) e que lutem pela liberdade e não pela escravidão.

4.1. “No capítulo 17 de São Lucas está escrito: “O Reino de Deus está dentro de vós”.

5. O orador envolve-se com o seu público mais direto e envolve-nos a todos. Sendo os soldados, afinal, homens que têm o poder de “criar felicidade” e de “tornar esta vida livre e bela”, então, todos unidos devemos lutar pela mesma causa: por um “mundo novo”, democrático, sem fronteiras, “um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todas as pessoas”.

6. Caráter persuasivo – capacidade de expor/argumentar. “Todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim”, “Queremos viver pela felicidade mútua, não pela miséria dos outros”… A dimensão ética e social: apelo à liberdade, à democracia, ao progresso que conduz à felicidade de todas as pessoas… ou a recusa do ódio, da ganância…

A eloquência e a utilização de recursos expressivos: “que vos desprezam, que vos escravizam, que controlam as vossas vidas…”, “homens-máquina, com mentes e corações mecânicos!”…



1 Discurso final do filme O Grande Ditador, proferido pelo ator e realizador Charlie Chaplin. O filme, de 1940, é uma sátira ao regime nazi, um libelo ao triunfo da razão sobre o militarismo. Todavia, em pleno Macarthismo e Guerra Fria, Chaplin foi investigado e acusado, por políticos e pela imprensa, de ser comunista e antiamericano. Em 1952, o governo dos Estados Unidos não lhe renovou o visto de residência, o que resultou na sua proibição de regressar ao país onde vivia há quase 40 anos. Só em 1972 regressaria aos EUA para receber um Óscar pelo conjunto da sua obra.



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