Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário



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Pressclipping em 11.maio.2015

Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário.” (Albert Einstein)





As contas secretas de muitos brasileiros na Suíça

Parece uma franquia de escândalos que o Brasil está vivendo, tal e qual os filmes de Hollywood que, após o sucesso da primeira versão, continuam em série. No caso do mensalão, agora do petrolão e, segundo os boatos e as versões divulgadas nas redes sociais, ainda teremos outros escândalos. Não é uma franquia e, muito menos, é sucesso de público. Muito pelo contrário, os brasileiros abominam e se deprimem ao ver que havia tanto descalabro. No caso do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), com mais de 300 conselheiros, a maioria indicados e sem receber nada em troca, ficou mais do que provada a desorganização, a falta de gestão e a incompetência de certos setores do poder público para tomar atitudes.

No entanto, há também um outro assunto que não tem tido a mesma repercussão na mídia, que é o caso conhecido como "Swissleaks", pelo qual se ficou sabendo - ou suspeitando - de muitas contas de brasileiros e empresas de renome em bancos suíços. O perito em informática Hervé Falciani, denunciante do caso "Swissleaks", vai colaborar com as investigações sobre correntistas nacionais envolvidos em ocultação e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais. O engenheiro foi autor do vazamento de informações do HSBC Private Bank, em 2008, e desde então colabora com o Ministério da Justiça e com magistrados da França na identificação dos responsáveis por fraudes fiscais. Uma equipe da Procuradoria-Geral da República esteve em Paris em busca de informações do governo francês.

O incrível é que o aparato do governo federal não se mexeu e descuidou do problema. Isso porque o próprio denunciante pediu que o governo acessasse todas as suas informações disponíveis. A partir de um contato formal, ele ajudará as autoridades brasileiras. Segundo Falciani, empresas e correntistas do Brasil são os maiores clientes dos chamados Private Banks, com frequência vinculados a escândalos de ocultação, lavagem e repatriamento de dinheiro originário de corrupção, de evasão fiscal e do crime organizado. Só isso bastaria para que um levantamento sério, e retirando da lista os que têm declarações junto à Receita Federal, venha a público.

Além da Receita Federal, a Procuradoria-Geral da República tem interesse em identificar os correntistas que possam ter ocultado contas no exterior. Procuradores estão em contato com autoridades do Ministério Público e do Ministério da Justiça da França em busca de colaboração nas investigações. A equipe é integrada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e pelo secretário nacional de Justiça, Beto Vasconcelos.

O "Swissleaks", como citado, veio a público em 2008, mas, durante sete anos, em momento algum, a Receita Federal solicitou ao governo da França acesso à lista de correntistas. A situação só evoluiu em 2015, depois que o jornal Le Monde e o Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (CICJ) começaram a revelar parte dos nomes de 106 mil clientes de 203 países que, entre 2006 e 2007, mantinham depósitos da ordem de US$ 100 bilhões que transitaram pela filial de Genebra do HSBC Private Bank.

Em relação ao Brasil, 8,6 mil clientes teriam US$ 7 bilhões em 6,6 mil contas bancárias da agência suíça. As contas secretas não declaradas à Receita, segundo é falado, envolveriam pessoas e instituições populares no Brasil. Também deve ser divulgada logo a nominata da Operação Zelotes, de fraudes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

Fatóide?

Resolução de órgão vinculado à Dilma: travestis e transgêneros podem frequentar banheiros femininos em escolas e universidades

Publicado por Leonardo Sarmento - 2 dias atrás

Foi publicada resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT), órgão vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República que permite aos travestis e aos transgêneros escolherem nas escolas e universidades, qual banheiro querem usar.

Sendo assim, sua filha ou sua mulher será obrigada a usar o mesmo banheiro que um homem vestido de mulher, desde que este alegue que se acha mulher também (identidade de gênero). Ainda obriga as escolas e as universidades a terem em seus cadastros um espaço de “nome social”, que é o nome que a pessoa quer ser chamada. Permiti a resolução o uso de uniforme masculino ou feminino pelos travestis ou transgêneros.

Agrega algum valor ou representa alguma conquista?

Somos defensores quando articulamos em vários momentos em favor de causas LGBT, com diversas pretensão nos padrões de uma isonomia material, contras discriminações odiosas e em favor da dignidade da pessoa humana, mas o limite do razoável há que ser respeitado e levada em consideração nossas realidades sociais. Uma imposição ao invés de pacificar pode alimentar conflitos. Não podemos afastar-nos do crivo do postulado da proporcionalidade e reconhecer pleitos sem valor social apreciável, que podem mais acirrar antinomias que promover a pacificação social.

Pleitos legítimos como da específica criminalização da homofobia ainda não se conquistou. Bastaria uma pequena inclusão no art. 140, parágrafo 3º do CP abarcando entre as condutas tipificadas como injúria preconceituosa, além dos elementos injuriosos lá descritos (cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência), opção ou condição sexual. Deste pleito somos favoráveis e entendemos que já estamos destempo pelo excessivo atraso legislativo.

Voltando à resolução, imaginem como ficará o pai mais conservador que tem uma filha sabendo que ela está na escola e qualquer pessoa que alegue possuir o “gênero idêntico” ao dela vai poder frequentar o mesmo banheiro que sua filha. Vale lembrar que, a nossa sociedade ainda é conservadora. Como você coloca um parâmetro nisso? Como saber que um menino, rapaz ou homem está mal intencionado ao entrar nesse banheiro?

Importante a busca da educação e não de imposições desqualificadas para se alcançar a pacificação em questões sociais. A discriminação odiosa deve ser punida sim, o que lamentavelmente ainda não é, devemos sim, encontrar fórmulas inteligentes para inclusão quando se postulam pleitos legítimos.

Não podemos portanto defender uma resolução sem os predicados defensáveis que se espera, como esta promovida por um órgão controlado pela senhora Presidente da República. Voltamos a firmar tratar-se de apenas uma resolução de um órgão de 3º escalão ligado à Presidência, e não de lei, não passou pelo procedimento formal legislativo apto para criação de uma lei, não possui portanto força obrigatória, vinculante às escolas e universidades, mas que mesmo como uma mera resolução pode ao invés de resolver criar muita confusão.

Em nota de lamento soubemos que em uma universidade do Piauí um travesti carregava a resolução de baixo do braço entrou no banheiro feminino a ao sair do reservado encontrou duas meninas que o conheciam se despindo. Uma delas saiu revoltada e no mesmo dia o travesti foi espancado próximo à rua de sua residência por um grupo de jovens. Essa notícia não sei por que cargas d’água não foi divulgada, talvez por ter sido vista como “apenas” mais um espancamento de travesti, este que poderia ter sido evitado, não fosse esta inábil, tola e despropositada resolução. Aliás foi este caso que motivou-nos a articular.

Por mais absurdo que possa parecer é uma resolução que não se presta a finalidade de uma isonomia desejada e que poderá resultar em repulsa e violência. Quem diria que algum dia daríamos razão em matéria de homoafetividade, ao homofóbico e desestruturado Feliciano... Pois nunca diga nunca, este dia chegou!

Uma solução possível, paliativa seria a criação de reservados para pessoas não-binárias, o que por uma hermenêutica mais conservadora poderia representar também uma forma de discriminação, medida não-isonômica, mas seria uma possibilidade menos lúdica para se aventar.



Brasileiros trabalham o dobro do que nos anos 70 e 80 para pagar impostos

Para pagar todos os impostos do ano, a gente tem
que trabalhar de 1º de janeiro até o fim de maio.


Phelipe Siani São Paulo, SP

A população brasileira trabalha atualmente o dobro do que trabalhava para pagar impostos nos anos 1970 e 1980, disse um estudo divulgado na quartta-feira (6).

No começo de maio já é possível contabilizar: para pagar todos os impostos do ano, a gente precisa trabalhar de 1º de janeiro até o fim de maio. Até tem uns países onde o morador tem que ralar mais para dar conta de todos os tributos, como a Dinamarca, a França, a Suécia e a Noruega... só que os serviços públicos nesses países são muito melhores do que os nossos.

Quer entender por que que a gente precisa trabalhar tanto para pagar os nossos impostos? Porque 45% do valor da TV vão para o governo. Do outro lado, no computador, o mouse, por exemplo, tem 40% de impostos. O tablet, 39% de tributos. Aí você coloca a mão no bolso, pega seu celular e descobre que no valor dele tem 33% de tributos. Muitas coisa? Realmente é, mas saiba que videogame tem 72% de impostos.

E a lista de sustos é gigantesca. Mais de um terço do preço que se paga pela roupa que a gente compra no shopping não é roupa, é imposto. A garfada no sabão em pó que usamos para dar uma lavada nela é ainda maior. Perto do que se dá para o governo quando se quer prevenir os mosquitos. Um percentual que assusta quase tanto quanto o Aedes aegypt.

Uum pouquinho menos de impostos tem a geladeira. Já as frutas que guardamos dentro dela têm bem menos, 12%. Abaixo dos 20% também está o cafezinho para pelo menos poder terminar o almoço de um jeito um pouco menos indigesto.

"Ao invés de darmos uma pena ao governante que aplica mal o dinheiro público, se aumenta a carga tributária justamente como um prêmio para aquele que mal geriu o dinheiro público", diz Gilberto Luiz do Amaral, presidente do Conselho IBPT.

Economia / FRAUDES FINANCEIRAS

07.05.2015 | 20h30

05/05/2015 | 09:08 - Atualizado em: 05/05/2015 | 09:07



Clubes de futebol devem R$ 6,3 bilhões

Valor do endividamento dos 20 clubes ao final 2014 equivale a quase o dobro dos R$ 3,2 bilhões verificados em 2010 e espelha o total descontrole das contas

Nicola Pamplona nicola.pamplona@brasileconomico.com.br

Com a receita estagnada e os custos em alta, as dívidas dos maiores clubes de futebol do país chegou a R$ 6,3 bilhões em 2014. A conta é de duas consultorias especializadas em marketing esportivo, que analisaram os balanços financeiros dos 20 times com maior arrecadação no país e vislumbram um cenário caótico caso a política de contratações a qualquer custo não seja revista. Atualmente, apenas cinco entre os 20 clubes analisados se enquadrariam nos limites de custos impostos pela Medida Provisória 671, que institui uma espécie de lei de responsabilidade fiscal para o futebol brasileiro. De todos, a única exceção apontada pelos consultores é o Flamengo, que diminuiu sua dívida e gerou superávit no ano passado.

O valor do endividamento dos 20 clubes ao final 2014 equivale a quase o dobro dos R$ 3,2 bilhões verificados em 2010. “O que vemos é um descontrole total. É a filosofia do vencer a qualquer custo: ninguém está preocupado em fechar no azul e todo mundo está indo para o mesmo buraco”, diz o consultor Amir Somoggi, autor do estudo “Finanças dos Clubes Brasileiros”, que será apresentado hoje no Senado. Ele acrescenta, entre as causas, a “ irresponsabilidade de gestões anteriores ao não recolher impostos e atrasar salários”. “Isso está virando uma bola de neve”,alerta.

O resultado da falta de controle é um déficit somado de R$ 597,5 milhões no ano passado, apesar dos bons resultados de Flamengo e Atlético-PR — que, juntos, tiveram um superávit de R$ 107,5 milhões. Segundo ele, um dos sinais da gravidade da situação são as finanças de São Paulo e Corinthians, clubes até há pouco considerados exemplos de gestão, que fecharam 2014 com déficit em torno de R$ 100 milhões, cada um. O maior déficit (R$ 174,8 milhões) pertence ao clube que tem também a maior dívida (R$ 845,5 milhões): o Botafogo, vice-campeão carioca neste domingo.

“O custo continua crescendo e a receita estagnou nos últimos anos. Como resultado, os clubes fecharam 2014 com o maior déficit e o maior endividamento da história do futebol brasileiro”, reforça o consultor Pedro Daniel, da BDO. Ele vê dificuldade para reverter o cenário este ano, diante da retração econômica, que dificulta as negociações para bons patrocínios. O cenário adverso já foi sentido no ano passado, quando a receita com patrocínios caiu 1,5%, para R$ 452 milhões, apesar do expressivo aumento da rubrica no balanço do Flamengo (alta de R$ 36,6 milhões).

Na média, todos os indicadores financeiros analisados vêm apresentando piora desde 2012, quando os clubes receberam R$ 350 milhões a mais da TV Globo como luvas pela renovação do contrato de transmissão dos jogos. Naquele ano, o resultado somado dos 20 maiores clubes foi positivo em R$ 35,9 milhões. “Ao invés de usar o dinheiro para melhorar suas finanças, os dirigentes torraram tudo. Se continuar neste ritmo, vai chegar a um dia em que as luvas de TV não terão qualquer impacto”, diz Somoggi. A renegociação do contrato ocorre a cada quatro anos.

Segundo os consultores, apenas Fluminense, Vasco da Gama, Flamengo, Goiás e Atlético-PR se enquadrariam hoje no teto de custos estabelecido na MP671, que limita os gastos do departamento de futebol a 70% da receita. A MP, que já foi chamada de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, tem como objetivo regular a gestão do setor, em troca de novo alongamento das dívidas fiscais dos clubes. Campeão da Copa do Brasil no ano passado, o Atlético-MG tem o pior desempenho no indicador: gastou com o futebol 106% do que arrecadou no ano. Os já citados Corinthians e São Paulo vêm logo atrás, com índices próximos a 100%. Para Somoggi, a presença dos dois paulistas nas pontas negativas do estudo é um sinal da gravidade da situação. “Sempre foram exemplos de boa gestão”, explica.

Por outro lado, o Flamengo é apontado como o modelo a ser seguido. Nos últimos quatro anos, a receita do clube cresceu 88%, ritmo mais acelerado do que o aumento de custos, de 56%.Há três anos, desde a posse da nova gestão, a dívida vem sendo reduzida, passando de R$ 803,7 milhões em 2012 para 697,9 milhões no ano passado, segundo a metodologia usada por Somoggi (o clube fala em R$ 577 milhões). Como resultado, tem sido um dos poucos a conseguir aumento expressivo de receita com patrocinadores — apesar das críticas dos torcedores com relação ao pouco investimento em jogadores.

“Isso é reflexo da transparência e da boa gestão de um grupo que entrou para mudar o paradigma. O Flamengo fala a língua que o mercado quer ouvir”, diz Somoggi. “Mas a regulação do setor tem que mudar. Do jeito que está, premia a má gestão”, finaliza.

Por que convivemos com a corrupção?

Publicado por Luiz Flávio Gomes - 2 dias atrás

Com total descaramento, o deputado Benjamin Maranhão (SD-PB), após ignorar a ética que deveria fazer parte das suas responsabilidades políticas, resolveu que a sociedade brasileira pagadora de impostos deveria arcar com seu lauto almoço, que custou a todos nós a quantia de R$ 1.495,00. Dizem que teria havido ressarcimento depois que tudo se tornou público. O paradoxal é que a falta de vergonha do deputado acontece precisamente no momento em que a sociedade brasileira começa a reagir com mais rigor (com mais consciência crítica) contra a bandalheira da corrupção (particularmente a cleptocrata, que é a bandidagem de quem governa o país).

No Brasil a criminalidade e a corrupção são as maiores preocupações da população, consoante pesquisa feita em 2014 pelo Instituto americano Pew Research Center: 83% dos entrevistados disseram que o crime era uma grande preocupação atualmente; o mesmo foi dito sobre a corrupção: 78% apontaram-na como um grande problema nacional. Se a corrupção é um grande problema, por que convivemos com ela diuturnamente? A razão central é a seguinte: porque somos muito mais permissivos que alguns outros países em relação ao ganho ilícito, ao enriquecimento sem causa, à acumulação indevida de riqueza. Nossa relação com a lei é muito problemática. O império da lei (aqui) constitui um longínquo desideratum.

O Brasil é um país capitalista moderno, mas extremamente desigual. Conta com europeizados ao lado de milhões de etiopizados. Somente nos igualamos perversamente diante do não cumprimento das leis: (1) ninguém se sente constrangido a cumprir a norma legal; (2) todos se sentem desiguais (social e legalmente). “Isso vale tanto para as elites, que se julgam isentos de se submeterem às normas, mas que, no entanto, criam-nas para subverterem-nas, como para as classes populares, que não conseguem fazer valer seus direitos e não cumprem as normas (a pobreza os desobriga), a não ser que esse descumprimento venha a ameaçar a “ordem” (violência). No meio-termo fica uma classe média que se conforma com burlas variadas, como fraudar a declaração de imposto de renda, não obedecer ou desobedecer às leis de trânsito, participar de pequenos atos ilícitos, corrompendo agentes estatais da baixa burocracia etc.” (veja Céli Regina Jardim Pinto, A banalidade da corrupção: 32-33).

O problema, no entanto, não é somente brasileiro. De acordo com a pesquisa citada, o crime e a corrupção são flagelos comuns das sociedades modernas e estão no topo da lista de problemas citados pelo público nos países emergentes e nos países em desenvolvimento: 83% dos 38.620 entrevistados em 34 países disseram que o crime é um problema muito grande em seu país e 76% disseram o mesmo sobre os líderes políticos corruptos.

Tomando a média entre os 20 países pesquisados ​​em 2007/2008 e 2014, houve um salto de 64% para 74% com a preocupação com o crime e de 63% a 73% com a corrupção. O rompimento com a lei é um maior problema na América Latina (uma média de 86% dizem que é um problema muito grande), na África (84%), na Ásia (72%) e no Oriente Médio (67%). Em média, 76% dos entrevistados nos 34 países dizem que os líderes políticos corruptos são um problema muito grande em seu país. Se existe algo no Brasil que iguala os europeizados aos etiopizados é a ausência do império da lei. Isso explica em grande parte nosso fracasso como nação civilizada. O Brasil é um país rico, mas muito pouco “domesticado” (para usar a linguagem de Nietzsche).

*Colaborou Flávia Mestriner Botelho, socióloga e pesquisadora do Instituto Avante Brasil.

Conjuntura Notícia da edição impressa de 04/05/2015

Crise faz o crédito secar para as empresas

Nos primeiros três meses de 2015, contratação registrou recuo de 14% em relação ao quarto trimestre do ano passado

A forte restrição dos bancos à concessão de crédito tem travado os negócios das empresas em vários setores da economia. Com o caixa debilitado pelo baixo desempenho econômico e sem acesso a linhas de crédito para capital de giro ou investimentos, as companhias começam a enxugar as estruturas, reduzir o quadro de funcionários e adiar pagamentos.

Nos três primeiros meses do ano, a concessão de crédito para empresas no País caiu 14% em relação ao quarto trimestre de 2014, de R$ 429,5 bilhões para R$ 407,3 bilhões, conforme relatório do Banco Central. No mesmo período, entretanto, a demanda por empréstimos continuou em alta: subiu 9,7%, segundo a Serasa Experian. "Se esse indicador está crescendo e a concessão caindo é sinal que os bancos estão mais seletivos na liberação de crédito", explica o economista da empresa, Luiz Rabi.

Além do recuo no volume concedido, as taxas de juros aumentaram, os prazos de pagamento dos empréstimos diminuíram e a inadimplência cresceu. Pelos dados da Serasa, o atraso nos pagamentos de despesas financeiras e não financeiras avançou 12% no primeiro trimestre, demonstrando a dificuldade das companhias diante da queda da atividade, custos mais elevados (energia elétrica e combustíveis, por exemplo) e escassez (e encarecimento) de crédito.

"Hoje, o principal problema das empresas é a falta de crédito. Se nada for feito, poderá haver um colapso que vai travar ainda mais a economia. Isso precisa ser olhado com urgência pelo governo", afirma o diretor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz. Ele acredita que a Operação Lava Jato, que investiga corrupção em contratos da Petrobras, tem ajudado a secar o mercado de crédito, já que alguns bancos terão prejuízos com operações feitas com empresas envolvidas no escândalo.

"Mas mesmo quem está fora dessa confusão vem sendo punido. Os bancos públicos, o Bndes, não podem fechar as portas para o setor produtivo", reclama o executivo. No Bndes, fonte mais barata de financiamento para as empresas, o crédito com recursos direcionados (voltado para determinado segmento ou atividade) despencou 44,6% de janeiro a março comparado ao último trimestre de 2014, segundo o relatório do Banco Central.

A linha voltada para o capital de giro das empresas teve o maior baque na liberação: queda de 79,1% no período. O financiamento a investimentos caiu 43,6% e os empréstimos para o setor agroindustrial, 35,7%. Procurado, o banco de fomento não atendeu ao pedido de entrevista.

No sistema financeiro como um todo, as modalidades de crédito que têm o objetivo de antecipar receitas são as mais afetadas pelo aperto dos bancos. No dia a dia, normalmente as companhias costumam entregar faturas, duplicatas e cheques a prazo para os bancos, pagam uma taxa de juros e recebem na hora o dinheiro que entraria no caixa apenas no futuro. Essas operações ajudam a equilibrar o caixa das empresas com as despesas que precisam ser pagas dentro do mês. A queda na concessão dessa modalidade foi de 21,4%.

"Sem esse dinheiro, muitas empresas, especialmente as de menor porte, podem ter sérios desequilíbrios no caixa", afirma o professor de Economia e coordenador dos cursos de extensão do Ibmec/RJ, Daniel Sousa. Segundo ele, algumas empresas podem até conseguir crédito nos bancos, mas o custo e as exigências serão bem maiores que antes. Na média, a taxa anual de juros do sistema financeiro para pessoa jurídica subiu de 16,5% em dezembro de 2014 para 18,1% em março.

"A falta de crédito aliada a alta de custos está sufocando as empresas. Daqui a pouco vamos ter um estrangulamento da capacidade produtiva. O resultado será reduzir o nível de atividade e de emprego", afirma o diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel. Segundo ele, a situação está tão complicada que já há inadimplência até em contratos com o Bndes - a fonte mais competitiva do mercado.

Apesar das reclamações de crédito mais curto no sistema financeiro, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou, em nota, que a expansão do crédito deve continuar no País, tanto para empresas como para pessoa física, mesmo diante de uma conjuntura econômica menos favorável, de ajustes em várias frentes.



Mercado de capitais deixou de ser uma boa alternativa

A situação das grandes empresas também não tem sido fácil nos últimos meses. Depois de surfar na onda do mercado de capital nos últimos anos - com emissão de ações, debêntures, comercial papers e bônus -, em 2015, elas pisaram no freio. As operações no mercado doméstico e internacional tiveram o pior resultado dos últimos sete anos, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O total de recursos levantado pelas companhias brasileiras no mercado apresentou queda de 82,5% em relação a 2014 e foi inferior até mesmo ao resultado de 2009, que já tinha sido ruim. No primeiro trimestre de 2014, foram captados R$ 66 bilhões. Neste ano, o volume foi de R$ 10,1 bilhões.

A preocupação, nesse caso, é com as empresas que têm vencimento de dívidas (especialmente em dólar) neste ano - da ordem de R$ 150 bilhões. Normalmente, as companhias não pagam esses valores. No jargão do mercado, dizem que elas "rolam" as dívidas. Ou seja, emitem novos papéis para pagar os antigos.

"Ainda há interesse do investidor estrangeiro pelo Brasil. Mas eles estão aguardando para ver se o plano de ajuste do governo vai dar certo ou não", afirma o economista Ernesto Lozardo, professor da FGV São Paulo. "O cenário de ajuste é difícil. Não vamos crescer este ano, mas a expectativa é de melhora. Nos próximos dois anos, o País estará mais arrumado."

Segundo ele, hoje há um descompasso entre o ajuste econômico proposto pelo governo e a disposição política no Brasil. "A rivalidade de partidos no Congresso contra o governo cria uma expectativa negativa para aprovar o plano."

Além disso, diz ele, a taxa de juros em alta desincentiva as operações no mercado de capitais. Se o papel do governo paga uma taxa alta, porque o investidor vai se arriscar comprando o papel de uma empresa privada, questiona ele. Nesse cenário, a preocupação da Associação Brasileira de Infraestrutura (Abdib) é com o programa de concessão que o governo federal promete lançar ainda neste ano. "Estamos trabalhando nesse assunto e o que mais chama a atenção é o crédito." Segundo o vice-presidente executivo da associação, Ralp Terra, o governo terá de criar condições para garantir a atratividade para o investidor privado.

Dono de transportadora teve que demitir 20% dos seus empregados

Há pouco mais de um ano, o empresário Valdir Santos, presidente da transportadora ASA Express, sofria com os problemas decorrentes da forte demanda no setor rodoviário. Parte da frota de 1.200 caminhões ficava parada por falta de motoristas e pela demora na entrega de pneus.

Hoje, os problemas são inversos. Com a queda de 30% na demanda e aumento no custo fixo, ele já cortou 20% do quadro de funcionários. "E, nessas horas, os bancos viram as costas para a gente", afirma ele, destacando a dificuldade que tem sido conseguir crédito na praça.

Como o prazo de pagamento dos clientes é de 30 dias, era comum a empresa usar as faturas para antecipar a receita. "Não estão mais liberando essas operações. Tentei com um banco e não consegui. Tive de ir para outra instituição, que me ofereceu um empréstimo com exigência de garantias e com custo maior", conta o empresário.

Segundo ele, algumas empresas do setor não têm conseguido aguentar a pressão e estão fechando as portas. O problema é o descompasso entre receitas e despesas. O combustível aumentou e, com a nova lei dos motoristas, os custos de pessoal também avançaram. Junta-se a isso o fato de a infraestrutura precária das estradas ter elevado o custo de manutenção dos caminhões - só de pneus são 1,5 milhão de unidades que precisam ser trocadas regularmente.

Aumento da carga tributária tem limite, diz Joaquim Levy

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