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  1. AFONSO TEIXEIRA FILHO, USP, BRASIL, AICL

TEMA 2.1. A POESIA EXCÊNTRICA DE AUGUSTO DOS ANJOS AFONSO TEIXEIRA FILHO – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

A poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914) talvez seja a mais exótica que há em língua portuguesa.


É uma poesia de fundo filosófico, fortemente influenciada pelo pessimismo de Schopenhauer e das filosofias materialistas de Herbert Spenser e Ernst Haeckel.
A terminologia médica, biológica, filosófica e da História Natural preenche os sonetos exóticos desse poeta nordestino, nascido no meio agreste da paisagem brasileira. Em sua poesia, encontramos versos como:
Tome, Dr., esta tesoura e.… corte \ Minha singularíssima pessoa”;

Podre meu pai! A morte o olhar lhe vidra”;

E a marcha das moléculas regulam \ Com a invariabilidade da clepsidra!”;

De que matéria bruta \ Vem essa luz que sobre as nebulosas \ cai de incógnitas criptas misteriosas \ Como as estalactites de uma gruta”.


A poesia de Augusto dos Anjos não pode ser colocada em nenhuma escola literária. Alguns críticos veem nela forte influência parnasiana; outros, uma poesia de cunho simbolista; no entanto, os manuais de literatura a colocam numa classe artificial denominada Pré-Modernismo.
No entanto, o Pré-Modernismo não determina estilo nem escola, mas reúne num mesmo grupo autores muito distintos que nada têm em comum que o fato de serem produtos do início do século XX e antecessores do movimento modernista brasileiro iniciado pela Semana de Arte Moderna de 1922.
O pré-modernismo coloca lado a lado autores como Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, Graça Aranha e Lima Barreto, autores que só coincidem na contemporaneidade. Augusto dos Anjos é tão sui-generis quanto cada um desses autores. É, porém, muito mais exótico. Um autor sem par na poesia universal.


  1. Introdução

É difícil situar a pessoa e a poesia de Augusto dos Anjos no tempo e no espaço. A pessoa nasceu num engenho no interior da Paraíba, um local pobre do Nordeste brasileiro, fora de qualquer centro intelectual do país. Sua poesia, escrita nas duas primeiras décadas do século XX não se encaixam em nenhuma escola literária. Tem traços de simbolismo, de parnasianismo e prenúncios de vanguarda; mas não é nada disso.

O crítico Alceu Amoroso Lima denominou esse período de Pré-Modernismo, o que nada diz acerca do que é, mas sim acerca do que antecipa. Ali, colocam-se autores bastante distintos, como Euclides da Cunha, Graça Aranha, Monteiro Lobato, Raul Pompeia, Lima Barreto e Augusto dos Anjos. Nenhuma dessas literaturas pode ser colocada a par de qualquer uma das outras. Mas, dentre todas, a de Augusto dos Anjos é a mais excêntrica. Esse poeta procurou construir uma metafísica baseada na Biologia, caso único na literatura.


  1. A vida

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) nasceu no Engenho de Pau d’Arco, na Zona da Mata, no Estado da Paraíba. Formou-se em Direito no Recife e levou a vida como professor no Rio de Janeiro e como diretor de grupo escolar em Leopoldina, Minas Gerais. Ali morreu de pneumonia, provocada por uma tuberculose, aos 50 anos de idade. Os anos entre 1907 e 1912 foram os mais marcantes de sua vida. Em 1907, bacharelou-se em Direito, no Recife; em 1908 passou a lecionar no liceu paraibano onde estudara; em 1910 casou-se, e, em 1912, publicou o livro de poemas Eu, o único publicado em vida.

A formação intelectual de Augusto dos Anjos sofreu influência dos filósofos naturalistas do século XIX, sobretudo de Herbert Spencer e de Ernst Häckel. Foi também influenciado pela Bíblia e pela obra de Schopenhauer. O pessimismo promovido por Schopenhauer recebe, na poesia de Augusto dos Anjos, uma resposta advinda da Biologia. Era uma espécie de racionalização que procurava dar um conforto à vida diante da expectativa da morte. É isso o que observamos nos poemas que dedica à doença e à morte do pai.
Ao pai doente:

Para onde fores, Pai, para onde fores,

Irei também, trilhando as mesmas ruas...

Tu, para amenizar as dores tuas,

Eu, para amenizar as minhas dores!1
Ao pai morto:

Madrugada de Treze de janeiro.

Rezo, sonhando, o ofício da agonia.

Meu Pai nessa hora junto a mim morria

Sem um gemido, assim como um cordeiro!2
E um segundo poema sobre a morte do pai:

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.

Em seus lábios que os meus lábios osculam

Microrganismos fúnebres pululam

Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra

A uma só lei biológica vinculam,

E a marcha das moléculas regulam,

Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos

Roída toda de bichos, como os queijos

Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem

Entre as bocas necrófagas que o mordem

E a terra infecta que lhe cobre os rins!3
No primeiro poema, o poeta expressa o sofrimento do pai como mágoa: “Magoaram-te, meu Pai?!” Mas, quando a mágoa do pai e do filho se encontram, elas vão “crescendo e se fazendo horrores!” Quem teria magoado o pai? Foi Deus? o poeta se pergunta. Mas, ainda buscando uma esperança, afirma que não, pois “Deus não havia de magoar-te assim!” Aqui, ainda se vislumbra essa esperança, expressa numa última oração, num último alento. Mas o sofrimento do poeta é maior do que o sofrimento do pai doente. Por isso utiliza o termo “mágoa”, que além do pesar denota um sofrimento pequeno, uma manchinha, mácula, ressentimento. Num poema anterior, o poeta lembra de um episódio que talvez fosse o embrião dessa mácula, quando o pai cortou uma árvore de que o poeta, menino, muito gostava. A árvore como expressão da virilidade que despontava no menino e o machado do pai, como expressão de castração, poderiam explicar essa mágoa e, talvez, o sentimento de morte que transparece em toda a obra do poeta.
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!4
Por isso, vemos que a morte e o pai são obsessões do poeta. Quando vê uma procissão, escreve: “Nesse caixão, iam talvez as Musas, / Talvez meu Pai...”5 E, então, percebemos, que esse caixão acompanhará o poeta por toda a sua vida. E percebemos também que o pai é sempre escrito com inicial maiúscula, como se se tratasse de Deus. Então, percebemos que o pai é comparado a um cordeiro, no primeiro poema sobre a morte do pai. O cordeiro do sacrifício: vítima de Deus como o foi Cristo. É uma relação de pai e filho. Por fim, no segundo poema em que cantou a morte do pai, o poeta acomoda-se na explicação biológica, na inevitabilidade da morte das criaturas vivas. O pai é podre, seus lábios fermentam, os vermes lhe roem as mãos. Mas, no túmulo, vai apenas o pai, não vão as mágoas, não vai o medo, não vai a morte. Pois a decadência das moléculas ocorre com a invariabilidade da clepsidra, ou seja, com a determinação inflexível do tempo. Dessa maneira, define-se a poesia de Augusto dos Anjos. Provém do medo da morte e do medo da vida; da incerteza dos atos de Deus e da existência de um Deus. E acomoda-se numa explicação materialista da existência regulada por leis naturais implacáveis. Mas, com isso, o poeta cria uma metafísica; uma metafísica subordinada à physis.


  1. A Obra

A poesia de Augusto dos Anjos acaba por ser uma poesia barroca, quer no uso exótico do vocabulário, quer na ideia de uma realidade sombria espremida entra as incertezas que as ciências provocam ao tentar explicar o mundo e as incertezas provocadas por essas mesmas ciências a respeito do universo divino. O século XVI deparou-se com duas descobertas científicas que colocaram em dúvida o papel do homem e de Deus no universo. A invenção do microscópio revelou um microcosmo até então desconhecido; e as investigações de Copérnico e, mais tarde, de Galileu, serviram para reformular tudo aquilo que sabíamos sobre a nossa existência. A Bíblia estava errada. Para o conforto do homem restava apenas uma fé cega na religião. Mas a própria religião já vinha sendo contestada pelo protestantismo. Por outro lado, o racionalismo cartesiano só contribuiu para lançar mais dúvidas ainda sobre o papel da religião, ainda que fizesse uma tentativa pífia de acomodar Deus nesse novo universo, um universo que já não tinha mais Deus como artífice.


E o homem, ao professar uma nova fé, uma fé cega em Deus, como conforto para uma alma dilacerada, já não era capaz de deixar de lado a dúvida. Essa dúvida, que para Descartes era o germe da certeza, foi também o germe do barroco. Mais de duzentos anos depois, com as descobertas dos naturalistas, com o avanço da paleontologia, as teorias de Darwin, a exploração de novos mundos, a importância do homem no projeto divino foi-se reduzindo cada vez mais. O homem já não era mais o centro da criação; tampouco a primeira criatura. Era apenas um elo de uma cadeia evolutiva, cuja importância era a mesma dos macacos. Onde esse homem, essa criatura insignificante, poderia então buscar refúgio? Desaparecia a esperança de uma vida eterna para a alma humana. Deus estava morto.
Era preciso buscar o sentido da vida na própria vida. E isso, por mais humano que pudesse parecer, em vez de proporcionar ao homem coragem, fez dele um ser ensimesmado. E é esse ser que se pronuncia no livro de Augusto dos Anjos, Eu. Mais do que um livro de caderno de poema, Eu é um projeto filosófico. É uma tentativa de reconstrução da Metafísica num mundo dominado pela ciência. Um projeto como esse só poderia ter como resultado uma poesia amarga, pessimista, que refletisse uma existência incomodada, evidenciando que o homem, de alguma forma, encontrava-se num lugar errado no universo. É a existência fora da existência. E o único refúgio para isso, o céu, estava perdido. O resultado é sempre o conformismo. É difícil aceitar a existência do jeito que ela é, mas é impossível não a aceitar racionalmente. E a razão (a ideia) passa “por um feixe de moléculas nervosas”. Ainda que ela seja forjada na grandeza das nebulosas do espaço, haverá de terminar “no molambo6 da língua paralítica”.7 É sempre um conformismo que aparece depois de uma luta íntima entre a aceitação e a recusa. E é com o mesmo conformismo que o poeta dedica estes versos ao filho natimorto:
Agregado infeliz de sangue e cal,

Fruto rubro de carne agonizante,

Filho da grande força fecundante

De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal

Destruiu, com a sinergia de um gigante,

Em tua morfogênese de infante

A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,

Em que lugar irás passar a infância,

Tragicamente anônimo, a feder?...

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,

Panteisticamente dissolvido

Na noumenalidade do NÃO SER!
Se esses versos demonstram uma mistura de inconformismo e aceitação, de dúvida e certeza, estes outros já aceitam sem relutância a inexorabilidade da morte:
Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância...

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!8
E a sua filosofia não lhe dará resposta alguma. Precisará das ciências naturais para forjá-la.

Em vez do Deus metafísico, a mônada física de Ernest Häckel, a monera.
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto

Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...


O Inconsciente me assombra e eu nele rolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto...!

Ah! todos os fenômenos do solo

Parecem realizar de polo a polo

O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogéneo

Das ideias, percorro como um génio

Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;

E em tudo, igual a Goethe, reconheço

O império da substância universal!9
A poesia de Augusto dos Anjos é produto de uma era de incertezas. Foi o último suspiro do romantismo. No Brasil, um parnasianismo decadente convivia com a poesia simbolista. Esse mesmo convívio, que dava origem ao Modernismo hispano-americano e que teve sua máxima expressão em Rubén Dario, poderia ter produzido no Brasil um movimento de igual força. Mas grande parte dos simbolistas brasileiros eram epígonos do parnasianismo.
A elite intelectual e política que inaugurava a República brasileira só apreciava aquilo que vinha da Europa, sobretudo da França, e não prestou atenção a um grande poeta. Cruz e Souza, um negro de Desterro (hoje, Florianópolis), Santa Catarina, é quem inaugura o movimento simbolista no Brasil. Embora a grande qualidade poética de Cruz e Souza tenha atraído poetas para sua escola, não comoveu a elite intelectual, que não queria saber de negros e se embriagava nos versos alexandrinos dos sonetos parnasianos. Mas a poesia de Cruz e Souza permaneceu. O simbolismo nasce com ela e morre com ela. Um caso diferente é o de Augusto dos Anjos que foi muito mais do que simbolista e muito mais do que parnasiano.
Os críticos não souberam onde encaixar a literatura do poeta paraibano. Em virtude disso, Tristão de Ataíde10 inventa a categoria dos pré-modernos, autores que, de alguma forma, teriam antecipado o modernismo de 1922. E na mesma escola ficaram Euclides da Cunha11, Graça Aranha12, Raul Pompeia13, Lima Barreto14, Monteiro Lobato15 e Augusto dos Anjos. Todos distintos. E o mais distinto de todos era Augusto dos Anjos.
Augusto dos Anjos só publicou, em vida, um livro: Eu (1912). O estudo bibliográfico mais preciso sobre a obra desse poeta reúne os 56 poemas16 do Eu; 48 poemas coletados e divulgados por Órris Soares (1920), amigo e biógrafo do poeta; os 39 Poemas esquecidos, recolhidos por De Castro e Silva e divulgados em 1944 e 1954; 71 Poema dispersos, reunidos pelo autor do estudo, além de 15 textos em prosa.17 O traço mais inusitado, mais escandaloso da poesia de Augusto dos Anjos é o vocabulário. O poeta não hesita em fazer uso de termos polissilábicos, como noumenalidade, superabundância, paleontologia, teleológica, antropomorfismo, etc., e abusar dos superlativos: suficientíssima, singularíssima, inexorabilíssimos, etc. No entanto, o mais marcante no glossário de Augusto dos Anjos é a terminologia científica: hidrópicos, morfogênese, putrefação, etnicamente, malacopterígeos, necrófilos, dicotiledôneas. Palavras, que dispersas poderiam ser tomadas por expressão de mau gosto, fortalecem-se na combinação exótica e inusitada: “espasmo fisiológico da fome”,18 “encéfalo absconso que a constringe”,19 “obnóxia consciência em que tu dormes”,20 “teus antepassados vermiformes”,21 “minha sombra enorme enchia a ponte, / Como uma pele de rinoceronte / Estendida por toda a minha vida!”22
Esse vocabulário científico, se usado abundantemente na formulação de um poema longo, poderia resultar num pedantismo desmedido. Mas tal conclusão não resiste à prova empírica. No poema “As cismas do destino”, com 105 quartetos, expressões como “a pústula da peste”, “corpos inchados de anasarca”, “causa psicológica do nojo”, “hipótese genial do microzima”, “almas pigmeias”, e termos como blastodermas, hotentotes, aracnídeos, glândulas, uberdade, flamivomas, psicoplasma, etc., percorrem cada estrofe do poema. E, em nenhum momento, ficamos aborrecidos ou incomodados com isso. Tudo é surpreendente. E, no final, o que nos resta é uma profissão de fé filosófica.


  1. A filosofia de Augusto dos Anjos

Em “As cismas do destino”, o poeta apresenta suas ideias filosóficas. Não é um ensaio; tampouco um poema didático. É uma reflexão, mas não à maneira de Rousseau. É uma divagação na qual o pensamento voa, motivado pela impressão que o ambiente lhe causa, como em “O sentimento dum ocidental” de Cesário Verde, do qual é quase uma imitação. E, como no “Sentimento”, o ambiente é noturno. Mas, nas “Cismas”, temos um poeta que caminha em direção ao necrotério (a casa do Agra), espantado com sua “sombra magra”, que lhe faz lembrar que sofre de tuberculose. E, depois de tanto engolir a hemoptise, o fumo de um cigarro o obriga a escarrar.


Escarrar de um abismo n’outro abismo,

mandando ao Céu o fumo de um cigarro,

Há mais filosofia neste escarro

Do que em toda a moral do cristianismo!

E “Foi no horror dessa noute tão funérea / Que eu descobri... / A falta de unidade na matéria!”


Se a moral cristã se desfaz diante de um simples escarro, um escarro que prenuncia a morte do tísico, é porque o cristianismo já não dá conta de alentar o doente diante da inexorabilidade do destino. Mas o poeta encontra pela frente um antro de depravação, que ele traduz por meio de imagens como pudicícia, incestos e “embriões de mundos que não progrediram”. Ele está, provavelmente, num prostíbulo. E, ali, ele é impotente; sente-se como um cachorro:
Ser cachorro! Ganir incompreendidos

Verbos! Querer dizer-nos que não finge,

E a palavra embrulhar-se no laringe,

Escapando-se apenas em latidos!


Mas ele consegue enxergar, naqueles instintos animalescos, a evolução da raça humana — “daquele horrendo / Caos de corpos orgânicos disformes / Rebentariam cérebros enormes” — promovida pela revolta, “a revolta trágica dos tipos / Ontogênicos mais elementares”. E o poeta tem de perceber, na moral depravada dos prostíbulos, o que a vida é. Ali é celebrado o ritual da vida, por meio do acasalamento. E ali, também, é celebrado o ritual de morte, pelos abortos, pela bebida que provoca a impotência, pela depravação e pela privação. Então, o sentido da vida seria a morte?
Morte, ponto final da última cena,

Forma difusa da matéria imbele,

Minha filosofia te repele,

Meu raciocínio enorme te condena!


E, na tentativa de entender a vida sem aceitar a morte, o Destino dirá ao poeta: “Jamais, magro homem, saberás a causa / De todos os fenômenos alegres!” Pois o entendimento é um produtor de ilusões:
As radiantes elipses que as estrelas

Traçam, e ao espectador falsas se antolham

São verdades de luz que os homens olham

Sem poder, no entretanto, compreendê-las.


Porém,

Quando chegar depois a hora tranquila,

Tu serás arrastado, na carreira,

Como um cepo inconsciente de madeira

Na evolução orgânica da argila!
A morte estava ali a negar o mundo: “De todo aquele mundo / Restava um mecanismo moribundo / E uma teleologia sem princípios.”
Mas a terra me negava o equilíbrio...

Na natureza, uma mulher de luto

Cantava, espiando as árvores sem fruto,

A canção prostituta do ludíbrio.


E, com esses versos, termina o poema. E, então, percebemos que num longo solilóquio — no qual o Destino intervém como uma segunda voz evocada pelo próprio pensamento do poeta — não houve resposta para aquilo que o poeta cismava. Nada podia acalmar os seus temores.
A sentença de morte estava dada pela presença da tuberculose. O pensamento procurava entender o mundo como uma forma de aliviar no espírito a dor produzida pela doença. Mas o destino era implacável. O escarro trazia mais respostas do que a moral cristã. Não havia onde encontrar alento. Entretanto, a resposta final estava fora do poema, na vida do poeta. E foi a poesia a única que conseguiu dar alento àquela dor e àquela certeza que o fustigava. A filosofia de Augusto dos Anjos é sua própria poesia. Para Schopenhauer, a arte era a única coisa, nesta vida, que poderia dar alento às dores do mundo. Augusto dos Anjos questionou essa filosofia em seus poemas, mas acabou por curvar-se a ela. E soube realizar essa filosofia em sua vida de poeta.


  1. A crítica

Otto Maria Carpeaux, ao lado de Manuel Bandeira, talvez tenha sido o crítico literário mais sagaz e erudito que o Brasil já teve. E, com perspicácia, define, em poucas linhas o poeta Augusto dos Anjos.


Cesário Verde poderia ter sido o maior poeta do naturalismo. Se alguém se lhe compara, é um poeta brasileiro, que ele influenciou: Augusto dos Anjos, o poeta da “angústia absurda e tragicômica”, prejudicado pela forma parnasiana e mais gravemente prejudicado pelo mau gosto da “linguagem científica” dos meio-cultos que o provinciano adotou. Admitindo-se tudo isso, ainda resta mais do que um melancólico fúnebre, um pessimista furioso: o autor das Cismas do Destino e Último Credo é o poeta mais estranho e original da literatura brasileira.23
Manuel Bandeira, por vez, dirá que foi justamente essa linguagem de mau gosto que fez com que a poesia de Augusto dos Anjos permanecesse.
Muita gente houve a quem repugnava a terminologia científica abundante naqueles poemas de mistura com acentos pungentes de amarga tristeza. Mas foi certamente este último elemento que tornou apreciada a poesia de Augusto dos Anjos. E é curioso constatar que enquanto outros poetas de expressão mais acessível vão deixando de ser lidos, as edições do Eu se sucedem (é de 1963 a 29ª),24 donde se pode concluir que o público integrou o nome do grande poeta paraibano no patrimônio definitivo da lírica brasileira...25
Vale a pena registrar também a opinião de Nelson Werneck Sodré, um estudioso dos assuntos brasileiros, que escreveu uma história da literatura brasileira analisando seus fundamentos econômicos.
Apesar da barreira que se apresenta, muitas vezes, no uso de uma linguagem especializada, colhida nos compêndios e habilmente manipulada, há em Augusto dos Anjos uma realização que chega a ser perfeita em muitos casos e em alguns atinge ao nível de uma beleza indiscutível. (...) é um cantor exato e até minucioso da decadência de uma classe, a dos senhores de engenho, de que traça, em uns poucos versos, a magistral mortalha.26
Por fim, registramos que a fortuna crítica de Augusto dos Anjos é imensa, com centenas de obras dedicadas a ele, quer em livros (histórias da literatura ou livros totalmente dedicados à obra do poeta), quer em teses universitárias, ensaios publicados em revistas e jornais, prefácios e posfácios à sua obra, etc. Os estudos mais relevantes sobre a obra do poeta estão mencionados na Bibliografia que está no livro de Zenir Campos Reis, livro esse que, até hoje, é a coletânea mais completa dos poemas de Augusto dos Anjos e, até onde sabemos, a única edição crítica de todos esses poemas. É a grande obra de referência.


  1. Últimas palavras

A poesia de Augusto dos Anjos sobreviveu, e sobreviveu por aquilo que tinha de melhor, ou de pior, a linguagem. A crítica que se fez à linguagem científica é justa, mas não é precisa. A função de uma palavra no interior de um verso tem menos valor semântico do que valor musical. E ainda que “encéfalo absconso que a constringe” possa parecer um verso de mau gosto, é um verso dotado de grande poder musical e expressivo. Quando lemos um poema como “A ideia” —


De onde ela vem?! De que matéria bruta

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas do laringe,[1]

Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!27
— Encontramos nele aqueles termos estranhos a uma poesia: matéria bruta, nebulosa, criptas, psicogenética, etc. Mas todos esses elementos estranhos estão perfeitamente concatenados. Não são elementos estranhos, são elementos orgânicos. E a descrição da ideia é perfeita. Ela tem a enormidade do céu quando se forma em nosso cérebro, mas vai perdendo força e se torna quase nula ao ser verbalizada. É o mesmo que enuncia o poema “Inania verba” do parnasiano Olavo Bilac. É um poema magistral. Contudo, enquanto o poema de Augusto dos Anjos explica o processo, o de Bilac apenas constata.
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,

O que a boca não diz, o que a mão não escreve?

– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,

Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:

A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...

E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,

Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?

Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas

Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?

E as palavras de fé que nunca foram ditas?

E as confissões de amor que morrem na garganta?!28
Mas os poemas de Augusto dos Anjos nunca falam de amor.29 O poeta escreve para si próprio. É quase sempre um monólogo, um solilóquio. E mesmo quando é um diálogo, é um diálogo íntimo, dele com ele mesmo.30
Versos íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!31

E se ele não fala de amor é porque o amor, tampouco, serve de resposta para o sofrimento da vida. No amor, é engendrada a morte. Nenhuma resposta é encontrada, portanto, no amor. E assim como não há resposta no amor, não há resposta nos Céus. Toda essa busca se resume nisto:
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,

Somente achei moléculas de lama

E a mosca alegre da putrefação!32


  1. Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel (2009). Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosacnaif.

BOSI, Alfredo (1969). O pré-modernismo. São Paulo: Cultrix.

CANDIDO, Antonio (1969). Formação da Literatura Brasileira. Momentos decisivos. São Paulo: Livraria Martins.

CARPEAUX, Otto Maria (2010). História da literatura ocidental. Brasília: Senado Federal.

LIMA, Alceu Amoroso (1968). Introdução à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Agir.

REIS, Zenir Campos (1977). Augusto dos Anjos: Poesia e Prosa. São Paulo: Ática.

SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da (1965). Poesia simbolista. Antologia. São Paulo: Melhoramentos.



SODRÉ, Nelson Werneck (1976). História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.


1 “A meu Pai doente”, 1905. As datas que se seguem aos poemas indicam o ano da primeira publicação.

2 “A meu pai morto”, 1905.

3 Os três sonetos formam um poema só. Todos foram escritos em 1905.

4 “A árvore da serra”, 1905.

5 “O caixão fantástico”, 1909.

6 Farrapo.

7 “A ideia”, soneto, 1909.

8 “Psicologia de um vencido”, 1909.

9 “Agonia de um filósofo”, 1909.

10 Pseudônimo de Alceu Amoroso Lima.

11 Autor de Os sertões, uma análise sociológica, antropológica e geográfica da Guerra de Canudos. O autor, repórter do diário O Estado de S. Paulo, partiu de uma reportagem para escrever um épico fortemente influenciado pelo naturalismo. Sua linguagem é parnasiana.

12 Graça Aranha é autor de Canaã, livro que trata da imigração alemã no Espírito Santo. Possui também influências naturalistas.

13 Raul Pompeia escreveu, entre outras obras, o romance Ateneu, também de influências naturalistas.

14 Lima Barreto é um caso à parte. Autor do célebre Triste fim de Policarpo Quaresma, sua literatura já tem muitos traços do Modernismo.

15 Monteiro Lobato é autor de Urupês e de Ideias de Jeca Tatu. Apesar de ter sido crítico das novas estéticas que chegavam da Europa (Futurismo), sua obra já apresenta traços do Modernismo.

16 Considera os três sonetos dedicados à doença e morte do pai do poeta como um só poema.

17 Reis, 1977, p. 38.

18 “Monólogo de uma sombra”, 1912.

19 “A ideia”, 1909.

20 “Soneto”, 1911.

21 “Versos a um cão”, 1909.

22 “As cismas do destino”, 1908.

23 Carpeaux, 2010, p. 1949.

24 Reis enumera 31 edições até 1971. Hoje, o número de edições é incalculável; pode-se encontrar, nas livrarias, mais de vinte edições simultâneas, de várias editoras.

25 Bandeira, 2009, p. 143.

26 Sodré, 1976, p. 459.

27

28 Bilac, p. 141.

29 “Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! / O amor na Humanidade é uma mentira.” “Idealismo”, 1906.

30 Augusto dos Anjos tem um poema chamado “Versos de amor”, mas é uma crítica a um poeta erótico. Não são versos de amor.

31 1906.

32 “Idealização da humanidade futura”, 1909.




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