Alberto, depois de quinze dias de viagem de barco através dos grandes rios, chega ao seringal Paraíso no meio da selva amazónica



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Encontro02.08.2017
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A CHEGADA AO SERINGAL PARAÍSO

(8.º ano)



Introdução

Alberto, depois de quinze dias de viagem de barco através dos grandes rios, chega ao seringal Paraíso no meio da selva amazónica.

— O Paraíso! Lá está o Paraíso!

Seguiram o braço que se estendeu todos os olhos da leva, ansiosa por fixar o sítio desconhecido para onde os conduzia a esperança dum futuro imediato com melhor e mais abundante pão.

Era ainda, ao longe, um risco azuláceo-claro a emergir da muralha verde da selva.

Buscando o canal, o «Justo Chermont» mais uma vez trocou a margem direita pela esquerda e só depois convergiu a sua proa ao novo porto.

O seringal desvendava-se agora totalmente: em linha recta erguiam-se três barracas, logo dois casarões de madeira e telha. Um, resvés à terra, que devia ser pasto das águas em ano de enchente grande; o outro, muito comprido, ladeado por uma varanda, fixava-se em paliçada, para se libertar das inundações. Pelo porte, tamanho e pinturas, indicava a residência do amo e sede da exploração do seringal.

Desde Três Casas, Alberto não avistara outro tão importante, situado num vasto campo, que terminava, já na margem do rio, à sombra de três palmeiras, altas, nobres e solenes.

Antes mesmo de o navio quebrar o silêncio da tarde dominical com os apitos da convenção, já no cimo da ribanceira se aglomeravam vultos humanos, cada vez mais numerosos. Via-se, nitidamente, eles saírem das barracas ou descer da varanda e acercarem-se das palmeiras, dialogando uns os outros.

O vapor diminuíra a marcha e aproximava-se vagarosamente. O portaló fora aberto, a prancha assomava já. Distinguia-se agora a cor dos que estavam em terra, os pretos e os mulatos, as suas blusas de riscado, as calças brim azul, o largo chapeirão de carnaúba e os pés descalços ou enfiados nuns sapatos estranhos — uns sapatos como Alberto nunca vira. Entre eles andava, inquieto, um cão branco que ladrava não se sabia para onde e logo vinha refugiar-se atrás dumas pernas despreocupadas.

Mas a voz forte do comandante Patativa, que na proa dava ordens para manobra, pôs em suspensão todas as atenções.

Atirado o cabo para terra, um daqueles homens apanhou-o, amarrando-o à palmeira mais grossa. Depois ouviu-se o ruído do guincho, enrolando a corda, até o casco do navio estar prestes a encostar ao barranco.

— Prancha fora!

Já o imediato descia e vinha colocar-se à boca da escotilha, com o livro de cargas sob o braço e o sobrescrito dos «conhecimentos» na mão.

Os que esperavam o barco, juntavam-se agora no extremo da prancha, atirando, numa súbita intimidade, chufas fraternais aos que iam desembarcar.

[…]

Mas já o grupo implicante se bipartia, respeitoso, para dar passagem a um homem vestido de branco e de panamá na cabeça, que cumprimentava para cima, repetidas vezes, como se a bordo tivesse muitos amigos.



Atravessou firmemente a prancha e quedou-se um instante, lá dentro, a falar com o imediato.

Adivinhando-lhe a categoria, Alberto perguntou ao mestre quem era a personalidade que tantas vénias desfrutava.

— É o Juca Tristão — elucidou o outro. — É o seu patrão...

Baixo e com o sangue negro, graças a sucessivos cruzamentos, já insinuando apenas a sua remota existência, o dono do Paraíso, de mãos papudas rebrilhando anéis, mal disfarçava, sob o sorriso que lhe abria as faces largas, o olhar duro e enérgico, agora sombreado pelo chapéu.

[…]

Balbino ia contando os homens e dando explicações a Juca Tristão. Alberto pensava, olhando de longe a cena, nos navios negreiros de outrora, ao desembarcarem os escravos em plagas longínquas, quando a voz rude do pastor lhe recordou que também ele fazia parte do rebanho:



— Você!

Tinham já saído todos. A prancha estava livre e um marinheiro, de caixa aos ombros, aguardava apenas que ele passasse para ir depor o volume em terra.

Alberto evocou a sua mala.

— Lá irá ter — disse, secamente, Balbino.



Pelo olhar que lhe dirigia de quando em quando, Alberto compreendeu que ele falava a seu respeito com Juca e não seria, naturalmente, por bem.
Ferreira de Castro, A Selva. Guimarães Editores, 2009, pp. 68-71

QUESTIONÁRIO

  1. Identifica os primeiros elementos que desvendam o seringal.

  2. Observa a imagem seguinte:



    1. Achas que ela poderia corresponder ao seringal descrito? Justifica.

  1. Descreve os movimentos que o barco fez até atracar no cais.

  2. Qual era a maneira de os que já trabalhavam no seringal cumprimentarem os novos trabalhadores («brabos») que chegavam?

    1. Indica três palavras sinónimas (nomes) que se referem a essa atitude.

  3. Retira, nesta parte do texto, expressões que se refiram à selva.

  4. Às tantas, aparece uma figura respeitosa.

    1. Identifica-a e caracteriza-a.

CEL



PROPOSTA DE ESCRITA

Alberto, depois de chegado ao seringal, irá conhecer um mulato chamado Firmino, também ele ali seringueiro já há dez anos.

uma continuidade ao texto, e relata o momento de (re)conhecimento entre os dois.



PESQUISA

I. Descobre o que é a seringueira e o que é cortar seringa. Procura imagens esclarecedoras.

Propomos que, para completar esta pesquisa, leias o capítulo IV de A Selva.
II. Procura saber melhor quem foi Ferreira de Castro – vida e obra.


Zé Maria, tens de voltar à escola!...” é um projeto de ensino da vida e obra de Ferreira de Castro, sugerido aos docentes pelo Centro de Estudos Ferreira de Castro.

Coordenador do Projecto: Prof. José Carlos Soares


www.ceferreiradecastro.org I jose.soares@ceferreiradecastro.org I 256 482 037

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