Amores de machado de assis



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Encontro04.10.2017
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AMORES DE MACHADO DE ASSIS

Letras Cênicas, Grupo da cidade de Ponta Grossa, PR, se fez presente no Cena Viva 2017, Festival de Teatro de Santa Rosa, RS, com a apresentação do espetáculo AMORES DE MACHADO DE ASSIS, de autoria de Carlos Alexandre de Andrade, pesquisador e ator, sob a direção de Bya Paixão.

Estamos diante de uma jóia rara. O Grupo acerta em cheio, ao mergulhar no universo proposto, conseguindo, com exatidão, transpor sua incansável pesquisa sobre o nosso literato-mor, para o palco. E, com tal empreitada, o Grupo demonstra conhecimento e intimidade com as convenções e com a carpintaria teatrais, presenteando-nos com um espetáculo que - por ser monólogo, ser resultado de uma pesquisa desenvolvida durante um longo período, supostamente didático (no mau sentido), onde havia expectativa de que viesse a ser uma 'aula' sobre Casmurros e outros Ayres e Brás Cubas afins - nos pega, a todos, de surpresa, seguindo outro rumo, coerente com o título escolhido e nos exibe uma encenação consistente, com um ator privilegiado, com uma direção impecável e, com o aporte técnico todo a serviço e em profunda consonância com a concepção proposta.

O ator, irrepreensível em seu ofício, talvez tendo como único senão o fato de, por falta de domínio mais apurado da técnica vocal, 'engolir' os finais de algumas frases, o que não compromete a compreensão do que está dizendo, está cercado - ponto para a direção - por quesitos técnicos excepcionais: iluminação e trilha sonora coerentes e na medida certa, além de ser maravilhosamente bem operadas, criando verdadeiros diálogos com o ator, de tal eficácia, que até nos esquecemos que ele está sozinho em cena. O figurino, bem como a caracterização do ator com seus 3 únicos adereços - um chapéu, uma bengala e um lampião - é satisfatória e adequada à 'pobreza' da encenação. O cenário, uma cadeira. E é preciso mais? Não. Pode esta ser até dispensada, que o arrebatamento com que o espetáculo nos envolve continuaria incólume. O ator e seu texto, quando há talento e coerência na proposta e na concepção, são bastantes.

Carlos Alexandre e Bya tinham todos os empecilhos, obstáculos e armadilhas, para se deixarem seduzir. Felizmente não se deixaram levar pelas tentações de concessões inócuas, seduzindo-nos, a todos, com sua segurança e consciência do que querem e o dom para consegui-lo.

O texto, resultante da pesquisa sobre Machado de Assis - o Bruxo do Cosme Velho -, fugiu dos lugares-comuns de trazer ao palco sua obra, suas Capitus e suas Iaiás. Porém, ao contrário, aprofunda-se na vida pessoal do escritor, onde, desvendamos referências e fatos que ele eternizou em sua obra ficcional. Durante a encenação há pistas que nos instigam a buscar em nossos registros estas referências, o que, também, se não as tivermos, não minimiza nosso interesse e nem a importância que o espetáculo nos proporciona em seus 65 minutos de deleite e prazer estéticos, raramente conseguidos.

O ator dá conta de todos os personagens que o texto demanda, masculinos e femininos, com serenidade e carisma invejáveis. Curvas dramáticas, clímax, prólogo e epílogo, manuseio de objetos imaginários, concentração, capacidade de manutenção de foco, enfim, tudo é por ele dominado, inegavelmente. Nesse espetáculo, asseguro, Machado de Assis encontrou seu 'alter ego', guardando-se as devidas proporções espaço-temporais, em Carlos Alexandre, também bruxo, como ele, só que de Ponta Grossa, o Bruxo de Vila Velha, quem sabe, e nós agradecemos e esperamos mais e ansiosamente por suas novas bruxarias. Longa vida a Machado de Assis. Longa vida ao Letras Cênicas. Longa vida ao teatro, que em mãos certas jamais será efêmero. Terá garantido seu lugar por toda a eternidade.

Antonio Carlos Brunet



Junho de 2017.


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