Agradecimentos o deus, o grande mestre dos mestres



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AGRADECIMENTOS



O Deus, o grande mestre dos mestres.



A todas as crianças que nunca percam o brilho de ser criança

Aos adultos que nunca deixem que a criança que brota dentro de si morra... Aos lindos passarinhos fonte inesgotável da minha inspiração para escrever essa historinha.

Aos amigos que sempre estiveram comigo lendo e comentando meus poemas, ao poeta e amigo Leonel Anjos Neves pela gentileza em fazer a revisão e prefaciar a historia do passarinho aventureiro.

A você que direta e indiretamente colaborou para que tudo isso aconteça.

De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo.

( Monteiro Lobato)


RÁPIDAS PALAVRAS
O universo infantil só por si já é um encanto, escrever para esse leitor mirim requer uma alma com a leveza do bater de asas de um beija-flor, um coração puro e recheado onde possamos capitar toda a beleza e fascino desse mundo de magia.

Quando, por uma brincadeira, comecei a escrever as aventuras de um passarinho achei que ficaria apenas em poesias pequenas, mas o entusiasmo foi-me contagiando e escrevi o primeiro capítulo, então não me contive e fui escrevendo outros. Mostrei-os ao amigo poeta e escritor Leonel Neves, queria saber a sua opinião e ao saber que estava ficando bom fui-me apaixonando e escrevia até dois capítulos por dia.

Agradar ao público infantil é muito difícil e recorri a minha netinha que lia e ficava encantada com a historinha desse aventureiro e logo queria saber o final. Por esse motivo o livrinho “ O passarinho aventureiro” constitui-se numa linda e prazerosa viagem pelos encantos da floresta e pelo mundo infantil. Cada aventura ao término da escrita voltava a ler e ria com os acontecimentos.

Aqui nesse livrinho busquei ser mais criança do que adulto, assim entraria nesse fabuloso mundo da infância onde tudo se torna motivos para se viajar nas aventuras e interação que venha envolver os leitores tanto os pequenos quanto os grandinhos que conservam a alma de criança.

O meu objetivo é fazer com que o leitor sinta prazer em ler e se motive a criar novas historinhas.

Espero que leiam e se divirtam tanto quanto eu me divertir ao escrever as lindas aventuras desse passarinho...


Escrever para criança é transformar tristezas em alegrias, é dar cor ao mundo da fantasia...

Irá Rodrigues


PREFÁCIO


Quando a minha amiga Irá Rodrigues me convidou para prefaciar o seu livro Passarinho Aventureiro fiquei agradavelmente surpreendido e sensibilizado.

Nunca prefaciei nenhum livro, nem nunca me passou pela cabeça vir um dia a fazê-lo. Tentei em vão dissuadi-la. - Alguém já se ofereceu – disse - mas faço questão que sejas tu.

Pensei nas razões que teriam levado a minha amiga a preferir-me a alguém que gostaria de prefaciar a obra de uma autora tão ilustre como ela. Duas ideias acudiram-me ao espírito:

Em primeiro lugar deve ter-me escolhido porque sabe que aprecio deveras os seus escritos, designadamente contos e poesia infantis, mundo onde se move como o peixinho na água;

Em segundo lugar, porque somos amigos e como ela, escrevo para crianças.

Seja qual for a razão, o facto de me ter convidado para desempenhar tão honrosa tarefa, envaidece-me muito.

O Passarinho Aventureiro, que tive a ventura de ler em primeira mão, é a história de amor entre uma menina e um passarinho.

Ao longo dos catorze capítulos que compõem a obra, utilizando uma linguagem simples, acessível à inteligência da criança, a autora narra magnificamente as várias aventuras de o Passarinho e da Menina envolvendo outros personagens como a Coruja velha, o Macaco, o Sabiá e o Gavião entre outros.

Não direi mais nada da belíssima história que me encantou para não roubar ao público leitor o prazer da descoberta de pormenores mágicos à medida que avança na leitura do livro.

Recomendo vivamente a sua leitura por crianças e adultos.
Leonel Anjos Neves

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.

Manoel de Barros

CAPÍTULO I

Era uma vez uma menina que encontrou um passarinho com uma asinha machucada e resolveu cuidar dele como se fosse o seu melhor amigo. O Passarinho era muito tristinho e solitário. Evitava companhias inclusive os seus amigos.

A Menina colocou-o numa gaiola sem porta. Era livre, podia voar e voltar se assim o desejasse. Passaram vários dias. Entretanto a sua asinha sarou e estava pronto para voar e ir ao encontro da natureza, mas ele se apegou muito com a menina e sempre voava livre e voltava a tardinha assim poderia dormir no aconchego da gaiola e protegido dos perigos que abundam na floresta. As suas penas ficavam cada vez mais brilhantes, adquirindo uma cor que se confundia com os raios de sol no finalzinho da tarde.

Uma manhã, a Menina esperou e como o Passarinho não voltou, resolveu ir até às montanhas onde o vento balançava as folhas e nada se ouvia a não ser o estalido dos gravetos enquanto ela caminhava cantando as canções que aprendera na escola. Até que ouviu o canto dum passarinho bem no alto de uma árvore.

- Amiguinho, não te vás embora, volta para dormir como sempre fizeste, tu és livre e podes ir e vir quando quiseres mas não desapareças. Fico muito triste - disse a menina.

- Eu também vou ter saudades tuas e também vou ficar triste - respondeu o Passarinho.

- Sei que és livre e que preferes viver em liberdade, dormir onde te apetece e acordar em qualquer lugar exceto numa gaiola fechada - disse a Menina chorando.

- Vou contar-te um segredo. Se ficar fechado, deixo de ser pássaro, e tu não sentirás saudades minhas. Assim, quando eu resolver visitar-te mataremos saudades. Tu continuas sendo uma boa menina e eu continuo a ser um pássaro livre seguindo o meu destino por entre as árvores e as lindas flores - disse o Passarinho, pousando ao lado da menina.

O Passarinho bateu as asas e desapareceu entre as folhas.

Triste, a Menina voltou para casa.

Todas as noites ficava à espera que ele voltasse. Passou-lhe pela cabeça aprisionar o Passarinho se um dia regressasse. Mandaria pôr uma porta na gaiola e fechá-la-ia com ele lá dentro, assim podia vê-lo a toda a hora e deixaria de sentir saudades. Mas ele que nasceu livre, fechado, morreria com certeza de tédio e tristeza. Contudo estava decidida a aprisiona-lo.

Uma noite o Passarinho apareceu e assim que ele adormeceu a Menina fechou-o na gaiola. Ao ver-se fechado ficou muito assustado. Antes que o sol aparecesse começou a cantar, mas dessa vez o canto era dolorido. A Menina ao ouvi-lo não queria acreditar, achava que ele iria acostumar-se, mas o tempo passava e o Passarinho ficava cada vez mais triste. As suas penas perdendo a cor, o vermelho do penacho ficando sem brilho. Deixou de cantar, vivia cabisbaixo e silencioso, a Menina também estava triste mas sem coragem de soltar o seu amiguinho e nunca mais poder ouvir o seu canto. Com pena dele resolveu abrir a porta da gaiola.

- Vai meu amigo, eu não posso aprisionar-te, és livre, podes ir.

O Passarinho agradeceu, depois bateu as asas e voou para longe até desaparecer na imensidão.

Na floresta o Passarinho era feliz. Sentia saudades da Menina, mas tinha que seguir em frente com a sua vida.

Passado algum tempo encontrou uma família que o adotou.

Um dia os pais adotivos informaram-no que teriam novos filhotes.

Numa tarde em que o vento soprava anunciando a chegada da primavera, os dois ovinhos deram sinais de vida, e quando os primeiros raios de sol penetraram as folhas ao lado do ninho, um a um os ovos foram rompidos colocando no mundo aquelas duas criaturinhas vermelhinhas e sem penas, apenas bico e cabeça, muito feios. Os filhotes de passarinho são todos assim quando nascem, contudo logo se tornam belos.

Todos os dias o pai voava à procura de sementes e frutos para alimentar a mamãe e os filhotes, e o Passarinho seguia-o. Um dia voou até perto da casa da menina e sentiu uma lágrima cair dos seus olhinhos, queria apresentar a sua nova família a quem cuidou dele com tanto carinho, mas o medo de ficar aprisionado falou mais alto. Com muita pena voou para o seu novo lar.

Um mês depois os filhotes estavam em condições de encarar o mundo sozinhos. Então o pai disse-lhes:

- Queridos filhos, a partir deste momento devem procurar os seus próprios alimentos. Já são crescidos e precisam de aprender a defender-se sozinhos. Enquanto isso eu e a vossa mãe estaremos sempre por perto para o que for preciso. Não fiquem tristes, a vida é assim. Amanhã terão a vossa própria família e serão muito felizes.

A mãe, triste e com uma dor no peito por se separar dos seus filhotinhos disse:

- Eu e o vosso pai ficaremos muito atentos aos vossos passos. Certificar-nos-emos que se alimentam bem e que não correm perigo. Agora vão à vossa vida, são livres.

Os filhotes que haviam estado em silêncio perguntam:

- O que é ser livre? E porque temos de nos separar?

- Vocês agora precisam de fazer os vossos próprios caminhos e saber defender-se em liberdade. Lembrem-se, fiquem longe das pessoas, elas só estão bem a fazer mal. Se os apanharem aprisioná-los-ão numa gaiola - disse o passarinho Leco lembrando-se da Menina.

CAPÍTULO II

Durante aquela manhã os pais ficaram a observar os filhotes que se aventuravam cada vez mais longe nos seus voos periclitantes.

Enquanto isso, o passarinho Leco aproveitou e voou deixando para trás os pais para que pudessem observar o comportamento dos filhos e corrigi-lo se fosse caso disso. Um dos filhotes caiu duma árvore e, sozinho, chorou ali entre as folhas no chão. Ouvindo o seu choro, o passarinho Leco aproximou-se e esperou até que o passarinho se acalmasse.

- Por que está chorando pequeno passarinho?

O pequeno filhote olhou tristinho para Leco e respondeu contente por ter sido encontrado pelo seu irmão de coração:

- Estou triste, não sei dos meus pais e o meu irmão desapareceu sem deixar rasto. Eu saí com ele, caí aqui e nunca mais o vi. Não sei o que fazer. Ainda não sei voar direito.

- Meu amiguinho, seus pais tiveram razão em libertá-los para seguirem seus caminhos, mas não era para voarem para tão longe, deveriam ter ficado pertinho, assim seguiam em bandos e livres de perigo.

- Eu vi meus pais naquela árvore gigante junto daquele riacho - disse o filhotinho chorando sem parar.

Leco sentiu pena do seu irmãozinho tão pequeno e indefeso e resolveu ajudá-lo.

- Você não está sozinho, eu vou cuidar para que fique em segurança como seus pais um dia fizeram comigo. Primeiro vamos escolher um nome para você depois vai ficar ao meu lado até se sentir pronto para sair por ai e viver a sua vida em liberdade.

Quando o sol começou a despedir-se e as sombras cobriam as árvores, o passarinho Leco pediu que o acompanhasse e voaram baixinho para que o filhote não se cansasse muito e logo chegaram a uma clareira onde um belo ninho pendia de um galho da mais perfumada acácia toda florida.

Cansado o filhotinho adormeceu na proteção das asas do seu irmão mais velho.

Os dias passavam. Os dois davam-se muito bem. O filhote começava a mudar as penas e no lugar daquela cor acinzentada surgiam belas penas amarelas da cor do sol, mas era tão iluminada que se misturava com os fios de sol quando se deitava entre as folhas.

- Já tens um nome, disse o passarinho Leco, você é um canário e não um colibri como eu, vou chamar-te Raio de sol. Esse vai ser o teu nome daqui para a frente.

- Lembrei-me que um dia meu pai me disse que teria que aprender a cantar e que todos os canários tinham um belo canto – disse o jovem passarinho.

Dito isto Raio de sol abriu o bico entoando o seu mais lindo canto.

Os dias passavam, os dois viviam livres, voando pela imensidão, sem nunca encontrarem os pais nem o irmão.

A primavera dava os primeiros passos, as flores enfeitavam as campinas, o perfume soltava-se no ar, Raio de sol entendeu que era a hora de seguir seu rumo. Despediu-se do amigo e voou para além das montanhas.

A sorte nem sempre estava do lado do passarinho Leco. Por ter sido sempre protegido pela Menina era muito inocente e sem perceber caiu num alçapão, e por um menino foi levado da floresta. Desde aquele dia não soube mais o que era liberdade. Na sua solidão cantava e cantava, só que o seu canto deixava o seu dono cheio de esperança e ficava exibindo a todos o seu precioso pássaro. O Passarinho via-se de um lado para outro sendo levado a grandes feiras de concursos do mais belo canto e sempre saía vencedor, mas a tristeza ocupava cada vez mais a vida daquele pequeno passarinho de penas coloridas.

O dia mal acordou e o seu dono já estava preparado para levá-lo a outra competição, mas a sorte estava do seu lado e num descuido a gaiola caiu, a porta abriu-se e o Passarinho bateu asas para nunca mais voltar. Aprendeu a lição em não mais confiar nas pessoas. Cansado pousou em uma palmeira na saída da cidade e logo ali um bando de passarinhos cantava alegremente saudando a vida em liberdade.

Leco aprendeu que se quisesse ser feliz precisava aprender a sobreviver outra vez na floresta, e quando a noite chegou e o bando alçou voo, ele seguiu-o e juntos pousaram no alto de uma árvore. Em silêncio ficaram juntinhos para se protegerem do vento que assobiava entoando uma linda melodia.

Quando o dia amanheceu os passarinhos olharam uns para os outros e com ar de felicidade saíram em busca de frutas para se alimentarem. Estavam a comer sementes de capim quando um atrevido sabiá apareceu dizendo:

- Escutem aqui, se fosse vocês voltaria rapidinho para os seus agasalhos, anda por ai uma coruja velha e esfomeada e nem belos colibris assim radiantes de felicidade vão escapar das suas garras afiadas.

O bando agradeceu e voou para um lugar bem distante daquela agoirenta coruja.

- É melhor começarmos a construir os nossos ninhos antes que as chuvas resolvam chegar. Assim estaremos protegidos do frio - disse o mais velho do bando, acrescentando - quem ainda não encontrou uma companheira está na hora de se juntar para formar família, antes que o inverno chegue.

Foi então que o passarinho Leco viu uma fêmea linda, aproximou-se dela, acariciou-lhe as penas do dorso, aninhou-se junto dela e juntinhos passaram a noite.



CAPÍTULO III
Os dias acordavam frios, o inverno chegara antes da época, parecia apressado. As folhas começavam a cair, muitos passarinhos fugiam para locais mais quentes em busca de aconchego, mas por ora os dois preferem ficar ali em paz. Com aquele frio não iriam muito longe. Se não puderem voar não terão como se alimentar e com esse inverno as sementes estão a brotar e logo teriam alimentos fartos e sem correr risco de serem devorados por alguma ave noturna e esfomeada como uma Coruja velha, ou capturados por algum moleque desocupado.

E logo olham no alto da árvore bem ao pé da montanha. O Gavião observava com seu olhar severo o movimento dos passarinhos que por ali voavam. A noite começava a tomar conta da floresta, quando ouviram um som agudo que vinha de todos os lados, eram os passarinhos desabrigados sendo atacados pelas aves noturnas. Os dois ficaram em silêncio, quietinhos, no aconchego do ninho onde elas não poderiam chegar.

Logo que o sol disse bom dia eles saíram e logo viram um tímido beija-flor, um periquito e o bem-te-vi que se aproximavam.

- Vocês, que são espertos, ficaram aqui e estão salvos, nós perdemos as nossas companheiras e os nossos filhotinhos - disse o periquito deixando cair duas lágrimas.

- Fiquem ao nosso lado e logo estaremos voando juntos por essas campinas partilhando o bando as mesmas alegrias - disse o passarinho Leco colocando a sua asinha sobre a asa da sua amada.

E assim os cinco se juntaram até que um dia o sol resolveu lá de cima contar-lhes uma historinha onde a esperteza muitas vezes salvava a vida de muitos e a covardia atrapalhava ou tirava-lhes toda a riqueza e felicidade.

O grupo entendeu a lição do sol e compreendeu que unido seria mais forte.

Os dias seguintes foram de tranquilidade. O inverno foi-se. Resolveram bater asas e voar seguindo o bando de outros passarinhos que por ali passou cantando alegremente.

Voaram através das montanhas e puderam ver toda a grandiosidade da floresta que sorria majestosamente, recebendo o brilho do sol, que dormia fazia dias.

Adiante encontraram um casal de João do Barro que fazia sua casinha no topo de uma árvore bem perto de um curral onde tranquilas vacas dormiam. Ovelhas cochilavam ao lado de uma casinha branca, galinhas adormeciam numa cerquinha com trepadeiras floridas e um gato esfomeado roncava deitado na varanda. Ali o medo tomou conta deles, era perigoso ficar perto de um gato, o melhor era procurar um lugar bem longe daquelas garras afiadas, pensaram. E com certeza ali viviam crianças dispostas a capturá-los, por isso era melhor voar para bem longe dos humanos, ou seriam capturados ou mesmo devorados por aquele gato desumano. Partiram. Juntos iriam lutar contra a lei da selva, onde os fracos serviam de alimento aos mais fortes e assim num lugar seguro e tranquilo poderiam construir as suas famílias.

Certo dia, enquanto descansavam numa cerca ouviram um menino falar baixinho.

- Que bonito aquele passarinho! Deve cantar lindamente! Além disso daria um belo dinheiro se conseguisse capturá-lo.

- Que gente egoísta! Vamos mas é dar no pé daqui ou acabamos presos numa gaiola. Abriu o bico e cantou o mais alto que conseguiu, e voou para bem longe deixando o menino só com a vontade.

- Jamais me capturarão. Nasci para ser livre e não preso como se fosse um condenado - Disse Leco gritando para que o seguissem voando ao sabor do vento até onde pudessem viver em paz.

Mas da Menina não se esquecia e se a saudade chegasse ele voava com apenas um destino rever aquela que tanto amava. E de longe ficaria observando sem que ela o notasse.

E com certeza adormeceria bem ao lado da sua janela onde ela não o pudesse ver.

E assim fez, chegou de mansinho e cantou, cantou, e logo que ela se espreguiçou, pulou em sua cama, saltitou feliz como se dizendo adeus e partiu.

CAPÍTULO IV
O dia acordou risonho, os raios de sol abraçando as árvores, o Passarinho adornado com seu par de asinhas feito de plumas macias reluzindo com a luz que irradiava nas campinas, voava por entre as árvores exibindo-se como se ali fosse o rei dos passarinhos. Nada tiraria aquela liberdade, triste é a vida dos seus amigos que vivem aprisionados entre o espaço exíguo de uma gaiola. Pássaro deve ser livre e voar pela imensidão e mesmo amando aquela Menina não conseguiria ver-se preso num espaço minúsculo. O melhor seria partir para bem distante, mas a saudade chegava sem avisar.

Já passara uma semana desde o dia em que visitou a Menina. As lembranças continuavam vivas e difíceis de esquecer, mas teria que viver a sua vida livre e solto na exuberante Natureza.

Após vários dias, não aguentando mais a saudade, resolveu ir ver a Menina. Depois ir-se-ia embora. Encontrou-a ao lado da casa com a gaiola na mão. Pousou bem pertinho dela e cantou alegremente. Mesmo sendo um pássaro sabia que a Menina o amava e sofria ao vê-la triste, sentindo a falta de um aventureiro passarinho. Ficou ali apercebendo-se do quanto a Menina estava feliz com a sua presença. Mas o melhor seria fugir. Bateu asas e foi-se embora. Ela ficou a olhar o seu voo, o coração batendo os olhinhos marejados de lágrimas, então pensou: Eu não tenho o direito de aprisioná-lo ele talvez conhecera outra amiguinha e juntos podem voar além das montanhas. A Menina sentiu inveja de não ter um par de asas e juntos poderem voar além do horizonte onde pudessem viver felizes longe de tudo e de todos.

O Passarinho sumiu na imensidão deixando a Menina com o olhar perdido e sentindo-se sozinha. Pensou: da próxima vez que ele aparecer vou trancá-lo, assim ficará meu prisioneiro e não ficarei mais triste. Mas assim ele será feliz?

O Passarinho que também estava apaixonado não conseguiu ir muito longe e voltou antes que o dia despertasse, e na sua janela cantou a mais linda canção onde declarava todo o seu amor, e sem perceber caiu na armadilha.

Por amor a Menina resolveu prender o Passarinho na gaiola. Assim vivia em segurança e a vida nem era muito monótona, pois a menina estava sempre a falar com ele, mas ela precisava de ir para a escola e ele ficava ali dentro dos limites da gaiola, e o tempo não passava. Pulava de uma grade para a outra, comia, bebia, dormia e cantava um canto triste de saudade. Pensava na sua companheira que nem ao menos se despediu dela, que devia ter pensado que fora capturado ou devorado por alguma coruja esfomeada.

Sozinho, lembrou-se de abrir a porta da gaiola com a sua patinha e depois voar até às estrelas, mas não teve forças para abri-la. Restava-lhe ficar a olhar os outros passarinhos que pousavam nas árvores ali ao lado, cantando. O bem-te-vi era o mais alegre. Abria o bico e cantava como se falasse dele, como se tivesse pena dele por estar privado da liberdade. O beija-flor com seu leve bater de asas, as rolinhas arrulhando, catando bagaço no chão, os pardais voando fazendo algazarra também estavam felizes. E ele ali desanimado achando que morreria em cativeiro.

Nesse momento chegou a Menina. Vendo que o seu amigo tinha o olhar triste em direção aos passarinhos que voavam livres ela disse:

- Amiguinho, hoje a porta ficará aberta, assim você pode fazer o seu passeio pela floresta e à noitinha voltar para dormir em segurança.

A Menina estava radiante em ter seu passarinho ali só para ela, e vivia rindo e falando com ele como se ele entendesse tudo que ela falava.

Entretanto, o Passarinho ficava cada dia mais triste, mesmo amando aquela menina ele estava perdendo o brilho e o encanto da sua melodia, quando cantava era um canto triste, tudo perdia o encanto. Sem a sua liberdade ficava cada vez mais feio, as suas penas já não possuíam o mesmo brilho, os seus olhinhos estavam sem vida. A menina também andava triste e resolveu deixá-lo ir embora, assim poderia ser feliz bem longe dali onde a felicidade o aguardava. Afinal ele era um pássaro e ela era uma menina sonhadora.

O Passarinho aventureiro bateu as asinhas e sumiu em direção ao pôr do sol. Com certeza a sua amada estava triste com a sua ausência. Ele também estava triste por deixar a sua Menina ali chorando, mas era livre e não viveria preso, voltaria ao encontro da sua liberdade para nunca mais voltar a ser amarrado.

Meses depois ele não resistindo voltou, queria ver a Menina talvez pela última.

CAPÍTULO V
Entretanto chegara o mês de setembro, início da primavera. As flores brotando nos jardins e soltando seu perfume no ar atraiam beija-flores, borboletas e abelhas.

Já o manto da noite cobria as flores quando a Menina ouve o canto de um solitário passarinho. Ela não esqueceria aquele belo canto que a despertava todas as manhãzinhas bem antes que o sol resolvesse acordar. Relembrou aqueles tempos onde cuidava do seu amigo passarinho.

Eram tempos de alegria. A Menina saltava pelas campinas, os passarinhos em coro cantavam, as vacas no pasto mugiam como se entendessem que o canto era de alegria. Os pardais alvoraçados pousavam na varanda enquanto corujas velhas piavam em seus buracos à espreita de um descuidado passarinho que lhes servisse de banquete. Da cozinha saía aquele cheirinho a café coado. Enquanto a Menina sorridente e feliz ajudava a cuidar das galinhas, o seu amigo passarinho pousado nos galhos mais altos de um coqueiro entoava sua mais bela canção, e outros passarinhos acompanhavam-no formando uma linda sinfonia. Do alto da montanha um fio de água descia formando uma linda cascata. Era o mais lindo cenário que a Natureza poderia exibir naquele lugar lindo e encantado onde a felicidade sabia sorrir.

Após o jantar, como de costume, sentavam-se na varanda para ouvir as historinhas contadas pelo avô, mas a Menina inquieta corria por todo canto queria encontrar o seu amigo passarinho ou ele seria facilmente devorado pelo gato que adorava banquetear-se.

A noite chegara ao fim. Estava na hora de todos irem para as suas caminhas e ninguém sabia nada do Passarinho. Onde se terá metido? A Menina adormeceu triste com saudades do seu amigo.

O domingo acordou radiante. Crianças de férias saem para a floresta cada uma com a sua gaiola para capturar passarinhos. Um dos meninos andava bem afastado do grupo quando de repente viu algo a mexer-se entre a folhagem debaixo de uma frondosa árvore.

Chegou pertinho com medo que fosse uma cobra e apercebeu-se que era um passarinho que gemia baixinho. Pegou no pobrezinho que estava com uma perninha ferida. Alguém o teria atingido com um estilingue. Com cuidado colocou-o no boné e voltou para casa a fim de cuidar daquele animalzinho indefeso.

Como morava ao lado da casa da avó, foi-lhe pedir ajuda para cuidar da perninha do passarinho.

Cuidou-lhe do ferimento. O Passarinho gemia, parecia uma criança chorando querendo a sua mãe. À medida que o tempo passava ia ficando melhor. Já conseguia andar dentro da gaiola onde foi colocado por causa do enorme gato que ficava de olhos abertos e lambendo a língua. Mais ou menos quinze dias depois, já estava totalmente curado. O Menino já o levava com ele para fazerem pequenos passeios. Assim conseguiria voltar ao seu mundo de liberdade.

Numa tarde enquanto o Menino colocava o Passarinho num galho para que começasse a fazer pequenos voos, apareceu a Menina e ele contou-lhe a novidade. O coração dela saltitou e correu para ver o animalzinho. Para sua surpresa ali estava o seu amigo passarinho. Ficou feliz ao ver que ele estava bem. Ela aproximou-se e o Passarinho começou a cantar como se estivesse feliz ao ver a sua amada.

Tentou pegar nele, mas o Passarinho pulou para um galho mais alto, e cantou e cantou e bateu asas para além das nuvens e sumiu, mas voltava todas as noites e entrava na gaiola que continuava com a porta aberta e pela manhã cantava na janela da Menina e novamente voava.

Durante muitos dias foi assim até que um dia saiu e não voltou. Talvez tenha formado uma família nova e tenham ido morar para trás das montanhas, esquecendo o caminho de volta.

O tempo passava e a Menina não o conseguia esquecer. Muitas vezes sonhava com ele dando voos rasantes sobre a sua janela e cantava, cantava e voava desaparecendo.

Um dia ela acordou assustada com um barulho. Foi ver o que era. Na sua janela estava o Passarinho acompanhado de uma nova amiguinha. Era como se estivesse narrando a sua história para a nova família. Contente a Menina ficou admirando a beleza do seu Passarinho, e nem viu que ao seu lado uma exibida Passarinha saltitava dando pulinhos.

A Menina ficou ciumenta, não demonstrando alegria. Ele parou de cantar. Um bando chega dando a melhor notícia: - ouvimos dizer que bem longe daqui há muitas sementes fresquinhas prontas para serem servidas como alimento. Vamos! Vamos! É melhor voar rapidinho antes que outros bandos tomem posse do lugar.

O Passarinho desanimado com a sua amiga partiu levando a sua companheira indo com o bando pelas serras e vales.

Antes que a noite caísse chegaram àquele lugar e encontraram um sabiá que se gabava de ser o dono e senhor daquele paraíso, e deitado nas sombras exigia que os seus empregados trouxessem as mais frescas sementes para se alimentar.

Resolveram ficar ali ignorando a arrogância do Sabiá. Banquetearam-se e procuraram agasalho numa árvore frondosa onde outros passarinhos já se encontravam.

No dia seguinte, por conselho do passarinho mais velho do bando, todos recusaram o convite do sabiá para irem a uma floresta além das montanhas dizendo ele que lá estava acontecendo uma invasão de lagartas e como eles as adoram seria um belo petisco.

No meio dessa discussão aparece um rato que torcendo o nariz disse para o Passarinho aventureiro.

- Se eu fosse a vocês não ouviria o Sabiá, que só sabe mentir e trair. Não existe esse lugar e muito menos uma invasão de lagartas, o que há é meninos travessos em busca de passarinhos para vender e nem os pobres pardais escapam de suas maldades.

E assim os pássaros voaram em direção à floresta. Enquanto se preparavam para dormir, chega um esquilo saltitante trazendo a notícia de que chegaram ali homens e mataram vários passarinhos usando espingardas e flechas. Ficaram tristes, mas estavam determinados a permanecer juntos e fugiriam dali assim que o dia raiasse, bem antes que o sol viesse esquentar as águas do laguinho onde eles bebiam e tomavam banho todos os dias.



CAPÍTULO VI
O NATAL
Aproximava-se o Natal. Os campos enchiam-se de cores, a música entoada pelas andorinhas alegrava quem por ali passava. Bem no coração da floresta desciam luzes enviadas pelas estrelinhas que pendiam do céu. A noite estava vestida com um manto iluminado. A lua parecia que dançava entre a folhagem fazendo serenata para encantar a bicharada. De todos os cantos surgiam animaizinhos com seus trajes elegantes trazendo prendas nas mãos para colocarem ao pé do pinheirinho. O coelho trazia uma cesta com cenouras, o papagaio trazia espigas de milho e o jabuti sonolento resmungava pela pesada carga que trazia em suas costas. Os passarinhos cantavam voando de galho em galho entoando músicas natalinas.

Por falta de tempo o Esquilo não compareceu, tinha que colher cocos para a festa do seu casamento. O gavião não foi convidado. A Coruja apareceu de penetra, mas logo foi mandada embora. Leco e a sua amada dedilhavam poemas na sua harpa improvisada com galhos secos de bambu. A Cigarra estava toda enrolada, pois teria que cantar e esquecera-se da música que fora escolhida para aquela ocasião.

A noite estava radiante com seu manto de luzes piscando pelos colaboradores vaga-lumes. A festa estava animada. Começava a entrega dos presentes. Nesta altura o Passarinho aventureiro como não poderia ficar de fora começou a brincadeira e logo entraram todos na roda para ver o que ele iria aprontar, mas a falta de sinceridade do aventureiro fez com que todos começassem a desconfiar e logo exigiram que ele falasse antes do que iria fazer ou ninguém participaria.

Então o passarinho Leco todo empolgado disse:

- Pois sim, vamos iniciar, e a brincadeira é a seguinte: terão que trazer aqui as penas da cabeça da Coruja velha e o primeiro a chegar poderá escolher o seu presente dentre os que ali estão pendurados naquele galho de luzes piscando. A turma animou-se, pois ninguém gostava da Coruja e seria uma tarefa que desempenhariam com alegria.

Foi uma correria: pássaros voando, coelhos pulando, macacos saltando.

Bem pertinho dali, ao pé da colina, encolhida num buraco, a Coruja ouvia e via tudo o que era dito e acontecia na grande festa. Ao ouvir aquilo tratou logo de se esconder, assim não sentiriam o seu cheiro e com certeza não a encontrariam.

E logo volta o Macaco exibindo um punhado de penas. Foi o vencedor. Porém ninguém sabia que tinha sido uma manobra dele, pois a Coruja estava ali pertinho e para se vingar esperou que todos voltassem e quando o Macaco já estava pegando o seu prémio ela deu o mais alto grito assombrando todos que cuidaram de dar no pé antes que virassem jantar da Coruja agorenta.

Mas aquela maldita não iria estragar o Natal. Ao cair o manto da noite de céu estrelado ouve-se do alto de um penhasco o grito estridente de um gavião, ave noturna que adorava perseguir corujas.

Resolveram mudar a festa para o outro lado da floresta, mas os animais que não possuíam asas, nem pulavam de árvore em árvore, teriam que atravessar a lagoa.

A água estava cheia de jacarés famintos e era só entrarem e seriam devorados e quando um coelhinho colocava seu pezinho na beira da água o Macaco gritou:

- Não seja besta coelho molenga olha só a cara feia do jacaré, esperando pela sua vítima para se banquetear.

- Socorro! Socorro! Eu quero ir à festa e não tenho como passar ou serei devorado por aqueles dentões - gritou o Coelho apavorado.

O Papagaio atrevido gritava:

- Curupaco! Curupaco! Corram, corram que o Jacaré está esfomeado e o que ficar de bobo vai sobrar.

O Macaco disse que estava com pressa, pois a noite já estava andando e teria que se apressar ou perderia a festa. Foi aí que surgiu o Leão e como chefe da floresta resolveu logo o problema de todos levando de dois a dois em suas costas correndo pela floresta até encontrar uma passagem onde não havia jacarés nem perigos escondidos nas águas negras do rio.

O passarinho Leco já estava impaciente com a demora dos outros amigos e junto com todos ali presentes resolveram começar a festa e a banda começou a tocar. Quando a música se espalhou pela floresta, muitos animais foram-se aproximando. Uma zebra, um tigre e muitos animaizinhos pequenos, todos seguros de que não correriam perigo ali com os grandes felinos, a noite seria de paz e nada de ataques.

O Macaco que era o mais esperto foi logo indagando junto do Tigre no sentido de saber se ele estaria ali para fazer mal aos convidados, caso afirmativo seria expulso sem direito a reclamar.

- Hoje estamos aqui em missão de paz, não terei hábitos horrorosos e malvados. Estamos cansamos de viver isolados onde todos fogem ao nos avistarem, queremos somente uma chance para mostrar que podemos viver em harmonia - disse o Tigre ao lado do Leão.

Nesse momento o passarinho Leco pulou no galho e disse:

- É difícil acreditar, vocês não são confiáveis e não devemos descuidar-nos até eu, um minúsculo passarinho, posso ser ligeiramente engolido por um de vocês.

- Acreditem, hoje é Natal, prometemos ser gentis e amigos, nada de mal vai acontecer -disse o Leão, rei da floresta.

Com todos animados começa a festança. Vaga-lumes em bandos vestindo seus trajes escuros, lanterninhas acesas começam a circular deixando o local com a magia do Natal. Pareciam estrelinhas despencando entre as árvores. Passarinhos em revoada cantam avisando o nascimento de Jesus. Bem na beira do lago os sapos coaxam, rãs pulam em troncos, e até cobras e lagartixas saíram de suas tocas. Raposas e tartarugas chegavam cansadas de tanto correr para não perderem a festa.

CAPÍTULO VII
No topo das montanhas onde a natureza sorria, as águas adormeciam no leito de um riachinho que, sereno, nascia na gruta de uma enorme rocha. Ali havia sementes com fartura e resolveram ficar aí.

Uma tarde em que a companheira do Passarinho voava pelas campinas douradas caiu numa armadilha e foi capturada. O Passarinho ouvindo o canto triste da sua amada correu para ver o que se passava e só viu que ela estava sendo levada por dois garotos que fugiam de bicicleta. Leco seguiu-os por algum tempo, mas logo sumiram na estrada que levava até à cidade.

O Passarinho estava triste, sem vontade nem alegria de voar tão alto quanto as nuvens, nem tão longe quanto o oceano. Iria voar até onde encontrasse a sua amada e se não voltasse a vê-la iria em busca da Menina, quem sabe esta o ajudaria a encontra-la.

Como não a encontrou foi à procura da Menina. Ao chegar à janela do seu quarto encontrou-a fechada. Pousou ali cheio de tristeza e ficou a olhar pelas frestinhas da cortina. A Menina dormia. Por que terá deixado a janela fechada? Não cantou, bateu asas e voltou para o alto da montanha onde a casinha branca ficava bem no meio de um deslumbrante parque com belos jardins e flores de todas as cores.

Ficou vários dias sem voltar, não queria encontrar outra vez a janela fechada. Numa tarde quando o sol jogava seus raios fazendo desenhos sobre o tapete de folhas que caiam das árvores onde ele estava sozinho pensou na Menina e chorou de tão triste que se encontrava como se fosse gente. Não sentia vontade de sair dali, nem de voar, só pensava na tristeza que se abateu sobre a sua vida.

A Menina acordou depois de um sono cheio de sonhos. Sonhou que o Passarinho estava ali ao lado da janela e que ele chorava de tristeza, com fome e com sede. Levantou-se de um pulo e foi para a janela. Passava no céu uma nuvem pesada e escura que pressagiava chuva. Mas nem sinal do Passarinho, seria melhor voltar a dormir, foi apenas um sonho, ele com certeza já nem se lembrava dela ou não sabia a direção da casa.

Como estava de férias mergulhou debaixo dos lençóis. Acordou tarde. Estava uma manhã húmida devido à chuva que caíra durante a madrugada. Não estava nada bem, sentia dores de cabeça e de garganta. E assim doentinha ficou por vários dias acamada. Uma tarde começou a chorar e perguntou ao pai:

- Pai, por que é que eu não consigo esquecer o meu amigo passarinho?

Outra vez as lágrimas começaram a banhar o seu rosto febril.

- Filha querida, você apegou-se demais a esse passarinho aventureiro, mas lembre-se, ele é apenas um pássaro e o lugar dele não é aqui mas sim na natureza. Foi assim que Deus o fez, para ser livre e voar, se fosse para viver em casa Ele colocar-lhe-ia pernas e braços e não um par de asinhas para poder voar - responde o pai abraçando-a.

- Preciso sair daqui, quero andar um pouco, ir ao jardim, quem sabe ele anda por aí e vendo a minha janela fechada ficou à minha espera - disse a menina levantando-se.

- Você teve febre durante a noite, ainda está meio febril não pode sair assim por aí. O dia está nublado, caindo uma chuvinha fina, é melhor continuar deitada, amanhã estará melhor e se não chover poderá fazer pequenos passeios - aconselhou o pai.

A Menina estava triste, estando de férias tinha que passar os dias no quarto, enquanto os seus primos estavam na casa da vovó divertindo-se. Não era justo. O pai, cheio de ternura, prometeu que a deixaria ir a casa da vovó depois do almoço, e assim poderia brincar e à noite voltaria para casa.

Assim que o pai saiu do quarto ela ouviu barulhos levinhos na sua janela. Serão pingos de chuva batendo na vidraça? – interrogou-se.

Saltou da cama e foi ver o que era, e lá estava o Passarinho bicando a janela como se dissesse: vem, abre, sou eu.

A menina ficou radiante de tanta felicidade, até a febre se foi embora. Ele cantou tão bem que fez pular de alegria o coraçãozinho que palpitava no peito da Menina.

Do jardim chegavam sons de bem-te-vi e de outros passarinhos, mas a Menina só ouvia o canto do seu passarinho.

O Passarinho, mesmo sendo um aventureiro inveterado, sabia ser educado, e, agitando as asinhas, inclinou-se, soltou um canto alto como se dissesse: bom dia! Mas logo bateu asas e foi-se embora.

Alguns segundos depois a Menina desceu as escadas a correr e apareceu na porta da cozinha dizendo que estava a morrer de fome. Enquanto devorava café com leite e pão fresquinho contava o que havia acontecido. Com o rosto radiante ela disse que mesmo com a chuva havia recebido a visita do seu amigo passarinho.

CAPÍTULO VIII
Sonolento, o Passarinho esfregou as asinhas nos olhos e espreguiçou-se. Ainda era muito cedo mas tinha que se levantar. E nesse momento ouve a voz do Papagaio fofoqueiro a chamá-lo. Saiu do ninho deu uma olhadela lá para fora. O sol começava a acordar. Estava uma linda manhã de primavera. Em cima de uma cerquinha um sabiá quase rompia a garganta de tanto cantar. Do outro lado, um casal de curió estava ocupado a alimentar os seus filhotes pequenos e esfomeados. Havia trazido muitos bichinhos minúsculos para o almoço. De longe, o Passarinho aventureiro ficava ouvindo o falatório do Papagaio.

Um bando de garças passou voando e gritando para que fossem com elas a um banquete na beira do rio. Todos o seguiram. Ao voltar, repararam que na casa do João do Barro reinava uma grande agitação. Periquitos voavam aflitos em volta da árvore na qual se encontrava a casinha, os sanhaços gorjeavam zangados acusando que a gritaria estava atrapalhando o seu sossego. De repente o Passarinho aventureiro viu bandos de passarinhos agitados lá em cima no meio dos galhos.

Uma cobra imponente estava a atacar os filhotes que dormiam em seus ninhos enquanto os pais saíram para buscar alimento. O Macaco que tudo observava veio em socorro dos pobres filhotinhos. A cobra fugiu tão depressa pela árvore acima que nem tempo deu ao Macaco para atacá-la.

Leco teve que voltar para o seu cantinho. Quando chegou estava tudo em silêncio. Alguns pássaros cantavam as suas melodias noturnas, macacos agasalhados, num galho pertinho do seu ninho e um pequeno pardal dormia tranquilo.

O Passarinho aventureiro acordou cedinho. Adorava voar pelos campos bem antes do sol acordar e brincava com os coelhinhos que por ali se alimentavam. Gostava de ser gentil com todos os animais que viviam na floresta, mas riam dele achando-o tão pequeno que caberia na boca de um camundongo. Por isso muitas vezes preferia ficar afastado. Mas uma bela noite de lua cheia bateu asas todo contente, subitamente ao fazer um voo rasante assustou-se com o pio agudo da Coruja velha que, voando ao seu lado lhe disse:

- Eu quero ser amiga de todos, mas parece que temem ser atacados por mim. Mas onde tu vais com tanta pressa?

- Não tenho medo, mas não confio numa coruja velha e mal-humorada assim como você - disse o Passarinho afastando-se.

O Passarinho foi até o riacho onde as crianças gostavam de brincar como se estivessem numa praia, e Leco adorava ficar de longe a observar, mesmo sendo um passarinho ele tinha um pouco de humano devido ao tempo que viveu aos cuidados da Menina.

O Passarinho pousou na areia para pegar migalhas de farelos de pão jogados pelas crianças, quando viu um enorme caranguejo que o fez voar assustado, galopando no ar a toda velocidade com seu par de asas que mais parecia flutuar.

De repente ouviu o grito de um gavião isolado no alto de um rochedo. Suplicava que alguém o ajudasse, pois havia caído numa armadilha preparada pelos humanos. O Passarinho só encontrou um jeito de o salvar, voar e encontrar ratos que pudessem com seus dentões roer a corda até que o gavião se soltasse. Mas os ratos recusaram-se uma vez que era o alimento predileto de gaviões, era melhor deixá-lo morrer, assim estariam livres dele.

Mas o Passarinho tinha um coração de humano e não deixaria que o gavião morresse ali sem socorro, e saiu em busca de quem pudesse ajudar.

Do alto de uma árvore o Macaco pulava e foi a ele que o aventureiro foi pedir ajuda, que logo desfez o laço e o gavião uma vez livre agradeceu e bateu asas dando gritos à liberdade.

CAPÍTULO IX
Numa terra distante, onde cresciam palmeiras atraindo esquilos para comerem os seus deliciosos frutos, e viviam pássaros de todas as cores, que se fartavam com frutas suculentas e maduras, o Passarinho resolveu ficar por ali e viver mais uma das suas aventuras.

Não demorou a encontrar uma linda fêmea de penas coloridas, que se exibia pulando de galho em galho para o atrair.

Era uma alegria que naquele momento não sabia explicar.

Leco todo faceiro cantava e encantava enquanto abria as asas formando um leque. Parecia um atleta de tão bem disposto que estava, enfrentando sempre os outros passarinhos para novos voos, que logo desistiam diante da sua energia e vivacidade.

Leco sabia que ali estava em segurança, longe dos perigos da cidade, e também Longe da Menina, a qual ainda sentia a sua falta, e com certeza estava a sofrer por ele. A distância e o tempo encarregavam-se de lhes indicar caminhos diferentes. Ela esquecer-se-ia dele, mas Leco não ficava triste por isso, o encanto da sua nova companheira deixava-o com o pensamento ocupado. Era melhor viver a sua nova vida e deixar o passado sossegado. Por onde andaria a sua antiga companheira que fora capturada pelos moleques arteiros? Será que a soltaram e anda perdida por aí?

Certo dia estava pegando sementes quando apareceu um velho papagaio e falante como era foi logo desfiando o que queria dizer:

- Não precisa fugir, nem que vá para o outro lado do mundo, a saudade vai seguir-te, nunca serás totalmente feliz se continuares fugindo. Convida aquela linda passarinha e ide ter com a Menina, ela com certeza, por amor, vai ficar feliz em ver-te assim todo faceiro, e quem sabe se não protegerá os dois dos perigos da Natureza que rondam a cidade. Depois podem vir e voltar quando quiserem.

- Mas como vou encontrar o caminho de volta se já passaram luas e luas e voei entre vales e montanhas, lagos e enseadas? A esta hora que nem me lembro de quanto tempo passou, ela já com certeza não se lembra mais deste passarinho aventureiro - disse Leco, sentindo que duas lágrimas desciam dos seus olhinhos azuis.

- Ora! Ora! Siga ao sabor do vento as batidas do seu coração. É lá que vai encontrar a sua amiguinha. Se quiser irei com vocês. Estou cansado desta vida na floresta. Aqui tenho que procurar o meu alimento, e já estou velho, e preciso que alguém cuide de mim durante os dias que me restam de vida. Não tenho família. Vivi a minha mocidade sendo amado e cuidado por uma família que me amava, mas por egoísmo e achando que aqui seria mais feliz resolvi fugir. Estou arrependido, não consegui ser feliz como era lá naquela família. Apesar de viver em cativeiro era bem melhor que aqui onde não aprendi a viver.

E sem ouvir qualquer resposta do Papagaio falador foi-se embora. O Passarinho ficou preocupado, havia renascido uma sementinha em seu pensamento, ele não iria ouvir o conselho daquele fofoqueiro e para esquecer esse assunto lançou-se ao trabalho. Precisava de construir um ninho bem lindo onde pudesse constituir família com a nova companheira. Não podia desistir da sua liberdade, seria melhor trabalhar evitando lembranças.

Na manhã seguinte, todavia os pensamentos recomeçaram: aquele malandro do Papagaio fingindo ser seu amigo confundira os seus pensamentos, e agora aquilo ficava martelando em sua cabecinha de passarinho.

Naquele momento a linda Passarinha chegou junto dele como se acabada de sair do banho de tão brilhantes estavam as suas penas. Ele convidou-a para um passeio. Juntos voaram. Paravam quando sentiam fome, cantavam, voavam pelas colinas verdejantes onde andavam coelhos e pássaros de todas as cores e tamanhos. Tudo ali era encantado. Do solo, no meio de gramas, brotavam as mais lindas flores, soltando no ar o mais adocicado perfume.

Assim que a noite foi derramando sombras nas árvores, era hora de procurarem um local onde pudessem dormir, e no dia seguinte bem antes que o sol acordasse voltariam para a sua casinha que já estava quase pronta.

De repente o céu escureceu. Aproximava-se uma forte tempestade, daquelas que sacodem as árvores, balançam as folhas, derrubam galhos. Depressa buscaram abrigo na copa das árvores, onde ficaram juntinhos que nem o vento se atrevia a passar entre eles e asinhas com asinhas pareciam um só de tão agarradinhos.

Daquele dia em diante nem o tempo nem a saudade separariam mais estes dois.

CAPÍTULO X
Nem um fio de sol surgia atrás das montanhas e já o Passarinho aventureiro voava, ultrapassando as montanhas, desafiando os vales, pousando na janela do quarto da Menina.

Ela despertou feliz assim que ouviu o seu inebriante canto. Parecia declamar os mais lindos versos de amor, o que a deixava transbordando de felicidade, acreditando que um dia ele se cansaria das suas aventuras e voltaria a viver ali onde teria todo o conforto e segurança.

Infelizmente o Passarinho tinha muitas amiguinhas, e, aventureiro como era, jamais se contentaria em cantar apenas na sua janela, e assim continuaria a levar uma vida de aventureiro.

A Menina que adorava ser acordada pelo canto inebriante de Leco, quando ele não aparecia, levantava-se tarde e desanimada. Sentia falta do seu carinho, e todos os seus sentimentos ficavam doloridos pela saudade.

Já passara mais de um mês que ele havia desaparecido. A vida ficava vazia qual gaiola aberta quando o pássaro voava para a imensidão.

Um dia em conversa com o seu avô, disse-lhe o quanto sentia a falta do seu amiguinho e do quanto ele era egoísta, pois havia-lhe salvado a vida e cuidado da sua asinha quebrada, e em retribuição ele foi-se embora sem ao menos se despedir.

O avô ao ver o sofrimento da neta disse:

- Ele vai voltar. Deve viver por aí enfeitiçado por aquela Coruja velha e agorenta, mas logo esse encanto passa e você terá o amor do seu amiguinho de volta.

- Mas só a saudade fica de cada vez que ele bate asas. Um dia vai e não voltará. Preciso viver essa realidade, e tenho que entender que o Passarinho é livre e como tal deve viver em liberdade, não posso aprisioná-lo e vê-lo morrer de tristeza - disse a Menina muito triste.

Assim a Menina decidiu que deixaria sempre a sua janela aberta. Ele há de sentir saudades e um dia voltará nem que seja apenas para cantar e voar para bem longe onde a saudade não poderá chegar. E bem longe dali outras histórias aconteceriam.

O Passarinho mais uma vez com as suas aventuras acordou todo empolgado dizendo que era escritor e começou a fazer rimas e rimava tudo que via: saudade, emoções e assim saiu voando e rimando. Encontrou o Papagaio que lhe disse:

- Para de falar bobagem, tu nunca serás um poeta, continua cantando, deixa de poetar.

E o Passarinho dizia sorrindo:

- O sonho não morre, fica guardado na gaveta do pensamento esperando a hora certa para se realizar.

As folhas sorriam, as flores abriam-se, a Natureza empolgada apoiava a decisão do Passarinho, os bichos ficavam agitados com as rimas, a girafa criou a maior confusão, enquanto o coelho aparecia com a sua cartola furada. O sapo foi logo dizendo que não estava para brincadeira. Os bichos todos animados incentivavam o Passarinho gritando:

- Vamos ver com que vão rimar o urubu e a avestruz, a zebra de galocha e o gambá de terno listrado!

O Passarinho aventureiro cansou-se da brincadeira e resolveu bater asas. Iria à procura de novas aventuras. Quando fazia planos para aprontar mais uma das suas travessuras lembrou-se de algo, era seu aniversário e resolveu voltar, assim passaria a tarde com seus amigos cantando e comemorando o seu grande dia. Jamais imaginaria que os seus amigos lhe iriam fazer uma bela surpresa. Ao chegar chorou de emoção lembrando-se da Menina.

A floresta estava colorida, as árvores enfeitadas com flores trazidas no bico de passarinhos, batuques dos mais animados da redondeza. Macacos descendo no cipó para trazerem os mais deliciosos cachos de banana. As árvores estavam cheias de pássaros vindos de toda a região daquela floresta. Era uma correria para deixar tudo pronto antes que o aniversariante chegasse. Esquilos desfilavam fantasiados de malabaristas. Quem não subia às árvores fazia a festa em baixo esperando que o banquete fosse jogado lá de cima. Para não perder um instante da festa o gavião que já se tornou amigo desde o dia que fora salvo pelo Passarinho chegou cansado pelo lindo presente que trazia no bico, um feixe das mais deliciosas sementes que havia encontrado nas campinas.

As corujas que nunca eram bem-vindas ficavam de longe de olhos esbugalhados, morrendo de inveja e reclamando com um gambá por não terem sido convidadas. A coruja mais velha fazia ameaças de vingança contra todos os passarinhos e que se cuidassem ou seriam apanhados na primeira oportunidade e aí virariam banquetes para os seus filhotes.

Um enorme bando de alegres passarinhos vindo do outro lado das montanhas chegou com as suas fantasias multicoloridas dando mais brilho e animação à festa.

A folia ficou mais agitada assim que o Passarinho aventureiro chegou. Foi uma autêntica cantoria de passarinhos e gritos dos macacos. Leco estava muito feliz com a surpresa.

Do outro lado da floresta, bem no alto da montanha, partia um cortejo de cigarras acompanhadas de vaga-lumes. A orquestra estava animada enquanto passarinhos voavam alegremente como se dançassem ao som da sinfonia. E a festa arrastava uma multidão. Bichos de todas as raças chegavam, comiam e animavam-se. E assim foi até que a noite cobrisse a floresta com seu manto negro.

Era primavera. A tarde findava quando ele resolve fazer um passeio. Ali tudo parecia perfeito. Na floresta reinava a mais pura paz, só o movimento do vento, o zumbido das abelhas e o farfalhar de folhas. Fileiras de árvores já curvadas pelo tempo pareciam dormir debruçadas no leito do rio que corria mansinho onde a sua água azulada se misturava com o alaranjado do sol que se despedia. No céu já surgiam estrelinhas solitárias, pareciam preguiçosas de tantas travessuras. O cenário deixava o Castor grande pintor da Natureza extasiado diante daquele espetáculo, tal era a suprema perfeição descrita em suas telas. Mas o Passarinho que tudo observava não voaria sem fazer uma das suas aventuras. Do alto do galho soltou um besouro que caiu dentro da lata de tinta do castor. Ao aperceber-se este ficou furioso e saiu correndo querendo pegar o aventureiro. Mas ele rápido bateu as suas asinhas e voava tranquilo pelos campos bem pertinho de um vilarejo. Um gatinho magricela miava ao lado da estrada de barro vermelho. O Passarinho de bobo não tinha nada, o melhor era sair rapidinho dali. Desta vez seguiria o leito do rio, assim não correria o risco de se perder. Mais adiante encontra um casal de bem-te-vi olhando encantados um pescador espreitando o rio da beirada de uma ponte pequena de madeira.

Leco ficou ali alguns minutos ao lado da ponte em pés de jasmim que soltavam o aroma das suas flores. Não tardou a aparecer ali um casal de sabiás. Cantava como se estivesse apaixonado. O Passarinho sentiu-se só e tratou de sair dali imediatamente. Saiu silencioso voando baixinho. Encontrou um casal de coelhos a brincar com dois filhotinhos. Corriam alegres por entre as flores que se espalhavam formando um tapete multicolorido. Subiu o mais alto que conseguiu no topo da mais alta árvore. Ouviu um barulhinho de água. Era o rio que passava e engrossava. Foi voando com tanta pressa que ao chegar ficou extasiado ao deparar-se com o mais lindo espetáculo. O rio caía direto no mar. A areia branquinha, os rabiscos de gravetos e conchinhas, pareciam trabalhos de rendeiras que teciam as suas mais delicadas rendas. Os ondulados arabescos esculpidos na coroa da maré vazia, os velhos e retorcidos troncos que pendiam sobre as águas sendo levados pelas ondas que vinham e voltavam numa dança saliente. O Passarinho pousou no tronco mais alto e olhando aquele mar todo azul veio-lhe a lembrança um dia que a Menina o levou até ao mar e ficaram ali o dia inteiro, ela tomando banho, ele cantando em sua gaiola pendurada na tenda que armaram para se proteger do sol. As lembranças tomaram conta do seu pensamento e do seu coração. Quando a tarde se estendia para chegar ao fim, ele resolveu voltar antes que a escuridão caísse e não acertasse com o caminho. Mas a noite apressou o passo, a lua resolveu esconder-se. O melhor seria dormir por ali ou correria o risco de ser devorado pela Coruja agourenta.

CAPÍTULO XI
Era uma floresta onde as árvores cresceram tanto, que quase tocavam o céu. Por baixo existiam tapetes de flores onde viviam alegres famílias de diversas espécies. Por cima, nos galhos, milhares de passarinhos cantavam misturando os seus cantos, formando a mais bela serenata.

Um casal de bem-te-vi construiu o ninho na mais alta copa de árvore, onde o sol com seus fiozinhos dourados fazia desabrochar lindas flores que deixavam o ambiente lindo e perfumado. Seria difícil chegar até lá, só mesmo quem possuísse um belo par de asinhas.

Do alto, os passarinhos observavam os seus filhotes. Viam-nos voar alegremente e a saltar como crianças na relva fresca serenada do amanhecer.

Os pais trabalhavam como semeadores, e dois casais de sabiás coletavam insetos para o almoço dos filhotes. Enquanto isso os pequenos filhotes quando não estavam a fazer travessuras, procuravam tornar-se úteis cantando para alegrar a floresta.

Assim formavam uma linda família. Os outros animais da floresta tinham por eles grande respeito e admiração.

Uma bela manhã, alguns filhotes saíram para brincar na beira de um riacho que corria preguiçosamente atraindo muitos banhistas. Foi aí que encontraram o Passarinho aventureiro e a sua amada.

Quando um dos filhotes foi ao banho foi atacado por algo e deu um grito. Ao ouvir aquele grito de dor o Passarinho correu na sua direção tendo sido seguido por todos. O bichinho gemia caído perto da água. Tentaram puxá-lo, mas estava difícil. O mais novo saiu em busca de socorro. Finalmente apareceu o esquilo que, vendo-o naquela agonia resolveu ajudá-los. Colocou o filhote nas suas costas e saiu pulando de árvore em árvore, seguido pelos passarinhos, até que chegaram ao local onde viviam e ali pôde deixar o filhotinho ao cuidado dos pais.

Os dias foram passando. O Passarinho Leco e a sua amada foram bem recebidos. Resolveram ficar ajudando a cuidar do filhote. Logo que ficasse bom voariam pela floresta.

Era à tardinha, a chuva começava a cair. Haviam-se esquecido das horas. Deixaram o tempo para trás e foram em busca de um abrigo onde pudessem passar a noite ou morreriam ensopados e com frio. Chegaram às margens de um regato que, com aquele ruído murmurante parecia convidá-los para um descanso e ali ficaram. Mas depressa procuraram um galho bem fechado de folhas, pois o frio já lhe penetrava as penas. Ficaram tão juntinhos que o assovio do vento passava perto mas não se atrevia a invadir o espaço entre os dois.

O novo dia acordou trazendo o brilho do sol. A chuva que caíra durante a noite deixou a floresta com cheiro de pinheiros. A água que corria no ribeiro deixava o local aconchegante. Seria bom ficarem ali quietinhos, mas era preciso sair para se alimentar. Com ágil bater de asas voaram pelos atalhos entre as flores, e borboletas. O sol admirava-os e sorria-lhes, jogando seus raios fazendo caminhos de luz.

Imediatamente chegaram a um campo onde se fartaram de sementes fresquinhas, beberam água num córrego e ficaram ali até o cair da tarde. A Passarinha radiante nem sabia agradecer tanta beleza. O caminho era longo e urgia chegar à floresta antes de escurecer ou seriam devorados por alguma ave noturna esfomeada.

E assim iniciaram uma longa viagem.

Alta noite o Passarinho acordou triste. Sonhou com a Menina. Saiu do ninho e foi pousar no galho mais alto onde apenas o céu o poderia ver e ali ficou a pensar.

Foi então que uma estrelinha reparou na tristeza daquele lindo passarinho e pensou o que poderia fazer para pô-lo alegre. Teve uma ideia brilhante. Atirou uma luzinha da sua quinta, aponta bem na cabeça do passarinho, mas ele nem notou ou de tão triste que estava não disse nada, mas a estrelinha não iria desistir e novamente lançou o facho de luzes que piscavam em volta dele.

O Passarinho não resistiu ao lindo espetáculo e olhando para o céu começou a cantar como forma de agradecimento. Lá de cima a estrelinha sorria e fazia com que as luzinhas flutuassem por todo espaço perto dele.

Ao ver que o Passarinho estava feliz a estrelinha formou com os pontinhos de luz um enorme coração em volta dele e aí o Passarinho entendeu que em algum lugar a Menina ainda o amava e com certeza estava a pensar nele.

Nesse momento uma voz ecoou: - não devemos desistir do amor e se alguém que ama estiver bem distante olhe para o céu com olhar de menino passarinho, com certeza onde essa pessoa estiver irá também pensar em você e esse amor será eterno além da vida até a imensidão.

O dia começava a clarear e ele resolveu dar o seu passeio matinal. Ao voltar convidou a sua companheira para voarem pela vastidão, assim esqueceria toda aquela saudade. Voaram de terra em terra, de floresta em floresta levando apenas o amor e a certeza de que felicidade era viver aquele momento. À noitinha estavam de volta cansados, mas felizes por mais um dia diferente.

O tempo passava e o Passarinho vivendo as suas aventuras. Certo dia resolveu ir até à cidade, queria ver de perto os humanos e quem sabe encontrar a Menina. Um circo estava a ser armado perto da escola onde ela estudava. Era melhor sair dali depressa, onde viram quatro gatos com cara de poucos amigos. Nas jaulas estavam animais ferozes dando urros agudos. Estavam infelizes. Os animais não nasceram para viver engaiolados. De repente um temido gavião, preso por uma corrente, deu um grito abafado. Assustados, fugiram dali. Não queriam ser uma refeição para o gavião. Regressaram à paz e segurança da floresta.

CAPÍTULO XII
Longe dali a Menina jamais se esqueceu do seu lindo e amado Passarinho. Era um passarinho diferente de todos os que por ali passavam. Era livre para viver a sua vida, mas se um dia desejasse e sentisse saudade podia voltar. A sua gaiola estaria sempre ali cuidada, com água e comida e a porta aberta para ir e vir quando quisesse.

Ele era um passarinho especial, as suas penas tinham cores de encantar, eram tão fofinhas que mais pareciam penachos de algodão colorido.

Numa manhã, a Menina acordou sentindo saudades e foi ao pé da mangueira, quem sabe ele estava ali, mas a gaiola estava vazia e triste. Ficou olhando outros passarinhos que pulavam de galho em galho cantando alegremente enquanto outros bicavam as frutas maduras e suculentas. Estava muito frio e precisava entrar para se aquecer, quando se virou para entrar ouviu o canto triste do seu passarinho, que pousara num galho bem pertinho dela e disse:

- Minha amiguinha, faz dias que voei nessa direção, perdi-me no caminho e já escuro cheguei, mas passei a noite nas montanhas, estava tão frio que nem coragem tive de voar até aqui e ali mesmo encolhido entre as folhas adormeci, mas assim que o sol sorriu no céu avisando que o dia seria radiante sacudi-me e voei para pertinho de você.

A menina não ouvia mais nada a não ser o canto inebriante do seu Passarinho, e quanto mais ela sorria de felicidades mais ele entoava as mais lindas canções que sabia para encantar a amiguinha.

Essa noite ela dormiu feliz e sonhou que voava nas asas do Passarinho. Ele voava tão alto passando muito além das montanhas, pertinho das nuvens, e ria das suas aventuras.

Pararam numa clareira onde o verde parecia um tapete com flores amarelas que mais pareciam tapetes pintados no verde da grama, ali tinha água com fartura correndo entre os vales, onde animaizinhos corriam livres. O Passarinho fazia voos rasantes deixando a Menina feliz com as suas travessuras.

O canto do Passarinho na sua janela despertou-a daquele sonho que parecia tão real.

O Passarinho depois de cantar para ela disse que precisava partir e que dessa vez seria para sempre, pois formaria uma família e ali não teria lugar para eles.

- Eu vou sentir sua falta, ficarei triste e quando cair uma chuva fininha serão minhas lágrimas caindo para te avisar que penso em você e que estou triste.

- Eu também sentirei saudades, mas vou-te contar um segredo: a vida precisa de alegria como as minhas asinhas precisam de voar e o meu canto precisa de liberdade. Se ficar preso com certeza morrerei. Deus fez os passarinhos para viverem livres pelas montanhas, pelos campos, pelos vales.

E assim ele bateu asas e partiu. A Menina ficou na janela mais uma vez olhando ele sumir em direção ao sol que brilhava no horizonte.

- Eu sei que ele vai voltar, assim como eu sinto a sua falta, ele também sente a minha - disse a Menina para o seu coração.

Os dias passavam sem notícias do Passarinho. Finalmente uma tardinha, enquanto ela voltava da escola, ele apareceu com um colorido mais lindo ainda e foi direto para a gaiola onde comeu e bebeu e depois adormeceu. Parecia cansado das suas aventuras.

Na manhã seguinte não partiu e foi direto para a janela do quarto da Menina, e vendo que ela já estava acordada disse:

- Amiguinha eu vivo lá nas montanhas naquelas árvores gigantes, lá tudo é maravilhoso, o sol brilha fazendo um rastro de luz entre as folhas deixando o lugar mágico e encantador, nada se ouve a não ser o canto dos pássaros e o barulho do vento que faz as folhas balançar. Trouxe-te um presente, uma das minhas penas caiu, mas é tão colorida que resolvi presentear-ta.

Deu um salto, pegou na pena com o bico e pousou-a na cama da menina que ficou feliz e emocionada. Ela agora tinha a certeza de que ele também a amava.

O passarinho começou a cantar as mais belas canções, das quais a Menina jamais se esqueceria, nem que durasse até a eternidade.

- Tenho que partir, seguirei o meu caminho, mas nunca te esquecerei, você salvou a minha vida - disse o Passarinho saltitando na beirada da janela.

- Por favor, não vá, sabe que fico triste cada vez que sai voando por esse mundo sem fim. Meu amigo! Como seria bom se não houvesse despedidas.

- O Passarinho bateu asas e sumiu mais uma vez.

Passaram os dias e numa tardinha chuvosa o Passarinho apareceu. Mas estava mudado, estava muito feliz.

Os seus olhos estavam mais vivos e cheios de euforia, parecia trazer o cheiro das montanhas, dos campos verdes, das árvores que pendem seus galhos, o cheiro das suas sementes, o perfume das flores que se abrem nas manhãs serenadas. Com cores vibrantes de um lindo pôr do sol, as suas penas pareciam plumas aveludadas.

A Menina ficou triste diante de tanta felicidade que brotava do seu amigo passarinho. E fez uma pergunta que talvez ele não tivesse resposta:

- Meu amigo responda-me: - Parece que foi enfeitiçado por alguma coruja agorenta, é por isso que está assim flutuando dentro de você mesmo e sem perceber o quanto eu sofro por você?

O Passarinho não respondeu, e continuava cantando como se estivesse apaixonado. Ele poderia estar assim por outros motivos, pensou a Menina, lembrando-se que o Passarinho adorava o perfume das frutas do pomar, onde ficava bicando todas enquanto ela as colhia, e o cheiro das flores que brotavam em sua janela.

- Será que existe um remédio que cure essa minha tristeza? - perguntou a Menina.

- Sim existe - disse o Passarinho.

- Mas deve ser algures muito longe daqui, onde o Passarinho possa ser gente e a Menina virar passarinho. Mas para chegar a essa terra encantada é preciso saber voar, e eu nunca vou aprender a voar, pois não tenho penas e não tenho asas, só tenho braços e pernas que só sabem andar.

- Bem podia ser uma borboleta, ou quem sabe um beija-flor, e numa noite de lua brilhando no céu você pudesse criar asas e voar. Como não é possível vamos sonhar e juntos voar, voar e voar. E se nem isso acontecer, ouvirás o meu canto suave como o raiar do dia, e do esplendoroso pôr do sol.

Dito isto abriu as suas asas e foi em busca da sua liberdade e, além das montanhas, nos belos vales muito longe dali, nas noites frias ou nos raios de sol do meio-dia, viverá um novo sonho.

Com lágrimas nos olhos a Menina disse:

- Não serei mais egoísta, segue o teu caminho sei que é uma despedida e que talvez nunca mais veja você, sei que de agora em diante os teus sonhos são bem longe daqui aonde nunca poderei chegar. Então voe, amigo, vá em direção a sua liberdade, se Deus te deu um par de asas foi para ser livre e voar.

O Passarinho não dizia nada, apenas de cabeça baixa ouvia tudo com atenção. Uma parte dele queria ficar ali, mas a outra queria voar e bem longe dali viver a sua vida.

- Vai sem tristeza, com a dor da despedida não quero dizer adeus, guardarei para sempre as lindas lembranças de você. Que as tuas realizações sejam de felicidade, ficaremos ligados pelos sonhos. Neles nada nem ninguém poderá atrapalhar-nos e eu poderei ter asas e voar ao teu encontro, e quem sabe, tu poderás voar ao meu e assim sermos felizes mesmo que estejamos a milhares quilómetros de distância – disse a Menina.

O Passarinho partiu levando as lembranças e a certeza do quanto será amado e lembrado pela Menina.


CAPÍTULO XIII
A chegada do verão traz dias quentes. A Menina caminha pela floresta, falando com as flores brincando com pedrinhas, sentindo o perfume da Natureza e ouvindo o canto de passarinhos. Sorri ao ver como as perninhas das andorinhas são fininhas, mas arteiras e ligeiras na corrida para pegarem migalhas entre as folhas caídas nas sombras.

O tico-tico que alegremente diz bom dia, a senhora sabiá que exibe seu charme para outros que por ali voam, e no laguinho graciosos marrecos espalham água por todos os oásis que riam das travessuras do Passarinho aventureiro saltitam felizes. O Passarinho brincava no alpendre da sua casa exibindo majestosamente a fabulosa cor das suas penas. Ao ver que a Menina estava ali começou a saltitar, acabando por pousar na beira de um laguinho e ficou a brincar na água. Parecia uma criança. Sacudia-se, abria as asinhas, empinava o rabinho.

A visão do encontro e a sensação de felicidade fez com que gritasse o seu nome tão alto que espantou os passarinhos que bebiam no lago.

O Passarinho ou estava amedrontado ou não reconheceu a Menina, que já estava uma mocinha, e ele, como pássaro, era normal que se esquecesse dela.

Assustado bateu as asas e foi pousar num campo florido onde a brisa soprava sobre as rosas, cujas pétalas eram levadas, e bandos de borboletas multicoloridas esvoaçavam suavemente.

Bem lá do alto o Passarinho cantava. A Menina de longe só observava, ora feliz em vê-lo outra vez, ora triste por ele já a ter esquecido.

De repente uma lufada de vento fez com que o Passarinho voasse com medo de ser arrastado pela corrente forte que balançava os galhos.

A Menina ficou ali parada e triste já não via a mesma beleza da paisagem, nem o esgarçamento de nuvens que pesavam no céu, nem a trajetória do sol que apressado dava lugar a chuva que caia em gotas fortes.

A cada pulo apressado dos macaquinhos que corriam para se proteger, a cada fluxo e refluxo das gotas da chuva que caia anunciando uma forte tempestade, ela, apreensiva, pensava: Logo, Logo chega a tempestade, onde será que ele se foi abrigar? Balançou a cabeça. Ele é um passarinho e sabe proteger-se melhor do que eu que, se não apressar o passo quem fica encharcada sou eu, pois ali só há árvores.

Na correria para casa encontrou alguns passarinhos que brincavam nas poças de água formadas no caminho de terra vermelha.

E a chuva caia forte e sem pressa de parar, encharcando o solo vermelho. O vento soprando tão forte que balançava sem piedade os galhos das árvores e as longas folhas agitavam-se fazendo com que bandos de passarinhos fugissem assustados. O vento uivava assustador, a Menina apressava o passo mas perecia que a casa ficava mais longe.

Ao entrar na cozinha estava pingando como se fosse um passarinho molhado.

Na manhã seguinte o dia acordou lindo com o céu que nem uma nuvem dançava, parecia que dormiam cansadas de tanto derramar pingos e respingos de chuva na terra.

A menina pulou logo da cama e correu para o quintal. Adorava apreciar a festa que os passarinhos faziam quando se reuniam à volta do comedor onde era colocada ração, água e fruta fresquinha colhida no pomar.

CAPÍTULO XIV
Numa terra distante, do outro lado do vale, onde passarinho que chegue jamais retorna. Se resolver aventurar-se perde-se no emaranhado de árvores que se exibem na floresta ao pé da montanha. Ou ficam tão cansados que as suas asinhas não resistem e são devorados por alguma coruja velha esfomeada.

Ali chegou o Passarinho aventureiro depois de dias e dias voando, parando para descansar e seguindo viagem ao sabor do vento. Queria ficar o mais distante possível da cidade, assim aprenderia a ser um passarinho e viveria como tal, e não ficar sonhando ser gente e viver no seu meio.

A sua companheira de tanto o ver triste com o olhar perdido nas nuvens, abandonou-o fugindo com outro para longe dali.

Leco viva sozinho, pulava de galho em galho, amanhecia e perdia a direção, ora ficava agasalhado, ora saía à procura de frutas frescas que ali tinha a perder de vista. A sua vida era assim, a voar no céu sem fim. Um dia voando sem destino ouviu o som de música, pessoas falando alto, crianças gritando de tanta felicidade, era domingo e só poderia ser uma festa. Por curiosidade pousou numa laranjeira pertinho da piscina e ficou a compartilhar toda aquela euforia.

Dos seus olhinhos surgiu uma lágrima, e o seu coração bateu acelerado. Do meio da garotada surgiu uma menina linda. Mesmo já estando uma mocinha, ele jamais se esqueceria dela. Os seus cabelos loiros e compridos, debaixo dos quais ela gostava de colocá-lo, e quantas vezes, carinhosamente, ficava bicando de leve o seu pescoço.

Os sentimentos do Passarinho brotaram. O seu coração parecia saltar-lhe do peito. Não tinha dúvidas, amava aquela menina, mas como se ele não passava de um passarinho aventureiro!

E ficou ali sonhando acordado. Imaginava pular na água com ela, correr pelos campos, voar e voar até ficarem cansados e adormecerem nas sombras frescas ao pé da colina.

Quando viu a Menina a dançar com outras crianças viu-se ali bailando com ela enquanto todos gritavam voa Menina voa! Vá dançar nas estrelas com o seu Passarinho, lá podem encantar-se e virarem felizes para sempre.

A noite avisava que estava a caminho, a música parou, todos começavam a retirar-se, ele rapidamente sem ser visto bateu asas deixando para trás a imagem daquela Menina que morava no seu coração de passarinho.

Muitos meses se passaram, e a cada amanhecer o Passarinho ficava mais triste, voltava sempre naquele lugar mas tudo era silencioso, nada se via nada se ouvia. Já não tinha mais vontade de viver as suas aventuras, a saudade da garota tirava-lhe o sono e a alegria de viver.

Um dia voando por terras sem fim encontra uma fada que flutuava soltando estrelinhas pela floresta. Ficou ali tendo bobos pensamentos. E se fizesse um pedido para se transformar num garoto, ou quem sabe trazer a sua Menina e transformá-la numa linda passarinha?! Era melhor parar de ter sonhos impossíveis, pensou.

Um vento forte começou a soprar, as folhas caíam, galhos sendo quebrados, as árvores pareciam deitadas no chão, ou ele se segurava firme ou seria tragado pela fúria do vento.

A fada parecia ter entendido a súplica do passarinho e veio em sua direção. Ali só restava ele de passarinho, os outros deram no pé ou seriam levados para tão longe que se perderiam no ar.

- Estou aqui para te ajudar, mas antes precisa de encontrar a sua Menina e trazê-la até aqui, só assim poderei realizar o seu desejo – disse a fada.

E partiu pelo ar deixando para trás um rastro de luzes de todas as cores.

Os dias passavam, o tempo voava e o Passarinho quanto mais voava, mais perdido ficava, não tinha como achar a direção da casa da Menina. Não iria desistir, tentaria mais uma vez e se não a encontrasse sumiria ou morreria de tristeza.

A primavera chegou toda esplendorosa exibindo suas flores, soltando perfume, atraindo insetos, pássaros e borboletas, e com ela uma grande surpresa, finalmente chegou e ali estava a Menina brincando, sem que ela o notasse ele chegou pertinho e misturou-se com outros passarinhos que bebiam no laguinho onde ela brincava, mas como num passe de mágica ele cantou. Ela parou e ficou a escutar de onde vinha aquele canto tão belo, não tinha dúvidas, aquele canto era diferente de todos os cantos dos outros passarinhos que viviam ali, ela reconhecê-lo-ia nem que passassem anos e anos.

Percebeu logo que o autor daquele belo canto era um que bateu asas e fugiu para longe. Mas uma vez ele veio e bateu asas sem ao menos chegar perto dela.

Triste ficou ali observando os filhotinhos de periquitos verdes que estavam sendo cuidados e alimentados pelos pais, pardais, cardeal, bem-te-vi e outros tantos passarinhos que pulavam nos pés de frutas bicando uma derrubando outra, era lindo ver toda aquela festa. E o seu amigo Passarinho por onde estaria?

A Menina ficou ali observando os passarinhos na mistura de cantos que se tornavam uma bela sinfonia.

Logo adiante uma rosa abria-se enquanto um beija-flor sugava seu néctar. E ele porque se teria ido embora?

O sol começava a esquentar e todos voaram em busca de um lugar sombreado onde pudessem descansar depois de tanta euforia.

Até quando ele iria ficar assim? Chegava escondido, fazia-se presente e fugia assustado como se estivesse com medo de ser capturado. Mas ela não queria aprisioná-lo mais, ele que fosse ser feliz onde achasse que estava a sua felicidade. Um dia com certeza voltaria.

FIM

Autora: Irá Rodrigues

Revisão de texto: Leonel Anjos Neves

BIOGRAFIA

Irá Rodrigues, natural de Santo Estevão- Bahia. Geografa licenciada pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Autora de o livro “ SONHAR SEM SEGREDOS” Participação em duas antologias em Portugal pelas editoras Pastelaria Studos e Modrocomia, participação em antologias Emoções Poéticas e Inspiração em Versos- São Paulo, Amo amar Você- Rio de Janeiro, participação na Revista Artepoesia que circula semanalmente em Salvador a qual tem como objetivo espalhar a poesia, Antologia O Melhor de Poesias Encantadas onde foi congratulada como poetisa em destaque recebendo sua primeira medalha e Certificado como escritora baiana...autora de vários contos e fabulas publicados em sites português os quais foi homenageada com Honras ao Mérito e Distinção Honrosa. Administradora de grupos poética brasileira e portuguesa, Atualmente preparando seu livro infantil o qual logo estará ao alcance de todas as crianças e adultos. Membro da ALB- Academia de Letras Brasileira de Araraquara SP.
Na inquietude em que vivo dificilmente vou serenar, pois me tornei escrava das palavras, Onde a minha poesia alçou voos longínquos aonde não imaginaria alcançar.
Irá Rodrigues




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