Angela ales bello



Baixar 414,03 Kb.
Página1/4
Encontro14.01.2017
Tamanho414,03 Kb.
  1   2   3   4
O MÉTODO FENOMENOLÓGICO ESSENCIALISTA DE HUSSERL NA VISÃO DE ANGELA ALES BELLO

Prof. Me. Claudemir Gomes 1

RESUMO: Este artigo toma a possibilidade de utilizar-se das contribuições teóricas de Angela Ales Bello, em seu livro Introdução à fenomenologia, para compreender o percurso de Husserl em sua produção filosófica onde define o que ele entende por buscar os sentidos sobre as coisas. O livro de Ales Bello é uma rota segura, pois é uma fonte preciosíssima dado a sua inteligência, o caráter didático de sua exposição e sua proximidade com Husserl. Fala-se dos atos psiquicos, dos atos espirituais enquanto classificação compreensiva do pensamento. Discute-se a elaboração e construção do mundo enquanto um modo singular do ser humano existir nele, traçando o fora e o dentro como a simetria imprenscíndivel do dispositivo da construção do humano. Destaca-se, na análise, o valor conceitual dos termos essência e existência como produtores de linhas de pesquisa e de produção teórica. A partir disso, esboça-se a fenomenologia essencialista de Husserl com a participação de suas discipulas Edith Stein e Angela Ales Bello, bem como sugere o princípio do caminho sistemático da fenomenologia existencialista de Heidegger com Merleau Ponty, Sartre, Albert Camus, Gabriel Marcel, entre outros discípulos.

Palavras-Chave: Fenomenologia. Fenomenologia Essencialista. Husserl.

INTRODUÇÃO

Angela Ales Bello é autora de livros que falam de Edmundo Husserl. Escreve com clareza e em tom coloquial. Essa forma de escrever fez com que suas obras tenham tido grande receptividade no Brasil, havendo já várias publicações brasileiras que se tornaram referência. Nesse livro, que traz o título: Introdução à Fenomenologia, (Coleção Filosofia e Política), Ales Bello procura descrever metodologicamente o modo como pensava Edmundo Husserl. Introdução à Fenomenologia é um livro cujo texto se fez a partir do curso ministrado pela Professora Angela Ales Bello na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru (SP), no ano de 2004, vindo a professora da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. O livro foi editado por Miguel Mahfoud e Silvio Motta Maximino. Ales Bello, ao proferir suas pAles Bellotras na USC–Bauru-SP, fonte editorial e origem textual do livro, mostrou profundo conhecimento e compreensão do pensamento husserliano, focando criativamente os elementos mais singulares que caracterizavam o grande mestre.

Enquanto pensadora mantém a sua posição intelectu­al no exercício da articulação da.

_____________

1 – Prof. Me. Claudemir Gomes. Docente do Curso de Psicologia da Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba. Endereço eletrônico:
gomespsi41@gmail.com


pesquisa entre os diversos grupos e as diversas universidades brasileiras, onde se vê que vêm frutificando o seu pensamento, a partir de suas visitas acadêmicas ao Brasil. O livro foi gerado nesse ambiente de tessitura de relações, na convivência preciosa entre pro­fessores e alunos. Miguel Mahfoud, ao encerrar a sua apresentação da edição de 2006, afirma que:

Temos à mão uma verdadeira Introdução à Fenomenologia. Fiel ao rigor metodológico, típico da fenomenologia. A Prof. Angela Ales Bello nos convida a percorrer o inteiro percurso husserliano. Magistralmente, somos pro­vocados, na contemporaneidade, a atentar ao que nos está à volta e à própria experiência interna. E, com surpresa, advertimos que, aqui, experiência vívida e reflexão sis­temática podem efetivamente não estarem cindidas. A novidade é que não se apresenta apenas discursivamente uma tal possibilidade de unidade, mas somos conduzidos a reconhecer a vivência - através do método interrogativo husserliano - com surpreendente simplici­dade de forma que a introdução ao campo fenomenológico, tão sofisticado, começa a nos parecer familiar, começamos a nos sentir em casa, porque começamos a atentar ao mundo mais conscientes dos próprios recursos e do próprio eu (...) e, no mesmo texto ainda, o prof. Mahfoud agradece aos pesquisadores do Programa de Iniciação Científica do LAPS - Laboratório de Análise de Processos em Subjetividade, da Faculdade de Psicologia da UFMG, que trabalharam com cuidado evidente na transcrição e textualização das gravações do curso original, possibilitando que o presente volume seja uma realidade boa para muitos”. ALES BELLO, 2006, p.11.

DESENVOLVIMENTO
Na apresentação que faz sobre o tema, a Profa. Ales Bello diz que a grande dificuldade que existe em quem se dispõe a estudar a fenomenologia essencialista de Husserl, está no fato de que Edmundo Husserl nunca chegou a escrever uma obra apresentando todo o seu percurso investigativo. Sobre esse aspecto, diz:
(...) a cada obra sublinha certo aspecto do percurso integral, num caminho analítico, partindo de um esquema geral. Passo a passo, ele vai chegando a uma consciência comple­ta das diversas vivências, e continuamente se pergunta: “Qual é o significado do ato que estou operando?”, e ao mesmo tempo: “Qual é a formação que permite tais atos?” Seus livros são resultado de compilações de esbo­ços de aulas ou de suas anotações pessoais. Muito de sua vasta obra, até hoje, não chegou à publicação. Como sua análise é muito detalhada, atentando com rigor para cada aspecto, ele nunca chegou a formular uma síntese geral e isso dificulta conhecer o pensamento husserliano. ALES BELLO, 2006, p.13.

Com a intenção de contribuir com a explicitação e apresen­tação do processo investigativo, em todo o arco do pro­cesso metodológico, empreendido pelo fundador da Fenomenologia, Ales Bello apresenta, no sumário de seu livro, uma ordem de pauta onde não apenas busca descrever os temas mais relevantes, mas sim analisar o pensamento de Husserl. Para tanto, ela inicia a sua tarefa inquirindo do seu leitor as compreensões necessárias sobre o que é fenômeno e fenomenologia? A partir dai apresenta a fenomenologia como método. O tema da consciência é visto junto com a descrição das estruturas universais. Em seguida oferece, com muito jeito um primoroso texto onde fala da síntese passiva como fase anterior à percepção. Introduz o conceito da entropatia como capacidade que o homem tem de conhecer o seu semelhante, definindo-a como a conjunção privilegiada do Eu, do outro e do nós. O tema da intersubjetividade é cuidadosamente analisado como dispositivo de formação das modalidades de associação e de organização da pessoa. A análise das vivências, é a proposta que Ales Bello sugere, a partir das compreensões de Husserl, para um fundamento das ciências; Na exposição do método fenomenológico husserliano e do existencialismo ela aprimora a sua intenção de discriminar competentemente as diferenças existentes entre Mestre e Discípulo, destacando suas teses e enriquecendo com isso o método fenomenológico com dois grandes pensadores, produzindo cada um centenas de novos discípulos. Para finalizar a brilhante discussão do livro, Ales Bello surpreende a todos com a sua sensibilidade criativa, colocando sobre a temática da busca religiosa novos conceitos e idéias que não apenas humanizam o sentido da compreensão do sagrado, mas que oferece novos caminhos para ainda se acreditar.

Em seu primeiro ponto de discussão, Ales Bello logo formula a questão: O que é o fenômeno e fenomenologia? E, para respondê-las se vale do conhecimento das palavras gregas que afirmam ser:
Fenômeno é aquilo que se mostra;não somente aquilo que aparece ou parece e “Logia” que deriva da palavra logos, que para os gregos tinha muitos significados, tais como: palavra, pensamento. Vamos tomar logos co­mo pensamento, como capacidade de refletir. Tomemos, então, fenomenologia como reflexão sobre um fenômeno ou sobre aquilo que se mostra. A Fenomenologia começou como uma escola filosófica cujo pai e mestre é E. Husserl. O seu inicio sistemático se deu na Alemanha, em fins do século XIX,e na primeira metade do século XX. (ALES BELLO, 2006, p.17-8)

Ao tomar-se a definição de fenômeno como aquilo que se mostra e não somente aquilo que aparece ou parece, logo se é levado ou conduzido para a um entendimento passível de erros, pois se passa a acreditar que as coisas se mostram a nós à maneira como acontecia no realismo platônico, na metodologia da reminiscência. A compreensão que a Fenomenologia sugere não é esta, pois as coisas quando se revelam a nós não o fazem como quem instigasse um determinado comportamento, mas sim mediante a compreensão que se dá no sentido de que as:
coisas se mostram a nós porque somos nós quem buscamos o seu significado. Todas as coisas que se mostram a nós, pois tratamos como fenômenos, porque conseguimos compreender o sen­tido. Entretanto o fato de se mostrarem não nos interessa tanto, mas, sim, compreender o que são, isto é, o seu sen­tido”. (ALES BELLO, 2006, p.19)
E esse é o detalhe que se revela no fenômeno: o seu sentido. E esta é a meta enquanto pessoas que buscam o significado ou o sentido daquilo que se mostra. Essa é a missão da filosofia nos dias de hoje: buscar o sentido das coisas, tanto de ordem física quanto de caráter cultu­ral, religioso etc, que se mostram a nós.
O nosso problema é: o que é que se mostra e como se mostra. Quando dizemos que alguma coisa se mostra, dizemos que ela se mostra a nós, ao ser humano, à pessoa humana. Isso tem grande importância. Em toda a histó­ria da filosofia sempre se deu muita importância ao ser humano, àquele a quem o fenômeno se mostra. As coisas se mostram a nós. Nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se mostra. Num primeiro momento, podemos pensar que aquilo que se mostra esteja ligado ao mundo físico diante de nós, mas do que dizer “as coisas se mostram”, precisa­mos dizer que “percebemos, estamos voltados para elas”, principalmente para aquilo que aparece no mundo físico. (ALES BELLO, 2006, p.19)
E, implicado nessa discussão metodológica, já se apresenta, no esforço compreensivo da fenomenologia essencialista de Husserl, um quê de positivismo ou de cientificismo. O rigor da análise que Husserl emprega na discriminação do sentido e de seus atos constitutivos o faz fazer ciência e acreditar na essência como pressuposto a priori do comportamento. Diz Ales Bello assim nesse sentido:
Então, para compreender o sentido, nós devemos fazer uma série de operações, pois nem sempre compreendemos tudo imediatamente, que consiste em identificar o sentido, os fenômenos, de tudo aquilo que se manifesta a nós. . (BELLO, 2006, p.19)
A discussão que se segue, neste segundo ponto, é sobre a questão da fenomenologia como método que, segundo Husserl, apud Ales Bello ( 2006, p.21), o método é um caminho formado de duas etapas: na primeira, a busca do sentido dos fenômenos: a redução eidética, e na segunda, a redução transcendental, que tratará como é o sujeito que busca o sentido.

As duas etapas falam da compreensão do sentido das coisas. É óbvio que para algumas coisas, a apreensão do sentido não é complicada, pois este se revela na própria função da coisa enquanto objeto. Todavia, para tantas outras, cresce, e muito, a complexidade da apreensão do sentido. Ales Bello destaca a fala de Husserl sobre esse tema, dizendo:
Husserl afirma que para o ser humano é muito importante compreender o sentido das coisas, mas nem todas as coisas são imediatamente compreensíveis. De qualquer modo, compreender o sentido das coisas é uma possibilidade humana. Como o que nos interessa é o sen­tido das coisas, deixamos de lado tudo aquilo, que não é o sentido do que queremos compreender, e buscamos, prin­cipalmente, o sentido. Husserl diz, por exemplo, que não interessa o fato de existir, mas o sentido desse fato. Este é um ponto muito importante: existem os fatos? Certamente, existem. Mas não nos interessa os fatos enquanto fatos, interessamo-nos pelo sentido deles. Por isso posso também “colocar entre parênteses” a existência dos fatos para compreender sua essência. Esse é um argu­mento para quem diz que importantes são os fatos. Certo, importantes são os fatos, mas o que são fatos? É este o ponto. E aqui está toda uma polêmica com outra corren­te filosófica contemporânea a Husserl, o Positivismo’. O Positivismo considera muito importante os fatos, sobretudo assumidos como tais pelas ciências físi­cas. No entanto, Husserl diz que os fatos existem e são fatos. Mas o que são? Por exemplo, a ciência física olha a natureza, dá-se conta dos fotos da natureza, mas o que são esses fatos? Ou ainda, as ciências sociais olham a socieda­de, mas o que é a sociedade? Qual é seu sentido? Fazemos tantas análises da sociedade sem saber do quê se trata. Não basta dizer que existem, e esta é uma das polêmicas de Husserl no confronto com o Positivismo, mas também com todas as ciências da natureza e as ciências humanas. A mentalidade positivista está ainda muito presen­te em nossos dias, ainda que não a chamemos assim. (ALES BELLO, 2006, p.23-4)
No entanto, basta a ciência física para resol­ver essa questão? Bastam as ciências humanas para dizer o que é o ser humano? Não bastam. Elas descrevem alguns aspectos do ser humano, assim como as ciências da natureza descrevem alguns outros. Mas a questão do sentido é um problema de fundo de toda a história da filosofia ocidental, pois a filosofia é a busca do sentido, e não dos aspectos do objeto. Estes devem ser examinados, ninguém diria que não, mas é necessário ir mais fundo, escavar mais, em diferentes níveis. Por essas razões, Husserl, no seu tempo, polemizava contra o Positivismo. A intuição do sentido é o primeiro passo do caminho e revela ser possível captar o sentido. E, nessa maneira de pensar, inicia o que se chama de fenomenologia essencialista de Husserl: a procura que o homem faz sobre o sentido das coisas e de suas implicações metodológicas.

A redução transcendental, nesse ponto, é básica para responder por que o ser humano busca o sentido. Esse é o lugar da análise do homem, a reflexão sobre o sujeito reflete. A redução fenomenológica permite ao homem dizer quem ele é. A novidade de Husserl, diz Ales Bello, é que a análise do sujeito humano se constitui no ponto de partida de sua investigação. Para dar um exemplo dessa categoria de reflexão, Ales Bello (2006, p.27), destaca o seguinte exemplo:
Para realizar a análise do sujeito faremos um exercício, comecemos por dizer que estamos diante de um copo d’água. Vemos, sobre a mesa, o copo que antes já estava lá, podíamos vê-lo, mas não tínhamos prestado atenção nele. Esta é uma coisa interessante que apresenta dois níveis. Antes víamos os copos, mas não fazíamos uma reflexão, talvez porque não estivéssemos com sede. Agora, tenho sede e começo a prestar atenção. Estamos refletindo um pouco sobre o tema do “ver o copo”. Antes estávamos cônscios, sabíamos ter visto o copo sem ter feito uma reflexão a respeito. Todos nós tínhamos já uma experiência perceptiva do copo, que estava em nós, dentro de nós, mas o copo, fora. Porém, no momento em que tivemos uma experiência perceptiva do copo, ele estava também dentro de nós. De que modo estava dentro? Nós sabíamos que o copo existia, portanto estar dentro significa saber que o copo existe.
Nesse sentido puramente essencialista, é que Husserl se vale dos estudos feitos sobre a percepção na perspectiva de compreender melhor como se dá o conhecimento humano. Chega até mesmo a afirmar que é, por meio da percepção, que se entra em con­tato com o mundo físico que é percebido através das sensações. A percepção é uma porta, uma forma de ingresso, uma passagem para o sujeito, ou seja, uma compreensão de como o ser humano é feito. Na análise feita sobre o copo, falou-se da percepção como um ato que se está vivendo, porém, nem todo ato que se vive, que se pode identificar, é de caráter psicológico, por isso a análise se torna muito refinada e requer uma atenção especial. Para comentar o exemplo acima Ales Bello (2006 p. 27), diz que:
(...) enquanto estávamos vivendo o ato perceptivo (o ato de ver o copo), poderíamos perguntar do que esse ato era formado. Sabemos que esse ato perceptivo era formado pelo ver o copo e também pelo copo, ali, diante dos olhos. Enquanto coisa física, enquanto existente, onde estava o copo? Estava fora. Porém, enquanto visto, onde estava? Dentro. Temos aí, o ato de ver, e enquanto vivemos o ato, estamos vivendo o copo-visto dentro de nós.
Desse modo, vai-se construindo a maneira essencialista husserliano de pensar o conhecimento na formação do humano. Ales Bello (2006, p.31) utiliza, nessa construção, os conceitos da visão e a do tato qualificando-os como sensações que são vividas por nós, pois as registramos por meio da nossa capacidade de dar-nos contas de algo que acontece conosco. Adentrando em um terreno de muita complexidade teórica, Ales Bello se permite, por inspiração metodológica, fazer uma comparação entre os atos da percepção – o dar-nos conta – e o ato da consciência de algo. Esse é um terreno perigoso e complexo porque a ultima coisa que se poderia pensar nesse momento é o da produção de um paralelismo sem nexo, criando para a consciência um território e uma função complementar. Quando Ales Bello sugere a comparação isso se faz para dizer que a consciência não existe em si, mas que é simultaneamente um tipo de imagem que é produzida pelo processo da percepção, e que esse sim é o caminho de acesso ao ser, ao sujeito do conhecimento. Ales Bello ainda destaca a compreensão da junção entre os conceitos citados da consciência e da percepção afirmando que isso só acontece pela capacidade que o ser humano tem de saber o que faz. E de que isso é uma condição superior, quando comparada aos animais, sobre tudo quando favorecida pelo imenso desenvolvimento do humano. Ales Bello (2006, p.32) cita Husserl sobre esta questão:
Aqui está a novidade, pois Husserl diz que o ser humano tem a capacidade de ter consciência de ter realizado esses atos, enquanto ele está vivendo esses atos, sabe que os está realizando. Sabe que está realizando esses atos na relação com algo que está vendo ou tocando (...) ver e tocar são vivências, e se são vivências, quer dizer que são registradas por nós e delas temos consciên­cia. Ter consciência dos atos que são por nós registrados são vivências. Consciência, neste caso, não quer dizer que a cada momento nós temos que dizer “agora estamos vendo, agora estamos tocando”. Consciência significa que, enquanto nós olhamos, nos damos conta de que estamos vendo, ou que, enquanto tocamos, nos damos conta de tocar.

E sobre isso, Ales Bello (2006, p.33-4), destaca os níveis de consciência perguntando sobre esse novo ato, que é o refletir, e de que tipo é essa vivência. Para tanto, sugere a existência de dois tipos: a consciência de primeiro grau, que acontece nos atos perceptivos com ênfase nos processos corpóreos e psicológicos, e a consciência de segundo grau produzida nos atos reflexivos com ênfase nos processos psicológicos e espirituais.
Numa rápida comparação, entre um cão e um gato que se veem e se tocam, sabe-se que eles possuem a consciência do primeiro grau – a perceptiva, que é corpórea e psicológica, pois eles são capazes de sentir, mas que não possuem a consciência do segundo grau – a reflexiva, pois esse grau apenas pertence ao homem porque tem a capacidade de se dar conta do que está vivendo. Ele sabe que sabe, sente que sente, sabe que está vivendo.

Para ampliar a noção do essencialismo husserliano, Ales Bello (2006, p.33-4) ilustra a noção dos atos perceptivos como pressuposto à consciência que temos de sermos corpo, psique e espírito.


Voltemos ao copo de nosso experimento. Nós o vemos, o sentimos, o utilizamos, por quê? Porque temos sede. Que tipo de ato é a sede? E um impulso. Nós sentimos alguma coisa interiormente, que nos impulsiona a pegar o copo e a beber. Esse impulso, não é o ato de beber, ou o ato de tocar, e nem o ato de refletir, é um outro ato. Em geral, o impulso em direção a alguma coisa é registra­do por nós, pois temos consciência do impulso e quere­mos vivê-lo. E o que fazemos? Buscamos alcançar o copo. Pode ser que alguém próximo do mesmo copo d’água tenha o mesmo impulso de beber, mas não chega a pegar o copo sobre a mesa. Por quê? Existe um contro­le muito semelhante ao ato da reflexão (É justo não poder beber?). Podemos dizer que existe uma regra social ligada a um controle, trata-se de um ato que não é o do ver ou o de tocar, nem o do impulso que mais se assemelha ao ato de refletir. Todos esses atos que identificamos têm caracterís­ticas diversas, qualidades diversas. Podemos pensar que existe uma dimensão do ter consciência (não uma dimensão física) sob a qual nós registramos: é um setting de registro dos atos. De quais atos? De todos os que nós estamos realizando, atos que são ligados ao mundo exter­no e ao mundo interno. Retomemos toda a análise feita na dimensão do ver e do tocar, o objeto é externo, mas o impulso de ir beber é interno. Agora, onde nós percebemos o ato inter­no, o impulso e o ato externo perceptivo? Sempre nessa dimensão da consciência. A consciência é a dimensão com a qual nós registramos os atos. O registro é um ter­reno novo, e ao identificarmos nesse terreno os atos vividos por nós, percebemos que tudo aquilo que vivemos passa através desse terreno.
Todavia, Ales Bello (2006, p.39), no sentido da ampliação compreensiva dos atos, identifica outros atos que não são de caráter psíquico, como o impulso de beber, nem de cará­ter corpóreo porque o corpo nos manda a mensagem de beber, mas não pegamos o copo. Portanto, podemos contro­lar o nosso corpo e a nossa psique. Diz ela:
Estamos registrando o ato de controle, mas este não é de ordem psíquica nem de ordem corpórea, e nos faz entrar numa outra esfera a que os fenomenólogos chamam de esfera do espírito (...) que é a parte que refle­te, decide, avalia, e está ligada aos atos da compreensão, da decisão, da reflexão, do pensar, que é assim chamada de espírito. Examinando os atos, a começar pelo registro dos atos podemos chegar à estrutura do ser humano. Somos corpo-psique-espírito, como dimensão.
É desse modo que se pode entender a metodologia de Husserl, o seu jeito essencialista de pensar. Sua decisão em fazer ciência está justamente neste processo onde se busca saber como o mundo se tornou um modo de ser em nós. Como o fora se tornou dentro. Quando e como acontece isso? A implicação disso na constituição do humano. Sabe-se que a sua maior preocupação é com a essência, em ser ela ou não o elemento captador e formatador interno das possibilidades compreensivas do fora (?), em saber como se dá o humano e a partir de que ele é tecido, constituído, produzido, ou seja: qual é sua essência, do que ele é feito? Por isso a sua determinação com a busca do sentido, pois essa é a materialidade com a qual se descobre do que é feito o homem e não simplesmente pelo fato dele existir. Sua ideia é que se deve colocar entre parênteses a existência dos fatos. O copo diante de mim é um fato, mas não interessa tanto que ele esteja aqui, e sim o que ele é, o problema do senti­do. (ALES BELLO, 2006, p.93). É óbvio dizer que Husserl não nega a existência das coisas ou dos fatos, mas se referia à existência como fato positivista. Porque ele não diz que não existe, apenas não quer levar em conside­ração a existência como factualidade. Quem vai afirmar a existência como pressuposto da essência é Heidegger. E sobre isso, Husserl diz, apud Ales Bello, (2006, p.94) :

Se vocês, positivistas, me dizem que as coisas existem como fato, como objeto da ciência, este aspecto de existência não me interessa, porque me inte­ressa compreender o sentido.” Poderíamos perguntar qual o sentido e a resposta seria que o sentido de todos os fenômenos, que estão interativamente sendo analisados e também os detalhes internos ao sujeito referentes àqueles fenômenos, as vivências. Heidegger, Merleau-Ponty, e Sartre admitiram que há um fenômeno da existência humana e se interessaram por examiná-lo como fenôme­no, mas sem adentrá-lo, sem examinar a dimensão dos atos. Essa é uma diferença fundamental. Quem aceita a dimensão dos atos é Edith Stein, que se interessa pela estrutura do sujeito, reconduzível à realidade transcen­dental (atos de consciência), e, através dos atos conquis­tados, vem depois, a existência das coisas. Todas as coisas existem; eu existo, os outros exis­tem, as comunidades existem, porém Husserl não traba­lha sobre o plano da existência, mas do sentido, do signi­ficado das coisas que existem. Heidegger, que é discípulo de Husserl, muda esta visão, interessando-se pelo fenô­meno da existência humana ao qual denomina Daisen.

Desta maneira, com a introdução do conceito da existência, Heidegger cria o existencialismo enquanto uma abordagem que se preocupa com o ser diante da realidade e da circunstância. Nesta feita não se discutirá sobre a essencialidade do ser como pressuposto da existência, mas será invertida a questão tomando Heidegger a compreensão de que a essencialidade será, por consequência, a soma das vivências do ser nas suas determinações sobre o que fazer da vida. O dasein será o grande indicativo do ser-aí. Do ser aí frente a circunstância. Do impasse do ser que, necessariamente, deverá decidir por sua escolha a fazer : ou se joga na circunstância transformando-a em realidade ou em não se jogar e privar-se da experiência, definindo assim uma escolha decidida pela alienação. Sabe-se que do ponto de vista histórico, essas filosofias nasceram da análise da existência, cons­tituindo o Existencialismo,embora Husserl não fosse um existencialista.

Para finalizar esse pequeno estudo, que apenas se concentrou na compreensão do essencialismo enquanto elemento qualificador da abordagem fenomenológica, mais uma vez utiliza-se a compreensão que Ales Bello (2006, p.95) faz sobre o tema:
Num certo sentido, os existencialistas entram na questão dos atos, mas não seguem a análise de Husserl sobre a subjetividade, é neste ponto que se separam. A questão mais importante é a de como vamos examinar o ser humano. Husserl vai ao interior, aos atos, às vivências para conhecer o sujeito que apreende o fenô­meno, para poder conhecer as características do que está fora (não factualmente), mas conforme foi apreendido pelo sujeito, faz uma análise do ponto de vista do espíri­to. Os existencialistas, interessados nessa existência do ser humano, permanecem fora.
CONCLUSÃO
Fica claro, depois do exposto, que os dois modos de se pensar o homem, tanto o essencialismo quanto o existencialismo se valem da mesma compreensão do ser humano enquanto fenômeno. Se um olha para fora o outro olha para dentro. Se um coloca o homem implicado no dasein, onde o ser-aí deve decidir para ser, o outro coloca o homem como algo que a natureza teceu, sob inspiração do sagrado ou não( ?), que o fez corpo, e que neste se congrega todo legado dos muitos milhares de anos de evolução. O existencialismo afirma que as vivências são experiências tomadas pelo corpo que decidiu ser, que se jogou na circustância, que se fez mundo. O essencialismo define a vivência como a capacidade que o homem tem de registrar o que acontece com ele e disso ter consciência. Do lado existencialista, preocupado com a existência enquanto objeto de sua análise, compreende-se o homem de várias maneiras : a) que, o ser, não é/existe em si mesmo, e que quando aparece se desfaz ; b) que o ser humano é incomensurável ; c) é comparado às águas do rio que nunca passam duas vezes em um mesmo lugar. Sendo assim, d) é insustentável a qualquer apreensão que se destine, qualquer categorização que se aplique, e que, por não ser classificável, não pode ser idêntico, mas apenas semelhante na diferença. De outro lado, o essencialismo, por não concordar com tudo isso, evoca a compreensão do que é feito o homem, e para tanto recorre aos atos, aos processos, à busca dos sentidos, ao entendimento de um corpo que aprimorou seu jeito de ser corpo, pela natureza de sua inerente necessidade de interagir com o mundo em todas as suas categorias. Pela busca da compreensão do que se chama essência. Do que é fundamental à existência humana. Da vida enquanto fenômeno.

Desse ponto de vista, a questão mais importante é a de “como vamos examinar o ser humano. Husserl vai ao interior, aos atos, às vivências para conhecer o sujeito que apreende o fenô­meno, para poder conhecer as características do que está fora (não factualmente), mas conforme foi apreendido pelo sujeito, faz uma análise do ponto de vista do espíri­to. Os existencialistas, interessados nessa existência do ser humano, permanecem fora”. ALES BELLO (2006, p.95)


REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA UTILIZADA

BELLO, Angela Ales. Introdução à Fenomenologia. Tradução: Ir. Jacinta Turolo Garcia e Miguel Mahfoud. Bauru-SP : Edusc, 2006. 108p. (Coleção Filosofia e Politica).

PROF. ME. CLAUDEMIR GOMES

Artigo :


O MÉTODO FENOMENOLÓGICO ESSENCIALISTA DE HUSSERL NA VISÃO DE ANGELA ALES BELLO

Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba

Araçatuba-SP

Junho/2014
Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.1 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000100010

 

1 - Corpo, consciência e psicologia



 

José Lino Oliveira Bueno1

Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto

 

Resumo: Vários sistemas teóricos em ciências humanas não dissociam a característica biológica das características particularmente humanas. Um filósofo fenomenólogo ao examinar os fenômenos da consciência (Merleau-Ponty), um psicólogo marxista ao considerar os determinantes sociais da consciência humana (Luria) ou um epistemólogo cognitivista ao examinar o desenvolvimento da inteligência (Piaget) não só não desprezam os determinantes biológicos do psiquismo, mas, ainda, consideram que para se ter acesso a estes fenômenos chamados de ordem superior é preciso que se leve em conta o organismo nos seus componentes biológicos.


Palavras chave: Ciências humanas. Estruturalismo. Fenomenologia.
1 O homem é um ser que pensa, tem consciência e se move num contexto cultural, social, histórico. A Psicologia tem se dedicado com grande ênfase a fenômenos denominados como de consciência, cognitivos ou sociais. Mesmo da parte da psicologia experimental estes fenômenos têm sido cada vez mais objeto de preocupação de um grande número de pesquisadores.

Ao mesmo tempo, no entanto, a afirmação de que o homem é um ser que pensa, tem consciência e se move num contexto social, cultural, histórico tem significado, em inúmeros cursos de psicologia e para diversos grupos de psicólogos e não-psicólogos, uma posição de confronto, de conflito: não raramente, se se contrapõe o fato do homem ser um ser consciente, pensante, social a uma biologia do comportamento e a uma compreensão científica do comportamento humano.



2 O que estaria justificando esta aparente dicotomização dificultando a assimilação de um aspecto a outro da análise psicológica? É claro que os psicólogos e pesquisadores, por contingências históricas e culturais, conservam marcadas, ainda, as distinções entre corpo e alma - apesar de todo avanço do conhecimento - que nos arrastam com freqüência a fazer a divisão entre o que se vê e o que não se vê no homem. A nível de formação do psicólogo, a compartimentação estanque das disciplinas do currículo leva o aluno a examinar separadamente os determinantes biológicos, fisiológicos, neuroanatômicos dos determinantes psicológicos. Raras são as oportunidades oferecidas ao aluno para exercitar uma  análise de interação destes componentes explicativos do comportamento. E se se quiser fazer esta análise de interação, as dificuldades são enormes, uma vez que a formação biológica e epistemológica exigidas para esta tarefa é limitada, tanto para o aluno, como, com muita freqüência, para o professor também.

Com esta dicotomização entre níveis mais elementares fisiológicos e níveis mais complexos e "humanos" do estudo do comportamento, pode estar se reproduzindo apenas uma atitude, encontrada com freqüência na pesquisa psicológica. Como se se pudesse separar - como comenta A. Luria -, de um lado o enfoque científico natural dos fenômenos, "como a tarefa de explicar os processos psíquicos limitando-se de fato  a examinar os fenômenos complexos e especificamente humanos da atividade consciente"; de outro lado, tomando-se "como objeto de análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente e especificamente humanos, limitando-se, porém, a descrição das manifestações subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestações de espírito e recusando-se a dar aos mesmos o enfoque científico causal" (Luria, 1979, p. 6). Já se fez muito disto em psicologia e o exame de currículos atuais de formação de psicólogo pode confirmar esta observação.

Diante deste quadro as tentativas de modificação não são fáceis. As pressões de ordem profissional e as dificuldades de encontrar uma saída rapidamente levam o aluno a optar, em geral, por uma abordagem (ou técnica, simplesmente) ou a se engajar no primeiro ismo que lhe cai em mãos. E estes proliferam e têm tido livre trânsito nas escolas e ambientes acadêmicos: seja biologismo, como sociologismo, cognitivismo, humanismo, etc. Diante do conflito, apela-se para os reducionismos. Há os que julgam, ainda, poder reduzir toda a complexidade do comportamento humano às possibilidades dos instrumentos de análise do comportamento de animais inferiores. Mas há também os que pretendem reduzir os fenômenos psicológicos às explicações de uma psicologia filosófica. Outros, ainda, insistem no sociologismo que faz com que os determinantes sociais se sobreponham e anulem no homem a herança filogenética.
3 É claro que questão tão ampla e complexa exigiria um exame tão exautivo que não caberia num artigo. No entanto, acredito que vale a pena- eliminando em princípio da minha parte qualquer tentativa de biologismo - examinar se o reconhecimento da importância da atividade consciente e pensante do homem e das suas características sociais e históricas pressupões ou exige o enfraquecimento do enfoque biológico da psicologia humana. É possível ter acesso adequado e suficiente aos fenômenos de consciência, cognitivos e sociais envolvidos na psicologia humana, ignorando qualquer consideração de ordem biológica? É possível se definir um espaço onde fenômenos de consciência, cognitivos e sociais se coloquem em estreita ligação com o organismo, entendido como corpo físico, sem cairmos em reducionismos de parte a parte?

Acredito que as possibilidades de interação poderiam ser exploradas - sem pretender aqui ser completo - a partir de alguns autores contemporâneos. Parece importante hoje que o psicólogo ouça e examine especialmente formulações de estudiosos de psicologia que têm fortes compromissos com a abordagem destes fenômenos de consciência, cognitivos e sociais. Neste artigo procuro examinar três autores que podem nos ajudar a esclarecer um pouco mais estas questões.


4 Qual o tratamento que a Fenomenologia - filosofia invocada com tanta freqüência pelos psicólogos humanistas ou fenomenólogos - oferece aos fenômenos da consciência?

A Fenomenologia rejeita os métodos tradicionais de introspecção como forma de acesso aos fenômenos da consciência e combate o subjetivismo e relativismo. O introspeccionismo, de um lado, busca uma vivência interior, procura ter acesso à interioridade do indivíduo, em contraposição à vivência exterior, fazendo desta forma o psiquismo existir de maneira diferente do orgânico. A fenomenologia, por outro lado, apresenta a estrutura da consciência enquanto intencionalidade, a consciência é "consciência de...". Não há dicotomia possível entre o eu e  o mundo. O mundo não é algo exterior, mas é afirmado como "meio". O eu não é interioridade, mas é afirmado como "existente" no mundo (Lyotard, 1967, p. 58). "Não existe o homem interior, o homem é no mundo", e, a verdade, portanto, não se encontra num suposto homem interior, mas "é no mundo que ele se conhece" (Merleau-Ponty, 1954; citado em Lyotard, 1967, p. 58). Para o introspeccionismo a vivência da consciência constitui por si mesmo um saber da consciência. Estou assustado, sei o que é o medo. A vivência se dá imediatamente com seu sentido. Há uma transparência. Para a fenomenologia, ao contrário, o método de abordagem exige uma reflexão: uma retomada descritiva da própria vivência para a consciência atual. Assim, por exemplo, estou assustado, sei que tenho medo, não sei ainda o que é o medo. Este método de reflexão, esta retomada necessária da vivência permite ao fenomenólogo superar a barreira intransponível para o introspeccionista da vivência individual, que não pode ser reproduzida. Esta maneira de entender a consciência pela fenomenologia a torna uma categoria irreconciliável com o corpo? O filósofo fenomenólogo Merleau-Ponty rejeita a tese de Sartre de que não há união possível entre o corpo objetivo estudado pelo filósofo e minha consciência. Merleau-Ponty aceita  o debate no nível da própria fisiologia. Como profundo conhecedor da ciência biológica de sua época, Merleau-Ponty se propõe a fazer uma análise dos dados experimentais e principalmente clínicos da patologia nervosa e mental. Para ele "o corpo, que interessa ao filósofo, é este corpo objeto de solicitude por parte do biólogo e do médico, nunca um corpo vazio de substância. Contudo este corpo é, ao mesmo tempo, o corpo sujeito de uma existência a que está indissoluvelmente ligado, é o corpo  próprio de um indivíduo, centro de um universo pessoal" (Gusdorf, 1960, p. 264). "A anatomia do corpo não deve ser compreendida como totalidade fechada sobre si, que um belo dia esbarra num universo intrinsecamente diferente dela. (...) O corpo só existe como suporte e medianeiro de uma vida que, mediante ele, abarca o mundo inteiro." (Gusdorf, 1960, p. 265). "O corpo exprime a existência total, não porque seja acompanhamento exterior dela, mas porque ela, existência, se realiza nele." (Merleau-Ponty, 1945; citado em Gusdorf, 1960, p. 265).

Consciência e Corpo não são categorias irreconciliáveis. Pelo contrário, se "não posso apreender meu corpo fora de seu impluso para o mundo", também "não posso apreender o mundo (como ser consciente) fora do impulso de meu corpo, que faz uma leitura do mesmo mundo em função de suas possibilidades próprias." (Gusdorf, 1960, p. 266).

Para dar conta desta proposta, a fenomenologia não rejeita ou se contrapõe à ciência experimental. Para a filosofia fenomenológica, como movimento histórico, "uma poderosa confiança na ciência impulsiona a vontade de assentar solidamente sobre ela os seus andaimes, a fim de estabilizar todo seu edifício e impedir uma nova crise" de subjetivismo e irracionalismo como a vivida na passagem do século. "Mas para completar tal operação é necessário também sair da própria ciência" e mergulhar na essência da consciência do "dado imediato anterior a qualquer tematização científica". ( Lyotard, 1967, p. 9 e 10)

Assim fazendo, a fenomenologia não tenta substituir as ciências do homem, mas ajustar sua problemática, selecionando seus resultados e reorientando sua pesquisa. A fenomenologia "procura definir eideticamente seu objeto" (por variação imaginária), "anteriormente a toda experimentação" e "uma retomada filosófica dos resultados da experimentação." (Lyotard, 1967, p. 52)
5 Vigotsky e, depois, Luria (1979), dois cientistas russos, este membro da Academia de Ciências de Moscou, acreditavam que é preciso superar a crise gerada pela dicotomização da psicologia entre processos psicológicos elementares 'versus' fenômenos complexos e humanos da consciência.

As raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da alma nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais da vida historicamente formada. O psiquismo não se reduz nem a uma forma de existência do espírito, - objeto de uma psicologia filosófica - nem se reduz a uma função imediata do cérebro, objeto de um fisiologismo. As peculiaridades da forma superior de vida, inerente apenas ao homem, devem ser procuradas na forma histórica- social de atividade, que está relacionada como o trabalho social, com o emprego dos instrumentos de trabalho e com o surgimento da linguagem. No homem há uma nova fonte formadora de atividade: a transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível no processo de aprendizagem. O reconhecimento da importância  das condições sociais não implica no esquecimento dos mecanismo cerebrais e de qualquer referência biológica. As formas superiores de atividade de consciência humana, que se explicam e têm sua origem na evolução de sociedade, se desenvolvem no cérebro e devem ser analisadas cientificamente. A tarefa da psicologia, então, deve ser "estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das necessidades complexas e da personalidade, considerando todos estes fenômenos como produtos da história social", mas "sem separar este estudo da análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base". (Luria, 1979, p. 7). A psicologia deve se desenvolver em estreita ligação com uma biologia. Diz Lúria (1979) que sem o conhecimento "dos princípios biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base biológica. Eis porque é absolutamente necessário para a psicologia científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas partes delas" como a ecologia e a etologia. A psicologia deve, ainda, conforme Lúria, desenvolver-se em estreita ligação com a fisiologia. Diz ele que "o êxito do desenvolvimento da psicologia depende grandemente da correta compreensão da correlação dessas duas ciências, "psicologia e fisiologia", e tanto o desconhecimento de fisiologia como a tentativa de reduzir a psicologia à fisiologia retardariam o desenvolvimento da ciência psicológica". (Lúria, 1979, p. 10). Ocupam espaço como parte da psicologia, entre outras a psicologia animal, psicofisiologia, a neurofisiologia. Assim, o comportamento não se explica apenas pela consideração das condições sociais de vida, mas também pelos programas de comportamento consolidados por via hereditária, jacentes no genótipo, e pela influência da experiência passada do próprio indivíduo, estes, fatores tipicamente psicobiológicos.

Assim, Lúria, preocupado em redefinir os rumos de psicologia visando à compreensão do homem como ser social e histórico não despreza a fisiologia e a biologia, pelo contrário, afirma que a compreensão dos fenômenos de consciência deste ser socialmente determinado é falha se se negligenciar suas bases biológicas.
6 Com Piaget temos um modelo de convivência e interação, no trato dos fenômenos psicológicos, entre processos chamados superiores e a biologia. Como Piaget identifica as relações entre a estrutura orgênica e a estrutura cognitiva, do conhecimento? Piaget (1973 se apoia numa hipótese de que o conhecimento é um aspecto mais especializado e cada vez mais diferenciado de um processo de equilibração que ocorre no desenvolvimento e na formação orgânica ou vital. O conhecimento não é uma simples cópia do real mas implica numa organização interna: como tal é uma assimilação às variações fenotípicas decorrentes das interações entre o genoma e o meio. O conhecimento é entendido principalmente como organização de informação dentro de um sistema de transformações que visam à resolução de problemas nas trocas com o meio e, portanto, visa ao processo adaptativo. O aparelho de conhecimento humano se realiza como as outras funções orgânicas; formado filogeneticamente, tem suas características específicas como resultados da confrontação entre o organismo e o meio. Mas, estas ligações possíveis entre a organização biológica e do conheciemnto, particularmente entre as regulações orgânicas e os sistemas reguladores cognitivos com o seu equilíbrio progressivo não justificam um reducionismo biológico. "A inteligência não surge no auge 'de um processo', como se já estivesse contida no organismo, nem tão pouco evolui em linha reta a partir de mecanismos elementares, que seriam assim pré-formados nos sistemas nervosos e genéticos, mas, antes se constrói pouco a pouco, degrau a degrau, cada um destes estádios começando por uma reconstrução atual do que fora adquirido, no nível anterior, a um outro plano. (...) O que foi construído no plano sensório-motor deve, em seguida, ser reconstrúido e ultrapassado pelo da representação ou pensamento (porque é completamente diferente saber executar uma ação e poder retraçá-la em pensamento) e, no próprio campo, o que começa sob a forma de operações concretas referentes diretamente a objetos só mais tarde é transportado para o plano da reflexão abstrata, etc." (Piaget, 1975, p. 43 e 44).

Assim, a estrutura mental é explicada hipoteticamente por um modelo de caráter lógico-matemático que comporta um dinamismo biológico. Falar em dinamismo biológico e caráter lógico-matemático, para Piaget não é mais que uma separação de linguagem para explicar um conjunto só, implicado na estrutura mental. As funções cognitivas, assim, prolongam as regulações orgâncias e constituem um órgão diferenciado de regulação das trocas com o meio.


7 Há diferenças essenciais e seria ingênua qualquer pretensão de ecletismo, juntando um fenomenólogo, um psicofisiólogo de orientação marxista e um cognitivista. Como também foge aos objetivos deste trabalho estender-se nas diferenças destes enfoques.

O que pudemos verificar, entretanto, é que um filósofo fenomenólogo ao examinar os fenômenos da consciência, um psicofisiólogo ao examinar os determinantes sociais de consciência humana, ou um epistemólogo cognitivista ao examinar o processo de conhecimento não precisam desprezar os determinates bioógicos do psiquismo. E não é que busquem simplesmente os correlatos fisiológicos dos fenômenos de consciência, cognição e sociais. Mais que isto, estes autores mostram que para se ter acesso a estes fenômenos chamados de origem superior é preciso que se leve em conta o organismo nos seus componentes biológicos. Na verdade, estes autores cobram uma formação biológica sólida daquele psicólogo que busca compreender a consciência humana, naquilo que ela tem de mais próprio.

 

Referências



Gusdorf, G. (1960). Tratado de Metafísica. São Paulo: Companhia Editora Nacional.        [ Links ]

Luria, A.R. (1979). Curso de Psicologia Geral (Vol. 1). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.         [ Links ]

Lyotard, J.F. (1967). A Fenomenologia. São Paulo: Difusão Européia do Livro.        [ Links ]

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la Perception. Paris: N.R.F..        [ Links ]

Piaget, J. (1973). Biologia e Conhecimento. Petrópolis: Vozes.        [ Links ]

Piaget, J. (1975). A Psicologia. Lisboa: Livraria Bertrand.        [ Links 


  1   2   3   4


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal