A vidente do templo



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A vidente do templo
Esta história passa-se no Vietname, no século XIX, e tem lugar no estuário do porto de Hoi An, ao sul de Hué, antiga cidade imperial. Um dos mais belos edifícios da cidade é o templo de Quan Công.

Quan Công é um herói lendário, personagem do célebre romance histórico chinês Os Três Reinos, escrito no século XIV. Foi um general famoso pela sua rectidão, lealdade e grandeza de alma. No Vietname, é frequente que figuras do passado se tornem objecto de culto. Os templos a elas dedicados são lugares onde se procura aconselhamento, apoio e paz interior. O culto dos antepassados é uma prática ainda muito corrente no Vietname. Na maioria das casas vietnamitas, existe um altar destinado a este ritual. O altar está frequentemente ornado de flores e de velas, e nele a família queima regularmente incenso.

Alguns pormenores desta história são tirados do meu passado familiar. A minha avó, que era vietnamita, não tomava nenhuma decisão importante sem primeiro consultar algum dos adivinhos e leitores de horóscopos que tinham assento nos corredores dos templos budistas. Os meus avós possuíam um corvo sábio. Um pássaro negro, vivaço e linguareiro, que era capaz de imitar os gargarejos do meu avô quando este fazia a sua higiene matinal. Num tom de voz metálico, a ave tagarela fazia: “Gluglu… Gluglu!”
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Na sala das lanternas, Flor de Água estava preocupada por causa de Glu-Glu. Há já algum tempo que o seu corvo não cantava e que não se divertia a imitar os gargarejos que Oceano, o seu pai, fazia ao lavar os dentes: “Gluglu, gluglu!” Também nunca mais tinha repetido expressões como “sopa de massinha” ou “estúpido sapo gordo”, que as pessoas costumavam pronunciar junto dele.

Certa manhã, quando a mãe de Flor de Água, Fio de Luar, se preparava para ir ao mercado, a filha disse:

— O nosso pássaro parece triste.

— Vamos levá-lo connosco — sugeriu a mãe. — Mostramo-lo ao Sr. Bô, o passarinheiro, e talvez ele nos possa ajudar.

— Avó, precisas de alguma coisa? — perguntou Flor de Água, antes de sair de casa.

— Não, obrigada! — respondeu a avó Ameixa. — Ou melhor, traz-me só um maço de pauzinhos de incenso para o altar dos antepassados.

— Pauzinhos de incenso? Está bem! — respondeu Flor de Água.

A avó disse, em seguida:

— Agora despacha-te, que os teus pais já estão à espera.

— Cuida do canário e do gato, avó! — recomendou Flor de Água, enquanto descia os degraus do átrio.

No mercado de Hoi An, havia uma vendedeira de doces. A sua especialidade era o “xôi”, ou pasta de arroz cozido a vapor, com coco ralado e açúcar. Também vendia nougat e marmelada de feijão. O aroma das guloseimas enchia a rua. Era impossível resistir-lhes!

— Pai, por favor, pode dar-me uma pasta de arroz? — pediu Flor de Água.

Mas Oceano parou em casa do seu amigo Dai, o barbeiro. Dai cortava cabelo e barba, mas, se lhe pedissem, também limpava orelhas, olhos, e até narizes!

O pescador Tân, um amigo da família, já estava instalado no banco do barbeiro.

— Então, Oceano, hoje vais passear o teu corvo? — exclamou, prazenteiro, o velho Tân Ton. — Será que Glu-Glu nos vai cantar uma serenata?

— Nem pensar! — replicou Oceano. — O Sr. Glu-Glu já não quer falar.

— Vamos levá-lo ao Sr. Bô, o passarinheiro! — explicou Flor de Água, enquanto segurava na gaiola que o pai lhe estendia.

No mercado, Fio de Luar parou diante da tenda de uma vendedeira de tecidos.

— Olha, minha filha, tenho de escolher aqui uns tecidos, porque precisas de roupa nova. Tens crescido muito e depressa.  Como vou demorar bastante tempo, podes ir brincar para a praça do templo. Mas tem cuidado, não te afastes!

Fique descansada, minha mãe — respondeu Flor de Água. — Vou levar o Glu-Glu comigo, não vá ele aborrecer-se aqui.

O templo de Quang Công ficava a dois passos. Ali, as crianças eram sempre bem-vindas, desde que não perturbassem o recolhimento do lugar. Flor de Água costumava ficar à beira do lago a ver os peixes chineses de grandes barbatanas rendilhadas. Desta vez, contudo, atravessou o pátio ensolarado do templo, sem mesmo lhes lançar um olhar, e dirigiu-se para a penumbra do altar dedicado ao general Quang Công.

Uma vez lá, a jovem inclinou-se profundamente diante da estátua de Quang Công. Revestido com uma armadura, o general de outrora continuava a ser uma figura imponente. O altar estava envolto numa espessa nuvem de incenso. Mas, fosse pelo incenso, que lhe fazia arder os olhos, fosse pela preocupação que sentia em relação ao seu companheiro mudo, as lágrimas deslizaram pelas faces de Flor de Água quando pronunciou esta súplica:

— Nobre herói, digna-te tomar o meu pobre corvo sob a tua protecção!

Ao sair do santuário, Flor de Água sentiu-se ofuscada pela luz do dia. Refugiou-se debaixo de um tejadilho e viu uma senhora que olhava para ela e lhe sorria.

Encorajada pelo seu ar simpático, Flor de Água perguntou-lhe:

— A senhora é a vidente do templo, não é?

— Acertaste. De facto, vejo o passado e interrogo o futuro.

— O meu corvo está doente. Já não quer cantar nem falar. É capaz de prever o futuro de Glu-Glu?

— Ele que escolha um destes pauzinhos! — convidou a vidente.

Cada pauzinho tinha escrito um algarismo.

— Mas eu não tenho quase nenhum dinheiro, minha senhora — disse, muito baixinho, Flor de Água.

— E quem te falou em dinheiro? — retorquiu a vidente.

Flor de Água tirou o pássaro da gaiola e Glu-Glu, sem se fazer rogado, agarrou, delicadamente, com o bico, um pauzinho de bambu já lustroso, devido a muitos anos de uso. A vidente leu o algarismo que figurava no pauzinho. Depois, abriu um livro de páginas escurecidas, já de muito folheadas.

— Este livro é o meu tesouro mais precioso. É o KIM VAN KIEV, o célebre poema do grande Nguyên — disse a mulher. — O pau escolhido pelo corvo corresponde a uma página deste livro e essa página contém um verso que nos vai elucidar sobre o futuro do teu amigo. Ora ouve:


Gélido lhe parece o seu quarto. Um coração suspira por outro coração.
Quando a mãe veio ter com ela, Flor de Água nada lhe disse sobre o que acontecera no templo. Em contrapartida, Fio de Luar contou-lhe como tinha passado a manhã.

— Encontrei um tecido de algodão azul para fazer umas túnicas novas para o teu pai, uns metros de linho cor de malva para o vestido da avó, e até um lindo corte de tecido de brocado vermelho para te fazer uma blusa! — disse, muito contente. — Estás satisfeita?

Flor de Água encolheu os ombros.

— Mãe, vamos agora ao passarinheiro! — insistiu.

— Julguei que ficasses contente, mas estou a ver que só pensas no Glu-Glu!

Fio de Luar e Flor de Água encontraram Oceano diante da tenda do Sr. Bô, onde havia aves de todas as espécies. Empoleirado no braço do passarinheiro, Glu-Glu, indiferente a tudo, deixava-se examinar.

— Não vejo que tenha alguma doença — declarou, por fim, o Sr. Bô, coçando a cabeça. — Esta ave parece estar de perfeita saúde.

— Mas, então, o que havemos de fazer? — perguntou Fio de Luar.

— Já sei! — exclamou Flor de Água. E pronunciou os versos declamados pela vidente: “Gélido lhe parece o seu quarto. Um coração suspira por outro coração.” Quase nem chegara a acabar a frase quando uma voz nasalada e metálica repetiu:

— Um outro coração! Um outro coração!

Olharam uns para os outros, estupefactos. Era Glu-Glu. O corvo tinha falado!

— Mas como é que não pensei nisso antes? — disse o passarinheiro, desatando a rir. — Esta rapariga é esperta!

E com Glu-Glu no braço, o passarinheiro parou diante da gaiola de uma linda fêmea corvo, de penas negras como azeviche. Imediatamente Glu-Glu se levantou, inchou o peito, e começou a fazer galanteios.

— Um outro coração! Um outro coração! — repetia ele.

E o casamento dos dois pássaros foi celebrado ali mesmo. A caminho de casa, Glu-Glu, chilreando, não parou de dar-se ares. Parecia estar a fazer galanteios à namorada. Esta, feliz, saltitava na gaiola, fazendo frufru com as asas.

— É preciso dar-lhe um nome — disse Oceano à filha.

— E se lhe chamássemos Fru-Fru? — sugeriu Flor de Água.

O nome foi aceite por todos.

De volta à sala das lanternas, foi grande a alegria do canário Nuvem e do gato Pérola, ao verem o amigo corvo assim reanimado.

— Espero que venham a ter crias, avó — disse Flor de Água, admirando o novo casal.

A Sr.ª Ameixa divertiu-se muito com esta observação e, virando-se para Flor de Água, disse:

— Já vi que não te esqueceste do meu incenso!


Marcelino Truong



La voyante du temple

Paris, Gautier-Languereau, 2005



(Tradução e adaptação)


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